segunda-feira, 30 de março de 2009

A raposa e as galinhas


A raposa e as galinhas.


Já há muito tempo viviam naquele galinheiro. Na verdade, o sonho de seu proprietário, era formar uma grande granja, mas as dívidas que acabou contraindo nos bancos, fizeram com que forçosamente tivesse que optar por um investimento mais modesto. E ali viviam as quatro, praticamente isoladas naquele fundo de quintal, mas recebiam diariamente sua ração de milho, pela qual deveriam retribuir, regularmente, em forma de ovos. Assim viviam, ciscando o chão, bicando as paredes, talvez por alguma carência alimentar, alguma deficiência nutritiva, a falta de cálcio no sangue, ou sabe-se lá o que, constantemente davam umas bicadinhas das paredes laterais do galinheiro. No mais, como de praxe, dormiam cedo, e acordavam cedo também, limpavam suas penas, enchiam os papos, e ficavam a tagarelar. Quem de perto espiasse, poderia imaginar que são antigas amigas, confidentes, companheiras, apesar de aparentemente sempre desconfiadas, umas em relação às outras. A impressão que se tem, é que, olham-se sempre, mutuamente, com o chamado olhar de soslaio, sorrateiro, desconfiado. Em alguns momentos, parecem zangarem-se umas com as outras e chegam a trocar bicadas. Vivem ali, as quatro, a sós, isoladas entre caixotes de madeira, e uma tela de arame, em forma de L que se prende nos cantos do muro de concreto, sem sequer imaginar, que habitam um planeta, com uma população estimada em mais de 25 bilhões de galinhas.

Num dia qualquer, descobrem a firme intenção da raposa que vivia pela mata vizinha, em atacar-lhes pelo meio da noite. As quatro se ouriçam, e entram em uma terrível inquietude, sabiam que tinham chances de escapar, mas que para tanto, precisavam se organizar, e antes de qualquer coisa, era necessário que estivessem unidas naquele momento, pois tinham a noção exata do perigo que corriam, seja pelo brilho dos olhos daquela temível raposa, que seus olhos já tinham tido a oportunidade de cruzar, seja pelos gritos agonizantes das galinhas vizinhas, já entre os dentes de seu predador, que tiveram a infelicidade de ouvir por mais de uma vez. Pode-se dizer que mais que nunca, estavam aterrorizadas. A possibilidade de não se safarem, era terrivelmente considerada.

Passaram o dia inteiro tagarelando. Difícil saber quem tagarelava mais. Estavam visivelmente apavoradas e cada qual, a seu modo, de acordo com seu jeito próprio de conceber e ver as coisas, apresentava uma alternativa, uma receita de salvação que considerava mais apropriada para a ocasião. A galinha mais cinzenta, sugeria para as demais, que fossem todas, no final da tarde, para a parte mais alta do galinheiro, porque por ali, havia uma passagem, para um caixote por sobre o telhadinho, por onde certamente estariam mais seguras. Riscos? Sim, havia. Se o caixote cedesse ao peso, poderiam cair no quintal do vizinho, e aí sim, tornar-se-iam presas mais fáceis, e seriam certamente, devoradas. A galinha mais velha, sugeria o silêncio total quando a noite caísse, pois já era do seu conhecimento que o faro daquela raposa não era dos melhores, e que desconfiava inclusive, que ela identificasse suas vítimas pelo ruído. Acreditava que se mantivessem caladas, literalmente, de bichos fechados, ficariam, pois, protegidas. Riscos? Sim, a condição silenciosa acabaria por obrigá-las a uma posição pouco defensiva, o que em caso de ataque, poderia ser fatal. A outra, a mais franzina, sugeria que passassem a noite apertadas por sob o buraco do muro, pois ali seria de mais difícil acesso à velha raposa, mas havia o inconveniente de não conseguirem dormir, dada a posição incômoda em que teriam que pernoitar. Riscos? Sim. A noite insone, poderia deixá-las mais fragilizadas perante um ataque fulminante. A galinha de crista quebrada, sugeria avançar sobre o animal e apresentava uma estratégia ousada, heróica, onde a raposa parecia mesmo não ter vez. Riscos? Havia. Um descuido, um vôo ou bicada em falso, e transformar-se-iam em penas esvoaçantes.

As galinhas estavam todas convencidas que as alternativas que apresentavam, as suas próprias, eram as melhores, todas as outras apresentavam falhas gravíssimas, irreversíveis, diante das que acabava de formular. Cada uma delas cacarejava com mais veemência e convicção. Ao longo do dia, somavam argumentos às suas causas, que passaram a defender com paixão e fervor praticamente religioso. Cada uma acreditava piamente, que havia encontrado, finalmente, o caminho da salvação. Pulavam sobre o poleiro, tagarelavam, cacarejavam, gritavam, e quase não ouviam as alternativas, umas das outras.

A galinha, do primeiro plano, defendia a saída pelo alto, pois além de acreditar, estar livre de qualquer possibilidade de vir a falhar, via ainda, a alternativa como a possibilidade de uma vitória completa por sobre o inimigo. A saída por cima. Considerava as propostas das demais, que pouco ouvira, como entreguistas e ingênuas. Completamente inviáveis. A que pregava o silêncio, talvez inconscientemente, estivesse mesmo, a legislar em causa própria, na medida em que, sua alternativa, acreditava, era a que menos lhe exporia a riscos, dada a sua idade já avançada. Acreditava que as outras idéias, fossem por demais ousadas, egoístas e, portanto, fadadas ao fracasso. A magricela da turma, considerava muito mais sensato, ficarem as quatro, comprimidas por sob o muro, pois dali não teria como a raposa alcançá-las e que as propostas das companheiras eram irrealistas, e sem qualquer chance de êxito. A que certamente, quebrou a crista, em alguma disputa, ou rinha qualquer, defendia que o ataque ofensivo pode dobrar o inimigo, e dizia-se desonrada em saber que divide o território com companheiras covardes e derrotistas.

Arrastaram-se por horas num debate sem fim. Ali concentravam todas as suas energias, as quais não pensavam em poupar. O clima era tenso entre elas. O dia chegava ao fim, e muito distantes estavam de um consenso, um acordo. Tagarelavam, tagarelavam. As defesas cada vez mais apaixonados e os ataques cada vez mais fulminantes e mortais. As galinhas cacarejavam umas contra as outras, e se odiavam como nunca haviam feito. Nunca foram tão desunidas e loucas. Não deram por si, quando a raposa engoliu a todas.



Marcos Vinícius.

domingo, 29 de março de 2009

Efeito borboleta possível.


Efeito borboleta possível.



O passeio em uma grande locadora pode ser muito interessante, não só pela gama imensa de filmes ainda não assistidos que ela oferece, como pela oportunidade de relembrar de filmes já há muito vistos, tantos aqueles, que a muito custo e sofrimento, chegamos ao final, quanto aquelas histórias inesquecíveis, que não só indicaríamos para amigos ou desconhecidos, como estaríamos sempre prontos para assisti-los por uma segunda vez. Os filmes podem nos fascinar por uma série de motivos, seja pelo desempenho ímpar de seus atores, pelo cenário, fotografia, seja pelo enredo, pela sofisticação da produção, por emoções proporcionadas, pelo choro ou pelo riso, e por uma série de outras razões.

Revejo na prateleira o filme “Efeito Borboleta”, que assisti em uma sala de cinema cheia, quando do seu lançamento. Achei uma experiência muito interessante. Não me lembro mais dos detalhes da trama, mas o que faz deste filme, especial? Após estes anos todos, não me lembro de comentários negativos a respeito dele, ou de alguém que dissesse não ter gostado. Além de ser um filme, que praticamente, prende a atenção do início ao fim, ele praticamente nos traz uma lição, daquelas que costumamos chamar de lições de vida. Sim. Ao nos mostramos de forma enfática o óbvio. Qual seja, o quanto um detalhe pequeno da vida, um fato menor, aparentemente sem muita importância, pode mudar, fatalmente, irremediavelmente, o rumo de uma vida, ou o curso de uma grande história. O filme desperta certo sentimento de responsabilidade com nossas próprias vidas, na medida em que a todo o momento nos faz recordar, como nossos atos, além de simples ações em si, por menores que sejam, podem acarretar tão enormes e fatais desdobramentos, tantos os esperados, quanto os fatalmente imprevisíveis.

O filme é a história de um jovem, com um distúrbio grave, relacionado a memória, que adquire condições de voltar ao passado, e assim, fazer e refazer ações da sua vida, para melhorar-lhe o destino, para restaurar algo em sua vida, que sempre acreditava pudesse ser mudado. O enredo é uma sucessão de idas e vindas, onde a cada alteração, feita através da intervenção no tempo, o personagem se vê mais atolado em situações dramáticas, quando não trágicas. Em nossas vidas reais, sabemos que nem sempre, temos como voltar atrás. Talvez nisto, esteja a pertinência do filme, lembrar-nos da nossa condição tipicamente humana, tanto no sentido das nossas próprias limitações, quando no das possibilidades conquistadas ou decisivamente perdidas, que vamos somando ao longo do tempo. Diz José Saramago, em seu “A viagem do Elefante”, “Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas”.

Muitos querem nos fazer crer, que exista já um destino traçado, para cada homem, para a humanidade inteira, cujo desenrolar não tem como ser alterado pelas ações humanas, pois pela eternidade dos tempos, foi já traçado nos laboratórios dos deuses. Olhando para a história, para o tempo passado, retrospectivamente, temos a falsa impressão, de que o presente sob o qual montamos assento, foi sempre uma fatalidade, sem caminhos ou rotas alternativas, do qual não há como escapar, um fenômeno inexorável. Como se a história inteira fosse uma grande novela traçada por mãos divinas, cujo destino fosse inevitável, e aos homens nada mais coubesse, que simplesmente, arrastar-se pelo fio condutor de uma história, cujo fim já está definido, desde o início.Não creio que assim seja. Não que a vida não seja dotada de sentidos, mas que estes sentidos se vão construindo, com o que fazemos deles.

