domingo, 27 de dezembro de 2009

Na primavera dos tempos


Na primavera dos tempos



A bem da verdade, não sabemos qual era seu nome, pois viveu em uma época, em que muito pouco ficou de registros, não só pela rusticidade da vida naqueles tempos, onde a palavra escrita ainda nem havia sido inventada, como tantos e tantos anos já se consumiram, em um passado, que por tão distante, pouco temos como alcançá-lo, ou sequer desvendá-lo, satisfatoriamente. Uma história da qual pouco conhecemos, apenas por algumas pouquíssimas peças, de um gigantesco quebra-cabeça, que há muito, foi consumido pelo tempo. Costumamos chamar, equivocadamente, a estas longínquas passagens, onde nosso desconhecimento suplanta tudo o que podemos conhecer - de pré-história. Como se por ignorarmos a complexidade destas vidas passadas, não podemos permitir que possuam uma história, negamos-lhes o direito, pois a história que temos e somos, não mais lhes cabe. Ao denominar-lhes pejorativamente de pré-históricas, podemos, também, de quebra, nos afirmarmos em nossa pretensa superioridade civilizatória, onde acreditamos, muitas das vezes, sem pensar, que a evolução que carregamos em nós, tenha fatalmente nos conduzido ao progresso. Não é bem o que podemos constatar com o quadro de guerras, fomes e misérias de todos os tipos que vemos em nossos tempos. Enfim, o que se sabe, é que viveu em um tempo muito distante, quase do outro lado do mundo, num passado que pouco conhecemos, e que possuía uma rara beleza. Seu nome, como dissemos, não chegou até nós, perdeu-se.

Sim. Estamos em um lugar do passado, muito, mas muito distante mesmo. Ela, depois que perdeu a mãe, passou a ser mais nômade que nunca, pois nunca ficava por muito tempo no mesmo lugar. Não chegou a conhecer o pai, coisa não muito incomum naqueles tempos. Durante a infância, cresceu com a mãe, e muitas das habilidades que desenvolveu havia adquirido com ela, que por sinal, era não só era uma excelente caçadora, mas também boa guerreira, e já conhecia a arte do maneio da terra e a força do grão. Vez ou outra se estabeleciam em alguma área fértil, nas proximidades de algum riacho, e por ali ficavam, a se alimentarem das guloseimas que a natureza gentilmente lhes ofertava, claro, que nada sem esforço, uma vez, que tanto a lida agrícola, quanto às atividades de caça, exigiam muito trabalho. A mãe sabia manejar os arcos e as lanças como ninguém, os quais se voltavam não apenas contra os animais que deveriam abater, para saciarem a fome, mas também contra eventuais inimigos, que em algumas ocasiões apareciam a espreitar, geralmente, em busca de alimentos, ou movidos pelos apetites sexuais. As crianças eram muitas das vezes, presas fáceis, naquele meio selvagem, condição que ainda nos dias de hoje, insiste em se perpetuar. Por sorte, a Terra ainda não estava densamente povoada, como posteriormente, veio a ficar, e a população era bastante rarefeita. Havia épocas, em que viviam longos períodos, sequer sem a sombra de visitantes indesejáveis. Graças à proximidade de uma mãe tão dedicada ao trabalho e tão cuidadosa com a filha, esta pode então sobreviver, quando a outra, definitivamente, se foi.

Era bem nova, quando saiu, sozinha, a explorar o mundo. O tempo em que viveu com a mãe foi suficiente para que pudesse sempre observá-la atentamente, e aprender com ela as inúmeras estratégias de sobrevivência que havia acumulado ao longo da breve existência. Interessante como havia adquirido não apenas os mesmos dons, como repetia seus gestos, com os mesmos trejeitos e movimentos, como se de uma cópia perfeita se tratasse. A forma de segurar o facão, de derrubar o mato e amainar a terra. O jeito como apertava os grãos e os depositava nas pequenas covas que abria no chão com as próprias mãos. Cobria as sementes e resmungava baixinho como se estivesse a confidenciar sabe-se lá com quem, desejando que dali brotasse bons frutos. A maneira de pegar o arco, testar-lhes a cordas e a elasticidade, era tal e qual a mãe havia feito sob seus olhos atentos, a cada dia em que viveram juntas. Eram poucas as presas que lhes escapavam da pontaria certeira. Tinha tanta facilidade com a caça e vivia em um território tão rico em frutos e leguminosas, que nossa personagem, praticamente abandonou a horticultura. Talvez, agora, ao contrário da mãe, fosse mais afeita ao nomadismo, do que a uma vida mais sedentária e estável. Não se sabe se a preferência da mãe, por fixar-se em uma determinada região se dava em função de uma opção que sempre teve, ou se deu devido às demandas de uma maternidade precoce. Para se cuidar de uma criança, a vida sedentária talvez fosse bem mais tranqüila do que a vida cheia de surpresas, que o nomadismo trazia, principalmente quando já se domina as técnicas do plantio. Mas agora, sozinha, queria correr mundo. Muito lhe estimulava as mudanças de paisagens e cenários que suas andanças lhe proporcionavam. Notava que em algumas regiões, a árvores eram mais altas que em outras; mudavam as cores e as formas das flores, frutos diferentes eram encontrados, na medida em que se afastava da terra natal, de onde havia saído. Os seres vivos não eram os mesmos. Sempre havia algum novo animalzinho, novas possibilidades de caça e os mais variados sabores. No fundo, era uma apaixonada pela grande diversidade que a vida lhe oferecia e lhe saltava aos olhos. A vida só e nômade lhe proporcionou grande agilidade. Desenvolveu muitas habilidades que lhe possibilitaram uma sobrevivência relativamente tranqüila, e, geralmente, enfrentava os perigos com tanta ousadia, que eles foram deixando de se constituírem em ameaça. Até dos homens, trêmulos de desejos e violência, que de vez em quando apareciam e vinham molestá-la, ela sabia se safar. E naqueles tempos selvagens, para sobreviver, alguns mortos teve que deixar pelo caminho. Não devemos nos iludir quanto às facilidades de sobrevivência, neste passado remoto. É bem verdade que as disputas entre os homens naqueles tempos, não eram tão freqüentes quantos nos dias em que vivemos, mesmo porque a espécie não estava tão disseminada, mas como ainda hoje, muitos conflitos, eram resolvidos com sangue. Obviamente estas demandas da vida, deixavam-na abalada, mas por saber inevitável a situação, logo se recuperava a observar as belezas, maravilhas e riquezas que a Terra lhe apresentava.

