domingo, 27 de dezembro de 2009

Na primavera dos tempos


Na primavera dos tempos



A bem da verdade, não sabemos qual era seu nome, pois viveu em uma época, em que muito pouco ficou de registros, não só pela rusticidade da vida naqueles tempos, onde a palavra escrita ainda nem havia sido inventada, como tantos e tantos anos já se consumiram, em um passado, que por tão distante, pouco temos como alcançá-lo, ou sequer desvendá-lo, satisfatoriamente. Uma história da qual pouco conhecemos, apenas por algumas pouquíssimas peças, de um gigantesco quebra-cabeça, que há muito, foi consumido pelo tempo. Costumamos chamar, equivocadamente, a estas longínquas passagens, onde nosso desconhecimento suplanta tudo o que podemos conhecer - de pré-história. Como se por ignorarmos a complexidade destas vidas passadas, não podemos permitir que possuam uma história, negamos-lhes o direito, pois a história que temos e somos, não mais lhes cabe. Ao denominar-lhes pejorativamente de pré-históricas, podemos, também, de quebra, nos afirmarmos em nossa pretensa superioridade civilizatória, onde acreditamos, muitas das vezes, sem pensar, que a evolução que carregamos em nós, tenha fatalmente nos conduzido ao progresso. Não é bem o que podemos constatar com o quadro de guerras, fomes e misérias de todos os tipos que vemos em nossos tempos. Enfim, o que se sabe, é que viveu em um tempo muito distante, quase do outro lado do mundo, num passado que pouco conhecemos, e que possuía uma rara beleza. Seu nome, como dissemos, não chegou até nós, perdeu-se.

Sim. Estamos em um lugar do passado, muito, mas muito distante mesmo. Ela, depois que perdeu a mãe, passou a ser mais nômade que nunca, pois nunca ficava por muito tempo no mesmo lugar. Não chegou a conhecer o pai, coisa não muito incomum naqueles tempos. Durante a infância, cresceu com a mãe, e muitas das habilidades que desenvolveu havia adquirido com ela, que por sinal, era não só era uma excelente caçadora, mas também boa guerreira, e já conhecia a arte do maneio da terra e a força do grão. Vez ou outra se estabeleciam em alguma área fértil, nas proximidades de algum riacho, e por ali ficavam, a se alimentarem das guloseimas que a natureza gentilmente lhes ofertava, claro, que nada sem esforço, uma vez, que tanto a lida agrícola, quanto às atividades de caça, exigiam muito trabalho. A mãe sabia manejar os arcos e as lanças como ninguém, os quais se voltavam não apenas contra os animais que deveriam abater, para saciarem a fome, mas também contra eventuais inimigos, que em algumas ocasiões apareciam a espreitar, geralmente, em busca de alimentos, ou movidos pelos apetites sexuais. As crianças eram muitas das vezes, presas fáceis, naquele meio selvagem, condição que ainda nos dias de hoje, insiste em se perpetuar. Por sorte, a Terra ainda não estava densamente povoada, como posteriormente, veio a ficar, e a população era bastante rarefeita. Havia épocas, em que viviam longos períodos, sequer sem a sombra de visitantes indesejáveis. Graças à proximidade de uma mãe tão dedicada ao trabalho e tão cuidadosa com a filha, esta pode então sobreviver, quando a outra, definitivamente, se foi.

Era bem nova, quando saiu, sozinha, a explorar o mundo. O tempo em que viveu com a mãe foi suficiente para que pudesse sempre observá-la atentamente, e aprender com ela as inúmeras estratégias de sobrevivência que havia acumulado ao longo da breve existência. Interessante como havia adquirido não apenas os mesmos dons, como repetia seus gestos, com os mesmos trejeitos e movimentos, como se de uma cópia perfeita se tratasse. A forma de segurar o facão, de derrubar o mato e amainar a terra. O jeito como apertava os grãos e os depositava nas pequenas covas que abria no chão com as próprias mãos. Cobria as sementes e resmungava baixinho como se estivesse a confidenciar sabe-se lá com quem, desejando que dali brotasse bons frutos. A maneira de pegar o arco, testar-lhes a cordas e a elasticidade, era tal e qual a mãe havia feito sob seus olhos atentos, a cada dia em que viveram juntas. Eram poucas as presas que lhes escapavam da pontaria certeira. Tinha tanta facilidade com a caça e vivia em um território tão rico em frutos e leguminosas, que nossa personagem, praticamente abandonou a horticultura. Talvez, agora, ao contrário da mãe, fosse mais afeita ao nomadismo, do que a uma vida mais sedentária e estável. Não se sabe se a preferência da mãe, por fixar-se em uma determinada região se dava em função de uma opção que sempre teve, ou se deu devido às demandas de uma maternidade precoce. Para se cuidar de uma criança, a vida sedentária talvez fosse bem mais tranqüila do que a vida cheia de surpresas, que o nomadismo trazia, principalmente quando já se domina as técnicas do plantio. Mas agora, sozinha, queria correr mundo. Muito lhe estimulava as mudanças de paisagens e cenários que suas andanças lhe proporcionavam. Notava que em algumas regiões, a árvores eram mais altas que em outras; mudavam as cores e as formas das flores, frutos diferentes eram encontrados, na medida em que se afastava da terra natal, de onde havia saído. Os seres vivos não eram os mesmos. Sempre havia algum novo animalzinho, novas possibilidades de caça e os mais variados sabores. No fundo, era uma apaixonada pela grande diversidade que a vida lhe oferecia e lhe saltava aos olhos. A vida só e nômade lhe proporcionou grande agilidade. Desenvolveu muitas habilidades que lhe possibilitaram uma sobrevivência relativamente tranqüila, e, geralmente, enfrentava os perigos com tanta ousadia, que eles foram deixando de se constituírem em ameaça. Até dos homens, trêmulos de desejos e violência, que de vez em quando apareciam e vinham molestá-la, ela sabia se safar. E naqueles tempos selvagens, para sobreviver, alguns mortos teve que deixar pelo caminho. Não devemos nos iludir quanto às facilidades de sobrevivência, neste passado remoto. É bem verdade que as disputas entre os homens naqueles tempos, não eram tão freqüentes quantos nos dias em que vivemos, mesmo porque a espécie não estava tão disseminada, mas como ainda hoje, muitos conflitos, eram resolvidos com sangue. Obviamente estas demandas da vida, deixavam-na abalada, mas por saber inevitável a situação, logo se recuperava a observar as belezas, maravilhas e riquezas que a Terra lhe apresentava.

Quando ainda vivia com a mãe, ouvia as mais variadas histórias e experiências vividas e relatadas por ela. O relato se dava em uma língua, com uma estrutura, completamente diferente de tudo que já vimos, pois dela nada ficou de registro, numa época sem os recursos da tecnologia digital, CDs, mp3, ou sequer um gravador daqueles bem toscos, que quase não mais vemos, aqueles à base de fita cassete, que nem os das gerações mais passadas que ainda vivem entre nós, cultivam seu uso. Infelizmente a história apesar de contar com técnicas cada vez mais sofisticadas para desvendar o passado que se foi, juntar um número cada vez maior de peças de seu interminável quebra-cabeças, algumas, com certeza, estarão, para sempre, perdidas, sepultada de vez, na longa vala do tempo. Qual seja não apenas os sabores, advindos das mais variadas combinações de frutos e temperos, de espécies já muito extintas, ou os mais adocicados e inebriantes perfumes, provenientes de climas e pastagens que há muito, a própria natureza, por motivos que não cabe a nós, simples mortais, compreender, já fez questão se desvencilhar. Se tem algo que provavelmente jamais conheceremos são as línguas que se perderam, e junto delas, um universo cultural gigantesco, povoados de histórias, mistérios, sons, dialetos, cantos e música.

A convivência com a mãe havia lhe proporcionado o desenvolvimento de uma fala muito bem articulada, com uma grande variedade de recursos, que talvez fosse mesmo de surpreender até quem vivesse à época. Consta que a mãe, em um passado ainda mais remoto, quando da sua infância e curta juventude, teve contato com grupos humanos numerosos, e com conhecimento técnicos bem avançados, inclusive fazendo uso de uma agricultura relativamente desenvolvida. Teria pertencido a um grupo de uma tradição cultural complexa, que já contava com uma grande variedade de recursos materiais, utensílios, instrumentos, ferramentas e armas. Talvez tenha sido a herança destes conhecimentos, que lhe tenha permitido sobreviver por tanto tempo em um mundo tão inóspito, e ainda criando praticamente só, uma filha. Esta que sempre fora uma excelente observadora, não apenas do que a sua volta estivesse, mas às infinitas falas a que se dedicava à mãe.

Sentia muita falta dos diálogos que travava com a mãe, pois sua fala sempre lhe pareceu um longo fio a se desenrolar de um baú sem tamanho, repleto de ricos e vastos conhecimentos e mistérios que diante de seus ouvidos atentos iam se revelando. Como aprendia com ela. Além disto, prestava muita atenção em cada fonema, na articulação de cada som, como uns se encaixavam aos outros, gerando uma fala melodiosa, que na maioria das vezes, a levava ao encantamento. A mãe, apesar de toda a rusticidade que era a vida, possuía uma voz bela e suave, a comprovar o desenvolvimento deste rico instrumental corpóreo, já naquela ocasião. Pela manhã, aquela voz a animava, enchendo-lhe de energia e entusiasmo para o dia que estava por iniciar. Noutros momentos, assumia um tom metódico, como quem carrega a preocupação pela responsabilidade de ter um mundo inteiro a ensinar, bem mais multidisciplinar, que nossas mentes contemporâneas, tão habituadas à especialização do trabalho e dos saberes, nos permitem dimensionar. Ao fim do dia, quando vinha a tarde, a noite, a lua e uma multidão incontável de estrelas encobriam o planeta, sua voz tornava-se poética, musical. Eram experiências que ela nunca mais se esqueceu.

Não havia algo que deixasse a mãe mais orgulhosa que constatar a eficácia de seus ensinamentos ou métodos. A filha às vezes, parecia até superá-la, pois além do conhecimento e informações que absorvia, era de uma percepção exagerada. As manifestações e conversas da filha eram muitas das vezes, surpreendentes. A mãe acabava por fazer descobertas, indagações, reflexões, que sequer havia imaginado em seus tantos anos de vida. O mundo ainda estava por descobrir, e naquele ambiente ainda meio selvagem, meio bárbaro, duas cabeças teriam mais utilidade que uma, em um cenário sempre pronto a apresentar novidades, revelações e perigos. Mas alegria maior foi quando a filha, passou a dominar não apenas as habilidades técnicas, mas as técnicas e habilidades da fala. Quando a garota pronunciava o rol de palavras que agora também lhe pertencia, os olhos da mãe se enchiam de encanto e o coração apertava de alegria. Não eram raras às vezes, em que a mãe chorava ao ouvir o que a filha tinha a lhe dizer.

