sexta-feira, 10 de julho de 2009

Drama da consciência






Drama da consciência





A ambulância para em frente ao grande portão de ferro e reduz a luz dos faróis. Um guarda, de prontidão, retira uma pesada chave da cintura, e abre rapidamente os cadeados. O portão se abre. O carro avança pela rampa de acesso e as luzes de emergência se apagam. Assim que estaciona, surgem pelo portão principal dois musculosos enfermeiros, que se dirigem imediatamente a recepcionar o doente. Ao abrirem o veículo, dois olhos enormes saltam sobre eles, e os fitam profundamente. Num primeiro momento, desconcertam-se um pouco, os profissionais. Mas como não era ocasião de se perder tempo, retiram o paciente que estava transtornado, nitidamente alucinado, do interior do veículo. Perguntam os enfermeiros pelos recônditos de suas consciências e memórias se já tinham cruzado com um olhar assim. Mesmo nunca tendo visto aquele homem antes, era óbvio que estava desfigurado. Que mal levaria consigo? Parecia ter saído de um momento de fúria. Estava amarrado. Dois vizinhos e um parente distante ajudaram a segurá-lo. Naquele momento, encontrava-se aparentemente sob controle, e já um pouco sedado pelos fortes medicamentos que lhe foram aplicados pelo caminho. Tinha a face dura. Não havia expressão, além do aspecto de quem teve que conter suas forças, em virtude de forças maiores o segurarem. Sejam os que vinham pelo interior da ambulância, seja pela segurança, que o recepcionava na chegada. O corpo estava sob domínio, mas parecia carregar um sujeito sem alma. Os olhos estavam fixos, talvez, em coisa alguma. Pareciam mirar o nada que carregava por dentro, como se mais não fosse que um infinito universo vazio, uma grande noite de silêncios e sem estrelas. As mãos estavam trêmulas e a boca ressecada. Não havia pronunciado palavra alguma. Mantinha-se amarrado.


Enquanto os acompanhantes davam a entrada em alguns papéis, é levado para a ala que passaria a ocupar. Vai andando. Não olha para os lados. Segue pelo imenso corredor, que não parece correr por seus olhos. É certo que não o vê. Mas anda como se os passos já conhecessem o destino, vai em linha reta. Observado, sem observar, não vê os outros internos, com os quais cruza pelo caminho. Ficará no quarto no final do corredor, pois mesmo entre os demais doentes poderia despertar atenções e curiosidades, pois, de fato, se trata de alguém diferente. Ainda não se sabe o que está a ocorrer. Um caso atípico, talvez.


Dois médicos avaliam o doente, que está inerte. Tem os olhos voltados para cima, não dorme, mas também não parece estar acordado. Não emite som algum. O coração bate forte. Os cabelos estão desgrenhados. Não reage às tentativas de diálogo. Os médicos, ainda sem um diagnóstico preciso, um pouco desorientados, acham mais conveniente deixá-lo amarrado. Aplicam mais uma dose de remédios, observam mais um pouco e, em seguida, dada a urgência de outros atendimentos, abandonam-no só, no quarto. Ao saírem, o homem se mexe. Parece dotado de uma força surpreendente. Num único gesto, desvincula-se das espessas cordas que atavam seus braços e mãos, como se fossem finos barbantes, e tenta se levantar. Neste momento, é tomado de um pânico violentamente incontrolável. E naquele hospital, solta as primeiras palavras, que saem engasgadas. Você de novo? O que fazes por aqui? Por que não me abandonas de vez, ó tormento? Não posso mais, responde o espectro que se acomodava por sobre a mesinha ao lado do banheiro. O doente sente todo o corpo arrepiar. Terei que acompanhá-lo, agora, para sempre. Chame-me sua consciência. Sou companheira antiga, e resolvi firmar-me de vez, em ti, por passares tanto tempo sem notar minha permanente presença. Tens longas dívidas comigo. Não pretendo deixá-lo. O doente é tomado de um pânico total. Desta vez, tenta gritar, pedir um último socorro, mas não consegue, o grito é sufocado na garganta.


 O que queres? suplica o doente. Como consciência que sou, não posso deixá-lo em grandes dívidas, principalmente, com o maior credor que tens, que sou eu própria. Afinal, já estás na idade de me dares algumas respostas. Quanto às perguntas, como agora bem sabes, tenho-as de sobra, tanto as que se referem aos casos pequenos, quantos às referentes aos de maior gravidade. Por que nunca atendeu aos meus apelos? Uma vida inteira. São tantos anos... Lembras-te de quando te corroias de inveja? Esperneei, supliquei, sacudi, gritei aos ouvidos e nada. Quando te envolveste em golpes e mentiras, fiz de mim fortaleza, para poder-te segurar. Nunca consegui te conter. Quando te esfolaste, trapaceaste, quase me dei por morta, mas consegui-me soerguer. Puxei-te pelos braços, agarrei teus cabelos, e de nada adiantou. Deve-me respostas. Sabia que um dia nos veríamos de frente.


O doente suava por todos os poros; a mão tremia e os cabelos, assim como o lençol da cama, estavam ensopados. Inquietava-se irremediavelmente. As pernas, no entanto, mantinham-se amarradas. O visitante, que grande incômodo lhe trazia, sentia-se à vontade, esticava-se sobre a mesa, sorria confortavelmente, e punha-se a falar. Falava, falava, compulsivamente, como se um mundo de palavras e intenções estivessem fadados a se libertar. Sentindo o estado de choque do paciente, a consciência resolve, então, se aproximar. Desce da mesinha e encosta-se à cama.


Algumas horas depois, um alvoroço percorre o hospital. Os médicos, todos eles, são chamados às pressas pela direção da instituição. Todos, sem exceção, os que se encontrassem no horário de repouso e os que estivessem em meio a algum atendimento, deveriam atender à emergência.. Luzes insistentes piscaram e uma eufórica correria se espalhou pelos longos corredores. Em pouco tempo, o quarto do paciente estava repleto de todos os tipos de médicos, enfermeiros, técnicos de equipamentos, especialistas de toda ordem, a burocracia, representantes do governo e autoridades policiais. Todos perplexos. Olhavam-se, uns para os outros, sem palavras com as quais pudessem se expressar. Seria um dia inesquecível para a medicina. No dia seguinte, estaria estampado nos jornais, o doente havia morrido, incrivelmente estrangulado pelas próprias mãos. Dizem que perdera a consciência de si.



Marcos Vinícius.




































































domingo, 28 de junho de 2009

O Rei e os ratos





O Rei e os ratos.



Já há muitos anos que era senhor absoluto por aquelas terras. Na verdade, o poder que acumulava não era fruto de apenas  uma vida ou geração, era poder que vinha de muito tempo, pois a família tinha sangue real e, em função da precariedade do serviço de registros, não se sabe dizer ao certo, há quanto tempo dominaram por ali. O reino era bem vasto, resultado de uma política expansionista agressiva, levada a cabo por várias gerações de antepassados . Sob seu comando, atingira o seu limite máximo, nunca fora tão amplas suas fronteiras. Dominava não só a região das montanhas, os planaltos, mas também a região dos lagos, as planícies, os vales e as praias. Os domínios estendiam-se por desertos e florestas. As insígnias do poder real espalhavam-se por todos os cantos, para que o rei pudesse estar em todos os lugares, onipresente, a fiscalizar a todos, a ditar-lhes as ordens, a ameaçá-los, pois de ameaças e arrogância também se faz o poder. Não havia muro, construções, monumentos, templos, prédios, que não trouxessem dependurados ou gravados os símbolos do Estado, da nação. Era preciso sempre lembrar aos homens, aos povos, quem de fato, exercia o domínio e o poder sobre eles. Era necessário também espalhar o medo, pois sem ele, dificilmente, reinos, impérios sobreviveriam ao longo dos tempos. A demonstração de força é recurso fundamental dos que desejam manter entre as mãos o cetro e, sobre os ombros, o manto real. Não há realeza que sobreviva ante súditos destemidos. Vez ou outra, punições exemplares, públicas, geralmente em praças, em centros religiosos, para que possam, também as execuções, serem atos de fé, consagrações. Os impérios se edificam não apenas sobre leis e fortalezas, pedras e pontes, mas também sobre o sangue dos homens.


Ele era particularmente impiedoso. Gostava, na maioria das vezes, de participar diretamente dos rituais de execução. Não se sabe ao certo o porquê do gosto especial que sentia nisso, mas era algo que há muito o fascinava. Talvez, fosse mesmo o momento em que mais poderoso se sentia. Afinal, era ali, mais que em qualquer outra ocasião, que se manifestava e se comprovava seu poder absoluto, pois podia trazer à morte quem desejasse, no momento em que melhor lhe conviesse. Não era ele quem dava o golpe final, mas fazia sempre questão de entregar, pessoalmente, o machado ao carrasco. Eram ritos que  considerava necessários, para que pudesse tornar-se e manter-se especial e temível diante dos olhos de seus súditos. Quando jovem, fizera vigorar por alguns anos uma lei que condenava ao degredo ou à morte quem ousasse sobre sua sombra pisar. Gostava sempre de manter-se à distância dos outros seres supostamente inferiores, mortais. Não que dispensasse os bajuladores, mas é que no fundo, sentia-se um deus, o qual de fato não poderia ser, se muito próximo aos homens estivesse.


O excesso de vaidade condenava-o a alguns vícios. Geralmente, não usava a mesma roupa mais de uma vez, o que não era um problema, uma vez que possuía inúmeras costureiras e criadas à sua disposição. Mais difícil às vezes o que sempre custava algumas vidas, era conseguir as matérias-primas, pois muitas de suas vestimentas preferidas eram costuradas com peças, tecidos, pedrarias, jóias, vindas de terras muito distantes e de difícil acesso. Fazia questão de perfurmar-se como ninguém. Havia uma grande perfumaria no palácio, onde montou uma considerável equipe de especialistas provenientes das mais diversas regiões do mundo até então conhecido. Semanalmente, banhava-se com ervas, flores, perfumes, para que a ninguém mais fosse proporcionada a graça dos mais finos aromas e cheiros. Usava pomadas, ungüentos, cremes, que retardavam o envelhecimento e proporcionavam uma pele suave, como só os reis, príncipes e princesas podiam usufruir. As roupas eram costuradas com fios de ouro. A coroa era mais bela e rica do que a de todos os outros ancestrais.


