quarta-feira, 30 de julho de 2014

Onde vamos?




Onde vamos?



Há sempre quem pergunte qual é a moral da História. Muitas das vezes, quando lemos ou ouvimos uma história qualquer, ficamos nos perguntando, o que há por trás dos fenômenos narrados, que lição o autor pretende passar, o que podemos extrair das entrelinhas, das intenções não explicitamente reveladas, que segredo, mistério ou mágica estarão nos aguardando linhas e palavras à frente? Como se cada história que se conta ou se ouve fosse sempre carregada de segundas intenções, caixas-pretas, onde se diz uma coisa, para no fundo, afirmar o seu contrário, onde se revela para esconder e se esconde para revelar. Sim, é lá na frente, no final, que tanto o autor e o observador têm que juntar todas as peças espalhadas ao longo do enredo, e chegar a um desfecho minimamente lógico ou compreensível. É lá nas linhas finais que a complexidade da história deverá se amarrar, quando o suspense estará concluído, as dúvidas dirimidas, as verdades expostas, e toda a conjuntura, real ou fictícia, atingirá sua dimensão conclusiva. Ali estará sua moral, carregada de simbologias e significados.


Poucas imagens são tão divulgadas e conhecidas como retrato da história da evolução humana, quanto aquela que traz uma sucessão de desenhos de nossos antepassados, desde os mais antigos, até nossa moderníssima espécie sapiens sapiens, em fila indiana, numa escala temporal de alguns milhões de anos. Os primeiros são antropoides primitivos, comedores de raízes, que se arrastam pelo chão; em seguida, nossos ancestrais, peludos e selvagens, vão aos poucos, deixando de curvarem-se ante as violentas forças da natureza e já encaram os inimigos de pé, com o peito aberto, e as mãos livres para a manipulação de ferramentas e armamentos rudimentares. Tem o cérebro menor, e nada mais natural que se pareçam infinitamente menos inteligentes que o homem moderno. A longa trajetória, retrato e símbolo de nossa história de longa duração, desde as mais primitivas das espécies, passando pela selvageria e barbárie, e superada a idade das trevas, parece desembocar em um resultado de redenção e glórias, onde o desenvolvimento científico e tecnológico, nos põe a frente, um futuro cada dia mais rico e promissor. Nada mais falacioso e enganador.


Apesar de conhecermos bem, após milhares de anos de história, todo o repertório de perversidades e absurdos que criamos e aperfeiçoamos ao longo de inúmeras gerações, a fome crônica, as mais devastadoras bombas e mísseis, as indústrias farmacêutica e alimentícia, que se colocam mais a serviço da morte que da vida, a constituição de territórios sem limites de miséria e escassez, a transformação dos rios em esgotos e das florestas em desertos, a criação da sub-raça humana, a genética da desnutrição, nenhum outro episódio ou imagem que nos põe à mostra, são mais reveladores do quão degenerado e corrompido é o destino de nossa espécie, quanto às que nos abarrotam a vista e estão em todo canto, do genocídio cometido por Israel contra os palestinos da faixa de Gaza. Fatalidade e absurdo. O fim de qualquer esperança que exista algum tipo de ética na civilização e no mundo que construímos. Os amontoados de crianças mortas, ensanguentadas, estripadas, os bombardeios contínuos sobre o que mais parece um campo de concentração, são as mais recentes imagens e tragédias que nossa humanidade conseguiu produzir. Difícil esconder o sangue que perturba nosso sonho e aflige nossas ilusões. Talvez a linha reta de nossa evolução nos leve ao abismo, o abismo que irresponsavelmente, deixaremos às gerações futuras. Afinal, a história, também ela, pode ser imoral.



Marcos Vinícius.

sábado, 19 de julho de 2014

A guerra, o futuro e os girassóis



A guerra, o futuro e os girassóis.



Acho que mesmo os mais otimistas terão que concordar que a segunda metade do ano de 2014 que agora se inicia, não tem nos oferecido sinais de que dias melhores virão, como muitos gostariam de acreditar. Quem consegue ver o mundo um pouco além das Copas, e a realidade que se esconde por trás da manipulação e deformação das mídias, certamente irá encontrar uma humanidade um pouco pior do que a encontramos dias atrás. O semestre se abre com episódios tragicamente perturbadores, onde as engrenagens da história apresentam-se mais como trituradores de gentes e sonhos, que como perspectiva de liberdade e redenção. Aqui em nossa colônia contemporânea, condição exposta mais às claras que nunca, com a intervenção estrangeira a que acabamos por nos submeter, com ocupação armada de territórios, muita violência e terrorismo de Estado, em função dos jogos do Mundial, uma nuvem carregada de retrocessos e arbitrariedades, paira sobre um país que se recusa a livrar-se de sua arraigada cultura ditatorial. A forte repressão que vem se abatendo sobre os movimentos populares e as prisões políticas e desaparecimentos que tem ocorrido em todo território nacional, sepulta de vez qualquer ilusão que um dia podemos ter tido de vivermos sob um sistema democrático. São bobagens que apenas os editoriais de nossa imprensa conservadora e reacionária insistem em fazer acreditar, além é claro, dos oportunistas de toda ordem. Que futuro construímos quando os jovens que se propõem a lutar por um mundo melhor, ao contrário da maioria alienada, esmagada pela propaganda e desinformação, são trancados em prisões de segurança máxima, condenados a todo tipo de torturas, e sem qualquer perspectiva de acesso aos princípios mais elementares do Estado de Direito?

