quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Sabiás

 


O pequeno mico saltou de uma árvore para outra, da árvore para os ferros da grade, para outra árvore, e por fim, atravessou a rua, equilibrando-se sobre um fio que conectava dois postes elétricos, sem que fosse poupado um segundo sequer dos ataques de furiosos sabiás que lhe deram fortes e, certamente, dolorosas bicadas. A perseguição foi implacável, vários deles, por um bom tempo e longo percurso atacaram o pequeno primata, sem qualquer trégua ou piedade. Não sei o que fez o macaquinho para merecer tão contundente ataque e parece ter se safado, graças a uma inigualável habilidade em deslocar-se entre árvores, postes e muros. Talvez tenha importunado os pássaros marrons, de bicos finos e avantajados em seus ninhos, alimentando-se de seus ovos, ou ameaçando filhotes, isto não é possível saber. Hoje, tenho sabiás como vizinhos bem próximos, convivemos e trocamos olhares. Possuem um ninho enorme, vistoso, do qual, devem orgulhar seus arquitetos, sobre uma passagem por onde transito. Na maioria das vezes, quando me aproximo, voam em debandada, noutras, porém, posicionam-se bem à minha frente, como, se desta vez, enfim, fossem me impedir a passagem. Encaram-me fixamente, olhos bem abertos, sem piscar, como a medir-me dos pés a cabeça, e permanecem completamente imóveis, inertes, onde até as mais finas penas, resistem aos movimentos do vento. Neste momento, ponho-me a imaginar quantos metros a menos eu precisaria ter para, assim como o pequeno mico que fugia apavorado, ser, também eu, alvo das tão incisivas bicadas. O jeito é torcer para que a altura, peso e volume, de fato, inibam ações mais agressivas das aves guerreiras ou que sejam elas, assim como eu, adeptas das políticas das boas vizinhanças.

 

Marcos Vinicius.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Paisagem

 


Quando, após dobrar uma curva, deparei -me  com esta paisagem, não pensei duas vezes, saquei o telefone do bolso e, de imediato, tirei a fotografia. Assim que disparei o clique, de dentro do casebre, saiu um senhor, de chapéu de palha, chinelos remendados, uma indumentária esfarrapada e cara de poucos amigos. Encarou-me com o semblante duro, fechado, e com um olhar de pedra. Não respondeu aos meus insistentes cumprimentos, passou sem alterar a expressão, não olhou para trás e logo, desapareceu no caminho. Por um bom tempo, a imagem da fotografia fixou-se também em meus pensamentos e por várias vezes, coloquei-me a contemplá-la detalhadamente.  Mas afinal, o que encontrei de tão curioso e familiar nesta paisagem? Diante de tantos cenários e visões, por que  esta impressionou-me e apenas ela, inspirou-me a fotografia? Pensando no assunto, que agarrou-me aos calcanhares, descubro que, hoje, esta imagem é praticamente um retrato em metáfora de mim mesmo. Solitário no meio da paisagem, mantenho-me de pé, observando o tempo e os escombros que despencam pelo meu interior. O telhado mantém plenamente aberto o abrigo que as portas e as janelas há muito tempo trancaram. As cercas não guardam territórios e já não há proteção ou marcos de propriedade. Ao fundo, o lago vazio e o leito seco, são áreas de pastagens. A terra à frente é vermelha. O dia, porém, é luminoso e o ar é leve. As nuvens carregadas são promessas de chuva e vida, quem sabe um dia, a ponto de transbordar o lago. Por trás da fotografia, os pássaros fazem acrobacias no céu e enchem o mundo com o seu canto efusivo e arrebatador, as flores das redondezas são espetáculos de cores e exuberâncias. E é  por estas e outras, que insisto pelos bons dias e um sorriso breve, nestes lábios enrugados e quebradiços, do velho de semblante duro e olhos de pedra que sai, carrancudo, da paisagem que sou.

 

Marcos Vinicius.

Fotografia: Sumidouro, 22 de setembro de 2020.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Entre julho e setembro



Á saída da reunião ministerial, Damares, Paulo Guedes, o Conde Drácula, Frankstein, e a liderança do grupo, o boneco Chuky, anunciaram, em rápida coletiva, que, finalmente,  'foi resolvido o problema com o quilo do arroz, e não se fala mais nisto, pois o valioso produto, será a partir de agora, vendido, não mais no peso, mas aos grãos'. Além do que, arroz com feijão é coisa de comunista. Dos elevados platôs morais da terra plana, é lançado o novo prato do dia, do Brasil sem corrupção, do desgoverno Bozo e os irmãos metralha: o novo prato verde e amarelo, macarrão com feijão. Fartem-se, enquanto podem, daqui a pouco chamam o Dória para prescrever a ração. Hi-hó, hi-hó. (10 de setembro).