Sabemos o quão poderosas são as grandes forças da história. Para fins de ilustração, sabemos que independente do que pessoalmente fizeram os grandes inventores dos séculos XVII e XVIII, o fenômeno chamado de Revolução Industrial, ocorreria de qualquer maneira. Não fossem Cabral ou Colombo, a América certamente seria descoberta pela Europa, pela mesma época, ou quem sabe, pelas mesmas naus. Não fosse o assassinato do arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, em Saravejo, o mundo, também não se pouparia da grande carnificina que foram as grandes guerras mundiais. Mesmo que Marx não houvesse nascido, a história não se livraria da longeva luta de classes.

Há grandes fatos e fenômenos históricos, que parecem mesmo dispensar as realizações pessoais, o heroísmo de determinados personagens, a persistência de alguns sujeitos. Mas isto é uma meia verdade. Para além das forças da história, que são de fato, poderosas, justamente por serem fruto das opções humanas, para além das forças do destino, traçado por deuses, que parecem desconhecer o perdão, a responsabilidade do indivíduo sobre sua própria vida e sobre a história do mundo é de fato, muito grande. Um passo em falso, o caminhar lento pela avenida apressada, pode ser fatal. Sem nos esquecermos, ainda, que os homens constroem seus mitos, de acordo com suas escolhas ou crenças, pois somos nós, quem no fim das contas, os elegemos. Para que possamos refletir neles e eles em nós. Somos o reflexo do espelho que construímos com nossas próprias mãos e desejos. As nossas opções ou escolhas, quer acreditemos nisto ou não, certamente deixarão nossas vidas, o mundo e a história, melhores ou piores. Podemos sim, alterar o destino, o efeito borboleta possível.



Marcos Vinícius.

terça-feira, 17 de março de 2009

Descoberta da feiúra


Descoberta da feiúra


No fundo, no fundo, nunca pensei que pudessem ser feias as mulheres. Pelos motivos óbvios que já todos conhecem. Desde o início dos tempos, sejam os nossos, sejam os do mundo, a imagem feminina sempre esteve associada ao mito da beleza, da criação da espécie, a fonte primordial da vida. Seja pelos mitos, seja pelo prazer que podem proporcionar, as mulheres sempre inspiraram as mais belas canções, os mais admirados retratos, e os mais líricos dos poemas. Tem sido assim. A presença feminina esteve sempre associada a algum tipo de encantamento, é o que se ouve sempre, nas mais variadas línguas, nos mais diferentes tempos ou lugares.

Os homens muitas vezes, pretendem lhes roubar o que se tornou de direito. Ao estudarmos, por exemplo, a evolução humana, embalarmos o berço da espécie, encontraremos nomes que parecem querer deixar de lado, elas. Homo erectus, Homem de Neandertal, Homem de Cro – magno, Homo habilis, sapiens, e por aí afora, como se fosse a grande forra, como se a história humana só de homens tratasse. Onde a própria espécie, tornou-se, subjetivamente masculina, ao ser denomina de humanidade -, e não outro nome qualquer que lembrasse mais a elas que a nós. As palavras são poderosas, e não conseguimos dimensionar a força que podem adquirir ao longo do tempo, principalmente quando eternamente repetidas. Mas como algumas naturalidades, não têm como serem encobertas, a beleza mágica que trazem as mulheres ao longo do tempo, acabam por se afirmar no inconsciente coletivo, seja através das evidências religiosas, científicas, ou por uma paixão avassaladora qualquer que pode se revelar ao se cruzar uma esquina.

Um dos nomes divinos que sempre me trouxe encantamento foi Paccha Mamma, Mãe Terra, deusa da América pré-colombiana, que encarna o ideal feminino como força criadora. Osíris, no Antigo Egito, não atingiria a eternidade, ou até mesmo a fartura anual das colheitas, não fosse pelas mãos mágicas de sua esposa-irmã Ísis. A sombra da beleza das deusas antigas, e praticamente mortas, permanece vivíssima em nossas elucubrações poéticas, em nosso imaginário. Não ouvi quem dissesse que Eva fosse feia, e nem acredito que Adão, fosse de fato, definitivamente, resistir aos seus encantos. Assim é. Ademais, apesar de todas as grandes descobertas científicas, dos inúmeros fósseis que foram encontrados ao longo dos séculos, são ainda, as ancestrais femininas, as mais populares e representativas das origens da nossa espécie. Seja Lucy, a fêmea australopitecínea, considerada a grande mãe de todos nós, africana, seja Luzia, uma das mais antigas representantes humanas, cá das Américas. Talvez os homens se enganem ao acreditarem que Deus, fez a nós, sua imagem e semelhança. Acredito mesmo, que muitos impérios, tenham sido conquistados, territórios anexados, exércitos inteiros destroçados, para que o rei poderoso pudesse tornar-se, no máximo, atraente, aos olhos da amada. Talvez possa o desejo ter sido o grande motor da história.

Dados estes e tantos motivos é que nunca acreditei que pudesse achar feias as mulheres, claro está que algumas podem ser mais belas e atraentes, em função de todo tipo de sortes que pela vida se vai encontrar, mas feias, de todo feias, nunca acreditei que pudessem, no fundo, no fundo, serem. Seja pelos atributos naturais, seja pelo imaginário milenar, que levamos guardados em nós, são fundamentalmente, belas. Recentemente, porém, descobri, uma fórmula perversa, pela qual pode deixar uma mulher, e assim ainda podemos dizer, completamente desprovida de qualquer beleza. Uma mistura heterogênea de vaidades pessoais, disputas por poder, cargos ou influência, que fazem com que toda a beleza historicamente construída, torne-se um grande borrão, como imaginava, que apenas aos homens pudesse ocorrer. Ledo engano. Um sistema complexo, envolvendo intrigas, trapaças, difamações, inescrupulosidades, faz com que uma feiúra pálida, amorfa, exale do ventre de rugas precoces, tristemente femininas. Descobri, então, o quanto pode ser feia uma mulher.



Marcos Vinícius.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Muro Dona Marta - o nosso muro da vergonha.




Muro Dona Marta – o nosso muro da vergonha.


Já há milhares de anos, que os homens se põem a levantar muros e muralhas. Os muros foram criados ainda nos mais remotos tempos como forma de garantir a propriedade privada, expandir impérios e separar os povos. Ao longo da História, incontáveis deles foram construídos. Muitos ainda guardam a memória dos tempos idos, através de suas ruínas ou partes inteiras, dada a grandiosidade de suas dimensões, muitos foram completamente derrubados, e não deixaram para a posteridade, quaisquer vestígios, muitos outros, ainda estão a atormentar populações inteiras, outros tantos, se planejam construir pelo mundo afora, ilustrando, como a intolerância e a arrogância do poder, são manifestações que se perpetuam no tempo, e são, às vezes, mais duras e resistentes que as próprias pedras, com que são construídas as maiores muralhas.

A mãe de todas as muralhas, a muralha da China, cortou o território da Ásia, entre desertos e montanhas, por aproximadamente 6500 km. Nos pontos mais altos, chega a medir 16,5metros e serviu como fronteira do Antigo Império Chinês por mais de mil anos, consumindo o trabalho de cerca de um milhão de homens. Calcula-se que com o material utilizado em sua construção, daria para se construir um muro de 2 metros de altura em torno da linha do Equador. A muralha de Adriano, que protegia a fronteira norte do Império Romano com a Escócia, concluída no ano 126, construída de pedra e turfa, tinha 118 km de extensão. Possuía cerca de 4 metros de altura e 2,5 metros de largura, e de tão larga, foi construída sobre ela, uma estrada, por onde percorriam as sentinelas do Império.

Em tempos mais recentes, um enorme muro, de mais ou menos 150 km de extensão e 4 metros de altura, com cercas de ferro, barreiras antiveículos, arame farpado e mais de 300 postos de vigilância, dividiram um país e uma cidade inteira, entre 1961 e 1989, o memorável Muro de Berlim, símbolo de um mundo dividido em dois. Os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia vêm sendo cercados por muros fortificados, cercas de arame, valas e barreiras por centenas de quilômetros. Em alguns pontos, chegam a medir 9 metros de altura, mais que o dobro da altura do muro de Berlim. O imperialismo norte-americano não podia ficar para trás e o governo de George W. Bush, com o respaldo do Congresso, vem construindo um muro gigantesco para separar os EUA, da América Latina, na fronteira com o México. Diversos outros muros e valas de separação distanciaram homens e povos ao longo dos tempos. Como exemplos mais recentes, poderíamos citar ainda, as barreiras físicas que tornaram incomunicáveis cipriotas, turcos e gregos, irlandeses católicos e protestantes, coreanos do norte e coreanos do sul, dentre tantos outros.

O imperador Adriano, no momento da expansão máxima de seu Império, procurava protegê-lo dos bárbaros que vinham do norte. Os imperados chineses na Antiguidade, num esforço monumental, tentavam impedir a penetração de tribos nômades da Mongólia e da Manchúria em suas fronteiras. O muro de Berlim dividiu o mundo e separou os povos, entre os que viveriam na banda ocidental da cidade, sob os ditames da economia americana, e os do lado oriental, que estariam sob o domínio da União Soviética. Os muros construídos por Israel têm como finalidade primeira encarcerar os palestinos. Na faixa de Gaza, com 40 km de extensão e 10 km de largura, vivem confinadas cerca de um milhão e meio de pessoas. O chamado muro de Bush, em construção, visa, fundamentalmente, afastar os pobres do Sul, do paraíso e das oportunidades que muitos esperam encontrar no Norte rico. Para isso servem os muros, anexar e expandir domínios, expropriar territórios, garantir a propriedade, separar os homens, humilhá-los, confiná-los, subjugá-los, ou até mesmo, eliminá-los, o que torna-se mais fácil, quando estão encurralados.

