quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

As flores dos sonhos de Ana. (Juvenil)




Ana era filha de camponeses, e ali naquela terra estava, desde a mais tenra idade, como a maioria dos que ali viviam. Raríssimos eram os que abandonavam aquela terrinha em busca de outros lugares; além de ser difícil a sobrevivência longe dos seus, eram pouquíssimas as ocasiões em que a Rainha permitia que seus súditos, transitassem livremente por entre os cantões do seu Estado. O Governo, as mais altas hierarquias da Corte, mantinha um controle rígido sobre a população. Desta forma, seria muito mais fácil, não apenas extrair o trabalho obrigatório, que deviam aos palácios, a totalidade dos moradores, homens e mulheres, também os velhos e as crianças, onde até o trabalho dos enfermos e acamados era exigido, mas também garantir a implacável cobrança dos impostos; aqueles que não tinham por onde saldar suas dívidas eram condenados aos mais cruéis açoites e castigos. As condições de vida daquele povo como já se pode observar, não eram muito fáceis, apesar de viverem em território muito próspero, com campos verdejantes e água em abundância, o código de leis e o sistema de governo que inventaram, fazia daquele país, um dos mais desiguais da Terra. Os amigos do rei, homens da Corte e seus familiares, funcionários graduados do Estado, através de uma política dura e injusta, destinavam a maior parte das riquezas que eram produzidas, para si próprios. O restante da população vivia de restos e sobras, a maioria, passava fome na maior parte do tempo, além de trabalharem como verdadeiros burros de carga. Nestas condições, a vida no campo era muito miserável. Apesar de produzirem muitos alimentos, dos mais variados tipos, de tudo que a terra dava, o que sobrava para a sobrevivência das famílias era sempre muito minguado. Era uma dieta tosca, que nunca saciava a fome que os ameaçava. Muito nova ainda, uma criança, Ana, que mal completara sua década de vida, já ajudava os pais com os trabalhos no campo. Além da agricultura, ajudava também a cuidar dos animais, na limpeza da casa, no preparo das refeições, no cuidado com as roupas, e com as crianças mais novas. Desde muito nova, já se dedicava aplicadamente ao trabalho. Talvez este trabalho duro, cotidiano, do qual nunca havia como escapar, tenha transformado Ana em uma grande observadora do mundo em que vivia. Conhecia cada tipo de tarefa que se realizava ali e nos arredores, desde o plantio da semente, o trabalho com o arado de madeira, até a forja e as caldeiras quentes, onde as rústicas ferramentas eram confeccionadas, dominava a técnica da produção do fio e o acabamento dos tecidos, agasalhos e cobertores. Na mata, conhecia todo tipo de frutos, raízes e ervas, as comestíveis e as curativas, na cozinha, as mais variadas receitas, que o pouco alimento de que dispunham lhe permitia fazer. Apesar de muito nova, de tudo um pouco, no que diz respeito ao mundo do trabalho, já havia feito. Havia auxiliado na caça, na pesca e na coleta de alimentos. Na confecção de roupas e até no levantamento de casas. Não foram poucas as ocasiões em que ajudou a transportar areia, pedras e madeiras para levantar casas de familiares ou vizinhos, quando não apenas mais um puxadinho. Também nos cuidados com os animais de carga, que eram os responsáveis por todo o transporte que se realizava por aquelas bandas. Ana não conhecia outro mundo, era ali onde sempre vivera e estivera; vez ou outra, mas muito raramente, o pai a levava consigo, quando tinha que visitar os mercados, que eram muito poucos, por aqueles tempos. Quando iam ao mercado, era um cavalo magro e estropiado, quem puxava a carroça, que os levava por uma viagem, que durava quase dois dias inteiros. Aborrecia-se quando seu pai não podia levá-la a uma destas viagens. Apesar de difíceis e cheias de problemas e riscos, ela as adorava. Era nestas ocasiões, longe de casa, é que tinha a oportunidade de encontrar outros mundos que não os seus, comunidades, que apesar de viverem sob o mesmo Reino, dadas as peculiaridades locais, possuíam estilos de vidas diferentes. Sempre observava que quanto mais se distanciava de sua casa, seu torrão natal, mais diferente eram os jeitos os sotaques, e os trabalhos a que os moradores se dedicavam. As moradias das regiões das montanhas diferenciavam-se das moradias das partes mais baixas, das planícies, as ferramentas das comunidades de agricultores, não eram as mesmas das aldeias de pescadores. Assim, o mundo, com sua diversidade, abria-se aos olhos sempre atentos e curiosos de Ana. Ficava bastante intrigada quando chegava aos mercados, onde se reunia todo tipo de gente, criadores, caçadores, artesãos para tudo quanto há, vendedores de tudo que a terra oferece, dos frutos mais exóticos às carnes mais macias, soldados, mercenários, autoridades e ladrões. Os mercados, normalmente próximos a grandes entroncamentos nas estradas ou às margens de grandes rios navegáveis, nas proximidades de áreas mais populosas, reuniam homens falantes, todos em busca de algum negócio, comprar, vender, trocar, trapacear, roubar, arranjar-se ou endividar-se de vez, eram as alternativas a que estavam sujeitos, todos aqueles que iam e viam dos grandes mercados da época. Quem nunca tinha prejuízos eram os homens do palácio, a Corte e a Rainha, seja através da exploração do trabalho escravo ou dos impostos que arrancava de seus súditos, a população local. Os homens da Rainha estavam por toda a parte. Soldados ferozes, prontos a cortar qualquer cabeça, cobravam toda a sorte de impostos, daqueles que transitavam pelas estradas Reais, fiscais acompanhavam os negócios, e cobravam taxas, comissões, em um jogo, onde os homens da Corte arrecadavam fortunas fabulosas, o que sempre era garantido pela presença de uma força militar ostensiva e permanente. Ana tremia da cabeça aos pés, quando, por acaso, alguns destes soldados olhavam para ela. Ela os temia. A bem da verdade, todos sempre os temiam. Aprenderam todos, desde bem novos, a temerem os desígnios da Realeza. Diante do medo, Ana indignava-se. Por que deveria temer? Possuía os olhos grandes, que visto sob certo ângulo, passava-nos a impressão, que estava a mirar todo o mundo, nada escaparia dos raios dos seus olhares. Quando lhe aparecia alguma indagação para a qual não tinha uma resposta imediata, agarrava a barra do vestido de camponesa com a ponta dos dedos e os enrolava até que dali, quem sabe, alguma resposta ligeira pudesse lhe ocorrer. Com a mesma atenção com que observava os detalhes mais próximos de si, mirava também os mistérios distantes, os cumes das montanhas, as estrelas brilhantes. Observava sempre a refletir. Por observar e pensar o mundo, seja o mais próximo, ali diante dos olhos, seja o mais longínquo, onde apenas a imaginação alcança, deixava transparecer uma inteligência precoce, que aliada a uma profunda sensibilidade perceptiva, fariam dela, uma garota sábia e especial. Normalmente, quando em viagem com o pai, observava os torrões de terra, as folhas e galhos de árvores, os cantos das aves, que nunca eram os mesmos, os aromas das flores, a forma do relevo, cada cerca, muro ou construção. Nada lhe escapava. O pai, nestas ocasiões, era de poucas palavras. Talvez ele, como a filha, estivesse também a observar os caprichos da natureza pelo caminho. Talvez apreensivo, com os perigos da estrada ou com os negócios que iria ainda realizar. Falava pouco e não deixava transparecer para a filha qualquer tipo de preocupação ou ansiedade. Ana mantinha os olhos arregalados e uma série de imagens povoava seu pensamento.