 

A foto do inominável, o único sem máscaras, em meio a várias autoridades e, mesmo os puxa-sacos de sempre, todos com suas máscaras brancas, devidamente colocadas, em pleno Sete de Setembro, faz-me ver que, além do atoleiro movediço em que nos metemos, acabamos de perder o terrível e cruel desafio que a história nos colocou, frente a frente, qual seja, uma imensa roleta-russa, onde, prontamente, apertamos o gatilho, no justo momento, em que ajusta-se à mira, a pesada bala de chumbo. O mito da independência, enfim, dobra-se à mitificação do absurdo, a uma autofagia pseudopatriótica e à infalível roleta-russa do capitão. Corre o Sete de Setembro de 2020. (07 de setembro).

 

A vitória da morte, pelas vias da política, faz-se tão decisiva, que sequer percebemos, quando desinventaram o luto. O país do mito é uma nação de zumbis, não pelos que já se foram, pois estes, jazem sepultos, mas por estes que fazem da morte, objeto de culto e veneração, vagam carregando as bandeiras da tirania e da tortura, ornados com correntes de ossos, profanando cadáveres e disseminando o ódio. Estes mesmos que, orgulhosos, aprenderam a fazer arminha com a mão, símbolo da conquista de uma cidadania ensandecida, em um país em estado de putrefação, a louvar e eleger demônios e atirar nos próprios pés. O Brasil, sempre tão adormecido, acordou do sono profundo, como um gigante imbecil, que mete a testa ao espelho, pois prefere sangrar, a ver o quanto pode ser feio. (06 de setembro).

 

A covardia e a perversão caminham juntas, lado a lado. O desgoverno que temos, nas excrementíssimas  pessoas do execrável merdatário, e seus entes, doentes, mais próximos, é o retrato acabado, em altíssima resolução, da união de todas as sandices e maldades que a desnatureza humana pôde conceber. A esta altura do campeonato, quem ainda se põe a lamber deste esgoto, é tão mortífero como os piores dos vírus. São putrefatamente escrotos estes canalhas. (03 de agosto)

 

O mesmo primitivismo do pensamento, embotamento da razão, que, por ter fora de seu campo de visão, as curvaturas da Terra, proclama que ela é plana, empunha a bandeira do há que se ver para crer, como das mais confiáveis e preciosas. Diante de um agente patológico mortífero e invisível, que impõe cuidados, consigo mesmo e com os outros, teremos que fazer as contas, a verificar qual vetor apresenta maior letalidade, o vírus, por si só, ou o fundamentalismo da ignorância, a negação plena da sapiência que, a duras penas, nossos mais remotos ancestrais nos deixaram como legado, para que sobrevivéssemos como espécie. Estaremos  à altura de tamanho empreendimento e desafio? (24 de julho).


Marcos Vinícius.


terça-feira, 21 de julho de 2020

Formigas



Não há quem não se admire com a incrível capacidade das formigas em carregar, em seus minúsculos e quase invisíveis tentáculos, pesos mais de cem vezes maiores que o seu. Percorrem longas distâncias transportando, enfileiradas, paus, folhas, insetos, o que quer que possa ser-lhes útil e servir de alimento nas profundezas subterrâneas dos enormes formigueiros. Observando o fluxo intenso de caminhões pesados pela rodovia, me lembrei delas. Nas enormes carrocerias destas máquinas de ferro e aço, transportamos pesos, também, infinitamente maiores que os nossos próprios, em escalas e proporções, maiores mesmos, que os das pequeninas formigas, principalmente, se levamos em conta, os imensos aviões e navios de carga, que atravessam o mundo de uma ponta a outra, se é que tem pontas o mundo. E há mesmo quem diga, que bastaria uma alavanca e um ponto de apoio, para deslocá-lo de sua órbita. Diante disto, alguém poderia dizer, Ah, pois, então, veja como as superamos e realizamos proezas ainda maiores. Penso que não há engano maior. As pequenas o fazem com as forças próprias, sem recorrerem a motores ou ferramentas. Sim, nós carregamos a tal inteligência criadora que nos possibilita realizações que também impressionam. O que tem que se levar em conta, é que, a depender dos recursos, o empenho e o trabalho hercúleo das formigas, creio que, milhões de anos poderão se passar e o mundo permanecerá vivo e saudável, girando em sua órbita própria, em uma infinita sucessão de estações, já quanto a nós, o uso desenfreado da inteligência que nos permitiu carregar pesos incalculáveis, também poderá levar o planeta inteiro a um estado de devastação irreversível, onde sequer a vida das pequenas formigas será possível. Aí sucumbiremos todos, sob o peso das ilusões que jogamos sobre os ombros.

Marcos Vinicius.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Labaredas



Fazia um calor abrasador, as placas de ferro derretiam-se em fornalhas e labaredas. Era tudo de um vermelho intenso e avassalador, escaldante. Dos abismos enfumaçados exalava o fedor do enxofre.  Ainda o vermelho. De fogo e sangue. Por detrás das caldeiras fumegantes, a besta, entre grunhidos, solta um hálito quente e fétido. Distraída, mal percebe quando se aproxima a fera, montada em seu cavalo morto. Fera, você por aqui? Sim, besta, afinal, nos encontraríamos uma hora, não é assim? E o que faremos nós, ó demônio das terras chamuscadas, dos paraísos carbonizados? Ora, que pergunta. Só mesmo uma besta. O que fazemos de melhor? Não é a morte? Isto, façamos, pois, uma pestezinha, afinal, juntos, dezenas de milhares são nada. Ela deverá contar-se aos milhões. Feito. Eu crio o princípio letal, você faz as oferendas em carnes, ossos e vidas. Juntos, festejaremos sobre as covas dos homens. Very well? Taoquei, porra.


