quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sobre a mentira


Sobre a mentira



No dia 18 de setembro de 2008, José Saramago, publicou em seu blog um artigo, onde afirmava que “George Bush expulsou a verdade do mundo para, em seu lugar, fazer frutificar a idade da mentira. (...) honra lhe seja feita ao menos uma vez na vida, há no robô George Bush, presidente dos Estados Unidos, um programa que funciona à perfeição: o da mentira. (...) A sociedade humana actual está contaminada de mentira como da pior das contaminações morais, e ele é um dos principais responsáveis. A mentira circula impunemente por toda a parte, tornou-se já numa espécie de outra verdade. (...) a mentira como arma, a mentira como guarda avançada dos tanques e dos canhões, a mentira sobre as ruínas, sobre os mortos, sobre as míseras e sempre frustradas esperanças da humanidade”.


Após ler estas palavras, voltei a relê-las outras tantas vezes, fiz cópias, distribui entre pessoas mais próximas e colei-as em alguns poucos lugares públicos. Desde então, as palavras não mais me saíram da cabeça. Nunca imaginei poder encontrar definições tão exatas, não apenas sobre a roupagem da qual se traveste a mentira em nossos tempos, mas também como se configuram estes mesmos tempos a partir das mentiras que carregam e são. O autor abre uma perspectiva, fundamental, para que possamos compreender um pouco mais profundamente não apenas o mundo em que vivemos, coabitamos, mas também, a humanidade que somos. O fenômeno da mentira, não das pequenas mentiras, mas das mentiras grandes, aquelas que arrastam povos inteiros, ceifam vidas, criam ódios e guerras, vai se tornando um elemento cada vez mais comum, repetitivo, sistemático das bases de nossa civilização global. As grandes mentiras, se observarmos bem, cercam-nos a todos, em uma tendência mundial.


A mentira, enquanto fenômeno, encontra-se tão disseminada, que por mais que sejamos atentos, estamos sempre a ser enganados. Os veículos das grandes mentiras são muito poderosos e viajam pelo mundo com blindagens indestrutíveis, a serviço de negócios inconfessáveis, geralmente em defesa de interesses de governos ou das grandes corporações privadas, dos setores financeiros, dos oligopólios. A mentira tornou-se estrutural. Jamais poderia imaginar que as brincadeiras de infância, associadas ao inocente primeiro de abril pudessem esconder uma perversidade absoluta, em que poderia a mentira se transformar. Vivemos sob a ditadura da mentira. Quem pode acreditar nos discursos dos governos? Os governantes de plantão, geralmente a serviço do grande capital, transformados em gerentes e marqueteiros, querem nos fazer acreditar que mergulhamos nos melhores dos mundos, quando nos afogamos, populações inteiras, em desempregos e misérias. Querem nos fazer acreditar que não há outras alternativas, que não as deles, ou dos interesses escusos, onde muitos, são testas de ferro. As grandes organizações e organismos multilaterais fundamentam-se sobre princípios de falácias e engodos.


De certa forma, a mentira acaba por criar uma nova estrutura de poder e uma nova cultura também. Tornou-se recurso universal, imprescindível de quem detém algum poder de fato, sejam os poderes maiores, em escala global, sejam nos níveis intermediários, ou nos níveis mais individualizados e próximos, onde um indivíduo está para exercer o poder sobre o outro. É como se a mentira funcionasse como um amplificador de poderes, pois quando estão a mentir, e tem o domínio, a mentira passa a ser a verdade, sobre a qual tem o controle. Os grandes veículos de comunicação mentem o tempo todo, enganam as crianças, enganam a nós, com suas meias verdades, omissões previsíveis, táticas, distorções, deturpações, ilusões fáceis. Querem transformar a todos em dóceis consumidores, nada além de força de trabalho e consumidores de entulhos e supérfluos, não-pensantes. Querem transformar-nos em massa de manobra, currais eleitorais, e compradores da fé. Descobriu-se o quanto pode se lucrar com a mentira e ela fez-se grande, disseminou-se. Há saída? É o que devemos buscar. Talvez um bom começo seja recusando-nos a sermos cúmplices, descosturando a cada dia o manto que caiu sobre nós. É necessário estarmos de olhos abertos, tatearmos nas trevas, para perceber que as maiores mentiras são as que nos apresentam como as únicas verdades ou para descobrir a verdade que há por trás de uma grande mentira. Não dá para cochilar. Obrigado Saramago, por manter a vigília.


Marcos Vinícius.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Breve viagem à Diamantina.




Breve viagem à Diamantina.


Existem ocasiões que exigem ser, de alguma forma, retratadas, seja para que possamos sempre voltar a contemplá-as, seja para guardar alguma memória de nós mesmos, para que possamos, posteriormente, lembrar de quem fomos um dia, ou quem sabe, para que possam lembrar de nós, quando por aqui já não mais estivermos. Existem ocasiões que exigem algo além das fotografias. Não que estas não sirvam para nos trazer as boas ou as más recordações, mas que podem não ser o bastante, quando se pretende recorrer não só às lembranças visuais, mas também aos sentimentos e sensações que se teve, ou pelas quais se foi tomado, quando se conheceu alguma nova localidade. Após a viagem à Diamantina, cravada na Serra do Espinhaço, torna-se irresistivelmente tentador transformar em linhas de palavras, a trilhas percorridas, entre as montanhas, serranias, cursos d’água, rastros do passado, que magicamente vão se abrindo diante de nossos olhos, admirados. É como se não se tivesse sossego, diante dos fatos que não querem se dar por esquecidos, e que exigissem de nós que os registremos além das fotos de nossas câmeras digitais. Escrever sobre uma viagem é não só revivê-la, de forma intensa, mas também recheá-la com novos significados, redescobrindo-a.


Natural, mineiros que somos, que fiquemos, quase todos, maravilhados diante da beleza inigualável do mar e do calor das praias e das cidades litorâneas. É comum, principalmente, em períodos de férias, deslocar-se uma fatia bastante significativa da população do Estado, para as paradisíacas praias que se estendem por todo o litoral brasileiro. A grande peregrinação dos mineiros ocorre no verão. As estradas, vias de acesso ao litoral do Espírito Santo e Bahia, para não se ir mais longe, ficam ininterruptamente entupidas, os acidentes automobilísticos se contam aos montes, resultado não só da imprudência dos motoristas, mas de uma demanda do mercado, com seus carros velocíssimos, e rodovias, completamente entregues aos buracos. É plenamente compreensível, no entanto, o desejo pelo mar, com sua espuma, que nos roça freneticamente os pés, e suas ondas que nos levam ao deleite. Quem não quer estar à beira-mar, curtindo o sol do verão, tomando uma cerveja gelada, ouvindo o quebrar das águas, o canto das sereias, e o rebolado das ninfas, que seminuas, desfilam com suas tatuagens coloridas, os seus piercings, com os cabelos ao sol e ao vento? Mas o que muito me impressiona, é como muitos destes cidadãos, que a cada ano lotam as praias mais próximas e as mais distantes também, morrem sem nunca terem voltado os olhos para o que de tão valioso temos cá guardado pelo imenso coração da antiga Capitania das Minas Gerais. Visitar as serras que se estendem para além da Serra do Cipó, e penetrar pelas pedrarias do Espinhaço, pode ser uma viagem, da qual por mais que a façamos e retornemos, sempre por lá ficará, um pedaço de nós.



Partindo de Belo Horizonte, são muitos os caminhos e roteiros que nos introduzem nos encantos, do que pode ser considerada a única cordilheira do Brasil. A Serra é bastante longa e se estende por mais de 1000 km de extensão, sublevando os territórios de Minas e Bahia, como uma gigantesca flor de pedras, que se levanta com força da Terra, não só proporcionando aos olhos uma imagem inusitada, como se noutro mundo estivéssemos, principalmente para os marinheiros de primeira viagem, tão acostumados aos caminhos do litoral, como nos ofertam com uma infinidade de histórias, que realmente, apenas amplia a nossa condição de viajantes. São muitos os roteiros que nos permitem abordá-la, partindo aqui da região metropolitana. Nossa primeira viagem, dentre outras que virão, tem com destino, Diamantina.


Tem início a viagem. Após um percurso de cerca de 300 km, a cidade se abre, principalmente para os que ainda não a conhecem, como uma alternativa bem desafiadora, como penetrar pelos mistérios do passado, desvendar seus traçados de ruas, com seus becos estreitos, seus imensos casarios, suas pesadas portas e janelas, que tantos segredos guardaram do tempo e dos homens, sentir sua altitude, e o espírito de uma cidade, cravada no meio das pedras. Infelizmente o tempo de que dispunha era bastante exíguo, para explorar sequer uma pequena parte das riquezas que o local oferece. Não foi desta vez que pude conhecer as cachoeiras da Sentinela, do Barão, dos Cristais, da Toca, Batatal, das Fadas, do Telésforo, e também não foi desta vez, que as portas das antigas igrejas dos séculos passados, se abriram para mim. As cachoeiras não puderam ser conhecidas porque o tempo não o permitia, dado o propósito do roteiro já traçado, ambicioso, não só pelo tempo curto, mas também para uma grana contada. Quanto às igrejas, confesso que me senti um pouco frustrado. Antes de seguir viagem fiz uma lista com muitas delas como, Basílica do Sagrado Coração de Jesus, Igreja Matriz de Sant'Ana, Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, Igreja de Nossa Senhora das Mercês, Igreja de Nossa Senhora do Amparo, Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Igreja de Nosso Senhor do Bonfim dos Militares, Igreja de São Francisco de Assis, Matriz Metropolitana de Santo Antônio. Tinha como objetivo conhecer algumas delas, mas encontrei abertas apenas as portas desta última, que fica no centro da cidade, em frente à antiga morada do inconfidente Padre Rolim, hoje Museu do Diamante, sobre o qual se falará à frente, e a Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. A primeira, uma igreja imponente, teve sua construção concluída em 1932, já a segunda, como a maioria delas, data do século XVIII. O interior desta Igreja é realmente de encher os olhos. Todos os cantos do templo dão uma demonstração inequívoca da riqueza e prosperidade da época. Belíssima pintura de teto, trabalhos em talha dourada, esculturas magníficas, quadros, o corpo de Cristo sobre o altar-mor, uma arquitetura plenamente voltada ao sagrado, criam um ambiente em que os fiéis possam sentir não apenas todo o peso da onipresença de Deus, como também o luxo e a faustuosidade que os diamantes proporcionaram, o poder e grandeza, dos quais puderam usufruir alguns poucos homens. Nos fundos, um pequeno cemitério, edificado nas paredes, repletas de gavetas. Gavetas que certamente, guardam os restos, se é que ainda existem, daqueles privilegiados, que puderam comprar um território supostamente eterno, onde pudessem estar infinitamente sob a proteção dos anjos, santos e da casa do Pai. O nome dos mortos gravados nas pedras, nos mármores, são manifestações explícitas do desejo humano de se perpetuar. Os nomes lá estão, praticamente intocáveis, acompanhados das datas de nascimento e morte, com as cinzas do tempo, desafiando a brancura do mármore. São mortos antigos, e o que mais terá restado deles, além dos nomes que lemos?Infelizmente, não pude permanecer tempo suficiente na cidade para descobri-lo. Mas o que desperta mesmo a atenção nesta igreja, provavelmente até mesmo a dos mais desatentos, é a localização da torre sineira, na parte posterior, fenômeno bem original e inusitado. A explicação para o feito possui versões variadas. Uns afirmam, que por ter sido edificada a mando de Chica da Silva, ordenou que assim fosse feito, em função de uma lei que vigorava na época, que negava aos negros irem para “além das torres”. Outros dizem que assim o fez, para que o barulho dos sinos não a perturbasse, pois sua residência era bem próxima do templo. Sendo uma coisa ou outra, o que impressiona mesmo é o poder que tinha esta mulher, não só entre os homens, mas também entre as coisas da fé. Lendo depois sobre esta igreja, uma curiosidade, acaba por fazer obrigatório o retorno a ela um dia. Dizem que José Soares de Araújo, pintor do forro de teto da capela, por não ter recebido o valor combinado pela Irmandade, para a realização do trabalho, acabou por acrescentar à obra desenhos dos irmãos, com cara de ratos. Que falta faz um guia nestas ocasiões.