Mas a vida havia mudado. Os tempos eram outros. Já havia alguns anos que vivia só a perambular pelos sempre novos caminhos que seus incertos passos vinham lhe abrindo. Praticamente havia feito a opção de estar a só. As poucas gentes que conheceu em suas andanças, acreditava, não eram daquelas a que talvez valesse a pena compartilhar os dias e os destinos. Os poucos contatos humanos mais contínuos, nada além de alguns poucos dias, que manteve desde a morte da mãe, mais a aprisionavam do que possibilitavam a meta a que havia traçado, sobreviver, e conhecer o quanto mais pudesse sobre o mundo que se abria aos seus olhos e a seus passos largos. Não que fizesse questão de evitar os outros humanos, que raramente lhe atravessavam o caminho, mas os poucos que encontrou não lhe motivaram a estabelecer o que poderíamos chamar de vida em grupo, quando muito, ou no mínimo, uma vida a dois. Era detentora de um rico universo cultural, herdado da mãe e aguçado pelos seus selvagens instintos, que lhe proporcionava um firme senso de autonomia e um pleno gosto pela liberdade. No fundo, não era lá muito afeita a criar amarras, pois sentia ter um vasto mundo ainda a conquistar. Já era de sonhos nossa personagem. A vida não era desprovida de perigos, mas a região, em contrapartida, era muito rica em frutos, dádivas da terra, das águas, e o clima era ameno e parecia estar a serviço de uma vida longa. Não havia paragens onde não pudesse se alimentar à vontade. Frutos de todas as formas, arredondados, achatados, lisos, com espinhos, sobre árvores altas, no mato rasteiro, em todas as partes, que levavam consigo todas as cores que a natureza pôde inventar. Doces, azedos, nutritivos, dos que curam, dos que matam a sede, os que fartam os estômagos, os que enchem os olhos. Alimentos prontos que a terra não cessava de ofertar. A rica e variada dieta havia deixado seus cabelos sedosos e fortes, por mais que a longa exposição ao tempo tivesse a chance de danificá-lo. Era daquelas fêmeas que enchiam os olhos de qualquer macho, entre os velhos ou novos, dos mais fortes aos mais fracos, mesmo daqueles que por sorte, naqueles tempos, matinha-se em dia com suas demandas sexuais. Imagine os desejos e impulsos que algumas vezes tinha que enfrentar, principalmente quando se encontrava com homens sedentos que há muito não viam uma mulher passar diante de si, numa época, em que a humanidade não era lá tão vasta, e onde enquanto muitos eram caçadores, outros tantos eram ainda simplesmente caça. A moça possuía um rico arsenal de pontas de pedra, machadinhas, raspadores, facas e pequenas lanças, os quais estava sempre a amolar, e os manejava com tanta habilidade e rapidez, que garantia não apenas apetitosas refeições, como também sua sobrevivência ante alguns bandos de famintos sexuais. Como já dissemos, muitos desses encontros resultavam em machos estropiados, esfaqueados, que a garota na luta dura pela sobrevivência, degolava quase sem dó. Era dotada de uma força descomunal. Em muitas das ocasiões o enfrentamento, o corpo a corpo fazia-se desnecessário, pois aprendera com o tempo, a domar o inimigo com os olhos. Lançava sobre eles um tão fulminante olhar, que muitos punham as pernas a tremer, e quando não, disparavam a correr assustados, atormentados, sem saber se de fato, tinham visto uma mulher, ou um animal feroz e mortífero, do qual ainda não haviam encontrado.

Por muito e muito tempo viveu isolada, sem contatos com outros dos seus. E diante do silêncio de sua solidão, passou a ouvir os sons do mundo, como pouquíssimos até hoje talvez tenham ouvido. De início, vinham-lhe aos ouvidos, a voz da mãe. Aparecia assim de repente, e parecia repercutir pelos cantos do mundo, repetindo-se em ecos. Nunca conseguia identificar ao certo o que dizia a voz. Mas era a voz bela e suave de sempre, que cantava aos ouvidos e ao mesmo tempo, parecia espalhar-se pela eternidade. Em seguida, ouvia a sua própria, sem que abrisse a boca. Talvez a mesma voz que tinha, quando ainda era uma criança. Nestas ocasiões testava suas cordas vocais para certificar-se que assim como seu corpo havia se desenvolvido, tornando-se tão bela mulher, sua voz também tornara-se estranha aos seus próprios ouvidos. Aí é que percebeu o quão calada havia estado por alguns bons anos. Esta súbita percepção acabou lhe causando algum desconforto, pois pouco usava a voz que tinha. Na ausência de uma família, círculo de amigos, ou um companheiro, resolveu que a partir daquele dia, iria comunicar-se, expressar-se pela fala, com os fenômenos e as coisas vivas, que encontrasse pela frente. Iria a partir dali, relacionar-se vocalmente não apenas com os peixes, as aves, répteis, mamíferos, insetos, com os quais topasse pelo caminho, mas também com o ruído dos ventos, o esgoelar das tempestades, as melodias das florestas, o canto das águas. Daria voz à voz que tinha, e o que se emudecia, iria tornar-se um vasto depósito de sons. E assim se fez. Às vezes, permanecia calada e se punha, silenciosamente, a ouvir. Aprendia a cada dia, os códigos sonoros da natureza, os quais costumamos imaginar secretos, mas só o são, em função da nossa intolerância em querer ouvi-los, desvendá-los. Mesmo porque, a vida nas cidades, que muito posteriormente se desenvolveram, em nada facilitava este contato, muito antes pelo contrário. Os ruídos e as luzes das grandes metrópoles impedem hoje, não só que ouçamos o que tem a terra a nos dizer, como sequer nos permitem lembrar as estrelas radiantes ad infinitum que brilham sobre nossas cabeças. Descobriu a música que havia guardada em cada ambiente, em cada ser que dela se aproximava. Primeiro ela os fitava, olhos nos olhos, depois trocavam sons, sinais. Desenvolveu um universo de códigos sonoros que se sofisticava a cada nova experiência, que poderíamos já chamar de interativa. Ao longo dos anos parecia falar com os trovões, com as flores que se abriam, e talvez por isso mesmo, se abrissem mais belas, entoou o canto dos pássaros, que admirados, passaram, em várias ocasiões, a lhes fazer companhia. Nestes momentos, uma verdadeira sinfonia paralisava todos que carregassem seiva, sangue ou alma. O mundo parava a ouvi-los. Ao se banhar nos córregos cristalinos que atravessavam as terras que ainda não eram territórios, cantava, cantava, como se estivesse a encarnar, o que poderia ter sido uma sereia. Projeto da natureza, quem como hoje sabemos, acabou por não vingar. Alguns pássaros e pequenos mamíferos, muitas das vezes, costumavam acompanhá-la por algumas léguas, presos ao seu canto, até que as novas condições ambientais, de terras desconhecidas, ameaçassem sua sobrevivência, e aí acabavam por abandoná-la. Mas sempre, por onde passava, parecia conquistar a simpatia dos bichos e o sorriso dos céus. Mesmo estando só, parecia nunca o estar. E cantava pelos caminhos afora.

Numa fria manhã em que o céu estava completamente azul, como se alguém houvesse levado para sempre todas as nuvens do firmamento, despertou subitamente, e como se trouxesse algo dos sonhos, que talvez ainda não tivessem de todo se desfeito, decidiu que naquele momento mesmo, executaria uma idéia que parecia ter vindo pronta, sob encomenda. Animou-se. De um salto, levantou-se de sua cama de folhas e ramos, nas quais nunca pernoitava por muitas vezes. Catou galhos de árvores, troncos caídos, cipós, folhas com diversas consistências e envergaduras, deu nós, esticou daqui, puxou dali, amarrou cortou, aparou, e começou a montar o que hoje chamaríamos de instrumento musical. É uma parte difícil da história, pois desconhecemos os detalhes de como este instrumento primordial se fez ou sequer podemos imaginar que tipo de som ele foi capaz de produzir. A moça o admirava com os olhos de quem havia realizado qualquer espécie de mágica e com um considerável instinto religioso. E ficava a imaginar como teria conseguido fazer aquilo. Mas uma coisa é certa: o som daquela coisa, que ora mais lembrava um instrumento de corda, ora um instrumento de sopro, associada aquela voz, agora talhada, afinadíssima, criou algo, que chamaríamos de encantador. Quando soavam os acordes, e aquela voz se propagava no ar, a vida parecia um concerto, o mundo girava harmoniosamente, e a acústica da atmosfera, ressoava-a pelo infinito. Era de fato, um canto poderoso. Infelizmente não havia naquela época, gravadores ou qualquer parafernália tecnológica que pudessem registrar esta música para a posteridade, pois por onde passava aquela moça, seu canto enchia o silêncio de alegrias, e os homens ficavam de bocas abertas e ouvidos estatelados. Devemos registrar que o desenvolvimento desta rica habilidade artística da jovem a poupou de muitos conflitos violentos. Se no passado a moça se livrava dos perigos utilizando inicialmente as armas, e posteriormente até um olhar, acabou por afastar praticamente todos eles, com a música que entoava, com os códigos sonoros do mundo, um instrumento musical único, e aquela voz, como ainda não havia se ouvido. Até os mais selvagens dos instintos animais acanhavam-se em atacar o que lhes parecia incrivelmente belo e prazeroso. Fazia-se mais feliz a vida naquelas paisagens.

Era outono. Numa manhã qualquer, daquele longínquo passado, ao atravessar pela primeira vez, uma infinita planície que se abre após um longo emaranhado de colinas e penhascos, avista ao longe, quase imperceptível, não fossem seus olhos atentos, uma crescente nuvem de poeira, que mesmo distante, parecia se aproximar a cada momento. Paralisa-se. Ainda não havia visto aquilo. O que seria? Um novo fenômeno que a criativa natureza estaria agora a lhe apresentar? Efeito de ventos, tufões, tempestades? Ou eram seus olhos que se ofuscavam diante o clarão do dia, que se refletia das pedras do chão? A nuvem se aproxima. Após um estado de paralisia, que prendeu seus pés firmemente ao solo, agora sente todo seu corpo tremer, dos pés à cabeça. Um repentino calafrio lhe sobe a partir do estômago, o coração acelera as batidas, e o sangue dispara apressado pelas veias. No vasto campo em que estava, o encontro com o desconhecido que se aproximava parecia ser inevitável. Praticamente não havia onde se esconder. Agacha-se por trás de uma trincheira de pedras, e procura forçosamente identificar o elemento estranho que avança rapidamente. Percebe que à frente a cortina de poeira de que se levanta, movimentam-se num ritmo frenético, sombras e luzes, como que a alternar-se. Vem a galope. Seus olhos por fim, começam a delinear a paisagem que se forma apressada. Homens, muitos homens, e muitos cavalos. Nunca os vira, tantos, sejam os homens, sejam os cavalos. Muito menos que montassem uns sobre os outros, e sobre eles tivessem tanto controle e domínio. Os cavalos vinham montados, e incrivelmente alinhados, em quatro fileiras paralelas. Cada uma delas, com cerca de oito homens e oito cavalos. Sentia que o corpo lhe tremia, não era à toa. Correr pela planície, em busca de um abrigo, que provavelmente não encontraria naquelas terras abertas em que penetrara, iria torná-la um alvo fácil. A alternativa seria ficar por ali, e torcer para que o perigo passasse, sem que desse por ela. Sabia que não seria fácil. Deveria encolher-se, calar-se, e evitar qualquer ruído. Assim permaneceu, sem se mexer. Mas seus olhos se arregalavam cada vez que percebiam mais detalhadamente os traços dos visitantes, que a distância escondia. Já havia visto de quase tudo, nestas longas andanças a que havia se entregado. Mas uma formação de homens, cavalos, insígnias e metais, que ora vislumbrava, deixavam-lhe atônita, pasma. O esconderijo que havia encontrado não lhe seria suficiente, estava praticamente a descoberto, por mais que se encolhesse, as pedras não eram grandes o suficiente, e nem possuíam uma formação contígua, que pudesse oferecer-lhe proteção. Mas não perdia aquela tropa de vista. Seus olhos sequer piscavam. Observava cada detalhe. Assustava-se. A organização das fileiras, a velocidade dos animais, o controle de uns sobre os outros, a montaria, os penachos coloridos, que ornavam os corpos, sejam dos bípedes ou dos quadrúpedes, traziam-lhe cada vez mais apreensão. Além do mais, não tinham cara de bons amigos, afinal possuíam uma organização protomilitar, e não pareciam estar em missão de paz. Mais uma vez, pareciam ser mais dóceis os cavalos do que os homens, como em muitas outras ocasiões, já tivera a oportunidade de perceber. A dureza daqueles rostos, em conjunto, galopantes, proporcionavam-lhe uma peculiaridade única, uma natureza férrea, um espírito de pedra. Ostentavam armamentos poderosos, talvez os mais sofisticados que existissem à época. Grandes lanças pontiagudas, afiadíssimas, que os guerreiros portavam com ostentação. Facas, punhais, adagas, todas feitas de um metal, pronto para sangrar, cortar, perfurar, causar dores e sofrimentos sob as mais variadas modalidades. Os homens deixavam-nas à mostra, não apenas para que ficasse mais fácil e rápido seu uso, quando se fizesse necessário, mas também como demonstração ostensiva de força. Às vezes, apenas o medo que impunham, ante a superioridade bélica que apresentavam, já era o suficiente para dobrar o inimigo. O poder parecia tornar-se uma espécie de espetáculo. Levavam às cabeças, elmos ricamente confeccionados, que variavam de tamanho e requinte, conforme a posição que os guerreiros ocupavam em suas fileiras. Os que vinham à frente, portavam elmos de ouro, incrustados com as mais preciosas pedras, que vinham de domínios distantes. Uma larga armadura de bronze protegia seus tórax de qualquer infortúnio, como uma lança de algum grupo inimigo, ou uma flechada, daqueles que viviam ainda, a idade da pedra. Os braços eram cobertos com placas de metal, minuciosamente moldadas com símbolos, gravuras, códigos, que nossa personagem, assustada, sequer poderia imaginar do que se tratasse. Até os cavalos carregavam ornamentos, plumas, distintivos, tornozeleiras, dando mostras claras, que já há mais tempo que se imagina, estas pobres criaturas, já haviam sido subjugadas, pela natureza humana. Os que vinham aos fundos possuíam vestimentas mais modestas, mas ainda assim, vinham armados até os dentes. E não eram raras as situações em que tinham que assumir posições dianteiras, principalmente, quando eram maiores os riscos, mais sanguinários os conflitos e lutas, pois aí deveriam sacrificar-se para poupar o sangue e as vidas de suas lideranças, que passavam a proteger-se na retaguarda.