Fazia questão que as ruas e os caminhos por onde passasse fossem todos exaustivamente varridos, mais pelo ritual que lhe proporcionaria pela passagem, com centenas de homens e mulheres envolvidos na varrição, quando ia por longas caminhadas, que por uma mania ou obsessão pela limpeza. Não gostava de animais em casa e fazia questão que os tapetes fossem sempre trocados. Mas algo o irritava profundamente: Ver ratos atravessando os cômodos e dependências do palácio. Nunca o admitia. Característica que, a propósito,  herdara das gerações anteriores, pois recorda-se que já seu avô possuía verdadeiro horror aos roedores e sempre mandava seus criados persegui-los e eliminá-los. Tarefa que depois se soube inglória, pois por mais que se perseguissem os murídeos, eles estavam sempre, ainda, a cruzar-lhe os caminhos.. Já os encontrara em vários cômodos, pelos corredores e até pelos grandes jardins. Se era assim pelas entranhas do palácio, imagine quando ia o rei visitar as regiões mais distantes e pobres do seu crescente império... Essa presença animal deixava-o intrigado. Se já subjugara tantos povos, eliminara tantas aldeias e povoados, vencera tantas guerras e batalhas, por que sua dinastia não fora capaz, enfim, de eliminar os malditos ratos? Que teriam esses animaizinhos que os fazia resistir aos tempos, aos exércitos e às escaramuças? Com eles, nada podiam as armas, os venenos, as orações, as mudanças de hábito, a força, e parecia nada poder também   os deuses. Vem atravessando as gerações de homens, súditos e reis, invencíveis.


Muito o incomodava saber que, a rigor, os ratos dominavam  aquelas regiões muitos anos antes que os seus mais antigos antepassados, pois pertencem a uma estirpe animal que  soma dezenas de milhões de anos, existentes desde tempos imemoriais. São mesmo antiqüíssimos estes roedores que são aparentemente insaciáveis. Uma eternidade a roer. Vem há milhões e milhões de anos no encalço dos homens, afinal, a humanidade sempre proporcionou a eles uma grande possibilidade de sobrevivência, com seus mortos insepultos, seus lixos individuais e coletivos, sobras, restos, esgotos, sujeiras de todos os tipos. Muito do que não é bom para os homens é banquete para eles. Afinal, um sistema olfativo privilegiado deu-lhes condições, não só de escolher o que lhes é saudável entre o que perdido está, como ainda lhes proporcionar a possibilidade de escolhas, entre variadas preferências e cardápios de todos os tipos. Além do mais, têm os roedores uma invejável capacidade de adaptação aos mais diversos ambientes ou condições de vida, permitindo-lhes sobreviver, em muitas situações em que  os homens certamente morreriam.


Os grandes prejuízos que já tinham causado ao reino, desde um tempo de que já não mais se tem lembrança, foram transmitindo a todos que o trono ocupavam, ou próximo dele estivessem, uma aversão muito grande à sua presença. Perdas de colheitas, ataques aos depósitos de alimentos, silos, doenças e pestes, sempre fizeram dos ratos, ratazanas e camundongos alvos prefernciais das políticas de governo no reino. Seus antepassados fizeram todos os tipos de tentativas, todas fracassadas no longo prazo. Tipos imagináveis e inimagináveis de engenhocas foram criadas por inúmeros inventores que de todas as partes afluíam, incentivados pelo rei e por seus funcionários. Quase de tudo se tentou. Os danados sumiam, às vezes  por um largo tempo, mas retornavam depois, aos milhares, subitamente, a zombar dos inventos humanos e a desafiar o poder sagrado dos soberanos. Talvez, fosse mais por isso do que por qualquer outro motivo que o rei havia herdado uma obsessão praticamente genética, hereditária, em querer eliminá-los. Mais que uma necessidade de fato, era uma questão de honra. Um desejo de vingança que pudesse redimir os espíritos de seus ancestrais.


Quando à distância, o rei gostava de observá-los. Era um exercício. Ficava sempre a imaginar como podiam ser tão poderosos e resistentes. Não cediam. Eram como os homens, extremamente territoriais. Sobreviveram às guerras de conquista e anexação de territórios, que apesar de incorporados ao reino e de todo o aparato de segurança, fugiam ao controle dos governos. As profundezas, os subterrâneos, as frinchas dos telhados, os buracos imperceptíveis, as entranhas, os cantos, às escuras. Além do mais, se reproduziam em proporções geométricas e parecia ainda não dominar o mundo, pois não haviam vencido de todo a cruzada eterna, que se abatera sobre eles. Sim. Não podia haver esmorecimento. A impressão que tinha era que a antiga peleja que sempre tiveram que travar contra eles era condição fundamental da sobrevivência de seu poderio. Sem o ataque sistemático ao inimigo comum, dos povos e dos reis, talvez ao grande reino não houvesse sobrado nem mesmo os escombros, não só pela ação destruidora dos roedores, mas pelo que a luta contra os pequenos mamíferos não humanos pode gerar entre os que humanos são - um sentimento de identidade, além dos ressentimentos de classe. A guerra aos roedores servia, pois, como estímulo ao espírito patriótico, fortalecia o rei e ajudava a manter uma relativa ordem e paz social.


Como rei que era, não podia se descuidar deles. Então, subitamente, uma idéia lhe veio à mente. Em vez de enviar equipes profissionais, técnicos, burocratas pelo território à caça dos inimigos, por que não envolver cada súdito, a população inteira, numa guerra que afinal beneficiaria supostamente a todos? Sim. A idéia o estimulava. Seus olhos brilhavam. Quem sabe inventaria um método próprio, que mais sucesso teria do que todas as tentativas anteriores? Além de rei que era, poderia ainda, no futuro, quando neste mundo não mais estivesse, virar respeitável divindade, por haver dobrado fatalmente o inimigo que a todos sempre dobrou. Por que não havia pensado nisso antes? Os traços de seu rosto desenhavam linhas de satisfação e um sorriso rejuvenescedor agarrava-se aos cantos da boca. Os olhos estavam fulminantes. Por duas vezes passou a mão pela testa para certificar-se se um suor frio lhe escorria pela testa. Por que não havia pensado nisso antes? Claro. Pagar aos homens, a todos quantos pudesse, pelos ratos que conseguissem capturar. O reino vivia uma relativa prosperidade econômica e uma vitória como esta o levaria à consagração com que sempre sonhara: conquistar o amor ou o medo dos homens e um trono cativo pelos reinos do além. Seu rosto se iluminava.


Decretou que a partir da décima lua uma grande caçada, uma caçada coletiva, que deveria atrair não apenas um voluntário ou outro, mas multidões inteiras, se iniciaria por todas as terras do reino. Cada canto deveria ser devassado, todos os armários de todas as casas seriam abertos, revirados, os telhados seriam vasculhados, os porões iluminados, cada sombra perseguida, cada vulto inspecionado. A grande cruzada aos ratos. O estímulo seria em ouro, afinal não era pouca coisa o que estava em jogo. As famílias apresentariam às repartições oficiais o seu montante em ratos e levariam em troca, proporcionalmente ao peso, uma porção de pó de ouro. Era a promessa real. As multidões se alvoroçaram. Na verdade, não conheciam o que era o ouro, mas tinham ouvido sempre falar dele. O sonho do enriquecimento rápido mobilizou uma população inteira. Nos litorais, nos desertos, nas montanhas e florestas. No campo, nas aldeias, em todas as partes, crianças, velhos, homens, mulheres, doentes, se armavam de paus, cassetetes, venenos, armadilhas, para capturar o valioso adversário. O espírito da caça nunca seduziu a tantos. Parecia estar próxima do fim a espécie dos ratos, pavimentando à eternidade e à gloria divina a criatividade do rei, que nunca havia se sentido tão genial. Tinha a certeza da vitória, antes mesmo que a Grande Cruzada tivesse início.


Na véspera do grande dia, uma série de festividades animou o reino. O nome do rei corria de boca em boca. Todos faziam apostas, dançavam, cantavam e bebiam. Havia uma comoção nacional. Estavam felizes e ansiosos. Trocar ratos por ouro era algo em que realmente nunca haviam pensado. Mas fosse como fosse era uma oportunidade única, para que alguns mudassem seu destino. A partir do aparecimento da lua que, naquela noite, estaria a clarear o país inteiro e viria pela madrugada, começaria a campanha que poria fim a um longo capítulo da história do reino.


O rei recolheu-se aos seus aposentos. Estava feliz como nunca. O coração batia mais forte do que normalmente o fazia. Não conseguia pensar em outra coisa, além da grande guerra que estava por iniciar. Envaidecia-se. Não imaginava que pudesse ser tão criativo e genial. Sentia-se ansioso, porém. Um ligeiro formigamento percorria por todo seu corpo, como se um sangue novo, divino quem sabe, estivesse a percorrer-lhe rapidamente as veias. A sensação que sentiaera de que não era mais o mesmo e de que jamais o seria. Não se lembrava de ter vivido tão grande e satisfatória emoção. Conquistaria ele, depois de tantos anos, séculos, uma vitória que sempre parecera impossível?


Fechou a última janela do quarto, deixando a porta dos fundos entreaberta, para que a luz da lua pudesse adentrar pelo quarto, quando a grande hora chegasse. Deitou-se. Mas a sensação de formigamento se intensificava e o sono acabou por perder-se. Encostou-se na cabeceira da cama e se pôs a observar uma claridade intensa que começava a despontar por sobre os montes. Nunca havia experimentado nada igual. Sentiu uma coceira pelo corpo e os olhos ficaram um pouco embaçados, quando a luz da lua, que majestosamente se levantava, começou a clarear os objetos e móveis do quarto real. A visão prejudicada incomod-ou-o um pouco e ele resolveu ir até a janela. Mas uma sensação estranha acabou por prendê-lo à cama. Um forte cheiro de urina de rato sobiu-lhe pelas narinas. Imagina o rei que naquele momento, muitos homens, insones, já tenham saído para a guerra, que se promete vitoriosa, e que os inimigos já sentem a derrota iminente. O cheiro intenso faz o nariz arder e ao coçá-lo, estremece, pois nunca o sentiu tão frio e molhado. Terá apanhado um resfriado justamente numa noite tão importante para si? Resolve então apalpá-lo mais uma vez. Entra em pânico. O nariz, que esfregava, agora violentamente, estava terrivelmente modificado, mais pontiagudo, sentia-o pelo toque. Próximo dele, um grande bigode despontava como jamais imaginou que pudesse aparecer em um homem, que dirá em um rei. O corpo repentinamente se enche de um pelame grosso e denso. O pânico é total. Ao virar-se abruptamente para o lado uma cauda comprida e fina, embaralha-se por entre as pernas. Ao correr em busca de socorro, percebe o quão grande está a cama, e que duas outras novas pernas o ajudam a se locomover. Não compreende o que ocorreu. A voz não lhe sai, sente as orelhas enormes. Desce pelas pernas da cama e corre apressado, rente ao assoalho. Sorte ter deixado a enorme e pesada porta entreaberta, por onde atravessa. O sol já estava a pino, e a lua, muito branca, transparente, ainda resistia em deixar o céu. Uma criada do palácio, munida de um porrete, como quase todos os súditos do reino, aplica um golpe único e fatal no rato insolente que arrisca-se a andar pelos corredores reais. Naquele dia, os ratos sofreram uma perseguição implacável. Em pouco tempo, haviam desaparecido, e o rei, inexplicavelmente, também.



