sexta-feira, 29 de abril de 2011

O achado





O achado



Alice tamborilava seus dedos sobre a mesa, assim que terminou o último horário de aula antes do recreio. Assim que o sinal soou, as colegas correram para o pátio enquanto ela ficava ali ainda a pensar sobre o que o professor acabara de dizer. Naquele instante não possuía pressa. A mão avançou sobre o lápis, abriu uma folha branca no final do caderno, e pôs-se a arriscar alguns versos. Imediatamente seus dedos corriam ligeiros sobre o papel, e uma estrutura modelada de palavras, em grafite, tomava forma, enquanto Alice repetia-as em voz alta para si mesma, para que pudesse perceber melhor sua sonoridade. Ainda criança, os versos já lhe encantavam. Escreveu uma estrofe atrás da outra, e elas lhe saíam espontâneas, repentinas, com pressa de chegar, aparentemente já prontas dentro da autora, que mais não fazia, que registrá-las no papel. Lia outra vez, e gostava do que ouvia. Em poucos minutos, o texto ficara pronto. Arranca a folha do caderno, dobra-a e a enfia no bolso, não era para ficar ali exposta sobre a carteira à vista de algum colega mais curioso. Era uma aluna aplicada, gostava das aulas de literatura, ciências e geografia. Não apenas por terem ali os professores de sua preferência, mas porque eram as matérias que mais lhe traziam admiração. Gostava de ler os poetas e vibrava ao descobrir o quão grande era o mundo, com suas ilhas, continentes, rios, oceanos e estrelas, ah, como amava admirar as estrelas. Como outras garotas da sua idade, onde o brilho das cidades e metrópoles ainda não as embaçara de vez, e podiam sempre mirá-las, viam nelas sinais dos amores prometidos, das paixões que ainda desfrutariam e das fortunas que lhes proveriam o caminho. Nas aulas de ciências, maravilhava-se com a grande diversidade da vida, que se espalhava pelo mundo e pelos tempos afora. Vivia distante da cidade em um pequeno povoado, e via nas leituras, mesmo ainda em tenra idade, uma grande janela, para os lugares e épocas onde nunca pudera ir. Era sonhadora, generosa e tinha planos. Queria tornar-se uma grande cientista, não apenas para desvendar os grandes mistérios do universo, que os homens ainda não conseguiram decifrar, como usar seus conhecimentos para melhorar o mundo e salvar as pessoas. Era sincera em seus sentimentos e convicções e além do mais, achava-se apaixonada. Não era um sentimento que já havia experimentado, não naquela intensidade. Alguns garotos já lhe despertaram a atenção, achara-os bonitos e carismáticos, mas nada que lhe fizesse o coração saltar aos pulos, como diante dos olhos daquele rapaz. Era algo novo e as maçãs do rosto lhe coravam quando o via passar ou ele se aproximava. A soma de todas as sensações e vivências faziam de Alice uma garota feliz.




Já era tardezinha quando Alice desgruda-se de suas amigas após as aulas e segue para casa. Vai andando sozinha, e uma série de lembranças vem se descortinando à frente, as falas dos mestres, o namorico da amiga que senta ao lado, e as fofocas entre as colegas de sala já do lado de fora da escola. Vai sorrindo quando lembra-se mais uma vez do garoto e dos versos que levava no bolso. Senta-se sobre a raiz de uma árvore frondosa que se colocava ao caminho, e afoitamente, desdobra o papel que já segurava entre as mãos. Outra vez lê aqueles versos, primeiro silenciosamente, depois em voz alta para certificar-se de vez, da musicalidade do texto. Assim que termina a leitura da última estrofe, um pássaro enorme do peito azulado, pousa sobre um dos galhos da árvore e canta para ela. Apesar de viver já há um bom tempo naquela região, ainda não ouvira canto assim. Era um canto forte, alto, lindo, e a sensação que tivera era que cantava não apenas para si, mas para o planeta inteiro, e sentia que o pássaro lhe dera canção aos versos, como se a leitura do poema e a música daquela ave fossem uma coisa só. O peito se enchia de alegrias. Imaginava que onde quer que estivesse, ao ler novamente aquela última estrofe, aqueles sons lhe viriam à mente. O pássaro olha para Alice e passa a observá-la. Tem os olhos fixos, grandes. Em seguida, estica o pescoço, sacode-se, e estica suas duas compridas asas. Alice espanta-se e o pássaro põe-se a voar. Sobrevoa o local, quase em círculo e pousa novamente, agora em outra árvore, em frente, e continua a observá-la. Alice entrega-se outra vez aos seus pensamentos. O sol escondia-se atrás dos montes e uma sombra escura escorria sobre o povoado. A noite havia chegado. Quase prestes a se levantar, Alice pega do chão um galho seco, espalha com ele as folhas próximas de seus pés, e prepara-se para gravar ali uma idéia em palavras que lhe havia ocorrido, um último gesto, antes de abandonar o local. Fricciona o graveto ao chão e começa a arranhar as primeiras letras, eram letras bem desenhadas, e ali mais valia a beleza da caligrafia, do que o conteúdo que pretendia gravar, que se resumiam nas iniciais de seu nome e o nome do amado, o que não havia feito no pedaço de papel. Esta superfície de terra era mais apropriada para o feito, pois podia exagerar no tamanho dos caracteres, dar-lhes formas novas, e ao despedir-se dali, poderia apagá-los com os pés, para que não ficassem vestígios do amor-não declarado, uma vez que não tinha pretensões de tornar público os sinais de uma estimulante paixão ainda não correspondida. Após riscar as duas letras ao chão, amarra-as com um grande coração, envolto de folhas secas e torrões de terra. As letras são gravadas com força, com profundidade, Alice desejava que a Terra fosse testemunha do seu amor, a grande mãe, que não iria traí-la, nem zombar de seu sensível coração. Ao levantar-se, os últimos feixes de luz solar já haviam desaparecido por completo, e o desenho ofusca-se. Leva os pés sobre ele, para apagá-lo. Ao esfregar a terra com as pontas dos dedos, uma faísca luminosa, azulada, desponta sob suas sandálias. Teria a Terra ouvido seus apelos, seria uma resposta, a benção divina que consagraria aquele desejo? Alice fica eufórica. O mundo, provavelmente, conspirava a seu favor, e o manto do planeta havia se tornado cúmplice. Agacha-se para ver mais de perto, e o brilho intenso que vinha do chão, faz arder os seus olhos. Era um azul maravilhoso, uma coisa mágica, um pó fluorescente, que deixou Alice em êxtase. Apalpou-o, espalhou-o sobre os vestígios de suas iniciais que ainda não haviam se apagado, e se enche de esperanças. Que luz seria aquela? Põe-se de pé, e fica de boca aberta, observando, sem palavras, as duas iniciais que brilhavam no chão.





Após certificar-se que não havia ficado qualquer sinal de seus nomes, e nem das tortuosas linhas do coração, Alice volta a lhe esfregar os pés e observa que apenas a luz azul continuava a se desprender do solo. Resolve, então, mostrar a novidade para as amigas mais próximas, para que juntas, pudessem resolver o que fazer com aquilo, e quem sabe, poderiam também testar as possibilidades amorosas de cada uma delas, sugerindo que riscassem também seus nomes ao chão, para ver qual dos amores traria um brilho mais intenso, se é que todos eles contassem com a mesma sorte. Na idade que tinham, todas elas levavam a arder alguma paixão no peito. Corre até a casa, seus pais ainda não haviam chegado, toma um banho rápido, pega um pedaço de pão que havia sobre a mesa da cozinha, e posta-se diante do espelho. Estava mais bonita naquele dia. Fica alguns minutos a se contemplar. Tinha os olhos cheios. Olha-se de frente, vira-se, observa cada detalhe das formas. Retira os cabelos do rosto, enrola-o, contorce-o, e prende-o sobre a cabeça, tem o rosto totalmente descoberto. A conjunção dos olhos e a boca, mais o vermelho das faces, proporcionava-lhe uma beleza única. Solta novamente os cabelos, e ali se revela, a mulher quase pronta que nasceria dela, mas a meninice ainda não havia lhe deixado de vez.




Antes que os pais chegassem e colocassem algum impedimento à sua saída, corre em disparada para as casas das garotas, para mostrar-lhes a novidade. Em poucos minutos, reúne um pequeno grupo delas e leva-o até a árvore frondosa, sob a qual uma luz azulada que irradiava do chão quebrava a monotonia da noite, deixando em segundo plano o brilho das estrelas, no coração daquelas meninas. Ficaram todas admiradas com o que viam, e como ver só já não lhes bastasse, após rabiscarem seus nomes e os de seus pretendentes sobre o pó brilhante, escavam mais a terra, para arrancar-lhe mais luz. Estavam em festa, e brincavam. Jogavam o pó umas sobre as outras, esfregavam-se nele, era um encontro radiante. Sem qualquer explicação sobre a descoberta, as garotas começam a especular, sobre como a novidade poderia alterar os seus destinos. Uma delas dizia, Acho que mais que muito amadas, nos tornaremos belas princesas, pois quem sabe não encontramos uma fonte inesgotável de riquezas que possa lá valer mais que o ouro? Já até me vejo em castelos, com jóias de todas as cores e brilhos, e não haverá no mundo, mulheres mais cobiçadas que nós. Outra afirma, Ora, mesmo que não cheguemos a tanto, pelo menos, quem sabe, algum conforto poderemos proporcionar para as nossas famílias, pois uma coisa é certa, de alguma preciosidade se trata.Nunca vi tamanho brilho irradiando em farelos. A menor delas, que ouvia calada, desafia, Mesmo que não tenha valor algum esta coisa, uma certeza podemos ter, se jogarmos este pó por sobre nossas casas, teremos, para reconhecimento internacional, a aldeia mais bonita do mundo. Acho que já não é pouco. As meninas riam da inocência manifesta da caçula. E ficam ali conversando, especulando, brincando, sonhando, com riquezas, amores, com o futuro promissor que teriam. Ali permanecem em transe, até que uma delas lembrava às outras, que há muito já havia passado a hora de irem para a casa, era tarde da noite. E seguem todas para seus lares, carregando consigo uma euforia indisfarçável e uma sombra azulada.




Em um vilarejo daquele tamanho, segredos desta natureza, não eram para ficar guardados por muito tempo. Indagados pelos parentes porque naquela noite haviam demorado tanto para chegar a casa, os filhos foram contando a história, que foi se propagando de família em família, até que um grupo de homens resolve ir conferir o caso contado pelas crianças. Que luz misteriosa seria aquela. Alguns vizinhos passam chamando uns aos outros para irem até o local. À medida que iam chegando, ficavam paralisados, boquiabertos com a luz azul radiante, aproximavam-se, apalpavam os grãos luminosos, e olhavam uns para os outros, para ver se alguém podia explicar melhor o que seria aquilo. Havia em quantidade suficiente para que todos pudessem apanhar um bocado para si. Houve quem juntasse pequenos montículos e os levassem para a casa, para que todos pudessem ver a luz misteriosa que acabara de chegar aos moradores da vila. Era o assunto em quase todas as casas. A notícia se espalhou muito rapidamente. Durante a madrugada, crianças e adultos brincavam com o pó na intimidade dos seus lares, quem sabe estivesse ali a redenção daquela gente, era o que muitos pensavam.




Na manhã seguinte, uma pequena multidão se aglomerou no local, todos queriam ver de perto a intrigante fonte luminosa. Os adultos e crianças disputavam à cotoveladas uma vaga mais próxima dos grãos azuis. Mas naquele horário, com o sol espraiando sobre o vale, os pequenos grãos haviam perdido sua luz e o desalento era geral. Teriam tido um sonho, um delírio coletivo, a substância fora roubada enquanto dormiam, ou a luz havia se recolhido apenas temporariamente em respeito a luminosidade absoluta do sol que tudo clareia? Deveriam aguardar então, a chegada da noite, para que pudessem certificar-se o que havia acontecido, se o sonho azul da noite passada haveria ou não de se repetir. Voltam todos a seus afazeres, e combinam retornarem juntos, quando o sol começasse a se esconder. Assim foi feito. Quando o dia vai a escurecer, e as primeiras nuances da noite, vem a assombrar-lhe o lume, a multidão outra vez de aglomera e ficam todos, atentos, atônitos, observando a luz que vai ficando a cada instante mais forte. Quando o véu da noite cobre o povoado, os seus moradores reúnem-se em torno da luz que lhes chegara, acreditavam, das profundezas da Terra. Todos queriam saber de Alice como fora a descoberta.




De início, a garota gostava de relatar o caso, contar sua história, omitindo claro, os amores secretos, os corações e os nomes, que haviam por fim, revelado aquele fenômeno. Dizia apenas que esfregava, aleatoriamente, o graveto ao chão, quando a luz se fez. Contava que já havia lido sobre os minérios e os metais, mas que não conhecia imagem que pudesse se associar àquilo que viam. Todos queriam saber diretamente da garota, ouvi-la, como teria chegada àquelas pedras mágicas, iluminadas. Por fim, como eram muitas as pessoas que se aproximavam, todos fazendo as mesmas perguntas, com a mesma insistência, Alice começou a se cansar. Naquele dia, relatou o mesmo caso inúmeras vezes, e certo esmorecimento já se esboçava em seu rosto fadigado. A euforia da noite passada já lhe perturbara o sono e esta noite não seria diferente.




Os homens, após muito observarem, tocarem, banharem-se naquele pó, começam a imaginar o que a sorte lhes proporcionaria dali para frente. Formavam um grande círculo em volta dos feixes azuis, onde debatiam suas expectativas e demandas, e sem que percebessem, o pássaro do dia anterior volta a pousar sobre a árvore, antes que o sol se escondesse de todo. Alice o vê assim que se aproxima, os demais estavam muito preocupados em suas conversações e não deram por ele. Ele, do alto, com o pescoço erguido, observava a todos, mas estacionava seus olhos nos olhos de Alice. Ela mirava-o, interrogativa. Percebendo que a noite havia fatalmente chegado, o pássaro levanta vôo, sem antes inclinar por duas vezes a cabeça para mirar melhor a garota. Desta vez, não houve versos, e o pássaro foi-se, silenciosamente. Em baixo, os homens não paravam de falar. Alguém teve que organizar os debates, pois todos queriam expor seu pontos de vista ao mesmo tempo. Havia ali uma grande ansiedade. Alice chateava-se ainda mais. Por instantes, arrependera-se de anunciar a descoberta. Antes tivesse guardado apenas para si, feito segredo, não teria passado por tanto interrogatório, nem causado tanta celeuma. Sabia, porém, que há segredos que não se guardam, principalmente quando se trata destes grandes mistérios que rodeiam a humanidade, onde não há como não compartilhar as dúvidas, curiosidades e anseios. Os raios azuis iluminavam aqueles rostos especulativos, enquanto emitiam suas mais variadas e díspares opiniões. O homem que agachava-se próximo à luz, levantava o pó nas mãos, deixava-o escorrer entre os dedos e dizia, Nós somos um povo de sorte. Iluminados. Este achado nos trará muita fortuna, penso que fomos eleitos. Muito não enriqueceram os homens, quando no passado descobriam o ouro? Muito nos enriqueceremos agora, com o ouro azul que brota por sob os nossos pés. Outro, empolgado, procura complementar o entusiasmo e a fala do homem, Sim, e como sabemos todos, fortuna trás também poder. Imaginem livrar-nos da condição de vila, e este pequeno povoado que somos, transformar-se em um grande Império, de onde poderíamos conquistar o mundo. Faríamos todos, parte de uma mesma elite imperial, e do quase nada que somos, tornaríamos celebridades, e as portas da história se escancarariam para nós. Não é nada mal. Duas mulheres levantam-se e dizem que deveriam ter alguma cautela, pois como consideravam valiosa a descoberta, poderia também de nada valer, era necessário relativizar as coisas, para que posteriormente não amargassem muita desilusão e frustrações. Não queriam ver depois os homens lamentarem por uma eternidade a enorme oportunidade perdida. Melhor talvez fosse chamar as autoridades para que estas sim, em contato quase direto com as coisas da ciência, pudessem entender melhor, tentar traduzir o que por ali se passava.




Na terceira noite, quando as autoridades, prefeitos e o governador chegam ao local, encontram o povoado inteiro, todos os seus moradores ao redor da luz misteriosa. Não conseguiam desgrudar dali. O Secretário das Finanças é o primeiro a abrir a falação. Diz alegrar-se com o espírito empreendedor daquela gente, e afirma que logo depois que a substância fosse identificada, tivesse início sua exploração e comércio, e os lucros começassem auferir aos cofres do governo e das grandes empresas, a população teria finalmente sua recompensa. O prefeito elogia a presteza daquele povo em informar-lhes da descoberta assim que esta é feita, e o governador promete mundos e fundos para aquela população agraciada que tivera a graça de receber o milagre à porta de suas casas. Uma mulher mais velha, com a pele enrugada e com grandes papas sob os olhos, agita freneticamente os braços e grita. Somos iluminados, os eleitos, os eleitos. Foi Deus. Foi Deus. Os homens entreolham-se, crédulos. O governador promete retornar o mais rápido possível, assim que estivesse concluído o laudo a partir das amostras que levariam. Antes de partir, porém, queria ouvir Alice. Esta encontrava-se abatida, os olhos estavam irritados, vermelhos, e a sensação de um cansaço incontrolável abatia-lhe o corpo. Alice fizera vômitos e não pode atendê-lo. Atrás do séquito das autoridades, ia aos tropeços, um bando de bajuladores, que disputavam espaço entre si, e rogavam para si, benefícios e piedades. A partir daquela noite, enquanto aguardavam o resultado da análise que era realizada pelos técnicos, a comunidade inteira reunia-se em torno do seu tesouro azulado. Alice não apareceria mais ali, adoecera irremediavelmente. Em três dias, a comunidade recebera o laudo encomendado pelo governo. Não eram boas as notícias. Haviam colocado a descoberto, o césio radioativo.