Marcos Vinícius.

domingo, 19 de julho de 2020

Na Venda Nova de 1916



A foto é um recorte do jornal O Movimento, do dia 13 de fevereiro de 1916.

Mais que justa a reivindicação dos habitantes de Venda Nova, afinal já corria o ano de 1916 e não faltavam promessas que a Cidade Jardim seria também, a Cidade do Futuro. Remédios não faltavam, para todas as dores e sofrimentos. Desde o Elixir do Nogueira, considerado um grande depurativo do sangue e encontrado em todas as Pharmacias, o Remédio Vegetariano de Orhmann, que prometia milagres contra a tuberculose e as doenças pulmonares, o Mororo, outro depurativo do sangue, voltado, principalmente, para a cura de cancros venéreos, a Canhyra, contra as moléstias do figado e as doencas do aparelho digestivo, o Vegetalino, para os reumatismos, a Parentana, para os rins, o Phyllantus, para as cólicas uterinas, a Yerobina, contra acidez estomacal e os excessos de gases, além, de tonificar o intestino, o Yucaty, para a cura da gonorréia ao Elixir de Inhame Goulart, que prometia a cura das moléstias nos olhos, causadas pela sífilis. Muitos outros, certamente, sequer foram catalogados. Segundo o Jornal O Movimento, do dia 06 de fevereiro de 1916, uma jovem de Belo Horizonte teria sido curada pelo propagandeado Elixir de Inhame Goulart , como por um encanto. "Em Bello Horizonte, à rua Aymores, mora a menina Irene, curada de uma moléstia nos olhos. Irene foi tratada não só em Bello Horizonte como no Rio de Janeiro  e operada na Santa Casa desta última cidade sem o menor resultado. Segundo o pai, o incômodo começou a se manifestar há 6 anos mais ou menos com uma purgação e inflamação que lhe privava da vista e, desenganado, resolveu experimentar o Elixir de Inhame Goulart, vendo no fim de alguns dias, a moléstia desaparecer como por encanto e hoje frequenta o Collegio Santa Maria, em Bello Horizonte, completamente curada". Sobre o Elixir de Nogueira, o mesmo jornal, no mesmo dia, trouxe o seguinte  depoimento "Declaro que estando sofrendo há oito mezes de uma syphilis rebelde, tendo-me apparecido uma erupção rebelde por todo o corpo, rosto e mãos, usei de grande quantidade de remédios a conselho de diversos médicos, tudo em vão, nem sequer apresentava melhora. (após ler) diversas declarações sobre o Elixir de Nogueira, resolvi experimentá-lo, e só com dois vidros fiquei completamente são!"  Tudo isto era o que diziam os jornais daquele tempo. Resta, no entanto, saber se, de fato, foram assim, tão milagrosos tais medicamentos, como divulgava a imprensa e o mercado à época.  Seja lá como for, qualquer alívio da dor, será sempre melhor que remédio nenhum. De uma forma ou de outra, os que com estes elixires se remediaram, já não estão mais entre nós, para darem o seu testemunho. A reivindicação dos antigos moradores de Venda Nova já tem mais de cem anos. Felizmente, a medicina, de lá para cá, evoluiu de forma impressionante. Infelizmente, no entanto, os frutos e resultados desta evolução, no que diz respeito a exames, procedimentos e remédios, não são para todos. A maioria de nós, morre de enfermidades que o dinheiro, certamente, salvaria. Ainda há muito o que reivindicar. Por agora, mais de imediato,  já seria um bom sinal se, no mínimo, não nos negássemos a ouvir os conselhos e a sabedoria da ciência, usássemos máscaras, quando em público, e levássemos a sério a necessidade e urgência de algum distanciamento social em meio ao alastramento da pestilência. Ainda não temos a cura, nem remédios milagrosos. Pequenos gestos ou a ausência deles, podem significar a trágica escolha entre a vida ou a morte. Lamentável que ainda exista quem a isto resiste na Belo Horizonte de 2020.

Marcos Vinicius.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Belmiro e Targino