Marcos Vinícius.

sábado, 13 de junho de 2009

Os dias de Lúcia


Os dias de Lúcia


Exatamente às sete e meia, Lúcia entra pela porta de seu apartamento, como o faz praticamente todos os dias, de segunda a sexta-feira, sempre no mesmo horário. É uma rotina de muitos anos. É uma funcionária pontual, tanto no que diz respeito à hora da entrada, quanto da saída, mesmo porque a sua atividade profissional, o seu ofício diário, não requer horas-extras, ou permanência no local de trabalho além do horário estipulado no contrato de trabalho. O patrão é de uma família de tradição patronal, pois o avô do proprietário já era empresário à época, e ele conhece bem a legislação trabalhista, e faz questão de se organizar no sentido de evitar que seus empregados, estendam a sua jornada de trabalho diária, além do que rezam os acordos classistas, sindicais. Geralmente a funcionária sai pontualmente às seis horas da tarde, ao findar o dia, pega sempre o mesmo ônibus no mesmo ponto, no mesmo horário, motorista, e muitos dos mesmos passageiros, seus desconhecidos e eternos companheiros de viagem. No banco da frente, a mesma senhora de óculos, que faz questão de sentar sempre perto da janela, gosto pelo qual pode se dar ao luxo, por pegar o ônibus sempre no início da viagem, o senhor que vai sempre de pé, logo atrás do motorista, e o pirralho, que vai acompanhado da mãe, o qual já flagrou inúmeras vezes, colando melecas do nariz, debaixo do banco da frente. É sempre assim. Ao largar o trabalho, a primeira providência é realizar algumas ligações telefônicas para resolver assuntos pessoais, e na maioria das vezes, utiliza um telefone público, bem próximo ao ponto de ônibus. O tempo gasto nestas ligações, nunca excede os dez minutos, normalmente, é o tempo que leva para esperar sua condução. Por isto, chega, quase invariavelmente, às sete e meia em casa.



As circunstâncias da vida e algumas desilusões amorosas condenaram Lúcia à solidão. Normalmente, quando abre a porta, ao chegar, tem pressa em entrar, acender logo a luz, e ligar o som ou a TV, pois a sensação de romper o ambiente de escuro e silêncio, muito a incomoda. Suas mãos, ao largarem a maçaneta da porta, dirigem-se voluptuosas, apressadas em direção ao interruptor, como se não houvesse tempo a perder, como se o breu da sala, pudesse sombrear sua alma ou entristecer seu coração. As luzes se acendem, e quando há alguma correspondência por sob a porta, faz questão de verificar o remetente, quanto ao conteúdo, pode deixar para após o banho, a menos que seja algo que incite inevitavelmente sua pouca curiosidade. Fora isso, liga o rádio, e sem muito rigor seletivo, ou exigência musical, pois neste momento inicial, quando está a desvendar o lar, já deixado há horas, o que mais importa, é um ruído qualquer que possa preencher a sensação de vazio.



Não se sabe ao certo, se é o rigor profissional, com sua disciplina e horários, que fazem com que já em casa, Lúcia, tenha também uma rotina rígida e cronometrada, ou se ao contrário, são os hábitos domésticos, que a adequaram ao seu sistema de trabalho. Se pudéssemos colocar os dias de Lúcia, um por sobre o outro, como a película de um filme, veríamos como as mesmas tarefas e atividades sempre coincidem com os mesmos momentos e horários. É como se todo o tempo, fosse sempre o mesmo. Momentos eternizados pela repetição, como se cada passo, cada gesto, acompanhasse os mesmos tics e os mesmo tacs do relógio suntuoso do fundo do corredor que dá acesso aos quartos. Momentos que trazem a herança de ontem, e a quase certeza, do que pode vir a ser amanhã. Com algumas luzes acesas e o rádio ligado, prepara-se para o banho, pelo qual nutre um sentido quase sagrado, como se este fosse um ritual de purificação ou passagem, é quando se livra do arquétipo do trabalho, de seu padrão profissional, uniforme, quando deixa para trás o bafo das ruas, os fungos e bactérias dos assentos que precisou usar ao longo do dia.


Após um bom banho, realmente, se sente outra pessoa. E de fato, praticamente o é. A água quente e poder livrar-se das vestimentas que usou durante todo o dia, lhe proporcionam uma inigualável sensação de alívio e prazer. Após o banho se enrola na toalha e vai até a cozinha, às vezes, mesmo, até sem ter o que fazer, é um antigo hábito, como se necessitasse não só de fazer mais um reconhecimento dos cômodos do apartamento, para certificar-se que tudo estava normalmente, mais uma vez em ordem, mas também para que pudesse andar um pouco, livre das roupas escuras e pesadas que compõem seu uniforme de trabalho. Quem sabe, talvez, ainda nutrir alguma fantasia, guardada nos recônditos de seu subconsciente ou do velho lar, a lembrança de algum amor passado, o despir-se sensual, ante o amante que já não tem mais, ou quem sabe, algum belo vizinho, que possa estar a bisbilhotá-la, por sob as franjas das cortinas.


Volta mais uma vez ao banheiro. Antes de vestir a camiseta surrada, destas de se usar em casa, que sempre proporcionam um grande conforto, dá mais uma passada ao espelho. Joga os cabelos para trás, depois, repousa-os sobre os seios, para ver o quão de erotismo ainda pode tirar da sua face um pouco cansada. Apalpa os quadris, depois, suavemente, corre os dedos por sobre os seios, que se arrepiam repentinamente, suas pálpebras, chegam a abaixar, seus olhos negros, por poucas frações de minuto, parecem boiar, vagar como nau perdida em alto mar, mas o estado de semi-êxtase se rompe com a cantoria do vizinho do apartamento de cima, que normalmente, neste mesmo horário, preenche não só os espaços coletivos do condomínio, mas também dos apartamentos mais próximos com sua voz estridente de taquara rachada. Não há tesão que resista, ainda mais se tratando do mal-educado vizinho, que faz sempre questão de hostilizar suas raras intervenções ou falas nas assembléias dos moradores. O vizinho é um tormento, do qual ela adoraria poder se livrar. Pega bruscamente a camiseta, veste-a, fecha a porta do banheiro, para ver se isola um pouco o desagradável ruído e entra em seu quarto.


Abre a porta do guarda-roupa onde ficam os perfumes e cosméticos. Há uma grande variedade deles. Loção pós-banho, fragrâncias variadas, óleos, cremes, hidratantes, esfoleantes, perfumes, pomadas, formando um grande acervo de frascos, vidros, arranjos, potes, das mais variadas cores ou marcas, todos organizados sistematicamente, em seus mesmos lugares, milimetricamente posicionados. Tem dias, em que faz uso de praticamente todos eles. Não só pelos perfumes ou pelo conforto que os produtos podem lhe proporcionar, mas pela rara sensação de prazer que tem ao passá-los pelo corpo, é quase uma forma de massagem, excitamento, auto-conhecimento, um contato consigo mesmo, que a correria do dia a dia e as demandas do trabalho, quase impossibilitam. Além de ser ainda um bom exercício de vaidade, pois Lúcia se acha bela. Sente-se também, de certa forma, ungida, cidadã, na medida em que se vê como inserida no mercado de consumo, por guardar uma verdadeira coleção de marcas e nomes consagrados no mercado. Pensando bem, são muitos os seus conhecidos, ou colegas que não teriam as condições de manter um arsenal químico como os seu. Sente-se aliviada, e mesmo, privilegiada.


Após o ritual, que é repetido diariamente, de segunda a segunda, sempre ali no mesmo horário, no mesmo quarto, vai então, até a cozinha, fazer um breve lanche. Lúcia gosta de se vangloriar de comer pouco, não é quem se possa chamar de gulosa, muito antes pelo contrário, é bastante comedida em seus hábitos alimentares. Há anos mantém uma dieta bem equilibrada, evitando massas, gorduras e refrigerantes. Sempre acreditou que dessa maneira, pudesse manter a forma, e ganhar um tempinho a mais na linha da vida. À noite, quase não come, além deste pequeno lanche após o banho. Às vezes, toma um suco, um copo de leite ou achocolatado, torradas, biscoitos, pães e broas, quanto aos doces, apenas em raras ocasiões, dá-se ao prazer de degustá-los. Em raros momentos se excede no pecado capital da gula, o que normalmente ocorre, quando vai a festas de finais de ano, aniversários, na casa de amigos, ou em qualquer outra comemoração ou evento, em que não precise pagar. Não que seu salário não lhe permita manter uma alimentação saudável e satisfatória, mas sente-se orgulhosa por aproveitar bem as oportunidades de ocasião. E acredita que isto não afeta a qualidade se seu regime, por que não é lá dessas pessoas muito sociáveis, que possuem uma longa lista de amigos, para fazer dela uma freqüentadora assídua de festas, bares ou restaurantes. Os contatos sociais, fora do ambiente de trabalho, nos últimos anos, vêm se limitando mais a alguns amigos virtuais, conhecidos em sites de relacionamento, ou em salas de bate-papo, onde Lúcia perde às vezes, inúmeras horas de seu dia, principalmente às noites, nos finais de semana e feriados. É praticamente um vício. A impressão que se tem é que tanto o banho, quanto a massagem com os cremes, ou o lanche são sempre um pouco, inconscientemente acelerados, para que no final das contas, possa usufruir um tempo cada vez maior diante da tela de seu computador. Come apressadamente seus biscoitos, lava uma maçã, que não tem que necessariamente ser toda ingerida na cozinha, pode acompanhá-la pelo apartamento, e dá a última golada em seu suco, como se tempo não mais tivesse para esperar. Levanta-se de uma vez, e vai até o quarto, onde fica o PC.