Marcos Vinícius.


segunda-feira, 11 de abril de 2011

A Organização


O ruído que ouvi ao transpor o grande portão metálico, acredito, estará para sempre em minha memória. É um som único. Uma grande chapa de ferro, um metal pálido e cinzento com grades espessas corria quase silenciosamente com suas roldanas pelos trilhos enterrados no concreto do chão. O barulho inolvidável faz-se quando é acionado o mecanismo que coloca a grande estrutura em movimento. Tanto as arrancadas quanto as paradas são bruscas, abruptas, quando é rompido o grande silêncio da serpente de ferro. Quando as duas barras centrais se encontram, e o portão, finalmente, se fecha, a sensação que dá é de termos sido engolidos. E é o que somos. Não há qualquer dispositivo que amorteça o encontro das placas do portão. O som é petrificante. Quando a trava se lacra, dispositivos eletrônicos são acionados, e um jogo de luzes, cores, sons e códigos, vêm nos revelar que estamos em território onde se investe alto nas chamadas tecnologias de segurança máxima. Uma grande parafernália tecnológica possibilita um confinamento total, a reclusão absoluta. Uma ampla sala de comando com telas coloridas, cadeiras giratórias e máquinas possantes, poderia nos fazer imaginar estarmos no melhor dos mundos, não fosse a ciência tão perversa com a humanidade que a criou. Ainda não sei ao certo por que nos era permitida ter a visão desta sala logo à entrada, que por sinal, não a veríamos mais. Talvez fosse um descuido da segurança, uma falha no sistema, ou quem sabe ao contrário, talvez quisessem mesmo nos fazer crer, que para nós, ali não haveria qualquer alternativa. Os novos deuses, a ciência, a técnica, o capital, as armas, estariam a seu favor e serviço. Isto não me custou ver. Assim que fui retirado do veículo blindado em que havia sido capturado, três ou quatro carrascos se aproximam de mim. Não eram destes carrascos que vemos de cabelo em pé,quando dos filmes de terror, mas carrascos que para uma grande parte de população mundial são vistas como heróis. Homens enormes, com braços e peitos de ferro, alguns com tatuagens, estilos descolados, com celulares e laptops, a fazer inveja a muitos galãs do cinema. Ficamos a imaginar se suas mães suspeitariam algum dia das atrocidades que seus filhos amados seriam levados a executar. Com um chute nas costas, de supetão, não pode ver quem me desferia este golpe, fui atirado ao cimento. Foi tão rápido que mal pude levar a mão ao rosto, cortei as pálpebras, e a testa sangrou embaçando os olhos. Na primeira tentativa de me levantar, uma bota pesada desferiu-me um golpe certeiro entre o queixo e o pescoço, desmontando todas as minhas defesas. Não pude tentar novamente.

A água fria, às vezes, faz mesmo milagres. Após dar-me por encharcado, um grande balde d água foi derramado sobre mim, consigo abrir os olhos. Vestia um macacão, peça única, que me cobria da cabeça aos pés. As pernas e as mãos estavam fortemente amarradas, o que limitava exageradamente os meus movimentos. Dois grandes soldados prenderam à corrente que atava meus pés, uma outra corrente, maior, mais comprida. Ali estava completamente subjugado. Os homens arrastaram-me e minhas costelas esfolavam ao chão. Minha única reação possível, um grito doloroso, foi violentamente reprimido por um bofetão que me quebrara dois pares de dentes. Em seguida, ganhei uma corda estrangulada à boca, que além de impedir qualquer tipo de comunicação, impossibilitava qualquer gritaria, que despertasse a ira dos meus algozes. Sorte ser curto o caminho entre o local em que fui amordaçado e a gaiola que estava à minha espera com sua goela aberta. Era meu primeiro dia, a carne sangrava, mas ainda não estaria desossado. A gaiola onde fui encerrado por longas horas, por mais de um dia, não possuía qualquer cobertura que pudesse proteger-me do calor do sol ou do frio da noite. Durante o dia, o macacão cozinhava-me, suava compulsivamente, e à noite, o frio endurecia meus nervos. Era apertadíssima a jaula e não havia como me esticar. Os poucos movimentos que conseguia ainda realizar eram fruto da necessidade extrema que o corpo tinha de mudar de posição para livrar-se de uma dor, e trocá-la por outra. As dores eram intensas. A boca estourada inchava a cada hora um pouco, os dentes arrancados quase à raiz eram um incômodo que tornava meu sofrimento ainda mais insuportável. As costas queimavam, e as escoriações deixadas pelas boas vindas da recepção eram como deitar-me em brasas. As jaulas foram projetadas de modo a mal caber meio indivíduo. Não há posição possível onde possa se descansar um pouco da posição anterior. As pernas têm que contorcer-se. O peso dos ombros, ora esmaga o braço direito, ora o esquerdo. Depois de alguns minutos dentro da coisa, o incômodo e a sensação de fatalidade impõem um sacrifício mórbido sobre o corpo e a alma. Para aliviar as pernas, sacrifica-se o pescoço, ao dar a este último algum descanso, é quando sofrem novamente as pernas ao se equilibrarem em um contorcionismo inédito, fatigante e doloroso. As cordas das mãos, apertadíssimas e secas, cortavam os punhos, como pequenas navalhas em fios, continuar a friccioná-las, talvez resultasse na dilaceração dos punhos. Estava completamente imobilizado.

Era um trapo quando fui retirado dali na segunda noite. Mal conseguia manter-me de pé. Os ombros enrijecidos e os pés esfolados davam-me um aspecto cambaleante. Sentia os ossos se desfazendo, vítima de uma implosão, um desmoronar de si mesmo. O sujeito desmontado. Como não há mal tão ruim que não possa ser piorado, juntam-se ao meu redor um grupo de homens fortemente armados, uniformizados. São grandes, robustos, e não trazem nas faces coradas qualquer sinal de piedade. Todos carregam pesadas armas de fogo, aparentemente desnecessárias diante da fragilidade do suposto inimigo. Bastaria uma única bala, um único golpe, em meia fração de segundo, para ter-me ao chão, perfurado e morto. Mas pouparam-me naquele instante, talvez quisessem algo mais que a minha insignificante vida. Fui levado para uma sala praticamente vazia e escura. Uma única lâmpada iluminava o ambiente. Colocaram-me debaixo dela, amarrado em uma cadeira, onde permaneceria completamente imóvel. Estava exposto, visível, iluminado, com o corpo aberto, esfolado, quem sabe olhavam-me por dentro. Não conseguia distinguir seus rostos, a luz sobre meus olhos e a frágil iluminação do local, permitia-me apenas enxergar seus vultos, que quase não se mexiam. Esforçava-me para entender o que poderia estar a ocorrer. Por longos instantes, não disseram palavra alguma, mantinham-se em silêncio. A ausência de palavras e a rigidez daqueles soldados, aliada a falta de visão que tinha do local, era uma ansiedade a mais, já à beira do pânico, por não conseguir prever até onde iria a perversão alheia. Dois deles seguem em minha direção. Agora sim, posso ver os seus olhos. Um calafrio súbito gela-me a garganta, e o estômago se contrai. Traziam o ódio. Estavam cada vez mais próximos, retiram dos cinturões sintéticos, duas afiadas navalhas, e postam-nas sob os meus olhos. Elas estavam ali, bem diante das minhas retinas e não me tocavam, estacionadas, mas uma dor profunda, invasiva, adiantava-se, cortando-me e perfurando-me. Arregalava-me em desespero. Quando duas lágrimas incontroláveis encharcam as pálpebras, sabe-se lá de onde vêm, pois sentia-me ressecado, os brutamontes abaixam as lâminas em um gesto lento, e cortam as barras da calça e a mangas compridas do camisão. O macacão fora estropiado e restavam-me apenas retalhos do que deixava-me a descoberto o tronco e as pernas. Fazia frio. Sob o sussurro de um deles, apontam as armas para mim. Seria o fim. Mas um deles aproxima-se dos meus ouvidos e grita: quer livrar-se do inferno, ó resto? Vou te dar a última chance para safar-se, vagabundo, do calvário que tens pela frente. Diga-me tudo o que sabes sobre a Organização. Talvez fosse o único a falar a minha língua, os outros, pelos poucos murmúrios que pude ouvir, eram-me completamente incompreensíveis. Um soluço repentino deu-me um nó na laringe e não me saia palavra alguma. Esbocei mais algumas tentativas, mas estavam todas presas dentro de mim. O esforço para dizer algo, sem o conseguir, minava um suor salgado que queimava ainda mais as feridas da boca. Os dentes quebrados doíam intensamente e talvez fosse mesmo impossível me comunicar com as criaturas. O homem insiste: Não queres mesmo salvar a alma, amaldiçoado? Pois vais conhecer o nosso purgatório. Outro homem se aproxima, este não falava minha língua, mas trazia entre as mãos, algo que lhe dispensava qualquer argumento ou razão, uma enorme furadeira, já ligada a uma tomada. Com muito sacrifício, procuro encher os pulmões, tento levar forças dos braços e do abdômen para o peito, de modo a romper a mudez. Respiro fundo, junto as poucas forças todas de uma só vez, e com um som rouco e falho, anuncio, Não sei da Organização. Os homens se irritam, apanham um capuz negro e tampam-me a cabeça. A furadeira é ligada. Podes agora escolher, ou diga o que sabes, e não terá outra chance, ou poderá dizer, por onde quer que se inicie o trabalho de perfuração. Aqui há divisão entre nós. Alguns defendem que se inicie pela língua, pois acreditam que o órgão em pânico, ponha-se a dar com os dentes, e não há o que não diga. Outros defendem que a broca comece por perfurar o crânio, quem sabe o que a língua não diz, possamos encontrar em sinais por algum canto do cérebro? A broca se aproxima dos ouvidos, sobe pelas orelhas e quase encosta-se no parietal. Uma mecha de cabelo, por sob o capuz, arranca-se ante o contato brusco e violento da ferramenta. Um estado de torpor, por alguns instantes, faz-me acreditar que não sentiria qualquer dor. Vêem-me imagens, ilusões, a amortecer-me a carne, nuvens invadem meus olhos e vejo-me vazando por completo. Por um imenso buraco que levo no topo do crânio, começo a escorrer, pedaços de carne, sangue, vísceras, restos, vai tudo saindo por ali, em meio ao amálgama de matéria orgânica e um mundo de palavras e pensamentos. Mas não, a broca ainda não começou a perfurar. Antes, realiza um passeio pelo meu corpo, parte a parte, como a fazer um lento trabalho de reconhecimento, verificar em que território melhor convinha iniciar as suas operações, talvez num ponto onde houvesse um osso mais proeminente, talvez nos tendões, nas mucosas, nas carnes mais musculosas ou nas mais sensíveis. E insistiam que eu falasse - eu poderia escolher. Eu insistia, não sabia da Organização. Eles não acreditavam no que eu dizia, mas desligaram a furadeira. Um silêncio absoluto absorveu-me por poucos segundos, era um silêncio eterno. O som da ferramenta ligada porém, mantinha-se vivo na memória dos meus ouvidos, perfurando-me o que poderia carregar como alma ou espírito. O ruído infernal cortava-me por dentro, antes que minha pele, meu lado exterior, pusesse a triturar-se. Pouparam-me.



A cada negativa que dava diante do interrogatório a que me submetiam, as faces dos homens enrijeciam-se, tornavam-se mais duras e cruéis, mas parecia não quererem me eliminar de vez. Por duas noites, sou privado do sono. Assim que desligam a furadeira elétrica, retiram-me da sala. Imaginei que retornaria para a jaula, mas sou levado em outra direção. Atravesso, amarrado, dois longos corredores. Dois soldados seguem à minha frente, dois seguram-me pelo braço, e dois outros fazem a retaguarda. Sobre uma viga de concreto no final de um dos corredores, um atirador de elite aponta-me uma arma que parece carregar o poder de fogo de uma guarnição inteira. Bem ao lado, rente ao piso, uma portinhola é aberta por um dos homens. Fui empurrado em direção à ela. Não permitiram que entrasse, fizeram questão de me socarem lá dentro. Era um cubículo frio, e muito se assemelhava a um buraco. Estava escuro e não conseguia ver exatamente onde havia sido enfiado, era bem mais apertado que a jaula. Virei-me, ajeitei um pouco as pernas, empurrei o corpo com as mãos nas paredes úmidas e conquistei um pouco mais de espaço. Agora conseguiria respirar melhor. As costas estavam um pouco flexionadas, foi a forma encontrada para que pudesse esticar um pouco mais as pernas e livrar-me das câimbras que me atacavam. Estava trancado ali. Um calafrio percorreu-me o corpo inteiro e passei a suar por todos os poros que trazia comigo. Apesar do frio, sentia-me derreter. Perguntava-me por quanto tempo conseguiria sobreviver naquelas condições. Uma luz é acesa sobre minha cabeça, mas não tenho como ver de onde vem, de que tipo de lâmpada ou fonte de iluminação se trata, mas clareia o local, e vejo-me em uma cápsula branca. Depois, uma outra luz, agora sob os meus pés se acende, movo um pouco minhas pernas, e desta vez, consigo ver de onde vem o foco. Era uma lampadazinha que brilhava ao fundo. A luz sobre minha cabeça apaga-se. Depois, a dos pés. A de cima volta a acender-se, e permanece acesa. O tempo para. Nada mais acontece. O silêncio é total. O som da furadeira vai aos poucos, silenciando-se em minha mente. Não ouço coisa alguma. Nada vejo, além da parede branca, ante a qual me espremo. Ao esticar um dos braços, e empurrar-me pela cápsula, consigo enxergar-me todo até os pés. Um pouco abaixo dos meus joelhos, inicia-se a curvatura das paredes, afunilando o compartimento. Permaneço ali um longo tempo, sem saber se poderia medi-lo em minutos ou horas. Perdera sua noção. Estava exausto e esperava apenas ser esmagado a qualquer momento. Vencido pelo cansaço extremo, pelas já longas horas de privação de sono e pelo silêncio aterrador do local, sem que coisa alguma ocorra, adormeço.




Um enorme estrondo sobre minha cabeça acorda-me bruscamente. Depois outro, como a certificar-se que seria impossível que permanecesse dormindo. Não imagino quanto tempo dormi, poderia ter sido um dia ou um século, não havia como discernir, mas seja lá como for, o sono havia limpado um pouco os olhos. Apenas a lâmpada sobre minha cabeça mantinha-se acesa. Ao virar o rosto e destampar um pouco os ouvidos, ouço um ruído distante, que lentamente, muito lentamente, vinha aproximando-se. Um ruído seco, arrastado, duro. Ao levar os olhos aos pés, vejo um grande número de insetos percorrendo as paredes em minha direção. Eram muitos os tipos, as formas, cores e tamanhos, onde a ciência já catalogou mais de 800 mil espécies diferentes. Era uma multidão deles. Nunca vira tantos juntos. O fundo da cápsula estava repleto, vinham cada vez mais, eram tantos que a estrutura parecia mover-se. Não era ela quem se movia, mas os bichos. Vão ficando cada vez mais próximos. Os que vinham à frente aproximavam-se já da altura dos meus quadris. A pele arrepia-se inteira, a epiderme reivindica para si todas as defesas remotas do organismo, que inicia a desarranjar-se. Sempre tivera certa ojeriza por eles. Já se aproximavam mais do meu campo de visão. Poderia agora ver mais de perto a variedade que se apresentava, uns peludos, outros mais finos, insetos escuros, esverdeados, com longas antenas, garras, asas miúdas, esticadas, uns mais secos, outros úmidos, alguns pequenos, muitos enormes, conhecidos, e aqueles que jamais havia visto. Um deles chamou-me particularmente a atenção, um besouro enorme, que mal caberia na palma da mão. Quando ficou bem próximo de minha boca ferida travou seus passos ante o meu olhar de pavor. Ficou a fitar-me. Eram inúmeros e não paravam de chegar, provavelmente, representando todas as classes que povoam o planeta, entre ortópteros, nevrípteros, arquipteros, tisanurus, hemípeteros, dípteros, lepidópteros, coleópteros, himenópteros. A luz de baixo se acende novamente e a de cima se apaga. Deixo de enxergá-los com a mesma nitidez. Ao contrário, são agora suas sombras, que me vem aos olhos, e eles ampliam-se, tornam-se fantasmagóricos. Alguns adquirem formas gigantescas, com antenas que atravessam a cápsula inteira. Após ocuparem as paredes do compartimento, iniciam a peregrinação pelo meu corpo. Sobem pelas pernas desnudas. Sinto-os sobre meus pelos, escalando-os. Outros, impossibilitados de manterem-se agarrados à superfície branca, dada a disputa por território entre eles, caem ou saltam sobre minha barriga, peito e ombros. Sinto cada uma de suas patas, percorrendo cada ponto de meu corpo paralisado. Imaginava que mexer-me poderia ser pior, pois os artrópodes, ameaçados, atacar-me-iam de vez, de forma fulminante e definitiva. Mantinha-me completamente inerte, evitava piscar, retesava os músculos e prendia a respiração, mas não adiantou de todo, pois começavam a me picar. Por instantes, apagaram as luzes, apenas sentia o milhão de insetos movendo-se sobre meu corpo tomado, dominado, e meu espírito, se é que ainda possuía algum, certamente lutava para livrar-se de vez daquele cárcere impiedoso em que havia se tornado as minhas carnes. A repugnância tornou-se onipotente. Jamais havia tido tanta vontade de desaparecer, largar àqueles bichos o meu cadáver, todo o meu acervo de sangue, ossos, gorduras, nervos, músculos e peles. A liberdade absoluta, sem mosca alguma a subjugar-me. Quando a massa escura e movediça cobre-me por completo, a voz de meu intérprete entre os monstros ecoa por toda a estrutura. E agora desgraçado? Vai ou não colaborar?