Viviam em uma aldeia, onde todos trabalhavam exaustivamente. Os do campo tinham a pele cansada, os sulcos das pálpebras, cheios de fissuras e ranhuras, onde o suor salgado, parecia estancado há uma eternidade. As mãos rachadas, queimadas, cortadas, cuidavam dos alimentos, que encheriam os silos e os grandes depósitos oficiais, os grandes celeiros da Rainha. Os pescadores tinham os olhos úmidos, a pele flácida, os dedos de escamas. Os barcos vinham apinhados de peixes, das mais variadas espécies que a vida pode conceber, mas os fiscais e homens do Palácio, não tardavam a aparecer com suas folhas de cálculos e suas armas poderosas; noventa por cento da riqueza produzida, do animal criado, do peixe pescado, da roupa tecida e do alimento preparado destinavam-se aos silos, depósitos e cofres Reais. O construtor, o artesão, o agricultor, pescador, pedreiro, tecelão, ceramista, vendedor, cozinheira, todos deviam serviços e impostos ao Governo. As águas são limpas, a mata está de pé, a fauna local é variada e riquíssima, mas os homens, observa Ana, com os olhos tristes, parecem ter perdido sua liberdade. Não lhes pertence o fruto do seu trabalho, não lhes pertence, pois, a vida que tem. Lembra-se da Rainha. Seus olhos lampejam. Sente um tremor nas mãos e um calafrio percorre cada músculo do seu corpo franzino. Tropas oficiais, montadas em cavalos robustos e brilhantes, desfilam em vários trechos da estrada. Não era raro vê-los transportando grandes jaulas, com prisioneiros, escravos, ladrões, com aqueles que ousaram contrapor-se às forças do Estado. A paisagem é sempre um desafio. Admira-se com os afazeres dos homens, os movimentos das mulheres, as brincadeiras das crianças, encanta-se com as cores das roupas, com o espelho das águas, a densidade das matas, e os sons, que as espécies nativas emitem, quando longe do burburinho das multidões. A natureza é pródiga. Por que são tristes os homens, por que a mesa é mísera? Intriga-se Ana. Como pode? Se fartas são as terras e as águas e fortes são os homens, por que a miséria é tanta? Os tributos cobrados pelo Estado eram cada vez mais altos e a população já não via mais como os pagar. Viviam uma vida miserável, e o pouco que lhes restava, era o mínimo para sobreviver. Em todas as profissões e ofícios. As carências materiais que os impossibilitavam de pagar em dia os pesados impostos, levavam-nos a um estado de penúria que, em muitas ocasiões, resultavam em escravidão ou a prisão. Vítimas destas condições, muitos caíam para não mais se levantarem. Famílias eram desfeitas, prisioneiros jamais eram libertados, homens desapareciam, levados para os trabalhos mais perigosos e arriscados que há, e vários ataques violentos eram ordenados pela Rainha, para que o povo, não se esquecesse, quem é que mandava por ali. Assim funcionavam as coisas no Reino. Ana se entristecia ao perceber, que todos naquela localidade, estavam sob o jugo da autoridade maior, daquele Estado, implacável, que não permitia desvios, que orientava, organizava, regulava, fiscalizava, explorava, reprimia, hierarquizava aquela população de camponeses, que levava uma vida inteira a produzir riquezas para a Corte. A nobreza, responsável pela administração e comando do Reino, controlava tudo o que ali se fazia. Todos os dias, grãos e frutas de todas as espécies, enchiam os palácios e as mesas das autoridades e seus familiares, que viviam em um luxo fabuloso, uma suntuosidade, como os pobres, talvez jamais tivessem visto ou imaginado, lá no canto de suas choças de barro e palha, no fundo da roça. Carnes, de todas as caças e temperos que havia no mundo, para os paladares mais sofisticados e exigentes, das esposas e filhas, daqueles que, de fato, sempre ditaram as ordens e as regras naquele país. Cremes e loções chegavam das partes mais distantes da Terra, para atender ao anseio de beleza, das que mais próximas estivessem da Rainha; joias, as mais valiosas, muito ouro, diamantes e todo o tipo de pedras preciosas, adentravam os grandes portais do Palácio, em um fluxo, que parecia não haver fim. Roupas riquíssimas, cheias de adereços e filamentos de ouro, enchiam os guarda roupas, das damas e donzelas que povoavam os círculos mais íntimos dos Palácios Reais. Perfumes chegavam dos mercados mais distantes do planeta, para perfumar o cotidiano daquelas elites governantes. Os escribas, funcionários graduados, gestores, negociantes, puxa-sacos da família Real, eram os mais abastados. A diferença de estilo de vida desta Corte faustuosa sempre fora perceptível à primeira vista. As faces, dos adultos aos mais jovens, são sempre mais rechonchudas e rosadas, carregam sempre a expressão de satisfação, de estarem bem alimentadas, e o trabalho braçal, pesado, não deixou sequelas ou cicatrizes em sua constituição física. Afora o imenso número de serviçais que os rodeiam, oferecendo todo o tipo de mimos, privilégios e bajulações. Estranho mundo, refletia Ana, e como a vida pode ser desigual. Um turbilhão de ideias e pensamentos reviravam seu espírito. Ela demonstrava uma impaciência grande em sua vontade de compreender o mundo e a natureza dos homens do seu tempo.