O governo do Estado do Rio de Janeiro pretende construir também o seu muro, podendo, inclusive, criar mais um símbolo nacional. O muro, já para ser construído, orçado em 980 mil reais, terá quase 650 metros de cumprimento, e terá altura bem próxima à do muro de Berlim, 3 metros. A obra será realizada para cercar uma lateral inteira do Morro Dona Marta, Botafogo. De acordo com o governo, basta cercar apenas um lado da favela, pois do outro lado, há um plano inclinado e muros de propriedades particulares. De acordo com as notas oficiais, o muro será uma forma de conter a expansão da favela e também impedir a devastação da floresta vizinha. “A proposta é de proteção ao meio ambiente. Quando não há rochas ou outros protetores naturais, a comunidade avança na mata.”, diz Ícaro Moreno, presidente da Empresa de Obras Públicas do Estado. Segundo a assessoria do governo, “estamos investindo na ordem pública, enfrentando o tráfico de drogas e as milícias, impondo limites ao crescimento desordenado. Os ecolimites vão ao encontro dessa política de investimentos sociais com ordem pública”, diz a nota. Veja a peculiaridade brasileira. Aqui os muros da exclusão e do segregacionismo são chamados de ecolimites. Não há como doirar a pílula. Apesar da denominação com viés ecológico, a intenção do governo vai muito além que, minimamente, proteger a natureza.

Os ecolimites, como afirma o próprio governo, vão ao encontro da política de investimentos sociais com ordem pública. De acordo com a propaganda oficial, o Morro Dona Marta foi a primeira favela do Rio em que a polícia conseguiu acabar com o tráfico de drogas, desde a ocupação policial ocorrida em 19 de novembro de 2008. A construção do muro faz parte das táticas de combate ao narcotráfico e também, da estratégia da guerra aos morros. Em 2004, o governo de Rosinha Mateus, manifestou a intenção de cercar a Rocinha, mas acabou recuando, após a resistência da comunidade. A meta dos governos parece ser tentar deter o crescimento destes bolsões de miséria através de uma ação policial truculenta e da construção de muralhas. É uma política de criação de guetos, inspirada em modelos estrangeiros. O atual governador do Rio, Sérgio Cabral, em entrevista recente, ao se enveredar pela polêmica discussão sobre o aborto, afirmou: “Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal. O Estado não dá conta.” De acordo com o governador, os pobres se reproduzem em proporções perigosas. É necessário contê-los. A construção do muro insere-se nesta lógica. Ademais, se observarmos atentamente os mapas e as fotos de satélite, veremos que o morro da Marta é uma mancha de pobreza em um dos principais cartões postais do Rio de Janeiro e quase uma ilha de escassez cercada por uma bela paisagem, por áreas nobres e grandes mansões.

O morro Dona Marta possui cerca de 7.500 moradores, e segundo o presidente da associação de moradores do morro, José Mário, em nenhum momento, os líderes da comunidade local foram consultados sobre a viabilidade e conveniência da construção do muro. O Brasil agora se orgulha, por ter uma das 7 maravilhas do mundo moderno, o Cristo Redentor, o que se tem que perceber, é que bem abaixo do seu gigantesco nariz de pedra, um outro símbolo nacional é forjado, o nosso muro da vergonha.


Marcos Vinícius.

domingo, 9 de novembro de 2008

Parece mentira





Se tivesse lido em algum lugar sobre o assunto, provavelmente, nem ousaria escrever sobre ele, talvez até me desse mesmo por satisfeito. Mas como não vi qualquer referência a tal coincidência, faço questão de citá-la. Quando ouvi falar pela primeira vez em Barack Obama, pensei de imediato, que esta candidatura não teria como vingar, independente de quem fosse o sujeito, pois, com um nome deste, que lembra o inimigo declarado número um dos EUA, Osama Bin Laden, o candidato não tivesse qualquer chance na disputa. Considerei que no imaginário popular, após o trauma do onze de setembro, e à condução política que se tem dado à chamada guerra ao terror, ser dono de um nome que além, de ser de origem africana, é um nome queniano, e tão parecido com o nome do terrorista saudita, fosse motivo para desqualificá-lo, de antemão, à corrida pela Casa Branca. Obama, que acabou sendo eleito, a partir de uma campanha que mobilizou e emocionou o país, tem ainda, o Hussein, que o aproxima também, nominalmente, de Saddam Hussein, que foi capturado e morto pelo governo dos EUA, após uma caçada impetuosa, que fez no Iraque todo o tipo de vítimas, de estudantes em universidades, a doentes em hospitais.

José Saramago, disse recentemente, que a era Bush inaugura também, a era da mentira. Bush fez da mentira escancarada o mote de seu desastroso e hoje, impopular, governo. Umas das principais razões da vitória de Obama, segundo analistas, são o descrédito e o repúdio popular à chamada doutrina Bush. O representante da extrema direita americana, testa de ferro da poderosa indústria de armamentos e das mega-indústrias petrolíferas, sai de cena, amargando um índice de impopularidade, praticamente inédito na história da América. Bush, e os conservadores do Partido Republicano, foram vítimas de suas próprias mentiras, uma ironia do destino. Os americanos, que elegeram e reelegeram Bush, fartaram-se de suas falácias, pois como sabemos, não se pode querer enganar a todos a todo o momento, eternamente. Bush atacou a liberdade individual tão vangloriada pelos americanos, com a sua “liberdade vigiada”, sombreando os tão propagados princípios do americanismo, o “americans life”, o liberalismo e a democracia; enfiou suas tropas num verdadeiro atoleiro militar que é o Iraque, que tem trazido mais lágrimas que vitórias aos seus concidadãos,além de ter o final de seu governo, marcado por uma das piores crises financeiras da história.

Os americanos talvez tenham descoberto que Bin Laden foi treinado e financiado durante vários anos, por agentes da CIA, quando a Casa Branca e o Pentágono, queriam expulsar os soviéticos do Afeganistão. Talvez os americanos tenham se cansado de esperar para ver, finalmente, as tais armas químicas e biológicas desenvolvidas pelo Iraque, no governo de Saddam. Talvez tenham se fartado da política do Grande Irmão, que a tudo e a todos pretende controlar, vigiar, da falta de privacidade em seus emails, e de uma polícia política cada vez mais intrusiva. Quem sabe, tenham se envergonhado, os autoproclamados herdeiros da polis democrática, das atrocidades que são cometidas em seus presídios pelo mundo afora? Quem sabe queiram se redimir das formas repugnantes e desumanizantes da violência que puderam ver simbolizadas nos presídios de Guantánamo e de Abu Ghraib, onde afegãos, sauditas, iraquianos, e povos de várias outras nacionalidades são humilhados pelas torturas mais degradantes e bizarras da história da humanidade? Sim, os americanos elegeram um presidente, de nome Barack Hussein Obama Júnior. Parece mentira.



Marcos Vinícius.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Outubro, os jornais e o mercado.


Outubro, os jornais e o mercado



Quem teve a oportunidade de acompanhar os jornais neste mês de Outubro pôde perceber a força, onipotência e onipresença do grande deus-mercado. Este foi um mês atípico e nas linhas e entrelinhas dos jornais, podemos observar o quanto a poderosa entidade tem contribuído para tornar o mundo mais desigual, triste e patético. Do reino dos céus do capital, no centro nevrálgico do sistema, uma avalanche de bancos quebrados deixou os governos de plantão, reféns de uma crise financeira sem precedentes. Os pobres do mundo certamente pagarão a conta mais uma vez. A expectativa, diante da crise, é que a miséria, no médio e longo prazo, se aprofunde e agrave ainda mais. Já sabemos que a gritaria nas Bolsas, a brusca oscilação dos números, do câmbio, do valor das moedas, acaba por resultar no aumento da fome, da desnutrição, de doenças crônicas, mortalidade infantil, violência e de tantos outros dramas que afligem a população mundial em nosso capitalismo global e selvagem.


No campo da política, em qualquer esfera ou setor, vimos que praticamente não há alternativa. Entre os verdes, amarelos, azuis, roxos, vermelhos, ou qualquer outra coloração ou bandeira que possa aparecer, as receitas e a fórmulas, são sempre praticamente as mesmas. A arte da política vem se tornando cada vez mais estreita. Em tempos de campanha eleitoral, os candidatos são apresentados ao eleitorado como se mais não fossem, que simples mercadorias, bem embaladinhas pelos marqueteiros que tem a responsabilidade de eleger seus clientes. São eles os grandes agentes da ação política eleitoral, pois são, em ultima instância, quem, a serviço do grande capital, elegem, de fato, os governantes. Como bem observou o filósofo John Dewey, a política tornou-se “uma sombra dos negócios sobre a sociedade”. A política submissa aos mercados.


Quem leu os jornais de Outubro, pôde se indignar com o episódio do poeta e professor de literatura que foi demitido de um colégio particular no Rio de Janeiro, porque os pais dos alunos descobriram no blog e nos livros publicados pelo professor, versos eróticos. Os pais consideraram então, que os versos poderiam desqualificá-lo como educador e pressionaram a escola a demiti-lo. Como a escola não tinha a intenção de contrariar os interesses de seus clientes, o professor perdeu seu emprego. A escola alegou que havia um ‘parecer de psicólogos e juristas condenando a combinação do professor com o escritor em uma só pessoa’. O gesto ilustra de forma bem simbólica como o mercado, pode mais uma vez, ser alienante. A poesia foi extirpada do local onde prioritariamente, deveria se produzir o conhecimento, o saber - a instituição escolar. Na confusão dos negócios, muita coisa fica fora do lugar.