O terror havia me invadido por dentro. Sentia que seria devorado antes mesmo que pudesse esboçar qualquer tipo de resposta. Se pudesse, arrancar-me-ia a própria pele para safar-me daquele manto vivo que arrastava-se sobre mim. A voz berrava, Vai nos falar sobre tua Organização? Mudaste de idéia ó morto vivo? Sem revelar o que sabes, sairá das pestes e irá direto aos abutres. Não há outra saída, verás como a humilhação e o escárnio podem ir além do que imaginavas possuir um limite.Fale-nos sobre tua maldita Organização. Na verdade, naquelas circunstâncias falaria qualquer coisa para que os carrascos pudessem me tirar daquela condição. As baratas iam a cobrir-me o rosto. Eu falo. Eu falo, grasnava minha voz, que já não possuía forças para saltar à garganta. Imediatamente, a luz de fora penetra pelo buraco. A portinhola se abre e por uma corda ainda atada à minha cintura, arrastam-me para fora. Dois funcionários com um vassourão cada um, varrem para dentro de meu casulo empesteado, os insetos que me impregnavam a pele. As cerdas duras da vassouras expulsavam os bichos e abriam mais as escoriações que trazia no tronco e nos braços. Sou retirado deitado. Para livrar-me totalmente dos insetos, arrancaram-me os trapos que ainda levava comigo. Ficara completamente nu. Levantam-me em um solavanco e atiram-me à parede. Só aí vou perceber que além de um pequeno grupo de soldados, havia ainda quatro cães enormes que arregalaram seus olhos ao me verem saindo daquele buraco. Os homens deixam-nos à solta, e eles vem ao meu encontro. Os cães posicionam-se circundando todo o meu corpo, mantendo entre um e outro a mesma distância, alinhados em forma de cruz, sou farejado por todos os lados. Sobre suas bocas gigantes que mantinham-se constantemente abertas, focinhos molhados, investigativos, é que me fazem agora a varredura. A carne que servira aos insetos servia agora aos cães. Não te demora a falar, esbraveja o homem. Os cães estão famintos, e verás como podem comportar como lobos, quando fores reduzido ao pó, ao virares ração. Outra vez, uma dor aguda percorre-me por dentro, como se célula por célula houvesse sido afetada, como se um sem número de lanças cortassem-me em pedaços, uma dor paralisante, não consigo mover-me. Tenho todos os músculos tesos, duro como uma estátua, não fosse pela parede que me amparava, já há muito teria ido ao chão. As palavras traiam-me, não me faziam o serviço, afugentavam-se, corriam em direção às profundezas do meu ser e recusavam-se a proporcionar-me defesa. Os cães impacientam-se. Não sabia mesmo da Organização. Não sabia. Mas como fazê-los crer? Ali não havia leis, não havia argumentos, direitos ou tribunais. Ali havia apenas a força bruta, em seu estágio mais selvagem, como outra contradição e ironia da história, quando imaginávamo-nos gozar de um mundo sem peias. Enlouquecia. Não sabia da Organização.

Fui levado dali. Ainda não foi desta vez que faria o banquete dos cães. Saio pelo mesmo corredor em que havia entrado. Porém ao invés de seguir pelo setor que me levaria à jaula, sou levado por uma escada estreita em caracol, em direção oposta, que me leva a um ambiente muito próximo dos laboratórios e salas de cirurgia. As paredes eram altas e brancas. Diante de mim, surgiram duas grandes portas, ao lado de um painel ligado a vários dispositivos eletrônicos. Sou levado por quatro policiais a uma delas. Espantei-me ao adentrar o local, não sabia que tipo de experiência nova me aguardava. Era uma sala ampla, com duas macas de metal, um enorme armário repleto ampolas, frascos de medicamentos e uma mesa larga com vários instrumentos cirúrgicos, tesouras, pinças, bisturis, agulhas e alicates. Ocupando uma parede inteira, e uma parte do teto, havia um equipamento enorme, completamente desconhecido para mim, cheio de botões luminosos, teclas e fios, como um computador gigante, ligado a uma estrutura de metal que mais parecia um misto de aparelhos de raios-x e sofisticadas máquinas de tomografia. Uma das macas encontrava-se exatamente abaixo desta grande peça tecnológica. Estava ligada a ela por um volumoso emaranhado de cabos e fios. Logo que acabo de entrar, surgem dois homens, cujos trajes indicavam serem profissionais da medicina. Usavam roupas brancas, jalecos, aventais, toucas, óculos de proteção e máscaras. Dois soldados agarram-me e levam-me em direção à maca. Minhas pernas enrijecem, ficam duras, e uma força superior parece colar-me ao chão. Mas não resisto aos empurrões e solavancos, e em questão de segundos, estou sobre a lisa placa de metal, amarrado pelos braços e pernas. Estava ligado àquele aparelho. Um dos especialistas aciona alguns botões, ajusta o monitor de vídeo, e em seguida, liga-me a uma máscara nasal, conectada por um longo tubo. Sobre minha cabeça é colocada uma estrutura de vidro que lembra uma poderosa e sofisticada máquina de scanner. Estão todos a me observar. Soldados e médicos. Com métodos distintos servem aos mesmos propósitos. O mais alto dos homens, o responsável pela operação, recebe do segundo homem, seu auxiliar, uma injeção já pronta para ser aplicada. Não fazia idéia do tipo de medicamento que seria injetado em mim. Os dois seguram os meus braços, enfiam-me a agulha, e o remédio vai sendo transferido, rapidamente, para o meu sangue e nervos. Sou tomado de uma fraqueza total, faltam-me forças sequer para mover os pés ou as mãos. Apesar de conseguir pensar e estar consciente, não consigo respirar, a substância aplicada havia paralisado os músculos responsáveis pela minha respiração. Finalmente entendia a finalidade daquela máscara maldita, servia para manter-me vivo por respiração artificial. O scanner sobre minha cabeça era colocado em funcionamento. Uma luz azulada projetava-se para fora, e aí tinha a certeza, queriam radiografar os meus pensamentos. O técnico fixava seus olhos na tela, nos gráficos do monitor, para ver se decifrava meus segredos mais recônditos, minha alma acuada, em algum canto de meu cérebro devastado. Respirava pelo mesmo aparelho que procurava decifrar-me por dentro. O soldado, mais uma vez aproxima dos meus ouvidos e berra, Como é trapo? Estamos esgotando as nossas paciências, apesar de não esgotarmos nossos recursos, verás o que faremos contra tua humanidade. Verás o que é deixar de ser, ainda sendo, morrer permanecendo vivo, conhecerás o inferno que nem o Diabo conseguiu inventar, mas ainda poderá se redimir, ó pária da terra, se desvendar os segredos da tua Organização. Diga infeliz, O que sabes da Organização? Apesar de imóvel, a boca estava livre e conseguia falar. Não sei da Organização. A luz do scanner moveu-se sobre minha testa, alguns segundos se passaram, e o aparelho que me permitia respirar, fora desligado. Não respirava, definitivamente não respirava. Sufoco absoluto. Não me movia, também não respirava. Os pulmões põem-se prontos a explodir, o cérebro é tomado de um zumbido cada vez mais forte e opressor, a furadeira parece ter sido outra vez acionada e agora, vou estourar. Um longo e doloroso zumbido. Sinto o manto da morte a apertar-me o pescoço, estou estrangulado. Não me adianta abrir a boca, que o ar não vem, não há como respirá-lo. Iria me arrebentar. Estava morto. Não. O oxigênio me é devolvido. A máquina outra vez é ligada. Não conhecia nada mais aterrador que a sufocação. Não acreditava, mas ainda estava vivo, e ao retornar à vida, percebo que sou atentamente observado por todos. Os soldados que ocupavam a sala e os dois médicos que executavam a operação olhavam-me atentamente, curiosamente, cada qual à sua maneira, o primeiros, possuíam um olhar feroz de satisfação, por verem sua presa ser abatida, os segundos, um ar de júbilo, ao constatarem o quão inventiva pode ser sua ciência, que pode levar o homem ao limite da morte, e trazê-lo de volta. O pânico ante a possibilidade da sufocação total é enlouquecedor. Um segundo pode ser fatal. Não sei como conseguiram calcular tão sistematicamente, cientificamente, os meus precários limites. O botão foi acionado na hora exata. Um milésimo de segundo a mais talvez fosse suficiente para deixar-me definitivamente no outro mundo, e ele postou-se diante de mim. Os instantes da sufocação, da falta de ar, são um mergulho na eternidade da inexistência. Toquei-a, e reencarnei. Não havia ali um espelho, onde pudesse fitar-me, mas tinha noção da cara que tinha. Meus olhos estavam traumatizados, esbugalhados e duros, tinha medo de fechá-los, mantinha-os bem abertos, estatelados, era o estado de pânico, levado a seu mais alto grau, cientificamente dosado. Os dedos das mãos pareciam não ter percebido que retornaram ao mundo. Estavam enrijecidos, apontados para o nada, sem cor. A propósito, encontrava-me inteiro exageradamente pálido, o sangue escondia-se não se sabe onde. Imaginei que nunca mais fosse levantar daquela placa fria. O médico chega à beira da maca, segura-me pelos tornozelos, e em seguida, leva a mão sobre meu peito, a conferir minhas batidas cardíacas e ajeita-me a máscara. Afasta-se e dá um sinal para o outro, como a confirmar que havia sido bem sucedida a operação, e quase consigo antever, pela forma como manuseiam o equipamento e os fios, que preparam-se para repetir o procedimento. Pensava que desta vez não resistiria. Outra vez, posicionam o scanner sobre minha cabeça, repetiriam a leitura do meu cérebro, utilizando um sofisticado detector de mentiras, que de novo, me vasculharia a alma por ressonância magnética. A lembrança da sufocação paralisava-me novamente. O suor escorria frio e em grande quantidade, a maca ensopava. Não pude me contar, urinava pelas pernas. Neste instante, vem o soldado. Sempre em meus ouvidos. É tua última chance, besta. Fale o que sabe sobre a Organização, se mentires, a ciência saberá, se a luz da mentira piscar sobre teu cérebro, a luz do oxigênio não mais te aliviará. A morte é o fim dos que ousam não colaborar. Pelo menos aqui, a morte é rápida, fulminante, não te derramará em sangue, pior seria se junto aos cães, às navalhas, aos choques ou esfolamentos. É quase o benefício da morte súbita. Vamos aos fatos. O que sabe da Organização? Não sei da Organização, respondia. A luz do scanner por duas vezes clareia o meu rosto. A lembrança do suplício da sufocação estrangulava-me por dentro. Não sei da Organização. Outra vez o scanner se acendia. Os homens, médicos e soldados, olham para a tela. Os dois médicos discutem em linguagem técnica. Os soldados, ignorantes, procuram adivinhar o que se revelam naqueles gráficos coloridos e nos códigos das falas dos homens da ciência. Não desligam minha máscara de ar. Dão-me um medicamento e adormeço.




Dormi uma eternidade, não sei exatamente por quanto tempo, mas me surpreende terem me permitido tanto. Quando abro de vez os olhos, vejo-me em outro cômodo, livre da sala de horrores, onde adormeci. Era um local mais arejado, movimentado, onde além de soldados, reuniam-se funcionários, burocratas, e possivelmente executivos do negócio, do empreendimento. Uma funcionária, fortemente armada, serve-me uma sopa artificial, que sorvo de uma só vez, dado meu estado famélico e põe dois pesados comprimidos em minha boca. Dois homens de gravata e um grupo de soldados discutem o meu destino. Não entendia. Não era em minha língua que falavam. Mas pude compreender quando um deles se referiu a mim como a um engano. Devolveram-me as roupas que haviam me tomado na entrada e os documentos que trazia no bolso. Colocaram-me em um veículo militar, retiraram-me daquelas instalações, e sem qualquer palavra ou explicação, abandonaram-me em um movimentado cruzamento de ruas. Quando dei por mim, vivo e inteiro, após salvar-me, imaginei registrar esta memória, para que dela não se esqueça. Em seguida, outro propósito apenas me move. Quero a Organização.




Marcos Vinícius.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O Labirinto




O Labirinto



O nome realmente fazia por merecer. O lotação estava tão cheio, que difícil era entender porque o motorista ainda parava nos pontos. Certamente são os ossos do ofício, não se sabe os problemas que o condutor pode ter caso passe direto pelas paradas deixando um sem número de furiosos a praguejar. São os rituais, obrigações da profissão que não podem ser esquecidas, ou quem sabe, ainda, movido por uma sensibilidade moral ou um compromisso ético, de pelo menos provar aos que esperam, que de fato, não cabia mais ninguém ali dentro. Passar pelo corredor do veículo era um sacrifício e um desconforto tal, que só se justificava pela necessidade absoluta de uma hora ter que descer. Sorte é que desta vez vinha sentado, uma senhora que sentava-se justamente próxima de onde se contorcia de pé, levantara-se, e ele sem perder um instante, põe-se, confortavelmente, em seu lugar. Assim ia por já bastante tempo. O ônibus havia praticamente atravessado a cidade, cortado ruas, avenidas e bairros. Ele não estava na janela, mas a observava o tempo todo. Distraía-lhe mais as cenas rápidas que ia vendo do lado de fora, do que com as conversas e os olhares dos que com ele viajava. Observava distraidamente, apreciando o cenário urbano que desfilava sob seus olhos. Os pensamentos moviam-se quase ao ritmo do ônibus e ao compasso de seus sacolejos e curvas. Olhava, olhava, mas seu pensamento, porém, não conseguia fixar-se em ponto algum. Ao cruzar a grande avenida, que corta o centro da cidade, lembra-se que se aproximava o momento da descida. Iria enfim, abandonar aquele carro, livrar-se daqueles corpos apertados, que espremiam-se entre resmungos e sussurros, afagos e empurrões, em um apertado coletivo, onde talvez, os estranhos certamente, nunca ficaram tão próximos.



Levanta-se e com uma das mãos agarra a alça de metal que descia do teto, com a outra, segurava o encosto do banco da frente, preparando o corpo para a difícil travessia. Assim que aprumou-se, fez soar a campainha. Entrar naquele corredor era realmente a parte mais desagradável da viagem. Era praticamente impossível não incomodar alguém, os olhos dos que encontravam-se de pé, arregalavam-se entre a ira de ver mais um a apertar-lhes o corpo, e a cobiça diante da oportunidade de poder, enfim, apropriar-se de um assento. A revolta intensificava-se quando além de levar mais um empurrão e aperto, via outro mais rápido e ágil, roubar-lhe o lugar. Era ato contínuo nestas viagens dos lotações. Finalmente, infiltra-se, estica um braço daqui, levanta outro sobre as cabeças, dá um passo, suspira, toma fôlego, pede licença, dá outro passo, empurra, aperta, ajeita, rebola, avança, recua, arrisca, e enquanto o suor dava sinais, de querer escorrer pela testa, a porta de saída vinha aproximando-se. O desconforto era maior quanto menor fosse o número de passageiros a descer na mesma parada. Quando são muitos os que descem, um fluxo natural de corpos e almas se instala, e os viajantes vão sendo levados, quase naturalmente até a rua. Mas quando são poucos, a luta pela saída é dura e estende-se até a porta, quando se é praticamente empurrado para fora, ou insultado com palavras e cotoveladas.



Depois de muito esforço, pois atravessara quase meio ônibus, depara-se com a porta que bruscamente abre à sua frente. O motorista ainda segurava o pé ao freio. A sensação de desgrudar-se, livrar-se daquele emaranhado de corpos que se contorcem sob o calor da tarde, proporciona-lhe uma invejável sensação de alívio. As pernas e os ombros, libertos, podem agora movimentarem-se em paz. A saída fora tão rápida, que seria de se perguntar, se havia dada um salto, pulando os degraus, para libertar-se definitivamente do povaréu, ou se ao contrário, fora a tripulação estressada que o havia enxotado de vez, para que o aperto se aliviasse, e para que o condutor pudesse iniciar logo a viagem interrompida. O fato é que chegara à calçada um pouco atordoado. Sente-se um pouco zonzo, talvez pelo calor excessivo ou o ruído das ruas, e lembra-se de levar a mão à carteira para conferir o dinheiro e os documentos. Ao puxá-la do bolso, pequenos papéis com anotações de telefones e endereços, que se deixavam à mostra, são apanhados por uma furiosa corrente de vento, e rapidamente se misturavam aos outros papéis e lixos que esvoaçavam por sobre as cabeças. Um redemoinho de folhas, pó e papelões, que despenteava os transeuntes, levava aquelas informações para sempre. O documento de identidade que levara consigo, talvez devido ao peso do plástico, resistira a ação violenta do vento, mas mergulhara-se ao chão. Para azar de seu dono, esborrachava-se em cheio a uma poça que se formara na descontinuidade dos blocos da calçada. Imediatamente, refaz-se do mal estar, agacha-se, apanha o documento, e esfrega-o nas pernas das calças, para tentar recuperá-lo da água suja que quase o desintegrara. O estrago, porém, não fora pequeno. A foto estava intacta, não fora nem tocada pela água. Já os dados do portador, a identificação, os números e registros, escorriam pela ponta plástica, sujando seus dedos com gotas que corriam escuras e velozes. Faz um olhar de desolação. Levanta o documento à altura dos olhos e para sua surpresa, apenas seu primeiro nome ficara registrado. João. O resto do documento, além da fotografia, era um grande borrão. Havia desaparecido todos os dados, sua naturalidade, sobrenome, estado civil ou idade. Nenhum sinal que pudesse traduzir-se em identidade o cidadão. Apenas o primeiro nome, João. Mesmo sabendo que o registro não mais teria valor ou utilidade, pois apenas com uma foto e um nome, sem qualquer carimbo ou sequer outra letra legível, melhor talvez fosse atirá-lo ao lixo, mas por prudência não o fez, pois constatara que aquele era o único que carregara consigo.