Foi um dia cheio de trabalho, havia ajudado a família desde cedo, na lida no campo, era um dia em que a comunidade se dedicava a colheita dos grãos, que os abasteceria de alimentos por um período razoável, mas também os deixariam completamente esfolados, dada as condições duras do trabalho nas lavouras, havia também preparado, na cozinha, junto à mãe, o almoço, ajudado a acender o fogo, a preparar as panelas, e a temperar e acompanhar toda a feitura da refeição. À tarde, ajudou a alimentar os animais e a realizar a limpeza dos currais e estábulos. Fora um dia duro, cansativo. Se já não era um trabalho fácil para os adultos, pior seria para as crianças. Quando as últimas luzes do sol arriscavam-se a se esconderem por detrás das montanhas de pedra, e a noite despontava de uma vez, com uma força hercúlea, e o planeta, dominava e escurecia, as pálpebras de Ana, pesavam sobre seus olhos, uma exaustão física, um afrouxamento dos músculos das pernas e dos braços, depois de trabalhos pesados, levavam-na a um estado de sonolência profundo. Vai até a cozinha, toma um gole rápido de chá, as pernas quase tropeçam em si mesmas ao entrar no quarto escuro, e num gesto automático, veste a camisola, ajeita lençóis e cobertores, e entrega-se a um sono profundo. Um turbilhão de sonhos, uma sucessão de imagens, fenômenos, fatos, os ocorridos e os absurdos, passam ligeiramente, como um filme, em uma espécie de tela, gravados em seu cérebro, quando está a dormir. Cenas confusas, de um segundo a outro, sucedem-se, sem qualquer conexão, em seguida, a aparição de todos os rostos que já viu um dia, todos os parentes, a família inteira, vizinhos, os mais próximos e os mais distantes, os rostos que vira pelos caminhos, quando de suas viagens aos mercados, os soldados, os mercadores, todos, os burocratas da Rainha, e ela própria, a Rainha, que sempre avistara de longe. O ritmo dos sonhos fora intenso, e um suor salgado e frio corria sobre seu corpo quente e úmido. Na terra dos sonhos, deslocara-se, repentinamente, para o meio de um grande deserto. Estranho é, que apesar de nunca ter visto um, ela estava ali, em sonho, bem ao meio de um deles. Sem saber o porquê e para onde, apenas caminhava. Em um determinado ponto, uma pedra negra, imensa e cristalina e cravada na areia quente, colocava-se em seu caminho. Enquanto Ana a apreciava e observava curiosamente, uma voz firme ecoa de dentro dela, quando Ana lhe aproxima as mãos. Ana mantem-se paralisada. Os olhos quase saltam para a fora de suas órbitas, e as pernas são tomadas de um intenso tremor, o susto fora grande. Agita-se na cama, vira-se, enrola-se firme nos cobertores, mas não acorda em momento algum. A voz, altiva e imponente, diz, Não tem do que do que se assustar, garota. Venho apenas lhe contar um segredo. Sua passagem por aqui é rápida, agora mesmo , estará de volta ao mundo, que de fato é o seu, então tenho que me apressar. Sorte sua, transitar por aqui, são tantos os caminhos por que podem percorrer os sonhos, e afinal, vieste até a mim. Não podemos desperdiçar a oportunidade e preciso ser breve, vai que de uma hora para outra vais para sempre. Não se sabe. Uma porta que se abre, o vento que sopra, um barulho na janela. Acorda-se e já era. Não é sempre que retornamos aos sonhos, quando voltamos a dormir, ainda que, vez ou outra, aconteça. Vejo que seus olhos se encantam sempre com as belezas do mundo, mas que também preocupa-se e entristece-se com as injustiças e maldades que vê. Talvez, tenha as qualidades apropriadas para levar o meu segredo. Preciso ser breve, os sonhos são sempre rápidos, por mais longos que pareçam, são efêmeros e passageiros. Preste atenção, menina. Ana ouvia perplexa, mantinha-se paralisada, apenas as mãos que havia se aproximado das pedras, haviam recuado assustadas, ela permanecia praticamente imóvel, desde quando a pedra pusera-se a pronunciar. Sabe a cachoeira, que corre do paredão enorme, atrás da terceira curva do rio, depois da grande lavoura, onde brotam sempre as flores amarelas? Ana, ainda atônita, responde afirmativamente. Um espírito de confiança toma conta de si, e ela diz, alegremente, claro que sim, não apenas esta cachoeira, mas um grande número delas, que vão se sucedendo rio acima. Desde pequena, nado em suas águas e admiro sua beleza. Maravilha, mas tenho que ser breve, o tempo do sonho é talvez tão ou mais instável que o tempo da vida real. Não o temos então, a perder. Ao lado esquerdo da cachoeira do paredão, a das flores amarelas, há um ajuntamento de pedras que se destaca fácil, caso estejamos procurando por elas, pois ao contrário do cinza claro que predomina no local, estas possuem esta mesma cor, que diante de você se apresenta. São pedras negras. Sob elas nasce uma florzinha vermelha, pequena, imperceptível para os olhos menos observadores, geralmente crescem mais ao fundo das pedras, e não se encontram em outro local. Só ali se encontraram delas, e mesmo que as tempestades, os ventos fortes a arranquem, elas sempre brotarão novamente. São flores especiais, e incrivelmente, animais do campo, pássaros e insetos, já a viram e até experimentaram dela, de seu cheiro ou sabor, mas gente mesmo, humanos, nunca se deram conta da sua existência. O que tens a fazer, não é tarefa das mais difíceis, estas, já as realiza no dia a dia. Vá até a cachoeira, apanha uma florzinha apenas, deixe outras no local, para o caso de necessidades futuras, e leve-a até o Palácio e a Rainha. Mas como? Indaga Ana. Não importa, faça-o à sua maneira, mas faça-a chegar até a Rainha. Um pequeno mosquito pousa na face descoberta de Ana e ela afasta-o com os dedos. Ele insiste e pousa sobre ela novamente. Ana acorda.