Um local que certamente muito impressiona todos que por lá passam, é o famoso caminho dos escravos. Na verdade, em Minas, são muitos os caminhos dos escravos. A Capitania se encheu deles quando de suas entranhas e rios, aflorava o tão cobiçado metal, que tantas mortes fez, e tanto poder construiu - o ouro. Eram os escravos, quem com suas foices e enxadas, abriam o caminho na mata, entre as serras, cortando rios, para que a riqueza pudesse circular. Foram os seus caminhos que permitiram a tão disputada corrida do ouro, pois sem os seus mortíferos esforços, como as nobrezas, os agentes da Coroa, poderiam entrar, como as pedras preciosas, ouro e os diamantes poderiam sair? De certo modo, podemos compreender que sem o seu sacrifício, dificilmente o denominado século do ouro poderia ter tanto esplendor. Hoje, no Estado, os caminhos abertos por eles, são ironicamente chamados de Estradas Reais, e apesar de servirem de fato, à época, aos interesses da Coroa, do Rei, possuem, ainda hoje, força, imortalidade e exuberância, provenientes talvez do sangue ao longo delas derramado e do sal e suor, que durante anos e anos, foi se escorrendo caudalosamente dos corpos doloridos e sendo depositados nos veios da terra devassados. Neste sentido, é muito ilustrativa a visita ao caminho dos escravos, em Diamantina, talvez o mais conhecido deles em toda a região. Trata-se de uma estrada enorme, comprida, larga e espessa, que ligava à época, Diamantina a Mendanha, toda feita de pedras, meticulosamente encaixadas umas nas outras, pelas mãos dos escravos, e fincadas numa terra inóspita em meio às montanhas. Uma estrada que mostra aos olhos mais atentos, como foi dado também aos homens, o dom de operar milagres, claro, que não daqueles que se executam com preces, orações ou rituais mágicos, mas como fruto de um trabalho árduo, exaustivo, duríssimo, e sem o recurso da parafernália técnica e das sofisticadas máquinas que temos hoje à nossa disposição quando dos grandes trabalhos de construção. Deviam as autoridades, colocar um anúncio bem à entrada da cidade “Visitem os museus, os monumentos, as igrejas, as obras de arte, mas em hipótese alguma, deixem de conhecer o caminho dos escravos”. Porque ali, naquela estrada toda feita de pedra, e com certeza, muito sangue e suor, não há como não sentir a história pulsar, pois no silêncio do tempo, o vento das montanhas parece trazer os gemidos dos pobres, que enterraram suas vidas, entre as pedras de um caminho, que talvez, sequer soubessem, onde ia dar. A marca do choro nas pedras, parece a todo o momento, em choro, querer outra vez se transformar. Todos que vão à Diamantina, deveriam ir ao local. A visita deveria ser obrigatória, incluída nos currículo de todas as instituições de ensino. Não há lição melhor não só da história local, como da história do mundo. Aqui se percebe e se sente talvez o que já se saiba, mas ainda não tanto. Poderia se dizer, que também nas igrejas monumentais, se vê muito do seu suplício, o que é correto, mas ali, a impressão que se tem é que a obra de Deus ofusca um pouco a obra dos homens. Ante o esplendor das construções e as sombras e luzes divinas, o esforço humano parece ser nada. Enquanto na estrada, os blocos de pedras são menores, interpostos uns sobre os outros, numa grande teia de rochas, com argamassa humana e incrustada no chão, os templos são construções para o alto, edificações, com gigantescos blocos de pedras, empilhados, montados a dar a dimensão dos céus e a grandeza de Deus. Se quiser sentir mais de perto, o quanto pôde ser dura a vida destas pobres bestas humanas, o caminho, além de caminho, é parada obrigatória, pois ali, mais que em qualquer outro lugar, a história parece não querer se tornar o passado. Os espíritos dos mortos parecem querer dialogar. Ao suspirarmos, ficamos à dúvida, se o fizemos nós mesmos, ou se um sussurro do tempo veio a nos contar um segredo.


Os lugares por onde passamos, passam a viver e existir também dentro de nós, mesmo que lá já não mais estejamos. Vão se constituindo em memória e como pequenas pedras de um intrincado mosaico vão formando a imagem reveladora que temos do mundo, e a imagem que temos de nós mesmos. Nunca mais seremos o que fomos, quando uma nova paisagem for descortinada, quando uma nova história for contada ou descoberta. A humanidade vai fazendo das coisas o que são, e vamos sendo quem somos, a partir do que as coisas e os lugares vão fazendo de nós. Assim é cada viagem, assim é cada canto do mundo, quando olhado de frente, à olho nu. Os lugares vão deixando suas impressões, impressionando-nos. É interessante o relato sobre a viagem feita, pois, em última instância, é uma forma de refazê-la, retê-la. Uma maneira de estarmos não-estando, voltar pelos mesmos caminhos, porém com novas possibilidades, o caminho pode então, ser visto do alto, pois visto agora à certa distância, a partir da visão do conjunto que na mente se formou, que não tínhamos quando da primeira vez. O relato acaba por abrir pois, novos caminhos nas fronteiras do nosso entendimento. Claro que nos esquecemos de muito do que se viu, mas também resignificamos o que há muito já poderia ter se esquecido. Arrisco-me a afirmar que os caminhos são não apenas as pedras e o pó que a terra levanta, as cercas esticadas, as matas rasgadas por trilhas, as indicações, as curvas, os buracos e o barro, mas são antes de tudo, o que buscamos por eles. Os caminhos que fazemos acabam por fazer a nós e, geralmente, não tem fim. Quando imaginamos que mais não há, sempre uma trilha escondida reaparece por sob os pés, uma nova direção ou sentido, sempre havendo algum novo lugar para se chegar. Por mais que andemos, nunca andamos tudo, e a Terra parece, nunca terminar.



Mas o passeio desta vez não é longo, três dias apenas, e ainda temos o que andar. Infelizmente, como já foi lamentado acima, o tempo é bem curto em relação ao que se tem por ver. E muita coisa, descobertas que não fizemos, ficará para trás, sem que possamos dimensionar a riqueza que se deixou de conhecer. Sim, em toda viagem, a gente sempre ganha pelo que então se descobriu, e também sempre se perde, por ter deixado irremediavelmente para o campo das nossas ignorâncias, o que de muito importante se colocou pelo nosso caminho, e acabamos, por desviar-nos dele, por nossos próprios passos, passando tão perto. Nunca dá mesmo para se conhecer tudo. Deixemos de lamentos, pois o que se pretende é um relato do que foi visto e sentido, e não do que se furtou ao olhar. Sensação bem peculiar é a que nos é proporcionada pela bela obra arquitetônica do século XIX, o passadiço da Glória, que liga, os dois prédios da Casa da Glória, antigo educandário e orfanato, por sobre a rua, a partir do primeiro andar. Era por onde passavam as internas. Pelo que se conta, o passadiço servia não apenas como meio de facilitar a comunicação entre os prédios, mas também para proteger as moças, dos rapazes que pela rua passassem. Para evitar que pudessem seduzi-las, ou que por elas, fossem seduzidos. Certamente havia suspiros entre os jovens que do passadiço se aproximassem, sejam os rapazes, que vislumbravam as grandes portas e fechaduras de seus possíveis grandes tesouros guardados, a imaginar sabe-se lá o que, ao passar exatamente por baixo, do passadiço onde as virgens, estivessem a sobrevoar como anjos suas cabeças, seja entre as moças, que lá do alto, podiam contemplar sem serem contempladas, e escolher um dos que por baixo de si passasse, para que pudesse ser seu homem, num futuro próximo, ou possuí-la em seus íntimos e guardados pensamentos e delírios noturnos. Sim, havia suspiros pelo passadiço da Glória. Serão os passadiços elevados condenados aos suspiros? O estilo arquitetônico se inspirou na chamada Ponte dos Suspiros, construída na Veneza do século XVII. A ponte tem este nome, porque também ela, tem uma história de suspiros. O nome se deve ao fato da ponte fazer a passagem e ligação entre o antigo Palácio de Governo e a Prisão. Segundo a lenda, os presos ao passarem de um prédio ao outro, dirigindo-se ao cárcere, tinham na ponte sua provável última visão do mundo externo, daí o suspiro. No nosso passadiço, o suspiro que se fez predominar, foi certamente, o suspiro das moças e rapazes, que ardendo-se uns para os outros, não tinham sequer como tocarem-se. Já a ponte deles, testemunha os suspiros de dor e sofrimento, ante a última visão do mundo, que acabou de se perder, que acabou por tornar-se, portanto, intocável. São passagens elevadas, que arquitetonicamente, facilitam o contato, a comunicação, o intercâmbio, mas que na realidade, na sua aplicação prática, ante os métodos da concepção humana, são clausura, encerramento, confinamento e prisão. A genialidade humana parece se manifestar não apenas em sua capacidade de inventar e criar coisas, mas também em sua insistência em sempre querer subvertê-las. A travessia do passadiço foi uma experiência única.