Quando ainda vivia com a mãe, ouvia as mais variadas histórias e experiências vividas e relatadas por ela. O relato se dava em uma língua, com uma estrutura, completamente diferente de tudo que já vimos, pois dela nada ficou de registro, numa época sem os recursos da tecnologia digital, CDs, mp3, ou sequer um gravador daqueles bem toscos, que quase não mais vemos, aqueles à base de fita cassete, que nem os das gerações mais passadas que ainda vivem entre nós, cultivam seu uso. Infelizmente a história apesar de contar com técnicas cada vez mais sofisticadas para desvendar o passado que se foi, juntar um número cada vez maior de peças de seu interminável quebra-cabeças, algumas, com certeza, estarão, para sempre, perdidas, sepultada de vez, na longa vala do tempo. Qual seja não apenas os sabores, advindos das mais variadas combinações de frutos e temperos, de espécies já muito extintas, ou os mais adocicados e inebriantes perfumes, provenientes de climas e pastagens que há muito, a própria natureza, por motivos que não cabe a nós, simples mortais, compreender, já fez questão se desvencilhar. Se tem algo que provavelmente jamais conheceremos são as línguas que se perderam, e junto delas, um universo cultural gigantesco, povoados de histórias, mistérios, sons, dialetos, cantos e música.

A convivência com a mãe havia lhe proporcionado o desenvolvimento de uma fala muito bem articulada, com uma grande variedade de recursos, que talvez fosse mesmo de surpreender até quem vivesse à época. Consta que a mãe, em um passado ainda mais remoto, quando da sua infância e curta juventude, teve contato com grupos humanos numerosos, e com conhecimento técnicos bem avançados, inclusive fazendo uso de uma agricultura relativamente desenvolvida. Teria pertencido a um grupo de uma tradição cultural complexa, que já contava com uma grande variedade de recursos materiais, utensílios, instrumentos, ferramentas e armas. Talvez tenha sido a herança destes conhecimentos, que lhe tenha permitido sobreviver por tanto tempo em um mundo tão inóspito, e ainda criando praticamente só, uma filha. Esta que sempre fora uma excelente observadora, não apenas do que a sua volta estivesse, mas às infinitas falas a que se dedicava à mãe.

Sentia muita falta dos diálogos que travava com a mãe, pois sua fala sempre lhe pareceu um longo fio a se desenrolar de um baú sem tamanho, repleto de ricos e vastos conhecimentos e mistérios que diante de seus ouvidos atentos iam se revelando. Como aprendia com ela. Além disto, prestava muita atenção em cada fonema, na articulação de cada som, como uns se encaixavam aos outros, gerando uma fala melodiosa, que na maioria das vezes, a levava ao encantamento. A mãe, apesar de toda a rusticidade que era a vida, possuía uma voz bela e suave, a comprovar o desenvolvimento deste rico instrumental corpóreo, já naquela ocasião. Pela manhã, aquela voz a animava, enchendo-lhe de energia e entusiasmo para o dia que estava por iniciar. Noutros momentos, assumia um tom metódico, como quem carrega a preocupação pela responsabilidade de ter um mundo inteiro a ensinar, bem mais multidisciplinar, que nossas mentes contemporâneas, tão habituadas à especialização do trabalho e dos saberes, nos permitem dimensionar. Ao fim do dia, quando vinha a tarde, a noite, a lua e uma multidão incontável de estrelas encobriam o planeta, sua voz tornava-se poética, musical. Eram experiências que ela nunca mais se esqueceu.