O noticiário internacional da semana que se encerra também não é dos mais animadores. Além das guerras de sempre, com seus milhares de mortos, feridos e refugiados, duas fatalidades ocorridas nos últimos dias nos fazem perguntar sobre quem neste mundo pode ainda acreditar em qualquer perspectiva de um futuro de paz. Há pouco mais de dez dias, Israel vem lançando sobre a humanidade, sim, humanidade, é bom frisar, para que não nos esqueçamos, da faixa de Gaza, um bombardeio intenso e contínuo, com um saldo de cerca de trezentos palestinos mortos e dois mil feridos, na operação denominada Margem Protetora. Em 17 de julho, décimo dia da ofensiva, forças terrestres invadiram o território e, em poucas horas, aproximadamente cinquenta e oito civis foram barbaramente assassinados. As operações israelenses na faixa de Gaza, um gigantesco presídio a céu aberto, sempre fazem um número muito grande de vítimas crianças, mortas ou mutiladas, em uma região onde se apresenta uma das mais elevadas taxas de fecundidade do planeta. Mais uma vez, é de se imaginar que perspectivas futuras construímos com gerações inteiras gestadas sob o terrorismo chapa branca, o assombro e o medo. Por mais que possamos nos beneficiar do desenvolvimento científico e tecnológico dos últimos tempos, não podemos ter ilusões, as descobertas e os inventos mais sofisticados, são aplicados na indústria da guerra e da morte, talvez a mais poderosa e afortunada da história. A indústria bélica israelense, sócia-irmã da norte-americana, é uma das mais avançadas, do ponto de vista tecnológico e dos investimentos,  que se tem notícia. Os manifestantes e ativistas brasileiros, nos últimos tempos, tem tido a oportunidade de experimentar, obviamente na condição de vítimas, alguns destes novos armamentos, tão cobiçadas pela elite nacional e largamente utilizados pelas forças de repressão. O Brasil é um dos cinco maiores importadores de armas de Israel.

No mesmo dia em que as forças terroristas sionistas invadiam por terra a faixa de Gaza, um míssil russo, não se sabe ainda se lançado pelos próprios russos ou por ucranianos, pois seus armamentos são praticamente similares, derrubam um avião comercial que havia saído de Amsterdã com destino a Kuala Lumpur, Malásia, com 283 passageiros e 15 tripulantes, quando atravessava a fronteira da Ucrânia com a Rússia. O míssil que derrubou o BOEING-777, conhecido por AS-11 Gadfly, é um equipamento poderoso e sofisticadíssimo, guiado por radares, atinge uma velocidade supersônica, e uma ogiva apenas destrói facilmente um avião deste porte até a 22 mil metros de altura, em um piscar de olhos. Os corpos se espalharam pelas plantações do leste ucraniano a um raio de 15 km de extensão. Dentre as vítimas, de várias nacionalidades, dezenas delas, eram renomados cientistas e ativistas que viajavam para Melbourne, na Austrália, para participarem de uma importante conferência sobre a AIDS, a 20ª Conferência Internacional de AIDS, que se inicia no domingo, dia 20 de Julho. Um dos mortos foi o holandês Joep Lange, um dos mais importantes especialistas em HIV no mundo e pesquisava o assunto havia 30 anos. Foi um dos primeiros a defender o acesso a medicamentos contra a doença em países pobres. A médica brasileira Eliana Gutierrez, que participará da Conferência afirma que o acidente “é uma perda impossível de calcular, que pode comprometer bastante o futuro do enfrentamento da AIDS”.

Enfim, esta primeira semana do pós-Copa, com seu misto de tragédias e fatalidades, não nos permite vislumbrar ainda, o arco-íris colorido e vibrante que os mais otimistas fazem questão de pintar. Neste cenário sombrio que se configurou nos últimos dias, um elemento que se repete como gerador de infortúnios, seja aqui ou acolá, é o estrago causado pelo terrorismo de Estado. A violência policial e o Estado de Exceção que se implantou no Brasil, o genocídio que mais uma vez se inicia em Gaza e a derrubada de um avião comercial, certamente, por um exército profissional e regular, são fortes indícios e significativamente simbólicos, do quanto ainda terá que caminhar a humanidade, para se escrever uma história, minimamente feliz. Acrescentaria ainda, para fins de ilustração, duas imagens inquietantes trazidas nos jornais a respeito do acidente com o Boeing. Em uma delas, vê-se um corpo estendido em um vasto campo de girassóis, a flor-símbolo da sorte e felicidade, a outra, uma fotografia da aeronave abatida, antes da decolagem, que o holandês Cor Pan, passageiro do voo, publicou em seu Facebook, pouco antes de morrer.  Em uma referência ao avião que sumiu em 08 de março com 239 pessoas e nunca foi achado, e como mais um sintoma da crise de otimismo nos dias em que vivemos, atribuiu a seguinte legenda à fotografia, “Se ele desaparecer, é assim que ele era”.



Marcos Vinícius.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Amor de tempestade



A primeira vista não havia nada que fizesse com que se destacasse entre a multidão de transeuntes. Não era lá um homem daqueles que chamam a atenção pela beleza, porte físico, que fazem com que os olhares, principalmente os femininos, se enverguem quando passam por elas. Ao contrário, apesar de ser dono de traços, isoladamente, bonitos, no conjunto, considerando a somatória dos atributos, a impressão que se passava talvez fosse mais de feiura, do que fonte de admirações e desejos. Vestia-se bem e carregava um ar de despreocupação. O vento forte que varria a cidade, fazendo os homens levarem as mãos aos cabelos e as mulheres segurarem as barras das saias, arrancava dele, um sorriso descomprometido, um olhar de contemplação, e uma sensação de alegria, ao sentir-se refrescado por uma lufada de ar frio. Aproveita a revigorada que a ventania lhe proporciona e aperta os passos. Talvez, apressando-se, chegue ao destino ainda seco, antes que a chuva caia e alague a cidade. Assim que se aproxima do cruzamento, um raio luminoso corta o céu e este se escurece por completo. Um ruído estrondoso faz os cidadãos taparem os ouvidos e arregalarem os olhos. As nuvens cinza-escuro, num ballet ritmado, traçam uma coreografia misteriosa por sobre a cabeça dos homens. Os que olham para o alto, admiram-se. O vento passa a soprar mais furioso e num ímpeto, varre as calçadas e levanta o pó e o lixo, cegando os que passam e fazendo tossir os mais jovens e os velhos. O cheiro de poeira, o esvoaçar dos cabelos e uma friagem úmida eram o sinal que a tempestade não tardaria.