Mesmo lamentando a perda de tão importante documento que lhe acompanhava há vários anos, ainda conseguia dar-se por satisfeito, pois o dinheiro que trazia na carteira estava intocável, três notas gordas, que poderiam proporcionar-lhe um dia inteiro sem muitas privações. Põe-se, então, a andar, e ao contrário do que fazia, quando estava dentro do ônibus, olhando para os lados, as lojas e vitrines, volta-se agora, obstinadamente para frente. E vai, quase silenciosamente, murmurando seu nome. João, João. Inexplicavelmente, uma força brusca, que parece desprender de seus músculos e nervos, trava seus passos. Mantem-se inerte no meio da calçada, com as pernas duras. Um pensamento repentino deixa-o totalmente paralisado. João. Mas João de que? Sabia da infinidade de Joões que tem por aí, um universo inteiro, mas que estrela seria a sua? João da Silva, João de Deus, João Aparecido, João das Almas, João Costa, João Penido, João da Cruz, João Alberto, João das Luzes, João das Trevas. Que João seria, afinal? Nenhuma resposta lhe vinda à mente. Um nada. Um buraco negro. Os borrões de sua prejudicada identidade. Forçava-se, procurava concentrar-se, evitava os olhares dos que por ele passavam, necessitava desesperadamente encontrar-se. Era simplesmente, unicamente João. Procura descontrair-se, sabe que não é o primeiro nem será o último a ter lapsos de memória, mas o incomodava profundamente a dimensão do esquecimento. Escapar-lhe o próprio nome. Arrancou o documento do bolso, em desespero, como se para confirmar que aquilo era mesmo real. Uma foto e um nome apenas. Um resto de tinta havia se acumulado no canto inferior do documento, quando as últimas gotas da água suja escorreram pelos panos do bolso. Quantas letras, números, guardariam aquela pequena porção? Quanto de João levará guardado aquela ponta úmida de papel e plástico? Mete novamente o documento na carteira, enfia-a no bolso e resolve seguir seu caminho. Uma hora lembraria.



Anda alguns metros, e em uma loja grande e espaçosa e com pouco movimento, depara-se com um grande espelho, uma parede inteira. Caminha apressadamente em sua direção. Posiciona-se diante dele, quer ver-se por inteiro. Seus olhos percorrem sua imagem refletida dos pés à cabeça, a imagem inteira, cada milímetro, as mãos, as roupas, o sapato, os cabelos, o rosto, tudo, muito rapidamente, procurando dimensionar-se, ir ao encontro de si. Não deixa escapar qualquer detalhe, sequer uma pequena mancha que levava próxima ao botão superior da camisa. Realizava um verdadeiro trabalho de reconhecimento. Leva as mãos ao rosto, tateia a boca, o nariz, as sobrancelhas, e os dedos percorrem lentamente os sulcos e pequenas fendas que iam se abrindo por sob a pequena bolsa que carregava seus olhos. Que idade teria? Outra vez vinha-lhe a mente a sombra da identidade. Que idade teria? Ainda não iria desesperar-se fatalmente, pois a observar bem, era algo que girava em torno dos cinqüenta anos. Não muito mais ou não muito menos. Mas a idade precisa, apesar dos esforços, não lhe vinha à lembrança. Os olhos buscavam na imagem um sinal, um dado qualquer, que pudesse transmitir-lhe qualquer informação a respeito de si mesmo. Não encontrava. Vestia-se sem grandes distinções, mas também não era um maltrapido, era um sujeito comum, que poderia ser encontrado em qualquer ambiente. Não havia um traço que o destacasse ou distinguisse, talvez pudesse mesmo ser um cidadão qualquer de qualquer grande centro do mundo. Cabelos bem penteados, a barba feita, estatura mediana, e peso aparentemente correspondente à altura. Mira seus olhos nos olhos da imagem, procura por dentro, investiga, mergulha, interroga e outra vez sem resposta. Volta à rua.



João retoma a caminhada. Anda por dois quarteirões, atravessando duas ruas estreitas, e chega a um grande cruzamento. Ali uma grande multidão se deslocava. Um ir e vir sem fim, entre um turbilhão de veículos e uma extensa rede de semáforos. Quando aproxima-se da esquina, da beira da calçada, onde a rua corta-se por todos os lados, retém-se, observa os letreiros que há no entorno, as placas, lê-as todas, reflete, observa os números dos ônibus e os caminhos que tomam, mas decididamente, não sabe para onde deslocar-se. O que exatamente faz ele ali naquele local, aquele horário, no meio daquele grande centro, entre milhares de pessoas que certamente sabem para onde vão? Observa atentamente vários dos que por eles passam, e tem a breve sensação que estão todos programados, com uma rota certa, um traçado pré-definido, caminham todos com passos firmes, parece que além dele próprio, ninguém ali tem dúvidas sobre o roteiro a seguir, o rumo a tomar, mesmo por que, a maioria tem pressa. Encosta-se em um poste e vê uma cena que chama sua atenção. De uma porta estreita, em cujas laterais havia duas placas divulgando preços promocionais de sucos e salgados, sai um homem completamente embriagado. Assim que transpõe a porta do pequeno e estreito bar, leva a mão aos olhos, o interior pouco iluminado do local, onde provavelmente permaneceu por um bom tempo, fez com que se desacostumasse com o excesso de luz. O rosto e a boca estavam um pouco inchados, a camisa desfeita, as pernas pareciam querer dar rasteira uma na outra, por pouco, uma ligeira cambaleada e um tropeço, quase o levam ao chão. O homem escora-se, leva as mãos na parede, e prossegue seu caminho. Seu andar era trôpego, mas sabia para onde ia, onde deveria chegar. João ficou a observá-lo até que desaparecesse de seu campo de visão. Aquela cena deixou-o ainda mais atordoado. Para onde iria ele?



Diante mais uma vez da falta de alternativas ou respostas, resolve sentar-se em uma lanchonete para tomar fôlego, e quem sabe, recobrar suas energias, livrar-se do mal estar, aí sim, lembraria novamente, não apenas para onde ir, mas também o seu nome, e quem de fato era. Senta-se, pede um café, um pão quente, e põe-se a comer. Ao pegar a xícara, detém atentamente os olhos sobre suas mãos, quem sabe ali não estaria um vestígio qualquer de sua identidade perdida. Um calo nos dedos, uma marca ou cicatriz, uma pequena mancha, sinais de algum ofício, algum trabalho, mas as mãos não lhe aliviavam a angústia, apressavam-se apenas em levar o café à boca. Sentia fome, a visão das guloseimas que se expunham nas vitrines dos balcões, abria-lhe o apetite, conhecia bem cada um daqueles salgados e doces, não tinha dúvidas quanto a interpretar o cardápio, ler as informações, placas ou letreiros que encontrava diante de si. Mas quanto à pessoa que era, nada ainda, nem um sinal, uma informação, uma pista ou indício. Não iria mais tentar prosseguir, desconhecia o destino, resolve, então, voltar para o ponto de origem, fazer o caminho de volta, retornar ao local de onde viera. Quem sabe assim, seu drama pudesse ser resolvido. Engole a última lasca de pão apressadamente, corre até o caixa para pagar o que deve, e saí com passos largos em direção ao ponto em que descera, que não estava muito distante dali. Em poucos minutos, encontrava-se exatamente naquele local onde desembarcara, a poça ainda estava lá, do mesmo jeito, ocupando o mesmo espaço e com a mesma quantidade de água. Agacha-se sobre ela, e consegue ver o vulto de seu rosto sobre o líquido amarelo, como a desafiá-lo. Um vento que se arrastava rente ao chão desenha ligeiras ondas naquela pequena poça que se alarga, sua imagem refletida amplia-se e parece rir da imagem real. João levanta-se de uma vez. Uma dor súbita atravessa-lhe o peito. Não sabia para onde voltar.



Estranha sensação. Sem saber o que é ou que fora. De onde veio e que rumo deverá tomar. Como faria agora para recuperar a si próprio? É comum que ao longo da vida percamos uma coisa ou outra, ou várias delas. Afinal, não temos como nos agarrar a tudo a que um dia possuímos. Sempre nos lembraremos de um inconveniente de uma chave perdida, um dinheiro qualquer, um amor, um guarda-chuvas, mas perdermos o que somos, é algo que talvez não ocorra lá com muita freqüência. Estava ali de pé, outra vez sem ter como locomover-se. O que faria a partir dali? Talvez nunca mais voltasse a ser quem era. Não recordava-se de um parente, amigo, um endereço, trabalho, onde mora, nada. Se a cidade fosse pequena, talvez, quem sabe, fosse encontrado por algum conhecido, aí lhe pediria ajuda, e este o levaria para casa, junto aos seus, se é que os tinha. E tudo voltaria ao normal. Mas em uma metrópole deste porte, as possibilidades eram mínimas. Quem sabe fosse alguém famoso ou popular, e em questão de horas, fosse logo identificado por algum fã ou simpatizante qualquer. Mas não parecia ser simples assim. O tempo passava, ele não encontrava ninguém, nem era encontrado, não achava um elo qualquer que o ligasse a sua história pessoal.



Compreendia o mundo que via, mas não sabia que vínculo agora possuía com ele. Nada havia mudado na história da humanidade, apenas na sua própria. Da primeira ainda entendia bem, mas da outra, já coisa alguma. As coisas ao redor, lhe faziam sentido, não era um alienado total. Podia andar pela cidade, entendia o que via, tinha a plena noção de como se organiza esta civilização, da qual tem plena consciência fazer parte, apenas não sabe como. Era estranho e desconhecido apenas de sim mesmo. Não havia muito o que fazer. Vai então perambular pela cidade, a esmo, quem a sabe a sorte, possa lhe restaurar a existência. Leva outra vez a mão ao bolso, retira a carteira, certifica-se que o dinheiro que levava poderia cobrir-lhe as necessidades por no máximo uns dois dias, e arranca, violentamente, o documento manchado. Lá estava novamente, uma foto, era a sua, não havia como negar. O espelho que mirara há pouco, acabava por confirmar. E um nome apenas. Agarra-se ao documento, como o doente em seus suspiros últimos quer agarrar-se à vida, com as forças e esperanças que ainda restam. Segura-o firmemente, observa-o, posiciona-o contra a luz, em perspectivas diferentes, mas a água escura havia feito a limpeza completa.Mesmo assim, não jogaria aquele documento fora por nada, era o fio fino que talvez pudesse conectá-lo ao mundo.



Era incrível, mal podia acreditar no que lhe acontecera. Vai andando pelas ruas, olhando para os outros homens e mulheres que cruzavam seu caminho. Esforçava-se por olhá-los um a um, mesmo sabendo da impossibilidade da ação, pois eram inúmeras as pessoas que povoavam aquele hipercentro, porém, era uma forma de manter viva a esperança de que em algum daqueles olhares, daqueles tipos, alguém que lhe fosse próximo, aparecesse em uma esquina, trazendo-lhe a solução. Não tinha dúvidas, que se casso se deparasse com alguém bem conhecido, do seu dia a dia, não lhe iria passar despercebido. Ele mesmo, pensa, o reconheceria de imediato. Afinal, o mundo e a cidade não lhe pareciam tão estranhos. Naquela parte mesmo da cidade em que se encontrava, sabia que já havia passado por ali, incontáveis vezes. O cenário à volta eram-lhe familiares, o que lhe infernizava mais a cada instante, era não saber como se encaixar nele. Que peça seria em meio a este gigantesco quebra-cabeça que tem diante de si? Teria sido a memória que fatalmente falhara ou o seu passado recente, a sua história toda que resolvera escapar-lhe de vez? Seria, pois, um renascimento, a vinda de outro super-homem, um milagre qualquer, ou o simples prenúncio de uma fatalidade, a morte anunciada, a eliminação completa e definitiva? A cidade cheia, movimentada, dinâmica, com suas várias multidões, gestos e apelos, naquele momento, não lhe faziam qualquer sentido. O mundo é real, palpável, vê todas suas cores e formas, mas que significado ele teria dentro dele? Em que medida seria ele parte integrante? As dúvidas se acumulavam. Talvez fosse um simples fantasma, proveniente de gerações passadas, e que aqui acabara de chegar, um extra-terrestre programado para o esquecimento, ou quem sabe ainda, um destes avatares modernos, criados pelos jovens em seus computadores possantes, e agora possíveis de serem soltos por aí? A cabeça já lhe pesava. Abatido por um forte mal estar e um tremor frio que lhe atravessa o corpo, resolve interromper a caminhada, e procurar um local onde pudesse sentar-se um pouco. Atravessa duas avenidas, com os olhos sempre atentos à multidão, e por fim, encontra uma pequena praça, com alguns poucos bancos, cercada por algumas árvores antigas e frondosas, que lhe renderiam uma boa sombra. Seria ali, onde descansaria um pouco, e recuperaria forças para retornar à vida normal.
Havia encontrado um banco em um ponto mais afastado da rua, debaixo de uma grande árvore, e considerava-se com relativa sorte, pois ali poderia refletir um pouco sobre sua nova condição sem que fosse incomodado. Senta-se, estica as pernas, e inclina a cabeça para o alto, observando os longos e sinuosos galhos que sacodem ao vento, o universo de folhas, os pássaros que vão e vem, o movimento da vida. Um tímido vento sopra-lhe ao pescoço e parece aliviar um pouco suas dores. Observa o céu por sobre as árvores. A noite não tardaria a chegar. Uma fresta de luz ilumina seus ombros. Os músculos descontraem-se e seus olhos se fecham.



Acorda repentinamente, assustado. Um solavanco brusco em seus pés, quase lhe arranca do banco. Ao abrir completamente os olhos, vê dois jovens garotos correndo em disparada. Levaram-lhe os sapatos. Era noite alta. Dormira demais e o sono pesado não lhe permitiu perceber a chegada dos garotos. Além de não haver recuperado o que de mais importante havia perdido, ainda perdera os sapatos. Leva a mão ao bolso, outro susto, a carteira havia sido roubada, estava sem dinheiro algum. Apenas o documento estropiado ainda se encontrava com ele, pois estava no bolso inacessível aos ladrões. Agora nem o pouco dinheiro que poderia ainda lhe garantir uma ou outra refeição, a sobrevivência por quem sabe um ou dois dias, tinha mais. Mais que o não-cidadão, os ser que não é, era agora também um despossuído. Um vento frio cortava-lhe os pés descalços e um calafrio agudo fazia tremer seu corpo inteiro. Inclina-se sob o banco, corre os olhos ao chão, para verificar se pelo menos uma nota, não deixaram os garotos para trás, diante fuga apressada. Inútil, nada mais conseguira localizar, além de papéis de bala, uma tampinha de refrigerante e dois tocos de cigarros.



Ao levantar a cabeça, desconsolado, vê dois policiais vindo em sua direção, eram enormes, tinham a farda bem passada, os braços de ferro, uma boina que quase tampava um dos olhos, escondendo um olhar duro, e tinham os dois, o rosto largo, quadrado. A rua estava deserta, os outros bancos estavam todos desocupados. Apenas ele e os dois policiais pareciam povoar a inquietante madrugada. Os policiais aproximam-se e ordena que fique de pé. João se levanta, leva as mãos ao pescoço, enquanto um dos homens faz a revista. A única coisa que encontram é o documento. O policial puxa-o de uma vez, arrancando-o violentamente do bolso. Levanta-o para o alto e chama seu companheiro para ver mais de perto. Não havia nada escrito ali, apenas a foto do homem. Com os olhos fulminantes, impetuosos, e uma voz metálica e rouca indaga a seu dono. O que é isto? Ele não responde. O policial lhe devolve o que sobrara do úmido documento. Mas o que é isto? Pega rapidamente o documento de volta, como que se este fosse sua única tábua de salvação, seus olhos se esbugalham e o coração aperta, quando percebe que a umidade do papel havia se alastrado por todo o documento, e já nem mais um nome restava. Um outro borrão se formara entre o plástico molhado e o papel, era o pouco que havia restado de si. Até a fotografia já apresentava sinais de esmorecimento, uma pedaço rasgara e começa a deslocar-se do lugar. Novamente, um estrondo invade seus ouvidos. O que é isto? Quem é afinal? Esbravejava o gigante de fardas e botas. O pobre homem não conseguia balbuciar palavra alguma, pois elas não lhe vinham à mente. Qual o seu nome? Insistem as policias. Já não mais o sabia. Não se recordava de nome algum que pudesse dar como resposta. Os policiais não perdem mais tempo. Algemam o homem e atiram-no ao carro. O motorista arranca apressado. No meio do caminho, tem suas pernas amarradas. O veículo segue rumo à saída da cidade. Atravessam os bairros periféricos, acessam a grande rodovia, e deslocam-se em direção às montanhas. Quando a madrugada ensaiava findar-se, estacionam à beira de um precipício, e antes que nele chegassem, uma grande fenda sem fim incrustada ao chão, lhes abreviava a missão. Era um grande fosso de pedras de bocas largas e goelas escuras e profundas. Perguntam ao homem, mais uma vez, se este não lhes diria o nome. O silêncio era completo. É empurrado ao fundo.