Por mais que se enroscasse entre as pedras em que se escondia, não foi capaz de escapar à observação vigilante do bando. Ao vê-la, o que ia a frente fez um sinal. Em seguida comunicou-se numa língua, que lhe era completamente desconhecida. O grupo, de uma só vez, como se fosse um único corpo, parou. Aí pode perceber melhor o agrupamento. O homem que ia à frente, o que a havia visto primeiro, era a autoridade maior, o que se podia perceber não apenas em função da relativa exuberância dos trajes, como através do tom da sua fala, que mais estava para gritos, do seu nariz em pé e seu ar de superioridade. Era ainda nítido o olhar de submissão do restante do grupo. Os que iam mais próximos ainda lhe dirigiam a palavra e trocaram breves opiniões. Os que vinham aos fundos, sequer encaravam-no nos olhos. Mas ainda assim, pareciam orgulhosos, de peitos inflados, convencidos, que eram de fato, peças importantes da missão. Lá bem atrás dos últimos homens a cavalo, o que só agora podia ver, havia um grupo de cinco homens feridos, amarrados uns aos outros, pelos braços, pernas e pescoços. Prováveis escravos ou prisioneiros de guerra. Era um mundo desconhecido para ela. Os homens encaram-na com olhos de desejo e os que iam mais à frente, se preparam para pular dos cavalos e irem ao seu encontro. Pareciam ter pressa em tocá-la. Quando as coisas caminhavam rumo a uma fatalidade, ela então resolveu recorrer ao recurso que tantas vezes já lhe havia salvado. Controlou o medo que insistia em estrangular-lhe a garganta, buscou encher de ar seus pulmões, como a revitalizar as energias, molhou os lábios, e pôs-se a cantar . E ao cantar, fez-se forte. Sua voz repercutia ao longe, quase a preencher o espaço. Aves coloridas sobrevoaram suas cabeças cortando o céu, respondendo ao clamor daquele canto, as nuvens suavemente se abriram, deixando mais claro aquele momento, uma sinfonia de luzes e notas musicais insistia em dominar o mundo. Os homens contiveram seus passos. Enquanto ouviam aquele canto permaneciam inertes, paralisados, como estátuas. Seus olhos grudavam-se nela. Sequer arriscavam-se, num primeiro momento, a olharem uns para os outros, como se não quisessem perder um segundo sequer, daquela melodia, que certamente, ressoaria para sempre nos recônditos de suas mentes, em lembranças e memórias. O céu se abria e fechava, como se tivesse a encher de efeitos especiais algum espetáculo da natureza. Os homens arrefeceram seus ânimos. Aos poucos, a musculatura e os nervos dos corpos relaxavam ante a música que invadia os ouvidos. Suas feições tornaram-se menos duras e tensas. Naquele breve instante, sentiam-se magicamente descontraídos e felizes. O comandante em chefe arregalou os olhos, como se estes fossem saltar de suas órbitas. Quem por ali passasse, poderia imaginar que aquele amontoado de homens e cavalos, já há muito fora de seu tradicional alinhamento, fosse um grupo de perdidos e desorientados. Como se não apenas houvessem se esquecido para onde iam, mas também de onde haviam acabado de vir. Não arriscavam uma palavra qualquer, continham as tosses, pigarros e espirros, pois de alguma forma, aquele canto mantinham-nos em estado de graça. O comandante em chefe arrisca dois passos, afinal, tem que mostrar aos subalternos, que ainda é dele a iniciativa naquele lugar. A música chega ao fim. Ela abaixa os olhos e uma nuvem escura ofusca o sol, subtraindo o excesso de luzes que iluminava aquele episódio. Um vento forte faz revoar as crinas, os rabos dos cavalos, as plumas, penachos, estandartes, e os cabelos dos homens presos entre couraças e laços, parecem querer arrancar de suas metálicas cabeças. Os cabelos da moça taparam seus olhos, como se quisessem ocultar-lhes o destino. O comandante em chefe dá ordens para que se afastem os outros. Arranca o elmo e a placa de bronze do peito, faz baixar a guarda e aproxima-se lentamente dela. Ela fita-o, imóvel. Procura manter as batidas do coração que estão a estourar-lhe o peito. O homem aproxima e toca o seu corpo, suas mãos percorrem cada curva, como a conferir os detalhes das dimensões e formas. As mãos acariciam seus cabelos, correm pelo pescoço, alisam seus seios e tocam suas intimidades e entranhas. Devido à presença de seus homens, que o observavam de longe, achou inadequado possuí-la ali, não só por considerar que estas intimidades e taras não devem se revelar aos olhos dos subalternos, como havia ainda o risco de estimular desejos contidos, a libido daqueles homens de ferro, que poderia despertar paixões, que viessem alterar o rumo da história, quebrar a ordem das coisas. Seria melhor não se arriscar. Resolveu levá-la para si.

A moça esperneou, gritou, arranhou, mordeu, mas não pode com a força daqueles brutamontes. O instrumento musical, que chegou a usar para tentar proteger-se, acabou partindo-se em vários pedaços e ficando para trás. Eles amarraram-na e o comandante em chefe decidiu que aquela fêmea seria dele, fruto de uma vida de conquistas e expropriações. Um espólio de guerra, um troféu. Assim o fez. Fez questão, ele mesmo, de levá-la em seu próprio cavalo, por sob suas garras. Após uma cavalgada de algumas poucas horas, finalmente chegam ao destino. Estavam de novo em casa. Viviam estes homens, num estágio civilizatório, onde não apenas dominavam as artes dos metais, como já conheciam a propriedade privada. Possuíam vastos campos cultivados e fartos rebanhos que pastavam às margens de um caudaloso rio. Para garantir seus territórios, não apenas mantendo-os, mas ampliando-os, recorriam sempre à guerra. Talvez fosse mesmo sua maior especialidade. Os saques e pilhagens eram parte de seu ofício. Acumulavam luxos e tesouros. Os trabalhos pesados com as plantações, com a foice, enxadas e facões eram dados a homens muito maltratados que eram, na maioria das vezes, capturados nas incursões militares. Aos quais restava ainda o trabalho nas construções, nas oficinas, estalagens, as tarefas domésticas e as bajulações a que faziam questão os seus senhores. Estes, fora a guerra, se é que assim realmente podemos chamar, o que mais se constitui em assaltos organizados, dedicam-se vez ou outra às caçadas, o que muito contribuiu para o espírito guerreiro daquelas elites primitivas. Mas de volta às suas terras, gozam uma vida de prazeres, com muita festa, bebidas, orgias e farturas.

Caso alguém que a conhecesse em outras circunstâncias, a visse presa naquele local, jamais imaginaria ser a mesma pessoa. Suas mãos estavam trêmulas, a face pálida, como se o sol não mais se pusesse a pino. Os olhos pareciam encharcar-se irremediavelmente. É como se a história houvesse passado rápido demais diante deles. O comandante não tinha pretensões de deixar-se livrar de sua mais nova conquista. Manda os escravos construírem uma grande gaiola de ouro, onde iria mantê-la, quando não estivesse por perto. Naquela primeira noite, ele a leva para um cômodo, repleto de aromas e decorações, um lugar luxuoso e confortável, com tecidos finos, lençóis e almofadas, confeccionados para redimensionar os prazeres. Ela mantem-se calada, encolhida. O odor daquele ambiente, somado ao suor daquele homem sobem-lhe as narinas, causando-lhe náuseas. Falavam línguas estranhas e não lhes parecia haver comunicação possível. Causava-lhe nojo as palavras, que não queria compreender. Ele tornava-se indelicado no gesto. Ela não lhe emprestava o olhar. Atirou-a sobre a cama, arrancou o manto que lhe fazia as vestes, e penetrou-a, abruptamente. Ela sangrou. Fez-se escrava. Ele exigiu que cantasse pela manhã. No dia seguinte, mostrando a eficácia, que o comandante exigia de seus artesãos, sua gaiola estava pronta, dourada, entre a cama e a janela do quarto. Ele não tinha dúvidas de que era ali que deveria mantê-la. Ali ela passou o resto de seus dias, mas a voz e o canto nunca mais lhe saíram à garganta.




Marcos Vinícius.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Brincam os garotos.