Correr não iria, pois não valeria o esforço, suas vestimentas não eram apropriadas, a calça era um pouco pesada e o sapato novo, ainda duro, fariam seus galopes extremamente desconfortáveis. Além do mais, o que tinha a fazer, não era coisa que se demandasse muita urgência, era mais vantagem atrasar-se, do que chegar ao destino completamente desarranjado e molhado da cabeça aos pés. As primeiras gotas de chuva, grossas e frias, despencavam furiosamente dos céus, encharcando as ruas, avenidas e as paredes dos edifícios em poucos segundos. Poucos poderiam prever que as águas cairiam tão rápido.  Praticamente sem alternativas, abriga-se sob uma ampla marquise, já tomada pelos corpos que procuravam proteger-se do aguaceiro e da friagem. Acomoda-se sobre um degrau no canto da entrada de um grande edifício. Ali estaria protegido e poderia assistir, com visão privilegiada, a chuva densa que a tudo alagava, e aos murmúrios e resmungos dos que, praticamente à força das águas, tinham seus apressados passos interrompidos. Deixava-se entregue então, na falta do que fazer, aos devaneios e pensamentos. Observa todos ao redor, um a um, a fisionomia enrugada dos velhos, o rosto assustado das crianças diante dos estrondos dos trovões, a maquiagem borrada das raparigas, e as roupas ensopadas dos que chegavam por último. De sua parte, os sinais de gotas encharcadas sobre os ombros, mostrava que não se salvara por completo.


A interrupção do fluxo da cidade, a paralisia da multidão, que não arriscava desafiar a tempestade, as aglomerações sob as marquises e a enxurrada que lavava o asfalto criavam um cenário a dar uma perspectiva diferente da condição humana. E era nisto que pensava. Por minutos, observava a multidão, gentes de todas as idades, de todos os tipos, credos, religiões, tendências políticas, estavam ali, paradas, esperando, ansiosas, resignadas, sob um temporal, que ameaçava engolir a cidade.  Às vezes, as pessoas olhavam-se, desconfiadas, umas para as outras, afinal, estavam próximas demais, noutras, trocavam olhares solidários, cúmplices, eram vítimas da mesma imprevisibilidade. Se o mundo resolvesse, de uma vez, tragar a todos, engolir a humanidade, teriam todos o mesmo destino. E uma vez chegado o momento, pode até ser, que no instante final, dessem as mãos, trocassem palavras derradeiras, mas isto, não saberemos.


Certo é que já se espremiam por ali há um bom tempo, o temporal não dava sinais de que tão cedo, poderia cessar, e aos poucos, na falta de alternativas, enquanto uns mexiam e remexiam os papéis que tiravam do bolso, os liam uma vez, outra, ou apertavam freneticamente os seus aparelhos celulares, havia os que contemplavam desolados a paisagem, fitavam os céus, para ver se de lá arrancavam alguma mensagem ou entreolhavam-se para certificarem-se mais uma vez, através da observação atenta, de cada fisionomia, que os homens, de fato, não se repetem. Nada como estarmos em meio a uma multidão para percebermos quanta diferença há entre nossas semelhanças. Apesar de sermos todos, uma única espécie, ponha-nos juntos, lado a lado, aos milhares, milhões, para percebermos a infinidade de diferenças que há entre nós. É bastante criativa a mão invisível que modela cada um de nossos gestos, olhares, ângulo facial, largura e intensidade dos sorrisos, uma pequena ruga aqui, outra ali, o peso dos ossos, a força dos braços, a habilidade das mãos, o timbre da voz, tornando-nos únicos, peculiares e originais, entre nossos supostos semelhantes.


Olha para o relógio. Estava realmente atrasado, mas era bobagem desesperar-se. Seria impossível atravessar o aguaceiro. Ademais, o atraso era plenamente justificável, uma vez que, certamente, a cidade inteira estaria sob as águas. Resolvera então, não ter pressa, e estava observando um letreiro que piscava à sua frente, quando sente paralisar-se, algo o impedia de realizar qualquer movimento, sentia ser observado, fincava os pés ao chão, e não via ainda, quem, insistentemente, olhava para ele. Ainda não criara forças suficientes para voltar-se para quem o admirava. Uma timidez mórbida o impedia que encarasse a situação de frente. Raspa a garganta, enfia a mão nos bolsos, volta a conferir o relógio, passa os dedos sobre os ombros molhados e por fim, move os pés, ajeitando uma posição mais confortável, quebrando aos poucos, a rigidez dos músculos e dos ossos. Uma névoa imaginária que pousa em seus olhos, uma comichão no braço esquerdo eram o sinal de que continuava sendo contemplado. Quem estaria a encará-lo? Uma coisa tinha certeza. Era uma jovem mulher. Mas como? Não se lembrava de ocasião em que tivesse despertado atenções femininas de forma tão persistente. A bem da verdade, nunca foi de muita sorte com a mulheres, e as que passaram por sua vida, foram fruto de muita conversa e jogos de sedução, que na maioria das vezes, sempre levavam algum tempo. Nada de paixões repentinas, amores à primeira vista, maiores intimidades no primeiro encontro, entregas inesperadas. Suas conquistas, e não haviam sido muitas, eram resultado de estratégias, organização e planejamento, ou coisas arranjadas.


Respira profundamente, enche os pulmões de oxigênio, inala a umidade do ar, estufa o peito, mantem os olhos firmes e vira-se, lentamente, para o lado. Finalmente fixa os olhos que  procuravam os seus. Dois olhos negros, grandes e admirados, parecem vasculhá-lo por dentro. Mantem-se inerte. A mulher contempla-o fixamente. Era jovem e bonita, muito bonita, talvez umas das mais belas que havia visto por aí. Ele a observa em cada detalhe, completamente, e sente o corpo inteiro arrepiar-se. A mulher não tirava os olhos dele. Ele sentia o peito apertar, o coração batia forte. Uma gota d’água fria descola-se da marquise e cai sobre os ombros descobertos da jovem. Ela seca a água que já escorria com os dedos, cruza os braços trêmulos e solta um quase silencioso gemido, sem tirar os olhos dele. Ele cora. A jovem parecia-lhe cada vez mais bela, e começa a imaginar se não teria sido ela a povoar seus sonhos em alguma ocasião da vida, ou se não estaria sonhando ali, agora, quem sabe peripécias do destino, no qual apesar de não acreditar muito, talvez pudessem estar atravessando o seu caminho. Nunca havia confiado muito na sorte. Quem sabe a recompensa por acreditar-se um sujeito de bem. Talvez fosse oportunidade única. Sente-se um pouco inseguro e sem jeito. A mulher olha como quem espera. A chuva reduz a intensidade, começa a abrandar-se, um feixe luminoso abre-se por sobre os edifícios e o asfalto põe-se a brilhar. O tempo começa a abrir-se e um sorriso cúmplice se esboça na face iluminada da mulher.