No coração do centro histórico da cidade, faz-se visita obrigatória, o Museu do Diamante, funcionando na casa que pertenceu ao Inconfidente Padre Rolim, considerado um dos mais ricos ativistas do movimento conspiratório. O movimento da Inconfidência é um símbolo da mineiridade, transformando os mineiros em sujeitos da história nacional, proporcionando orgulho em serem os mineiros que são, e aproximando nossas peculiaridades humanas às sagas dos heróis. Mas infelizmente, uma leitura mais cuidadosa dos motivos que de fato levaram nossos ícones rebeldes ao rompimento com a Coroa, reduz um pouco a grandeza do ato. Na maioria dos casos, homens da elite, beneficiários da estrutura escravista, grandes proprietários, viam na autonomia do Estado, não uma forma de construir uma nação nova, com distribuição de riquezas e trabalho livre, mas a possibilidade da construção de um sistema político, onde pudessem tratar diretamente de seus interesses privados mais imediatos, sem a ingerência dos agentes da metrópole. Vê-se que a concepção de liberdade, que tinham nossos inconfidentes, era bem limitada. Na verdade, a Inconfidência, foi um grande movimento ou fato, que de fato, não chegou a acontecer. Os agentes do governo se adiantaram aos rebeldes e estrangularam o movimento. Defendem os historiadores, que o movimento ocorrido na Bahia, pela mesma época, com o mesmo desfecho, a derrota, conhecido com Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, foi um movimento de caráter mais popular, com participação social mais ampla, e com referências à questão da propriedade da terra e o fim da escravidão. Cabeças rolaram por lá também. Enquanto por aqui apenas Tiradentes foi morto, enforcado, na Bahia, alguns anos depois, foram cinco os condenados. Um deles escapou da execução, pois conseguiu fugir e nunca mais foi localizado. Enquanto partes do corpo de Tiradentes, esquartejado, foi fincado em diversas cidades por onde fazia sua propaganda subversiva, as cabeças dos baianos ficaram expostas pelo centro de Salvador por cinco dias, para o terror da população, que teria à prova a inclemência da Coroa com os seus súditos infiéis. Mas não estamos aqui a tratar de uma narrativa histórica, mas apenas de um rápido passeio a que me permiti fazer aqui pelas franjas da serra do Espinhaço, tendo como porta de entrada, Diamantina. Para os padrões nacionais podemos dizer que o Museu dos Diamantes é um grande museu, e maior ainda acabou por ficar, com a entusiasmada orientação de uma guia, que demonstra uma grande satisfação ao contar para os turistas admirados a história da sua terra. Bom são os guias quando nos fazem imaginar que ao dialogarmos com eles, dialogamos diretamente com o passado e a história. Existem guias que podem tornar uma visita a um museu, uma viagem grandiosa e inesquecível. Felizes de nós. No prédio, vemos equipamentos ligados à extração diamantífera, diamantes, balanças, artigos religiosos, armas, correntes para escravos, instrumentos de tortura, mobiliário, máquinas de escrever, privadas, ferros de passar, dentre outros. O que sempre impressiona são os ferros que aprisionavam e torturavam escravos, é como se o sofrimento, as dores, os cortes, o sangue, o suor, que eles haviam causado, os deixassem impregnados de alguma humanidade. Os objetos desta sala, talvez sejam os que mais falem por si mesmos, dentre todos os outros espalhados pelo museu. É a sala onde talvez menos se façam necessárias as palavras, para que se compreenda o que cada uma daquelas peças possa significar. A liteira exposta no maior salão do museu, já bem danificada, nos permite vislumbrar não apenas a suntuosidade em que viviam os que tinham capital e poder, mas a condição mesma em que um ser humano pode literalmente se transformar em um verdadeiro “burro de carga”. As privadas de madeira e gavetões que serviam para o alívio dos proprietários da casa, certamente, aumentavam as condições degradantes de trabalho de quem do ofício deveria cuidar, e transformavam as cidades da época, em centro urbanos não muito aromáticos. O museu é uma ilustração quase viva do que foi Diamantina há alguns poucos séculos atrás.



Como a intenção era conhecer a maior quantidade de coisas e lugares em um tempo sempre próximo do fim, não poderia sair da cidade, sem antes conhecer a curiosa Biribiri. A estrada para o lugarejo é bem diferente de todas as outras estradas que já tive a oportunidade de conhecer. A impressão que temos é de viajar por vários quilômetros sobre uma enorme pedra. O ambiente é árido, a poeira da estrada é branca e o chão repleto de cascalhos. As pedras, de todos os tamanhos, vão se prostrando à nossa frente, por todos os lados, com as mais variadas formações, como que para se afirmarem diante de nós, e mostrarmo-nos que ali são elas quem imperam. Vez ou outra, ouvimos o ruídos das águas e o corpo do córrego se põe à vista. A água é cristalina, e em alguns pontos da estrada, corre bem apressada, perfurando as pedras e oferecendo aos olhos um belo espetáculo. É aparentemente limpa e gelada, principalmente por estarmos no inverno. Neste dia o acesso à Cachoeira dos Cristais estava vedado e uma grossa corrente fechava a passagem. Segundo, pude saber posteriormente, a interdição se deu em função de ataques de ladrões que vinham assaltando os carros dos visitantes. Por mais que já tenhamos visto fotografias de Biribiri, a chegada ao local é uma surpresa. Na chegada, a estrada parece tornar-se mais íngreme e estreita, e a sensação que temos é que um descuido no volante ou um problema técnico qualquer, pode derrubar o automóvel pela serra abaixo. Os que têm medo de altura ou ainda não aprenderam bem a arte de dirigir devem evitar assumir a condução de seus veículos quando estiverem viajando pelas serranias do Espinhaço. Não imagino o que poderia ocorrer a uma estrada destas em períodos de chuva. Mas enfim, o pequeno povoado aparece. Parece uma cidade fantasma, não fossem as reformas pelas quais estava passando para transformar-se em cenário de um novo filme nacional, que irá contar a história de um matador que viveu pela região há muitos anos. O filme, segundo um morador, terá a participação de José Wilker e as filmagens teriam início uns dois meses apenas após a minha visita. O lugarejo foi construído em fins do século XIX para abrigar uma fábrica têxtil e seus operários, viriam a constituir uma das primeiras comunidades fabris do Estado. Sob o controle da Arquidiocese de Diamantina, entre 1876 e 1921, a partir de então, passou para a mão de particulares. O lugar floresceu até o fechamento da fábrica em 1973, e acabou eclipsando-se. Junto com a fábrica, os moradores também se retiraram. O acesso difícil e as longas distâncias dos centros consumidores de seus produtos tornaram o local economicamente inviável. Ao chegarmos, uma placa nos avisa que ingressamos em território privado, o que à primeira vista, soa-nos estranho, por não estarmos acostumados a passarmos por cidades cercadas. A igreja parece ter sido levantada pela iniciativa das operárias que ali viviam e trabalhavam e resiste à ação do tempo. As casas dos antigos moradores hoje são alugadas para os turistas que querem não só o acesso às suas belas águas, mas que pretendem mergulhar no passado, instalando-se num local cuja estrutura física manteve-se aparentemente intocável. Desenvolveu-se, floresceu, depois parece ter perdido a razão de ser, como se vítima de uma morte lenta e inevitável. As casas alugadas possuem certo aspecto de abandono. Ouvi de um morador da região, que o lugarejo estava à venda. Quanto valeria um local como este? Quem o compraria e que destino teria? A conservação e administração de tão rico patrimônio histórico não deveriam estar sob o controle do Estado? A visita a Biribiri, na verdade, trouxe mais perguntas do que respostas e ficamos a imaginar, se nós, simples mortais, teremos ainda acesso a este patrimônio quando ele estiver nas mãos de algum bilionário qualquer. Uma outra questão fica por se saber. Será a denominação do local uma referência à frutinha de mesmo nome? Biribiri, uma frutinha azeda, parente da carambola, da qual pode se fazer suco, doces, picles, temperar carne, tem uma característica interessante e curiosa, suas folhas se abrem ao nascer do sol e fecham-se à noite, para dormir. Como o lugar, que tem hoje suas folhas fechadas, adormece, após o encerramento de suas atividades econômicas, enquanto não chegam os atores, ou não vem os turistas, que não sabemos se poderão despertá-la de um sono que parece eterno. Despeço-me com a esperança de poder voltar um dia, para poder conhecer o que não pode ser visto nestas poucas e rápidas horas em que pude estar por ali. Há lugares que nos obrigam ao retorno. É como se um segredo que tivesse muita necessidade de se revelar não quisesse perder a oportunidade de ter para quem se mostrar, e nós, em nossa pressa humana, insistimos em partir, virando-lhe as costas. Ficamos, às vezes, inconscientemente, com uma dívida com o local, que não pôde se revelar de todo para o viajante apressado. Um dia, terá que se retornar.



Marcos Vinícius.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Drama da consciência






Drama da consciência





A ambulância para em frente ao grande portão de ferro e reduz a luz dos faróis. Um guarda, de prontidão, retira uma pesada chave da cintura, e abre rapidamente os cadeados. O portão se abre. O carro avança pela rampa de acesso e as luzes de emergência se apagam. Assim que estaciona, surgem pelo portão principal dois musculosos enfermeiros, que se dirigem imediatamente a recepcionar o doente. Ao abrirem o veículo, dois olhos enormes saltam sobre eles, e os fitam profundamente. Num primeiro momento, desconcertam-se um pouco, os profissionais. Mas como não era ocasião de se perder tempo, retiram o paciente que estava transtornado, nitidamente alucinado, do interior do veículo. Perguntam os enfermeiros pelos recônditos de suas consciências e memórias se já tinham cruzado com um olhar assim. Mesmo nunca tendo visto aquele homem antes, era óbvio que estava desfigurado. Que mal levaria consigo? Parecia ter saído de um momento de fúria. Estava amarrado. Dois vizinhos e um parente distante ajudaram a segurá-lo. Naquele momento, encontrava-se aparentemente sob controle, e já um pouco sedado pelos fortes medicamentos que lhe foram aplicados pelo caminho. Tinha a face dura. Não havia expressão, além do aspecto de quem teve que conter suas forças, em virtude de forças maiores o segurarem. Sejam os que vinham pelo interior da ambulância, seja pela segurança, que o recepcionava na chegada. O corpo estava sob domínio, mas parecia carregar um sujeito sem alma. Os olhos estavam fixos, talvez, em coisa alguma. Pareciam mirar o nada que carregava por dentro, como se mais não fosse que um infinito universo vazio, uma grande noite de silêncios e sem estrelas. As mãos estavam trêmulas e a boca ressecada. Não havia pronunciado palavra alguma. Mantinha-se amarrado.


Enquanto os acompanhantes davam a entrada em alguns papéis, é levado para a ala que passaria a ocupar. Vai andando. Não olha para os lados. Segue pelo imenso corredor, que não parece correr por seus olhos. É certo que não o vê. Mas anda como se os passos já conhecessem o destino, vai em linha reta. Observado, sem observar, não vê os outros internos, com os quais cruza pelo caminho. Ficará no quarto no final do corredor, pois mesmo entre os demais doentes poderia despertar atenções e curiosidades, pois, de fato, se trata de alguém diferente. Ainda não se sabe o que está a ocorrer. Um caso atípico, talvez.


Dois médicos avaliam o doente, que está inerte. Tem os olhos voltados para cima, não dorme, mas também não parece estar acordado. Não emite som algum. O coração bate forte. Os cabelos estão desgrenhados. Não reage às tentativas de diálogo. Os médicos, ainda sem um diagnóstico preciso, um pouco desorientados, acham mais conveniente deixá-lo amarrado. Aplicam mais uma dose de remédios, observam mais um pouco e, em seguida, dada a urgência de outros atendimentos, abandonam-no só, no quarto. Ao saírem, o homem se mexe. Parece dotado de uma força surpreendente. Num único gesto, desvincula-se das espessas cordas que atavam seus braços e mãos, como se fossem finos barbantes, e tenta se levantar. Neste momento, é tomado de um pânico violentamente incontrolável. E naquele hospital, solta as primeiras palavras, que saem engasgadas. Você de novo? O que fazes por aqui? Por que não me abandonas de vez, ó tormento? Não posso mais, responde o espectro que se acomodava por sobre a mesinha ao lado do banheiro. O doente sente todo o corpo arrepiar. Terei que acompanhá-lo, agora, para sempre. Chame-me sua consciência. Sou companheira antiga, e resolvi firmar-me de vez, em ti, por passares tanto tempo sem notar minha permanente presença. Tens longas dívidas comigo. Não pretendo deixá-lo. O doente é tomado de um pânico total. Desta vez, tenta gritar, pedir um último socorro, mas não consegue, o grito é sufocado na garganta.