Outro caso típico de coisa fora do lugar é a crise pela qual vem passando a arte circense no país afora, matéria do jornal Estado de Minas desta semana. Só aqui em Belo Horizonte, onde há 3o anos, havia mais de 35 circos de bairro, hoje, não existem mais. É o prenúncio do fim de uma das manifestações mais antigas da arte popular. Entre um sem número de fatores que explicam o fracasso pouco espetacular dos circos itinerantes no Brasil é justamente o mercado imobiliário. Na maioria das vezes, os aluguéis dos imóveis nas regiões mais acessíveis ao grande público são incompatíveis com as rendas auferidas e a necessidade de sobrevivência dos artistas. A arte circense agoniza e morre ante o jogo da especulação imobiliária. Segundo Sônia Braskuper, acrobata, trapezista e mágica do circo Imperial, “Um dos prefeitos teve a capacidade de me dizer que nós, artistas, quando chegamos ao município, atrapalhamos a economia local, uma vez que os moradores compram os ingressos”. Os artistas, além de praticamente excluídos do mercado, também o são das praças, das cidades, demonstrando que junto à exclusão sócio-econômica, sempre vem acompanhada uma dose de intolerância, principalmente advinda das elites locais. Quase não há espaço para o circo mambembe, itinerante, em nossa pós-moderna aldeia global. “A coisa mais triste do mundo é quando encontramos um palhaço tradicional na porta de uma loja, fazendo palhaçadas para um público que não a enxerga”, afirma Sula Mavrudis, fundadora da entidade Rede de Apoio ao Circo.


Deu no jornal. Um pequeno grupo de adolescentes encontrou, às margens de um córrego fétido no Bairro Solar, em Belo Horizonte, um baú recém desenterrado por pedreiros, que não deram importância ao objeto, repleto de pedras de várias cores, semelhantes a esmeraldas, rubis e safiras, além de colares, brincos e pingentes. O anúncio da descoberta abriu na região, entre a vizinhança, uma verdadeira corrida ao ouro; vários moradores foram ao local ver se podiam encontrar alguma sobra, alguma pedrinha que pudesse ser trocada no mercado. Mas a busca parece, ter sido vã, o sonho e a alegria duraram pouco, pois de acordo com um especialista, as pedras são crizopázios, usadas para a produção de bijuterias. O tesouro, que muitos acreditavam ter pertencido a garimpeiros ou a um rico fazendeiro que viveu por estas bandas há muitos anos, acabou virando pó ante os olhos sonhadores dos antes sortudos e privilegiados descobridores, do bairro Solar. Outro sonho de eldorado desfeito. “(...)é uma pena não ter valor de mercado. Serve como lição. A gente que nasceu pobre, para crescer, tem que ser por meio do trabalho. Não adianta sonhar”, desabafa a dona-de-casa Marcelinha Pereira, de vinte e nove anos, quem também foi à cata do tesouro, sem poder certamente dimensionar o efeito devastador que a crise atual terá sobre o já estrangulado mercado de trabalho.


Estes episódios, aparentemente isolados, veiculados pelos jornais nesta primeira semana de Outubro são como muitos outros, amostras da força do mercado enquanto entidade suprema que controla a tudo e a todos, tornando o mundo, a cada dia, menos poético e alegre. Talvez as maiores lições que possamos tirar disso tudo, seja a voz dos principais protagonistas das histórias relatadas. Do poeta professor Oswaldo Martins: “Goya/o sonho o pintor revela/gostáramos de bruxas/de vê-las arder fogueira adentro/dos fuzilamentos/do caso Dreyfus/de ver Flaubert dizer/nos tribunais/e Sócrates ser morto/os espetáculo, senhores/está vivo”. Ou o depoimento emocionado do palhaço Rapadura: “No picadeiro está a vida, a alegria e o aconchego. Mesmo que a luta seja grande, temos que sobreviver e persistir na continuidade dessa arte. Fechar as cortinas é o mesmo que matar um sorriso”. Talvez ainda adiante sonhar. A vida se reinventa na arte, como alguém certamente já o disse, e essa certamente, não morreu, apesar do mercado, apesar da política.




Marcos Vinícius.

sábado, 4 de outubro de 2008

Os aviões de Wall Street


Os aviões de Wall Street




Não entendo coisa alguma de economia. Muito pela minha falta de esforço em tentar compreender sua ciência, muito pelo excesso de esforço das classes dirigentes ou dos que estão a seu serviço, em fazer com que ela seja, muitas das vezes, ininteligível. Não é qualquer cidadão que consegue folhear as páginas dos cadernos de economia e ler com facilidade e desenvoltura os artigos, e principalmente, as opiniões, os debates que ali se travam. Neste aspecto, não estou sozinho. As opiniões, como em qualquer outro assunto, ou polêmica relacionada ao mundo dos homens, são contraditórias, conflitantes, divergentes. Há um sem números de quadros, números, tabelas, gráficos, que deixa a maioria dos leitores estarrecidos, diante de um código, que à primeira vista, parece absolutamente indecifrável. Talvez, seja este, mais um dos motivos, pelos quais a maioria absoluta dos brasileiros, leitores de jornais, lêem praticamente apenas os cadernos esportivos. Muitas das vezes, as explicações mais dificultam do que facilitam a compreensão de determinados fenômenos da economia. E assim caminha a humanidade.


Diante da mais recente crise do sistema capitalista global, os cadernos de economia tem vindo mais volumosos. O tempo gasto nos telejornais a tratar dos temas econômicos é também maior. Compreenderão os cidadãos do mundo o que se passa afinal com o sistema econômico que de certa forma, entrelaça todo o planeta e todos os povos? Compreenderão os africanos, os sul-americanos, os pobres do mundo, os pobres do sul, o que está a se passar de fato com o mundo, em seus fundamentos econômicos? Entenderemos nós, o que verdadeiramente medem os índices Nasdaq , Dow Jones, Bovespa e tantos outros? As flutuações do câmbio, as taxas dos mercados, a gritaria das Bolsas, o intuito dos planos, os discursos dos especialistas e tecnocratas? Entenderão os povos a língua desta nova entidade, o culto da nova divindade, o deus-mercado? Certamente, não. Estão a ver navios. É uma linguagem difícil de ser desvendada para a maioria da população mundial, que vive, digamos alijada, das benesses do capital. É uma fatalidade.


A crise recente, que se manifesta a partir de Wall Street, mesmo sendo difícil de ser compreendida, será certamente sentida, vivida pela maioria da população mundial que será chamada, mais uma vez, a pagar a conta. Isto é certo. Não saberia explicar esta crise, com o rigor técnico que a natureza complexa do sistema demanda. Mas este fenômeno me fez lembrar um golpe que vi sendo aplicado, pelo menos duas vezes, anos atrás. Golpe que fez, por sinal, uma infinidade de vítimas. Claro, que em proporções infimamente menores em relação à crise de Nova Iorque. O golpe começava com um jogo, que se não me trai a memória, chamava-se avião. Aqui em Belo Horizonte, começou com algumas poucas pessoas, e rapidamente, envolveu praticamente quase a cidade inteira; não havia quem não conhecesse alguém que tivesse entrado neste jogo, neste avião que mais parecia uma canoa furada. Funcionava assim: você pagava um valor x para quem te apresentasse ao esquema. Feito isto, você deveria encontrar mais dez vítimas, e cada uma deveria lhe pagar o mesmo valor x que você havia pago. Neste momento, você obtinha o seu montante, aumentado dez vezes. Um bom negócio. Cada um que pagou o valor x, teria que arrebanhar mais dez vítmas para que enfim, pudesse também usufruir do seu quinhão, do seu investimento. Aqueles que deram início ao jogo acabaram se dando bem, pois era uma novidade, e todos queriam se aproveitar, porém o crescimento do sistema, em escala geométrica, rapidamente envolveu uma população bastante considerável. Mas como garantir a partir daí, que todos lucrassem? Impossível. O sistema não se auto-sustentava, pois para cada ganhador, havia dez pagadores. E claro está que em um sistema assim é logicamente impossível que todos ganhem. Pelo contrário, a maioria esmagadora pagou o pato para uma minoria espertalhona que deu o sinal de partida. Muita gente ficou no prejuízo. E pouquíssimos, na verdade, se divertiram com o jogo.


Por algum motivo, a crise em Wall Street me lembrou este golpe. Só que em escala bem maior. A população agora, chamada para pagar a conta da farra das elites que controlam a economia mundial, é infinitamente maior que as vítimas do aviãozinho, e o montante envolvido é um valor, que nós, pobres mortais, não temos como mensurar. O preço a pagar será alto. A grande burguesia fez a festa e lucrou como nunca em toda a história, se empanturrou. A ressaca sofrerá grande parte da humanidade. Os estragos serão conhecidos no médio ou longo prazo. E este jogo, este avião que partiu de Wall Street terá certamente efeito mais nefasto que os aviões que recentemente vitimaram os americanos. O que fazer para que o mundo não se transforme num futuro próximo, em um gigantesco marco zero?



Marcos Vinícius.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Estado de alerta


Estado de alerta.