Não havia tempo a perder. Daqui a pouco, a chuva pararia e não mais haveria motivos para que permanecessem ali. A forma como o fitava, não deixava dúvidas, não eram apenas olhos de curiosidade, ou de quem está a reconhecer um amigo antigo que não vê há anos. Sua fisionomia, e para percebê-lo, não há que ser um especialista, era de desejo e sedução. Não entendia bem que qualidade sua poderia despertar tanto o interesse e a atenção da mulher. Toma algum fôlego em segundos, ajeita um pouco a camisa, procura descontrair-se, ensaia um passo em sua direção e tenta já deixar articuladas, guardadas em algum canto da boca, as primeiras palavras que deveria dirigir-lhe. Ela não desvia os olhos dele. A chuva torna-se a cada instante, mais fina e rala. Ele caminha em sua direção. Por um instante, tem a sensação que as palavras vão lhe trair, dizer o que não deve ser dito, soltarem-se engasgadas ou trancarem-se no peito. Segue adiante. Quando chega bem próximo, um ligeiro tremor corre por suas pernas, como se estas, quisessem fugir de sua missão, ou ao contrário, correr em sua direção, mas certo é, que de certa forma, alteraram o ritmo dos passos. Abrindo caminho entre os que ainda se amontoavam sob a marquise, vai lentamente, aproximando-se dela. A cada passo, impressionava-se mais com a beleza da mulher. Por um segundo, pensa em desistir, deve ser algum engano, pensou. Não houve em sua vida outra ocasião em que mulher tão bela e atraente estive a observá-lo dessa maneira, em um encontro repentino e casual. Posta-se diante dela. De alguma maneira, saem raios dos olhos dos dois. Ele, meio sem jeito e quase aos atropelos, diz a ela, que adoraria conhecê-la. Ela diz que gostaria muito de conhecê-lo também, que não sabia ainda exatamente o porquê, mas que ele havia despertado nela algo de bom. A tempestade que terminava, parecia ter se transferido para dentro dele. Um trovão ensurdecedor estoura em seus peitos e aquece seu corpo inteiro, que vibra. O sangue, circulando mais veloz, deixa seu rosto e o pescoço vermelhos, e um raio de luz desponta em seus olhos admirados. A voz da mulher era excessivamente doce, suave e feminina. Os timbres de sua resposta, a cadência de suas palavras, como o vinho e o mel, deram-lhe uma sensação de encantamento ou embriaguez, da qual mal conseguia disfarçar. Mais uma vez, imaginou que esta pudesse ser a mulher que já povoara seus sonhos. Agora que ouvira sua voz, intérprete de almas, espíritos e intenções, não tinha mais dúvidas. A chuva parou. A mulher diz não poder demorar, pois, uma vez que a chuva havia cessado, deveria tentar recuperar o tempo perdido, já estava atrasada em seus afazeres. Passou o número de seu telefone, que ele rapidamente anotou em seu aparelho celular, e insistiu que ligasse. Ele põe a mão em seu cabelo e ela beija-lhe o rosto, dando-lhe um gracioso sorriso de despedida, que faz com ele, perdesse por completo, o rumo dos passos. Por pouco, não mais se recordava em que direção deveria prosseguir. Um torpor inusitado havia lhe arrebatado os sentidos.


O encontro havia sido breve, mas avassalador. Depois que ela vira de costas, deixando um rastro de perfume no ar, uma inebriante fragrância entra pelas suas narinas, ele a respira profundamente. O mundo parece revolver-se dentro de si. Pouco a pouco retoma os passos em direção ao seu destino, em uma lenta caminhada automatizada, uma trajetória programada, da qual parece ter perdido a noção ou a necessidade. A imagem da mulher continua a persegui-lo, mesmo que siga em frente, sem mais olhar para trás, ela está ali, presente, em cada rosto que surge do nada, em cada esquina ou automóvel, em cada nova multidão que se aproxima, seja nas portas dos shoppings, nas calçadas dos templos ou nos pontos de ônibus. Não consegue perdê-la de vista. Imagina porque não aproveitou melhor a oportunidade do encontro, talvez se insistisse que se demorassem um pouco mais, se tivesse feito perguntas mais apropriadas para a ocasião, ou fosse mais ousado. Talvez não, seja lá como for, ela parecia estar mesmo um pouco apressada, levava umas pastas nas mãos e tinha horários, mas o melhor, havia se interessado por ele. Que horas ligaria? Mais conveniente talvez fosse esperar a noite chegar, quando provavelmente já terá se livrado de seus afazeres e obrigações. Mas uma ansiedade crônica tomava conta de si. Havia horas ainda pela frente. Não via o momento de ouvir novamente aquela voz adocicada. Pouco dialogara com ela, mas sua presença, a forma como o olhava, os gestos suaves, o sorriso aberto, haviam lhe conquistado, definitivamente.


Mil imagens e pensamentos vinham-lhe à mente. Seria esta a mulher, que talvez, os céus haviam reservado para ele? Sempre acreditou, que dado o tamanho da humanidade, muitos certamente morrerão sem conhecer aquela parceira que provavelmente lhe caberia bem. Não que acreditasse na existência de almas gêmeas ou caras-metades, mas que dado o tamanho do mundo, impossível que não houvesse alguém, mesmo que lá pelos seus cantões mais distantes ou inacessíveis, a quem pudesse amar. Mas neste aspecto, não era lá muito otimista, e chegava a imaginar que em seu caso, fosse mais difícil que encontrar uma agulha no palheiro. Por outro lado sabia também, que as coisas não estavam de todo, perdidas. Quem sabe a sorte tenha vindo bater-lhe a porta? Apesar do pessimismo, nunca foi totalmente descrente. Acreditava que as possibilidades da vida, mesmo que muito remotas, eram sempre possibilidades, e que enquanto ainda estamos vivos, sempre pode haver alguma forma de redenção. Uma chuva fina volta a cair. Estranha sensação, mas a água, da qual não procura mais se esquivar, tem a fragrância da mulher. Ele então aperta os passos, levanta a cabeça em direção à chuva, como se quisesse tragá-la e deixa-se encharcar. Quase sem perceber, levanta os braços para o alto. Gesto pouco esperado entre os transeuntes, dado seu relativo ineditismo, muitos olham para ele. Ele vê a mulher em cada um dos rostos, todos são ela, e estão a admirá-lo. Não se faz de rogado. Prossegue com os passos firmes, daqui a pouco chegará a seu destino.


