sábado, 26 de dezembro de 2020

Palavra em transe

 


Não faz muito tempo, a palavra todos meteu-se em encrencas. Se alguém se dirige ao público e diz, todos aqui estão convidados ou todos os presentes deverão comparecer, logo aparecerá quem dirá que uma fala destas, traz conotações carregadas de discriminação de gênero, pois afinal, ali, estariam reunidos não apenas homens, mas também as mulheres. A partir desta descoberta, creio que é uma descoberta deste século, não são poucas as reuniões ou encontros em que agora ouvimos, todos e todas estão convidados e convidadas ou todos e todas deverão usar trajes esportivos. Não sou conhecedor das artes gramaticais, mas a primeira vista, ou aos primeiros ouvidos, a impressão que tenho, é de ser algo desnecessário, redundante, onde o discurso parece abrir-se já enfadonho e duvido mesmo que alguém que preze pelas boas literaturas assinaria um texto com esta inovação. Porém, se um dia me convencer que a nova prática poderá, de alguma forma, de fato, resolver problemas de gênero, ponho-me de acordo. Ocorre que agora, mais recentemente, a palavra todos meteu-se em encrencas ainda maiores. Como se já não bastasse o enjoado todos e todas, há agora uma nova vanguarda de militantes que resolveram que todos ou todas já não bastam, é necessário uma nova variação, e eis que surgem as expressões todes e todxs, para abarcar todos os gêneros possíveis, e só não sei ainda se a palavra todos ainda continuaria valendo. Como miséria pouca é bobagem e nisto somos especialistas, vem agora o gênio-mor-semianalfabeto, vereadore Carluxo, e apresenta na câmara municipal do Rio de janeiro, um projeto de lei proibindo “terminantemente’ o uso destas expressões inovadoras, para evitar “perversões e alterações maliciosas e progressistas” no uso da Língua, podendo, inclusive, suspender os alvarás das escolas que violarem a norma. Alguém deve ter soprado para o energúmeno, que esta dinâmica da língua é resultado de alguma conspiração comunista e aí resolve-se o problema com a ditadura da palavra, o engessamento e a perseguição, os remédios mais apropriados para conterem as perversões destes corrompidos que aprendem o português nas cartilhas impressas em Cuba, na Venezuela, sabe-se lá, na China. Além dos males todos que dividimos, nunca perdemos o hábito de criarmos outros tantos, afinal, filhos de um tempo onde tudo já parece ter sido inventado e dito, é necessário então, criarmos outras modalidades de chatices, pedantismos e autoritarismos. E neste aspecto, somos vocacionados, não é a toa que uma figura destas, que imagina ser capaz de conter a dinâmica viva da língua em um projeto de lei, sem pé nem cabeça, tenha sido o segundo mais votado para a câmara da cidade do Rio de Janeiro.

 

Marcos Vinícius.

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