Liga as tomadas, que ficam todas desplugadas em sua ausência, arranja os fios, ajeita o tapetinho do mouse, sopra um restinho de poeira por sobre o teclado, resíduos de um biscoitinho de queijo, que não resistiu em comer, na noite de ontem, coisa que normalmente não faz, pois teme danificar o equipamento, mas na noite passada não teve como evitar, pois a conversa calorosa que travou com seu namorado virtual, que diz viver na Europa, fez com que sonhos e fantasias, despertassem uma ansiedade tal, que não tinha como contê-la não fosse umas rosquinhas e uns biscoitinhos de queijo, que comprou no mercado ao lado da empresa em que trabalha, onde passa de vez em quando para comprar pães integrais ou alimentos dietéticos. Às vezes, ela própria, tão cuidadosa com seu patrimônio material, fica sem entender como pode cometer tamanho pecado ou delito. Afinal, sabe que farelos caídos por entre as teclas podem em última instância, comprometer o bom funcionamento de sua máquina. Mas a conversa ´caliente` que a absorvia, ao mesmo tempo, que despertava uma necessidade fisiológica qualquer, que acabava por descarregar no ato de comer, não permita que tirasse seus olhos vidrados, da tela do monitor de última geração que acabou de adquir. É aqui onde passa quase a totalidade de seu tempo, quando está em casa. Diante da tela. E é justamente, dentro de casa onde passa a maior parte de seu tempo, quando não está no trabalho. Nota-se que fora o trabalho, e a noite de sono, as horas gastas no computador são as que mais ocupam sua vida. Isso já há alguns anos.


Todos os dias é praticamente a mesma coisa. Aperta o botão, e ao captar o som da máquina ligada, tem a sensação de estar dando os primeiros passos para penetrar em outra dimensão, arranja a postura do corpo, como se estivesse prestes a realizar uma longínqua viagem, prepara-se, seus olhos fixam-se prontamente na tela, quando esta se ilumina. Lúcia não mais se atreve a virar para os lados. Está inerte, à abertura enfim, de sua esperada navegação pela internet. Os olhos de Lucia adquirem certo fascínio, estão brilhantes, estatelados. A luz excessiva do monitor de tela grande deixa seu rosto pálido, e os ligeiros sulcos em sua face, salientados. Mas é o momento esperado, enfim, quando poderá finalmente navegar, acariciar o pequeno mouse, bater ansiosamente seus dedos sobre o teclado, cujas letras, já começam a se apagar, o que não importa, pois seus pequenos dedos, como pequenos cérebros, memorizaram, quase sem chance de errar, a posição exata de cada letra, número, sinal, cada acento ou ponto. Locomovem-se sobre as teclas, como se fossem estas, sua antiga morada. Caminham por sobre elas, com uma desenvoltura e velocidade, que chega a impressionar. Inicia então a rotina diária, o seu plano de vôo, a sua rota de navegação traçada. Verifica sua caixa de correio, onde a maioria absoluta da correspondência é de anônimos, scraps, ou textos de auto-ajuda, de teor religioso, recheado de belas imagens, com fundo musical, feitos em Power Point. Sempre os recebe, mas dificilmente os lê até o final, mas os repassa imediatamente assim mesmo, para a maioria dos contatos de sua lista de emails. É sempre assim.


Aqui, pode-se mesmo afirmar que Lúcia perde a noção do tempo, como raramente acontece ao longo de seus dias, seja quando está no trabalho, ou dedicando-se a qualquer outra atividade fora do mundo virtual. Às vezes, se distrai a ponto de passar alguns minutos do horário que habitualmente faz questão de desligar a máquina para dirigir-se à cama. Neste aspecto, é disciplinada, pois não tolera a idéia, seja lá por que motivo for, de ver-se obrigada a reduzir o tempo de sono diário, que considera lhe ser de direito. Sabe, pela experiência dos já muitos anos que carrega às costas, que pouco tempo que subtraia ao seu sono, irá lhe trazer grandes prejuízos no dia seguinte, como uma dor de cabeça, que lhe traz uma baita mal humor, um raciocínio provavelmente um pouco mais lento, alguns esquecimentos, que considera insuportáveis, e por fim, uma sensação de mal estar, da qual sabe que poderá se safar, apenas no dia seguinte. Apesar de ficar por horas, em suas peregrinações pelas vias telemáticas, pelas páginas e links sem fim, faz questão de ser pontual, como se um último gesto de disciplina do dia, ao deitar-se e apagar as luzes do apartamento. Geralmente, nem minuto a mais, nem minuto a menos, às onze horas da noite.


Sentada diante da tela, Lúcia, vive uma contradição de sensações. Enquanto sente-se rodeada de informações e contatos, pois faz questão de se interagir com blogueiros, participar das grandes correntes de e-mails, trocar mensagens de auto-ajuda, militar em diversas comunidades de sites de relacionamentos, sente-se também, no casulo, no claustro do quarto, uma solidão arrebatadora, da qual tem a forte impressão de que não poderá se livrar, e de ser prisioneira de si mesma. Estranha sensação. Como se a vida, outro destino não tivesse que lhe apresentar. Mas evita perder-se neste tipo de pensamento, pois sabe bem o desconforto que ele lhe causa, além de lhe tomar o pouco tempo que tem para fazer o que acredita ter de ser feito todas as noites, diariamente, metodicamente, em seus poucos momentos de folga.


Lúcia recorda-se de quando se iniciou por esta saga pela internet. A princípio, gostava de coletar informações, saber dos próximos capítulos da novela, que sequer assiste, inteirar-se das fofocas dos ídolos, uma receita de bolo, a temperatura, a previsão do tempo, imagens dos lugares que pretende conhecer um dia, e daqueles que sabe que jamais conhecerá, fazer amizades, comunicar-se com os que do outro lado do mundo se encontram, em tempo real. Era o mundo a lhe abrir as portas. Mas com o tempo, os gostos e preferências de nossa personagem foram se alterando. Lúcia passava a descobrir alguns novos macetes que o uso diário das ferramentas passava a lhe proporcionar, foi adquirindo algumas habilidades, e a cada dia, novas e intrigantes descobertas. Novas idéias. Se estava mesmo sozinha em casa, e não havendo quem pudesse testemunhar a façanha, por que não poderia então, finalmente, fantasiar, fazer-se passar por quem nunca foi ou haveria de ser? Por que não falsear? Emitir opiniões, que além das suas próprias, outras muitas que nunca talvez tenha pensado, outras tantas que apesar de imaginar, nunca lhe passou pela cabeça divulgar? Por que não aproveitar então, a ocasião, vasculhar vidas alheias, devassar privacidades? Sim. Lúcia sentia-se vaidosa e dona de algum poder. Poderia, pois, conhecer de perto alguns universos pessoais, observar sem ser observado, como se de uma entidade superior se tratasse, podendo acompanhar os passos dos homens, quem os acompanha, por onde passam e o que fazem pelo caminho. E mais. Deixou de lhe bastar, com o tempo, a simples vigília, o rastreamento. A novidade e o exercício do poder tornaram-na ambiciosa. Queria testar sua criatividade e suas habilidades, alterando agora, as vidas, as realidades e contextos, dos outros.


Assim Lúcia o fez. Criou perfis e identidades falsos. Adulterou, burlou, corrompeu, aplicou pequenos golpes, tentou decifrar senhas. Copiou aqui, colou acolá. Potencializou como nunca, sua ação criadora. Sentia-se poderosa, e achava graça em poder manipular os homens, à distância, e em algumas ocasiões, e em certas medidas, alterar-lhe o destino. Afinal, pôde, invisivelmente, criar atritos entre casais, alguns novos, outros nem tão novos assim, vizinhos, parentes, conhecidos e desconhecidos, alguns embaraços no trabalho daquele cobiçado namorado da vizinha do apartamento ao lado, alguns desentendimentos entre familiares, que sempre se deram tão bem. Resolveu alterar a ordem e o aparente rumo natural das coisas. Estava vaidosa. O mundo cujas portas lhe abriam, parecia agora, entregar-lhe algumas chaves, desvendar-lhe alguns mistérios, e por fim, pousar-lhe sobre as mãos. Mas como em todas as noites, apressava-se ao se aproximar às onze horas. Era o fim do dia. Antes de desligar o computador, enfiava os dedos por entre as pernas e masturbava-se num gemido silencioso. Depois se levantava, ia até a cozinha, abria a porta do armário, e freneticamente, levava um comprimido à boca. Não se passavam quinze minutos, antes que começasse a dormir, até o dia seguinte, às seis.



Marcos Vinícius.

sábado, 6 de junho de 2009

Amor digital




Amor digital


Fazia três meses que se conheciam. Mais um destes relacionamentos modernos, resultado da procura por príncipes encantados e princesas dos sonhos infantis, que ainda perturbam a mente dos jovens e velhos, pelos bilhões de sites, agências de encontros, namoros, que se encontram tão fartamente no mundo virtual. Afinal, não eram os primeiros contatos que um ou outro faziam; na verdade, já haviam tido a oportunidade de trocarem e-mails com vários outros pretendentes, mas nada como agora, entre os dois. Os contatos anteriores pareciam frágeis, insignificantes, ante as novas impressões que são agora trocadas. As listas de contatos de um e de outro, caíram no esquecimento. Um tornou-se a lista do outro. Aqueles versos trocados, milhares de rimas de amor, imagens e fundos musicais edificantes, com os contatos anteriores, pertenciam já ao passado. E embrenharam-se, agora, em uma incessante troca de palavras, olhares e afagos digitais, praticamente diários. O círculo se fechou. O fluxo de mensagem entre as caixas de correio é cada vez mais freqüente. São muito eficazes os novos filtros de busca utilizados pelas grandes empresas, e neste caso, parecem ter realmente acertado. Os perfis pareciam feitos um para o outro. Na medida em que trocavam suas confidências diárias, suas imagens, não imaginavam mais a possibilidade de separarem-se, mesmo separados estando. Nunca talvez, os dados tenham se cruzado com tanta perfeição. O serviço parecia ter oferecido o impossível, acreditavam terem encontrado, enfim, suas almas gêmeas, seus pares perfeitos. Estavam admirados, encantados, em estado de graça, pelo novo achado, pela descoberta. Como não havia aparecido um para o outro há mais tempo? Por que o tempo fez-lhes tanto esperar? Com intervalos menores do que se possa imaginar, consultam não apenas suas caixas de correio eletrônico, mas seus perfis em comunidades diversas, e literalmente vasculham, rastreiam a vida um do outro. Sabem de cor os nomes de todos os amigos, dos amigos dos amigos, que também compartilham, participam dos mesmos grupos, e dos mesmos tópicos de discussão, um a reafirmar o outro, a abrir-lhe o caminho ou aparar a retaguarda. Era uma aventura nova e curiosa, para ambos. Ouviam músicas juntos, discutiam-nas, liam artigos, crônicas, assistiam a vídeos, se interagiam da forma como ainda não testemunharam os tempos e a história. Mensagens de textos, arquivos, figuras, beijos, torpedos, paraísos, num ir e vir estonteante, que acabou por entorpecer aos dois. Entregaram-se. São cúmplices, enfim. Era noite de sábado, ela um copo de vinho, ele uma garrafa de cerveja. Conectam-se. Ela está ansiosa, ele afoito. Acertam-se diante o teclado. Ela apaga a luz. Vêem-se pela tela escura. Ele geme seu nome. Ela se faz obscena. Gozam os dois, entre léguas intransponíveis e sem se conhecerem de fato.