 O que queres? suplica o doente. Como consciência que sou, não posso deixá-lo em grandes dívidas, principalmente, com o maior credor que tens, que sou eu própria. Afinal, já estás na idade de me dares algumas respostas. Quanto às perguntas, como agora bem sabes, tenho-as de sobra, tanto as que se referem aos casos pequenos, quantos às referentes aos de maior gravidade. Por que nunca atendeu aos meus apelos? Uma vida inteira. São tantos anos... Lembras-te de quando te corroias de inveja? Esperneei, supliquei, sacudi, gritei aos ouvidos e nada. Quando te envolveste em golpes e mentiras, fiz de mim fortaleza, para poder-te segurar. Nunca consegui te conter. Quando te esfolaste, trapaceaste, quase me dei por morta, mas consegui-me soerguer. Puxei-te pelos braços, agarrei teus cabelos, e de nada adiantou. Deve-me respostas. Sabia que um dia nos veríamos de frente.


O doente suava por todos os poros; a mão tremia e os cabelos, assim como o lençol da cama, estavam ensopados. Inquietava-se irremediavelmente. As pernas, no entanto, mantinham-se amarradas. O visitante, que grande incômodo lhe trazia, sentia-se à vontade, esticava-se sobre a mesa, sorria confortavelmente, e punha-se a falar. Falava, falava, compulsivamente, como se um mundo de palavras e intenções estivessem fadados a se libertar. Sentindo o estado de choque do paciente, a consciência resolve, então, se aproximar. Desce da mesinha e encosta-se à cama.


Algumas horas depois, um alvoroço percorre o hospital. Os médicos, todos eles, são chamados às pressas pela direção da instituição. Todos, sem exceção, os que se encontrassem no horário de repouso e os que estivessem em meio a algum atendimento, deveriam atender à emergência.. Luzes insistentes piscaram e uma eufórica correria se espalhou pelos longos corredores. Em pouco tempo, o quarto do paciente estava repleto de todos os tipos de médicos, enfermeiros, técnicos de equipamentos, especialistas de toda ordem, a burocracia, representantes do governo e autoridades policiais. Todos perplexos. Olhavam-se, uns para os outros, sem palavras com as quais pudessem se expressar. Seria um dia inesquecível para a medicina. No dia seguinte, estaria estampado nos jornais, o doente havia morrido, incrivelmente estrangulado pelas próprias mãos. Dizem que perdera a consciência de si.



Marcos Vinícius.




































































domingo, 28 de junho de 2009

O Rei e os ratos





O Rei e os ratos.



Já há muitos anos que era senhor absoluto por aquelas terras. Na verdade, o poder que acumulava não era fruto de apenas  uma vida ou geração, era poder que vinha de muito tempo, pois a família tinha sangue real e, em função da precariedade do serviço de registros, não se sabe dizer ao certo, há quanto tempo dominaram por ali. O reino era bem vasto, resultado de uma política expansionista agressiva, levada a cabo por várias gerações de antepassados . Sob seu comando, atingira o seu limite máximo, nunca fora tão amplas suas fronteiras. Dominava não só a região das montanhas, os planaltos, mas também a região dos lagos, as planícies, os vales e as praias. Os domínios estendiam-se por desertos e florestas. As insígnias do poder real espalhavam-se por todos os cantos, para que o rei pudesse estar em todos os lugares, onipresente, a fiscalizar a todos, a ditar-lhes as ordens, a ameaçá-los, pois de ameaças e arrogância também se faz o poder. Não havia muro, construções, monumentos, templos, prédios, que não trouxessem dependurados ou gravados os símbolos do Estado, da nação. Era preciso sempre lembrar aos homens, aos povos, quem de fato, exercia o domínio e o poder sobre eles. Era necessário também espalhar o medo, pois sem ele, dificilmente, reinos, impérios sobreviveriam ao longo dos tempos. A demonstração de força é recurso fundamental dos que desejam manter entre as mãos o cetro e, sobre os ombros, o manto real. Não há realeza que sobreviva ante súditos destemidos. Vez ou outra, punições exemplares, públicas, geralmente em praças, em centros religiosos, para que possam, também as execuções, serem atos de fé, consagrações. Os impérios se edificam não apenas sobre leis e fortalezas, pedras e pontes, mas também sobre o sangue dos homens.


Ele era particularmente impiedoso. Gostava, na maioria das vezes, de participar diretamente dos rituais de execução. Não se sabe ao certo o porquê do gosto especial que sentia nisso, mas era algo que há muito o fascinava. Talvez, fosse mesmo o momento em que mais poderoso se sentia. Afinal, era ali, mais que em qualquer outra ocasião, que se manifestava e se comprovava seu poder absoluto, pois podia trazer à morte quem desejasse, no momento em que melhor lhe conviesse. Não era ele quem dava o golpe final, mas fazia sempre questão de entregar, pessoalmente, o machado ao carrasco. Eram ritos que  considerava necessários, para que pudesse tornar-se e manter-se especial e temível diante dos olhos de seus súditos. Quando jovem, fizera vigorar por alguns anos uma lei que condenava ao degredo ou à morte quem ousasse sobre sua sombra pisar. Gostava sempre de manter-se à distância dos outros seres supostamente inferiores, mortais. Não que dispensasse os bajuladores, mas é que no fundo, sentia-se um deus, o qual de fato não poderia ser, se muito próximo aos homens estivesse.


O excesso de vaidade condenava-o a alguns vícios. Geralmente, não usava a mesma roupa mais de uma vez, o que não era um problema, uma vez que possuía inúmeras costureiras e criadas à sua disposição. Mais difícil às vezes o que sempre custava algumas vidas, era conseguir as matérias-primas, pois muitas de suas vestimentas preferidas eram costuradas com peças, tecidos, pedrarias, jóias, vindas de terras muito distantes e de difícil acesso. Fazia questão de perfurmar-se como ninguém. Havia uma grande perfumaria no palácio, onde montou uma considerável equipe de especialistas provenientes das mais diversas regiões do mundo até então conhecido. Semanalmente, banhava-se com ervas, flores, perfumes, para que a ninguém mais fosse proporcionada a graça dos mais finos aromas e cheiros. Usava pomadas, ungüentos, cremes, que retardavam o envelhecimento e proporcionavam uma pele suave, como só os reis, príncipes e princesas podiam usufruir. As roupas eram costuradas com fios de ouro. A coroa era mais bela e rica do que a de todos os outros ancestrais.


Fazia questão que as ruas e os caminhos por onde passasse fossem todos exaustivamente varridos, mais pelo ritual que lhe proporcionaria pela passagem, com centenas de homens e mulheres envolvidos na varrição, quando ia por longas caminhadas, que por uma mania ou obsessão pela limpeza. Não gostava de animais em casa e fazia questão que os tapetes fossem sempre trocados. Mas algo o irritava profundamente: Ver ratos atravessando os cômodos e dependências do palácio. Nunca o admitia. Característica que, a propósito,  herdara das gerações anteriores, pois recorda-se que já seu avô possuía verdadeiro horror aos roedores e sempre mandava seus criados persegui-los e eliminá-los. Tarefa que depois se soube inglória, pois por mais que se perseguissem os murídeos, eles estavam sempre, ainda, a cruzar-lhe os caminhos.. Já os encontrara em vários cômodos, pelos corredores e até pelos grandes jardins. Se era assim pelas entranhas do palácio, imagine quando ia o rei visitar as regiões mais distantes e pobres do seu crescente império... Essa presença animal deixava-o intrigado. Se já subjugara tantos povos, eliminara tantas aldeias e povoados, vencera tantas guerras e batalhas, por que sua dinastia não fora capaz, enfim, de eliminar os malditos ratos? Que teriam esses animaizinhos que os fazia resistir aos tempos, aos exércitos e às escaramuças? Com eles, nada podiam as armas, os venenos, as orações, as mudanças de hábito, a força, e parecia nada poder também   os deuses. Vem atravessando as gerações de homens, súditos e reis, invencíveis.


Muito o incomodava saber que, a rigor, os ratos dominavam  aquelas regiões muitos anos antes que os seus mais antigos antepassados, pois pertencem a uma estirpe animal que  soma dezenas de milhões de anos, existentes desde tempos imemoriais. São mesmo antiqüíssimos estes roedores que são aparentemente insaciáveis. Uma eternidade a roer. Vem há milhões e milhões de anos no encalço dos homens, afinal, a humanidade sempre proporcionou a eles uma grande possibilidade de sobrevivência, com seus mortos insepultos, seus lixos individuais e coletivos, sobras, restos, esgotos, sujeiras de todos os tipos. Muito do que não é bom para os homens é banquete para eles. Afinal, um sistema olfativo privilegiado deu-lhes condições, não só de escolher o que lhes é saudável entre o que perdido está, como ainda lhes proporcionar a possibilidade de escolhas, entre variadas preferências e cardápios de todos os tipos. Além do mais, têm os roedores uma invejável capacidade de adaptação aos mais diversos ambientes ou condições de vida, permitindo-lhes sobreviver, em muitas situações em que  os homens certamente morreriam.


Os grandes prejuízos que já tinham causado ao reino, desde um tempo de que já não mais se tem lembrança, foram transmitindo a todos que o trono ocupavam, ou próximo dele estivessem, uma aversão muito grande à sua presença. Perdas de colheitas, ataques aos depósitos de alimentos, silos, doenças e pestes, sempre fizeram dos ratos, ratazanas e camundongos alvos prefernciais das políticas de governo no reino. Seus antepassados fizeram todos os tipos de tentativas, todas fracassadas no longo prazo. Tipos imagináveis e inimagináveis de engenhocas foram criadas por inúmeros inventores que de todas as partes afluíam, incentivados pelo rei e por seus funcionários. Quase de tudo se tentou. Os danados sumiam, às vezes  por um largo tempo, mas retornavam depois, aos milhares, subitamente, a zombar dos inventos humanos e a desafiar o poder sagrado dos soberanos. Talvez, fosse mais por isso do que por qualquer outro motivo que o rei havia herdado uma obsessão praticamente genética, hereditária, em querer eliminá-los. Mais que uma necessidade de fato, era uma questão de honra. Um desejo de vingança que pudesse redimir os espíritos de seus ancestrais.


Quando à distância, o rei gostava de observá-los. Era um exercício. Ficava sempre a imaginar como podiam ser tão poderosos e resistentes. Não cediam. Eram como os homens, extremamente territoriais. Sobreviveram às guerras de conquista e anexação de territórios, que apesar de incorporados ao reino e de todo o aparato de segurança, fugiam ao controle dos governos. As profundezas, os subterrâneos, as frinchas dos telhados, os buracos imperceptíveis, as entranhas, os cantos, às escuras. Além do mais, se reproduziam em proporções geométricas e parecia ainda não dominar o mundo, pois não haviam vencido de todo a cruzada eterna, que se abatera sobre eles. Sim. Não podia haver esmorecimento. A impressão que tinha era que a antiga peleja que sempre tiveram que travar contra eles era condição fundamental da sobrevivência de seu poderio. Sem o ataque sistemático ao inimigo comum, dos povos e dos reis, talvez ao grande reino não houvesse sobrado nem mesmo os escombros, não só pela ação destruidora dos roedores, mas pelo que a luta contra os pequenos mamíferos não humanos pode gerar entre os que humanos são - um sentimento de identidade, além dos ressentimentos de classe. A guerra aos roedores servia, pois, como estímulo ao espírito patriótico, fortalecia o rei e ajudava a manter uma relativa ordem e paz social.