Não havia algo que deixasse a mãe mais orgulhosa que constatar a eficácia de seus ensinamentos ou métodos. A filha às vezes, parecia até superá-la, pois além do conhecimento e informações que absorvia, era de uma percepção exagerada. As manifestações e conversas da filha eram muitas das vezes, surpreendentes. A mãe acabava por fazer descobertas, indagações, reflexões, que sequer havia imaginado em seus tantos anos de vida. O mundo ainda estava por descobrir, e naquele ambiente ainda meio selvagem, meio bárbaro, duas cabeças teriam mais utilidade que uma, em um cenário sempre pronto a apresentar novidades, revelações e perigos. Mas alegria maior foi quando a filha, passou a dominar não apenas as habilidades técnicas, mas as técnicas e habilidades da fala. Quando a garota pronunciava o rol de palavras que agora também lhe pertencia, os olhos da mãe se enchiam de encanto e o coração apertava de alegria. Não eram raras às vezes, em que a mãe chorava ao ouvir o que a filha tinha a lhe dizer.

Mas a vida havia mudado. Os tempos eram outros. Já havia alguns anos que vivia só a perambular pelos sempre novos caminhos que seus incertos passos vinham lhe abrindo. Praticamente havia feito a opção de estar a só. As poucas gentes que conheceu em suas andanças, acreditava, não eram daquelas a que talvez valesse a pena compartilhar os dias e os destinos. Os poucos contatos humanos mais contínuos, nada além de alguns poucos dias, que manteve desde a morte da mãe, mais a aprisionavam do que possibilitavam a meta a que havia traçado, sobreviver, e conhecer o quanto mais pudesse sobre o mundo que se abria aos seus olhos e a seus passos largos. Não que fizesse questão de evitar os outros humanos, que raramente lhe atravessavam o caminho, mas os poucos que encontrou não lhe motivaram a estabelecer o que poderíamos chamar de vida em grupo, quando muito, ou no mínimo, uma vida a dois. Era detentora de um rico universo cultural, herdado da mãe e aguçado pelos seus selvagens instintos, que lhe proporcionava um firme senso de autonomia e um pleno gosto pela liberdade. No fundo, não era lá muito afeita a criar amarras, pois sentia ter um vasto mundo ainda a conquistar. Já era de sonhos nossa personagem. A vida não era desprovida de perigos, mas a região, em contrapartida, era muito rica em frutos, dádivas da terra, das águas, e o clima era ameno e parecia estar a serviço de uma vida longa. Não havia paragens onde não pudesse se alimentar à vontade. Frutos de todas as formas, arredondados, achatados, lisos, com espinhos, sobre árvores altas, no mato rasteiro, em todas as partes, que levavam consigo todas as cores que a natureza pôde inventar. Doces, azedos, nutritivos, dos que curam, dos que matam a sede, os que fartam os estômagos, os que enchem os olhos. Alimentos prontos que a terra não cessava de ofertar. A rica e variada dieta havia deixado seus cabelos sedosos e fortes, por mais que a longa exposição ao tempo tivesse a chance de danificá-lo. Era daquelas fêmeas que enchiam os olhos de qualquer macho, entre os velhos ou novos, dos mais fortes aos mais fracos, mesmo daqueles que por sorte, naqueles tempos, matinha-se em dia com suas demandas sexuais. Imagine os desejos e impulsos que algumas vezes tinha que enfrentar, principalmente quando se encontrava com homens sedentos que há muito não viam uma mulher passar diante de si, numa época, em que a humanidade não era lá tão vasta, e onde enquanto muitos eram caçadores, outros tantos eram ainda simplesmente caça. A moça possuía um rico arsenal de pontas de pedra, machadinhas, raspadores, facas e pequenas lanças, os quais estava sempre a amolar, e os manejava com tanta habilidade e rapidez, que garantia não apenas apetitosas refeições, como também sua sobrevivência ante alguns bandos de famintos sexuais. Como já dissemos, muitos desses encontros resultavam em machos estropiados, esfaqueados, que a garota na luta dura pela sobrevivência, degolava quase sem dó. Era dotada de uma força descomunal. Em muitas das ocasiões o enfrentamento, o corpo a corpo fazia-se desnecessário, pois aprendera com o tempo, a domar o inimigo com os olhos. Lançava sobre eles um tão fulminante olhar, que muitos punham as pernas a tremer, e quando não, disparavam a correr assustados, atormentados, sem saber se de fato, tinham visto uma mulher, ou um animal feroz e mortífero, do qual ainda não haviam encontrado.