Brincam os garotos


Estavam reunidos os três, já entediados com suas brincadeiras rotineiras, quando resolveram encontrar uma forma de conhecerem melhor aquele vizinho da rua ao lado, que há pouco menos de um ano havia se mudado para a região. Afinal, parecia um sujeito simpático, e certamente, talvez trouxesse algum novo brinquedo ou algo, no mínimo, diferente, daquela terra distante, de onde sequer, haviam ouvido falar. O maiorzinho, ainda insistia na forra daquelas bolinhas de gude, que havia perdido no dia anterior, para o mais novo deles, que por sua vez, preferia já o jogo de cartas, que muito o fascinava, com seus reis, valetes e rainhas. O do meio insistia em que deveriam no dia seguinte, convidar o novo vizinho para um jogo qualquer. O sotaque que o recém-chegado trazia, despertava mesmo a curiosidade nas redondezas, onde a maioria das pessoas, principalmente os mais jovens, ainda não tinha visto aquilo. Sabemos o quanto a convivência com quem vemos como diferente, estranho, curioso, pode nos fascinar ou proporcionar graves incômodos, pelas mais diversas razões. Os garotos então, resolveram, que iriam, no outro dia, ainda pela manhã, à casa daqueles forasteiros, não só para conhecê-los, e mais ainda, para tentar conhecê-los melhor que qualquer outro na vizinhança. Feito.

Logo cedo, se encontraram e se dirigiram à casa do menino. Pelo caminho, discutiam os três, qual seria a melhor estratégia, para melhor conhecer o convidado. O que ia à frente, o mais alto, sugeriu, que de início, perguntassem de onde havia vindo, falariam um pouco de suas vidas e preferências, e depois pediriam a ele, enfim, que falasse da sua própria. O que ia ao meio, sugeriu que deveriam tentar, no mesmo dia, entrar em sua casa, conhecer seu quarto e seus brinquedos. De quebra, poderiam conhecer parte da família, aquela irmã bonita, que muito desperta a atenção dos rapazes, e aquele cachorro esquisito, cuja raça, nunca haviam visto por estas bandas. O caçula desaconselhou as propostas dos colegas, dizendo que com idéias como estas, iriam assustar o garoto, e aí perderiam, não apenas a viagem, mas também a oportunidade. O que faremos, então? Indagaram os outros. A idéia do menino era convidá-lo para uma brincadeira, onde estivesse em suas mãos o destino dos outros, por que aí, imaginava, discutiria com eles, nas entrelinhas ou explicitamente, o que do outro mundo, que fatalmente desconheciam, ele trazia consigo. Mesmo não entendendo muito bem, o que pretendia com tal sugestão, e olhando meio desconfiados o pirralho, resolveram apostar na idéia e ver no que ia dar. Afinal, a perspectiva de possuir algum poder, mesmo que de brincadeira, para muitos, pode ser mesmo algo irresistível, irrecusável.

O garoto topou a brincadeira, que consistia no seguinte: durante aquele dia, enquanto juntos estivessem, ele seria responsável pela sobrevivência do grupo, não que tivesse que mantê-los, diríamos, as suas custas, mas deveria ser a liderança capaz de criar alternativas, para que todos, sob seu controle pudessem não só ter um dia melhor, mas se divertirem com as novidades que o novo colega, certamente conhecia. Era a idéia original. Como se naquele dia, tivesse sido eleito para a função de rei, o líder entre eles. Queriam conhecer os garotos os hábitos da terra mágica da qual acreditavam ter vindo o vizinho. O garoto, ao entender então, o convite, entusiasmou-se, pediu um minuto, e imediatamente voltou, com uma blusa um pouco mais nova, que já algum tempo, estava pendurada no cabide. Pegou um velho distintivo que guardava na gaveta e aprumou-o ao peito. Passou rapidamente pelo espelho e sentiu-se maior, seus olhos estavam cheios. Inexplicavelmente, sentiu-se corar. Mas por que diabos estavam os garotos a lhe fazer tal convite? Mas não se fez de rogado, e afinal, também estava disposto a se divertir, além do mais, aqueles três não eram lá o que se possa chamar de ameaçadores, e já os havia visto sempre por aí, pareciam mesmo serem boa gente, e tinham os moleques, jeito de bem intencionados. O rapazinho não quis perder tempo. Desceu correndo as escadas e reencontrou os vizinhos.

Ao certificar-se que de fato, os garotos não iriam lhe causar qualquer tipo de mal, teve repentinamente uma idéia. Lembrou-se da nota de cinqüenta que há uns dias guardava em um pequeno livro de cabeceira. Pediu aos novos colegas mais um minuto, rapidamente correu até a casa, e sem que o vissem, meteu o dinheiro no bolso. Voltava feliz e animado. Ao longo de um dia inteiro, ele se divertiu. Quem estivesse observando de longe, talvez imaginasse que fosse o exemplo do bom amigo e do espírito de solidariedade. Gastou quase a totalidade do dinheiro que levava no bolso com os três. Pagou sorvetes, pipocas e refrigerantes. Um brinquedo no parque para cada um deles. Mas a façanha, porém, não saiu de graça para os outros. Ele os fez pagar, ainda que não lhes cobrasse qualquer dinheiro. No entusiasmo que a circunstância lhe apanhou, praticamente reinou de fato, sentiu-se grande. Os garotos acabaram, a contragosto, se subjugando, pois não era todos os dias que alguém lhes custeava tamanhos prazeres, e além do mais, havia sido deles, a idéia. O rapazinho, em contrapartida, lhes cobrava todos os tipos de mimos e bajulações. Deveriam os garotos carregá-lo aos ombros, limpar os seus restos, tirar-lhe a poeira dos sapatos. Era a regra. O pacto. Afinal, cabia a ele, dar as ordens, que vinham muitas das vezes acompanhadas de gritos e safanões, pois acreditava que tais arrogâncias eram parte do papel que lhe fora atribuído. Por fim, divertiu-se o garoto, os novos colegas resignaram-se, e na carência de dias melhores, resolveram subestimar a humilhação. O dia terminou. O forasteiro jamais iria esquecê-lo. Os meninos nunca mais lhe bateram à porta. Por muito tempo se perguntaram se teria sido o mesmo garoto, se o convite fosse outro.



Fim.


Marcos Vinícius.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sobre a mentira


Sobre a mentira



No dia 18 de setembro de 2008, José Saramago, publicou em seu blog um artigo, onde afirmava que “George Bush expulsou a verdade do mundo para, em seu lugar, fazer frutificar a idade da mentira. (...) honra lhe seja feita ao menos uma vez na vida, há no robô George Bush, presidente dos Estados Unidos, um programa que funciona à perfeição: o da mentira. (...) A sociedade humana actual está contaminada de mentira como da pior das contaminações morais, e ele é um dos principais responsáveis. A mentira circula impunemente por toda a parte, tornou-se já numa espécie de outra verdade. (...) a mentira como arma, a mentira como guarda avançada dos tanques e dos canhões, a mentira sobre as ruínas, sobre os mortos, sobre as míseras e sempre frustradas esperanças da humanidade”.


Após ler estas palavras, voltei a relê-las outras tantas vezes, fiz cópias, distribui entre pessoas mais próximas e colei-as em alguns poucos lugares públicos. Desde então, as palavras não mais me saíram da cabeça. Nunca imaginei poder encontrar definições tão exatas, não apenas sobre a roupagem da qual se traveste a mentira em nossos tempos, mas também como se configuram estes mesmos tempos a partir das mentiras que carregam e são. O autor abre uma perspectiva, fundamental, para que possamos compreender um pouco mais profundamente não apenas o mundo em que vivemos, coabitamos, mas também, a humanidade que somos. O fenômeno da mentira, não das pequenas mentiras, mas das mentiras grandes, aquelas que arrastam povos inteiros, ceifam vidas, criam ódios e guerras, vai se tornando um elemento cada vez mais comum, repetitivo, sistemático das bases de nossa civilização global. As grandes mentiras, se observarmos bem, cercam-nos a todos, em uma tendência mundial.


A mentira, enquanto fenômeno, encontra-se tão disseminada, que por mais que sejamos atentos, estamos sempre a ser enganados. Os veículos das grandes mentiras são muito poderosos e viajam pelo mundo com blindagens indestrutíveis, a serviço de negócios inconfessáveis, geralmente em defesa de interesses de governos ou das grandes corporações privadas, dos setores financeiros, dos oligopólios. A mentira tornou-se estrutural. Jamais poderia imaginar que as brincadeiras de infância, associadas ao inocente primeiro de abril pudessem esconder uma perversidade absoluta, em que poderia a mentira se transformar. Vivemos sob a ditadura da mentira. Quem pode acreditar nos discursos dos governos? Os governantes de plantão, geralmente a serviço do grande capital, transformados em gerentes e marqueteiros, querem nos fazer acreditar que mergulhamos nos melhores dos mundos, quando nos afogamos, populações inteiras, em desempregos e misérias. Querem nos fazer acreditar que não há outras alternativas, que não as deles, ou dos interesses escusos, onde muitos, são testas de ferro. As grandes organizações e organismos multilaterais fundamentam-se sobre princípios de falácias e engodos.


De certa forma, a mentira acaba por criar uma nova estrutura de poder e uma nova cultura também. Tornou-se recurso universal, imprescindível de quem detém algum poder de fato, sejam os poderes maiores, em escala global, sejam nos níveis intermediários, ou nos níveis mais individualizados e próximos, onde um indivíduo está para exercer o poder sobre o outro. É como se a mentira funcionasse como um amplificador de poderes, pois quando estão a mentir, e tem o domínio, a mentira passa a ser a verdade, sobre a qual tem o controle. Os grandes veículos de comunicação mentem o tempo todo, enganam as crianças, enganam a nós, com suas meias verdades, omissões previsíveis, táticas, distorções, deturpações, ilusões fáceis. Querem transformar a todos em dóceis consumidores, nada além de força de trabalho e consumidores de entulhos e supérfluos, não-pensantes. Querem transformar-nos em massa de manobra, currais eleitorais, e compradores da fé. Descobriu-se o quanto pode se lucrar com a mentira e ela fez-se grande, disseminou-se. Há saída? É o que devemos buscar. Talvez um bom começo seja recusando-nos a sermos cúmplices, descosturando a cada dia o manto que caiu sobre nós. É necessário estarmos de olhos abertos, tatearmos nas trevas, para perceber que as maiores mentiras são as que nos apresentam como as únicas verdades ou para descobrir a verdade que há por trás de uma grande mentira. Não dá para cochilar. Obrigado Saramago, por manter a vigília.


Marcos Vinícius.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Breve viagem à Diamantina.




Breve viagem à Diamantina.


Existem ocasiões que exigem ser, de alguma forma, retratadas, seja para que possamos sempre voltar a contemplá-as, seja para guardar alguma memória de nós mesmos, para que possamos, posteriormente, lembrar de quem fomos um dia, ou quem sabe, para que possam lembrar de nós, quando por aqui já não mais estivermos. Existem ocasiões que exigem algo além das fotografias. Não que estas não sirvam para nos trazer as boas ou as más recordações, mas que podem não ser o bastante, quando se pretende recorrer não só às lembranças visuais, mas também aos sentimentos e sensações que se teve, ou pelas quais se foi tomado, quando se conheceu alguma nova localidade. Após a viagem à Diamantina, cravada na Serra do Espinhaço, torna-se irresistivelmente tentador transformar em linhas de palavras, a trilhas percorridas, entre as montanhas, serranias, cursos d’água, rastros do passado, que magicamente vão se abrindo diante de nossos olhos, admirados. É como se não se tivesse sossego, diante dos fatos que não querem se dar por esquecidos, e que exigissem de nós que os registremos além das fotos de nossas câmeras digitais. Escrever sobre uma viagem é não só revivê-la, de forma intensa, mas também recheá-la com novos significados, redescobrindo-a.