Como rei que era, não podia se descuidar deles. Então, subitamente, uma idéia lhe veio à mente. Em vez de enviar equipes profissionais, técnicos, burocratas pelo território à caça dos inimigos, por que não envolver cada súdito, a população inteira, numa guerra que afinal beneficiaria supostamente a todos? Sim. A idéia o estimulava. Seus olhos brilhavam. Quem sabe inventaria um método próprio, que mais sucesso teria do que todas as tentativas anteriores? Além de rei que era, poderia ainda, no futuro, quando neste mundo não mais estivesse, virar respeitável divindade, por haver dobrado fatalmente o inimigo que a todos sempre dobrou. Por que não havia pensado nisso antes? Os traços de seu rosto desenhavam linhas de satisfação e um sorriso rejuvenescedor agarrava-se aos cantos da boca. Os olhos estavam fulminantes. Por duas vezes passou a mão pela testa para certificar-se se um suor frio lhe escorria pela testa. Por que não havia pensado nisso antes? Claro. Pagar aos homens, a todos quantos pudesse, pelos ratos que conseguissem capturar. O reino vivia uma relativa prosperidade econômica e uma vitória como esta o levaria à consagração com que sempre sonhara: conquistar o amor ou o medo dos homens e um trono cativo pelos reinos do além. Seu rosto se iluminava.


Decretou que a partir da décima lua uma grande caçada, uma caçada coletiva, que deveria atrair não apenas um voluntário ou outro, mas multidões inteiras, se iniciaria por todas as terras do reino. Cada canto deveria ser devassado, todos os armários de todas as casas seriam abertos, revirados, os telhados seriam vasculhados, os porões iluminados, cada sombra perseguida, cada vulto inspecionado. A grande cruzada aos ratos. O estímulo seria em ouro, afinal não era pouca coisa o que estava em jogo. As famílias apresentariam às repartições oficiais o seu montante em ratos e levariam em troca, proporcionalmente ao peso, uma porção de pó de ouro. Era a promessa real. As multidões se alvoroçaram. Na verdade, não conheciam o que era o ouro, mas tinham ouvido sempre falar dele. O sonho do enriquecimento rápido mobilizou uma população inteira. Nos litorais, nos desertos, nas montanhas e florestas. No campo, nas aldeias, em todas as partes, crianças, velhos, homens, mulheres, doentes, se armavam de paus, cassetetes, venenos, armadilhas, para capturar o valioso adversário. O espírito da caça nunca seduziu a tantos. Parecia estar próxima do fim a espécie dos ratos, pavimentando à eternidade e à gloria divina a criatividade do rei, que nunca havia se sentido tão genial. Tinha a certeza da vitória, antes mesmo que a Grande Cruzada tivesse início.


Na véspera do grande dia, uma série de festividades animou o reino. O nome do rei corria de boca em boca. Todos faziam apostas, dançavam, cantavam e bebiam. Havia uma comoção nacional. Estavam felizes e ansiosos. Trocar ratos por ouro era algo em que realmente nunca haviam pensado. Mas fosse como fosse era uma oportunidade única, para que alguns mudassem seu destino. A partir do aparecimento da lua que, naquela noite, estaria a clarear o país inteiro e viria pela madrugada, começaria a campanha que poria fim a um longo capítulo da história do reino.


O rei recolheu-se aos seus aposentos. Estava feliz como nunca. O coração batia mais forte do que normalmente o fazia. Não conseguia pensar em outra coisa, além da grande guerra que estava por iniciar. Envaidecia-se. Não imaginava que pudesse ser tão criativo e genial. Sentia-se ansioso, porém. Um ligeiro formigamento percorria por todo seu corpo, como se um sangue novo, divino quem sabe, estivesse a percorrer-lhe rapidamente as veias. A sensação que sentiaera de que não era mais o mesmo e de que jamais o seria. Não se lembrava de ter vivido tão grande e satisfatória emoção. Conquistaria ele, depois de tantos anos, séculos, uma vitória que sempre parecera impossível?


Fechou a última janela do quarto, deixando a porta dos fundos entreaberta, para que a luz da lua pudesse adentrar pelo quarto, quando a grande hora chegasse. Deitou-se. Mas a sensação de formigamento se intensificava e o sono acabou por perder-se. Encostou-se na cabeceira da cama e se pôs a observar uma claridade intensa que começava a despontar por sobre os montes. Nunca havia experimentado nada igual. Sentiu uma coceira pelo corpo e os olhos ficaram um pouco embaçados, quando a luz da lua, que majestosamente se levantava, começou a clarear os objetos e móveis do quarto real. A visão prejudicada incomod-ou-o um pouco e ele resolveu ir até a janela. Mas uma sensação estranha acabou por prendê-lo à cama. Um forte cheiro de urina de rato sobiu-lhe pelas narinas. Imagina o rei que naquele momento, muitos homens, insones, já tenham saído para a guerra, que se promete vitoriosa, e que os inimigos já sentem a derrota iminente. O cheiro intenso faz o nariz arder e ao coçá-lo, estremece, pois nunca o sentiu tão frio e molhado. Terá apanhado um resfriado justamente numa noite tão importante para si? Resolve então apalpá-lo mais uma vez. Entra em pânico. O nariz, que esfregava, agora violentamente, estava terrivelmente modificado, mais pontiagudo, sentia-o pelo toque. Próximo dele, um grande bigode despontava como jamais imaginou que pudesse aparecer em um homem, que dirá em um rei. O corpo repentinamente se enche de um pelame grosso e denso. O pânico é total. Ao virar-se abruptamente para o lado uma cauda comprida e fina, embaralha-se por entre as pernas. Ao correr em busca de socorro, percebe o quão grande está a cama, e que duas outras novas pernas o ajudam a se locomover. Não compreende o que ocorreu. A voz não lhe sai, sente as orelhas enormes. Desce pelas pernas da cama e corre apressado, rente ao assoalho. Sorte ter deixado a enorme e pesada porta entreaberta, por onde atravessa. O sol já estava a pino, e a lua, muito branca, transparente, ainda resistia em deixar o céu. Uma criada do palácio, munida de um porrete, como quase todos os súditos do reino, aplica um golpe único e fatal no rato insolente que arrisca-se a andar pelos corredores reais. Naquele dia, os ratos sofreram uma perseguição implacável. Em pouco tempo, haviam desaparecido, e o rei, inexplicavelmente, também.



Marcos Vinícius.

sábado, 13 de junho de 2009

Os dias de Lúcia


Os dias de Lúcia


Exatamente às sete e meia, Lúcia entra pela porta de seu apartamento, como o faz praticamente todos os dias, de segunda a sexta-feira, sempre no mesmo horário. É uma rotina de muitos anos. É uma funcionária pontual, tanto no que diz respeito à hora da entrada, quanto da saída, mesmo porque a sua atividade profissional, o seu ofício diário, não requer horas-extras, ou permanência no local de trabalho além do horário estipulado no contrato de trabalho. O patrão é de uma família de tradição patronal, pois o avô do proprietário já era empresário à época, e ele conhece bem a legislação trabalhista, e faz questão de se organizar no sentido de evitar que seus empregados, estendam a sua jornada de trabalho diária, além do que rezam os acordos classistas, sindicais. Geralmente a funcionária sai pontualmente às seis horas da tarde, ao findar o dia, pega sempre o mesmo ônibus no mesmo ponto, no mesmo horário, motorista, e muitos dos mesmos passageiros, seus desconhecidos e eternos companheiros de viagem. No banco da frente, a mesma senhora de óculos, que faz questão de sentar sempre perto da janela, gosto pelo qual pode se dar ao luxo, por pegar o ônibus sempre no início da viagem, o senhor que vai sempre de pé, logo atrás do motorista, e o pirralho, que vai acompanhado da mãe, o qual já flagrou inúmeras vezes, colando melecas do nariz, debaixo do banco da frente. É sempre assim. Ao largar o trabalho, a primeira providência é realizar algumas ligações telefônicas para resolver assuntos pessoais, e na maioria das vezes, utiliza um telefone público, bem próximo ao ponto de ônibus. O tempo gasto nestas ligações, nunca excede os dez minutos, normalmente, é o tempo que leva para esperar sua condução. Por isto, chega, quase invariavelmente, às sete e meia em casa.



As circunstâncias da vida e algumas desilusões amorosas condenaram Lúcia à solidão. Normalmente, quando abre a porta, ao chegar, tem pressa em entrar, acender logo a luz, e ligar o som ou a TV, pois a sensação de romper o ambiente de escuro e silêncio, muito a incomoda. Suas mãos, ao largarem a maçaneta da porta, dirigem-se voluptuosas, apressadas em direção ao interruptor, como se não houvesse tempo a perder, como se o breu da sala, pudesse sombrear sua alma ou entristecer seu coração. As luzes se acendem, e quando há alguma correspondência por sob a porta, faz questão de verificar o remetente, quanto ao conteúdo, pode deixar para após o banho, a menos que seja algo que incite inevitavelmente sua pouca curiosidade. Fora isso, liga o rádio, e sem muito rigor seletivo, ou exigência musical, pois neste momento inicial, quando está a desvendar o lar, já deixado há horas, o que mais importa, é um ruído qualquer que possa preencher a sensação de vazio.



Não se sabe ao certo, se é o rigor profissional, com sua disciplina e horários, que fazem com que já em casa, Lúcia, tenha também uma rotina rígida e cronometrada, ou se ao contrário, são os hábitos domésticos, que a adequaram ao seu sistema de trabalho. Se pudéssemos colocar os dias de Lúcia, um por sobre o outro, como a película de um filme, veríamos como as mesmas tarefas e atividades sempre coincidem com os mesmos momentos e horários. É como se todo o tempo, fosse sempre o mesmo. Momentos eternizados pela repetição, como se cada passo, cada gesto, acompanhasse os mesmos tics e os mesmo tacs do relógio suntuoso do fundo do corredor que dá acesso aos quartos. Momentos que trazem a herança de ontem, e a quase certeza, do que pode vir a ser amanhã. Com algumas luzes acesas e o rádio ligado, prepara-se para o banho, pelo qual nutre um sentido quase sagrado, como se este fosse um ritual de purificação ou passagem, é quando se livra do arquétipo do trabalho, de seu padrão profissional, uniforme, quando deixa para trás o bafo das ruas, os fungos e bactérias dos assentos que precisou usar ao longo do dia.