Irritada com a mosca, ela tenta acertá-la com as mãos, estapeia daqui, estapeia dali, mas o pequeno inseto lhe escapa. Observa pela fresta da janela, que o dia já começa a clarear lá fora e vai até o banheiro lavar-se, pois daqui a pouco a mãe já a acordaria, para o início dos trabalhos, que por ali, sempre começava muito cedo. Ainda absorta pela escuridão do quarto, assusta-se quando abre a porta para ir até o pequeno banheiro e a luz do dia, ilumina lhe de vez a face. Estava de frente ao espelho, observa os cabelos desgrenhados e em seguida, encara a si própria, olhos nos olhos, o que só mesmo os espelhos nos permitem, vermos dentro de nós mesmos, pela fenda do olhar. É quando repentinamente, lhe vem a memória do sonho. A voz. A pedra. Ana não pensou duas vezes, vestiu-se o mais rápido que pode, desculpou-se com a mãe, a quem mal cumprimentou, dizendo que seria breve. Que a perdoasse, mas não tinha como não fazê-lo. Depois conversariam melhor. Sem dar tempo para que a mãe lhe fizesse qualquer pergunta, atravessou rapidamente a porta. Aos saltos, foi até a cachoeira, que não era muito longe, e cujo caminho, sempre percorrera. Não foi difícil localizar o ponto indicado pela voz, pois de fato, incrível, como poderia? Havia mesmo bem ao lado esquerdo da queda d’água, um ajuntamento de pedras negras e cristalinas, que formavam uma pequena loca no paredão cinzento e gigante. Ali estavam as florezinhas vermelhas. Ana apanha uma apenas, havia cerca de duas dezenas delas, amontoadas no fundo das pedras, e como bem dissera a voz, no sonho, não era mesmo fácil encontrá-las, se não se estivesse à sua procura, pois pareciam esconder-se aos olhares, no fundo da pequena gruta de pedras escuras, úmidas e escorregadias.