Marcos Vinícius.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O Vôo


O Vôo



Rapidamente adormeceu. Nesta noite, não precisou rolar muito na cama para que o sono lhe dominasse. Encostou a cabeça no travesseiro, deu um longo suspiro, teve ainda algumas vagas e breves lembranças de partes do dia que acabara de viver, abaixou definitivamente as pálpebras, e mergulhou em um sono profundo. Parecia cansado. E dormia tão profundamente, como quem descansava não de um dia apenas, mas de uma vida inteira. O silêncio e a escuridão do quarto protegiam seus sonhos, e nem o ruído distante do relógio da cozinha ou o fraco feixe de luz que por sob a porta passava, poderiam quebrar a sensação, que ali o tempo parara. Naquela noite, dormia sozinho, ninguém que pudesse testemunhar, o quão tranqüilo estava, praticamente não se mexia, as marcas do rosto, que o tempo havia deixado, aparentavam descontração, e os olhos, totalmente fechados, pareciam encontrar o repouso absoluto. As palmas das mãos, descobertas, abertas para o alto, como que a clamar aos céus, ao infinito. A boca fechada, emudecida, aparentemente condenada a um silêncio eterno. De fato, era um sono profundo.


De forma surpreendente, como a ciência ainda não ousou explicar, aquele homem ali deitado, iniciava um longo sobrevôo por sobre o mundo e o tempo. Percorreu em frações de minuto, tempos que foram eternidades. Sentiu a dores de quando veio ao mundo, viveu a sensação de umedecer-se com as lágrimas que primeiro chorou, percorreu os parques da infância, os brinquedos, as gangorras, e as rodas-gigantes. Aprendeu, de uma só vez, as milhares de lições, que lhe foram ensinadas. Adentrou-se pelas fórmulas matemáticas que foi obrigado a decorar. Beijou o primeiro dos beijos, desnudou-se, desfilou por inúmeros corpos, conhecidos e pelos que nunca havia visto ou tocado, sentiu prazer, explodiu-se em orgasmos. Ouviu cânticos. Entoou antigas preces, reviveu velhos pecados. Deleitou-se. Percorreu os caminhos por onde havia passado, as estradas, os campos, as praias, as águas, vagou por sobre o deserto da alma, gemeu pelas dores da carne. Ah... Sobrevoou o mar, quão extenso é o mar. Os montes, os picos, a neblina, os campos abertos, o mato fechado. Sobrevoou as cidades, atravessou oceanos e continentes. Aqueceu-se por aproximar-se excessivamente do sol, tremeu pela proximidade das geleiras.


Bisbilhotou a intimidade dos homens, por sob os milhões de telhados, visitou as moradas dos deuses. Derramou-se pelo sangue, que escorrera das guerras, atirou-se por sobre as culturas, os povos, como a chuva, que traz o alimento, e como os projéteis que levam a morte. Acompanhou a luz, com a velocidade que lhe é própria, a clarear o universo. Incorporou-se em música, adentrou-se pelas nuances da poesia, fez-se imensidão e partícula, percorreu as galáxias, as moléculas e os átomos. Adentrou-se pelo espírito da história. Voava alto, atingia o cume dos céus, depois deixava-se cair, plainando o espaço, e o mundo tornava-se grande, tornava-se pequeno.


Inesperadamente acordou. De súbito. Os olhos se abriram. Tentou levantar as mãos, mas estas não lhe obedeciam. Os olhos, apesar de abrirem-se, pareciam presos às órbitas, e pouco podiam enxergar. Sentia o corpo frio, as pernas geladas. O corpo inteiro não respondia aos comandos e se enrijecia. Uma lágrima salgada escorria pelo rosto e molhava os lábios ressecados. Faltavam-lhe os movimentos, a respiração vinha a parar. Uma sensação diferente porém, lhe percorria os ombros e ele, finalmente, sorria, silenciosamente, timidamente. Das costas, onde a princípio, manifestava-se um ligeiro formigamento, num estalo, rompem-se duas asas enormes, que desvencilham-se da cama, e esticam-se como a testar o vigor e a elasticidade. O corpo se aquece, os músculos se soltam e os pulmões se enchem de ar. As asas se aprumam, e como num passe de mágica, a janela do quarto se abre, e aí então, novamente, se põe a voar.

Marcos Vinícius.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

O fim ao princípio.


O fim ao princípio.


Ele estava deitado sobre um vasto colchão de nuvens, e apesar do tamanho gigantesco, enorme, e com todo o peso que seria de se supor, ainda assim, parecia ser mais leve que elas, e elas, por sua vez, pareciam acomodá-lo, proporcionando o conforto, como talvez melhor não lhe pudessem oferecer. Naquele momento, onde o tempo fora o que hoje não podemos conceber, havia um grande silêncio, uma longa escuridão, nada, no entanto, que o impedisse, de a tudo enxergar. E seus olhos, um pouco ainda inchados, de um tempo sem noites ou dias, tardes ou manhãs, vagavam pelo infinito e por sobre a face sem rosto das águas. Parecia abatido, como estas fortalezas de pedras, palácios de bronzes, que a eternidade insiste em corroer. Além dos músculos fortes, dos braços compridos e das longas mãos, que parecia a tudo poder criar ou destruir, havia um indisfarçável sinal de esmorecimento. O grande corpo parecia não estar disposto a se levantar. Os olhos pareciam contemplar, liricamente, o nada, e um rubor nas faces duras, revelavam um profundo estado febril. Os olhos procuravam ainda, um porto, um ponto, onde pudessem repousar, ante as águas profundas e infindas, que estava a contemplar. Com certo esforço, sem resignação, repousou os braços sobre o peito, e suspirou longamente. Parecia tomado de um cansaço, como ainda não havia experimentado. Revelava a imagem de um guerreiro robusto, alimentado pelas inúmeras vitórias, mas com o semblante de quem não mais tem o que conquistar, como se vãs tivessem sido as lutas, como se inúteis houvessem sido todas as duras batalhas. Os olhos esforçam-se para manterem-se abertos, e uma tosse seca, um ligeiro tremor, parecem ameaçar como nunca, sua imortalidade. A febre parece aumentar. Os olhos embaçam. Um suor frio, escorre pelas nucas divinas. Os espírito do mundo, parece querer se soltar.


Mira as águas, mira as trevas. Uma luz no olhar parece revigorar-lhe. Levanta um braço, que estava a pender sobre o abismo, e num movimento único, como um gesto que se faz derradeiro, estala os dedos. Um grande clarão rompe os céus, como se estivesse a parti-lo. A luz excessiva reflete em seus olhos, que parecem faiscar. Num estado de quase entorpecimento, mas com o olhar encantado, admira-se com o que estava a criar. Diante de si, o que nunca havia visto ou imaginado. Inquietava-se, e o suor lhe encharcava os cabelos. Mas parecia feliz. Num ímpeto, criou quase tudo que há. Divertia-se com o que estava a fazer, sorrindo, aliviando as dores e o mal que lhe atormentavam. Fez pois, o que viria a se chamar de luz, os dias, as noites, o céu, o sol, a lua, as estrelas, fez a terra e os mares, e divertia-se mais ainda, às roucas gargalhadas, que vibravam pelos fios do tempo, com a diversidade de tipos e formas, que trazia à vida. A terra, cobria-a de cores, muito verde, todas as cores que possam existir, fez árvores, de todas espécies, frutos de todos os sabores, os que fossem possíveis, e os impossíveis também, plantas, flores, de todas as formas que a matemática da vida permitia, ainda abrindo exceções.Apenas não lhes deu os nomes. Estes viriam depois. Cobriu-se a terra de vida. Todos os seres, os do ar, do mar, da terra, os insetos, as aves, os peixes, os anfíbios, os répteis, os mamíferos. Desde as espécies que viveriam por milhares de anos, aos microorganismos, cujo ciclo de vida, gira em torno de apenas trinta minutos. Assim se fez.


Observava atentamente a obra, já quase concluída, e sentia-se levemente reconfortado. Trazia um sorriso agarrado ao canto da boca, e achava-se surpreso, com o que acabara de realizar. Surpreendeu-se com a obra em si, e consigo mesmo, por descobrir o quanto era genioso e inventivo. Sentia-se vaidoso. Repentinamente, uma dor súbita, percorre todo o seu corpo, da cabeça aos pés. Sente calafrios, e a febre parece aumentar. A tosse está para lhe estourar os pulmões. Afunda-se um pouco mais nas nuvens, que suavemente o embalam. Emite um fraco suspiro. Tem a forte impressão que o tempo que acabara de criar, vem lhe escapar pelas mãos. Vê um trovão cortar o céu, e lamenta por não poder agarrá-lo, está sem forças para tanto. Observa mais uma vez, sua mais recente criação. Enfia a mão pelo barro, e com a visão já um pouco às cegas, como se a obra não estivesse completa, e como se muito, não mais pudesse fazer, manipula o torrão, como se uma forma nova, quisesse lhe dar. Uma dor aguda e profunda atravessa-lhe o peito. Um mal estar incontrolável. Os membros não lhe respondem. Um último suspiro, que em sopro se transforma, faz levantar do pó da terra, uma outra criatura. Nasce o homem, mas Ele, já estaria morto.