Á nossa volta, sempre encontramos pessoas que defendem determinadas teses, idéias, posições, pontos de vista, com muita convicção, força e entusiasmo, o que pode ser, muitas das vezes, saudável e construtivo, pois muitas das vezes, as paixões renovadas, o discurso articulado, e a capacidade de convencimento e de arregimentação de apoios, podem em muitos casos contribuir para o bem comum, e até mesmo, para a salvação coletiva. Este potencial é praticamente um presente dado à natureza humana, a nós, seres gregários, históricos, sociais, que estamos sempre à cata de líderes, representantes das nossas causas, maiores ou menores, dependendo da ocasião. A atuação de alguns sujeitos da história é de fundamental importância, para grandes saltos de qualidade. São inúmeros os exemplos que poderíamos citar, seja na história universal, seja na nossa história local, regional ou doméstica. A história da humanidade está repleta de nomes que sempre representaram o desejo supremo da espécie de liberdade e redenção. Homens que sempre lutaram movidos por princípios éticos e abraçaram a causa dos povos, da própria humanidade, enfim... São sujeitos ativos, encontrados em todos os locais, em todas as épocas, assumindo a missão de porta-vozes das maiorias, ou das minorias, não importa agora, ao certo. Personagens que arrastaram muitos outros, no vigor dos seus argumentos, na trilha das suas idéias ou ideais. Porém, entre as lideranças humanas, sempre há aqueles que de fato estão convencidos que podem dar a sua contribuição para o aprimoramento da nossa espécie, e muitas vezes, entregam a vida, às causas que defendem, mas também há, um número considerável de líderes, que utilizam o seu potencial mobilizador exclusivamente para causas mais mesquinhas. Indivíduos que, ao se apropriarem de um discurso supostamente democrático, justo e humano, o fazem, com um propósito contrário. Utilizam-se do potencial mobilizador para massagearem o ego, subtrairem vantagens e acumularem poder. Esses seres, muitas das vezes, se misturam entre os outros e se disfarçam com muita facilidade, principalmente, quando no meio de um público pouco crítico ou observador. São geralmente, pessoas influentes, cercadas de apoiadores, discípulos, simpatizantes, correligionários, e que praticam com desenvoltura o mimetismo político. Suas convicções facilmente se cedem à satisfação de pequenos desejos pessoais ou interesses econômicos. Mantém o discurso afinado, atento às demandas e anseios de suas bases, mas tem como fim último, não a realização do que prega, mas as exigências do umbigo. Se pararmos para observar, veremos que sempre os encontraremos entre nós; cheios de boas intenções, falantes, convincentes, parecem mesmo sinceros, e dignos de grandes verdades. Tem sempre uma boa causa a defender. É um tipo em proliferação e que seqüestra esperanças, mas é praga de todos os tempos, e praticamente inevitável. É necessário identificá-los, apesar de parecer difícil, pois geralmente são ótimos atores, mas abusam de nossa boa vontade, e nos ludibriam, pois é a condição mesma, de sua sobrevivência. Existem diversas formas de desmascararmos o farsante, vai depender muito da nossa capacidade de observação e discernimento, ou até mesmo da nossa intuição ou criatividade. Mas na falta de opções, um bom caminho, para que evitemos o engano maior, é estarmos sempre atentos às suas contradições. Por melhor que disfarcem, a força das contradições é sempre muito reveladora. A mentira prolongada e persistente sempre deixa escapar algumas de suas facetas.


É necessário observar cuidadosamente os passos e os discursos daqueles que tem a pretensão de nos representar. Mas se ainda é pouco, existe um momento em que sua fraqueza fica mais evidente: quando estão em jogo, seus interesses privados. Aqui todo alerta é pouco. Não há ideologia que possa contrariar interesses desta natureza, entre o tipo de indivíduo que é aqui tratado. Normalmente cedem fácil às pressões de seus desejos e ambições pessoais, e são exageradamente vaidosos. É necessário estarmos atentos, pois estão em todos os lugares.




Marcos Vinícius.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A viagem de Pedro


A viagem de Pedro




Pedro era de uma família de lavradores, e pelo que se tem notícia, das mais antigas daquele grotão. Pelo que se conta, do que os familiares muito se orgulham, seus antepassados já cultivavam aquela terra, aquele mesmo solo, há dezenas de gerações; coisa que se diz de boca em boca, à boca miúda, mas que nem a ciência, com todos os seus métodos e experimentações, poderá um dia, de fato, provar. A considerar o espírito dos costumes locais, tão arraigado em cada trejeito ou palavra desta humilde família de agricultores, e o domínio quase mágico do maneio da terra, como se cada grão, fosse ao mesmo tempo todos os outros grãos por ali já cultivados, torna-se difícil duvidar que esta pobre gente esteja aí já plantada há menos de uma dezena de séculos. As gerações foram se sucedendo, uma a uma, cada qual no seu tempo próprio, tempo devido. As crianças prevendo nos velhos, o futuro, que lhes aguarda. Os velhos buscando na imagem das crianças, o espelho perdido, o passado que se apagou. Assim transcorre o tempo, naquele vale distante, sepultando os homens na terra cultivada por eles, gerando outros homens do ventre de quem a terra cultiva. Pedro é então, mais um filho do tempo e da terra, terra esta que nunca lhes foi prometida. Desta terra fecunda, que leva nas entranhas o suor do trabalho de todos os seus ancestrais. Terra quase sem fim ou fronteiras, terra quase infinita de tão grande, que como se costuma dizer por ali, sempre pertenceu ao senhor coronel. Esse senhor coronel que não tem idade, uma entidade, que sempre esteve ali. Onipresente, onipotente. Que cá, entre nós, sempre fez a família de Pedro, desde seus mais remotos antepassados, comer, literalmente, o pão que o diabo amassou. Não imaginem que a família ignora que muitos dos seus, já se foram pelas balas de muitas das armas de fogo que pela casa grande do coronel já passaram. É óbvio que depois de tantos anos, tantas gerações, muitos conflitos violentos, já opuseram, de um lado, antepassados das famílias dos camponeses, e do outro, antepassados da família do coronel. A diferenciação social que se estabeleceu naquele lugar, que o tempo parece, às vezes, ter esquecido, corre pelas veias dos homens; são além do mais, diferenças sanguíneas. Mas em nome da ordem local, da produção de grãos, e da capela, que sempre apazigua os ânimos de seus fiéis, nos últimos anos, o lugarejo tem vivido dias de paz relativa, e tem até gozado, de certa prosperidade. A produção anda em alta, o mercado está favorável, e o proprietário anda com certo bom humor. O que não significa que haja nestes casos, uma lógica natural de causa e efeito, em que os lavradores, possam, finalmente, comer melhor.

O patrão sempre se simpatizou muito com Pedro, por ser um trabalhador produtivo, forte e por nunca estar a reclamar do trabalho. A impressão, inclusive, que a todos passa, é que ele, de fato, gosta muito do que faz. Sente um grande prazer no trabalho com a terra, e chega, em certas ocasiões, louvar seu ofício em versos e trovas. Seu conhecimento nato, no trato com os grãos, já levou lucros ao patrão É um exímio trabalhador da fazenda. Destas coisas da terra, ele realmente entende. E isto, de certa forma, faz com que o coronel, tenha algum orgulho dele. Tanto é, que ao ouvir do filho, que veio lá da capital, que conheceu um Instituto Agropecuário que vem preparando tecnicamente e profissionalizando trabalhadores rurais, o patrão, resolveu, então, mandar Pedro, por uma semana, aos estudos. Quem sabe este moleque, com a inteligência que lhe é própria, não aprende por lá umas novidades, que possam aumentar os nossos rendimentos familiares? Pedro, a princípio, achou que era uma bobagem, algo desnecessário, uma vez, que para ele, não havia qualquer segredo ou mistério, que do ventre da terra, não pudesse desvendar. Sabia que apesar de jovem, era um lavrador extremamente experiente. É como se já tivesse nascido sabendo; sim, e quem garante já não o soubesse antes mesmo de nascer? Não sabemos ainda ao certo, o quanto de informações os genes podem transmitir pela cadeia das gerações. A verdade, é que ninguém mesmo se lembra, quando foi que aprendeu as primeiras artes do ofício, ou quem foi que lhe ensinou. Apesar de apresentar, de início, certa resistência em ir para a capital, acabou mudando de idéia diante da insistência do patrão, e com a possibilidade de fazer um curso voltado mais para a pecuária do que para a agricultura. Sim, afinal, poderia enfim, conhecer um pouco mais sobre o fabuloso reino animal. Sabemos todos, que dos animais, sempre temos muito a conhecer; inclusive, a variedade de espécies conhecida por Pedro é realmente pequena, até porque, ele nunca saiu dali. Pedro, em plena juventude, não conhece mais que os dois vilarejos vizinhos, onde vai de vez em quando, realizar algum comércio para o coronel. Pedro não conhece o mar. Talvez, seja esta, pois, a única chance de conhecer a cidade, e também, finalmente, um pouco mais sobre os animais; conhecer mais sobre os que já têm algum conhecimento, e quem sabe, conhecer também aqueles, os quais nunca viu ou ouviu falar. Afinal, poderá desvendar os mistérios da pecuária e especializar-se no trato com as criações da fazenda. Na prática, sabe muita coisa, mas é oportunidade para ampliar seus conhecimentos técnicos, numa área, que na verdade, já é sua vida. Resolveu o jovem lavrador, enfrentar o desafio. Afinal, teria ainda, uma longa jornada de trabalhos pela frente. E quem sabe um pouco mais de conhecimento não poderia lhe melhorar a sorte?