Por muito e muito tempo viveu isolada, sem contatos com outros dos seus. E diante do silêncio de sua solidão, passou a ouvir os sons do mundo, como pouquíssimos até hoje talvez tenham ouvido. De início, vinham-lhe aos ouvidos, a voz da mãe. Aparecia assim de repente, e parecia repercutir pelos cantos do mundo, repetindo-se em ecos. Nunca conseguia identificar ao certo o que dizia a voz. Mas era a voz bela e suave de sempre, que cantava aos ouvidos e ao mesmo tempo, parecia espalhar-se pela eternidade. Em seguida, ouvia a sua própria, sem que abrisse a boca. Talvez a mesma voz que tinha, quando ainda era uma criança. Nestas ocasiões testava suas cordas vocais para certificar-se que assim como seu corpo havia se desenvolvido, tornando-se tão bela mulher, sua voz também tornara-se estranha aos seus próprios ouvidos. Aí é que percebeu o quão calada havia estado por alguns bons anos. Esta súbita percepção acabou lhe causando algum desconforto, pois pouco usava a voz que tinha. Na ausência de uma família, círculo de amigos, ou um companheiro, resolveu que a partir daquele dia, iria comunicar-se, expressar-se pela fala, com os fenômenos e as coisas vivas, que encontrasse pela frente. Iria a partir dali, relacionar-se vocalmente não apenas com os peixes, as aves, répteis, mamíferos, insetos, com os quais topasse pelo caminho, mas também com o ruído dos ventos, o esgoelar das tempestades, as melodias das florestas, o canto das águas. Daria voz à voz que tinha, e o que se emudecia, iria tornar-se um vasto depósito de sons. E assim se fez. Às vezes, permanecia calada e se punha, silenciosamente, a ouvir. Aprendia a cada dia, os códigos sonoros da natureza, os quais costumamos imaginar secretos, mas só o são, em função da nossa intolerância em querer ouvi-los, desvendá-los. Mesmo porque, a vida nas cidades, que muito posteriormente se desenvolveram, em nada facilitava este contato, muito antes pelo contrário. Os ruídos e as luzes das grandes metrópoles impedem hoje, não só que ouçamos o que tem a terra a nos dizer, como sequer nos permitem lembrar as estrelas radiantes ad infinitum que brilham sobre nossas cabeças. Descobriu a música que havia guardada em cada ambiente, em cada ser que dela se aproximava. Primeiro ela os fitava, olhos nos olhos, depois trocavam sons, sinais. Desenvolveu um universo de códigos sonoros que se sofisticava a cada nova experiência, que poderíamos já chamar de interativa. Ao longo dos anos parecia falar com os trovões, com as flores que se abriam, e talvez por isso mesmo, se abrissem mais belas, entoou o canto dos pássaros, que admirados, passaram, em várias ocasiões, a lhes fazer companhia. Nestes momentos, uma verdadeira sinfonia paralisava todos que carregassem seiva, sangue ou alma. O mundo parava a ouvi-los. Ao se banhar nos córregos cristalinos que atravessavam as terras que ainda não eram territórios, cantava, cantava, como se estivesse a encarnar, o que poderia ter sido uma sereia. Projeto da natureza, quem como hoje sabemos, acabou por não vingar. Alguns pássaros e pequenos mamíferos, muitas das vezes, costumavam acompanhá-la por algumas léguas, presos ao seu canto, até que as novas condições ambientais, de terras desconhecidas, ameaçassem sua sobrevivência, e aí acabavam por abandoná-la. Mas sempre, por onde passava, parecia conquistar a simpatia dos bichos e o sorriso dos céus. Mesmo estando só, parecia nunca o estar. E cantava pelos caminhos afora.

Numa fria manhã em que o céu estava completamente azul, como se alguém houvesse levado para sempre todas as nuvens do firmamento, despertou subitamente, e como se trouxesse algo dos sonhos, que talvez ainda não tivessem de todo se desfeito, decidiu que naquele momento mesmo, executaria uma idéia que parecia ter vindo pronta, sob encomenda. Animou-se. De um salto, levantou-se de sua cama de folhas e ramos, nas quais nunca pernoitava por muitas vezes. Catou galhos de árvores, troncos caídos, cipós, folhas com diversas consistências e envergaduras, deu nós, esticou daqui, puxou dali, amarrou cortou, aparou, e começou a montar o que hoje chamaríamos de instrumento musical. É uma parte difícil da história, pois desconhecemos os detalhes de como este instrumento primordial se fez ou sequer podemos imaginar que tipo de som ele foi capaz de produzir. A moça o admirava com os olhos de quem havia realizado qualquer espécie de mágica e com um considerável instinto religioso. E ficava a imaginar como teria conseguido fazer aquilo. Mas uma coisa é certa: o som daquela coisa, que ora mais lembrava um instrumento de corda, ora um instrumento de sopro, associada aquela voz, agora talhada, afinadíssima, criou algo, que chamaríamos de encantador. Quando soavam os acordes, e aquela voz se propagava no ar, a vida parecia um concerto, o mundo girava harmoniosamente, e a acústica da atmosfera, ressoava-a pelo infinito. Era de fato, um canto poderoso. Infelizmente não havia naquela época, gravadores ou qualquer parafernália tecnológica que pudessem registrar esta música para a posteridade, pois por onde passava aquela moça, seu canto enchia o silêncio de alegrias, e os homens ficavam de bocas abertas e ouvidos estatelados. Devemos registrar que o desenvolvimento desta rica habilidade artística da jovem a poupou de muitos conflitos violentos. Se no passado a moça se livrava dos perigos utilizando inicialmente as armas, e posteriormente até um olhar, acabou por afastar praticamente todos eles, com a música que entoava, com os códigos sonoros do mundo, um instrumento musical único, e aquela voz, como ainda não havia se ouvido. Até os mais selvagens dos instintos animais acanhavam-se em atacar o que lhes parecia incrivelmente belo e prazeroso. Fazia-se mais feliz a vida naquelas paisagens.