Marcos Vinícius.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Descaminhos



Descaminhos



Depois que aposentara, adquirira o hábito de fazer umas caminhadas pela redondeza, pelas vizinhanças. Geralmente, levanta-se mais cedo que a mulher, que nem sempre se dispõe a acompanhá-lo por estas andanças. Mas não abandona o conforto e o calor da casa sem antes observá-la por umas duas longas vezes. Antes de levantar-se, quando as primeiras luzes da manhã invadem a escuridão do quarto, aprecia o amanhecer em seus lábios dormentes e em seus olhos fechados. As rugas incipientes que afloravam em seu rosto tornava-a mais próxima, mais cúmplice, sinais dos tempos, que por estas vidas, trilharam. Era bela e a admirava. Levanta-se vai até o banheiro e a cozinha e volta, outra vez ao pé da cama, para apreciar a mulher, que já acordava. Esperava-a despertar e lhe dizia algumas palavras otimistas. Estava satisfeito por estar ali, e principalmente agora, que com a aposentadoria, não precisava mais prender-se sistematicamente aos horários e à escravidão dos relógios. O que não quer dizer que já não tivesse uma rotina, pois às vezes, acabava por fazer as mesmas coisas nos mesmos momentos, em função dos costumes e dos hábitos que se ia adquirindo. Mas se tinha algo de que se gabava, era de não mais carregar as horas no punho, coisa que parece ter feito uma vida inteira. Sem tirar os olhos da mulher, afasta-se e vai à janela ver como anda o tempo.


Nada havia naquela manhã que pudesse ser muito diferente das outras. Levantou-se, preparou o lanche, duas fatias de pão e o resto do suco que havia sobrado da refeição de ontem; lavou o rosto, escovou os dentes e mirou-se no espelho. Já não era mais o jovem que há muito não encontrava em sua imagem refletida, mas via-se não como um homem velho, mas alguém que tivera a oportunidade de aprender muito com a vida. Considerava-se um sujeito experiente e que ao longo dos anos pudera acumular algumas sabedorias. Deixa a mulher na cama, pois esta ao acordar, queixa-se de um incômodo mal estar, e resolve dormir mais um pouco, para ver se o sono da manhã, possa quem sabe, revigorar-lhe, proporcionar mais ânimos. Ele aproxima-se para despedir-se e pousa-lhe na testa um beijo quente e afetuoso. Ela parece reconfortar-se. Após vestir-se confortavelmente para a caminhada matinal, rotineira, apaga as luzes e sai para a rua. Lá fora, o dia já estava bem claro.


As primeiras almas com as quais encontra são seus antigos vizinhos. A senhora do lado, que acordava bem antes das manhãs, ajeitava um pouco a casa, enquanto esta não havia recebido ainda, a luz do dia, e logo em seguida, apressadamente, corria para regar as flores e plantas, que sempre cultivara em seu extenso jardim. Eram muitas as espécimes, as mais variadas formas e tipos, cores conhecidas e inimagináveis, uma infinita biodiversidade, cultivada com extremo rigor e uma disciplina religiosa. Não havia dia, qualquer que seja, de feriados ou festas, que a impedisse de cuidar de sua vasta flora. Seus olhos brilhavam. Ele olhava-a com grande delicadeza, admirava-a pelo seu trabalho com mudas e folhas. A felicidade com que a mulher dedicava-se ao ofício fazia, com que no fundo, aquela manhã, parecesse ser mais alegre. Ele enchia os pulmões, e quase de uma vez, inalava todos os aromas que suas narinas conseguiam captar. Aproxima-se da mulher, e deseja-lhe que tenha um bom dia. É um vizinho generoso. A senhora responde-lhe entusiasmada, com um frenético aceno com as mãos. Não são poucas as manhãs, em que esta rotina se repete. Mal retoma seus passos e encontra-se com um outro vizinho, outro antigo companheiro das primeiras horas do dias, geralmente, é apenas neste horário que se encontram, pois anos e anos de trabalho, seja de um ou de outro, acabaram por afastá-los definitivamente em outros momentos do dia. Agora, com a aposentadoria, é que passa a encontrá-lo mais vezes, parando mesmo, em algumas ocasiões, para conversarem um pouco. A conversa, na maioria das vezes, não se estendia muito, mas os cumprimentos e as trocas de gentilezas eram freqüentes. Falavam amenidades, discutiam problemas da vizinha, o buraco da rua, a lâmpada do poste que não parava de piscar, fazendo vultos na noite, e os movimentos dos carros, que eram às vezes, violentos e velozes. O que muito motiva as conversas, provavelmente, é o fato de quase sempre estarem de acordo, comungarem muitas crenças e princípios, raramente apresentam divergências, e o desfecho de seus breves diálogos era sempre acompanhado de sorrisos e apertos de mão. Apesar desta proximidade, não era sempre que se punham a revelar suas intimidades ou coisas da vida privada. A proximidade territorial que a vizinha lhes impunha, aconselhava certa distância no que diz respeito a suas vidas pessoais. Nos últimos meses, é que tem tido mais tempo para dedicar-se as conversas, e pelo que se recorda, apesar de tantos anos, tendo-o como vizinho, não se lembra de ocasião em que puderam trocar idéias e informações com tanta freqüência. Mas se havia algo que os aproximava mais, portando-se quase como duas crianças, eram quando o cachorro do colega, vinha ao encontro dos dois. Era um animal extremamente amável, tinha um jeito dócil e seus olhos despertavam compaixão. Assim que se reunia aos homens, sentava-se entre eles, como se quisesse se inteirar também do que há um bom tempo debatiam. Imediatamente os vizinhos corriam-lhe as mãos por entre os pelos. O cão fazia-lhes as graças e parecia declarar-se amigo. Após tantos encontros afáveis, o cão certamente possuía alguma consideração pelo vizinho. Era o que mostrava sempre, nunca o importunava ou rosnava ameaçador. Agora, que possuía mais tempo, queria aproveitar melhor os momentos, cansou-se de tanto correr, da casa ao trabalho, do trabalho a casa, uma vida inteira. Sentia, que de certa forma, abria outro olhar para o mundo. Percebia que nunca possuíra tanta tranqüilidade, para deitar um olhar mais prolongado sobre as coisas e as pessoas. Por isso talvez, tenha resolvida caminhar pelas manhãs. Queria aproveitar melhor os dias, todos que ainda teria pela frente. Com mais tempo para si, e sem as amarras do trabalho e dos horários, podia apreciar mais detidamente a bela mulher que o acompanhou por anos e anos a fio, a vizinhança, com a qual sempre se dera muito bem, as flores da casa ao lado, e aquele cão generoso, que parecia querer lhe fazer a guarda.


O que fazia diariamente, já há mais de três semanas, de forma fiel e assídua, antes de pegar o embalo da caminhada, era visitar o amigo de muitos anos que encontrava-se gravemente doente. Fazia questão de estar a casa, que ficava a poucas quadras da sua, onde conversava com a irmã do enfermo, inteirando-se detalhadamente da evolução do quadro clínico e das mazelas da doença. Mas não contentava-se com isto apenas, e queria sempre ajudar. Falava com o homem, alguns poucos anos mais velhos que ele, relembrava os bons momentos que viveram juntos, afinal se conheciam desde a juventude, e muitas histórias tinham para trocar. Mas o homem não se mexia, não esboçava qualquer reação. Seus olhos pareciam boiar pelas órbitas e mirar para um ponto onde seus interlocutores não podiam enxergar, quase não piscava. Não podemos saber se entendia o que estava a se passar. Não havia como avaliar o seu grau de consciência. Estava inerte. Apenas o olhos, fixos, luminosos, pareciam demonstrar algum sinal de vida. O suor escorria-lhe pela face, ensopando seus poros, transformando suas rugas em longas correntezas de água salgada. O homem parecia transbordar ou afogar-se em si mesmo. Por mais que lhe trocassem as roupas, estava sempre encharcada, a febre talvez lhe queimasse os ossos, brasas acessas, que deixavam aquele corpo em chamas. Generoso que era, o velho amigo, cuidadosamente, molhava o lenço na água morna, que havia colocado na mesa ao lado, e limpava seu rosto, como a aliviar-lhe o sofrimento, e assim o fazia com grande emoção, pois era com profunda tristeza que via o antigo companheiro definhar. A irmã, que cuidava daquela pobre alma, sentia-se agradecida com a iniciativa do amigo, e sempre por um bom tempo, deixavam-nos a sós, pois tinha a sensação que o irmão sempre melhorava um pouco após a visita cordial e diária. Cada vez que vai à casa do amigo encontra-o pior, e pelos vistos, nem a bondade alheia nem o rigor da medicina terão como salvar aquela pobre e miserável alma. Mas como já sente o sol esquentar um pouco, percebendo quão alta vai a manhã, resolve então despedir-se da casa e ir, finalmente, à caminhada. Leva outra vez o pano molhado sobre a testa do homem, apalpa-lhe os cabelos, deposita algumas palavras breves em seus ouvidos, e sai do quarto. Já à porta, despede-se da mulher, que amavelmente lhe agradeceu pela dedicação e cuidados. Abraça-a e diz que no dia seguinte estará de volta.


Após alguns minutos de caminhada a passos largos, quando o corpo começa a aquecer-se, a face corar-se, e as pernas tornarem-se mais leves, distanciava-se já algumas quadras de sua vizinhança mais próxima. Atravessa ruas, cruzamentos, anda pelo meio dos carros, até chegar a uma região, onde a estabilidade das calçadas e as árvores frondosas, pareciam proporcionar melhores condições para se realizar um exercício aeróbico, desenvolvendo as musculaturas, e a capacidade dos pulmões. Além do que, era um local mais tranqüilo, com uma quantidade quase rarefeita de veículos e pedestres, onde podia se dar ao luxo de exercitar também os braços, levantando e flexionando-os sem chamar muita atenção. Ali revigorava seu ritmo, e entregava-se aos pensamentos. Era uma boa ocasião onde refletia sobre a vida, a passada, a presente, e as que pretendia almejar. Era um homem de sonhos. Na medida, em que o sangue acelera-se em suas veias, as batidas do coração punham-se ao compasso dos pés e pernas e renovava o ar dentro de si, desenvolvia projetos, tinha idéias, traçava metas. Acreditava mesmo já ter tomado grandes decisões durante estas andanças matutinas, e possuir sabedoria.


Ao entrar pela chamada alameda das flores, uma rua estreita, onde os moradores, fazem questão de deixar as casas sempre pintadas, e a calçada bem florida, vê uma criatura muito bem agasalhada encostada sob uma árvore, que parece não se afligir muito com o calor que já àquela hora fazia. O sujeito, com roupas escuras, confundia-se com os troncos das árvores, que muito próximas ficavam umas das outras. Naquele momento, era o único com quem teria que dividir aquela rua. Sem que percebesse, reduz ligeiramente o ritmo de seus passos para observar melhor aquela figura, que fica a cada passo, mais próxima. Difícil ver seu rosto, pois usava blusas cumpridas e gola alta, que tampava-lhe os braços, o pescoço e quase toda a cabeça. O chapéu de abas largas escondia o pouco que a blusa deixava destampado. As mãos estavam enfiadas nos bolsos e as pernas protegidas com botas de cano longo. Ao aproximar-se do que provavelmente era um homem, este se mexe, e da alguns passos ligeiros em sua direção. Tem os passos curtos e muito rápidos, suas pernas eram pequenas. Um encontro parece ser inevitável. Aproximam-se, curiosos, e postam-se, frente a frente. Como vinha já de uma longa caminhada, ao parar, parece corar-se ainda mais, o suor começa a correr pela testa e cai em seus olhos. Leva a blusa ao rosto, secando-o, possibilitando ver melhor o que tinha diante de si. O homenzinho parece evitar um olhar direto, esquiva-se, e não se deixa ver, de todo. Vira-se de lado e faz as saudações. Olá, és um homem forte e vê-se logo, que sábio também. Nestas idades, não é todo mundo que se põe a caminhar desta forma. Vê-se que preocupas contigo, e pelos vistos, investes de fato, em uma vida longa. Sim, como agora tenho tempo pelas manhãs, não perco a oportunidade de fazer o que faço. Faz-me bem. Estava a observar-te, desde que despontaste ofegante, daquela esquina lá embaixo. Aprecio a ti, não apenas pela tua disposição, mas pela vitalidade que parece carregar, além do mais, percebo que és um homem generoso, é amigo dos animais e cuida dos doentes. Ditas estas palavras, calam-se. Um silêncio aterrador prostra-se entre eles. As pernas, que vinham aquecidas pela caminhada, gelam-se e ficam endurecidas. Mas que diabos, como podes saber algo a meu respeito se tenho a certeza de nunca tê-lo visto pela frente? Quem és, afinal e o que queres? Como sabe do meu afeto pelos animais e que tenho um grande amigo doente do qual faço questão de dedicar cuidados? O homenzinho dá um giro em volta da árvore, observa-o de cima em baixo, em seguida, aproxima-se, afasta-se, e por fim, baixa a cabeça. Sim, eu te conheço, mesmo que tu não conheças a mim. Pode ser a vida assim, às vezes. Muitas das vezes, conhecemos alguém uma vida inteira, sem que ela sequer perceba nossa presença ou mesmo nossa existência. Não é assim com os famosos e seus fãs? Com as paixões platônicas? Não é lá com o que deva se preocupar. Na verdade, conheço-te profundamente, e por conhecer-te, é que resolvi então, vir ao seu encontro. Eu estava lhe aguardando. Mas o que queres afinal? Quem és? Indagava seu interlocutor com a voz trêmula. Estava visivelmente apavorado. O suor na camisa começava a esfriar e um calafrio percorria seu corpo dos pés a cabeça. Vamos então, direto ao assunto, pois na realidade também não tenho muito tempo a perder. Você não será a única visita que farei por hoje, apesar de ser um contato bem aguardado. Na verdade, venho fazer-lhe uma oferta. Uma grande oferta, e peço-lhe que não a recuse de imediato, sem antes ponderar, pensar duas vezes, pois a boas oportunidades não nos batem à porta por muitas vezes. O que pretendo de ti? Ah, é simples. Quero sua alma, sim, comprá-la com uma oferta generosa e praticamente irresistível. Preciso muito de almas como esta que aí carregas e posso lhe oferecer muito. Ora, deixe de bobagens, estás a divertir-se às minhas custas. Sabe muito bem que não é tudo que podemos comprar, ou encontrarmos a venda. Não me amoles mais, irei prosseguir meu caminho. Calma homem, ainda não disse tudo. Vou comprar-lhe a alma. A ti não faltará riqueza ou poder, dinheiro não é coisa da qual terá que se queixar, poderá viver de viagens, benefícios, privilégios, posses e muitos bens materiais. Você será bajulado e não haverá portas de oportunidades que não se abrirão para você. Não é algo de que devemos nos furtar, sem ao menos pensar duas vezes. Sabes aquele velho sonho que sempre acalentaste e que jamais pode se realizar, pois nunca as finanças permitiram tanto? Talvez tenha chegado a hora. Dar-te-ei um tempo para que dialogues consigo próprio, não precisa resolver de imediato. Dialogue lá com teus botões, seu eu interior, seu coração, invoque sua consciência, amanhã saberei. Dizia com o dedo em riste, e aparentemente sem tocar com os pés o chão, movia-se rapidamente, parecia inquietar-se. Amanhã, quando acordares, encontrará sobre a mesa do quarto, uma grande barra de ouro, é o meu sinal. E será tua, para experimentar a minha oferta, e para ver como não estou de brincadeiras. Aí, aguardarei sua contrapartida. Mas por hoje, não tomarei mais seu tempo, daqui estou de saída. Tem algo que gostaria de dizer, adiantar-me? O homem estivera completamente enrijecido enquanto ouvia. Não lhe ocorria ter que responder qualquer coisa agora. Os músculos da face, com o suor já seco, estavam paralisados. Não imaginava como poderia pronunciar qualquer palavra, além do mais, o ar parecia não querer lhe sair dos pulmões. Não respondeu. Vejo que estás a refletir, não tenha pressa. Amanhã, quando o sol estiver a despontar, encontrará então, o meu tesouro, um adiantamento, dentre outros que ainda estarão por vir. Até o meio dia, aguardarei a sua resposta, pois a partir daí, tenho outros negócios a resolver. O homenzinho dá um rápido rodopio, sai a girar entre as árvores, desaparecendo, sem deixar vestígios. Desaparece como se nunca um dia houvesse existido. Como se mais não fosse, um sonho daqueles que temos acordados, uma breve alucinação, um delírio repentino, mas as pernas agora frias, não tinham mais a disposição para a caminhada, sentia-se exausto. Aquela aparição havia deixado-o transtornado. Enche o peito em busca de fôlego e um forte odor de flores entra em suas narinas. Sente-se um pouco tonto. Muito lentamente, como se as pernas carregassem um peso que não fosse apenas o seu, põe-se a andar. Sentia-se indisposto e resolve voltar para casa.


Ao ouvir o ruído na porta, a mulher vem ao seu encontro. Ao vê-lo, entranha-o. Está um pouco abatido homem, andou vendo assombrações? Ora, deixe de bobagens, não me sinto muito bem, o sol hoje parece mais quente. Após o almoço, vou deitar-me um pouco. Mas não se preocupe, é apenas um mal estar passageiro, nada que alguns minutos de cochilo não possam resolver. Senta-se, serve-se, e come silenciosamente, com os olhos fixos na mesa, mecanicamente, sem sequer olhar para o prato. Após a refeição, vai até o quarto e pede à mulher que o deixe sozinho, que não o incomode, pois precisa descansar. A mulher resmunga baixinho, sente-se contrariada, mas respeita o desejo de seu esposo, e vai ler o jornal.