O patrão não era homem de muita conversa. Tinha fama de implacável, mas também de decidido. Gostava de ver suas idéias executadas. Achava-se um empreendedor, e queria agora, experimentar. Fora os desejos sutis, que são inconfessáveis, mas que fazem parte do imaginário dos que eternamente exercem o poder; principalmente daqueles, que tem a pretensão de exercer o poder absoluto, supremo, inconteste. O controle das vidas. As vidas como peças, como jogo. O destino de outras vidas nas próprias mãos. O poder de vida e de morte. O poder eternamente eterno. O poder do arbítrio sobre a escolha do outro. O poder que pretensamente transforma os homens em deuses, ou simplesmente, os aproxima deles. Que assim se faça. E assim se fez. Pedro desembarca na rodoviária da capital, sozinho. Fica realmente atordoado, nunca viu tanta luz, tanta gente, tantas ruas, tanto ruído. Pedro começa a se apavorar. Passa as mãos pelo rosto e sente o suor que escorre entre os olhos e o nariz, não sabe agora ao certo, se é suor, ou se são lágrimas. Não sabe ainda que alegria é esta que faz chorar ou suar de medo. É Pedro. Na cidade de pedra, de concreto, de asfalto. Ao desembarcar, fica alguns minutos imóvel. Como pode ser Deus tão criativo, para criar tantas faces diferentes? Para onde olham todos os olhos? Para onde olho eu em meio a tantos olhares? Quantos somos? Mas como tantos iguais? Como tantos tão diferentes? Pedro sente-se atordoado. É para ele um fenômeno novo, o fenômeno da multidão. Respira fundo, procura manter o autocontrole, e procura por si em meio aos outros. Tem a sensação de ter perdido um pedaço de si próprio. Parece que falta uma parte. Não tem mais a certeza se é de fato ele mesmo, quem ali está. Respira fundo mais uma vez. Dá dois passos, e finalmente, recupera o equilíbrio. Segue pela larga avenida que se abre em frente ao terminal rodoviário. Por sorte, rapidamente, ao cruzar duas longas avenidas, encontra hospedagem. Na verdade, acabou por entrar na primeira porta, que trazia pendurada numa chapa de bronze, a palavra pensão. Não era um grande leitor, como já pode se imaginar, mas havia tido a oportunidade, na infância, de cursar as duas séries iniciais do ensino fundamental. E as notas, contas e recibos do comércio do patrão haviam feito dele, digamos, um dos poucos semi-alfabetizados das redondezas; a quase totalidade dos lavradores vivia ainda, na pré-história das palavras. Entra pela porta. Uma porta estreita, a partir da qual se abria um ainda mais estreito e comprido corredor; um corredor que parecia não ter fim. Uma boca por onde adentrava Pedro, curioso, e um pouco amedrontado. Seria então, finalmente devorado? Aproxima-se do balcão, um velho balcão de madeira, já bastante comprometido com os cupins; o solo range, parece que toda a estrutura está a desabar. Sim, a ação dos cupins é praticamente fatal. Vai corroendo, corroendo, e muitas das vezes, sequer são percebidos, pois não estão nas superfícies, estão nos subsolos, nos porões, nas vigas e arrimos. Nos sistemas internos, invisíveis, imperceptíveis. Em muitos casos, quando sua presença é notada, já pode ser tarde demais. O organismo está por todo, comprometido. A ação corrosiva dos cupins não é silenciosa, o ato de triturar a madeira é bastante ruidoso, porém não o é para a nossa limitada capacidade auditiva. Mas estão ali, aparentemente sem pressa, corroendo milimetricamente o seio das estruturas, bem debaixo do nosso nariz. Muitas das vezes, nem os percebemos, mesmo quando agem aos milhares. Se uma fenda se abre, uma ripa se parte, pronto, podemos, pela ação lenta, e progressiva dos cupins, virmos abaixo, por sob os escombros. O mundo pode desabar. Pedro se assusta quando se aproxima o atendente. O dinheiro que traz no bolso é mínimo, a conta de alimentar-se e instalar-se em acomodações bem modestas. O patrão já havia, inclusive, sugerido que se hospedasse nas proximidades da rodoviária. Era, pois, uma forma, de estar mais próximo de casa. Assim Pedro o fez. Ora, além de mais próxima de casa, o que é uma meia verdade, se é que isto existe, não era o que de fato havia pesado na escolha do coronel. Como já se sabia, era onde iria encontrar os preços mais modestos. Claro está que se tratando de uma relação entre patrão e empregado, o critério da redução de custos, a qualquer preço, é critério sagrado e, portanto, critério primeiro. Afinal de contas, o Instituto Agropecuário não fica muito distante dali.

Pedro finalmente acomoda-se em um quarto bem modesto. Uma cama estreita, com um colchão que poderia ser um pouco menos fino, um armário antigo, também já herdado aos cupins, e um quadro pendurado, retratando o mar. Tinha ainda, por sorte, uma visão privilegiada, dentro do que pode ser considerado privilégio, em condições já tão precárias. Uma janelinha de madeira, na parte superior da parede lateral, no alto. O que significa que usufruir deste privilégio demandava certo trabalho, na medida em que era necessário subir em um enferrujado banquinho de metal que ficava ao lado da cama, para poder finalmente, apreciar um pedaço, também modesto, da paisagem urbana. Foi o que naquele momento, mais atraiu a atenção de Pedro. Agora, pode se acalmar. Estaria protegido ali. Subiu no banco e ficou inerte. Tudo era novidade. Uma pena não poder enxergar a rua num ângulo maior. O campo de visão era estreito, bem limitado, mas ia satisfazendo em doses homeopáticas a curiosidade do hóspede. Seria ali, por alguns dias, o seu quartel-general, o seu refúgio, de onde poderia observar, sem ser observado, o movimento dos homens da cidade. Dos homens e das mulheres. É o que começa a intrigá-lo. Pelo que se recorda, nunca havia visto tantas mulheres, tão diferentes. Impressionante. Na verdade, praticamente não tinha experiência com elas. Era ainda muito novo e o local onde morava, não ajudava muito. As moças, na sua terra, eram sempre muito vigiadas pelos pais, e os encontros amorosos entre os mais jovens eram sempre cheios de obstáculos. Mas aquela paisagem da janela era uma verdadeira revelação. Havia uma variedade enorme de fêmeas. Loiras, morenas, ruivas, negras, mulatas, índias, estrangeiras, altas, baixas, feias, bonitas, para todo o gosto, de todos os tipos. Mudava, pois, o tom das batidas do coração de Pedro. Coração que pulsa assustado, temeroso, pulsa frenético, em êxtase. As pernas de Pedro tremem por sobre o banco enferrujado. E continua a observar, não consegue tirar os olhos daquela rua movimentada, com milhares de transeuntes cruzando de um lado ao outro, o seu campo de visão. Mas uma porta aberta do outro lado da rua, para a qual Pedro passa a observar obsessivamente, acaba por deixar seu coração aos saltos. O local é um bar onde entra um número bem considerável de mulheres. E do ponto onde são observadas, parecem ser, todas elas, muito belas. E talvez, por ser verão, as mulheres, nesta noite quente, acabam se vestindo com economia de roupas. Pedro continua inerte. Não pisca. As pernas novamente tremem e parecem enviar impulsos elétricos ao seu cérebro viril que por instantes se atordoa, diante de uma série de imagens que invadem, sem sequer pedir licença, seu pensamento. São sombras de mulheres, de todas elas, que dançam, se agitam, cantam, são fantasmas femininos, despidos, são gemidos, sussurros, nos ouvidos de Pedro. Desce do banco. Sobe, rapidamente, outra vez. Decide-se. Vai ao bar. Mas como fazer? O dinheiro é contado. E como se comportar neste ambiente tão diferente e estranho? Mas a imagens das mulheres que entram e saem, cada uma à sua maneira, com sua beleza própria, com suas fragrâncias, aromas, tornam-se sombras, espectros, que invadem o quarto da pensão e são inalados pelos poros de Pedro. Está possuído de sensações. Avalanche de desejos contidos, talvez mesmo, não revelados, que se rebentam sem qualquer possibilidade de contenção. Não há volta.

Nesta primeira noite na cidade, antes mesmo de conhecer o Instituto Agropecuário, onde certamente, irá se aprofundar na técnica da lida com os animais, resolve, então, Pedro, se aventurar por aquela porta iluminada, onde entram as mulheres mais belas que certamente já viu em toda sua vida. Veste a roupa com a qual tinha reservado para se apresentar na manhã seguinte à escola, guarda o dinheiro debaixo do colchão, e com passos certeiros, sem titubear um minuto sequer, como se estivesse a fazer aquilo que há muito tempo já havia planejado, vai ao seu destino. Atravessa a rua com tanta firmeza e convicção, que quem o observasse com um mínimo de atenção, poderia jurar que sempre tinha vivido ali, naquela cidade, naquela pensão. Parecia que se dirigia ao bar, como sempre o fez, numa vida inteira. Existem coisas, para as quais realmente não existe explicação, e se tentarmos explicar, podemos nos enveredar por um caminho, onde mais perdidos ainda ficaremos. O fato é que entra bastante seguro no bar, não há dúvida na decisão de Pedro. Senta-se na terceira mesa, após o fundo do balcão, e pede ao garçom um copo de vinho. Talvez fosse a primeira vez, que experimentasse desta bebida, mas isto não se sabe ao certo. Dá o primeiro trago e seu peito inflama, o coração da um sobressalto, as faces coram, são duas rosáceas, e suas mãos se aquecem. Os olhos se embaçam, e ao recuperarem a nitidez, miram a mesa da frente onde estão a conversar as duas mais belas mulheres, que talvez já tenham visto. Dá o segundo trago. Os olhos que desta vez, não embaçam, saem afoitos à caça dos olhos da mulher que tem à frente. E confirma, é realmente bela. Os olhos observados observam que o são, e passam, pois, a observar também. Pedro, por um segundo, sente o sol da noite irradiar dentro de si, e seus olhos traem seus desejos, ao soltarem faíscas, lampejos, para os olhos da mulher de vestido vermelho, que resolve se aproximar. A mulher, realmente belíssima, deixa suas companheiras à mesa, e vai ao encontro do homem que a trouxe com os olhos incandescentes. Senta-se. Nossos personagens são de poucas palavras, cada um por suas próprias razões. Mas o fato é que em determinadas ocasiões, o excesso de palavras, com seus verbos, adjetivos, sujeitos, tornam-se mesmo desnecessários. Ele, movido por uma febre, que talvez, todo o corpo fale por si. Ela, por entender bem o recado, substitui a palavra pelo toque, onde parece mesmo que não tem tempo a perder. Pousa lentamente suas mãos sobre a toalha da mesa, que em seguida, avançam sobre as mãos de Pedro, que dá o terceiro trago. Os olhos de Pedro percorrem todo o corpo que se esconde por baixo do curto tecido vermelho. Seus olhos vagueiam, farejam, mergulham pelas falhas da costura, pelas frestas das rendas, tateiam no escuro das partes vestidas, deslizam suaves sobre as curvas dos seios à mostra. Os cabelos são cheios, negros, floresta escura, onde os dedos de Pedro querem se perder; os seios fartos são horizontes abertos para se percorrer. Os olhos são grandes, profundos, são pontes. As mãos suaves, as unhas bem feitas, as pernas jovens, roliças, a pele branca, as pontas dos seios rosados. É o paraíso prostrado na fantasia de Pedro.