Natural, mineiros que somos, que fiquemos, quase todos, maravilhados diante da beleza inigualável do mar e do calor das praias e das cidades litorâneas. É comum, principalmente, em períodos de férias, deslocar-se uma fatia bastante significativa da população do Estado, para as paradisíacas praias que se estendem por todo o litoral brasileiro. A grande peregrinação dos mineiros ocorre no verão. As estradas, vias de acesso ao litoral do Espírito Santo e Bahia, para não se ir mais longe, ficam ininterruptamente entupidas, os acidentes automobilísticos se contam aos montes, resultado não só da imprudência dos motoristas, mas de uma demanda do mercado, com seus carros velocíssimos, e rodovias, completamente entregues aos buracos. É plenamente compreensível, no entanto, o desejo pelo mar, com sua espuma, que nos roça freneticamente os pés, e suas ondas que nos levam ao deleite. Quem não quer estar à beira-mar, curtindo o sol do verão, tomando uma cerveja gelada, ouvindo o quebrar das águas, o canto das sereias, e o rebolado das ninfas, que seminuas, desfilam com suas tatuagens coloridas, os seus piercings, com os cabelos ao sol e ao vento? Mas o que muito me impressiona, é como muitos destes cidadãos, que a cada ano lotam as praias mais próximas e as mais distantes também, morrem sem nunca terem voltado os olhos para o que de tão valioso temos cá guardado pelo imenso coração da antiga Capitania das Minas Gerais. Visitar as serras que se estendem para além da Serra do Cipó, e penetrar pelas pedrarias do Espinhaço, pode ser uma viagem, da qual por mais que a façamos e retornemos, sempre por lá ficará, um pedaço de nós.



Partindo de Belo Horizonte, são muitos os caminhos e roteiros que nos introduzem nos encantos, do que pode ser considerada a única cordilheira do Brasil. A Serra é bastante longa e se estende por mais de 1000 km de extensão, sublevando os territórios de Minas e Bahia, como uma gigantesca flor de pedras, que se levanta com força da Terra, não só proporcionando aos olhos uma imagem inusitada, como se noutro mundo estivéssemos, principalmente para os marinheiros de primeira viagem, tão acostumados aos caminhos do litoral, como nos ofertam com uma infinidade de histórias, que realmente, apenas amplia a nossa condição de viajantes. São muitos os roteiros que nos permitem abordá-la, partindo aqui da região metropolitana. Nossa primeira viagem, dentre outras que virão, tem com destino, Diamantina.


Tem início a viagem. Após um percurso de cerca de 300 km, a cidade se abre, principalmente para os que ainda não a conhecem, como uma alternativa bem desafiadora, como penetrar pelos mistérios do passado, desvendar seus traçados de ruas, com seus becos estreitos, seus imensos casarios, suas pesadas portas e janelas, que tantos segredos guardaram do tempo e dos homens, sentir sua altitude, e o espírito de uma cidade, cravada no meio das pedras. Infelizmente o tempo de que dispunha era bastante exíguo, para explorar sequer uma pequena parte das riquezas que o local oferece. Não foi desta vez que pude conhecer as cachoeiras da Sentinela, do Barão, dos Cristais, da Toca, Batatal, das Fadas, do Telésforo, e também não foi desta vez, que as portas das antigas igrejas dos séculos passados, se abriram para mim. As cachoeiras não puderam ser conhecidas porque o tempo não o permitia, dado o propósito do roteiro já traçado, ambicioso, não só pelo tempo curto, mas também para uma grana contada. Quanto às igrejas, confesso que me senti um pouco frustrado. Antes de seguir viagem fiz uma lista com muitas delas como, Basílica do Sagrado Coração de Jesus, Igreja Matriz de Sant'Ana, Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, Igreja de Nossa Senhora das Mercês, Igreja de Nossa Senhora do Amparo, Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Igreja de Nosso Senhor do Bonfim dos Militares, Igreja de São Francisco de Assis, Matriz Metropolitana de Santo Antônio. Tinha como objetivo conhecer algumas delas, mas encontrei abertas apenas as portas desta última, que fica no centro da cidade, em frente à antiga morada do inconfidente Padre Rolim, hoje Museu do Diamante, sobre o qual se falará à frente, e a Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. A primeira, uma igreja imponente, teve sua construção concluída em 1932, já a segunda, como a maioria delas, data do século XVIII. O interior desta Igreja é realmente de encher os olhos. Todos os cantos do templo dão uma demonstração inequívoca da riqueza e prosperidade da época. Belíssima pintura de teto, trabalhos em talha dourada, esculturas magníficas, quadros, o corpo de Cristo sobre o altar-mor, uma arquitetura plenamente voltada ao sagrado, criam um ambiente em que os fiéis possam sentir não apenas todo o peso da onipresença de Deus, como também o luxo e a faustuosidade que os diamantes proporcionaram, o poder e grandeza, dos quais puderam usufruir alguns poucos homens. Nos fundos, um pequeno cemitério, edificado nas paredes, repletas de gavetas. Gavetas que certamente, guardam os restos, se é que ainda existem, daqueles privilegiados, que puderam comprar um território supostamente eterno, onde pudessem estar infinitamente sob a proteção dos anjos, santos e da casa do Pai. O nome dos mortos gravados nas pedras, nos mármores, são manifestações explícitas do desejo humano de se perpetuar. Os nomes lá estão, praticamente intocáveis, acompanhados das datas de nascimento e morte, com as cinzas do tempo, desafiando a brancura do mármore. São mortos antigos, e o que mais terá restado deles, além dos nomes que lemos?Infelizmente, não pude permanecer tempo suficiente na cidade para descobri-lo. Mas o que desperta mesmo a atenção nesta igreja, provavelmente até mesmo a dos mais desatentos, é a localização da torre sineira, na parte posterior, fenômeno bem original e inusitado. A explicação para o feito possui versões variadas. Uns afirmam, que por ter sido edificada a mando de Chica da Silva, ordenou que assim fosse feito, em função de uma lei que vigorava na época, que negava aos negros irem para “além das torres”. Outros dizem que assim o fez, para que o barulho dos sinos não a perturbasse, pois sua residência era bem próxima do templo. Sendo uma coisa ou outra, o que impressiona mesmo é o poder que tinha esta mulher, não só entre os homens, mas também entre as coisas da fé. Lendo depois sobre esta igreja, uma curiosidade, acaba por fazer obrigatório o retorno a ela um dia. Dizem que José Soares de Araújo, pintor do forro de teto da capela, por não ter recebido o valor combinado pela Irmandade, para a realização do trabalho, acabou por acrescentar à obra desenhos dos irmãos, com cara de ratos. Que falta faz um guia nestas ocasiões.



Um local que certamente muito impressiona todos que por lá passam, é o famoso caminho dos escravos. Na verdade, em Minas, são muitos os caminhos dos escravos. A Capitania se encheu deles quando de suas entranhas e rios, aflorava o tão cobiçado metal, que tantas mortes fez, e tanto poder construiu - o ouro. Eram os escravos, quem com suas foices e enxadas, abriam o caminho na mata, entre as serras, cortando rios, para que a riqueza pudesse circular. Foram os seus caminhos que permitiram a tão disputada corrida do ouro, pois sem os seus mortíferos esforços, como as nobrezas, os agentes da Coroa, poderiam entrar, como as pedras preciosas, ouro e os diamantes poderiam sair? De certo modo, podemos compreender que sem o seu sacrifício, dificilmente o denominado século do ouro poderia ter tanto esplendor. Hoje, no Estado, os caminhos abertos por eles, são ironicamente chamados de Estradas Reais, e apesar de servirem de fato, à época, aos interesses da Coroa, do Rei, possuem, ainda hoje, força, imortalidade e exuberância, provenientes talvez do sangue ao longo delas derramado e do sal e suor, que durante anos e anos, foi se escorrendo caudalosamente dos corpos doloridos e sendo depositados nos veios da terra devassados. Neste sentido, é muito ilustrativa a visita ao caminho dos escravos, em Diamantina, talvez o mais conhecido deles em toda a região. Trata-se de uma estrada enorme, comprida, larga e espessa, que ligava à época, Diamantina a Mendanha, toda feita de pedras, meticulosamente encaixadas umas nas outras, pelas mãos dos escravos, e fincadas numa terra inóspita em meio às montanhas. Uma estrada que mostra aos olhos mais atentos, como foi dado também aos homens, o dom de operar milagres, claro, que não daqueles que se executam com preces, orações ou rituais mágicos, mas como fruto de um trabalho árduo, exaustivo, duríssimo, e sem o recurso da parafernália técnica e das sofisticadas máquinas que temos hoje à nossa disposição quando dos grandes trabalhos de construção. Deviam as autoridades, colocar um anúncio bem à entrada da cidade “Visitem os museus, os monumentos, as igrejas, as obras de arte, mas em hipótese alguma, deixem de conhecer o caminho dos escravos”. Porque ali, naquela estrada toda feita de pedra, e com certeza, muito sangue e suor, não há como não sentir a história pulsar, pois no silêncio do tempo, o vento das montanhas parece trazer os gemidos dos pobres, que enterraram suas vidas, entre as pedras de um caminho, que talvez, sequer soubessem, onde ia dar. A marca do choro nas pedras, parece a todo o momento, em choro, querer outra vez se transformar. Todos que vão à Diamantina, deveriam ir ao local. A visita deveria ser obrigatória, incluída nos currículo de todas as instituições de ensino. Não há lição melhor não só da história local, como da história do mundo. Aqui se percebe e se sente talvez o que já se saiba, mas ainda não tanto. Poderia se dizer, que também nas igrejas monumentais, se vê muito do seu suplício, o que é correto, mas ali, a impressão que se tem é que a obra de Deus ofusca um pouco a obra dos homens. Ante o esplendor das construções e as sombras e luzes divinas, o esforço humano parece ser nada. Enquanto na estrada, os blocos de pedras são menores, interpostos uns sobre os outros, numa grande teia de rochas, com argamassa humana e incrustada no chão, os templos são construções para o alto, edificações, com gigantescos blocos de pedras, empilhados, montados a dar a dimensão dos céus e a grandeza de Deus. Se quiser sentir mais de perto, o quanto pôde ser dura a vida destas pobres bestas humanas, o caminho, além de caminho, é parada obrigatória, pois ali, mais que em qualquer outro lugar, a história parece não querer se tornar o passado. Os espíritos dos mortos parecem querer dialogar. Ao suspirarmos, ficamos à dúvida, se o fizemos nós mesmos, ou se um sussurro do tempo veio a nos contar um segredo.


Os lugares por onde passamos, passam a viver e existir também dentro de nós, mesmo que lá já não mais estejamos. Vão se constituindo em memória e como pequenas pedras de um intrincado mosaico vão formando a imagem reveladora que temos do mundo, e a imagem que temos de nós mesmos. Nunca mais seremos o que fomos, quando uma nova paisagem for descortinada, quando uma nova história for contada ou descoberta. A humanidade vai fazendo das coisas o que são, e vamos sendo quem somos, a partir do que as coisas e os lugares vão fazendo de nós. Assim é cada viagem, assim é cada canto do mundo, quando olhado de frente, à olho nu. Os lugares vão deixando suas impressões, impressionando-nos. É interessante o relato sobre a viagem feita, pois, em última instância, é uma forma de refazê-la, retê-la. Uma maneira de estarmos não-estando, voltar pelos mesmos caminhos, porém com novas possibilidades, o caminho pode então, ser visto do alto, pois visto agora à certa distância, a partir da visão do conjunto que na mente se formou, que não tínhamos quando da primeira vez. O relato acaba por abrir pois, novos caminhos nas fronteiras do nosso entendimento. Claro que nos esquecemos de muito do que se viu, mas também resignificamos o que há muito já poderia ter se esquecido. Arrisco-me a afirmar que os caminhos são não apenas as pedras e o pó que a terra levanta, as cercas esticadas, as matas rasgadas por trilhas, as indicações, as curvas, os buracos e o barro, mas são antes de tudo, o que buscamos por eles. Os caminhos que fazemos acabam por fazer a nós e, geralmente, não tem fim. Quando imaginamos que mais não há, sempre uma trilha escondida reaparece por sob os pés, uma nova direção ou sentido, sempre havendo algum novo lugar para se chegar. Por mais que andemos, nunca andamos tudo, e a Terra parece, nunca terminar.