Ele senta-se na cama e permanece por um bom tempo, completamente imóvel, na verdade, não tem tanta vontade de deitar-se, mas ficar a sós, tentando entender o que se passava. Desde que cruzara com aquela coisa, parece ter perdido a expressão. Sentia que a face não refletia emoções, sensações, como se estivesse condenado a ter um rosto de pedra, onde não mais lhe ocorressem o riso, o choro, ou qualquer perturbação. Seria uma face única, fosse ante os mares mais navegáveis e calmos, ou perante os tufões e terremotos, que lhe sangrassem a alma. As coisas pareciam não fazer muito sentido. Levanta-se, repentinamente, e liga a televisão. As imagens e as falas desfilam diante de seus olhos e ouvidos, mas estes não lhe dão atenção. Estão indiferentes. Pouco se movem. As imagens são apenas luzes, que se alternam em cores e ritmos diferentes, o som ininterrupto é quase inaudível, um prolongar de ruídos, que não diz coisa alguma. Talvez as paredes fossem mais receptivas, naquele momento, as informações e propagandas que o aparelho veiculava. Assim, permaneceu por muitas horas sem se dar conta do que ocorria ao redor. Encostado na cama, imobilizado, o rosto duro, iluminado pelo televisor, que enchia o quarto de sons e luzes. Quando deu por si, já eram altas horas da madrugada e a mulher já deitara e adormecera a seu lado. Ele não havia percebido.


Deita-se, mas os olhos não conseguem fechar-se. Afinal daqui a algumas horas, quem sabe, a barra de ouro talvez apareça sobre a mesa. Este pensamento muito o perturba, faz suar frio, e uma dor fina e perfurante, percorre o todo o corpo, partindo do estômago. O coração palpita acelerado. Não adormeceria. Levanta-se e posta-se à mesa, onde em breve, a ser verdade o encontro que acreditava ter tido, uma riqueza considerável estará à sua disposição. Mesmo faltando quase duas horas para que as primeiras luzes do dia trouxessem a manhã, não tiraria os olhos daquela mesa, pois caso o ouro aparecesse mesmo, gostaria de saber como ele chegaria. E ali permanece, tomado de uma ansiedade que não consegue controlar. Os olhos pesam, e às vezes, torna-se difícil segurá-los, e foi em uma destas piscadelas, em que a barra de ouro, reluzente, pesada, apareceu. Não era possível. Ali estava. Como aparecera? Era incrível. Bastou uma piscada, única, para que o tesouro estivesse ali. Acondicionou a barra dourada entre os braços, abriu a porta do guarda roupas, e a escondeu no fundo da última gaveta. Puxou umas fronhas e meias para que o seu tesouro ficasse completamente invisível. Vestiu rapidamente suas roupas, antes que a mulher despertasse, abriu lentamente a porta, e foi para a rua.


Naquela manhã, havia chegado mais cedo que a vizinha das flores. Irritou-se ao ver seu jardim. Rapidamente voltou a casa e, silenciosamente, pegou um tesourão de jardinagem, enfiou no bolso um pote que havia apanhado de cima do armário, e sem que esta percebesse, observou a mulher, que apresentava um sono profundo. Aproveitou então, a ocasião, para observá-la mais de perto. Admirou-se, pela primeira vez, por considerá-la sempre bela. Olhou, olhou, e intrigou-se. Era feia, muito feia. Foi até à frente do jardim, e certificou-se que a rua ainda estava vazia, não havia quem desse por sua presença. Num ímpeto, invade a propriedade da vizinha, abre afoitamente a grande tesoura, e arranca todas as flores, uma a uma. Sabe que ainda tem alguns minutos antes que a senhora apareça. Abre a boca enorme da tesoura, que vai fazendo uma verdadeira limpeza no território, engole as flores pequenas, as grandes, algumas dilacera as pétalas, outras arranca o caule e a raiz. Assim o faz afoitamente, sem vacilar ou demonstrar qualquer piedade. Realiza uma verdadeira devastação, sem sequer estranhar a si. É tomado de uma sensação de fúria, e não se tranqüiliza enquanto não vê as flores todas ao chão. Solta um longo sorriso e gargalha silenciosamente de satisfação. Sente um prazer sem igual. Ao concluir o trabalho, enfia as mãos no bolso e retira o pote que há pouco havia guardado. O rótulo, uma pequena caveira vermelha, indicava o que havia no interior do frágil pote, veneno. Vai em direção à casa do vizinho, dono do cachorro. Entra pela lateral, onde o carro do proprietário estava estacionado, e anda se escondendo por sob as folhagens. Já dentro da garagem, encontra a tina onde o cão bebe água, que estava cheia. A água estava clara, limpa, provavelmente havia sido colocada ali não há muito tempo. Era água fresca, que certamente iria matar a sede do animal, assim que seu dono abrisse a porta. Abre o pote, que segura firmemente entre as mãos, e derrama na tina, todo o seu conteúdo. Levanta a tigela e a imprime um movimento circular, para espalhar o pó verde que havia se acumulado no fundo. Dá algumas voltas na água, e rapidamente o veneno se dilui. Já não tinha mais tempo. Não faltava muito para que os vizinhos saíssem de suas casas.


Em seguida, resolve afastar-se da região. Distancia-se de casa e anda pela cidade, cortando ruas, avenidas, cruzando praças, sem saber ao certo, onde queria chegar. Precisava andar, sentia-se excitado, mas mal repara nos lugares aonde ia. Andava, andava. O sol da manhã já lhe corava os braços e ia alto. Uma sensação de formigamento toma todo o seu corpo e os braços e as pernas parece comandarem-se sozinhas. Lembra-se do amigo doente. Era preciso vê-lo. Aperta os passos em direção à sua casa, e atravessa a cidade novamente. Lá chegando, faz soar a campainha e a irmã do amigo, prontamente vem lhe atender. Ele hoje parece estar melhor, diz. Desde que saíste ontem, vem esboçando alguma reação. A febre baixou e pude perceber um raro brilho nos olhos. Venha, entre, ele provavelmente o aguarda. A irmã, como sempre faz, acompanha-o até o quarto, e em seguida, retira-se, deixando-os a sós. Ele lentamente aproxima-se do amigo. A mulher parece ter razão, sua aparência hoje é bem melhor. Aproxima-se mais. Os olhos do doente parecem buscá-lo, mas ele não lhe dá confiança. Após um enorme esforço, consegue arrastar a mão trêmula pela cama e repousa-a sobre as mãos do visitante. Este se safa do contato abruptamente, a tentativa de aproximação lhe causa um grande desconforto e afasta-se. Sobre a porta do quarto, um grande relógio, mostrava-lhe as horas. Seu ruído atormentava-o, tornando-se cada vez mais alto, ensurdecedor. Não conseguia ouvir outra coisa. Punha as mãos nos ouvidos e não obtinha resultados. Era enlouquecedor. O ruído dominava todo o ambiente. Num ímpeto, pega a toalha que sempre usava para aliviar o fogo que queimava o amigo, e lhe aliviar a febre, e dá-lhe algumas voltas, enrolando-a, como se fosse uma corda. Aproxima-a do rosto do homem, e a princípio, lhe retira o suor. Em seguida, leva a toalha enrolada em direção ao pescoço, envolvendo-o. Segura firme as duas pontas da corda improvisada e a pressiona sobre a garganta do homem, que começa a sufocar-se. Olha para o relógio e dá a estrangulada definitiva. Era meio dia.




Marcos Vinícius.

sábado, 2 de outubro de 2010





Faz-se pânico geral quando o assunto é o envelhecimento. Mas há um lado bom ao percebermos a ação que o tempo imprimiu sobre nós. Seja vendo-nos mais maduros, testemunhos de uma história já de média duração, seja percebendo o processo da vida como uma revelação.

Marcos Vinícius.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O pescador



O pescador


Antes que o sol viesse clarear o dia, já estava com os olhos abertos. Depois de muitos anos acordando sempre no mesmo horário, quando o breu da noite ainda não havia sido devorado pelos primeiros raios de luz, não mais se lembrava do dia em que acordara mais tarde. Neste sentido, os dias pareciam ser todos iguais. Naquela mesma hora, outro dia estaria para começar. Sempre cedo. Vira algumas vezes na cama, para conferir o conforto que esta lhe proporciona, nas mais variadas posições em que se encontre, além de ser também uma maneira, de sentir os diversos músculos que compõe o ainda jovem corpo que, em seguida, se poria a trabalhar. Antes de levantar-se, porém, aproxima-se mais uma vez da mulher, que normalmente, desperta um pouco depois dele. Gosta de vê-la ali dormindo, e sempre fica a observá-la. Apesar da escuridão do quarto, consegue enxergá-la nitidamente, cada curva do seu corpo, o desarranjo dos cabelos, a posição de seus braços, como se contivessem os olhos memórias, que projetassem em seu cérebro a imagem da mulher que ao seu lado, por vários anos dormira. Instintivamente, respira o seu perfume, feito das flores, que já há muito tempo, acalenta os seus sonhos, ilumina os seus desejos e fantasias. Ao tocá-la outra vez, silenciosamente, com movimentos leves, para que não a desperte, sente o calor que sai de seus poros, da pele, como a aquecer o quarto inteiro. Não conhece remédio melhor para as longas noites frias. As primeiras sensações da manhã, fazem com que sinta-se, apesar de todas as privações que a vida possa lhe impor, um homem feliz. Subitamente, lembra-se do dia que o espera. Empurra as colchas para o lado, senta-se na cama, enquanto seus pés calçam os chinelos, seus olhos procuram outra vez a mulher, que começa agora, a remexer-se entre os lençóis. Em alguns instantes, estará de pé.




Vai até o lavatório e leva o rosto na água fria, quando parece, finalmente, despertar-se de vez. O dia agora clareava diante de si. Levanta os braços e apanha sobre uma placa de madeira, presa à parede, um pedaço de espelho, que mais correto seria lhe chamar caco, um pedacinho de espelho que mal dava para enxergar a metade do rosto. Eram como viam-se no dia a dia, os dois. Verem-se juntos, o casal, por completo, em um espelho de verdade, em grandes proporções, não era algo que tenham algum dia feito. Passa o caco reluzente sobre a face, percorrendo-a e iluminado-a. Observa as últimas gotas que escorrem a penetrar os finos sulcos que afloram em sua pele pouco quebradiça e queimada pelo sol. Apanha a toalha e esfrega rapidamente o rosto. Não é muito das vaidades, e vai então, onde lhe chama o estômago. A dieta não é lá das variadas, muito antes pelo contrário, a vida por ali é de muitas dificuldades. A terra não é nenhum prodígio, e a colheita que se tem é fruto de um trabalho muito duro, árduo, portanto, vai encontrar nas prateleiras, nada mais que uma broa, algumas fatias de pão, e um chá de ervas, do qual já vinha se servindo há alguns dias. As terras, apesar de fornecerem uma matéria prima de excelente qualidade para todo tipo de cerâmica que se possa imaginar, potes, vasilhas, vasos, pratos, recipientes diversos, utilitários, estatuetas, obras de arte, não é muito generosa, com os que tratam de cultivá-la, é terra dura, que quase poderíamos chamar de ingrata, não fosse a determinação e a necessidade humana, de fazê-la produzir. E também, vez por outra, alegrava os moradores da aldeia, com frutas, que pipocavam pelas matas, como se fossem oferendas. O casebre é simples, praticamente um único cômodo, por onde se distribui suas modestas instalações. A cama, o lavatório, o guarda-roupa modesto, em caixas de papelão, e uma parede praticamente inteira dedicada aos utensílios que faziam daquele homem um habilidoso pescador. Todo tipo de anzóis, linhas, redes, fios, serras, balaios, que fazia que também o interior da moradia, tivesse o cheiro do mar. Do lado de fora, ficavam o cercado de madeira, onde faziam suas necessidades, os utensílios domésticos, e a mesa de pedra onde era preparada a comida. A mulher já está desperta, o homem então, abre as cortinas e destrava a janela. A primeira luz da manhã, ao bater sobre as ondas calmas que se aproximavam da praia, saltou das águas e iluminou todo o quarto.




Era possível agora enxergar com clareza todo o interior da tosca habitação. Uma rápida olhadela seria suficiente para dar conta de quase tudo que ali havia, a menos que os olhos queiram deter-se sobre algum canto em especial, algum utensílio, ferramenta, ou jarros de barro, para arrancar deles um pouco de história. São muitas as lembranças que guardam do local, pois além de conviverem ali há uns bons anos, é uma construção bem antiga, levantada há algumas décadas, pelos antepassados dele. Desde menino, conhecia aquelas paredes, a porta e as janelas, onde hoje já se percebe claramente o desgaste causado pelo tempo. As paredes, por serem de barro forte, nem sempre demandam reparos, mas as madeiras das vigas, e dos marcos das portas já sofrem a ação dos carunchos, tornando-as ocas e sonoras à ação do vento. A mesa está ali posta, na mesma posição, desde quando se entende por gente, e proporciona-lhe uma rara sensação de eternidade. Não se recorda de haver vivido numa época em que ela não existisse. As roupas da mulher, os calçados, o vasilhame, os poucos e rústicos móveis, três cadeiras, a mesa, a cama, algumas caixas empilhadas e uma banqueta próxima da porta, além das ferramentas de trabalho dele, que ocupam a maior parte do espaço, formam o cenário que se abre, com a entrada do sol. Ela já se levanta, ele já se encontra à porta. Ela o chama de Antônio e ele a ela, de Ana. Tem o mar diante dos olhos.




Aproxima-se do homem, beija-o, e diz, O dia hoje parece mais frio que o de costume. Sim, e pelo visto só há de piorar, é o que nos dizem os ventos, mas nada que continue a incomodar após os primeiros esforços no barco. O trabalho como bem sabe, não nos permite o frio, assim é quando já estou sobre as águas, ou quando está você mulher, no ajeito da casa, na lida da terra a levantar a enxada e o facão. Não há frio que impeça o suor de escorrer. Você está certo, homem. Leva a mão aos cabelos dele, afaga-os e põe-se a penteá-los, passando continuamente os seus dedos finos e longos entre eles. Antônio sorri, e apressa-se a sair de casa. Apanha a linha de anzóis pendurada à parede, um pote com as pobres minhocas que lhe serviriam de isca, e caminha em direção à praia. Ana senta-se à porta, coloca um casaco puído sobre o colo, ajeita uma agulha entre os dedos, e vai costurar os remendos. Ele arrasta o barco pela areia, em direção ao mar, pega um pequeno pote de barro, e com gestos pacientes, retira a água que havia se acumulado no piso.




A natureza exuberante do lugar, com suas águas frias profundamente azuis, sua areia fina e branca, e uma vizinha mata densa, com as mais variadas espécies vegetais, contrastam com a simplicidade da aldeia onde viviam pouco mais de algumas centenas de moradores com seus casebres de barro, onde todos tinham na pesca, seu ofício primordial. Era uma comunidade de pescadores, e dadas as condições geográficas, com mato fechado e altas serranias, além da pouca fertilidade da terra, viviam há muito tempo praticamente isolados. Isolamento que havia lhes proporcionado a preservação de suas águas, árvores, serras e um estilo de vida bem singular e original. Devido às grandes distâncias em relação a outros vilarejos, e quase ausência de trocas ou comércio, os moradores eram quase todos meio aparentados, possuíam geralmente alguma relação sanguínea, mesmo que em graus não muito próximos. Como se tivessem todos uma origem comum, os mesmos ancestrais, um tronco perdido, do qual não mais tivessem lembrança, mais ainda se considerassem os múltiplos galhos, de onde provinham. As condições de sobrevivência eram proporcionadas pelas muitas habilidades que haviam desenvolvido através de gerações e gerações. Uma agricultura pobre, com instrumentos bem rudimentares, que não lhes permitia conhecer a fartura e a abundância, um trabalho tosco com a madeira, uma habilidade fabulosa com a argila, que produzia as mais belas peças e esculturas, e uma grande agilidade com a pesca, que lhes trazia sempre à mesa um variadíssimo cardápio do mar, que era a base da sua alimentação. As ferramentas de metal eram das pouquíssimas mercadorias provenientes do distante e esporádico comércio. O vilarejo situava-se em uma grande baía, cercada por uma areia branquíssima, com águas brilhantes, e protegida por uma grande malha de serras e montes, que havia preservado aquela população antiga, por séculos a fio, dos mais gananciosos desbravadores, invasores ou inimigos. Exímios pescadores, encantavam os raros visitantes com as peças que produziam com o barro, retirado das margens de um córrego cristalino, também farto em peixes. Além de utensílios domésticos de todos os tipos, criavam as mais variadas formas de esculturas, estatuetas dos mais variados modelos ou tamanhos, bonecos, que retratavam alguns moradores ou ofícios, e toda uma produção de peças lendárias, peixes do outro mundo, das águas rasas ou profundas, doces ou salgadas, reais ou imaginários, estavam todos ali, moldadas na argila, e muitas das vezes, adquiriam força mágica e sagrada. A produção era grande, pois não eram poucos os que se dedicavam à arte. Homens, mulheres, crianças e velhos, haviam adquirido o hábito milenar de apalpar o barro entre as mãos, os dedos, e dar-lhe os mais impensáveis contornos. De certo modo, todo aquele universo em cerâmica fazia referência ao mundo das águas e da pesca. Todos os peixes conhecidos e aqueles que conheciam apenas em sua imaginação estavam ali representados. Estas peças eram muito admiradas onde quer que fossem, não só pela sua perfeição e riqueza em detalhes, como pela fidelidade aquilo que se propunham representar. Mesmo em terras mais longínquas, muitos acreditavam que pudessem obter algum tipo de vantagem ou sorte nas pescarias, se guardassem alguma delas como amuleto, utilizados às vezes, como moeda, em seu rarefeito comércio.