Após um bom banho, realmente, se sente outra pessoa. E de fato, praticamente o é. A água quente e poder livrar-se das vestimentas que usou durante todo o dia, lhe proporcionam uma inigualável sensação de alívio e prazer. Após o banho se enrola na toalha e vai até a cozinha, às vezes, mesmo, até sem ter o que fazer, é um antigo hábito, como se necessitasse não só de fazer mais um reconhecimento dos cômodos do apartamento, para certificar-se que tudo estava normalmente, mais uma vez em ordem, mas também para que pudesse andar um pouco, livre das roupas escuras e pesadas que compõem seu uniforme de trabalho. Quem sabe, talvez, ainda nutrir alguma fantasia, guardada nos recônditos de seu subconsciente ou do velho lar, a lembrança de algum amor passado, o despir-se sensual, ante o amante que já não tem mais, ou quem sabe, algum belo vizinho, que possa estar a bisbilhotá-la, por sob as franjas das cortinas.


Volta mais uma vez ao banheiro. Antes de vestir a camiseta surrada, destas de se usar em casa, que sempre proporcionam um grande conforto, dá mais uma passada ao espelho. Joga os cabelos para trás, depois, repousa-os sobre os seios, para ver o quão de erotismo ainda pode tirar da sua face um pouco cansada. Apalpa os quadris, depois, suavemente, corre os dedos por sobre os seios, que se arrepiam repentinamente, suas pálpebras, chegam a abaixar, seus olhos negros, por poucas frações de minuto, parecem boiar, vagar como nau perdida em alto mar, mas o estado de semi-êxtase se rompe com a cantoria do vizinho do apartamento de cima, que normalmente, neste mesmo horário, preenche não só os espaços coletivos do condomínio, mas também dos apartamentos mais próximos com sua voz estridente de taquara rachada. Não há tesão que resista, ainda mais se tratando do mal-educado vizinho, que faz sempre questão de hostilizar suas raras intervenções ou falas nas assembléias dos moradores. O vizinho é um tormento, do qual ela adoraria poder se livrar. Pega bruscamente a camiseta, veste-a, fecha a porta do banheiro, para ver se isola um pouco o desagradável ruído e entra em seu quarto.


Abre a porta do guarda-roupa onde ficam os perfumes e cosméticos. Há uma grande variedade deles. Loção pós-banho, fragrâncias variadas, óleos, cremes, hidratantes, esfoleantes, perfumes, pomadas, formando um grande acervo de frascos, vidros, arranjos, potes, das mais variadas cores ou marcas, todos organizados sistematicamente, em seus mesmos lugares, milimetricamente posicionados. Tem dias, em que faz uso de praticamente todos eles. Não só pelos perfumes ou pelo conforto que os produtos podem lhe proporcionar, mas pela rara sensação de prazer que tem ao passá-los pelo corpo, é quase uma forma de massagem, excitamento, auto-conhecimento, um contato consigo mesmo, que a correria do dia a dia e as demandas do trabalho, quase impossibilitam. Além de ser ainda um bom exercício de vaidade, pois Lúcia se acha bela. Sente-se também, de certa forma, ungida, cidadã, na medida em que se vê como inserida no mercado de consumo, por guardar uma verdadeira coleção de marcas e nomes consagrados no mercado. Pensando bem, são muitos os seus conhecidos, ou colegas que não teriam as condições de manter um arsenal químico como os seu. Sente-se aliviada, e mesmo, privilegiada.


Após o ritual, que é repetido diariamente, de segunda a segunda, sempre ali no mesmo horário, no mesmo quarto, vai então, até a cozinha, fazer um breve lanche. Lúcia gosta de se vangloriar de comer pouco, não é quem se possa chamar de gulosa, muito antes pelo contrário, é bastante comedida em seus hábitos alimentares. Há anos mantém uma dieta bem equilibrada, evitando massas, gorduras e refrigerantes. Sempre acreditou que dessa maneira, pudesse manter a forma, e ganhar um tempinho a mais na linha da vida. À noite, quase não come, além deste pequeno lanche após o banho. Às vezes, toma um suco, um copo de leite ou achocolatado, torradas, biscoitos, pães e broas, quanto aos doces, apenas em raras ocasiões, dá-se ao prazer de degustá-los. Em raros momentos se excede no pecado capital da gula, o que normalmente ocorre, quando vai a festas de finais de ano, aniversários, na casa de amigos, ou em qualquer outra comemoração ou evento, em que não precise pagar. Não que seu salário não lhe permita manter uma alimentação saudável e satisfatória, mas sente-se orgulhosa por aproveitar bem as oportunidades de ocasião. E acredita que isto não afeta a qualidade se seu regime, por que não é lá dessas pessoas muito sociáveis, que possuem uma longa lista de amigos, para fazer dela uma freqüentadora assídua de festas, bares ou restaurantes. Os contatos sociais, fora do ambiente de trabalho, nos últimos anos, vêm se limitando mais a alguns amigos virtuais, conhecidos em sites de relacionamento, ou em salas de bate-papo, onde Lúcia perde às vezes, inúmeras horas de seu dia, principalmente às noites, nos finais de semana e feriados. É praticamente um vício. A impressão que se tem é que tanto o banho, quanto a massagem com os cremes, ou o lanche são sempre um pouco, inconscientemente acelerados, para que no final das contas, possa usufruir um tempo cada vez maior diante da tela de seu computador. Come apressadamente seus biscoitos, lava uma maçã, que não tem que necessariamente ser toda ingerida na cozinha, pode acompanhá-la pelo apartamento, e dá a última golada em seu suco, como se tempo não mais tivesse para esperar. Levanta-se de uma vez, e vai até o quarto, onde fica o PC.


Liga as tomadas, que ficam todas desplugadas em sua ausência, arranja os fios, ajeita o tapetinho do mouse, sopra um restinho de poeira por sobre o teclado, resíduos de um biscoitinho de queijo, que não resistiu em comer, na noite de ontem, coisa que normalmente não faz, pois teme danificar o equipamento, mas na noite passada não teve como evitar, pois a conversa calorosa que travou com seu namorado virtual, que diz viver na Europa, fez com que sonhos e fantasias, despertassem uma ansiedade tal, que não tinha como contê-la não fosse umas rosquinhas e uns biscoitinhos de queijo, que comprou no mercado ao lado da empresa em que trabalha, onde passa de vez em quando para comprar pães integrais ou alimentos dietéticos. Às vezes, ela própria, tão cuidadosa com seu patrimônio material, fica sem entender como pode cometer tamanho pecado ou delito. Afinal, sabe que farelos caídos por entre as teclas podem em última instância, comprometer o bom funcionamento de sua máquina. Mas a conversa ´caliente` que a absorvia, ao mesmo tempo, que despertava uma necessidade fisiológica qualquer, que acabava por descarregar no ato de comer, não permita que tirasse seus olhos vidrados, da tela do monitor de última geração que acabou de adquir. É aqui onde passa quase a totalidade de seu tempo, quando está em casa. Diante da tela. E é justamente, dentro de casa onde passa a maior parte de seu tempo, quando não está no trabalho. Nota-se que fora o trabalho, e a noite de sono, as horas gastas no computador são as que mais ocupam sua vida. Isso já há alguns anos.


Todos os dias é praticamente a mesma coisa. Aperta o botão, e ao captar o som da máquina ligada, tem a sensação de estar dando os primeiros passos para penetrar em outra dimensão, arranja a postura do corpo, como se estivesse prestes a realizar uma longínqua viagem, prepara-se, seus olhos fixam-se prontamente na tela, quando esta se ilumina. Lúcia não mais se atreve a virar para os lados. Está inerte, à abertura enfim, de sua esperada navegação pela internet. Os olhos de Lucia adquirem certo fascínio, estão brilhantes, estatelados. A luz excessiva do monitor de tela grande deixa seu rosto pálido, e os ligeiros sulcos em sua face, salientados. Mas é o momento esperado, enfim, quando poderá finalmente navegar, acariciar o pequeno mouse, bater ansiosamente seus dedos sobre o teclado, cujas letras, já começam a se apagar, o que não importa, pois seus pequenos dedos, como pequenos cérebros, memorizaram, quase sem chance de errar, a posição exata de cada letra, número, sinal, cada acento ou ponto. Locomovem-se sobre as teclas, como se fossem estas, sua antiga morada. Caminham por sobre elas, com uma desenvoltura e velocidade, que chega a impressionar. Inicia então a rotina diária, o seu plano de vôo, a sua rota de navegação traçada. Verifica sua caixa de correio, onde a maioria absoluta da correspondência é de anônimos, scraps, ou textos de auto-ajuda, de teor religioso, recheado de belas imagens, com fundo musical, feitos em Power Point. Sempre os recebe, mas dificilmente os lê até o final, mas os repassa imediatamente assim mesmo, para a maioria dos contatos de sua lista de emails. É sempre assim.


Aqui, pode-se mesmo afirmar que Lúcia perde a noção do tempo, como raramente acontece ao longo de seus dias, seja quando está no trabalho, ou dedicando-se a qualquer outra atividade fora do mundo virtual. Às vezes, se distrai a ponto de passar alguns minutos do horário que habitualmente faz questão de desligar a máquina para dirigir-se à cama. Neste aspecto, é disciplinada, pois não tolera a idéia, seja lá por que motivo for, de ver-se obrigada a reduzir o tempo de sono diário, que considera lhe ser de direito. Sabe, pela experiência dos já muitos anos que carrega às costas, que pouco tempo que subtraia ao seu sono, irá lhe trazer grandes prejuízos no dia seguinte, como uma dor de cabeça, que lhe traz uma baita mal humor, um raciocínio provavelmente um pouco mais lento, alguns esquecimentos, que considera insuportáveis, e por fim, uma sensação de mal estar, da qual sabe que poderá se safar, apenas no dia seguinte. Apesar de ficar por horas, em suas peregrinações pelas vias telemáticas, pelas páginas e links sem fim, faz questão de ser pontual, como se um último gesto de disciplina do dia, ao deitar-se e apagar as luzes do apartamento. Geralmente, nem minuto a mais, nem minuto a menos, às onze horas da noite.


Sentada diante da tela, Lúcia, vive uma contradição de sensações. Enquanto sente-se rodeada de informações e contatos, pois faz questão de se interagir com blogueiros, participar das grandes correntes de e-mails, trocar mensagens de auto-ajuda, militar em diversas comunidades de sites de relacionamentos, sente-se também, no casulo, no claustro do quarto, uma solidão arrebatadora, da qual tem a forte impressão de que não poderá se livrar, e de ser prisioneira de si mesma. Estranha sensação. Como se a vida, outro destino não tivesse que lhe apresentar. Mas evita perder-se neste tipo de pensamento, pois sabe bem o desconforto que ele lhe causa, além de lhe tomar o pouco tempo que tem para fazer o que acredita ter de ser feito todas as noites, diariamente, metodicamente, em seus poucos momentos de folga.