Marcos Vinícius.

sábado, 9 de maio de 2009

A breve história dos ladrões pequenos







A breve história dos ladrões pequenos


Ana, como diariamente o fazia, normalmente no horário de almoço, excetuando em seus breves finais de semana, chegava ao ponto de ônibus, que a levaria para mais um turno de trabalho, na periferia da cidade. Era pontual. Sempre o mesmo horário e os mesmos passos rápidos. Vinha com a sensação de missão cumprida, por ter encerrado um dia de trabalho em uma empresa, ao término da manhã, mas já sentia-se ansiosa por um outro turno que ainda estava por iniciar. Na verdade, tinha quase os passos contados, cronometrados, e o ônibus, em que viajava, que a levava de um trabalho para outro, dificilmente se atrasava. Sabia, portanto, o tempo exato, em que ali deveria aguardar, parada. Aquele ponto, sempre lhe causava certa apreensão, o que é justificável, por ser sempre mais vazio, deserto, e à beira de uma rodovia, ainda que sob a luz de quase meio-dia. Locais onde normalmente os gatunos e ladrões tem mais facilidade de ação, dadas as vantagens de fuga, principalmente, diante de vítimas mais frágeis, como pessoas à pé, em pontos de ônibus, mulheres e velhos. Mas ali chegava, mais um dia, à espera do embarque.

A apreensão inicial acabou por se dispersar, quando encontra no ponto do ônibus, também a espera, uma jovem e um senhor, já com idade bem avançada, nitidamente perceptíveis, não só pelos sulcos profundos no rosto, as teias de rugas, os labirintos de pele ressecada, a flacidez das mãos, mas um olhar cansado, meio esgotado, de quem não mais alimenta ilusões. A jovem, sentada ao lado, também aparenta ter mais idade do que de fato tem. Senta-se um pouco curvada, como se parte grande do mundo, pesasse sobre seu ombro. Sua atenção é fixa, parece não perceber a chegada de Ana. Tem os olhos pregados ao chão. Os cabelos estão mal arrumados, está sem maquiagem, sem cosméticos ou perfumes, e parece, estar também a trabalho. As mãos, com as unhas por fazer, seguram firmemente uma bolsa emborrachada, que trás atravessada ao pescoço.

Ana mantém-se de pé. O velho tosse. A jovem parece despertar de um transe profundo. Faltam ainda alguns minutos para o próximo ônibus passar. Ana dá uns passos à frente. Silenciosamente, olham-se, um ao outro, os três a olhar-se, mutuamente. Sem palavras ou gestos. Um quê de desconfiança, pois de estranhos e desconhecidos se trata, um quê de cumplicidade, dadas as condições em comum em que se encontram, o ponto, a espera, e a solidão. Em seguida, movem-se os três, ao mesmo tempo, como se combinado. Ana aperta a pasta ao peito, a jovem, com as mãos de quem carrega urgência, abraça a bolsa sobre o colo, e o velho pigarreia e parece resmungar. Como demora este ônibus, diz a jovem.

Subitamente, quase do nada, surgem dois homens na estrada. Com passos apressados, se aproximam também do ponto. As pernas do velho, parecem revelar um susto, que o resto do corpo, não fez por demonstrar, movem-se rapidamente, como se neste preciso momento, não precisasse do comando de seu dono e senhor, como se misteriosamente, se movimentassem por conta própria. Talvez, num corpo mais jovem, se pusesse a levantar ou a correr. Ana, que já quase se descontraia, repentinamente, retesa o corpo, as mãos parecem enrijecer. A jovem olha para os dois, com olhar de perplexidade, e ao mesmo tempo, de desafio. Agarra-se à bolsa.

Entre tremores e suores, se anuncia o assalto. Olha aí, se não passar o que levam aí de valor, dinheiro, principalmente dinheiro, morre. Ta escutando? Morre, diz o mais novo. Vamos, sem moleza, passa logo a grana. Se não, vou ter que esquentar o cano. Passa logo, grita. A jovem, contrariada, agarra-se a bolsa, ainda uma vez, antes de entregá-la. Ana parece suar por todos os poros, empalidece. Os olhos do velho se embaçam, e as mãos parecem não encontrar os caminhos do bolso, onde levava a carteira. Treme. Os homens desistem dele, não se sabe se por compaixão, ou pela quase certeza que pouco lucrariam com o velho de calças puídas e sandálias gastas, com os pés quase ao chão. Talvez não valesse a pena. Levam apenas as bolsas das duas mulheres. Uma emudece, estarrecida. A outra está por explodir.

Os bandidos, após a bem sucedida operação, atravessam a rodovia, e dirigem-se para o pequeno bairro em frente, como se não estivessem a fugir, mas indo para casa. Como de fato, estavam. Talvez mesmo em função da crise que não perdoa a ninguém, tenham preferido os ladrões assaltarem nas proximidades de casa, por uma questão de economia, ou mesmo, de comodidade. A jovem, ainda inconformada com tudo aquilo, e observando os homens à distância, num ímpeto, desabafa, Sei lidar com vagabundo, não serão estes a me dobrar, ah, não, diz com fúria. Levanta-se como se partisse para a guerra. O coração palpita forte e o sangue corre veloz pelas veias. As faces coram. Os olhos parecem apontar uma única direção, meio vidrados, meio às cegas. O passo é uma marcha, firme, duro, determinado. Estes não me escapam, diz afirmativa. Estes não me escapam.

Em poucos minutos, pergunta pra um, pergunta pra outro, e acaba por chegar à morada dos ladrões. Aciona, nem se sabe como, a ronda policial, e rapidamente, como se dotada de poderes, que talvez nunca tenha imaginado possuir, e numa velocidade espantosa, faz cerco aos bandidos. O assalto, para eles, resultou-se vexatório. As bolsas foram encontradas por sobre o telhado, e os bandidos, escondidos, no guarda-roupa, protagonizam um triste espetáculo na vizinhança. Normalmente, estes flagrantes, despertam a curiosidade de todos, que querem saber, como foi, onde foi, o que ocorreu, quais os envolvidos, enfim, todos se amontoam para assistir o espetáculo da prisão dos vizinhos encurralados. Casais, crianças, até os gatos e cães, se aglomeram de frente a casa, para saber quem de lá vai sair, e como sairá. Todos de olhos esbugalhados, curiosos, atentos, para assistir, sem perder um lance sequer, do que está a ocorrer. Qual será o desfecho? Adolescentes roem as unhas. Uma mulher chora. Os curiosos que beiravam a cena, só não viraram multidão, pois a ação da polícia foi rápida, uma vez, que provavelmente, não se tratava, digamos, de ladrões profissionais. Não houve resistência. Os bandidos saem algemados, cabisbaixos, e qual não é a surpresa dos espectadores, ao confirmarem o que já se suspeitava. Muitos não imaginavam que o vizinho próximo, homem trabalhador, em seu dia de folga, chegasse a tanto.

Os homens são arrastados por uma forte escolta policial. Todos observam imóveis, serem, os dois, atirados às grades; acompanham passo por passo, gesto por gesto, lance por lance, até os carros, com suas luzes e sirenes, darem a partida. Por fim, voltam, pois as costas, e passam a narrar histórias, versões, todos ali terão alguma para contar. Como pode, quem imaginava, eu já sabia, há quem conheça toda a família e também, os caprichos e os credores. A pequena multidão, eufórica, aos poucos se desfaz. Encerrado o caso, finalmente, Ana e a jovem entreolham-se, e trocam as primeiras palavras. Foi Deus, diz Ana. Foi - responde secamente a jovem. Mas o final que não há que negar, é que estes infelizes conhecerão, onde estiverem, o inferno, dos homens, do qual não poderão escapar.


Marcos Vinícius.

terça-feira, 28 de abril de 2009

O símbolo de Fallujah


O símbolo de Fallujah



Confesso que nunca sentei diante de um computador para jogar estes games modernos, que circulam à toda pela internet, que lotam Lan-houses de jovens e adolescentes, que passam ali, horas e horas a fio, como se também conectados estivessem. Minha experiência com jogos virtuais, nunca foi além dos antigos brinquedos, do tipo Atari, que eram conectados à televisão. Eram jogos rudimentares, despretensiosos, geralmente, com cenários únicos ou repetitivos, e as cenas, geralmente, apresentavam pouco movimento. Eram jogos sem cores, com pouquíssimos recursos, uma simulação bem primitiva, como supostos jogos de futebol, jogo de tênis, onde sentavam os dois jogadores diante da TV e ficavam a repicar uma bolinha um contra o outro. O mais sofisticado e envolvente era um bichinho, Pac Man, que ia percorrendo labirintos, acumulando pontos pelo caminho, e fugindo de fantasmas que se aproximavam ameaçadores quando o jogador estava próximo de seu destino e da vitória. Os jogos, virtuais, nas telas dos televisores, eram ainda, graciosos, que faziam até os mais velhos, brincarem como se crianças fossem. Eram jogos em preto e branco, um entretenimento, que muitas vezes, era compartilhado em família, dada a novidade do equipamento, que despertava curiosidade em todos. Pareciam ingênuos e fazendo mal a ninguém.

Os jogos que hoje se apresentam aos jovens e crianças, são de uma geração completamente nova, digamos, jogos de uma nova era, dos tempos da globalização, onde os cenários e a lógica, normalmente são as das guerras. Os jogos vêm deixando, aos poucos, a condição de brinquedos, na medida em que vão se tornando cada vez mais realistas, violentos e sanguinários. São muitos os personagens que parecem reais, verdadeiros, normalmente, inimigos, que se tem que aniquilar. Interessante, que muitas das vezes, os jogadores podem dar toques bem pessoais, a seus avatares. Normalmente, fantasiam-se fortes, belos, bem trajados, estilo ocidental, brancos e poderosos, imbatíveis, ante um inimigo, que represente tudo aquilo que se quer evitar, às vezes, a imagem de si mesmo, refletida supostamente às avessas, ao contrário, e que se quer extirpar. Há uma possibilidade de construção de identidades, que faz com que estas crianças, nestes brinquedos, queiram se afirmar, e também destruir e matar. É uma lógica violenta e cruel. Não lhes é oferecida outras alternativas fora do campo da violência.

Observe os jovens diante destes brinquedinhos do século XXI. Grudam-se aos teclados, como se plugados a maquina, os olhos estatelados, parecem que não piscam estes garotos, e navegam em transe pelos cenários, batalhas, lutas e estratégias destes jogos sofisticados, sempre renovados e aprimorados, pelas empresas de softwares, que disputam um mercado cada dia mais promissor. São muitos os jovens que dedicam muitas de suas horas, diariamente, aos games. Seja em casa, seja em espaços coletivos. Estão ali, teclando, esbugalhando os olhos, raspando ansiosamente o mouse, suando, gritando, torcendo, se armando, defendendo, traçando armadilhas, emboscadas, matando, fuzilando, exterminando. Os exterminadores do presente. São inúmeros os casos de jogadores, que não saem de casa, varam noites sem dormir, e perdem muito do contato com os outros, com o tempo e o mundo real. Em certa medida, podemos admitir que estamos diante da construção de um ser, até então, inusitado, em nossa infinita humanidade. Um sujeito, que dedica várias horas de seus dias, a virtualmente, matar.