Já ofegante, depois de muito caminhar, estimulado pelo frenesi que o encontro lhe proporcionara, resolve parar sobre a ponte, que ligava as duas porções da cidade, e observar a violência das águas do rio, que corria bem sob seus pés. Impressionante como havia se enchido rapidamente, as águas revoltosas e barulhentas, estavam prestes a transbordar. As ruas laterais alagavam-se. A força das águas chicoteavam as bases e os pilares da ponte, que trepidava. Era possível sentir o roncar das águas e o tremor das estruturas de metal e concreto. Ele, já molhado por inteiro, observa tudo, atentamente, mas tremia, como que tomado de febre. Tremia muito, tremia todo. Por um minuto chegou a pensar, se era ele quem tremia com a ponte, ou se era a ponte quem tremia com ele. Sacolejando-se sobre o asfalto molhado e apoiado no parapeito da estrutura, solta um largo sorriso de felicidade. A sorte, quase inesperada, havia atravessado seu caminho. Agora sabia. Estava irremediavelmente apaixonado e a sombra da mulher estava em todos os lugares. Para certificar-se mais uma vez da sorte grande, enfia a mão no bolso, retira de lá o aparelho celular. Estava ali gravado o número para o qual mais tarde ligaria, e a depender das suas expectativas, talvez pudesse dar algum outro sentido à sua existência. Queria ver o número mais uma vez, o tesouro guardado. Com a mão ainda trêmula, leva o dedo à tela do aparelho para acionar seus comandos, mas por um pequeno descuido, imprime sobre o teclado uma força maior que a necessária para acioná-lo, e ao invés de ligá-lo, acaba por empurrá-lo para o fundo das águas. O aparelho estava perdido, e suas ilusões também. Havia sido apenas um amor de tempestade.



Marcos Vinícius.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Somos todos macacos?


Somos todos macacos?



Desde que me entendo por gente, e isto não faz muito tempo, entendo que nós, humanos, somos, dentre as centenas de espécies de macacos, uma das linhagens, que do ponto de vista evolutivo, foi relativamente mais bem sucedida, uma vez que ao contrário dos nossos outros parentes macacos vivos, proliferamos. Nossa espécie, que em um passado não tão remoto assim, já foi espécie rara, encontrada em apenas alguns pontos isolados no planeta, hoje é encontrada em qualquer parte da Terra, seja em ambientes paradisíacos, seja em territórios completamente inóspitos. Além do mais, na guerra genocida que travamos contra as demais espécies, fomos devastadores, muitas outras espécies talvez tenham sido extintas, antes mesmo que tivéssemos tempo de dar-lhes um nome. Criamos um modelo de civilização, onde além de parecer não cabermos todos, nós mesmos, os humanos, parece também não ter direito à vida qualquer outro ser da natureza, que de alguma forma, não esteja a nosso serviço. Estabelecemos uma relação destrutiva com nossa parentalha animal, que condena à morte, não apenas os primatas, mas o conjunto dos mamíferos, dos répteis, anfíbios, peixes e aves, dentre outros. Somos, inclusive, vítimas de nós mesmos, dadas nossas guerras fratricidas, nossa natureza bélica, nossas bombas, gases, venenos, exércitos e aparatos militares. Os chimpanzés, nossos parentes vivos mais próximos, a ponto de estudiosos considerarem a possibilidade de incluí-los no gênero Homo, dada seu grau de semelhança conosco, do ponto de vista genético, muito maior que as diferenças, são vítimas exemplares de nossa perversidade civilizatória. Sua população não apenas foi drasticamente reduzida, como a de todos os outros macacos antropoides, os mais próximos de nós, os gibões, gorilas e orangotangos, dada a implacável devastação ambiental a que submetemos o planeta, como muitos dos sobreviventes, são submetidos aos mais cruéis dos testes e exames laboratoriais. O fato de sermos muito semelhantes a eles, não significou que tenham tido qualquer tipo de vantagem ou benefício, muito antes pelo contrário, tiveram que se submeter aos experimentos mais macabros que se possa imaginar, talvez não desumanos, bem humanos mesmo, contaminando-os com todos os tipos de vírus, bactérias e doenças, condenando-os aos mais variados infortúnios, medicamentos e torturas. Recentemente, causando revolta em várias entidades defensores dos animais em geral e dos primatas e chimpanzés em particular, mudanças na legislação americana, permitiram que chimpanzés de laboratórios já velhos e aposentados, estropiados, doentes, estressados e deprimidos, voltassem aos centros de pesquisa. Hoje sabemos que os chimpanzés são muito mais inteligentes do que até há pouco tempo se ousava imaginar. Houve época que dizíamos que uma das características que diferenciavam nossa espécie das demais, era, junto ao cérebro avantajado, nossa capacidade de produzir, utilizar ferramentas e trabalhar. Hoje sabemos que os chimpanzés não apenas as utilizam também, como são capazes de transmitir às gerações mais novas, informações e conhecimento. Não é isto o que faz uma fêmea ao dar uma lição ao filhote de como quebrar um vegetal de casca dura, utilizando uma pedra como martelo e a raiz de uma árvore como bigorna? E se “macaco velho não mete a mão em cumbuca” é porque, certamente, foi submetido a algum aprendizado.