Pedro dá o último trago. A mulher se levanta e ele a acompanha. Ela segura sua mão, e o leva-o para fora. Ele paga o copo de vinho e sai de mãos dadas com ela entrecruzando avenidas. Ela dobra a primeira à direita, anda dois quarteirões, depois entra à esquerda e caminha até o primeiro sinal. Ele caminha pelas nuvens, o bafejo das ruas, são suspiros divinos, os faróis dos automóveis, estrelas pulsantes que sacralizam os caminhos, o ruído da cidade é música para os ouvidos ébrios do nosso andarilho urbano. A última gota do vinho escorre pela garganta. A atmosfera se enche de nuvens coloridas. Pedro dá um longo suspiro. Sente o sangue correr pelas veias, como nunca havia sentido em toda sua vida. O perfume que exala daquele corpo, misturado ao gosto adocicado do vinho em sua boca, proporciona-lhe uma sensação de êxtase que deixa sua alma em suspensão. Precisava possuir aquela mulher, que na verdade, nem sabia quem era. Mas que lhe enchia os olhos, e despertava-lhe desejos. A voz daquela mulher, que pouco falava, mas que quando dizia qualquer coisa, que ele, por sinal, quase não entendia, enchia de música o ar. Seu próprio corpo tornava-se sonoro, ritmado aos embalos daquelas poucas palavras. Pedro já não via a cidade que lhe levava, pelas ruas, avenidas e becos. Finalmente, a mulher leva-o para dentro de um quarto, que mal sabe Pedro de onde surgiu. Ao abrir a porta, Pedro sente-se à entrada do paraíso. O aroma que sobe dos lençóis e os travesseiros por sob as colchas, mais o afago daquela mulher, transformam seu sexo em vulcão.Ele imagina que sonha. Já não deseja qualquer outra coisa na vida, que aquele breve e eterno momento. Por ele, entregava-se assim, naquele instante; era muita emoção para um coração tão jovem. A mulher pousa os braços sobre seus ombros e puxa-lhe de vez. Com pressa e uma fúria estranha, que ele ainda não conhecera, arrancam suas roupas, sabe-se lá como, tão rapidamente, e colam-se um no outro, como os selos são colados pela saliva, ou pelo suor e sal, o são os corpos. Em um último pensamento, ele ainda se pergunta se é isso o amor, ao se entregar definitivamente aos braços e ao ventre daquela mulher. Alma de lavrador sobrevoa os campos, sem saber se é o plantio, ou se já é a colheita. Pela fresta da porta, entram os perfumes das flores do campo, daquelas flores que Pedro viu a vida inteira, mas só agora, parecem revelar seus perfumes, seus segredos. Os trovões que trazem as chuvas e o húmus vivificante arrebentam em seus peito como foguetes ou rojões. Seus olhos são sementes que se rompem, os desejos cascas que se abrem. Suas mãos estão a arar aquele corpo como a fazer primavera ou mesmo todas as estações. Pedro escorre como água sobre os seixos daquela pele, a arrebentar-se em cascata. Sua castidade é rompida, no coração da cidade. Goza Pedro do mundo, que não mais lhe assusta lá fora.

Ato consumado, a mulher levanta-se e acende a luz. Pedro assusta-se. Não se sabe ao certo, se pelo cenário do seu primeiro amor, até então muito pouco iluminado, que fica agora às claras, se devido à alguma vergonha dos corpos agora completamente nus, ou de poder ver, frente a frente, outra vez, os olhos daquela mulher, que acabou agora de possuir ou ser possuído. Ele ainda não sabe. A mulher pega suas roupas e veste-se rapidamente, poderia se dizer, que tão rapidamente como antes se desnudou, parecia um ato automatizado, corriqueiro, do dia-a-dia, profissional. Senta-se à beira da cama e estende uma mão. Pedro vê no gesto uma última carícia como a finalizar uma noite de amor e pousa suas duas mãos sobre a mão estendida de forma quase fraternal, talvez gesto derradeiro, talvez sutilezas das paixões.

Num movimento brusco, a mulher puxa suas mãos, e volta a estendê-las com ira. Pedro parece finalmente entender, que tal gesto não mais é que um gesto de cobrança. De súbito, seu paraíso se desfaz. A aura colorida de encantos que fez arco-íris em sua primeira noite na capital se transforma em nuvens gigantes que prenunciam tempestades que devastam plantações. Ele sente-se nu, mas não uma nudeza qualquer, é uma nudeza única, completa, arrasadora. A mulher exige o pagamento, o dinheiro que Pedro não tem. Um calafrio percorre-lhe as espinhas, congela a alma, treme, não sabe se pelo frio, pelo pânico, ou pelo ridículo, mas treme como certamente nunca tremeu. Volta-lhe o medo que havia perdido ao atravessar aquela rua, que sequer sabe o nome, daquela velha pensão dos cupins, com uma pequena janela na parede lateral.

Após certificar-se que de fato, seria impossível receber a quantia devida, a mulher vai até a janela, escancara as cortinas e solta dois longos assobios. Abre a porta, e coloca o inadimplente para fora. Ao sair atordoado, antes que pudesse enxergar onde estava, dois homens fortes o seguram pelo braço. Era impossível resistir, e Pedro não oferece qualquer resistência. Os homens fazem então, mais uma tentativa, por sinal, rápida, de receber o preço devido. Mas não havia como fazê-lo. Um dos homens, muito mais furioso que o outro, não possui qualquer sinal de condescendência, de paciência, tolerância. Levanta um porrete que trazia em uma das mãos e desfere em Pedro um golpe fatal. Pedro cai e sua face branca repousa sobre a poça de sangue da calçada. Pedro não conheceu o amor. Pedro não conheceu o Instituto Agropecuário. Não conheceu o que queria sobre os animais.


Marcos Vinícius.

domingo, 21 de setembro de 2008

De Debby para Megh



Segundo Pedro Ynterian, presidente do GAP International (Great Ape Project), sigla em inglês para Projeto dos Grandes Primatas, como é conhecido no Brasil, as macacas Debby e Megh, "Só não sabem falar". Não seja por isto, aqui, Debby falou.

(Para conhecer a história real de Debby e Megh, acesse : http://www1.folha.uol.com.br/folha/bichos/ult10006u445001.shtml)
De Debby para Megh