Em 2010 haverá novidade no mercado: será lançado o game “Six Days in Fallujah”, onde se pretende alcançar um realismo máximo, com uma grande variedade de recursos, para aumentar ainda mais a emoção e adrenalina dos jovens jogadores. Detalhe: o jogo será montado a partir de um contexto bem real, com homens reais, de carne, osso, e muito, muito sangue: a operação militar americana, denominada Fúria Fantasma, que em seis dias, quebrou a aguerrida resistência dos combatentes da cidade iraquiana de Fallujah, a 50 Km de Bagdá, em Novembro de 2004, vitimando, segundo os dados oficiais, 38 soldados americanos e 1200 iraquianos. A sofisticação do game inclui consultoria de veteranos de guerra, cenários reais, imagens locais, vídeos e inclusive, vozes de soldados, relatando experiências e lembranças. Neste avançado jogo, os cenários podem ser totalmente destruídos e os jogadores podem eliminar quem atravessar seu caminho. E os jogadores, claro, estarão sob a pele dos soldados americanos.

O realismo do game, de fato, impressiona. Fallujah, a cidade de 800 mil habitantes-sobreviventes, a cidade de verdade, real, hoje, agoniza. O cenário é de desolação. As ruas da região central, esburacadas, são cemitérios de edifícios arrasados, escombros, muros em queda, paredes quebradas, tetos arrancados. Há carência de água, eletricidade, telefones, hospitais. Falta trabalho. Os sunitas de Falluhjah são obrigados a apresentar documentos de identidade magnético para entrar ou sair da cidade. Destruição e controle. A lógica do jogo. A lógica da vida. Ficção e realidade entreolham-se pelo espelho dos softwares, pelos olhos dos jovens do mundo inteiro. Quanto tempo será gasto? Quantos jogadores estarão empenhados em destruir milhões de vezes, o que destruído está? Infinitas vezes hão de matar os mesmos mortos, queimar as mesmas cinzas. Sob o Império do Dinheiro, não cabe a insurgência, sequer a tolerância. A vitória não se dá sob a rendição ou diálogo, mas com o aniquilamento absoluto.

Tempos difíceis, e pelos sinais que se prenunciam, podem, em muito piorar. Quem quiser conhecer um pouco mais a juventude que está a se formar, e os adultos que brevemente serão, não poderá deixar passar despercebido, o mundo dos games, onde muitos deles, coabitam, diante da tela do computador. São mundos novos, imaginários, digitais, mas fortemente vinculados a um substrato real, com uma profundidade ideológica, como até então, ainda não se havia ousado mergulhar. São muitas horas dedicadas com afinco, a eliminar um inimigo virtual, que muitos deles, nem sabem que de fato existem, e acaso saibam ou descubram, quererão logo, no curto prazo, quem sabe, eliminá-los também, pois afinal, não é mesmo a vida um jogo? Além de muito tempo ter sido dedicado às lições, aprendendo a odiá-los, caçá-los, em estratégias de ação, onde o caminho da vitória pavimenta-se sobre o número de vítimas que se propõe fazer. Talvez fiquemos piores, ou não. Uma coisa é certa: nos afundamos num atoleiro moral, onde ficamos, a cada dia, não apenas menos sensíveis em relação aos sofrimentos alheios, como a cada geração, mais radicalmente intolerantes. A sorte está lançada e as cabeças a prêmio.



Marcos Vinícius.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Lições da Venezuela


Lições da Venezuela


Quem procurar pelo nome Gustavo Dudamel em sites de busca, como o Google, por exemplo, irá, certamente, admirar-se pelo formidável contingente de fãs e de elogios que vem recebendo pelo mundo todo, o jovem maestro venezuelano de apenas 28 anos. Encontraremos depoimentos em artigos especializados do tipo “não há promessa mais fulgurante”, “a música em estado puro”, “um milagre”, “o maior maestro do planeta”, “o maior prodígio da música erudita e o melhor monstro vivo”. Ou como diz seu mentor José Antônio Abreu, “Gustavo é uma glória universal para a América Latina”. Sir Simon Rattle, diretor da Filarmônica de Berlim, declarou, “Gustavo é o regente mais assombrosamente dotado que já vi”. O jovem, que nasceu em Barquisimeto, a 260 km de Caracas, de família humilde, é o mais recente fenômeno da música erudita mundial. As 17 anos, torna-se diretor artístico da Orquestra Jovem Simon Bolívar, na capital. A partir de 2005 desbrava o mundo, que acaba por desbravá-lo. Gustavo assumiu, como convidado, a regência das Filarmônicas de Berlim, Viena, Nova York e Israel, além de ópera no Scala de Milão. Em 2006 é escolhido diretor da Sinfônica de Gotemburgo, na Suécia, e agora, em 2009, assume a direção musical da Filarmônica de Los Angeles. Gravou pela Deutsche Grammophon, Beethoven, Mahler e acaba de lançar um álbum interpretando Tchaikovsky.

A regência de Gustavo encanta a todos. Não há quem não fique embasbacado ao ver o sujeito, praticamente em transe, se agitando, perante uma multidão de jovens afinadíssimos, fazendo ressoar, uma música como certamente, nunca se ouviu, no mínimo, inédita e fantástica. Gustavo transforma-se em música, como se diz acima, praticamente em “estado puro”, e acaba por dar à música que cria com sua orquestra, um toque próprio, que ninguém mais teria como fazer. Dono de uma energia e originalidade musical que impressionam. O maestro representa um envolvimento tão íntimo e apaixonante pela regência, que cria com seus músicos, um vínculo aparentemente mágico. Um fenômeno que certamente, e felizmente, veio para ficar. Tornou-se já, tão jovem, um nome obrigatório na história da música erudita universal.

O que de imediato se poderia perguntar, é como um garoto pobre, de família pobre, de uma região pobre da pobre Venezuela pode chegar ao fascinante estrelato de Gustavo Dudamel? Se repararmos ao redor, veremos que este fenômeno não está só, ou não é algo isolado. Temos outros exemplos na Venezuela, como Edicson Ruiz, 23 anos, um empacotador de supermercado que aos 17 anos tornou-se o mais jovem contrabaixista da Filarmônica de Berlim. Se prestrarmos ainda um pouco mais de atenção, veremos que a Venezuela é um país com um número extraordinário de jovens e crianças que se dedicam por quatro horas diárias, em seis dias da semana, já a partir dos dois anos de idade, à música clássica. As crianças, além das lições, ganham seus instrumentos. Estima-se que cerca de dois milhões de jovens e crianças já tenham passado pelos cursos oferecidos pelo Estado, nos pouco mais de 30 anos de existência da chamada Fundação do Estado para o Sistema de Orquestras Jovens e Infantis da Venezuela. São ao todo, 125 orquestras juvenis, 57 orquestras infantis e 30 orquestras sinfônicas profissionais para adultos. Aproximadamente 250 mil crianças, noventa por cento delas, de famílias pobres, são estudantes de música erudita em todo o país. São 1.800 professores. A Fundação, vinculada ao Ministério da Saúde e do Desenvolvimento Social da Venezuela, vem recebendo anualmente 29 milhões de dólares do governo federal. As orquestras se espalham tanto pelas cidades, quanto pelo meio rural e estão presentes nos 24 estados do país. Segundo o fundador do projeto, criado em 1975, e mentor de Gustavo Dudamel, o pianista José Antonio Abreu, “Es precisamente por el énfasis social del programa que logramos obtener apoyo governamental. El Estado ha entendido perfectamente que este programa aunque trabaja através de la música, es esencialmente um proyecto social, um proyecto para el desarrollo humano, que es la meta del Estado Venezolano”.

Gustavo Dudamel é a ponta do iceberg. Os frutos do investimento estão agora sendo colhidos. Os jovens músicos venezuelanos estão encantando o mundo. Segundo Roberto Minczuk, regente da Orquestra Sinfônica Brasileira “no futuro, nas grandes orquestras, metade dos integrantes serão orientais, e a outra metade, venezuelanos”. Imagino como um investimento nestas proporções, e digamos ainda, nesta magnitude e ordem de grandeza, tenha contribuído para a vida das pobres crianças das classes populares da Venezuela. O trabalho da Fundação constitui-se em uma verdadeira tábua de salvação para várias gerações e certamente, desviou muitos jovens e crianças da delinqüência ou marginalidade. Ainda de acordo com seu mestre-fundador, “Para los ninos con los que trabajamos, la música es prácticamente la única via hacia um destino social digno. La pobreza significa soledad, tristeza y anonimato. Uma orquestra significa alegria, motivación, trabajo en equipo, el logro de uma meta. Es una gran família que está dedicada a la armonía, a todos esas cosas hermosas que solo la música puede brindar a los seres humanos”.

Um exemplo que serve ao mundo. Fico imaginando que bem não teria feito um projeto deste em um país como o nosso. Quantas crianças, adolescentes, ao invés de estarem a empunhar revólveres e canivetes, poderiam estar tocando violino, baixo, contrabaixo, piano, e tantos outros instrumentos maravilhosos, que infelizmente, pouco temos por aqui? Mas infelizmente, nós, ó pobre de nós, não tivemos a sorte. Enquanto a Orquestra de Jovens Simon Bolívar era criada em 1975, em terras da Venezuela, aqui em nosso Brasil brasileiro, amargávamos a feridas dos duros anos de chumbo, em meio à truculência política e a estupidez sem fim. Foi em 1972, que o coronel Jarbas Passarinho, então ministro da Educação e Cultura, aboliu dos currículos das escolas do país inteiro, de forma definitiva, as aulas de música, trazendo um prejuízo incalculável a milhões de crianças há quase quarenta anos. O mesmo Jarbas Passarinho, que ao assinar o Ato Institucional n°5, em l968, pronunciou a célebre frase: “À favas com os escrúpulos da consciência”. Como diz José Saramago, em fábula recente, A viagem do Elefante, "Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas".