Ana, porém não sabia como realizar a próxima etapa da tarefa que lhe fora atribuída. Como aproximar-se da Rainha? Seria impossível. A distância que a separa de seus súditos sempre fora enorme, não apenas em relação ao seu estilo de vida, a riqueza, o luxo e a suntuosidade em que vivia, mas estava sempre fortemente protegida, seja pelas grandes muralhas de seu Palácio, seja pelo enorme número de soldados que a rodeiam em suas aparições públicas. Além do mais, entregar-lhe qualquer objeto, produto ou mesmo uma flor, poderia ser interpretado pelas leis, que ela mesma fazia, como um ato ofensivo, o que poderia condenar-lhe a uma vida eterna nas masmorras ou mesmo a pena de morte. Como fazê-lo? De qualquer maneira, a voz do sonho, a voz das pedras, havia dito que fizesse á sua maneira, lembrou-se, e talvez nada mais pudesse fazer, que simplesmente plantar a florzinha, próximo às grandes muralhas do Palácio. Não parecia mesmo haver melhores ou mais viáveis alternativas. Talvez nem devesse arriscar-se tanto em uma ação, que sabe-se lá, que vínculo teria com seu mundo real. Mas seja lá como for, e disto não poderia se esquecer, a aparição havia acertado. As flores realmente existiam e estavam onde ela dizia estar. Ana não teve dúvidas. Percorreu trilhas e estradas, andou algumas horas, dobrou curvas, subiu e desceu montes, e por fim, pôs-se à frente do Grande Palácio, com a pequena flor, acomodada entre os dedos. Não era a primeira vez que via o Palácio, a bem da verdade, ele sempre era visto por aqueles que atravessavam o território, levados pelo comércio. Mesmo quem não passasse próximo de seus muros, o via à distância, pois por um ângulo amplo da região, suas torres, mastros e insígnias, nunca escapavam aos olhos dos viajantes. Ana já havia estado bem próxima daquelas muralhas, mas a cada vez que se aproximava, era tomada de um sentimento de pânico, de pequenez diante da grandeza dos Reinos e dos homens, aliada a um temor incontrolável que lhe causava calafrios, ao topar-se com os gigantes que faziam a sentinela. Pareciam não ter fim. Era difícil dar qualquer passo, sem ser observada, estavam em todos os lugares e tinham um rosto de pedra. À primeira vista, parecia não haver diferença entre eles. Tinham a face dura e os olhos parados. O cinza-mofo dos uniformes, onipresente, fazia dos arredores do Palácio, um território sempre descolorido e sombrio. Mas à diferença, das vindas e passagens anteriores, Ana desta vez, caminhava determinada e pensava, que diante deste desafio, que até lhe parecia simples, nada iria detê-la. E assim o fez. Arrancou uns montículos de uma terra escura e fértil que sustentava um amplo gramado, ajuntou-o a um canto daquele muro alto e longo, e ali, rapidamente, plantou a pequena flor vermelha, nascida no seio das pedras negras da cachoeira do paredão. O gesto passou praticamente despercebido pelas forças de segurança, pelas sentinelas e vigilância, pois era comum que, principalmente crianças, atrevessem-se a tocar as muralhas gigantes, dada a curiosidade ingênua que carregam, o desejo das brincadeiras ou o desafio diante do que lhe é novo. Bobagem seria, ter que abandonar o posto, mobilizar a guarda, toda vez, que uma criança tocasse o cal branco das paredes inquebrantáveis que guardavam a morada grande e os tesouros da Rainha. Mas acontecia de até mesmo as crianças, serem alvo da pontaria das armas mortíferas, que os brutamontes portavam. Bastava às vezes, que um jovem se aproximasse, e duas ou três armas pesadas eram apontadas para ele, não que disparassem sempre, mas o temor ao Governo, deveria ser incutido, semeado desde cedo, para que crianças e jovens, ao crescerem, não ousassem facilmente desafiá-lo. Assim se constituem os poderes na maior parte do mundo, e em qualquer tempo da história. Armas, o terror, ameaças, intimidações e desaparecimentos sempre são usados pelos Estados para manterem seus súditos, em estado de completa submissão. Ana não fora perturbada ao plantar sua flor. Seu gesto foi tão leve e rápido, que a vigilância sequer percebeu. Missão cumprida, volta alegre e reflexiva para casa. Afinal, para que teria feito o que fez? O sonho não lhe deixava dúvida, não havia alternativa, não deixaria de fazê-lo, mas por quê? Passados sete dias, os sonhos não voltaram a perturbá-la, mas também não havia qualquer resposta para a sua aventura. À noite, ao deitar-se, antes mesmo que houvesse se preparado de todo para dormir, uma sonolência profunda, a puxara para a cama e, mais outra vez, exausta, encosta-se sobre os travesseiros, e seus olhos, soltos nas órbitas, quase desaprumados, transitam entre o sono e a vigília. A mosca solta um zumbido lento e contínuo ao pé de seu ouvido. Ela vira-se, quase já sem o perceber, e lentamente, como um último lampejo de força que ainda lhe restava, arma uma força propulsora com os dedos, e a enxota, em definitivo, para longe do quarto.





Uma pequena tropa de mensageiros reais, montados em cavalos ricos em adornos e brasões, percorrem rapidamente as ruas de terra da aldeia, levantando atrás de si uma poeira fina, transformada em nuvem, que podia ser vista, a muitos metros de distância, e pelas cores das grandes bandeiras flamejantes, que traziam atadas às selas, era notícia de interesse para todo o Reino. Aos gritos e ao som de cornetas potentes, anunciavam que a Rainha convocava todos os súditos, do extremo norte ao extremo sul do país, para um pronunciamento histórico urgente, que faria dos portões de seu Palácio. Toda a população deveria estar presente. Inúmeros mensageiros foram enviados para percorrerem cada canto do Reino, todos seriam comunicados, e a presença era obrigatória. Doentes foram perturbados em seus leitos, agricultores estacionaram as enxadas, pescadores tiraram os anzóis das águas, as donas de casa abandonaram seus afazeres, meninos e meninas paravam as brincadeiras, até os cães e cavalos, faziam reverência à passagem da comitiva Real. Procissões de famílias, grupos grandes e menores, grupos de crianças, senhoras, idosos, uma população inteira dirigia-se para as portas do Palácio, coisa que nunca ocorrera, desde os tempos em que a memória coletiva alcança. Multidões se deslocavam rapidamente, sem entender exatamente o que ocorria ou o que os esperavam. Muitos resmungavam por terem de abandonar tarefas importantes, muitos outros se perguntavam o que pretendia o Governo, outros se preocupavam, não seria talvez mais uma de suas armadilhas, aumentar os valores dos impostos, a carga de trabalho obrigatório, endurecer os contratos de servidão? Estaria mais uma vez o Reino em guerra, e seriam todos convocados para lutarem nos campos de batalha, com os armamentos precários que normalmente são distribuídos para a maioria dos combatentes? Estavam todos apreensivos. A família de Ana, entre os parentes mais próximos e os mais distantes, formava um grupo numeroso e caminhavam praticamente juntos e estavam particularmente falantes. Havia os que conversavam sobre os assuntos do cotidiano, sobre questões menores da vida, questiúnculas familiares e outros que discutiam tanto questões filosóficas quanto questões de governança, como as perspectivas políticas postas com o esperado pronunciamento Real. O grupo também fora tomado pela ansiedade do que estava por vir. Ana parecia perdida em seus pensamentos. Não conseguia concentrar em nada que via ou ouvia. As imagens e possibilidades vinham à sua mente, embaralhadas. Não conseguia encontrar ordem no caos em que se transformaram suas ideias. Mas as imagens das pedras negras e cristalinas, as palavras do sonho e a aventura que realizou , atormentavam-na. Voltaria ao Palácio, em convocação oficial, uma semana após ser convocada a fazê-lo por uma voz saída das pedras dos sonhos. Não sabia o que pensar. O turbilhão de imagens, dúvidas e pensamentos, deixava-lhe um pouco fraca e febril. Prosseguiam.