Era uma terça-feira, onze e meia da manhã. Belmiro, sob o sol luminoso e frio de julho, mantinha-se sentado sobre a rocha escura que há anos, a se perder de vista e da memória, elegera como a morada fundamental e dali não se mudava ou arredava pé, mesmo que o céu desabasse ou a terra rachasse ao meio. Tanto é, que nas poucas vezes que se levantava, para fazer o que sentado seria impossível, podia-se observar que o assento de pedra, praticamente, tornara-se um molde perfeito de suas nádegas magricelas. O que não se sabe, pois não há quem guarde lembrança, é se a pedra sempre fora assim e, talvez, por este motivo mesmo, ele a tenha escolhido, ou se por força do tempo, de tanto suportar aquele peso, havia adquirido a forma do homem. Isto, porém, já não importa. Ele mastigava um caule de capim entre os dentes, lançava cusparadas ao chão e observava duas formigas que carregavam folhas enormes, tão grandes, que ele nunca compreendia como podiam suportar tamanho peso. Belmiro gira alguns poucos graus na pedra, deslizando-se, muda a posição e o campo de visão, em qualquer uma que estivesse, ela lhe proporcionava conforto, e não havia mais pontas e ranhuras, que há muito tempo, deixaram de incomodá-lo. Não se recordava do que pode ter ocorrido com elas. Enfia a mão no bolso, puxa de dentro um relógio grande e dourado e confere as horas. Exato, onze horas e trinta minutos, não se deixavam enganar os ponteiros. Belmiro olha para o mato que havia em frente e diz, Em dois minutos, ele sai dali. Segura o relógio entre as mãos e fica observando o lento deslizar dos ponteiros e a brenha do mato que ainda não se mexia. Quando o ponteiro maior, completa a volta, marcando os exatos dois minutos que Belmiro previra, o mato se abre, e surge Targino. Com as roupas surradas, tão magro quanto o outro, de olhos esbugalhados, cabelos desgrenhados e um óculos quadrado, que lhe conferia uma expressão muito peculiar, grita, antes mesmo de se aproximar, Bom dia, Senhor Belmiro. Muito bom dia, Senhor Targino. Os dois encaram-se, olhos nos olhos, fixos, enquanto Targino vai se aproximando. Assim que para em frente a Belmiro, dá-lhe um sorriso amigável. Belmiro lança outra cusparada sobre o capim, joga fora a folha que mantinha nos dentes e indaga Targino, Ô seu Targino, venho pensando comigo, e de tanto pensar, depois destes anos todos, concluo que o senhor ficou louco. Louco? Mas louco por quê? Targino encara-o com assombro e sem compreender o amigo. Fecha os botões da camisa, ajeita o cinto das calças, apruma os óculos sobre o nariz, passa a mão sobre os cabelos, penteando-o com os dedos e aguarda a resposta de seu interlocutor. Sabe o que é? Fico imaginado como pode e, confesso, nunca ter visto caso igual. Toda terça-feira, as onze e trinta e dois da manhã, o senhor me surge daquele mato, aqui fica alguns poucos minutos, depois, novamente, se põe a andar, e só retorna na próxima terça-feira, por detrás da mesma moita, exatamente, no mesmo horário, e estas ocorrências, já se dão há décadas. Décadas, por que foi só o que vivemos, talvez, se ultrapassássemos os séculos e os milênios, cá estaria o senhor, repetindo, eternamente, o mesmo feito, o mesmo percurso e a mesma aparição. Diga-me, Senhor Targino, se isso não é coisa de louco. Ora, Senhor Belmiro, não tenho culpa do tempo que temos e as medidas que se lhe meteram, além do que, não fui eu quem me colocou sob os pés os caminhos que ando. Que posso eu fazer, se o percurso que é necessário percorrer apenas se completa neste tempo em que cabe a semana? Ora, sinceramente, Senhor Belmiro, que falta de respeito. E penso mesmo, já tinha estas dúvidas, mas agora sou também obrigado a confessá-las, pois entrou para o campo das certezas, louco é o senhor. Há anos passo por aqui, normalmente, em meu habitual caminho, e vejo-o prostrado nesta pedra, sem tirar a bunda do lugar. Passam anos, décadas e séculos e toda uma eternidade, se ela vier, e estará aí, plantado, sem rodar pelo mundo. Sabia que o mundo gira, senhor Belmiro? Não demora, esta pedra sai andando e fica o senhor, enraizado, fincado para sempre. Quem sabe, não acabe virando, o senhor mesmo, uma pedra bruta? Ora, tenha paciência. Que ultraje, senhor Targino, que ultraje. Como se atreve? Que sabe o senhor do mundo? Só porque fica a girar como peão? Diga-me que maravilhas encontra por aí, em seu percurso de sete dias. Ofegante como sempre o vejo, não creio que tenha tempo de parar e pensar ou refletir sobre a realidade do mundo e da vida. A contemplação é a fonte de toda a sabedoria, Senhor Targino. Ora, Senhor Belmiro, quantas idiotices. Quem disse ao Senhor e de onde tiraste tal autoridade para afirmar que para se contemplar o mundo há que estar estacionado? Contempla-se o mundo, andando, percorrendo-o.  O que vejo é que o senhor parece ter desistido dele. Cala a boca, seu desajustado. Não sabe do que fala. Daqui do meu campo de observação, tenho certezas sobre o que vejo. Conheço a fundo a flora e a fauna que me cercam. Já sou íntimo destas forças da natureza. Vê estas formigas? Já conheço os seus caminhos, suas tocas, suas preferências e a sua ordem e hierarquia. Vê aqueles pássaros? Já me habituei ao seu canto e voo. Conheço cada nota da sua cantoria e os galhos preferidos ao pouso. Vê estas gramíneas? Conheço todo o seu ciclo de vida. Quando brotam e quando secam. Vê estas árvores? Vejo-as crescer e conto os gomos e os anéis dos seus troncos. E sei que aquele mato, toda terça-feira, se abre, as onze e trinta e dois, onde sempre, sem falhar uma terça-feira, anos após ano, me aparece o Senhor, com estas loucuras de andarilho. Quer saber, Senhor Targino, vou é mandar prendê-lo. O Senhor é um perturbador da ordem das coisas. Ora, louco é o Senhor. E eu é que vou trancá-lo em uma cela. Sabe o que faz o mundo girar, Senhor Belmiro? São os passos das pessoas. Se todos prostrassem como o senhor aqui está, não haveria conhecimentos, ciência, não haveria histórias, geografias ou as matemáticas, não haveria as filosofias, não haveria a civilização, Senhor Belmiro. Não se constrói sobre o desconhecido. Sabe do universo das formigas depois que elas entram pelos buracos? Sabe para onde vão os pássaros depois de abandonar as árvores que vê? Pensa que os matos crescem todos da mesma maneira em diferentes lugares? Quem não anda pelo mundo, Senhor Belmiro, não apenas o ignora, como não permite que ele se mova. Ora, mas que afronta, Senhor Targino, sinceramente. Vou já resolver a questão. Belmiro enche os pulmões de ar e grita com toda a força que tinha, Louco, louco, Socorro, há um louco aqui. Targino, não pensa duas vezes. Põe-se também a gritar, fazendo coro com o amigo, Louco, louco, Socorro, há um louco aqui. Louco, louco. Em meio às histéricas gritarias, surge apressado, um agente das forças de segurança. Mas o que ocorre por aqui? Que gritarias são estas? Estão perturbando o sossego, se não pararem agora, meto os dois na cadeia. Os homens reduzem o tom, mas não cessam as acusações. Louco é você. É você. Não fosse a presença do segurança, certamente, sairiam aos tapas. O agente, observando a algazarra e ouvindo os argumentos de um e de outro, embaraça-se em resolver a pendenga. Os homens estavam tão excitados e eufóricos em sua discussão que o agente imaginou que ali, realmente, pudesse haver algum sinal de loucura. Decide, então, até porque ficara curioso em saber quem era o louco e quem tinha a razão, resolver a questão a sua maneira e grita, Calem-se. Calem-se ou os levo presos já. Os dois. Ele havia ouvido em algum lugar, apesar de não se lembrar onde, que louco que é louco rasga notas de cem. O policial tira a carteira do bolso, arranca de lá, duas notas de cem e as atira ao chão. Os homens entreolham-se, assustados e curiosos. O policial, confuso e com o suor escorrendo pela testa, sob o sol do meio dia, aguarda o resultado do teste. Belmiro pega a nota de cem e a enfia no bolso. Targino repete o gesto, com gosto. Olham um para o outro e passam a gritar a plenos pulmões. Socorro, socorro, há aqui um louco jogando dinheiro no chão. Socorro. Socorro.