Mas o passeio desta vez não é longo, três dias apenas, e ainda temos o que andar. Infelizmente, como já foi lamentado acima, o tempo é bem curto em relação ao que se tem por ver. E muita coisa, descobertas que não fizemos, ficará para trás, sem que possamos dimensionar a riqueza que se deixou de conhecer. Sim, em toda viagem, a gente sempre ganha pelo que então se descobriu, e também sempre se perde, por ter deixado irremediavelmente para o campo das nossas ignorâncias, o que de muito importante se colocou pelo nosso caminho, e acabamos, por desviar-nos dele, por nossos próprios passos, passando tão perto. Nunca dá mesmo para se conhecer tudo. Deixemos de lamentos, pois o que se pretende é um relato do que foi visto e sentido, e não do que se furtou ao olhar. Sensação bem peculiar é a que nos é proporcionada pela bela obra arquitetônica do século XIX, o passadiço da Glória, que liga, os dois prédios da Casa da Glória, antigo educandário e orfanato, por sobre a rua, a partir do primeiro andar. Era por onde passavam as internas. Pelo que se conta, o passadiço servia não apenas como meio de facilitar a comunicação entre os prédios, mas também para proteger as moças, dos rapazes que pela rua passassem. Para evitar que pudessem seduzi-las, ou que por elas, fossem seduzidos. Certamente havia suspiros entre os jovens que do passadiço se aproximassem, sejam os rapazes, que vislumbravam as grandes portas e fechaduras de seus possíveis grandes tesouros guardados, a imaginar sabe-se lá o que, ao passar exatamente por baixo, do passadiço onde as virgens, estivessem a sobrevoar como anjos suas cabeças, seja entre as moças, que lá do alto, podiam contemplar sem serem contempladas, e escolher um dos que por baixo de si passasse, para que pudesse ser seu homem, num futuro próximo, ou possuí-la em seus íntimos e guardados pensamentos e delírios noturnos. Sim, havia suspiros pelo passadiço da Glória. Serão os passadiços elevados condenados aos suspiros? O estilo arquitetônico se inspirou na chamada Ponte dos Suspiros, construída na Veneza do século XVII. A ponte tem este nome, porque também ela, tem uma história de suspiros. O nome se deve ao fato da ponte fazer a passagem e ligação entre o antigo Palácio de Governo e a Prisão. Segundo a lenda, os presos ao passarem de um prédio ao outro, dirigindo-se ao cárcere, tinham na ponte sua provável última visão do mundo externo, daí o suspiro. No nosso passadiço, o suspiro que se fez predominar, foi certamente, o suspiro das moças e rapazes, que ardendo-se uns para os outros, não tinham sequer como tocarem-se. Já a ponte deles, testemunha os suspiros de dor e sofrimento, ante a última visão do mundo, que acabou de se perder, que acabou por tornar-se, portanto, intocável. São passagens elevadas, que arquitetonicamente, facilitam o contato, a comunicação, o intercâmbio, mas que na realidade, na sua aplicação prática, ante os métodos da concepção humana, são clausura, encerramento, confinamento e prisão. A genialidade humana parece se manifestar não apenas em sua capacidade de inventar e criar coisas, mas também em sua insistência em sempre querer subvertê-las. A travessia do passadiço foi uma experiência única.


No coração do centro histórico da cidade, faz-se visita obrigatória, o Museu do Diamante, funcionando na casa que pertenceu ao Inconfidente Padre Rolim, considerado um dos mais ricos ativistas do movimento conspiratório. O movimento da Inconfidência é um símbolo da mineiridade, transformando os mineiros em sujeitos da história nacional, proporcionando orgulho em serem os mineiros que são, e aproximando nossas peculiaridades humanas às sagas dos heróis. Mas infelizmente, uma leitura mais cuidadosa dos motivos que de fato levaram nossos ícones rebeldes ao rompimento com a Coroa, reduz um pouco a grandeza do ato. Na maioria dos casos, homens da elite, beneficiários da estrutura escravista, grandes proprietários, viam na autonomia do Estado, não uma forma de construir uma nação nova, com distribuição de riquezas e trabalho livre, mas a possibilidade da construção de um sistema político, onde pudessem tratar diretamente de seus interesses privados mais imediatos, sem a ingerência dos agentes da metrópole. Vê-se que a concepção de liberdade, que tinham nossos inconfidentes, era bem limitada. Na verdade, a Inconfidência, foi um grande movimento ou fato, que de fato, não chegou a acontecer. Os agentes do governo se adiantaram aos rebeldes e estrangularam o movimento. Defendem os historiadores, que o movimento ocorrido na Bahia, pela mesma época, com o mesmo desfecho, a derrota, conhecido com Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, foi um movimento de caráter mais popular, com participação social mais ampla, e com referências à questão da propriedade da terra e o fim da escravidão. Cabeças rolaram por lá também. Enquanto por aqui apenas Tiradentes foi morto, enforcado, na Bahia, alguns anos depois, foram cinco os condenados. Um deles escapou da execução, pois conseguiu fugir e nunca mais foi localizado. Enquanto partes do corpo de Tiradentes, esquartejado, foi fincado em diversas cidades por onde fazia sua propaganda subversiva, as cabeças dos baianos ficaram expostas pelo centro de Salvador por cinco dias, para o terror da população, que teria à prova a inclemência da Coroa com os seus súditos infiéis. Mas não estamos aqui a tratar de uma narrativa histórica, mas apenas de um rápido passeio a que me permiti fazer aqui pelas franjas da serra do Espinhaço, tendo como porta de entrada, Diamantina. Para os padrões nacionais podemos dizer que o Museu dos Diamantes é um grande museu, e maior ainda acabou por ficar, com a entusiasmada orientação de uma guia, que demonstra uma grande satisfação ao contar para os turistas admirados a história da sua terra. Bom são os guias quando nos fazem imaginar que ao dialogarmos com eles, dialogamos diretamente com o passado e a história. Existem guias que podem tornar uma visita a um museu, uma viagem grandiosa e inesquecível. Felizes de nós. No prédio, vemos equipamentos ligados à extração diamantífera, diamantes, balanças, artigos religiosos, armas, correntes para escravos, instrumentos de tortura, mobiliário, máquinas de escrever, privadas, ferros de passar, dentre outros. O que sempre impressiona são os ferros que aprisionavam e torturavam escravos, é como se o sofrimento, as dores, os cortes, o sangue, o suor, que eles haviam causado, os deixassem impregnados de alguma humanidade. Os objetos desta sala, talvez sejam os que mais falem por si mesmos, dentre todos os outros espalhados pelo museu. É a sala onde talvez menos se façam necessárias as palavras, para que se compreenda o que cada uma daquelas peças possa significar. A liteira exposta no maior salão do museu, já bem danificada, nos permite vislumbrar não apenas a suntuosidade em que viviam os que tinham capital e poder, mas a condição mesma em que um ser humano pode literalmente se transformar em um verdadeiro “burro de carga”. As privadas de madeira e gavetões que serviam para o alívio dos proprietários da casa, certamente, aumentavam as condições degradantes de trabalho de quem do ofício deveria cuidar, e transformavam as cidades da época, em centro urbanos não muito aromáticos. O museu é uma ilustração quase viva do que foi Diamantina há alguns poucos séculos atrás.



Como a intenção era conhecer a maior quantidade de coisas e lugares em um tempo sempre próximo do fim, não poderia sair da cidade, sem antes conhecer a curiosa Biribiri. A estrada para o lugarejo é bem diferente de todas as outras estradas que já tive a oportunidade de conhecer. A impressão que temos é de viajar por vários quilômetros sobre uma enorme pedra. O ambiente é árido, a poeira da estrada é branca e o chão repleto de cascalhos. As pedras, de todos os tamanhos, vão se prostrando à nossa frente, por todos os lados, com as mais variadas formações, como que para se afirmarem diante de nós, e mostrarmo-nos que ali são elas quem imperam. Vez ou outra, ouvimos o ruídos das águas e o corpo do córrego se põe à vista. A água é cristalina, e em alguns pontos da estrada, corre bem apressada, perfurando as pedras e oferecendo aos olhos um belo espetáculo. É aparentemente limpa e gelada, principalmente por estarmos no inverno. Neste dia o acesso à Cachoeira dos Cristais estava vedado e uma grossa corrente fechava a passagem. Segundo, pude saber posteriormente, a interdição se deu em função de ataques de ladrões que vinham assaltando os carros dos visitantes. Por mais que já tenhamos visto fotografias de Biribiri, a chegada ao local é uma surpresa. Na chegada, a estrada parece tornar-se mais íngreme e estreita, e a sensação que temos é que um descuido no volante ou um problema técnico qualquer, pode derrubar o automóvel pela serra abaixo. Os que têm medo de altura ou ainda não aprenderam bem a arte de dirigir devem evitar assumir a condução de seus veículos quando estiverem viajando pelas serranias do Espinhaço. Não imagino o que poderia ocorrer a uma estrada destas em períodos de chuva. Mas enfim, o pequeno povoado aparece. Parece uma cidade fantasma, não fossem as reformas pelas quais estava passando para transformar-se em cenário de um novo filme nacional, que irá contar a história de um matador que viveu pela região há muitos anos. O filme, segundo um morador, terá a participação de José Wilker e as filmagens teriam início uns dois meses apenas após a minha visita. O lugarejo foi construído em fins do século XIX para abrigar uma fábrica têxtil e seus operários, viriam a constituir uma das primeiras comunidades fabris do Estado. Sob o controle da Arquidiocese de Diamantina, entre 1876 e 1921, a partir de então, passou para a mão de particulares. O lugar floresceu até o fechamento da fábrica em 1973, e acabou eclipsando-se. Junto com a fábrica, os moradores também se retiraram. O acesso difícil e as longas distâncias dos centros consumidores de seus produtos tornaram o local economicamente inviável. Ao chegarmos, uma placa nos avisa que ingressamos em território privado, o que à primeira vista, soa-nos estranho, por não estarmos acostumados a passarmos por cidades cercadas. A igreja parece ter sido levantada pela iniciativa das operárias que ali viviam e trabalhavam e resiste à ação do tempo. As casas dos antigos moradores hoje são alugadas para os turistas que querem não só o acesso às suas belas águas, mas que pretendem mergulhar no passado, instalando-se num local cuja estrutura física manteve-se aparentemente intocável. Desenvolveu-se, floresceu, depois parece ter perdido a razão de ser, como se vítima de uma morte lenta e inevitável. As casas alugadas possuem certo aspecto de abandono. Ouvi de um morador da região, que o lugarejo estava à venda. Quanto valeria um local como este? Quem o compraria e que destino teria? A conservação e administração de tão rico patrimônio histórico não deveriam estar sob o controle do Estado? A visita a Biribiri, na verdade, trouxe mais perguntas do que respostas e ficamos a imaginar, se nós, simples mortais, teremos ainda acesso a este patrimônio quando ele estiver nas mãos de algum bilionário qualquer. Uma outra questão fica por se saber. Será a denominação do local uma referência à frutinha de mesmo nome? Biribiri, uma frutinha azeda, parente da carambola, da qual pode se fazer suco, doces, picles, temperar carne, tem uma característica interessante e curiosa, suas folhas se abrem ao nascer do sol e fecham-se à noite, para dormir. Como o lugar, que tem hoje suas folhas fechadas, adormece, após o encerramento de suas atividades econômicas, enquanto não chegam os atores, ou não vem os turistas, que não sabemos se poderão despertá-la de um sono que parece eterno. Despeço-me com a esperança de poder voltar um dia, para poder conhecer o que não pode ser visto nestas poucas e rápidas horas em que pude estar por ali. Há lugares que nos obrigam ao retorno. É como se um segredo que tivesse muita necessidade de se revelar não quisesse perder a oportunidade de ter para quem se mostrar, e nós, em nossa pressa humana, insistimos em partir, virando-lhe as costas. Ficamos, às vezes, inconscientemente, com uma dívida com o local, que não pôde se revelar de todo para o viajante apressado. Um dia, terá que se retornar.



