quinta-feira, 8 de maio de 2014

Somos todos macacos?


Somos todos macacos?



Desde que me entendo por gente, e isto não faz muito tempo, entendo que nós, humanos, somos, dentre as centenas de espécies de macacos, uma das linhagens, que do ponto de vista evolutivo, foi relativamente mais bem sucedida, uma vez que ao contrário dos nossos outros parentes macacos vivos, proliferamos. Nossa espécie, que em um passado não tão remoto assim, já foi espécie rara, encontrada em apenas alguns pontos isolados no planeta, hoje é encontrada em qualquer parte da Terra, seja em ambientes paradisíacos, seja em territórios completamente inóspitos. Além do mais, na guerra genocida que travamos contra as demais espécies, fomos devastadores, muitas outras espécies talvez tenham sido extintas, antes mesmo que tivéssemos tempo de dar-lhes um nome. Criamos um modelo de civilização, onde além de parecer não cabermos todos, nós mesmos, os humanos, parece também não ter direito à vida qualquer outro ser da natureza, que de alguma forma, não esteja a nosso serviço. Estabelecemos uma relação destrutiva com nossa parentalha animal, que condena à morte, não apenas os primatas, mas o conjunto dos mamíferos, dos répteis, anfíbios, peixes e aves, dentre outros. Somos, inclusive, vítimas de nós mesmos, dadas nossas guerras fratricidas, nossa natureza bélica, nossas bombas, gases, venenos, exércitos e aparatos militares. Os chimpanzés, nossos parentes vivos mais próximos, a ponto de estudiosos considerarem a possibilidade de incluí-los no gênero Homo, dada seu grau de semelhança conosco, do ponto de vista genético, muito maior que as diferenças, são vítimas exemplares de nossa perversidade civilizatória. Sua população não apenas foi drasticamente reduzida, como a de todos os outros macacos antropoides, os mais próximos de nós, os gibões, gorilas e orangotangos, dada a implacável devastação ambiental a que submetemos o planeta, como muitos dos sobreviventes, são submetidos aos mais cruéis dos testes e exames laboratoriais. O fato de sermos muito semelhantes a eles, não significou que tenham tido qualquer tipo de vantagem ou benefício, muito antes pelo contrário, tiveram que se submeter aos experimentos mais macabros que se possa imaginar, talvez não desumanos, bem humanos mesmo, contaminando-os com todos os tipos de vírus, bactérias e doenças, condenando-os aos mais variados infortúnios, medicamentos e torturas. Recentemente, causando revolta em várias entidades defensores dos animais em geral e dos primatas e chimpanzés em particular, mudanças na legislação americana, permitiram que chimpanzés de laboratórios já velhos e aposentados, estropiados, doentes, estressados e deprimidos, voltassem aos centros de pesquisa. Hoje sabemos que os chimpanzés são muito mais inteligentes do que até há pouco tempo se ousava imaginar. Houve época que dizíamos que uma das características que diferenciavam nossa espécie das demais, era, junto ao cérebro avantajado, nossa capacidade de produzir, utilizar ferramentas e trabalhar. Hoje sabemos que os chimpanzés não apenas as utilizam também, como são capazes de transmitir às gerações mais novas, informações e conhecimento. Não é isto o que faz uma fêmea ao dar uma lição ao filhote de como quebrar um vegetal de casca dura, utilizando uma pedra como martelo e a raiz de uma árvore como bigorna? E se “macaco velho não mete a mão em cumbuca” é porque, certamente, foi submetido a algum aprendizado.


O zoólogo Desmond Morris, autor do livro “O Macaco Nu”, afirma que o homem é dentre tantas espécies de macacos e símios, o que levantou-se, ficou de pé, desenvolveu seu cérebro, criou um universo cultural extraordinário, e tornou-se o mais desprovido de pelos. Ele tem razão, e sob este prisma, somos mesmo, todos macacos. Fazer esta afirmação, no entanto, não significa aderir à campanha “Somos todos macacos”, espertamente criada pelo jogador Neymar junto a uma empresa de publicidade, transformando o racismo brasileiro em mercadoria, o ódio e a intolerância em vantajosos negócios. Diria que a atitude do jogador Daniel Alves em comer a banana que lhe foi atirada, talvez tenha sido um gesto heróico, pois não se intimidou diante da agressão e de certa forma, ridicularizou o agressor. Já a campanha publicitária que veio daí, onde um bando de humanos, perdoe-me, mas imbecis, dão suas caras às redes sociais, com uma banana enfiada na boca, afirmando serem todos macacos, talvez seja um dos exemplos mais exponenciais de nossa degradação moral, enquanto humanos que somos. Afirmarmos que somos macacos, nesta perspectiva mercantil e degradante, em uma sociedade conservadora como a nossa, onde muitos indivíduos, inclusive jovens, vítimas da falta de informação ou do fundamentalismo religioso, sequer dão fé à teoria da evolução, pois se consideram de natureza superior, jamais comparável aos toscos animais, serve mais para reafirmar o que dizem combater, do que falar sobre a realidade da vida. Fotografar-se com uma banana à boca, ao contrário de significar um rechaço ao racismo, reforça-o, na medida em que reduz a condição humana ao lugar do ridículo. Somos mais do que comedores de bananas. Entre nós e os outros macacos do mundo, existem semelhanças, mas existem também diferenças, que sabemos não serem poucas. Se dissermos que somos todos macacos significa dizer, veja como somos bonzinhos e solidários, topamos até nos rebaixarmos, abrirmos mãos de nossa humanidade, para ficarmos iguais a eles, negros e macacos, e é isto que parece significar, esta campanha então, merece ser repudiada. Se a campanha é um estrago, do ponto de vista dos humanos, onde se viu até gente de boa fé, “pagando o mico”, acredito que os macacos, caso fossem capazes de decifrarem a linguagem que usamos, certamente iriam também repudiá-la. Não acredito que sejamos motivo de orgulho para eles. Parecidos conosco e vencidos na relação que estabelecemos entre as espécies, jamais poderemos acusá-los de degradação moral. Talvez seja a diferença que recoloca em seu lugar o “cada macaco no seu galho”. Somos todos humanos e também, como nos prova a ocasião, de futilidade incomparável.




Marcos Vinicius.