Já havia uma pequena multidão se formando, quando Ana se aproximou do Palácio. Procurava observar a tudo e a todos. Procurava explicações na fisionomia de cada um que ali se reunia, e não encontrava sequer uma sombra de resposta. Mas ao aproximar-se um pouco mais, e deparar-se com as muralhas, praticamente entra em estado de choque. Quase metade da grande muralha havia sido tomada pelas flores vermelhas que havia plantado. Do chão, subiam para as paredes, e faziam um grande cinturão florido, que proporcionava um aspecto inédito, para aquela massa branca de cal, sempre sombria e sem cores. As mãos de Ana tremiam. Como teriam crescido tão rápido? Como uma plantinha pequena, retirada dos mapas dos sonhos, cobrira tão rapidamente os muros e os arredores do Palácio? Quando toda a área à frente dos grandes portões enchera-se de gentes, provenientes de todos os cantos do país, uma multidão curiosa, que cobria campos e montanhas, as cornetas anunciaram a chegada da Rainha. Não vinha só, quando atravessava os portões, mas acompanhada de um enorme séquito, formado por ministros, secretários, bajuladores, chefes e gerentes dos mais variados setores, parentes próximos, burocratas, escribas, enfim, uma multidão de autoridades e funcionários do Reino. Para o espanto maior de Ana, a Rainha aparecera com um toucado confeccionado com as flores vermelhas, originárias da cachoeira do paredão e das pedras negras do sonho. Após saudar a multidão, dá início ao esperado pronunciamento. De hoje em diante, dizia, com os peitos cheios e a voz firme, a Realeza não mais existirá. Esta nação se converterá em uma pátria de homens livres, e não pensem que é um ato isolado de uma rainha enlouquecida, nisso já estamos de acordo, as maiores autoridades que agora me acompanham e podem ver aqui ao meu lado. O que significa que foram abolidos, da noite para o dia, os marcos e os títulos de propriedade, a terra, este bem, de onde todos tiram trabalho e sustento, não mais pertencem ao Estado ou a pequenas elites, estas entidades, foram desmontadas. A terra é um bem comum. Fica abolido o trabalho forçado e todas as modalidades de servidão, o trabalho deverá libertar nossas forças e não mais aprisioná-las. Os impostos e taxações foram eliminados, e as obras ou bens de que necessitarmos, serão construções coletivas, organizadas em mutirões. Todos os armamentos e munições, oficiais ou particulares, deverão ser destruídas antes que o dia termine. Haverá um grande evento de destruição das armas. Este Palácio, símbolo de opressão eterna, será desmontado, pedra por pedra, e apenas as flores permanecerão. Os grandes silos, os salões Reais e os tesouros foram todos abertos, e uma última equipe de funcionários, deverá repartir entre todos, considerados um a um, toda a riqueza, que existe no que até ontem, constituía um Reino. Após a distribuição completa da riqueza que temos, esta última equipe desaparecerá e junto dela, o Palácio, o Poder Real, e tudo o que pode lembrar o Estado e as fontes de injustiça. A Rainha levanta o braço, saúda a multidão e ordena que sejam todos livres. A maquiagem borra seu rosto suado. Antes de retirar-se e dar as costas para a multidão, a Rainha, procura os olhos de Ana, fita-os e pronuncia suas últimas palavras, Não sabem o poder e a força que tem a mágica dos sonhos. Em um último gesto inesperado, abre espaço entre a multidão, aproxima-se de Ana, e sem mais uma palavra sequer, tira uma flor do seu toucado e a coloca entre os cabelos volumosos da garota, que se mantinha imóvel. As duas sorriem uma para a outra e, em direções opostas, cada uma seque seu caminho. O Palácio, em poucas horas, fora desmontado. A própria Guarda se encarregara do serviço. Os arquivos, documentos, registros, títulos, os livros com as contabilidades e as contas, foram postos à praça. A população, em júbilo, organiza-se em grupos e comissões e repartem o que é seu. As terras sempre foram prósperas e dadivosas, os campos férteis, as águas volumosas, límpidas e puras, a floresta esplendorosa, além das flores que brotavam dos sonhos. Estas espalharam-se por todas as partes, por todos os lugares, pelas margens dos rios e córregos, nos planaltos e planícies, dos pés aos topos dos montes, nos campos abertos e nos fechados, nas áreas iluminadas e nos pastos escuros, nos territórios verdejantes e nas paragens desérticas. As famílias, livres do trabalho servil, e do peso do poder Real, eram saudáveis e felizes, o alimento tornara-se farto e o tempo já lhes permitia dedicarem-se à arte, à poesia.  Aquela nação, de flores vermelhas, espalhadas dos sonhos, viveria séculos e séculos de prosperidade e Ana, dormiria em paz.



Marcos Vinícius.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A quem pertence o tesouro do San José?