Lúcia recorda-se de quando se iniciou por esta saga pela internet. A princípio, gostava de coletar informações, saber dos próximos capítulos da novela, que sequer assiste, inteirar-se das fofocas dos ídolos, uma receita de bolo, a temperatura, a previsão do tempo, imagens dos lugares que pretende conhecer um dia, e daqueles que sabe que jamais conhecerá, fazer amizades, comunicar-se com os que do outro lado do mundo se encontram, em tempo real. Era o mundo a lhe abrir as portas. Mas com o tempo, os gostos e preferências de nossa personagem foram se alterando. Lúcia passava a descobrir alguns novos macetes que o uso diário das ferramentas passava a lhe proporcionar, foi adquirindo algumas habilidades, e a cada dia, novas e intrigantes descobertas. Novas idéias. Se estava mesmo sozinha em casa, e não havendo quem pudesse testemunhar a façanha, por que não poderia então, finalmente, fantasiar, fazer-se passar por quem nunca foi ou haveria de ser? Por que não falsear? Emitir opiniões, que além das suas próprias, outras muitas que nunca talvez tenha pensado, outras tantas que apesar de imaginar, nunca lhe passou pela cabeça divulgar? Por que não aproveitar então, a ocasião, vasculhar vidas alheias, devassar privacidades? Sim. Lúcia sentia-se vaidosa e dona de algum poder. Poderia, pois, conhecer de perto alguns universos pessoais, observar sem ser observado, como se de uma entidade superior se tratasse, podendo acompanhar os passos dos homens, quem os acompanha, por onde passam e o que fazem pelo caminho. E mais. Deixou de lhe bastar, com o tempo, a simples vigília, o rastreamento. A novidade e o exercício do poder tornaram-na ambiciosa. Queria testar sua criatividade e suas habilidades, alterando agora, as vidas, as realidades e contextos, dos outros.


Assim Lúcia o fez. Criou perfis e identidades falsos. Adulterou, burlou, corrompeu, aplicou pequenos golpes, tentou decifrar senhas. Copiou aqui, colou acolá. Potencializou como nunca, sua ação criadora. Sentia-se poderosa, e achava graça em poder manipular os homens, à distância, e em algumas ocasiões, e em certas medidas, alterar-lhe o destino. Afinal, pôde, invisivelmente, criar atritos entre casais, alguns novos, outros nem tão novos assim, vizinhos, parentes, conhecidos e desconhecidos, alguns embaraços no trabalho daquele cobiçado namorado da vizinha do apartamento ao lado, alguns desentendimentos entre familiares, que sempre se deram tão bem. Resolveu alterar a ordem e o aparente rumo natural das coisas. Estava vaidosa. O mundo cujas portas lhe abriam, parecia agora, entregar-lhe algumas chaves, desvendar-lhe alguns mistérios, e por fim, pousar-lhe sobre as mãos. Mas como em todas as noites, apressava-se ao se aproximar às onze horas. Era o fim do dia. Antes de desligar o computador, enfiava os dedos por entre as pernas e masturbava-se num gemido silencioso. Depois se levantava, ia até a cozinha, abria a porta do armário, e freneticamente, levava um comprimido à boca. Não se passavam quinze minutos, antes que começasse a dormir, até o dia seguinte, às seis.



Marcos Vinícius.

sábado, 6 de junho de 2009

Amor digital




Amor digital


Fazia três meses que se conheciam. Mais um destes relacionamentos modernos, resultado da procura por príncipes encantados e princesas dos sonhos infantis, que ainda perturbam a mente dos jovens e velhos, pelos bilhões de sites, agências de encontros, namoros, que se encontram tão fartamente no mundo virtual. Afinal, não eram os primeiros contatos que um ou outro faziam; na verdade, já haviam tido a oportunidade de trocarem e-mails com vários outros pretendentes, mas nada como agora, entre os dois. Os contatos anteriores pareciam frágeis, insignificantes, ante as novas impressões que são agora trocadas. As listas de contatos de um e de outro, caíram no esquecimento. Um tornou-se a lista do outro. Aqueles versos trocados, milhares de rimas de amor, imagens e fundos musicais edificantes, com os contatos anteriores, pertenciam já ao passado. E embrenharam-se, agora, em uma incessante troca de palavras, olhares e afagos digitais, praticamente diários. O círculo se fechou. O fluxo de mensagem entre as caixas de correio é cada vez mais freqüente. São muito eficazes os novos filtros de busca utilizados pelas grandes empresas, e neste caso, parecem ter realmente acertado. Os perfis pareciam feitos um para o outro. Na medida em que trocavam suas confidências diárias, suas imagens, não imaginavam mais a possibilidade de separarem-se, mesmo separados estando. Nunca talvez, os dados tenham se cruzado com tanta perfeição. O serviço parecia ter oferecido o impossível, acreditavam terem encontrado, enfim, suas almas gêmeas, seus pares perfeitos. Estavam admirados, encantados, em estado de graça, pelo novo achado, pela descoberta. Como não havia aparecido um para o outro há mais tempo? Por que o tempo fez-lhes tanto esperar? Com intervalos menores do que se possa imaginar, consultam não apenas suas caixas de correio eletrônico, mas seus perfis em comunidades diversas, e literalmente vasculham, rastreiam a vida um do outro. Sabem de cor os nomes de todos os amigos, dos amigos dos amigos, que também compartilham, participam dos mesmos grupos, e dos mesmos tópicos de discussão, um a reafirmar o outro, a abrir-lhe o caminho ou aparar a retaguarda. Era uma aventura nova e curiosa, para ambos. Ouviam músicas juntos, discutiam-nas, liam artigos, crônicas, assistiam a vídeos, se interagiam da forma como ainda não testemunharam os tempos e a história. Mensagens de textos, arquivos, figuras, beijos, torpedos, paraísos, num ir e vir estonteante, que acabou por entorpecer aos dois. Entregaram-se. São cúmplices, enfim. Era noite de sábado, ela um copo de vinho, ele uma garrafa de cerveja. Conectam-se. Ela está ansiosa, ele afoito. Acertam-se diante o teclado. Ela apaga a luz. Vêem-se pela tela escura. Ele geme seu nome. Ela se faz obscena. Gozam os dois, entre léguas intransponíveis e sem se conhecerem de fato.



Marcos Vinícius.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O Vôo


O Vôo



Rapidamente adormeceu. Nesta noite, não precisou rolar muito na cama para que o sono lhe dominasse. Encostou a cabeça no travesseiro, deu um longo suspiro, teve ainda algumas vagas e breves lembranças de partes do dia que acabara de viver, abaixou definitivamente as pálpebras, e mergulhou em um sono profundo. Parecia cansado. E dormia tão profundamente, como quem descansava não de um dia apenas, mas de uma vida inteira. O silêncio e a escuridão do quarto protegiam seus sonhos, e nem o ruído distante do relógio da cozinha ou o fraco feixe de luz que por sob a porta passava, poderiam quebrar a sensação, que ali o tempo parara. Naquela noite, dormia sozinho, ninguém que pudesse testemunhar, o quão tranqüilo estava, praticamente não se mexia, as marcas do rosto, que o tempo havia deixado, aparentavam descontração, e os olhos, totalmente fechados, pareciam encontrar o repouso absoluto. As palmas das mãos, descobertas, abertas para o alto, como que a clamar aos céus, ao infinito. A boca fechada, emudecida, aparentemente condenada a um silêncio eterno. De fato, era um sono profundo.


De forma surpreendente, como a ciência ainda não ousou explicar, aquele homem ali deitado, iniciava um longo sobrevôo por sobre o mundo e o tempo. Percorreu em frações de minuto, tempos que foram eternidades. Sentiu a dores de quando veio ao mundo, viveu a sensação de umedecer-se com as lágrimas que primeiro chorou, percorreu os parques da infância, os brinquedos, as gangorras, e as rodas-gigantes. Aprendeu, de uma só vez, as milhares de lições, que lhe foram ensinadas. Adentrou-se pelas fórmulas matemáticas que foi obrigado a decorar. Beijou o primeiro dos beijos, desnudou-se, desfilou por inúmeros corpos, conhecidos e pelos que nunca havia visto ou tocado, sentiu prazer, explodiu-se em orgasmos. Ouviu cânticos. Entoou antigas preces, reviveu velhos pecados. Deleitou-se. Percorreu os caminhos por onde havia passado, as estradas, os campos, as praias, as águas, vagou por sobre o deserto da alma, gemeu pelas dores da carne. Ah... Sobrevoou o mar, quão extenso é o mar. Os montes, os picos, a neblina, os campos abertos, o mato fechado. Sobrevoou as cidades, atravessou oceanos e continentes. Aqueceu-se por aproximar-se excessivamente do sol, tremeu pela proximidade das geleiras.


Bisbilhotou a intimidade dos homens, por sob os milhões de telhados, visitou as moradas dos deuses. Derramou-se pelo sangue, que escorrera das guerras, atirou-se por sobre as culturas, os povos, como a chuva, que traz o alimento, e como os projéteis que levam a morte. Acompanhou a luz, com a velocidade que lhe é própria, a clarear o universo. Incorporou-se em música, adentrou-se pelas nuances da poesia, fez-se imensidão e partícula, percorreu as galáxias, as moléculas e os átomos. Adentrou-se pelo espírito da história. Voava alto, atingia o cume dos céus, depois deixava-se cair, plainando o espaço, e o mundo tornava-se grande, tornava-se pequeno.


Inesperadamente acordou. De súbito. Os olhos se abriram. Tentou levantar as mãos, mas estas não lhe obedeciam. Os olhos, apesar de abrirem-se, pareciam presos às órbitas, e pouco podiam enxergar. Sentia o corpo frio, as pernas geladas. O corpo inteiro não respondia aos comandos e se enrijecia. Uma lágrima salgada escorria pelo rosto e molhava os lábios ressecados. Faltavam-lhe os movimentos, a respiração vinha a parar. Uma sensação diferente porém, lhe percorria os ombros e ele, finalmente, sorria, silenciosamente, timidamente. Das costas, onde a princípio, manifestava-se um ligeiro formigamento, num estalo, rompem-se duas asas enormes, que desvencilham-se da cama, e esticam-se como a testar o vigor e a elasticidade. O corpo se aquece, os músculos se soltam e os pulmões se enchem de ar. As asas se aprumam, e como num passe de mágica, a janela do quarto se abre, e aí então, novamente, se põe a voar.

Marcos Vinícius.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

O fim ao princípio.


O fim ao princípio.


Ele estava deitado sobre um vasto colchão de nuvens, e apesar do tamanho gigantesco, enorme, e com todo o peso que seria de se supor, ainda assim, parecia ser mais leve que elas, e elas, por sua vez, pareciam acomodá-lo, proporcionando o conforto, como talvez melhor não lhe pudessem oferecer. Naquele momento, onde o tempo fora o que hoje não podemos conceber, havia um grande silêncio, uma longa escuridão, nada, no entanto, que o impedisse, de a tudo enxergar. E seus olhos, um pouco ainda inchados, de um tempo sem noites ou dias, tardes ou manhãs, vagavam pelo infinito e por sobre a face sem rosto das águas. Parecia abatido, como estas fortalezas de pedras, palácios de bronzes, que a eternidade insiste em corroer. Além dos músculos fortes, dos braços compridos e das longas mãos, que parecia a tudo poder criar ou destruir, havia um indisfarçável sinal de esmorecimento. O grande corpo parecia não estar disposto a se levantar. Os olhos pareciam contemplar, liricamente, o nada, e um rubor nas faces duras, revelavam um profundo estado febril. Os olhos procuravam ainda, um porto, um ponto, onde pudessem repousar, ante as águas profundas e infindas, que estava a contemplar. Com certo esforço, sem resignação, repousou os braços sobre o peito, e suspirou longamente. Parecia tomado de um cansaço, como ainda não havia experimentado. Revelava a imagem de um guerreiro robusto, alimentado pelas inúmeras vitórias, mas com o semblante de quem não mais tem o que conquistar, como se vãs tivessem sido as lutas, como se inúteis houvessem sido todas as duras batalhas. Os olhos esforçam-se para manterem-se abertos, e uma tosse seca, um ligeiro tremor, parecem ameaçar como nunca, sua imortalidade. A febre parece aumentar. Os olhos embaçam. Um suor frio, escorre pelas nucas divinas. Os espírito do mundo, parece querer se soltar.