O zoólogo Desmond Morris, autor do livro “O Macaco Nu”, afirma que o homem é dentre tantas espécies de macacos e símios, o que levantou-se, ficou de pé, desenvolveu seu cérebro, criou um universo cultural extraordinário, e tornou-se o mais desprovido de pelos. Ele tem razão, e sob este prisma, somos mesmo, todos macacos. Fazer esta afirmação, no entanto, não significa aderir à campanha “Somos todos macacos”, espertamente criada pelo jogador Neymar junto a uma empresa de publicidade, transformando o racismo brasileiro em mercadoria, o ódio e a intolerância em vantajosos negócios. Diria que a atitude do jogador Daniel Alves em comer a banana que lhe foi atirada, talvez tenha sido um gesto heróico, pois não se intimidou diante da agressão e de certa forma, ridicularizou o agressor. Já a campanha publicitária que veio daí, onde um bando de humanos, perdoe-me, mas imbecis, dão suas caras às redes sociais, com uma banana enfiada na boca, afirmando serem todos macacos, talvez seja um dos exemplos mais exponenciais de nossa degradação moral, enquanto humanos que somos. Afirmarmos que somos macacos, nesta perspectiva mercantil e degradante, em uma sociedade conservadora como a nossa, onde muitos indivíduos, inclusive jovens, vítimas da falta de informação ou do fundamentalismo religioso, sequer dão fé à teoria da evolução, pois se consideram de natureza superior, jamais comparável aos toscos animais, serve mais para reafirmar o que dizem combater, do que falar sobre a realidade da vida. Fotografar-se com uma banana à boca, ao contrário de significar um rechaço ao racismo, reforça-o, na medida em que reduz a condição humana ao lugar do ridículo. Somos mais do que comedores de bananas. Entre nós e os outros macacos do mundo, existem semelhanças, mas existem também diferenças, que sabemos não serem poucas. Se dissermos que somos todos macacos significa dizer, veja como somos bonzinhos e solidários, topamos até nos rebaixarmos, abrirmos mãos de nossa humanidade, para ficarmos iguais a eles, negros e macacos, e é isto que parece significar, esta campanha então, merece ser repudiada. Se a campanha é um estrago, do ponto de vista dos humanos, onde se viu até gente de boa fé, “pagando o mico”, acredito que os macacos, caso fossem capazes de decifrarem a linguagem que usamos, certamente iriam também repudiá-la. Não acredito que sejamos motivo de orgulho para eles. Parecidos conosco e vencidos na relação que estabelecemos entre as espécies, jamais poderemos acusá-los de degradação moral. Talvez seja a diferença que recoloca em seu lugar o “cada macaco no seu galho”. Somos todos humanos e também, como nos prova a ocasião, de futilidade incomparável.




Marcos Vinicius.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Nós e os Pit Bulls



Vemos praias belíssimas, paraísos terrestres, que são tomadas de assalto, cercadas, e infestadas de Pit Bulls, mesmo que vazias de coisas ou gentes. Os ferozes cães tornam-se, assim, símbolos sanguinolentos da propriedade privada. Se são temíveis esses animais por sua capacidade de atacar e arrancar pedaços, pois assim a natureza os fez, o que diremos de nossa espécie, que deliberadamente, os colocam ali, para que façam uso, contra quem quer que seja, justamente, do que mais tememos neles, que é sua índole carniceira. Há quem se ofenda quando falamos de nossa condição animal, pois nossa humanidade seria algo mais nobre e refinado, mesmo que usemos garras e dentes, ainda que alheias, para trucidar, escalpelar, quem por ventura, ouse cruzar o caminho de nossas ambições e vaidades.



Marcos Vinícius.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Imagens do poder




Os jornais do dia 10 de Dezembro trouxeram estampados em sua primeira página fotos da presidenta Dilma ao lado de seus antecessores, Lula, Fernando Henrique, Collor e Sarney, antes de embarcarem para a cerimônia de despedida de Nelson Mandela. Há quem diga que a imagem representa o espírito conciliatório de nossa cultura política, transmite uma sensação de paz e estabilidade institucional, simbolizando um mito do povo brasileiro, capaz de deixar de lado prováveis divergências, em nome do bem comum. Olhando, assim, rapidamente, podemos mesmo nos enganar à primeira vista. Mas se nos detivermos mais atentos sobre o colorido verde e amarelo estampado e permitirmo-nos escarafunchar um pouco nossas tão esquecidas memórias, veremos que a fotografia, a princípio, tão promissora, pode tornar-se um desalento, e certificarmos mais uma vez, de forma quase folclórica, nossa fatalidade histórica. A imagem de Sarney, de óculos escuros, parece retirada da capa do livro do jornalista Palmério Dória, “Honoráveis Bandidos”, que disseca, detalhadamente, as operações mafiosas montadas por sua família durante décadas no Estado do Maranhão, afora os escândalos que pipocaram a torto e à direita, enquanto à frente do nosso país. Alguém ainda se lembra do famoso “Caçador de Marajás”, o grande golpe da Rede Globo, aliada ao mundo das negociatas, onde o salvador da pátria, que vinha nos redimir, acabou não podendo concluir seu mandato devido ao universo de falcatruas com os quais se envolveu? A literatura política nacional e a imprensa investigativa, a cada dia, nos permitem conhecer melhor os subterrâneos dos palácios e os meandros das pocilgas do tucanato. O livro “A Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Júnior, nos mostra, em trezentas e trinta quatro páginas, como desmontar um país, e fazer da política, um sofisticado balcão de negócios. Os jornais vem nos revelando, a cada dia, com quantas propinas, se monta um ninho tucano.  O ex-presidente Lula, desta vez, faz pose para uma viagem de caráter humanitário, velório do líder sul-africano, ao contrário, do que tanto temos visto por aí, quando tem viajado, quase que exclusivamente a negócios, na maioria das vezes, acompanhado de grandes empreiteiros, representantes de construtoras, empreendedores que vão estendendo para outros países, possibilidades de acordos, contratos e lucros. A bem da verdade, acho que quem ficou bem mesmo na fita, ou na foto, foi Barack Obama, nos jornais do dia seguinte. Apesar da falta de decoro de deixar-se flagrar em fotos alegres junto a outras lideranças em plena cerimônia fúnebre, e da cara de poucos amigos de sua esposa Michelle, acabou roubando a cena, fotografando-se, em total descontração, ao lado de uma beldade elegantíssima, primeira-ministra, da qual pouco nos lembramos, e a população mundial, admirada, sequer tem interesse em saber de quem se trata.