Era outono. Numa manhã qualquer, daquele longínquo passado, ao atravessar pela primeira vez, uma infinita planície que se abre após um longo emaranhado de colinas e penhascos, avista ao longe, quase imperceptível, não fossem seus olhos atentos, uma crescente nuvem de poeira, que mesmo distante, parecia se aproximar a cada momento. Paralisa-se. Ainda não havia visto aquilo. O que seria? Um novo fenômeno que a criativa natureza estaria agora a lhe apresentar? Efeito de ventos, tufões, tempestades? Ou eram seus olhos que se ofuscavam diante o clarão do dia, que se refletia das pedras do chão? A nuvem se aproxima. Após um estado de paralisia, que prendeu seus pés firmemente ao solo, agora sente todo seu corpo tremer, dos pés à cabeça. Um repentino calafrio lhe sobe a partir do estômago, o coração acelera as batidas, e o sangue dispara apressado pelas veias. No vasto campo em que estava, o encontro com o desconhecido que se aproximava parecia ser inevitável. Praticamente não havia onde se esconder. Agacha-se por trás de uma trincheira de pedras, e procura forçosamente identificar o elemento estranho que avança rapidamente. Percebe que à frente a cortina de poeira de que se levanta, movimentam-se num ritmo frenético, sombras e luzes, como que a alternar-se. Vem a galope. Seus olhos por fim, começam a delinear a paisagem que se forma apressada. Homens, muitos homens, e muitos cavalos. Nunca os vira, tantos, sejam os homens, sejam os cavalos. Muito menos que montassem uns sobre os outros, e sobre eles tivessem tanto controle e domínio. Os cavalos vinham montados, e incrivelmente alinhados, em quatro fileiras paralelas. Cada uma delas, com cerca de oito homens e oito cavalos. Sentia que o corpo lhe tremia, não era à toa. Correr pela planície, em busca de um abrigo, que provavelmente não encontraria naquelas terras abertas em que penetrara, iria torná-la um alvo fácil. A alternativa seria ficar por ali, e torcer para que o perigo passasse, sem que desse por ela. Sabia que não seria fácil. Deveria encolher-se, calar-se, e evitar qualquer ruído. Assim permaneceu, sem se mexer. Mas seus olhos se arregalavam cada vez que percebiam mais detalhadamente os traços dos visitantes, que a distância escondia. Já havia visto de quase tudo, nestas longas andanças a que havia se entregado. Mas uma formação de homens, cavalos, insígnias e metais, que ora vislumbrava, deixavam-lhe atônita, pasma. O esconderijo que havia encontrado não lhe seria suficiente, estava praticamente a descoberto, por mais que se encolhesse, as pedras não eram grandes o suficiente, e nem possuíam uma formação contígua, que pudesse oferecer-lhe proteção. Mas não perdia aquela tropa de vista. Seus olhos sequer piscavam. Observava cada detalhe. Assustava-se. A organização das fileiras, a velocidade dos animais, o controle de uns sobre os outros, a montaria, os penachos coloridos, que ornavam os corpos, sejam dos bípedes ou dos quadrúpedes, traziam-lhe cada vez mais apreensão. Além do mais, não tinham cara de bons amigos, afinal possuíam uma organização protomilitar, e não pareciam estar em missão de paz. Mais uma vez, pareciam ser mais dóceis os cavalos do que os homens, como em muitas outras ocasiões, já tivera a oportunidade de perceber. A dureza daqueles rostos, em conjunto, galopantes, proporcionavam-lhe uma peculiaridade única, uma natureza férrea, um espírito de pedra. Ostentavam armamentos poderosos, talvez os mais sofisticados que existissem à época. Grandes lanças pontiagudas, afiadíssimas, que os guerreiros portavam com ostentação. Facas, punhais, adagas, todas feitas de um metal, pronto para sangrar, cortar, perfurar, causar dores e sofrimentos sob as mais variadas modalidades. Os homens deixavam-nas à mostra, não apenas para que ficasse mais fácil e rápido seu uso, quando se fizesse necessário, mas também como demonstração ostensiva de força. Às vezes, apenas o medo que impunham, ante a superioridade bélica que apresentavam, já era o suficiente para dobrar o inimigo. O poder parecia tornar-se uma espécie de espetáculo. Levavam às cabeças, elmos ricamente confeccionados, que variavam de tamanho e requinte, conforme a posição que os guerreiros ocupavam em suas fileiras. Os que vinham à frente, portavam elmos de ouro, incrustados com as mais preciosas pedras, que vinham de domínios distantes. Uma larga armadura de bronze protegia seus tórax de qualquer infortúnio, como uma lança de algum grupo inimigo, ou uma flechada, daqueles que viviam ainda, a idade da pedra. Os braços eram cobertos com placas de metal, minuciosamente moldadas com símbolos, gravuras, códigos, que nossa personagem, assustada, sequer poderia imaginar do que se tratasse. Até os cavalos carregavam ornamentos, plumas, distintivos, tornozeleiras, dando mostras claras, que já há mais tempo que se imagina, estas pobres criaturas, já haviam sido subjugadas, pela natureza humana. Os que vinham aos fundos possuíam vestimentas mais modestas, mas ainda assim, vinham armados até os dentes. E não eram raras as situações em que tinham que assumir posições dianteiras, principalmente, quando eram maiores os riscos, mais sanguinários os conflitos e lutas, pois aí deveriam sacrificar-se para poupar o sangue e as vidas de suas lideranças, que passavam a proteger-se na retaguarda.