Marcos Vinícius.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Drama da consciência






Drama da consciência





A ambulância para em frente ao grande portão de ferro e reduz a luz dos faróis. Um guarda, de prontidão, retira uma pesada chave da cintura, e abre rapidamente os cadeados. O portão se abre. O carro avança pela rampa de acesso e as luzes de emergência se apagam. Assim que estaciona, surgem pelo portão principal dois musculosos enfermeiros, que se dirigem imediatamente a recepcionar o doente. Ao abrirem o veículo, dois olhos enormes saltam sobre eles, e os fitam profundamente. Num primeiro momento, desconcertam-se um pouco, os profissionais. Mas como não era ocasião de se perder tempo, retiram o paciente que estava transtornado, nitidamente alucinado, do interior do veículo. Perguntam os enfermeiros pelos recônditos de suas consciências e memórias se já tinham cruzado com um olhar assim. Mesmo nunca tendo visto aquele homem antes, era óbvio que estava desfigurado. Que mal levaria consigo? Parecia ter saído de um momento de fúria. Estava amarrado. Dois vizinhos e um parente distante ajudaram a segurá-lo. Naquele momento, encontrava-se aparentemente sob controle, e já um pouco sedado pelos fortes medicamentos que lhe foram aplicados pelo caminho. Tinha a face dura. Não havia expressão, além do aspecto de quem teve que conter suas forças, em virtude de forças maiores o segurarem. Sejam os que vinham pelo interior da ambulância, seja pela segurança, que o recepcionava na chegada. O corpo estava sob domínio, mas parecia carregar um sujeito sem alma. Os olhos estavam fixos, talvez, em coisa alguma. Pareciam mirar o nada que carregava por dentro, como se mais não fosse que um infinito universo vazio, uma grande noite de silêncios e sem estrelas. As mãos estavam trêmulas e a boca ressecada. Não havia pronunciado palavra alguma. Mantinha-se amarrado.


Enquanto os acompanhantes davam a entrada em alguns papéis, é levado para a ala que passaria a ocupar. Vai andando. Não olha para os lados. Segue pelo imenso corredor, que não parece correr por seus olhos. É certo que não o vê. Mas anda como se os passos já conhecessem o destino, vai em linha reta. Observado, sem observar, não vê os outros internos, com os quais cruza pelo caminho. Ficará no quarto no final do corredor, pois mesmo entre os demais doentes poderia despertar atenções e curiosidades, pois, de fato, se trata de alguém diferente. Ainda não se sabe o que está a ocorrer. Um caso atípico, talvez.


Dois médicos avaliam o doente, que está inerte. Tem os olhos voltados para cima, não dorme, mas também não parece estar acordado. Não emite som algum. O coração bate forte. Os cabelos estão desgrenhados. Não reage às tentativas de diálogo. Os médicos, ainda sem um diagnóstico preciso, um pouco desorientados, acham mais conveniente deixá-lo amarrado. Aplicam mais uma dose de remédios, observam mais um pouco e, em seguida, dada a urgência de outros atendimentos, abandonam-no só, no quarto. Ao saírem, o homem se mexe. Parece dotado de uma força surpreendente. Num único gesto, desvincula-se das espessas cordas que atavam seus braços e mãos, como se fossem finos barbantes, e tenta se levantar. Neste momento, é tomado de um pânico violentamente incontrolável. E naquele hospital, solta as primeiras palavras, que saem engasgadas. Você de novo? O que fazes por aqui? Por que não me abandonas de vez, ó tormento? Não posso mais, responde o espectro que se acomodava por sobre a mesinha ao lado do banheiro. O doente sente todo o corpo arrepiar. Terei que acompanhá-lo, agora, para sempre. Chame-me sua consciência. Sou companheira antiga, e resolvi firmar-me de vez, em ti, por passares tanto tempo sem notar minha permanente presença. Tens longas dívidas comigo. Não pretendo deixá-lo. O doente é tomado de um pânico total. Desta vez, tenta gritar, pedir um último socorro, mas não consegue, o grito é sufocado na garganta.


 O que queres? suplica o doente. Como consciência que sou, não posso deixá-lo em grandes dívidas, principalmente, com o maior credor que tens, que sou eu própria. Afinal, já estás na idade de me dares algumas respostas. Quanto às perguntas, como agora bem sabes, tenho-as de sobra, tanto as que se referem aos casos pequenos, quantos às referentes aos de maior gravidade. Por que nunca atendeu aos meus apelos? Uma vida inteira. São tantos anos... Lembras-te de quando te corroias de inveja? Esperneei, supliquei, sacudi, gritei aos ouvidos e nada. Quando te envolveste em golpes e mentiras, fiz de mim fortaleza, para poder-te segurar. Nunca consegui te conter. Quando te esfolaste, trapaceaste, quase me dei por morta, mas consegui-me soerguer. Puxei-te pelos braços, agarrei teus cabelos, e de nada adiantou. Deve-me respostas. Sabia que um dia nos veríamos de frente.


O doente suava por todos os poros; a mão tremia e os cabelos, assim como o lençol da cama, estavam ensopados. Inquietava-se irremediavelmente. As pernas, no entanto, mantinham-se amarradas. O visitante, que grande incômodo lhe trazia, sentia-se à vontade, esticava-se sobre a mesa, sorria confortavelmente, e punha-se a falar. Falava, falava, compulsivamente, como se um mundo de palavras e intenções estivessem fadados a se libertar. Sentindo o estado de choque do paciente, a consciência resolve, então, se aproximar. Desce da mesinha e encosta-se à cama.


Algumas horas depois, um alvoroço percorre o hospital. Os médicos, todos eles, são chamados às pressas pela direção da instituição. Todos, sem exceção, os que se encontrassem no horário de repouso e os que estivessem em meio a algum atendimento, deveriam atender à emergência.. Luzes insistentes piscaram e uma eufórica correria se espalhou pelos longos corredores. Em pouco tempo, o quarto do paciente estava repleto de todos os tipos de médicos, enfermeiros, técnicos de equipamentos, especialistas de toda ordem, a burocracia, representantes do governo e autoridades policiais. Todos perplexos. Olhavam-se, uns para os outros, sem palavras com as quais pudessem se expressar. Seria um dia inesquecível para a medicina. No dia seguinte, estaria estampado nos jornais, o doente havia morrido, incrivelmente estrangulado pelas próprias mãos. Dizem que perdera a consciência de si.



Marcos Vinícius.




































































domingo, 28 de junho de 2009

O Rei e os ratos





O Rei e os ratos.



Já há muitos anos que era senhor absoluto por aquelas terras. Na verdade, o poder que acumulava não era fruto de apenas  uma vida ou geração, era poder que vinha de muito tempo, pois a família tinha sangue real e, em função da precariedade do serviço de registros, não se sabe dizer ao certo, há quanto tempo dominaram por ali. O reino era bem vasto, resultado de uma política expansionista agressiva, levada a cabo por várias gerações de antepassados . Sob seu comando, atingira o seu limite máximo, nunca fora tão amplas suas fronteiras. Dominava não só a região das montanhas, os planaltos, mas também a região dos lagos, as planícies, os vales e as praias. Os domínios estendiam-se por desertos e florestas. As insígnias do poder real espalhavam-se por todos os cantos, para que o rei pudesse estar em todos os lugares, onipresente, a fiscalizar a todos, a ditar-lhes as ordens, a ameaçá-los, pois de ameaças e arrogância também se faz o poder. Não havia muro, construções, monumentos, templos, prédios, que não trouxessem dependurados ou gravados os símbolos do Estado, da nação. Era preciso sempre lembrar aos homens, aos povos, quem de fato, exercia o domínio e o poder sobre eles. Era necessário também espalhar o medo, pois sem ele, dificilmente, reinos, impérios sobreviveriam ao longo dos tempos. A demonstração de força é recurso fundamental dos que desejam manter entre as mãos o cetro e, sobre os ombros, o manto real. Não há realeza que sobreviva ante súditos destemidos. Vez ou outra, punições exemplares, públicas, geralmente em praças, em centros religiosos, para que possam, também as execuções, serem atos de fé, consagrações. Os impérios se edificam não apenas sobre leis e fortalezas, pedras e pontes, mas também sobre o sangue dos homens.


Ele era particularmente impiedoso. Gostava, na maioria das vezes, de participar diretamente dos rituais de execução. Não se sabe ao certo o porquê do gosto especial que sentia nisso, mas era algo que há muito o fascinava. Talvez, fosse mesmo o momento em que mais poderoso se sentia. Afinal, era ali, mais que em qualquer outra ocasião, que se manifestava e se comprovava seu poder absoluto, pois podia trazer à morte quem desejasse, no momento em que melhor lhe conviesse. Não era ele quem dava o golpe final, mas fazia sempre questão de entregar, pessoalmente, o machado ao carrasco. Eram ritos que  considerava necessários, para que pudesse tornar-se e manter-se especial e temível diante dos olhos de seus súditos. Quando jovem, fizera vigorar por alguns anos uma lei que condenava ao degredo ou à morte quem ousasse sobre sua sombra pisar. Gostava sempre de manter-se à distância dos outros seres supostamente inferiores, mortais. Não que dispensasse os bajuladores, mas é que no fundo, sentia-se um deus, o qual de fato não poderia ser, se muito próximo aos homens estivesse.


O excesso de vaidade condenava-o a alguns vícios. Geralmente, não usava a mesma roupa mais de uma vez, o que não era um problema, uma vez que possuía inúmeras costureiras e criadas à sua disposição. Mais difícil às vezes o que sempre custava algumas vidas, era conseguir as matérias-primas, pois muitas de suas vestimentas preferidas eram costuradas com peças, tecidos, pedrarias, jóias, vindas de terras muito distantes e de difícil acesso. Fazia questão de perfurmar-se como ninguém. Havia uma grande perfumaria no palácio, onde montou uma considerável equipe de especialistas provenientes das mais diversas regiões do mundo até então conhecido. Semanalmente, banhava-se com ervas, flores, perfumes, para que a ninguém mais fosse proporcionada a graça dos mais finos aromas e cheiros. Usava pomadas, ungüentos, cremes, que retardavam o envelhecimento e proporcionavam uma pele suave, como só os reis, príncipes e princesas podiam usufruir. As roupas eram costuradas com fios de ouro. A coroa era mais bela e rica do que a de todos os outros ancestrais.