Marcos Vinícius.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A enfermeira





Sabe aquela fase da vida em que tudo vai dando errado e parece que os problemas não vão ter fim, sucedendo-se um após o outro? Pois é. Ontem tive que submeter-me a um procedimento médico não muito agradável, uma colonoscopia, qual seja, a introdução de uma grande mangueira no ânus, para que se realize uma vistoria completa no intestino. Estava deitado na maca tomando soro, preparando-me para o exame, quando entrou uma equipe de enfermeiras responsáveis pelos procedimentos. Qual não foi minha surpresa ao constatar que uma delas havia sido minha aluna há anos. Pensei, espero que não seja ela, a responsável por acompanhar-me. Mas como a sorte realmente resolveu me abandonar, era ela mesma quem iria realizar os procedimentos. Ela aproximou-se, mexeu no soro, ajeitou minha manta, olhou para mim umas duas vezes, indiferente, e pensei aliviado – não me reconheceu. Que maravilha. Procurei não encará-la, desviei o olhar, virei-me de lado e imaginei estar livre do constrangimento. Ela realmente não reconheceria, eu estava bem mais velho, com a barba branca, e já não era quem fui. Quando a moça começou a manobrar minha maca para levá-la para a sala dos exames, virou-se para mim de súbito, e perguntou: Você por acaso é professor? Putz, não é possível. Havia sido descoberto. Constrangido, quase gaguejando, respondi que sim. Era tarde. Professor, há quanto tempo, ela disse. De imediato, pus-me a imaginar se já havia tido algum problema com a ex-aluna, notas ruins, algum desentendimento, coisas do gênero. Enquanto ela manipulava frascos, mangueiras e seringas, virei-me para ela e disse: Espero que não a tenha maltratado um dia. Ela esboçou um malicioso e indisfarçável sorriso de satisfação pelo canto da boca, abaixou minhas calças, pediu que me virasse de lado, introduziu-me uma injeção enorme no braço esquerdo e não me lembro de mais nada.


Marcos Vinícius.

sábado, 2 de novembro de 2013

Marina Silva e a canoa furada



Se a tal REDE DE SUSTENTABILIDADE hoje não se sustenta, não é apenas por impedimentos legais, como determinou o TSE, mas porque carece mesmo de consistência programática ou ideológica. Sua idealizadora, Marina Silva, que apregoava como justificativa de sua criação a necessidade da constituição de uma força política renovadora que se contrapusesse ao nosso conservadorismo institucional, filia-se ao PSB de Eduardo Campos, dando uma guinada radical à direita, haja vista a perspectiva de alianças com o PSDB em mais de vinte estados da federação. Como se já não bastasse o falacioso discurso do “desenvolvimento sustentável”, que nos faz crer que é possível preservar destruindo, equilibrar a saúde da Terra com o capitalismo selvagem, a opção de Marina, joga mais uma vez, a plataforma verde, em mais uma canoa furada.



Marcos Vinícius.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O Capitalismo Frankenstein





Quem acredita que a civilização contemporânea, capitalista, já produziu tudo que podia em horrores, atrocidades, violências e absurdos, que fique atento ao significado histórico do controle da produção de alimentos pelas grandes multinacionais do setor de transgênicos. A agricultura, que modificou por completo a existência do homem ainda na pré-história, é agora, ela própria, radicalmente modificada, para atender às demandas dos mercados e das grandes corporações. Passados mais de dez mil anos, o agricultor, vem agora, perdendo um dos mais genuínos direitos, responsável, inclusive, pela perpetuação da vida, qual seja, armazenar as sementes da colheita para o próximo plantio. Como se não bastasse arrancar do homem a terra, arrancam-lhe também o acesso à semente. As plantas geneticamente modificadas, ao contrário do que sempre se propagandeou, a cada dia tornam-se dependentes de uma quantidade cada vez maior de venenos e agrotóxicos, dado o aumento da resistência das pragas em relação a eles, tornando nossa alimentação arriscada e perigosa. As empresas lucram em dobro, com a venda das sementes e dos venenos. Se quisermos considerar ainda, uma história de mais longa duração, podemos dizer que a constituição e formação da vida na forma como conhecemos, com uma quase infinita variedade de espécies, é resultado de um processo de milhões de anos, onde a seleção natural e demandas adaptativas deram as caras e as cores do mundo em que vivemos. Alterar a estrutura genética de seres vivos e criar novas espécies em laboratórios significa interromper um fluxo natural de energia que vem se processando desde os tempos mais remotos. Não é possível dimensionar quais seriam os desdobramentos desta prática no longo prazo. O que já sabemos é que em lugares do mundo onde o cultivo de transgênicos já se proliferou, o número de crianças com deformações e a incidência de doenças, como o câncer, vem aumentando assustadoramente. Estará a vida, outra vez imitando a arte, a ficção, quando, sabe-se lá, não teremos em um futuro bem próximo, o capitalismo mais selvagem, revelando sua face Frankenstein?



Marcos Vinícius.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Tarifa Zero.





O Estado brasileiro arrecada muito, mas gasta mal. A cultura da corrupção é algo tão arraigado em nosso país, que se tivéssemos como listar todos os corruptos e corruptores que por aqui já passaram, creio que teríamos uma lista quilométrica. Os valores dos prejuízos, advindos dos desvios são medidos em trilhões de reais, assim como também o são o valor dos calotes que as grandes empresas e os grandes capitalistas sonegam aos cofres públicos. A sensação é que há muito dinheiro, mas todo ele é dedicado à farra das nossas autoridades, sem qualquer contrapartida para o contribuinte, que se estrangula, dia após dia, para pagar uma infinidade de impostos e tarifas que lhe são cobradas.