Marcos Vinícius.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Baús



Coisa impressionante é o estudo da história.  Entendiado, nestes tempos de isolamento, venho vasculhando os seus velhos e os novos baús, na tentativa de conhecer um pouco mais sobre os primeiros tempos de Belo Horizonte. Antes, porém, fiz e refiz algumas leituras sobre o século XIX, este tumultuado e dinâmico século, onde Beagá foi concebida e, finalmente, inaugurada em 1897. Passei por alguns romances de Dostoiévski e sua São Petersburgo e, mesmo que, na distante Rússia, o século se abre diante de nós. Agora, releio o historiador inglês, Eric Hobsbawm, e sua Era do Capital, sobre a história do mundo, entre os anos 1848 e 1875. O complexo xadrez do cenário mundial, mais uma vez se mostra revelador e, detalhes que, a primeira vista, passam despercebidos, sempre se apresentam em uma segunda leitura. De volta a Belo Horizonte, a descoberta e o levantamento de um acervo fabuloso de fotografias antigas, traz a cidade, em seus primeiros tempos, para um diálogo inédito, com seus cenários de época, as vestimentas e os hábitos dos primeiros moradores, costumes esquecidos, avenidas sendo abertas e prédios levantados, os bondes que já não circulam, o verde que já foi devastado, os rios, hoje esgotos canalizados, que corriam limpos, fartos, e em cachoeiras. As imagens em preto e branco nos proporcionam um grande salto rumo ao passado. Como se não bastasse, encontro, pelo caminho,  um inesgotável arquivo de jornais do país inteiro, inclusive, de Minas e Belo Horizonte, referentes ao período. Aí foi que a aventura tornou-se, de vez, assombrosa e impactante. Milhares de vozes saltaram dali, rompendo o longo silêncio do tempo, ansiosas para contarem suas histórias há tanto tempo guardadas. Estou a ouví-las e é surpreendente, além do que, não há tédio que resista.