Fazia questão que as ruas e os caminhos por onde passasse fossem todos exaustivamente varridos, mais pelo ritual que lhe proporcionaria pela passagem, com centenas de homens e mulheres envolvidos na varrição, quando ia por longas caminhadas, que por uma mania ou obsessão pela limpeza. Não gostava de animais em casa e fazia questão que os tapetes fossem sempre trocados. Mas algo o irritava profundamente: Ver ratos atravessando os cômodos e dependências do palácio. Nunca o admitia. Característica que, a propósito,  herdara das gerações anteriores, pois recorda-se que já seu avô possuía verdadeiro horror aos roedores e sempre mandava seus criados persegui-los e eliminá-los. Tarefa que depois se soube inglória, pois por mais que se perseguissem os murídeos, eles estavam sempre, ainda, a cruzar-lhe os caminhos.. Já os encontrara em vários cômodos, pelos corredores e até pelos grandes jardins. Se era assim pelas entranhas do palácio, imagine quando ia o rei visitar as regiões mais distantes e pobres do seu crescente império... Essa presença animal deixava-o intrigado. Se já subjugara tantos povos, eliminara tantas aldeias e povoados, vencera tantas guerras e batalhas, por que sua dinastia não fora capaz, enfim, de eliminar os malditos ratos? Que teriam esses animaizinhos que os fazia resistir aos tempos, aos exércitos e às escaramuças? Com eles, nada podiam as armas, os venenos, as orações, as mudanças de hábito, a força, e parecia nada poder também   os deuses. Vem atravessando as gerações de homens, súditos e reis, invencíveis.


Muito o incomodava saber que, a rigor, os ratos dominavam  aquelas regiões muitos anos antes que os seus mais antigos antepassados, pois pertencem a uma estirpe animal que  soma dezenas de milhões de anos, existentes desde tempos imemoriais. São mesmo antiqüíssimos estes roedores que são aparentemente insaciáveis. Uma eternidade a roer. Vem há milhões e milhões de anos no encalço dos homens, afinal, a humanidade sempre proporcionou a eles uma grande possibilidade de sobrevivência, com seus mortos insepultos, seus lixos individuais e coletivos, sobras, restos, esgotos, sujeiras de todos os tipos. Muito do que não é bom para os homens é banquete para eles. Afinal, um sistema olfativo privilegiado deu-lhes condições, não só de escolher o que lhes é saudável entre o que perdido está, como ainda lhes proporcionar a possibilidade de escolhas, entre variadas preferências e cardápios de todos os tipos. Além do mais, têm os roedores uma invejável capacidade de adaptação aos mais diversos ambientes ou condições de vida, permitindo-lhes sobreviver, em muitas situações em que  os homens certamente morreriam.


Os grandes prejuízos que já tinham causado ao reino, desde um tempo de que já não mais se tem lembrança, foram transmitindo a todos que o trono ocupavam, ou próximo dele estivessem, uma aversão muito grande à sua presença. Perdas de colheitas, ataques aos depósitos de alimentos, silos, doenças e pestes, sempre fizeram dos ratos, ratazanas e camundongos alvos prefernciais das políticas de governo no reino. Seus antepassados fizeram todos os tipos de tentativas, todas fracassadas no longo prazo. Tipos imagináveis e inimagináveis de engenhocas foram criadas por inúmeros inventores que de todas as partes afluíam, incentivados pelo rei e por seus funcionários. Quase de tudo se tentou. Os danados sumiam, às vezes  por um largo tempo, mas retornavam depois, aos milhares, subitamente, a zombar dos inventos humanos e a desafiar o poder sagrado dos soberanos. Talvez, fosse mais por isso do que por qualquer outro motivo que o rei havia herdado uma obsessão praticamente genética, hereditária, em querer eliminá-los. Mais que uma necessidade de fato, era uma questão de honra. Um desejo de vingança que pudesse redimir os espíritos de seus ancestrais.


Quando à distância, o rei gostava de observá-los. Era um exercício. Ficava sempre a imaginar como podiam ser tão poderosos e resistentes. Não cediam. Eram como os homens, extremamente territoriais. Sobreviveram às guerras de conquista e anexação de territórios, que apesar de incorporados ao reino e de todo o aparato de segurança, fugiam ao controle dos governos. As profundezas, os subterrâneos, as frinchas dos telhados, os buracos imperceptíveis, as entranhas, os cantos, às escuras. Além do mais, se reproduziam em proporções geométricas e parecia ainda não dominar o mundo, pois não haviam vencido de todo a cruzada eterna, que se abatera sobre eles. Sim. Não podia haver esmorecimento. A impressão que tinha era que a antiga peleja que sempre tiveram que travar contra eles era condição fundamental da sobrevivência de seu poderio. Sem o ataque sistemático ao inimigo comum, dos povos e dos reis, talvez ao grande reino não houvesse sobrado nem mesmo os escombros, não só pela ação destruidora dos roedores, mas pelo que a luta contra os pequenos mamíferos não humanos pode gerar entre os que humanos são - um sentimento de identidade, além dos ressentimentos de classe. A guerra aos roedores servia, pois, como estímulo ao espírito patriótico, fortalecia o rei e ajudava a manter uma relativa ordem e paz social.


Como rei que era, não podia se descuidar deles. Então, subitamente, uma idéia lhe veio à mente. Em vez de enviar equipes profissionais, técnicos, burocratas pelo território à caça dos inimigos, por que não envolver cada súdito, a população inteira, numa guerra que afinal beneficiaria supostamente a todos? Sim. A idéia o estimulava. Seus olhos brilhavam. Quem sabe inventaria um método próprio, que mais sucesso teria do que todas as tentativas anteriores? Além de rei que era, poderia ainda, no futuro, quando neste mundo não mais estivesse, virar respeitável divindade, por haver dobrado fatalmente o inimigo que a todos sempre dobrou. Por que não havia pensado nisso antes? Os traços de seu rosto desenhavam linhas de satisfação e um sorriso rejuvenescedor agarrava-se aos cantos da boca. Os olhos estavam fulminantes. Por duas vezes passou a mão pela testa para certificar-se se um suor frio lhe escorria pela testa. Por que não havia pensado nisso antes? Claro. Pagar aos homens, a todos quantos pudesse, pelos ratos que conseguissem capturar. O reino vivia uma relativa prosperidade econômica e uma vitória como esta o levaria à consagração com que sempre sonhara: conquistar o amor ou o medo dos homens e um trono cativo pelos reinos do além. Seu rosto se iluminava.


Decretou que a partir da décima lua uma grande caçada, uma caçada coletiva, que deveria atrair não apenas um voluntário ou outro, mas multidões inteiras, se iniciaria por todas as terras do reino. Cada canto deveria ser devassado, todos os armários de todas as casas seriam abertos, revirados, os telhados seriam vasculhados, os porões iluminados, cada sombra perseguida, cada vulto inspecionado. A grande cruzada aos ratos. O estímulo seria em ouro, afinal não era pouca coisa o que estava em jogo. As famílias apresentariam às repartições oficiais o seu montante em ratos e levariam em troca, proporcionalmente ao peso, uma porção de pó de ouro. Era a promessa real. As multidões se alvoroçaram. Na verdade, não conheciam o que era o ouro, mas tinham ouvido sempre falar dele. O sonho do enriquecimento rápido mobilizou uma população inteira. Nos litorais, nos desertos, nas montanhas e florestas. No campo, nas aldeias, em todas as partes, crianças, velhos, homens, mulheres, doentes, se armavam de paus, cassetetes, venenos, armadilhas, para capturar o valioso adversário. O espírito da caça nunca seduziu a tantos. Parecia estar próxima do fim a espécie dos ratos, pavimentando à eternidade e à gloria divina a criatividade do rei, que nunca havia se sentido tão genial. Tinha a certeza da vitória, antes mesmo que a Grande Cruzada tivesse início.


Na véspera do grande dia, uma série de festividades animou o reino. O nome do rei corria de boca em boca. Todos faziam apostas, dançavam, cantavam e bebiam. Havia uma comoção nacional. Estavam felizes e ansiosos. Trocar ratos por ouro era algo em que realmente nunca haviam pensado. Mas fosse como fosse era uma oportunidade única, para que alguns mudassem seu destino. A partir do aparecimento da lua que, naquela noite, estaria a clarear o país inteiro e viria pela madrugada, começaria a campanha que poria fim a um longo capítulo da história do reino.


O rei recolheu-se aos seus aposentos. Estava feliz como nunca. O coração batia mais forte do que normalmente o fazia. Não conseguia pensar em outra coisa, além da grande guerra que estava por iniciar. Envaidecia-se. Não imaginava que pudesse ser tão criativo e genial. Sentia-se ansioso, porém. Um ligeiro formigamento percorria por todo seu corpo, como se um sangue novo, divino quem sabe, estivesse a percorrer-lhe rapidamente as veias. A sensação que sentiaera de que não era mais o mesmo e de que jamais o seria. Não se lembrava de ter vivido tão grande e satisfatória emoção. Conquistaria ele, depois de tantos anos, séculos, uma vitória que sempre parecera impossível?


Fechou a última janela do quarto, deixando a porta dos fundos entreaberta, para que a luz da lua pudesse adentrar pelo quarto, quando a grande hora chegasse. Deitou-se. Mas a sensação de formigamento se intensificava e o sono acabou por perder-se. Encostou-se na cabeceira da cama e se pôs a observar uma claridade intensa que começava a despontar por sobre os montes. Nunca havia experimentado nada igual. Sentiu uma coceira pelo corpo e os olhos ficaram um pouco embaçados, quando a luz da lua, que majestosamente se levantava, começou a clarear os objetos e móveis do quarto real. A visão prejudicada incomod-ou-o um pouco e ele resolveu ir até a janela. Mas uma sensação estranha acabou por prendê-lo à cama. Um forte cheiro de urina de rato sobiu-lhe pelas narinas. Imagina o rei que naquele momento, muitos homens, insones, já tenham saído para a guerra, que se promete vitoriosa, e que os inimigos já sentem a derrota iminente. O cheiro intenso faz o nariz arder e ao coçá-lo, estremece, pois nunca o sentiu tão frio e molhado. Terá apanhado um resfriado justamente numa noite tão importante para si? Resolve então apalpá-lo mais uma vez. Entra em pânico. O nariz, que esfregava, agora violentamente, estava terrivelmente modificado, mais pontiagudo, sentia-o pelo toque. Próximo dele, um grande bigode despontava como jamais imaginou que pudesse aparecer em um homem, que dirá em um rei. O corpo repentinamente se enche de um pelame grosso e denso. O pânico é total. Ao virar-se abruptamente para o lado uma cauda comprida e fina, embaralha-se por entre as pernas. Ao correr em busca de socorro, percebe o quão grande está a cama, e que duas outras novas pernas o ajudam a se locomover. Não compreende o que ocorreu. A voz não lhe sai, sente as orelhas enormes. Desce pelas pernas da cama e corre apressado, rente ao assoalho. Sorte ter deixado a enorme e pesada porta entreaberta, por onde atravessa. O sol já estava a pino, e a lua, muito branca, transparente, ainda resistia em deixar o céu. Uma criada do palácio, munida de um porrete, como quase todos os súditos do reino, aplica um golpe único e fatal no rato insolente que arrisca-se a andar pelos corredores reais. Naquele dia, os ratos sofreram uma perseguição implacável. Em pouco tempo, haviam desaparecido, e o rei, inexplicavelmente, também.



Marcos Vinícius.