O Estado brasileiro, desde a sua origem, sempre foi um instrumento que as elites utilizaram não apenas como um meio de extorquir e usurpar a população, mas para mantê-la sob completa submissão e controle. Enquanto convivemos com um modelo de educação e saúde extremamente precarizados, chuvas de bombas de gás lacrimogênio, cada uma delas custando praticamente o preço de um computador, são despejadas de helicópteros sobre a população, quando resolvem sair às ruas. O sistema fiscal e o sistema repressor, que atuam com elevadíssimo grau de sofisticação, parecem ser um dos poucos setores bem aparelhados do nosso modelo estatal, sistemas estes, diga-se de passagem, que beneficiam os ricos e penalizam as pobres, que são os que, de fato, pagam impostos e as grandes vítimas da violência policial.

É o momento de invertermos prioridades. Tem início em Belo Horizonte, o movimento pela tarifa zero, “TARIFA ZERO É MAIS”. São necessárias 95 mil assinaturas para o encaminhamento de um PROJETO DE LEI, de iniciativa POPULAR, para tramitação na CÂMARA DOS VEREADORES, que garante transporte sem tarifa e de qualidade para a população. O transporte público deve ser público de fato. A gestão da saúde, educação e do transporte público DEFINITIVAMENTE não devem adotar o modelo dos grandes negócios, pois fazem parte do kit básico, mínimo, dos direitos do cidadão. Não podemos permitir que permaneça como mercadoria, fonte de gordos lucros e espúrios negócios, o nosso sagrado direito de ir e vir.

Não é de hoje que avenidas são feitas e refeitas na cidade, obras são executadas e imediatamente destruídas, comprovadas sua inutilidade. Uma verdadeira indústria de viadutos se edificou em Belo Horizonte, que talvez, mereça o título de capital mundial dos viadutos. Alguém conhece alguma outra cidade onde se constroem tantos viadutos? E, no entanto, o trânsito continua parado, caótico, consumindo horas e horas de quem tem que se deslocar de um ponto a outro da cidade. Há quanto tempo é assim? Dentro do modelo atual há alguma perspectiva de se reverter este quadro? Não. As catracas são o grande símbolo da imobilidade de nossas cidades. Elas negam ao pobre, às classe populares, o direito de deslocarem-se livremente no espaço urbano. Além do mais, o preço das passagens é tão abusivo e a qualidade dos ônibus tão ruim, que o cidadão, muitas das vezes, se vê impelido a abandonar o transporte coletivo e fazer largo uso de seu automóvel particular, entupindo ainda mais as ruas e estrangulando de vez o trânsito já caduco. Não basta alargar avenidas, levantar e destruir viadutos, é necessário eliminar as catracas para se garantir um mínimo de mobilidade. Pelo direito à cidade, pelo direito de ir e vir, pela mobilidade urbana, por um mundo sem catracas, “TARIFA ZERO É MAIS”.



Marcos Vinícius.



Até entendo que um setor da classe médica brasileira, elitista, os grandes hospitais e as corporações ligadas à indústria da saúde posicionem-se contra a vinda de médicos cubanos para o país, pois esta política poderá afetar seus interesses corporativos e seus polpudos lucros e negócios. Principalmente, considerando-se que além dos serviços a serem prestados, eles trazem também uma nova concepção de saúde pública, onde o direito à vida sobrepõe-se à lógica perversa do capital. Já causa-me indignação e estranheza ver os pobres mortais das classes populares, historicamente oprimidos e excluídos do acesso aos mais elementares cuidados médico-hospitalares, fazerem coro a uma ideologia, que em última instância, condena-os ao sofrimento e à morte.



Marcos Vinícius.

Leitura Obrigatória: Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex



Por ter passado minha infância na então pacata cidade de Santos Dumont, por inúmeras vezes, ouvia as histórias que caracterizavam a vizinha cidade de Barbacena como a terra dos loucos. Esta imagem sempre esteve acompanhada das lembranças que temos de lá. Estas recordações são rodeadas de uma aura de mistérios. Quem seriam estes loucos? De onde vieram? Por que e como haviam chegado a este grau de loucura? Quais seriam os limites da loucura que levariam homens, mulheres e crianças ao encarceramento, em muitos dos casos, para o resto de suas vidas? Creio que estas questões façam parte do imaginário de muitos que por aquelas bandas viveram. Muitas destas questões foram contempladas no excelente trabalho jornalístico realizado por Daniela Arbex, em seu emocionante livro HOLOCAUSTO BRASILEIRO – GENOCÍDIO: 60 MIL MORTOS NO MAIOR HOSPÍCIO DO BRASIL, recém-lançado, pela editora Geração. Comprei-o assim que vi uma nota no Jornal. O trabalho é impressionante e revelador. Além de muito bem ilustrado, com imagens que nos cortam a alma, a história que vai se mostrando à nossa frente é algo que nem a mais criativa das imaginações teria como conceber. No terreno que fora confiscado, do delator da Inconfidência Mineira, Joaquim Silvério dos Reis, foi construído, no inicio do século XX, o Hospital Colônia. Para lá, durante décadas, milhares indivíduos, de várias partes do Brasil, eram levados, nos chamados “trens de doidos”, expressão imortalizada por João Guimarães Rosa em um de seus contos, muitas das vezes, por motivos fúteis. Era um gigantesco depósito humano, um enorme campo de concentração, onde, indesejáveis de toda ordem, sem diagnóstico de doença mental, “epiléticos, alcóolatras, homossexuais, prostitutas, meninas grávidas pelos patrões, mulheres confinadas pelo marido, moças que haviam perdido a virgindade antes do casamento” eram confinados e tinham o destino selado. Aquilo não era um centro de tratamento, mas um centro de contenção e extermínio. Segundo a autora, havia períodos, em que era registrada, uma média, de 17 mortos por dia, vítimas das mais variadas formas de violência que se possa conceber, como a fome, a exposição ao frio intenso da região, o descaso, negligência, torturas, lobotomias e eletrochoques. Havia dias em que era tão grande a descarga elétrica nos eletrochoques que a cidade ficava sem luz. Entre os anos de 1930 e 1980, teriam sido cerca de sessenta mil mortos. O livro nos permite perceber que expressões como “campos de concentração” e “genocídio” fazem parte de uma história muito próxima e recente, que muitos de nós, testemunhamos e não percebemos. Leitura obrigatória.



Marcos Vinícius.