Por mais que se enroscasse entre as pedras em que se escondia, não foi capaz de escapar à observação vigilante do bando. Ao vê-la, o que ia a frente fez um sinal. Em seguida comunicou-se numa língua, que lhe era completamente desconhecida. O grupo, de uma só vez, como se fosse um único corpo, parou. Aí pode perceber melhor o agrupamento. O homem que ia à frente, o que a havia visto primeiro, era a autoridade maior, o que se podia perceber não apenas em função da relativa exuberância dos trajes, como através do tom da sua fala, que mais estava para gritos, do seu nariz em pé e seu ar de superioridade. Era ainda nítido o olhar de submissão do restante do grupo. Os que iam mais próximos ainda lhe dirigiam a palavra e trocaram breves opiniões. Os que vinham aos fundos, sequer encaravam-no nos olhos. Mas ainda assim, pareciam orgulhosos, de peitos inflados, convencidos, que eram de fato, peças importantes da missão. Lá bem atrás dos últimos homens a cavalo, o que só agora podia ver, havia um grupo de cinco homens feridos, amarrados uns aos outros, pelos braços, pernas e pescoços. Prováveis escravos ou prisioneiros de guerra. Era um mundo desconhecido para ela. Os homens encaram-na com olhos de desejo e os que iam mais à frente, se preparam para pular dos cavalos e irem ao seu encontro. Pareciam ter pressa em tocá-la. Quando as coisas caminhavam rumo a uma fatalidade, ela então resolveu recorrer ao recurso que tantas vezes já lhe havia salvado. Controlou o medo que insistia em estrangular-lhe a garganta, buscou encher de ar seus pulmões, como a revitalizar as energias, molhou os lábios, e pôs-se a cantar . E ao cantar, fez-se forte. Sua voz repercutia ao longe, quase a preencher o espaço. Aves coloridas sobrevoaram suas cabeças cortando o céu, respondendo ao clamor daquele canto, as nuvens suavemente se abriram, deixando mais claro aquele momento, uma sinfonia de luzes e notas musicais insistia em dominar o mundo. Os homens contiveram seus passos. Enquanto ouviam aquele canto permaneciam inertes, paralisados, como estátuas. Seus olhos grudavam-se nela. Sequer arriscavam-se, num primeiro momento, a olharem uns para os outros, como se não quisessem perder um segundo sequer, daquela melodia, que certamente, ressoaria para sempre nos recônditos de suas mentes, em lembranças e memórias. O céu se abria e fechava, como se tivesse a encher de efeitos especiais algum espetáculo da natureza. Os homens arrefeceram seus ânimos. Aos poucos, a musculatura e os nervos dos corpos relaxavam ante a música que invadia os ouvidos. Suas feições tornaram-se menos duras e tensas. Naquele breve instante, sentiam-se magicamente descontraídos e felizes. O comandante em chefe arregalou os olhos, como se estes fossem saltar de suas órbitas. Quem por ali passasse, poderia imaginar que aquele amontoado de homens e cavalos, já há muito fora de seu tradicional alinhamento, fosse um grupo de perdidos e desorientados. Como se não apenas houvessem se esquecido para onde iam, mas também de onde haviam acabado de vir. Não arriscavam uma palavra qualquer, continham as tosses, pigarros e espirros, pois de alguma forma, aquele canto mantinham-nos em estado de graça. O comandante em chefe arrisca dois passos, afinal, tem que mostrar aos subalternos, que ainda é dele a iniciativa naquele lugar. A música chega ao fim. Ela abaixa os olhos e uma nuvem escura ofusca o sol, subtraindo o excesso de luzes que iluminava aquele episódio. Um vento forte faz revoar as crinas, os rabos dos cavalos, as plumas, penachos, estandartes, e os cabelos dos homens presos entre couraças e laços, parecem querer arrancar de suas metálicas cabeças. Os cabelos da moça taparam seus olhos, como se quisessem ocultar-lhes o destino. O comandante em chefe dá ordens para que se afastem os outros. Arranca o elmo e a placa de bronze do peito, faz baixar a guarda e aproxima-se lentamente dela. Ela fita-o, imóvel. Procura manter as batidas do coração que estão a estourar-lhe o peito. O homem aproxima e toca o seu corpo, suas mãos percorrem cada curva, como a conferir os detalhes das dimensões e formas. As mãos acariciam seus cabelos, correm pelo pescoço, alisam seus seios e tocam suas intimidades e entranhas. Devido à presença de seus homens, que o observavam de longe, achou inadequado possuí-la ali, não só por considerar que estas intimidades e taras não devem se revelar aos olhos dos subalternos, como havia ainda o risco de estimular desejos contidos, a libido daqueles homens de ferro, que poderia despertar paixões, que viessem alterar o rumo da história, quebrar a ordem das coisas. Seria melhor não se arriscar. Resolveu levá-la para si.

