sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A enfermeira





Sabe aquela fase da vida em que tudo vai dando errado e parece que os problemas não vão ter fim, sucedendo-se um após o outro? Pois é. Ontem tive que submeter-me a um procedimento médico não muito agradável, uma colonoscopia, qual seja, a introdução de uma grande mangueira no ânus, para que se realize uma vistoria completa no intestino. Estava deitado na maca tomando soro, preparando-me para o exame, quando entrou uma equipe de enfermeiras responsáveis pelos procedimentos. Qual não foi minha surpresa ao constatar que uma delas havia sido minha aluna há anos. Pensei, espero que não seja ela, a responsável por acompanhar-me. Mas como a sorte realmente resolveu me abandonar, era ela mesma quem iria realizar os procedimentos. Ela aproximou-se, mexeu no soro, ajeitou minha manta, olhou para mim umas duas vezes, indiferente, e pensei aliviado – não me reconheceu. Que maravilha. Procurei não encará-la, desviei o olhar, virei-me de lado e imaginei estar livre do constrangimento. Ela realmente não reconheceria, eu estava bem mais velho, com a barba branca, e já não era quem fui. Quando a moça começou a manobrar minha maca para levá-la para a sala dos exames, virou-se para mim de súbito, e perguntou: Você por acaso é professor? Putz, não é possível. Havia sido descoberto. Constrangido, quase gaguejando, respondi que sim. Era tarde. Professor, há quanto tempo, ela disse. De imediato, pus-me a imaginar se já havia tido algum problema com a ex-aluna, notas ruins, algum desentendimento, coisas do gênero. Enquanto ela manipulava frascos, mangueiras e seringas, virei-me para ela e disse: Espero que não a tenha maltratado um dia. Ela esboçou um malicioso e indisfarçável sorriso de satisfação pelo canto da boca, abaixou minhas calças, pediu que me virasse de lado, introduziu-me uma injeção enorme no braço esquerdo e não me lembro de mais nada.


Marcos Vinícius.

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