As casas dos pescadores formam uma linha em arco, acompanhando o contorno da baía, e o mar, com todos os seus ritmos, sons, mistérios, e possibilidades, é a vista permanente, obrigatória, e paradisíaca. Destaca-se no topo de um monte mais próximo, o primeiro de um grande conjunto de serras escarpadas, incorporada à paisagem da aldeia, uma grande escultura em madeira, pela qual se tem grande veneração, representando uma espécie de deusa das águas, entidade protetora dos pescadores, que acreditam, teria ensinado, em um passado distante, todas as técnicas, artes e habilidades da pesca. Acreditam os moradores, que teria sido criação dela, todos os instrumentos, que utilizam nas pescarias, dos anzóis aos barcos. Reza a lenda que não apenas ensinara os homens a pescar, mas teria dado a eles também os peixes, providenciando a fartura e a diversidade dos oceanos. Era uma figura feminina, talhada com uma precisão que causava sempre espanto à primeira vista, era muito bela, com expressão que poderia ser ao mesmo tempo doce ou severa. Possuía os olhos grandes, bem abertos, mirando a imensidão das águas, os cabelos eram longos, e carregava dois grandes peixes nas mãos. Não se sabe exatamente quando foi esculpida ou colocada ali, o que já faz parte de um passado bem remoto, do qual não mais se tem registro. Acreditam os moradores que ela tenha vivido no local, muito antes que houvessem levantado o aldeamento e, curiosamente, seus traços, lembram muito os traços das mulheres da terra. A escultura, do tamanho de uns cinco homens, lhes é muito familiar, e os moradores, pelo menos uma vez na semana, lhes prestam oferendas. Geralmente ofertam pães, algum cereal, utensílios, peças de barro ou flores. Os homens imploram por ela, dedicam-lhe canções e versos, mas ela nunca os vê, jamais tira os olhos do mar.




Antônio, após a chegada do rapaz que iria lhe acompanhar neste dia de trabalho, dá o último empurrão que livraria o fundo de sua frágil embarcação da areia molhada onde se atracava, e em poucos instantes, estariam a navegar. Seu barco era simples, uma canoa feita de madeira e movida a remos, mas era-lhe muito útil, uma vez que a ampla baía, riquíssima em peixes, das mais diversas espécies, dispensava a necessidade de distanciar-se muito da praia. Ali encontrava um farto alimento. Não eram necessárias muitas horas no mar, para adquirir seu provimento. Na maior parte do tempo que passa dentro da canoa, com seu jovem ajudante e aprendiz, quase não fala, conversa pouquíssimo, com receio de espantar os peixes, que poderiam servir-lhe a mesa. O garoto tinha um aprendizado silencioso, e já praticamente dominava toda a técnica, dada uma observação continuada e atenta. As lições eram demasiadamente práticas, motivadas pelas demandas do trabalho e da necessidade. Os dois, talvez pela graça da sorte, ou pelo respeito que tinham, sejam pela experiência de um, e a relativa inocência do outro, nutriam simpatias mútuas. Sempre que ancoravam, Antônio lhe dava os peixes que era de direito, e em seguida, conversavam, era a ocasião em que passava as orientações que achava fossem mais necessárias, não apenas para enriquecer os conhecimentos do jovem, aperfeiçoando-lhe as técnicas, mas também para reafirmar-se na condição de mestre. Feito isto, partiam para brincadeiras e afagos, corriam na areia, e descabelavam um ao outro, coisa que os ventos marítimos já há muito haviam se encarregado de fazer. Algo, porém, Antônio fazia sempre questão de repetir ao garoto, que nunca deixasse de realizar as oferendas no monte, aos pés da deusa, sob risco, de toda a aprendizagem colocar-se a perder. Sugeria gestos, palavras, invocações, oferendas sempre de acordo com as marés, com as fases da lua, ou o sopro do vento. Dizia que com tais cerimônias, fortaleceria não apenas seus dotes pessoais, como contribuiria com a sobrevivência e felicidade de todos, evitando as doenças, garantindo a pesca, e afugentando as tempestades e os tufões. Embora em muitas das ocasiões, os dois tenham subido juntos o monte, nem sempre o faziam, pois Antônio sempre havia preferido ir ao encontro da deusa a sós. Acreditava que a companhia do garoto, ou qualquer que seja, em muito atrapalhava o diálogo que habituara a ter com aquela a quem sempre havia venerado. Geralmente nos dias de frio, ventos muito fortes ou com chuva fina, subia ao monte, e ali ficava a esquecer-se do tempo, protegido que estava da presença mítica, e da ausência de homens que viessem a importuná-lo. Falava, falava, as vezes, compulsivamente, como a fazer apelos, homenagens, e provar-lhe a fé. Por alguns momentos, emudecia-se, como se fizesse necessário também ouvir. Ficava mudo, imóvel como uma pedra. Às vezes, baixava a cabeça, como a reconhecer a superioridade de sua interlocutora, noutras, mirava-lhe os olhos, ou jogava a visão ao além, para ver quem sabe, pudesse também alcançar, a miragem divina. Há épocas em que sobe diariamente ao monte, e ali fica por horas, a contemplar a enorme estátua de madeira, a aldeia ao longe, os barcos e o mar.




Ao despedir-se do garoto, anda alguns metros na praia, para encontrar outros pescadores. É quando vão conferir uns aos outros, a sorte do dia. A maioria dos barcos trazia boa pesca, era já uma tradição do lugar. Havia, claro, aqueles mais habilidosos, os que tinham levado horas e horas ao mar, os sortudos da vez, que traziam os barcos abarrotados dos mais abundantes e ricos pescados e sempre uma boa história para contar. As façanhas de uma ou outra captura, os sucessos que tinham como testemunha, prêmio, e as oportunidades perdidas, que seus relatos não permitiam ocultar. Aquele peixe enorme que por pouco não comeu a isca ou escapou de suas armadilhas. A vida ao redor da baía, contínua, milenar talvez, tenha introjetado nestes homens um estilo muito peculiar. Eram, antes de tudo, pescadores. Era o que de melhor a natureza tinha para ofertá-los, e souberam fazer bom uso disto. O trabalho deixava algumas seqüelas, por mais bem sucedidas que sempre eram suas empreitadas ao mar. Os cabelos, assim como a pele, ressecavam quase irreversivelmente, dados a exposição contínua ao sol e aos fortes ventos. As mãos, geralmente, duras, ásperas e calejadas, não só devido ao trato com os anzóis, facas e redes, como em função das lidas agrícolas, a que muitos deles se dedicavam. Alguns trazem cicatrizes nos braços e pés, devido ao contato próximo com instrumentos cortantes, perfurantes, como os anzóis, ou quando se acidentavam com as partes duras dos peixes. A atividade pesqueira havia deixado sua marca praticamente inconfundível nestes homens. Formavam uma roda ao redor de um mastro fincado na areia, e conversavam, discutiam a vida cotidiana e comunitária. Eram os namoricos dos mais jovens, as viagens até as paragens mais distantes, o trabalho com a terra, histórias das aventuras mar adentro, as investidas nas matas, serras e florestas, os bonecos de barro, que trocavam sempre entre eles, com as mais variadas intenções, desde a troca de uma peça por outra, por alguma ferramenta, alimento, ou como forma de jovens apaixonados, declararem-se uns aos outros, através de peças bem modeladas, daquelas onde visivelmente poderia se constatar muito trabalho, arte e dedicação. Muitos dos casais iniciavam seus relacionamentos, ou consolidava-os trocando pequenas estatuetas. Elas possuíam significados profundos no espírito deste povo.




Antônio fica ali por um bom tempo, ouve atentamente as falas dos companheiros, e faz sempre suas intervenções, gesticulando, apontando, e na maioria das vezes, todos o ouvem com muita curiosidade, devido à sua já famosa experiência e sabedoria. Após as conversações, deixa o local, e rapidamente encaminha-se ao monte. Sobe rapidamente a trilha aberta que lhe dá acesso ao local de adoração. Vira-se de frente para a estátua, agacha-se e pega o maior peixe que trazia no cesto. Levanta-o para o alto com as duas mãos, procura pelos olhos dela, e lhe declama os versos. Os olhos embaçam-se, a voz adquire uma suavidade que não se manifesta em nenhum outro local, os lábios tremem, abre seus braços e estende-os ao mar. Fica assim por alguns minutos sem se mexer, sentindo o vento cortar-lhe a face, sacudindo com fúria seus cabelos e roupas, até que os olhos açoitados pelo vento, façam correr até a boca, uma lágrima salgada. Quando o frio torna-se insuportável, pois já se esconde o sol, faz os últimos sinais de adoração, e desce correndo a trilha.




Ao aproximar-se da porta de casa, vem a mulher ao seu encontro. Beija-o na boca, e em seguida, acaricia seus cabelos. Naquele dia, também ela, havia se dedicado às linhas e agulhas, porém não na caça ao peixe, mas no reparo de roupas, e na confecção de uma pequena rede para as pescas, que há muito estava por fazer e que havia lhe ferido os dedos. Mostra ao homem o resultado do seu trabalho, e este a admira com ar de satisfação e agradecimento. À mesa, uma refeição bem melhor do que a que havia encontrado pela manhã, com cereais, batatas, leguminosas e um saboroso peixe assado. A boca de Antônio se enche d’água. Ali mesmo, sem cerimônias, faz seu prato, e devora-o com tanta rapidez, que a mulher nem se tinha dado conta, de que já o fizera. Sentam-se à porta, e ficam a observar a chegada da noite, brincam com as estrelas, trocam afagos, e acompanham os últimos barcos, que vem rapidamente, se aproximando da praia. O vento, pois, começa a incomodá-los. Levantam-se e entram para o interior da casa. O homem apanha uma toalha, algumas roupas limpas, e sai novamente em direção ao banho. Lava-se, livrando-se do excesso de sal e areia, e esfregando insistentemente as mãos para safar-se do cheiro de peixe, que insistia em lhe perseguir. Ao abrir mais uma vez a porta da casa, vê a mulher que já o espera na cama. Fecha as janelas e cortinas e apaga o lampião que lhe fazia as claridades. Retira de uma vez as roupas que acabara de vestir e vai aos braços da mulher. Esta o acolhe inteiro, aperta-lhe o corpo, o homem investe sobre ela. Parece que são apenas um, até adormecerem.




Quebrando uma rotina que a muito o acompanha, Antônio abriu os olhos pela manhã, e os primeiros fachos de luz já penetravam pelas frinchas das janelas. Assustou-se, não se lembrava de outro sono tão pesado. Ao contrário do que sempre fazia, não se espreguiçou pela cama ou roçou a mulher. Apressou-se em se levantar, evitou abrir de uma vez a porta, para não acordá-la bruscamente, sentou-se a mesa e pôs-se a comer uns bocados da broa, que ali se encontravam desde o dia anterior. A broa engasgara sua garganta seca, e tossiu por duas vezes. Ana começa a mexer-se. E antes que acorde de vez, ou pronuncie as primeiras palavras, Antônio corre os olhos pelas paredes e objetos da casa, que a luz cada vez mais forte, começa a delinear. Vão tomando formas as coisas, e ele segue observando cada forma, relevo, curvas, o cenário que vai se abrindo sob seus olhos curiosos. Quando levanta-se, para finalmente, ir a porta, a mulher acorda. Bom dia, homem. Acordaste apressado. Encontras-te algo a lhe espinhar nesta cama? Não és de saltos tão repentinos. Além do mais, pelos vistos, o garoto ainda não apareceu por aí, senão já estaríamos a ouvir-lhe os gracejos. Antes de responder, Antônio abre a porta. Hoje, a maré parece não estar para peixes, diz, olhando para o céu e para as águas cintilantes, sob o sol que já se punha de pé. Coçou os cabelos, pigarreou outra vez, algum pedaço de broa, talvez ainda se encontrasse engasgada em algum canto da garganta e correu em busca de água. Bebeu dois copos inteiros, mais sedento que qualquer outro dia. Não se lembra se havia considerado a refeição de ontem demasiado salgada. Lavou o rosto, esfregou os olhos, e voltou os olhos para o horizonte. A mulher, calada, ficou a esperar. Antônio tinha os olhos fixos. Não voltou a olhar para dentro da casa. Levantou os olhos ao céu, e a princípio imaginou que talvez fosse chover, pois o céu mais adiante, mais mar adentro, lá onde o azul das águas confunde-se com o azul do firmamento, trazia uma grande mancha escura, ao fundo. O sol, batendo forte na praia, emitiu um clarão, que subtraiu as cores da paisagem, e ofuscou a visão de Antônio. Afasta-se da casa, põe a mão sobre os olhos, para proteger-se da luz excessiva, e procura pela estátua, que lá do monte brilhava. Em vão procura enxergar seu rosto e seus olhos, pois os fortes raios do sol queimavam-lhe a face, e ela, transformava-se em luz. Baixou de uma vez os olhos, voltou-se para o quarto, e foi até a mulher. Dormiste bem?Perguntou à mulher. Parece-me que sim, o cansaço que trago às costas, não é problema do sono, mas o trabalho de costura, que me envergou a coluna. E tu? Parece agitado. Os sonhos da noite estão a incomodar-te?Minha cabeça dói um pouco, vou-me deitar novamente. Quando o garoto por aí aparecer, diga-lhe que hoje está dispensado, pois não sei quando sairei com o barco. A mulher arregalou os olhos, espantando-se, pois sabia, não era o homem, destes desânimos, aproximou-se, passou a mão sobre sua testa, a conferir se havia alguma febre, mas a temperatura encontrava-se normal. Beijou-lhe o rosto e perguntou se queria algo. Antônio disse que não e virou-se para o lado, de costas. No mesmo instante, o garoto vem à porta, e dá suas caras, antes mesmo que a mulher pudesse dispensá-lo. Ao ver sua sombra projetada na parede, que lhe aumentava o tamanho, e ouvir sua voz vigorosa a chamá-lo, Antônio não pensou duas vezes. De um salto, levantou-se da cama, lavou novamente o rosto, beijou a mulher, despediu-se, dizendo estar bem, apanhou seus apetrechos, foi até o garoto, e caminharam em direção ao barco.




O dia parece estranho, diz Antônio ao garoto, assim que os dois se acomodam, depois de lançarem-se às águas. Realmente, tens razão, vê como está escuro lá adiante, já há um tempo está assim, e o que é mais estranho mesmo, afirma o garoto, é que aquelas nuvens pesadas, parecem não se arrastar, não saem do lugar, responde. Ora, mas não exagere, deixemos de conversas, não te inquieta, senão os peixes não vêm a nós, retruca Antônio. O garoto concorda, silenciosamente, apenas balançando a cabeça. Jogam a rede ao mar. Entreolham-se. Antônio esboça um sorriso largo e cúmplice em direção ao garoto, que responde com um olhar humilde, e de quem sente-se protegido e seguro. Passados alguns minutos, recolhem a rede, e para surpresa de ambos, não retiram um peixe da água. O que terá acontecido? Interroga o garoto. Não sei. Talvez algum problema com as marés, as correntes, ou sabe-se lá, resolveram os peixes recusarem a boa isca que trazemos. Um pouco sem graça, sorriram os dois. Mais uma vez, repetem a operação, atirando a rede. Esperam. Dado o tempo necessário, para que normalmente se fizesse um bom pescado, puxam outra vez a rede. Nada. Nem um peixe. Os olhos do garoto enfiam-se pelos olhos de Antônio, a buscar-lhe resposta. O homem embaraça-se, leva os olhos para dentro de si, e diz, Ora, por mais que possamos conhecer os segredos e mistérios das águas, não é para tudo que temos explicação, não está ao alcance dos homens toda a lógica da vida, e como bem sabemos, não há um dia igual ao outro, por mais que pensemos o contrário, ou que eles possam parecer. Vira-se para o lado, e procura por outros pescadores. Ao avistá-los, acena, fazendo sinais, gesticula, estabelecendo contatos. De longe, porém, já percebia o sentimento de desolação e certo desespero dos companheiros, que já se encontravam por ali há mais tempo que ele. Não eram sinais animadores que recebia de volta. Os barqueiros levantavam suas redes, um após o outro, e nada, completamente vazias. Os homens levavam as mãos à cabeça, apontavam para o céu, por todos os lados, meio atordoados, desorientados. Muitos deles, Antônio começou a avistar, já se dirigiam novamente em direção à praia. Antônio e o garoto fazem mais algumas tentativas com a rede, sem obter qualquer resultado. Por fim, resolvem deixar a pesca frustrada para trás, e retornam à aldeia.