A moça esperneou, gritou, arranhou, mordeu, mas não pode com a força daqueles brutamontes. O instrumento musical, que chegou a usar para tentar proteger-se, acabou partindo-se em vários pedaços e ficando para trás. Eles amarraram-na e o comandante em chefe decidiu que aquela fêmea seria dele, fruto de uma vida de conquistas e expropriações. Um espólio de guerra, um troféu. Assim o fez. Fez questão, ele mesmo, de levá-la em seu próprio cavalo, por sob suas garras. Após uma cavalgada de algumas poucas horas, finalmente chegam ao destino. Estavam de novo em casa. Viviam estes homens, num estágio civilizatório, onde não apenas dominavam as artes dos metais, como já conheciam a propriedade privada. Possuíam vastos campos cultivados e fartos rebanhos que pastavam às margens de um caudaloso rio. Para garantir seus territórios, não apenas mantendo-os, mas ampliando-os, recorriam sempre à guerra. Talvez fosse mesmo sua maior especialidade. Os saques e pilhagens eram parte de seu ofício. Acumulavam luxos e tesouros. Os trabalhos pesados com as plantações, com a foice, enxadas e facões eram dados a homens muito maltratados que eram, na maioria das vezes, capturados nas incursões militares. Aos quais restava ainda o trabalho nas construções, nas oficinas, estalagens, as tarefas domésticas e as bajulações a que faziam questão os seus senhores. Estes, fora a guerra, se é que assim realmente podemos chamar, o que mais se constitui em assaltos organizados, dedicam-se vez ou outra às caçadas, o que muito contribuiu para o espírito guerreiro daquelas elites primitivas. Mas de volta às suas terras, gozam uma vida de prazeres, com muita festa, bebidas, orgias e farturas.

Caso alguém que a conhecesse em outras circunstâncias, a visse presa naquele local, jamais imaginaria ser a mesma pessoa. Suas mãos estavam trêmulas, a face pálida, como se o sol não mais se pusesse a pino. Os olhos pareciam encharcar-se irremediavelmente. É como se a história houvesse passado rápido demais diante deles. O comandante não tinha pretensões de deixar-se livrar de sua mais nova conquista. Manda os escravos construírem uma grande gaiola de ouro, onde iria mantê-la, quando não estivesse por perto. Naquela primeira noite, ele a leva para um cômodo, repleto de aromas e decorações, um lugar luxuoso e confortável, com tecidos finos, lençóis e almofadas, confeccionados para redimensionar os prazeres. Ela mantem-se calada, encolhida. O odor daquele ambiente, somado ao suor daquele homem sobem-lhe as narinas, causando-lhe náuseas. Falavam línguas estranhas e não lhes parecia haver comunicação possível. Causava-lhe nojo as palavras, que não queria compreender. Ele tornava-se indelicado no gesto. Ela não lhe emprestava o olhar. Atirou-a sobre a cama, arrancou o manto que lhe fazia as vestes, e penetrou-a, abruptamente. Ela sangrou. Fez-se escrava. Ele exigiu que cantasse pela manhã. No dia seguinte, mostrando a eficácia, que o comandante exigia de seus artesãos, sua gaiola estava pronta, dourada, entre a cama e a janela do quarto. Ele não tinha dúvidas de que era ali que deveria mantê-la. Ali ela passou o resto de seus dias, mas a voz e o canto nunca mais lhe saíram à garganta.




Marcos Vinícius.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Brincam os garotos.


Brincam os garotos


Estavam reunidos os três, já entediados com suas brincadeiras rotineiras, quando resolveram encontrar uma forma de conhecerem melhor aquele vizinho da rua ao lado, que há pouco menos de um ano havia se mudado para a região. Afinal, parecia um sujeito simpático, e certamente, talvez trouxesse algum novo brinquedo ou algo, no mínimo, diferente, daquela terra distante, de onde sequer, haviam ouvido falar. O maiorzinho, ainda insistia na forra daquelas bolinhas de gude, que havia perdido no dia anterior, para o mais novo deles, que por sua vez, preferia já o jogo de cartas, que muito o fascinava, com seus reis, valetes e rainhas. O do meio insistia em que deveriam no dia seguinte, convidar o novo vizinho para um jogo qualquer. O sotaque que o recém-chegado trazia, despertava mesmo a curiosidade nas redondezas, onde a maioria das pessoas, principalmente os mais jovens, ainda não tinha visto aquilo. Sabemos o quanto a convivência com quem vemos como diferente, estranho, curioso, pode nos fascinar ou proporcionar graves incômodos, pelas mais diversas razões. Os garotos então, resolveram, que iriam, no outro dia, ainda pela manhã, à casa daqueles forasteiros, não só para conhecê-los, e mais ainda, para tentar conhecê-los melhor que qualquer outro na vizinhança. Feito.