Em 1708, navios de guerra ingleses, em um cerco de aproximadamente noventa minutos, bombardeiam e afundam o galeão San José, que ia do Panamá à Espanha, com um carregamento de 200 toneladas de prata, ouro e pedras preciosas, avaliado, em valores atualizados, em torno de 60 bilhões de reais. Era apenas uma embarcação, dentre tantas outras, que ao longo de séculos, levavam fortunas incalculáveis, arrancadas das minas da América, para a Europa, frutos de um saque sistemático, onde eram retiradas não apenas as riquezas naturais do continente, mas a vida de populações ameríndias inteiras, sacrificadas nas guerras de conquista ou no trabalho exaustivo, escravo, realizado nas entranhas da terra, de onde eram retirados os valiosos metais. Comentavam-se à época, que foram tantas as toneladas de prata transportadas da América para a Espanha, que daria para se construir uma ponte deste precioso metal, ligando um continente a outro. A riqueza levada de uma parte do mundo para outro, resultou, séculos depois, em prosperidade para uns e miséria, morte e genocídio para outros. A prata e o ouro, que chegavam à Europa, em uma avalanche, que parecia não haver fim, possibilitaram um inédito desenvolvimento econômico, que levaria não apenas a uma grande acumulação de fortunas, como a um acelerado desenvolvimento tecnológico e industrial, que em última instância, resultou na consolidação de um sistema socioeconômico, o capitalismo, que transformaria a Europa e, posteriormente, os Estados Unidos, nas maiores potências econômicas da Terra. Em contrapartida, a exploração sistemática das colônias no ultramar, seja através do saque aos recursos naturais ou da escravização das populações nativas e africanas, levou ao desaparecimento de povos inteiros. A população nativa, da região do Caribe, onde aportou, em 1492, à época do descobrimento, Cristóvão Colombo, onde hoje está o Haiti e a República Dominicana, em fins do século XVI, havia praticamente desaparecido. Assim como no vale do México, onde florescera uma sofisticada civilização, em um período de aproximadamente cem anos, mais de vinte milhões de indivíduos, entre homens, mulheres e crianças, foram brutalmente exterminados. A colonização do continente americano, ameríndio, levada a cabo pelas expedições e forças armadas espanholas, configurou-se, o maior genocídio da história da humanidade.


Em fins de Novembro de 2015, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, anuncia que o galeão, afundado em 1708, após anos e anos de buscas infrutíferas, é finalmente descoberto pela Marinha Colombiana, nas proximidades de Cartagena. Não é de hoje que o tesouro submerso alimenta o imaginário da população local. Gabriel Garcia Márquez, prêmio Nobel de Literatura, faz referência a ele em seu romance “O amor nos tempos do cólera”. O protagonista da história, Florentino Ariza, vítima de uma paixão platônica, que duraria uma vida inteira, mas que só iria às vias de fato, em sua velhice, sonhava encontrar o tesouro para “banhar de ouro Fermina Daza”, sua amada. Em uma passagem do romance, Gabo escreve: “Aquela fortuna jacente em fundos de corais, com o cadáver do comandante flutuando adernado no posto de mando, costumava ser evocada pelos historiadores como o emblema da cidade afogada nas recordações”. Uma vez localizada a embarcação, segundo técnicos, ainda afogada em “águas profundas”, já se inicia uma disputa em torno dos direitos de propriedade. “É um patrimônio colombiano para os colombianos. Agora muitos vão se dizer donos do navio, mas pertence à Colômbia”, afirma o presidente Manuel Santos. “Trata-se de um barco de Estado, e não um navio privado. Há uma titularidade de Estado onde quer que ele esteja”, diz, em contrapartida, o chanceler espanhol, José Manuel Garcia-Margallo”. Já o presidente do Equador, Rafael Correa, teria dito ao presidente Santos, durante a cerimônia de posse do presidente argentino, Maurício Macri, que o tesouro do San José, deveria ser repartido entre todos os latino-americanos, uma vez que a fortuna é proveniente de diversos países da região, quando sob o domínio espanhol, argumento com o qual estaria de acordo o presidente do Peru, Ollanta Humala.



Em se tratando de tão grande fortuna, obviamente, a polêmica dificilmente se esgotará, inclusive, até norte-americanos, através de uma empresa privada, já teriam reivindicado sua propriedade, alegando terem contribuído para a rica descoberta, o que já foi descartado pelos tribunais competentes. Qual seria então, a forma mais apropriada para se solucionar a pendenga? A quem de fato deveria ser entregue o direito de propriedade e usufruto do tesouro descoberto? Injusto seria resolver a questão sem levar em conta o contexto histórico em que se deu o naufrágio. O afundamento se deu no dia 08 de junho de 1708, portanto, há mais de trezentos anos, e quando já se completavam duzentos e dezesseis anos da chegada das primeiras expedições europeias no continente americano, portanto, em uma época em que a empresa colonial espanhola na América já estava bem consolidada. Passados trezentos anos, não é difícil realizar um balanço da herança dessa empreitada para as populações nativas. A miséria e o subdesenvolvimento a que estão submetidas as populações da América Latina tem suas raízes mais profundas no processo de espoliação implementado pelas grandes potências estrangeiras; a princípio, pelas nações europeias, e posteriormente, após as grandes guerras mundiais, pelos EUA. Qual a região mais afetada por este domínio secular? Quais são os povos da América que mais duramente sofreram as consequências deste perverso sistema colonial? Adotando como princípio uma perspectiva de justiça histórica e uma ética humanitária, talvez o maior merecedor do tesouro recém-descoberto seja o Haiti, país mais pobre de todo o continente americano e, aparentemente condenado a uma situação de caos e miséria, como talvez não se conheça em todo o Hemisfério Ocidental. Localizado na ilha caribenha de São Domingos, onde aportou a expedição de Cristóvão Colombo, o Haiti, realizou a mais extraordinária revolução de independência de todo o continente, onde o processo revolucionário, ao contrário do viria a ocorrer nas demais colônias, esteve sob a liderança das classes populares e  ex-escravos. Primeira nação independente da América Latina, foi também a primeira do mundo a abolir a escravidão e a primeira República negra da História da Humanidade. Tamanha ousadia não seria tolerada pelas elites do Ocidente. Sob o cerco da França, se viram forçados a uma indenização de cento e cinquenta milhões de francos, dívida pesadíssima, aviltante, da qual se livraram apenas em 2010, após o terremoto que deixou um saldo de cerca de trezentos mil mortos e um milhão e meio de desabrigados. Ao longo do século XX, o país esteve sob o governo de ditadores sanguinários, fantoches do poderio norte-americano. Afinal, a punição ao Haiti, deveria ser exemplar, e as grandes elites econômicas, brancas, os donos do mundo, nunca permitiram que os haitianos voltassem a se levantar. Centenas de milhares de crianças no Haiti Contemporâneo são submetidas à condição de empregados domésticos, sem remuneração, em uma nova modalidade de escravidão, o país não tem coleta de lixo e o esgoto corre a céu aberto em todas as cidades. Metade da população não tem acesso à água potável e apenas vinte por cento dela tem acesso ao sistema de saneamento básico. Com uma sociedade predominantemente rural, onde a maioria absoluta da população vive no campo, o país importa oitenta por cento dos alimentos que consome. Esses são apenas alguns números e dados que dão uma clara demonstração da situação de penúria em que vivem os haitianos e da tragédia histórica a que estão condenados. Diante do quadro dramático, herança perversa de um passado colonial ainda vivo no cotidiano desta gente, nada mais justo, que o tesouro de Cartagena, seja destinado, se não a compensar os malefícios, o que é impossível, dadas as vidas e possibilidades já perdidas, mas a prestar algum socorro, em caráter emergencial, ao povo, praticamente esquecido, da Ilha de São Domingos. 