Marcos Vinicius.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Era uma vez



Por estes dias, dentro de casa, e sem muito com o que nos ocuparmos, começamos a inventar modas, pensar no que nunca havíamos imaginado, observarmos os cantos, sempre escondidos, das paredes do quarto, os quais, apesar de tão próximos, cotidianamente, nunca nos demos conta deles ou se fizeram tão presentes. O isolamento nos impele a percebermos os detalhes mais colados a nossa volta, os próximos ao toque e aos olhos e, também, nos permite trazermos, outra vez, à vida, lembranças, episódios e histórias do nosso passado, da nossa infância que, talvez, pouco nos recordaríamos em um dia comum, de correria, de falta de tempo, quem dirá, sentarmos a frente do notebook e registrá-las. Navegando por um grupo, em uma rede social, que me trouxe inúmeras imagens e recordações da terra e das ruas da minha infância, lugares por onde não percorro há décadas, um sentimento nostálgico apossou-se de mim. As imagens e as recordações vieram com uma força muito grande e, por alguns dias, fiz um mergulho nas memórias da minha meninice, como não imaginei que um dia pudesse fazer. O fato de ter me ausentado há muitos anos, uma vida inteira, de minha terra natal, sem visitas, passeios ou notícias, acabaram por tornar essas visões e imagens bastante impactantes. O efeito, provavelmente, não seria o mesmo, se estivesse a recordar uma infância distante, porém, em ruas e territórios que nunca se ausentaram. Pois aqui, não apenas o tempo tornou-se distante, mas também o local, o território das lembranças. Então, trata-se de uma distância e um reencontro duplo, com a terra que se diz natal e consigo mesmo, lá trás. As imagens que povoam a minha memória, de quando vivi por lá, são as imagens da minha infância, até aos dez anos de idade, afora, uma lembrança ou outra, mais rarefeita, porém, das poucas vezes em que lá estive, durante a minha adolescência, a passeio. Hoje, me recordei, especialmente, das brincadeiras de rua, que fazíamos na época, das quais, as minhas preferidas eram confeccionar e soltar pipas e papagaios, cheguei a confeccioná-los para vender, fazia papagaios lindos, de variados tamanhos e cores, alguns levavam a logomarca do bloco de carnaval que a família participava, noutros, procurava sempre alguma inovação, para, literalmente, dar asas a imaginação, e atrair alguma freguesia. Daí, os papagaios se transformavam em verdadeiras obras de arte, com rabiolas de tamanhos diversos, combinações inusitadas de cores, cheguei a fazer um papagaio gigante, nunca fizera um tão grande, alaranjado, lindo, que me foi cortado por uma linha de vidro, assim que atingiu as primeiras alturas. Outra brincadeira com a qual muito nos divertíamos, eram os carrinhos de rolimã, estes, apesar de achá-los o máximo, não dominava a técnica de sua produção, mesmo porque, não havia às mãos, as ferramentas e matérias primas, necessárias ao seu fabrico. Além do que, a rua em que morava, e onde os garotos, geralmente, maiores e mais velhos, se esbaldavam em alegrias e entusiasmos com os seus carrinhos, era uma rua bastante íngreme, o que tornava a experiência perigosa e arriscada para os mais novos e para os que não dominavam de todo, o manejo do pequeno automóvel de madeira. Mas assistir aos campeonatos que transformavam alguns condutores em verdadeiros heróis da vizinhança, já proporcionava uma diversão garantida e única. Também caçávamos vaga-lumes e, covardemente, os aprisionávamos em garrafas transparentes, que iluminavam nossas noites de curiosidades, espanto, sonhos e alegrias. Esculpíamos abóboras, com caras de monstros, e iluminávamos seu interior com velas, afixando-as nos barrancos das laterais da rua escura, para que a figura fantasmagórica assustasse os transeuntes mais desavisados. Por algumas vezes, pintei as galinhas brancas de granja das mais variadas cores, tornando o quintal de casa povoado de galináceas multicoloridas, e ainda hoje não sabemos ou dimensionamos o mal que a tinta impregnada em suas penas poderia lhes causar. Amarrei gato pelo pescoço para ver a altura dos pulos que davam, fiz castelos e cidades inteiras de areia, em um bairro em construção, guerras de mamonas e treinamos tiro ao alvo com tuchos de barro em lençóis brancos da vizinha, pendurados no varal, que sempre nos negava as frutas do seu quintal, causamos incêndio de médias proporções em um matagal, fazendo experiências com o fogo no mato seco, o que me rendeu um susto e