Logo cedo, se encontraram e se dirigiram à casa do menino. Pelo caminho, discutiam os três, qual seria a melhor estratégia, para melhor conhecer o convidado. O que ia à frente, o mais alto, sugeriu, que de início, perguntassem de onde havia vindo, falariam um pouco de suas vidas e preferências, e depois pediriam a ele, enfim, que falasse da sua própria. O que ia ao meio, sugeriu que deveriam tentar, no mesmo dia, entrar em sua casa, conhecer seu quarto e seus brinquedos. De quebra, poderiam conhecer parte da família, aquela irmã bonita, que muito desperta a atenção dos rapazes, e aquele cachorro esquisito, cuja raça, nunca haviam visto por estas bandas. O caçula desaconselhou as propostas dos colegas, dizendo que com idéias como estas, iriam assustar o garoto, e aí perderiam, não apenas a viagem, mas também a oportunidade. O que faremos, então? Indagaram os outros. A idéia do menino era convidá-lo para uma brincadeira, onde estivesse em suas mãos o destino dos outros, por que aí, imaginava, discutiria com eles, nas entrelinhas ou explicitamente, o que do outro mundo, que fatalmente desconheciam, ele trazia consigo. Mesmo não entendendo muito bem, o que pretendia com tal sugestão, e olhando meio desconfiados o pirralho, resolveram apostar na idéia e ver no que ia dar. Afinal, a perspectiva de possuir algum poder, mesmo que de brincadeira, para muitos, pode ser mesmo algo irresistível, irrecusável.

O garoto topou a brincadeira, que consistia no seguinte: durante aquele dia, enquanto juntos estivessem, ele seria responsável pela sobrevivência do grupo, não que tivesse que mantê-los, diríamos, as suas custas, mas deveria ser a liderança capaz de criar alternativas, para que todos, sob seu controle pudessem não só ter um dia melhor, mas se divertirem com as novidades que o novo colega, certamente conhecia. Era a idéia original. Como se naquele dia, tivesse sido eleito para a função de rei, o líder entre eles. Queriam conhecer os garotos os hábitos da terra mágica da qual acreditavam ter vindo o vizinho. O garoto, ao entender então, o convite, entusiasmou-se, pediu um minuto, e imediatamente voltou, com uma blusa um pouco mais nova, que já algum tempo, estava pendurada no cabide. Pegou um velho distintivo que guardava na gaveta e aprumou-o ao peito. Passou rapidamente pelo espelho e sentiu-se maior, seus olhos estavam cheios. Inexplicavelmente, sentiu-se corar. Mas por que diabos estavam os garotos a lhe fazer tal convite? Mas não se fez de rogado, e afinal, também estava disposto a se divertir, além do mais, aqueles três não eram lá o que se possa chamar de ameaçadores, e já os havia visto sempre por aí, pareciam mesmo serem boa gente, e tinham os moleques, jeito de bem intencionados. O rapazinho não quis perder tempo. Desceu correndo as escadas e reencontrou os vizinhos.

Ao certificar-se que de fato, os garotos não iriam lhe causar qualquer tipo de mal, teve repentinamente uma idéia. Lembrou-se da nota de cinqüenta que há uns dias guardava em um pequeno livro de cabeceira. Pediu aos novos colegas mais um minuto, rapidamente correu até a casa, e sem que o vissem, meteu o dinheiro no bolso. Voltava feliz e animado. Ao longo de um dia inteiro, ele se divertiu. Quem estivesse observando de longe, talvez imaginasse que fosse o exemplo do bom amigo e do espírito de solidariedade. Gastou quase a totalidade do dinheiro que levava no bolso com os três. Pagou sorvetes, pipocas e refrigerantes. Um brinquedo no parque para cada um deles. Mas a façanha, porém, não saiu de graça para os outros. Ele os fez pagar, ainda que não lhes cobrasse qualquer dinheiro. No entusiasmo que a circunstância lhe apanhou, praticamente reinou de fato, sentiu-se grande. Os garotos acabaram, a contragosto, se subjugando, pois não era todos os dias que alguém lhes custeava tamanhos prazeres, e além do mais, havia sido deles, a idéia. O rapazinho, em contrapartida, lhes cobrava todos os tipos de mimos e bajulações. Deveriam os garotos carregá-lo aos ombros, limpar os seus restos, tirar-lhe a poeira dos sapatos. Era a regra. O pacto. Afinal, cabia a ele, dar as ordens, que vinham muitas das vezes acompanhadas de gritos e safanões, pois acreditava que tais arrogâncias eram parte do papel que lhe fora atribuído. Por fim, divertiu-se o garoto, os novos colegas resignaram-se, e na carência de dias melhores, resolveram subestimar a humilhação. O dia terminou. O forasteiro jamais iria esquecê-lo. Os meninos nunca mais lhe bateram à porta. Por muito tempo se perguntaram se teria sido o mesmo garoto, se o convite fosse outro.



Fim.


Marcos Vinícius.