Sabe Megh, fico às vezes, pensando o que será de nos depois que os humanos, através das suas leis, seus juízes, organizações, tribunais, decidirem o que farão com a gente. Segundo um ex-ministro da República, “cachorro também é gente”, então não entendo o tratamento tão desumano que nos é dispensado, logo nós, que somos os parentes mais próximos desta especiezinha arrogante e prepotente que é esta espécie humana. Para quem não sabe, tem um grupo de cientistas que já propõe que os chimpanzés sejam incluídos no gênero Homo, em função da enorme semelhança entre nós e eles. Sim, não fosse o excesso de pelos, a locomoção quadrúpede, e um cérebro talvez pouco avantajado, seríamos sua própria imagem e semelhança. Mas sabe-se lá, talvez seu Deus assim o quisesse. Assim o fez. Mas a questão teológica, não é algo, que a nós, já preocupa. Preocupa sim, agora, a lei dos homens. Em breve nosso destino estará traçado. Decidirão por nós. A polêmica ainda, por algum tempo, deverá ocupar as páginas dos jornais. E os humanos, mais uma vez, se divertirão às nossas custas. Ora, onde já se viu?? Habeas corpus para chimpanzés. Megh, em breve, nosso destino será selado. Decidirão os homens, se permaneceremos neste santuário, que nos foi proporcionado pelo pai-empresário-paulistano, ou se seremos enviados para a floresta, para nosso habitat natural, que desconhecemos por completo, pois nascemos em cativeiro. Não é pouca coisa que está em jogo. Viramos polêmica nacional. Piada de botequim. Discussões infindas entre o magistrado. Bagunçamos Megh, a agenda dos humanos. Os mesmos humanos que afirmam que possuímos mais semelhanças que diferenças em relação a eles, afirmam também que somos destituídos de direitos, pois somos apenas bichos. Ora, bolas. Ah Megh, se pudesse falar. Ah... Megh, eu os desafiaria a todos. Os desafiaria a prestação de contas. Empunham os homens bandeiras da luta de classes, lutas entre nações, é a história, mas e a luta entre eles e nós? Somos alvo de grande extermínio. Em dez anos, nossa população de chimpanzés caiu de um milhão e meio para menos de duzentos mil. Um verdadeiro genocídio. Somos caçados, humilhados, torturados, traumatizados. Quando não nos matam, somos cobaias em centros de pesquisas, ridicularizadas nos zoológicos, pela espécie assassina que se considera tão nobremente superior. Evoluída. Sabe Megh, não temos escolha. Duas são as opções que tomarão por nós. Ou permaneceremos neste santuário ou deveremos ser mandados para nosso habitat natural. Uma floresta qualquer desconhecida. Destas, devastadas, doentes, apodrecidas, onde as mais variadas espécies vivas agonizam. Sim, devastadas por eles. Ou então, permaneceremos sob a guarda deste pai humano que tão bem nos adotou. Sim, aqui, presos neste santuário feito e adaptado exclusivamente para nós. Não há liberdade em qualquer uma das opções. O mundo não nos pertence. Nossos territórios foram expropriados, nossas famílias, eternamente separadas. Talvez, para nós, a opção do pai-empresário seja a preferível, a “menos pior”, na medida em que gozaremos de relativo conforto, bajulação, e uma alimentação farta e saudável, ao passo que na floresta, provavelmente não sobreviveríamos por muito tempo, pelos motivos, que já todos conhecem. É Megh, normalmente, os chimpanzés que vivem em santuários, costumam viver até duas vezes mais que os que vivem à solta na mata. Muitos chimpanzés de santuários protegidos chegam aos oitenta anos de idade. Quanto a nós, somos muito jovens ainda, mas pela vida que temos aqui, com brinquedos, jogos, piscina de bolinhas, skates, redes e até um laptop, dificilmente sobreviveríamos por muito tempo nestas florestas tropicais devastadas e infestadas de caçadores. Será um destino cruel. De certa forma, irmã, temos bastante sorte. Do beco evolutivo quase sem saída, caímos nos cuidados e graças de um empresário, categoria social muito bem sucedida entre os humanos. Sim, acho que é sorte. Afinal, somos seres territoriais. Temos agora, um território garantido; são cerca de mil metros quadrados construídos e cinco ambientes, num terreno com mata e um rio ao fundo, em pleno estado de São Paulo. Além de alimentação garantida e boas horas de sono. Não é para qualquer um. Ora Megh, somos macacas de sorte. Talvez, sejamos as mais sortudas do planeta. Existirão outras no mundo em situação de maior conforto?! Ah. irmã.... Juro que gostaria de saber. Afinal, se livres não podemos ser, em parte alguma, pelo menos, que sejamos proprietárias e bem alimentadas. Estamos em condições melhores, que de muitos seres humanos, pode ter certeza. São nada menos que cinco refeições diárias em nosso rico e variado cardápio. Quase vencidos no conflito evolutivo milenar que nos deixa à beira do extermínio, encontramos, as duas, a tábua de salvação, nesta família de humanos, da categoria social vencedora entre os próprios humanos, que tentam garantir para nós não apenas o conforto da propriedade, mas o direito jurídico ao habeas corpus. Sabe Megh? Acho que entraremos para a história. Dos homens, bah.


Marcos Vinícius.

Só para escrever


Só para escrever



Quantos de nós, não temos a vontade de escrever bem mais do que normalmente escrevemos? Certamente, o exercício da escrita sempre exerce certo fascínio, tanto entre aqueles que fazem da produção literária, algo contínuo, quanto entre aqueles, que nunca escrevem coisa alguma. Para os que escrevem habitualmente, o fascínio pela produção em si, para os analfabetos de todos os tipos, o fascínio pelo inatingível, pelo desejo eternamente postergado. A relação dos homens com a escrita é sempre uma relação de desafio. O desafio de descrever o até então indescritível. Imagine o processo de criação das palavras; foi um processo que se desenrolou por milhares de anos. Desde os primeiros sons articulados em prol de um sistema de comunicação, lá pelos idos da pré-história, até a escrita alfabética que se desenvolveu entre os povos antigos, passando pelo surgimento da imprensa, que tornou, nos tempos modernos, o gesto de escrever, algo quase universal, ao mundo novo, da tecnologia digital, o ato de escrever é sempre um desafio. Para os primeiros homens, uma carência praticamente absoluta de sinais gráficos, fazia das primeiras tentativas de denominação dos fenômenos do cotidiano, um exercício fundamentalmente divino. Para nós, os novos primitivos de um futuro ainda não desvendado, o turbilhão de palavras, símbolos, códigos, sinais, letras, grafias, programas, deixa às mãos, de quem se propõe a escrever qualquer coisa, sobre qualquer assunto, um universo de possibilidades, que intimida, a princípio, qualquer um, que se sente com uma pena, um lápis, ou diante de um teclado. Atualmente, a possibilidade de se publicar,de imediato, qualquer coisa que se escreve, proporciona uma outra dimensão ao ato de escrever. Enfim, porque é arriscado, temeroso, desafiante, fascinante o ato de escrever? O que levou os homens ao longo destes milhares de anos, escrever, escrever, escrever, criar arquivos, bibliotecas, pastas, armários, estantes, livros, panfletos, cadernos, jornais, revistas, poemas, contos, rezas, receitas, fórmulas, encantos, contos, narrativas, histórias? Das tabuinhas de argila, da Mesopotâmia, do papiro, das margens do Nilo, das guardadas bibliotecas medievais, à era do hipertexto, escreve-se, escreve-se, escreve-se. O ato de escrever, seja lá o que for, é um ato que mesmo quando científico, é também religioso. Escrever é ao mesmo tempo, querer revelar e revelar-se concomitantemente. É desvendar para ser desvendado, ou desvendar, desvendando-se. Não há quem ao escrever, não invoque um eu superior que imaginamos ter guardado dentro de nós mesmos. É uma experiência quase transcendental, na medida em que nos sentimos eternizados se imaginamos escrever aquilo que acreditamos ser necessário que seja escrito, ou nos afundamos no ridículo, ao perceber que fomos fatalmente traídos pelas nossas próprias palavras. Escrever é um pouco despir-se ao tentar vestir o mundo com seus trajes de palavras e nomes; pois ao denominar, conceituar, ou simplesmente rabiscar o papel, mostramo-nos ao mundo, e a nós mesmos. Por isto, o risco, por isto, o desafio e o fascínio. Escrever é o estado primitivo de um mundo que ainda não é poesia pronta, e é também, o estado divino, de poder recriar o mundo, por nossa conta, sobre uma folha de papel em branco. É o poder das palavras, escritas.


Marcos Vinícius

Mochilas




MOCHILAS



Acabei de ler o livro “Mochilas”, de Delson Ribeiro de Andrade. O conhecido “Brother”. Fiquei encantado. Foi uma grande revelação, pois desconhecia completamente sua genialidade como escritor. E temos agora razões para admirá-lo, no mínimo, duplamente. Pelo talento que apresenta ao narrar sua história, e pela história em si, do qual o autor é o personagem principal. É uma bela história. Bela, intrigante e bem real. A maneira como Delson escreve é extremamente envolvente. O leitor se prende à leitura e, às vezes, fica difícil largar o livro. A vontade é de lê-lo em uma sentada. A leitura é leve e agradável. E a curiosidade que dá de saber o desfecho desta apaixonante aventura, torna a leitura emocionante. Foi a receita, a fórmula exata. Casamento perfeito. Um bom escritor e uma boa história. É tocante acompanhar a saga deste mochileiro em terras distantes. Este viajante brasileiro, mineiro, maluco, que resolveu desbravar o mundo, lá pelos idos da distante década de setenta. A aventura, em terra estrangeira e de natureza belo-horizontina, tem como cenário a Europa, mas se inicia e se encerra no tradicional Cantina do Lucas, no Edifício Maleta, no centro de Belo Horizonte. A história torna-se um retrato dos tempos em que os sonhos talvez ainda fossem possíveis. As utopias e o desejo supremo da liberdade. A história apesar de pessoal tem apelo universal, além de criar ainda, um elemento de identidade nacional. A história do Brother é também a história dos incontáveis degredados, expulsos, inadimitidos, excluídos, expatriados, sem-terras, nômades, andarilhos, que sempre povoaram o mundo.A busca eterna e inglória do paraíso, da Terra Prometida. É a história de incontáveis brasileiros, latino-americanos, africanos, que partem em busca do trabalho ou dos sonhos em terras distantes, do primeiro mundo. Quanto de “brother” não tem em cada um de nós, brasileiros? Quanto da alma brasileira não levou nosso brother pelo mundo afora? Algo, porém, na sua história, é particularmente, belo e emocionante. A possibilidade do encontro amistoso entre os povos e culturas. A possibilidade da tolerância em meio a diferença. É bonita a convivência poética dos jovens das mais variadas nacionalidades. É o sonho possível. Como diz o lema dos índios do pobre estado de Chiapas, no sul do México, descendentes dos maias: “Construir um mundo, onde caiba vários outros mundos”. É o princípio fundamental da tolerância e da convivência pacífica. Mas o sonho durou pouco, e nosso personagem-global-belohorizontino é deportado. Voltamos com o Brother, no Cristóforo Colombo. No rastro do seu romantismo. A história do Delson é ainda, extremamente moderna, contemporânea. Três mil brasileiros tiveram ingresso recusado ao chegar à Espanha em 2007. Diariamente, cerca de quinze brasileiros foram barrados no país em fevereiro deste ano. São as duras leis do Império do dinheiro e a lógica perversa de uma globalização excludente. O mundo ficou mais chato, com menos “brothers” e “hermanos”. E abrimos as cortinas do terceiro milênio, sob o estigma da intolerância levada ao seu mais alto grau e com a triste declaração, do segundo mais votado candidato ao governo da Espanha, Mariano Rajou, que embalou sua campanha com o lema: “Não cabemos todos” (os espanhóis e os imigrantes). Triste fim.



Marcos Vinícius.

Folha do Padre Eustáquio. n167. Maio/2008.