um pânico tão grande, junto ao meu comparsa, que estávamos dispostos a ficarmos um ano inteiro escondidos debaixo da mesa, se fosse necessário. Um brinquedo inesquecível foi o telefone de lata e barbante. Amarrávamos duas pequenas latas nas pontas de um extenso barbante, que esticávamos de uma ponta a outra da rua e, ali, numa época em que não apenas ainda não existiam os telefones celulares, mas sequer os telefones fixos eram acessíveis a toda a gente. Na ocasião, era coisa de luxo, poucas eram as famílias que possuíam uma linha, que além de caríssima, às vezes, levava tempos intermináveis para que se realizasse uma instalação. Além do quê, era um luxo mantido sempre à distância da criançada. A primeira vez que ouvi a voz do colega através daquela lata de massa de tomate, após atravessar toda a extensão do barbante do tamanho de um quarteirão, fiquei tão impressionado e admirado, que por um bom tempo, aquilo tornou-se meu brinquedo favorito. Leitor voraz de revistas em quadrinhos, tinha um estoque de revistinhas que me permitia fazer um cineminha com caixa de sapato. Recortava a revista em tiras, emendava umas nas outras, geralmente, com o mesmo grude que fazíamos para colar os papagaios, atávamos as pontas das extensas tiras de quadrinhos em canetas sem carga e as acoplávamos as caixas de sapato que perfurávamos. Girávamos a caneta, os quadrinhos iam se sucedendo na tela de papelão e mesmo que a história não fizesse qualquer sentido, pois recortado o gibi, não havia como encaixar os quadrinhos em uma sequência lógica, a diversão era total e, por muito tempo, me dediquei a esta primitiva e inesquecível arte cinematográfica. As nossas infâncias localizam-se em um tempo histórico próprio, definido, e que, obviamente, não se repete. Não há infâncias semelhantes em tempos distintos, também no que diz respeito às brincadeiras. Por mais que resgatemos antigos jogos, brinquedos ou travessuras, o conjunto deles, que de certa forma, nos fez quem somos, só se vê em seu tempo próprio, não há repetições. Aquele conjunto, há muito tempo já se foi. Sequer as bolinhas de gude, que sempre me pareceram um brinquedo eterno, universal e insubstituível, nunca mais as vi rolarem nas mãos dos garotos de hoje. A propósito, fico imaginando, que adultos serão as crianças que perderam o caráter lúdico das brincadeiras que fizemos. Cortávamos papéis, confeccionávamos a cola com a farinha de trigo, criávamos os carretéis e fazíamos voar as pipas, serrávamos a madeira, fazíamos o veículo completo e nele, na velocidade dos rolimãs, nos esfolávamos no asfalto quente e no concreto das calçadas, inventávamos nossas parafernálias de recortes de quadrinhos, nossas telas de caixas de papelão, nossos telefones de barbante. Éramos pequenos, porém, mesmo nas mais corriqueiras das brincadeiras, também fomos gênios inventivos. Quanto às crianças de hoje, fico imaginando que, lá na frente, quando adultos, a pensarem em brincadeiras do passado, talvez não tenham em mente, outra coisa além das telas de seus luminosos smartphones. E grudados como estão em seus aparelhos a todo o momento, ininterruptamente, sem prestar atenção a qualquer coisa à volta, desconfio mesmo, que sequer se recordarão, não apenas de uma infância, propriamente dita, mas também das paisagens mais próximas, despercebidas, e dos caminhos por onde passaram, até os mais costumeiros. Tenho a impressão que muitos garotos que percorrem, em uma grande cidade, certa distancia, diariamente, por um ano, dentro de um carro ou ônibus e sempre grudados ao celular, caso algum dia, tenham que descer pelo meio do caminho, sequer saberão que rumo tomar, pois não tiveram tempo ou a disposição de observarem paisagens e caminhos. E o que é pior, o espírito da infância e a força criadora e redentora dos brinquedos e das brincadeiras de criança, parece, terem sido, tristemente sequestrados pelo jogo nefasto e perverso dos adultos, a que chamam de forças incontroláveis dos mercados. Neste jogo, praticamente, não há infância possível, entre os pobres, a expropriação total e a ausência de territórios livres para os seus corpos desbravadores e inventivos, nega-lhes o pleno exercício da infância, entre as elites, até mesmo seus filhos, perderam-na, pois a submissão completa ao mundo das mercadorias, por mais sofisticadas que estas sejam, os tolhem da ludicidade criativa e solidária de uma infância sem as amarras eletrônicas. Assim é o mundo. Pelo menos, brincamos, enquanto ainda era o tempo.