Mira as águas, mira as trevas. Uma luz no olhar parece revigorar-lhe. Levanta um braço, que estava a pender sobre o abismo, e num movimento único, como um gesto que se faz derradeiro, estala os dedos. Um grande clarão rompe os céus, como se estivesse a parti-lo. A luz excessiva reflete em seus olhos, que parecem faiscar. Num estado de quase entorpecimento, mas com o olhar encantado, admira-se com o que estava a criar. Diante de si, o que nunca havia visto ou imaginado. Inquietava-se, e o suor lhe encharcava os cabelos. Mas parecia feliz. Num ímpeto, criou quase tudo que há. Divertia-se com o que estava a fazer, sorrindo, aliviando as dores e o mal que lhe atormentavam. Fez pois, o que viria a se chamar de luz, os dias, as noites, o céu, o sol, a lua, as estrelas, fez a terra e os mares, e divertia-se mais ainda, às roucas gargalhadas, que vibravam pelos fios do tempo, com a diversidade de tipos e formas, que trazia à vida. A terra, cobria-a de cores, muito verde, todas as cores que possam existir, fez árvores, de todas espécies, frutos de todos os sabores, os que fossem possíveis, e os impossíveis também, plantas, flores, de todas as formas que a matemática da vida permitia, ainda abrindo exceções.Apenas não lhes deu os nomes. Estes viriam depois. Cobriu-se a terra de vida. Todos os seres, os do ar, do mar, da terra, os insetos, as aves, os peixes, os anfíbios, os répteis, os mamíferos. Desde as espécies que viveriam por milhares de anos, aos microorganismos, cujo ciclo de vida, gira em torno de apenas trinta minutos. Assim se fez.


Observava atentamente a obra, já quase concluída, e sentia-se levemente reconfortado. Trazia um sorriso agarrado ao canto da boca, e achava-se surpreso, com o que acabara de realizar. Surpreendeu-se com a obra em si, e consigo mesmo, por descobrir o quanto era genioso e inventivo. Sentia-se vaidoso. Repentinamente, uma dor súbita, percorre todo o seu corpo, da cabeça aos pés. Sente calafrios, e a febre parece aumentar. A tosse está para lhe estourar os pulmões. Afunda-se um pouco mais nas nuvens, que suavemente o embalam. Emite um fraco suspiro. Tem a forte impressão que o tempo que acabara de criar, vem lhe escapar pelas mãos. Vê um trovão cortar o céu, e lamenta por não poder agarrá-lo, está sem forças para tanto. Observa mais uma vez, sua mais recente criação. Enfia a mão pelo barro, e com a visão já um pouco às cegas, como se a obra não estivesse completa, e como se muito, não mais pudesse fazer, manipula o torrão, como se uma forma nova, quisesse lhe dar. Uma dor aguda e profunda atravessa-lhe o peito. Um mal estar incontrolável. Os membros não lhe respondem. Um último suspiro, que em sopro se transforma, faz levantar do pó da terra, uma outra criatura. Nasce o homem, mas Ele, já estaria morto.



Marcos Vinícius.

sábado, 9 de maio de 2009

A breve história dos ladrões pequenos







A breve história dos ladrões pequenos


Ana, como diariamente o fazia, normalmente no horário de almoço, excetuando em seus breves finais de semana, chegava ao ponto de ônibus, que a levaria para mais um turno de trabalho, na periferia da cidade. Era pontual. Sempre o mesmo horário e os mesmos passos rápidos. Vinha com a sensação de missão cumprida, por ter encerrado um dia de trabalho em uma empresa, ao término da manhã, mas já sentia-se ansiosa por um outro turno que ainda estava por iniciar. Na verdade, tinha quase os passos contados, cronometrados, e o ônibus, em que viajava, que a levava de um trabalho para outro, dificilmente se atrasava. Sabia, portanto, o tempo exato, em que ali deveria aguardar, parada. Aquele ponto, sempre lhe causava certa apreensão, o que é justificável, por ser sempre mais vazio, deserto, e à beira de uma rodovia, ainda que sob a luz de quase meio-dia. Locais onde normalmente os gatunos e ladrões tem mais facilidade de ação, dadas as vantagens de fuga, principalmente, diante de vítimas mais frágeis, como pessoas à pé, em pontos de ônibus, mulheres e velhos. Mas ali chegava, mais um dia, à espera do embarque.

A apreensão inicial acabou por se dispersar, quando encontra no ponto do ônibus, também a espera, uma jovem e um senhor, já com idade bem avançada, nitidamente perceptíveis, não só pelos sulcos profundos no rosto, as teias de rugas, os labirintos de pele ressecada, a flacidez das mãos, mas um olhar cansado, meio esgotado, de quem não mais alimenta ilusões. A jovem, sentada ao lado, também aparenta ter mais idade do que de fato tem. Senta-se um pouco curvada, como se parte grande do mundo, pesasse sobre seu ombro. Sua atenção é fixa, parece não perceber a chegada de Ana. Tem os olhos pregados ao chão. Os cabelos estão mal arrumados, está sem maquiagem, sem cosméticos ou perfumes, e parece, estar também a trabalho. As mãos, com as unhas por fazer, seguram firmemente uma bolsa emborrachada, que trás atravessada ao pescoço.

Ana mantém-se de pé. O velho tosse. A jovem parece despertar de um transe profundo. Faltam ainda alguns minutos para o próximo ônibus passar. Ana dá uns passos à frente. Silenciosamente, olham-se, um ao outro, os três a olhar-se, mutuamente. Sem palavras ou gestos. Um quê de desconfiança, pois de estranhos e desconhecidos se trata, um quê de cumplicidade, dadas as condições em comum em que se encontram, o ponto, a espera, e a solidão. Em seguida, movem-se os três, ao mesmo tempo, como se combinado. Ana aperta a pasta ao peito, a jovem, com as mãos de quem carrega urgência, abraça a bolsa sobre o colo, e o velho pigarreia e parece resmungar. Como demora este ônibus, diz a jovem.

Subitamente, quase do nada, surgem dois homens na estrada. Com passos apressados, se aproximam também do ponto. As pernas do velho, parecem revelar um susto, que o resto do corpo, não fez por demonstrar, movem-se rapidamente, como se neste preciso momento, não precisasse do comando de seu dono e senhor, como se misteriosamente, se movimentassem por conta própria. Talvez, num corpo mais jovem, se pusesse a levantar ou a correr. Ana, que já quase se descontraia, repentinamente, retesa o corpo, as mãos parecem enrijecer. A jovem olha para os dois, com olhar de perplexidade, e ao mesmo tempo, de desafio. Agarra-se à bolsa.

Entre tremores e suores, se anuncia o assalto. Olha aí, se não passar o que levam aí de valor, dinheiro, principalmente dinheiro, morre. Ta escutando? Morre, diz o mais novo. Vamos, sem moleza, passa logo a grana. Se não, vou ter que esquentar o cano. Passa logo, grita. A jovem, contrariada, agarra-se a bolsa, ainda uma vez, antes de entregá-la. Ana parece suar por todos os poros, empalidece. Os olhos do velho se embaçam, e as mãos parecem não encontrar os caminhos do bolso, onde levava a carteira. Treme. Os homens desistem dele, não se sabe se por compaixão, ou pela quase certeza que pouco lucrariam com o velho de calças puídas e sandálias gastas, com os pés quase ao chão. Talvez não valesse a pena. Levam apenas as bolsas das duas mulheres. Uma emudece, estarrecida. A outra está por explodir.

Os bandidos, após a bem sucedida operação, atravessam a rodovia, e dirigem-se para o pequeno bairro em frente, como se não estivessem a fugir, mas indo para casa. Como de fato, estavam. Talvez mesmo em função da crise que não perdoa a ninguém, tenham preferido os ladrões assaltarem nas proximidades de casa, por uma questão de economia, ou mesmo, de comodidade. A jovem, ainda inconformada com tudo aquilo, e observando os homens à distância, num ímpeto, desabafa, Sei lidar com vagabundo, não serão estes a me dobrar, ah, não, diz com fúria. Levanta-se como se partisse para a guerra. O coração palpita forte e o sangue corre veloz pelas veias. As faces coram. Os olhos parecem apontar uma única direção, meio vidrados, meio às cegas. O passo é uma marcha, firme, duro, determinado. Estes não me escapam, diz afirmativa. Estes não me escapam.

Em poucos minutos, pergunta pra um, pergunta pra outro, e acaba por chegar à morada dos ladrões. Aciona, nem se sabe como, a ronda policial, e rapidamente, como se dotada de poderes, que talvez nunca tenha imaginado possuir, e numa velocidade espantosa, faz cerco aos bandidos. O assalto, para eles, resultou-se vexatório. As bolsas foram encontradas por sobre o telhado, e os bandidos, escondidos, no guarda-roupa, protagonizam um triste espetáculo na vizinhança. Normalmente, estes flagrantes, despertam a curiosidade de todos, que querem saber, como foi, onde foi, o que ocorreu, quais os envolvidos, enfim, todos se amontoam para assistir o espetáculo da prisão dos vizinhos encurralados. Casais, crianças, até os gatos e cães, se aglomeram de frente a casa, para saber quem de lá vai sair, e como sairá. Todos de olhos esbugalhados, curiosos, atentos, para assistir, sem perder um lance sequer, do que está a ocorrer. Qual será o desfecho? Adolescentes roem as unhas. Uma mulher chora. Os curiosos que beiravam a cena, só não viraram multidão, pois a ação da polícia foi rápida, uma vez, que provavelmente, não se tratava, digamos, de ladrões profissionais. Não houve resistência. Os bandidos saem algemados, cabisbaixos, e qual não é a surpresa dos espectadores, ao confirmarem o que já se suspeitava. Muitos não imaginavam que o vizinho próximo, homem trabalhador, em seu dia de folga, chegasse a tanto.

Os homens são arrastados por uma forte escolta policial. Todos observam imóveis, serem, os dois, atirados às grades; acompanham passo por passo, gesto por gesto, lance por lance, até os carros, com suas luzes e sirenes, darem a partida. Por fim, voltam, pois as costas, e passam a narrar histórias, versões, todos ali terão alguma para contar. Como pode, quem imaginava, eu já sabia, há quem conheça toda a família e também, os caprichos e os credores. A pequena multidão, eufórica, aos poucos se desfaz. Encerrado o caso, finalmente, Ana e a jovem entreolham-se, e trocam as primeiras palavras. Foi Deus, diz Ana. Foi - responde secamente a jovem. Mas o final que não há que negar, é que estes infelizes conhecerão, onde estiverem, o inferno, dos homens, do qual não poderão escapar.


Marcos Vinícius.