A ausência absoluta de uma formação musical mínima da população brasileira tornou-nos, a todos, reféns de uma música meramente comercial, sejam os enlatados americanos, que nos chegam aos tantos, seja a produção nacional, que para vender, torna-se mais um festival de peitos e bundas, do que a revelação de verdadeiros talentos. Afinal, somos o país do pancadão, onde “um tapinha não dói”. E dá-lhe e dá-lhe. Heranças eternas, da ditadura. O silêncio do passado - o vazio do presente. Façamos o futuro a cantar. Ao observarmos bem, veremos que muito temos a aprender com os venezuelanos.



Marcos Vinícius.


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Chimpanzés da vida


Chimpanzés da vida

É impressionante como a cada dia, os cientistas e pesquisadores vão descobrindo o quão próximos de nós, estão os chimpanzés. Ficamos cada vez mais convencidos, que se quisermos de fato, conhecer mais profundamente as nossas mais remotas origens, temos que prestar bastante atenção nestes nossos tão próximos parentes. Não é de hoje que o potencial cerebral, a inteligência e as habilidades dos chimpanzés vêm sendo testados e surpreendendo pesquisadores e curiosos pelo mundo inteiro. Muitos mesmo já chegaram a adotá-los como se mais um membro da família fosse. Os humanos já colocaram os pobres bichinhos a realizarem todos os tipos de façanhas, para que fossem conhecidos, experimentados, adestrados. Nos institutos de pesquisa, nos centros de estudo, nos circos e nos zoológicos, os chimpanzés proporcionam espanto e curiosidade aos perplexos olhos dos homens. Há décadas sua capacidade de raciocínio, de memorização, de organização e de realização de operações complexas foi já desvendada pelas pesquisas. Dentro do aparentemente infinito reino animal, não existe ser ou espécie que nos seja mais próxima. É fato.

Uma das descobertas mais recentes e intrigantes que mais ainda os aproximaram de nós, foi a constatação feita há alguns anos por estudiosos, cujos nomes não me recordo, que observaram durante meses os chimpanzés em seu habitat natural. Puderam observar uma cena que muito mudou a forma de compreendê-los. Uma mãe chimpanzé paciente e dedicada dando uma lição para a filha sobre como quebrar um vegetal de casca dura, utilizando as raízes de uma árvore como bigorna, e uma pedra como um machadinho. Interessante observar o processo. Inicialmente, a mãe explicava à filha, atenta, como realizar a operação. Em seguida, passa a ela a responsabilidade por fazê-lo. Após várias tentativas frustradas e mais uma intervenção da mãe, a criança aprendiz, finalmente, acerta a lição. Um grande salto de qualidade, tanto do ponto de vista daquele núcleo familiar, onde pode se verificar, inclusive, a presença de método, um processo ensino-aprendizagem, práticas de preparação para o trabalho e para a vida, quanto para entendermos um pouco mais sobre a natureza deles e a nossa própria.

Há uma espécie de chimpanzés, que como os humanos, copulam de frente, um a observar o outro, com os olhos nos olhos, como não vimos ainda outras espécies fazerem. Edgard Morin, em "O Enigma do Homem", afirma que este contato frente a frente entre os sapiens, a troca de olhares e feições, durante o ato sexual, ao longo de milhares de anos, teve responsabilidade não só sobre a formação dos caracteres femininos, como a sensualidade da boca, da nuca, a maciez ou aveludado da pele, o olhar sedutor, como acabou por criar laços de afetividade que possibilitaram o desenvolvimento de uma estrutura familiar e a formação de uma sociedade cada vez mais complexa. Há quem defenda que passem os chimpanzés, a pertencerem ao gênero Homo, dadas nossas proximidades genéticas. Justo.

Nova perplexidade nos traz agora, as mais recentes descobertas realizadas pelo grupo da venezuelana Cristina Gomes, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, Alemanha: fêmeas chimpanzés com dificuldade para conseguirem alimento, acabam se prostituindo por carne. Errou quem imaginava que fosse a prostituição uma instituição tipicamente humana ou recente em nossa história. Segundo o jornal Folha de São Paulo, de hoje, dia 08/04/2009, “a descoberta favorece a hipótese de que essa tendência também existia em sociedades humanas primitivas. Segundo os antropólogos, a troca de carnes por sexo fazia com que os melhores caçadores tivessem mais parceiras.” Impressionantes descobertas, e nunca mais serão os mesmos, os chimpanzés e os homens. Mas não entendem os chimpanzés o que é vender-se por dinheiro ou a alma ao diabo. Não sabem os homens o quanto de antiguidade carregam nas palavras, ao dizerem que “vão à caça”, quando, de fato, estão à procura de mulheres.



Marcos Vinícius.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Territórios na aldeia global


Territórios na aldeia global.




Vivemos um tempo de grandes e profundas contradições, como talvez sempre tenha sido. Há quem diga que são elas, as contradições, quem guardam as chaves do mundo e são a força-motriz das grandes engrenagens da história. Mas em dadas ocasiões, algumas delas, por serem tão gritantes, tão evidentes e típicas de um momento preciso, parecem mesmo marcar uma época, um período de média ou longa duração. Se procurarmos bem pelos fios e veredas do tempo, veremos que cada época, cada período, idade ou era, trazem as que lhes são próprias, que pertencem aquele momento e a nenhum outro. Assim, supostamente, caminha a humanidade. A espécie humana caminha por sobre um fio, sobre um abismo de contradições. Atualmente, o que chama a atenção de forma particularmente exagerada, são as contradições entre as relações que se estabelecem entre o público e o privado, na construção da chamada aldeia global. Não é algo de difícil percepção. Há um processo contínuo, iniciado nas últimas décadas, intensificado nos últimos anos, de transformar de forma radical e irreversível o que é público em privado e o que há muito acreditávamos pertencer ao espaço meramente privado, vem tornar-se a cada dia, de domínio público.

O mundo da globalização é a vitória do mundo do mercado. A chamada aldeia global torna-se um paraíso privado, uma ilha de delícias e negócios, ladeada pelo grande oceano da exclusão social e econômica. O mundo dos ricos é o mundo do esbanjamento e do desperdício e o mundo dos pobres, o mundo das bombas e da escassez absoluta. É o mundo da peste e das grandes fomes, o mundo das guerras. Um mundo a mirar-se no espelho, refletido às avessas. A imagem de uma época. Tem sido assim. Fora estas contradições maiores, fundamentais, absolutas, estruturais, outras mais, vamos encontrando pelos caminhos. Vivemos uma fase do desenvolvimento econômico, onde o capital torna-se cada vez mais guloso, em um contexto de estados nacionais enfraquecidos e com governos subservientes a seus interesses imediatos. Nestas condições, as riquezas das nações, são geralmente extorquidas para as grandes bolsas de valores, onde o milagre da vida, torna-se jogatina, onde ganham poucos gatunos e espertalhões e sacrifica-se, no altar dos negócios, uma humanidade inteira. A grande cartada das corporações multinacionais foi adquirir, nos últimos anos, empresas nacionais, lucrativas, a preço de banana, através de esquemas, negociatas, pelos balcões dos partidos políticos, em redes de influências e corrupções. O que era público tornou-se privado, como nunca até então, se havia visto. No Brasil, o governo FHC levou a política de privatizações à sua efetivação mais radical. Era a modernidade à moda tucana. O patrimônio público do país foi à feira. Muitos enriqueceram, os brasileiros, de maneira geral, ao contrário, ficaram mais pobres.

A tendência é, portanto, mundial. A palavra de ordem é privatizar. Privatizamos os rios, as terras, as águas, as matas. Privatizamos as gentes. Privatizamos tudo. Privatizamos a vida. Privatizamos os sonhos. Tudo foi colocado à venda. Tornamo-nos coisas, negociáveis, vendáveis. É a lei maior. A lei do mercado. As grandes corporações apropriaram-se do nosso mundo físico, do nosso labor, com o seu dinheiro, e expropriaram nossas almas, com a sua propaganda, suas verdades de mentira. Em que acreditamos todos. É a modernidade que a tudo salvaria. O mundo da globalização em que todos caberiam, e onde entre os homens, menos fronteiras haveria.

Mas o que é fato, e o que motiva a reflexão, é mostrar a tendência, do que era público, tornar-se privado, como a lógica mesmo de ser do mundo contemporâneo, e o que foi de domínio privado, caindo vertiginosamente no espaço público. As contradições que fazem época. De um lado, uma política de privatizações radical, de outro, uma exposição pública de nossas vidas privadas, cada vez mais intensiva. Vivemos na sociedade de informação e, portanto, sociedade do controle, que se pretende fazer, de forma completa, total. As grandes empresas, através de uma grande revolução nos sistemas de informações nos controlam a todos. Sabem nossas preferências, de todos os tipos, o que comemos, o que vestimos, com o que trabalhamos, com o que gostaríamos de trabalhar, para onde fomos e onde pretendemos passar as próximas férias, se empregos tivermos para tanto. Um trabalhador que por ventura, mover ação judicial, trabalhista contra seus patrões, estará provavelmente condenado, a não conseguir mais empregos em seu setor de trabalho, ou talvez mesmo, em qualquer outro setor, pois a classe patronal, possue a seu serviços outras empresas especializadas que se encarregam de rastrear os pretendentes às suas escassas, quando as tem, ofertas de emprego. As câmeras nos vigiam a cada passo, em todos os horários, e em quase todos os lugares. Somos intimamente monitorados. Até onde? Vamos perdendo a dimensão do espaço privado, em uma tendência ascendente. Às vezes, parecem nos faltar, apenas os chips.

Ao usarmos as novas ferramentas de informação e comunicação, baixamos para nossas máquinas, cada vez mais velozes, as tantas vidas privadas que se expõem por aí, ora menos, ora mais que nós mesmos. Fazemos downloads de nossas fantasias, nossos desejos e sonhos, fazemos uploads de nossas frustrações, nossa identidade, na ilusão da cidadania perdida. Perdemos nossos espaços públicos, e acabamos por tornar públicos a nós mesmos. No fundo, sentimo-nos seduzidos pela exposição. Nos escancaramos, nos blogs, nos arquivos virtuais, pelos vídeos domésticos, pelos álbuns de imagens das grandes comunidades virtuais. Aposto como nos próximos anos, a maioria dos jovens casais, enamorados, terão seus momentos de prazer e intimidade, ao contrário do que as gerações que nos antecederam, geralmente o fizeram, às escondidas, mas à vista de quem se dispuser a assisti-los pela tela do computador ou aparelho celular. Sim. O que era público fez-se privado, e o privado, público tornou-se. Assim ensaiam-se os primeiros passos do terceiro milênio. A engatinhar-se.



Marcos Vinícius.