Ao descerem do barco, Antônio salta rápido sobre a areia e corre em direção a um grande grupo de homens que se reuniam com suas redes vazias nas mãos. Os outros barcos mais distantes da costa, também ensaiavam um retorno. Houve um breve silêncio, quando Antônio se aproximou. Os homens procuravam explicações para o que estava ocorrendo. Não entendiam porque naquela manhã, os peixes não se emaranharam em suas redes ou mordiscaram os seus anzóis. Um, entre eles, que aparentava ser um dos mais velhos do grupo, com a pele bastante enrugada, talvez pela ação contínua e persistente do sol, dos ventos e do sal, olha fixamente para as águas, enfia os dedos entre a barba, enrolando seus fios esbranquiçados e exclama, Custo a entender o que se passa por aqui. São anos e anos, desde a mais tenra idade, buscando o alimento nestas águas fartas, e nunca houve um dia sequer, nem em minha memória, ou na memória dos nossos antepassados, caso contrário, já nos teriam dito, em que a pesca tenha desaparecido desta forma. Nem um único peixe os homens puderam trazer em seus barcos. Nada. Um homem alto e robusto, que até então não abrira a boca, interrompe a fala do outro. Quem sabe o sol ou a terra não está a deslocar-se como ainda não se fez, mudando o rumo do destino e a ordem das coisas?Por mais que tenhamos aqui uma vida tranqüila e pacata, sabemos que o universo movimenta-se continuamente, não é o que nos mostra sempre os mapas das estrelas? Ora bobagens, diz o outro, segurando um remo entre as mãos, talvez os peixes, ao longo das gerações, foram à sua maneira, comunicando-se uns com outros, e os cardumes hoje sabem o risco de serem pescados, ao passarem por estes águas. Talvez, tenha se espalhado pelas profundezas do oceano, a notícia da força que temos como pescadores, e resolveram evitar esta baía, e nadarem por áreas mais tranqüilas, onde possam estar livres da nossa mira e das nossas armadilhas. Ora, falemos sério, irrita-se Antônio, o dia de hoje é apenas um dia atípico, como tantos outros já o foram, vivemos pouco demais, quanto? 20, 30, 40, 80 anos? É nada. O que sabemos nós dos dias em que aqui não estávamos? Talvez outros antepassados remotos já tenham vivido experiência semelhante, mas acabaram se esquecendo dela, quando no dia seguinte, tudo havia voltado ao normal. Sabemos que são antigas as tradições que herdamos, mas não sabemos o quanto. Somos muito pequenos diante da grandeza do tempo, do mundo, e do universo das águas. Enquanto falava, as mulheres saíam das casas, atraídas a princípio pelo movimento diferente na praia, depois umas pelas outras, e corriam para os homens e barcos, para entenderem o que por ali se passava. O centro da aldeia, tradicional ponto de encontro dos pescadores, movimentava-se rapidamente, as crianças, corriam ao verem a aglomeração se formar. Os mais velhos e os doentes apareciam à porta, e preocupavam-se em saber o que estava ocorrendo. Antônio assusta-se quando a mulher corre até ele e se atira em seus braços. Ele estava frio, apesar do sol que lhe doirava a pele. Ela, em vão, tenta aquecê-lo. Após as falações, tagarelices, caras de espanto e incredulidade, um grande desânimo abate-se sobre a aldeia, e as mulheres, apenas elas, põem-se a cantar. Por alguns minutos, o mundo parece parar. Entoam um canto que parece guardarem em suas gargantas, desde uma época em que ainda não haviam nascido, como se as palavras, o tom, o ritmo, os versos, viessem já gravados em sua estrutura genética, como se tivessem vindo ao mundo, com a canção armazenada em algum canto da memória da espécie, em que bastaria que as cordas vocais estivessem prontas para as palavras articuladas, para que aquela música, naturalmente, fluísse. As mulheres, afinadíssimas, formam um coro compacto, não havia aquela que saísse do tom, ou tropeçasse nas palavras. Cantavam, cantavam. Os homens ouviam em silêncio. Antes mesmo que a música findasse, os homens, como se já tivessem combinado, pegam seus remos, redes, enchem vasilhas com água salgada, e caminham enfileirados em direção ao monte. Para ver o mar do alto, para implorar as graças divinas. As mulheres correm até as casas, e pegam, principalmente, o que tem de comer, pães, broas, frutos, farinhas, chás, além de alguns utensílios de barro. Rapidamente, juntam-se aos homens e acompanham a peregrinação. Poucos são os que ficaram para trás, um ou outro, inválidos, incapacitados, cujas pernas, não os levariam morro acima, ou algumas mulheres com gravidez avançada que não se arriscariam à trilha estreita e escorregadia que levava à grande estátua. Havia ainda alguns poucos pessimistas, que achavam inútil toda a movimentação. Lá do alto, todos, em um aspecto, colocam-se de acordo. A cor do mar não era a mesma, com a qual se habituaram uma vida inteira, mesmo sem saberem ao certo que coloração era aquela. Entoam outra vez os seus cânticos, desta vez, cantam todos, não apenas as mulheres. Os homens, calados quando lá embaixo na aldeia, soltam a voz, quase a estourar os pulmões. Depositam as oferendas que haviam trazido aos pés daquela que acreditavam protegê-los, e molham suas vestes de madeira, com a água que haviam trazido do mar. Por ali permanecem, em cerimônia, por bom tempo, cantando, declamando, implorando que dias melhores pudessem vir. A grande estátua continua firme em sua posição. Tem os olhos duros, como a ignorar os apelos humanos, e parecem avistar um ponto do universo, em que nenhum que ali estava, teria como enxergar, mesmo que a injúria de algum pudesse levar-lhe até os seus ombros fortes. Os olhos distantes, as faces de madeira, a superioridade divina, mantinham-se aparentemente alheios aos sofrimentos dos homens. Quando o dia começa a perder sua luminosidade e a tarde vem trazer os ventos frios e cortantes, resolvem voltar para as suas casas, para que pudessem descansar, alimentarem-se, e esperarem a chegada do dia seguinte. Mal caía a noite, e a aldeia silenciava-se, absolutamente.




Na manhã seguinte, os homens se levantam bem mais cedo que o de costume, e apesar de silenciosa a noite, muitos tem a expressão fatigada pela insônia. As imagens e o trauma do dia atormentavam-lhes. Muitos, ao primeiro sinal do sono, eram acometidos pelos mais terríveis pesadelos, peixes gigantes, monstros aquáticos, barcos e redes vazias, vinham suforcar-lhes. Os primeiros a saírem de suas casas, batiam os remos nos barcos, assobiavam, faziam algum barulho para que os demais pudessem vir logo, pois hoje deveriam ir todos juntos, para o grande desafio, que era agora, coletivo. Esta pesca não seria como de todos os dias, muitas das vezes, até solitárias, como no caso de Antônio e o garoto, apenas dois homens e o barco. Desta vez, iriam todos ao mesmo tempo, alinhados, como se de uma grande expedição se tratasse, uma expedição rumo ao desconhecido. Prontificaram-se todos com suas pequenas embarcações, rapidamente equiparam-se com suas ferramentas, colocaram-se a postos, e mais uma vez, foram às águas. Aconselhados pelas esposas, muitos levaram suas melhores redes, as mais novas, e pequenos amuletos que talvez pudessem protegê-los e levar-lhes sorte. Na medida, que se distanciam da costa, os barcos foram se afastando um do outro, lentamente, quase a retornar-se à antiga solidão. Mas não mantém distância suficiente a ponto de sentirem-se desguarnecidos. Por ali permanecem por um bom tempo, e como no dia anterior, nenhum peixe vem à isca, às malhas. O desespero é geral. Mas aquela tropa de pescadores, já sem saber qual o melhor rumo a tomar, resolvem permanecer nos barcos, pelo resto do dia. Mas seria inútil, o fenômeno do dia anterior, voltava a se repetir.




Desapontados e abatidos, recolhem-se todos mais cedo aquela noite. Antônio quase não cabe em si. A mulher vem lhe fazer carícias, ele, porém, afasta-se abruptamente. Ela o observa, desconsolada. Deita-se, vira para o canto, e acompanha os movimentos de seu homem através de sua sombra nas paredes. Anda de um lado para o outro, desassossegado. Pega uma fatia de pão, morde um bocado, e deixa o resto sobre a mesa. Não tem sono. A mulher deseja-lhe boa noite, ele beija seus cabelos e mantém-se sentado. Ela adormece. Ele está sem lugar, é tomado de um misto de desconforto, irritação e impaciência. Aquela casa não lhe cabe. Levanta-se levemente, mansamente, para não despertar a mulher, quase nas pontas dos pés, abre lentamente a porta, e sai de casa com passos rápidos e trêmulos. É tomado de uma forte sensação que o leva em direção ao monte, que mesmo com toda a escuridão, subiria praticamente sem perceber. Quando deu por si já estava aos pés da estátua. Postou-se diante dela, e arrependia-se pela pressa, que o impedira de trazer algum agasalho. O frio ali do alto, parecia rasgar-lhe o peito. Tinha os braços e as pernas trêmulas e diz, em voz alta, para que pudesse, quem sabe, ser ouvido. Desde que vim para este mundo, subo neste monte em busca de ti, já fiz todas as oferendas, dediquei milhares de versos, cantei, cantei, como se fosse esgotar todas as canções, tenho em ti a confiança absoluta, hoje apenas imploro que envie um sinal, pequeno que seja, para que possamos senão compreender, pelo menos safar-nos de uma desgraça maior. Ouso crer em sua proteção, e se julgas pouco as minhas tantas oferendas, dedicar-te-ei desta vez, o meu sacrifício, terás o meu sangue. Antônio enfia a mão em um dos bolsos e retira de lá um canivete. Faz um pequeno corte nas mãos e faz espargir o sangue sobre as vestes de madeira da estátua. Entoa uma suave canção dos pescadores, mergulha em seguida, em um longo silêncio e segue novamente a trilha, em direção à casa. Ao abrir a porta, a mulher acorda. Está bem? Por onde andou? Estava aqui fora, saí a ver a noite. Descanse homem, vê se dorme. Antônio improvisa um rápido curativo para as mãos, sem que a mulher o perceba, e em seguida, deita-se. O sono finalmente havia chegado. A mulher pergunta, Sente este cheiro forte? Ele já havia dormido.




Quando a noite ainda não havia desaparecido de todo, e a claridade da manhã, projetava-se já sobre as casas e a praia, uma velha moradora, corria aos berros nas frentes das moradias, como se a voz fosse lhe faltar, Os peixes, os peixes, gritava. Os peixes. Os peixes. Era apenas o que sua voz rouca e embargada conseguia pronunciar. Os peixes, os peixes. Muitos correram para ver do que se tratava, alguns ainda com poucas roupas, por ser muito cedo, enrolaram-se em um pano qualquer, e saíram de suas casas, não houve quem não chegasse à porta ou às janelas. A população estava atônita, todos com os olhos esbugalhados, estupefatos, sem entender ou sequer acreditar no que viam. A praia estava repleta de peixes, lotada, sob os barcos, em todos os lugares. Mas os peixes estavam todos mortos e envolvidos em uma gosma escura que logo perceberam ser óleo. Pior. Toda a baía estava tomada. Pânico. Os homens urram, choram, as mulheres desmaiam, as crianças, desesperadas, correm de um lado ao outro, perguntam se é o fim do mundo. Sobem sobre os telhados das casas, até os montes, e era verdade. A massa de óleo escuro, gosmenta, fedida, não tinha limites, não tinha fim à vista, para desespero de todos. Ao longo do dia, os homens andam sem saber para onde, procuram salvar suas embarcações, suas redes, mas o óleo negro já a tudo havia dominado. Não sabiam exatamente há quanto tempo viviam ali, como também não sabiam por quanto tempo teriam condições de por ali permanecer. Todos falavam muito, euforicamente, as palavras, vinham mais como expressão da dor, do que como qualquer peça de discurso que possa considerar-se coerente. A grande baía escura, que se abria a seus olhos, feria-os, quase mortalmente. Não sabiam o que dizer, as palavras iam e vinham, desconexas, soltas, perdidas, sem sentido. A razão não tinha lugar. Não havia quem não se aproximasse daquelas águas escuras, para certificar-se que não estavam sendo enganados pelos olhos ou por algum tipo de alucinação. Voltavam todos com as mãos e pés viscosos daquela água impura. Estavam manchados. Iam até a casa, voltavam à praia, novamente a casa e a praia. Não paravam. Todas as casas tinham as portas abertas. Estavam sufocados. A aldeia parecia pequena, comprimida, como se nela, não mais coubessem os seus habitantes.




No meio da noite, enquanto os homens choravam, gemiam insones, animais marinhos, aves aquáticas agonizavam em meio ao óleo sufocante, Antônio, certifica-se que sua mulher dorme, levanta silenciosamente, e dirige-se aos fundos da casa. Lá apanha uma pá, que guardava junto a outras ferramentas, e segue sozinho, em direção ao monte. É tomado de calafrios e uma força descomunal parece incorporar-lhe. Observa bem aos arredores se não há alguém a lhe observar, e sobe rapidamente pela trilha. Chegando aos pés da estátua, uma das poucas coisas que permaneciam imóveis naquele lugar, pois naquela baía, tudo parecia de pernas para o ar, dispensa, pela primeira vez, as cerimônias e evita olhá-la de frente. Leva a pá até o chão e começa a afastar a terra, endurecida, que há muito atara o monumento ao lugar. O solo é duro, pisado, mas a pá é resistente e Antônio emprega ali toda uma força que não imaginava possuir. Cava freneticamente, às vezes, para um pouco, toma um fôlego, verifica o sítio, e volta a cavar. O suor lhe escorre pelos braços, mas o esforço não parece lhe abater. Após um bom tempo de escavação consegue afrouxar, soltar um pouco do chão, a estátua gigante, objeto de sua adoração. Era mesmo grande. Para dar-lhe um abraço completo, certamente seriam necessários os braços abertos de cerca de quatro ou cinco homens. Isto não seria obstáculo para ele naquela noite. Tomado de uma força que parecia não controlar, abraça-se a estátua e tenta girá-la, mas os esforços resultam-se inúteis, ela não sai do lugar. Antônio investe ali mais uma vez todas as energias, retesa os músculos, enche os pulmões, joga todo o seu corpo, de modo a não deixar falhar a operação, e consegue, finalmente, girá-la um pouco, deslocá-la do lugar. Repete os movimentos várias vezes, e quando os braços estão para partir-se, soltar-se dos ombros, ou o corpo inteiro, quebrar-se aos cacos, exausto, o monumento gira, dando meia volta, postando-se de costas para o povoado e para a baía. Antônio equilibra o monumento, que por pouco não vem ao chão, e apressa-se em soterrar novamente suas bases. Bate bem a pá, agora não mais para retirar a terra, mas para fixá-la de volta ao lugar. Leva quase toda a noite neste trabalho solitário e extenuante, mas conclui sua obra, antes que os primeiros raios de luz comecem iluminar o dia. Desfaz-se de possíveis vestígios, e corre direto para a casa, não havia mais tempo a perder. Guarda a pá no mesmo lugar de onde a havia retirado, bebe um copo de água, e vai para a cama. A mulher não percebeu quando ele se deitou.




Mal tivera tempo de Antônio acomodar a cabeça sobre o travesseiro, e um grito estridente do lado de fora da casa, fez com que, sem esboçar qualquer outra reação, esbugalhasse os olhos. A mulher, ao lado, levanta-se de um ímpeto, assustada. Os berros não cessavam, ao contrário, tornavam-se cada vez mais altos e aflitos. Era a mesma mulher da noite anterior, a que anunciara o negrume das águas. Lá no alto, lá no alto, gritava desesperada. Lá no alto, lá no alto. Como se já habituados às tragédias que se sucediam, os morados levantaram-se todos, apressadíssimos, para ver o que agora, o destino lhes guardara. Lá no alto, lá no alto, esgoelava a pobre mulher, cuja voz já se aproximava da rouquidão. Debatia-se, levantava os braços, agonizava. Lá no alto, lá no alto. Juntaram-se todos na areia. As águas estavam negras, viscosas, como nunca. O cheiro dos peixes que se acumulavam aos milhares na praia, somado a um fedor quase insuportável de óleo, tornavam aquele ar da manhã praticamente intragável. Lá no alto, lá no alto, insistia a velha, já quase sem voz. Ninguém permaneceu em casa. Os velhos, curvados pelos hábitos pelos tantos anos de pesca, demoravam-se um pouco para se reunirem aos outros. Os doentes, acamados, arrastavam-se, gritavam, pediam socorro. Custavam a entender o que por ali se passava. As mulheres, lá fora, gritavam, tapem os olhos das crianças, tapem os olhos das crianças, como se não fossem elas, umas das primeiras, a verem o que ocorria, dada a grande correria que aprontaram, quando a aldeia inteira se levantou. Miravam todos, atônitos, para o alto do monte, e viam a grande estátua, a dar-lhe as costas. Por alguns instantes, se calaram todos. Talvez procurassem, dentro de si, alguma explicação que pudesse acalmar-lhes o sangue, a percepção que olhos apenas, não permitiam. Em seguida, puseram-se a correr, sem saber mesmo para onde. Andavam todos sem direção, ora iam em direção ao óleo, ora em direção aos amigos, entravam e saíam de suas casas, atordoados. A velha aldeia, que sempre conheceram melhor que a palma das próprias mãos, fugia-lhes completamente de qualquer compreensão. Nada mais parecia fazer qualquer sentido. Antônio, que havia se levantado sem pressa, procura acalmar a mulher. Estão desamparados, diz. Seja lá o que houver, aqui não ficamos mais. A mulher, resignada, como se não houvesse qualquer motivo para discordar do marido, ajeita rapidamente algumas poucas roupas, enrola-as em um lençol, que tirara de uma das caixas, e as equilibra sobre o ombro. Tem o aspecto cansado. Antônio puxa-lhe pelos braços e juntam-se aos outros.




O local parecia desintegrar-se, o cenário era desolador. As mulheres choravam, algumas berravam histéricas, outros cantavam em desespero. Os homens praguejavam, as crianças abraçavam as mães e tremiam de medo. Muitos tinham as bocas abertas, e os olhos perdidos, sem qualquer direção. Dois homens se atiraram ao óleo, que os devorou em poucos segundos. Dois outros atearam fogo em suas próprias casas. Os demais reuniram-se em um ponto da praia, uma pequena multidão. Quando o sol vai quase a pino e sua incandescência projeta-se sobre os ombros da grande estátua de madeira, ela enche-se de luz. Não mirava mais o mar, a aldeia não se punha mais sob seus olhos ou guarda. Havia virado de costas, mas luzia. Em meio ao alvoroço dos homens, uma voz, já não se sabe de quem, sugere que mudem também, o rumo de suas vidas. Viram-se para o mundo interior, para as serranias, matas adentro, para as terras rochosas e inférteis, e não olham mais para trás. Antônio segue à frente. A aldeia não mais existiria.


Marcos Vinícius.