Marcos Vinícius.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Retrato


Há lugares que, mesmo que nunca mais coloquemos os pés, nunca desabitam de nós; povoam, para sempre, os recônditos das nossas memórias persistentes, o labirinto indecifrável das nossas fantasias perdidas e as sombras enfumaçadas e obscuras dos nossos sonhos esquecidos. Há paisagens que, enquanto houver memória, carregaremos por dentro, mesmo que as escondidas de nossa consciência, dos arquivos profundos do tempo, haverá o dia, em que nos reaparecerá, de súbito, para relembrar quem fomos e para que não percamos de vistas, mais que o passado, o que fizemos de nós.



Marcos Vinicius.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Ainda os fantasmas




A live do facínora, regada a copos de leite, adoção de outro símbolo da violência, monstruosidades e absurdos dos supremacistas brancos, à moda Ku Klux Klan, somada a nota de hoje do antijuiz e desministro Moro, sobre as intenções do chefe do Executivo em armar seus seguidores para uma guerra civil no país, encerra, pois, um ciclo, mais um capítulo, onde se levantam os últimos panos, a respeito de qualquer dúvida que ainda pudesse haver de que o fascista-mor vem seguindo, passo a passo, a cartilha hitlerista, no que diz respeito a ações e táticas, para a formação de seus rebanhos ensandecidos e sanguinários. A receita é forjada fora, advinda de poderosas organizações fortemente estruturadas em redes cibernéticas e canais militantes da extrema direita norte-americana, com o fermento das mágicas dos algoritmos, robôs e muito dinheiro, financiada por multibilionários que investem fortunas incalculáveis em sua estratégia genocida e tresloucada de controle do mundo. Hitler caiu apenas após lançar-se à guerra total, sem medir meios ou consequências, deixando atrás de si, um gigantesco e sinistro rastro de destruição e mortes. Até onde caberemos, aqui no Brasil do século XXI, neste modelito nazi, anacrônico, robótico, de rebanho e trevas, terraplanista, negacionista, anti-ciência, onde se juntam não só o lixo que nos é próprio, mas também, todo o esgoto da história?


Marcos Vinícius.

terça-feira, 5 de maio de 2020

O encontro




Era uma manhã de inverno, o dia estava nublado, o céu, cinzento, e um vento frio varria as pedras dos calçamentos, levantava a poeira do chão e fazia os queixos tremerem. A rua estava completamente deserta, era um domingo, as poucas lojas estavam fechadas, assim como as janelas dos apartamentos que havia ao redor. Dentro da taberna, as mesas estavam vazias e apenas um homem, com perfil angustiado, barbas grandes e calvo, permanecia sentado, estático e pensativo, acomodado na última mesa dos fundos. José Saramago, que entrara apenas para tomar um café, esconder-se do vento gelado e aquecer-se um pouco, assusta-se ao ver aquele homem. Poxa, não é que o conheço de algum lugar? Olha-o um pouco sem graça e tímido. O homem o ignora. De repente, uma luz parece se acender, Saramago espanta-se, dá um sobressalto, aproxima-se do homem e diz, Bom dia, Senhor Dostoiévski? Bom dia, Sim, mas quem é o senhor? Não o conheço, responde secamente, com ares de quem não estava muito disposto a render o assunto. Saramago se apresenta e ele apenas diz, Nunca ouvi falar. Saramago, intrigado e atônito, sem saber o que fazer, diante do espanto e da inusitada situação, pergunta, O senhor não imagina o quanto o conheço e admiro. A propósito, o que faz por aqui? F. Dostoiévski olha para ele, e por alguns instantes, mantem-se calado, em seguida, pega um livro que deixara sobre a mesa, abre-o, e inicia a leitura, “vinha evitando qualquer tipo de companhia nos últimos tempos. Agora, porém, alguma coisa o impelira de repente para o convívio humano. Alguma coisa de aparentemente novo se passava dentro dele, e ao mesmo tempo ele experimentava certa sede de gente. Estava tão cansado de todo aquele mês de melancolia consumidora e excitação obscura que queria passar ao menos um minuto respirando em outro mundo, fosse qual fosse, e era com satisfação que ia ficando na taberna, apesar de toda a sujeira.” Fecha o livro, volta-se para seu interlocutor e pergunta, Ouvi dizer que cegaram. O que lhes ocorreu? Saramago apressa-se em responder, “Por que foi que cegamos? Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão. Queres que te diga o que penso? Diz! Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo não veem”. Dostoiévski coloca as duas mãos sobre a mesa, olha fixamente para Saramago e diz, “O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.” Dostoiévski interrompe a fala, sem tirar os olhos de Saramago, leva a xícara até a boca, dá um trago, alisa a barba até as pontas inferiores e volta à carga, “Como passam rápido os anos! E a gente volta a perguntar a si mesmo: que fizestes de teus anos? Onde enterrastes o teu tempo? Viveste ao menos? Ou não?” Saramago, ainda sem conseguir conter a surpresa e o susto, toma o primeiro gole do café, sente o peito aquecer-se e diz, “Eu talvez tenha um senso fatalista da vida. Mesmo quando era jovem, eu me dizia que o que era para ser meu a mim viria. Eu não precisava de ir à busca, bastava estar atento. Se há alguma sabedoria na minha vida é de saber esperar. Tenho a impressão de que tive a melhor vida possível e porque não projetei nada e acabei por ter tudo.” Dostoiévski sorve o último trago que havia na xícara, levanta as mãos em direção ao céu e, em um tom mais alto, que havia dado a sua voz até então, exclama, “Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Afinal, não basta isso para encher a vida inteira de um homem?” Saramago dá outro trago no café, faz uma pausa na conversa, solta pelo canto da boca, um ligeiro sorriso de contentamento, e diz a Dostoiévski, “ponho-me a imaginar o que mais gostaria de fazer nesta altura da vida (sem ter que perder nada do que tenho, claro está), e simplesmente descubro que seria perfeito poder reunir em um só lugar, sem diferença de países, de raças, de credos e de línguas, todos quantos me lêem, e passar o resto dos meus dias a conversar com eles.” Trim-trim-trim, o despertador toca, vejo que acordo em meio a uma pandemia e o celular avisa que há recados, mensagens não lidas e uma nova publicação no grupo.

Marcos Vinicius.

( Os diálogos entre os dois são transcrições retiradas de suas obras e publicações e identificadas entre aspas) – Para o Grupo José Saramago.