Marcos Vinícius.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Fica, Mujica!




Não sou dos que defendem a abertura de processo de impeachment contra a presidente Dilma, pelo menos, enquanto não se encontre qualquer procedimento que a vincule diretamente aos esquemas de falcatruas. Por mais que o governo de plantão cometa estelionato eleitoral, prometendo uma coisa e fazendo outra, não acho que trocar de presidentes possa ser algo tão banal, e até onde sei, a mandatária, além de toda gritaria midiática, ainda não teve, quer queiramos ou não, seu nome atrelado a qualquer uma das grandes linhas de investigação dos esquemas de corrupção no país. Até que se prove o contrário, a presidente tem todo o direito de prosseguir em seu mandato, não só por ela mesma, mas também em respeito aos milhões de votos que lhe foram dados no último pleito, e ao contrário do que muitos imaginam, não apenas pelos nordestinos, mas em cada cidade deste país. Afora isto, as perspectivas são mesmo desalentadoras, nos mais variados aspectos, somos um povo, praticamente, sem perspectivas econômicas, distributivas ou políticas, não apenas pela conjuntura internacional, que não deixa de ter sua relevância, mas também, pela nossa incompetência cívica em possibilitar alternativas, haja vista, o Congresso Nacional que acabamos de eleger, um dos mais reacionários e corruptos de nossa depauperada história. Diante da falta de quadros ou sonhos, sugiro então, que criemos já a partir do último ano do governo Dilma, uma grande campanha, pelo Brasil afora, “Fica Mujica”, um apelo que faremos de povo para povo, um pedido de empréstimo, dos brasileiros para os uruguaios, que nos empreste o seu ex-presidente. Afinal, não apenas somos hermanos latino-americanos, como vizinhos fronteiriços. Quem sabe, como nunca se viu na história deste país, poderíamos usufruir de um presidente, mesmo que não originariamente nosso, mas que pudesse afirmar, após encerrar um período de dois mandatos consecutivos, sem qualquer constrangimento, como o fez em 29 de Agosto, em São Bernardo do Campo, “Não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar a nós mesmos. Se começamos a mudar, sobretudo os que estão nos partidos, se entende que num partido não se ganha dinheiro, não se deve enriquecer.” Mujica não acumulou fortuna, faz doações de parte de seu salário, fez avançar pautas progressistas e sua vida simplória conquistou a simpatia do mundo inteiro. Lançada então, a campanha, Mujica, presidente do Brasil.



Marcos Vinícius.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Vôo da borboleta



A borboleta, esvoaçante e colorida, pousa, levemente, sobre o galho fino da árvore frondosa, de tronco robusto, universo de biodiversidades, imaginando que nenhuma outra obra da criação trouxesse tanta beleza quanto às asas exuberantes com as quais havia nascido, e dali, vai brincando com as folhas, rodopiando, bailando entre as flores, desviando-se das teias e dos insetos. Ao virar-se para um galho superior, depara-se com um pequeno primata arborícola alimentando-se de sementes e o indaga, vaidosamente. O que fazes aqui criatura, se a natureza por aqui lhe quisesse, teria lhe dotado de asas, um ser voador, não um mamífero peludo de quatro patas e olhos esbugalhados. Vê estes olhos? Responde o animalzinho. Serve-me muito bem para orientar-me no escuro das copas, entre as criaturas da noite e no conforto das alturas. Vê estes galhos, troncos, tocos e ramos? Nunca percebeu que são também caminhos? A borboleta não respondeu. Pois é, a natureza os preparou para nós.


Marcos Vinícius.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Os refugiados do sul da Ásia e o sadismo requintado.



Cerca de 300 imigrantes, entre homens, mulheres e crianças, pedem socorro no Mar de Andaman, a poucos quilômetros da costa da Tailândia, no sul da Ásia, em um barco à deriva, cujo resgate acaba de ser negado pelas autoridades tailandesas. “Negamos a eles a entrada no país, mas lhe demos alimento e água em respeito a nossa obrigação em relação aos direitos humanos”, diz Puttichat Aknachan, general da polícia regional. Seus tripulantes, provenientes de Mianmar, foram abandonados pelos que deveriam conduzi-los clandestinamente até a Malásia, onde sua entrada também não é permitida. A Malásia também tem devolvido os refugiados ao mar. Ainda hoje, dois barcos foram enxotados do país com mais de 600 tripulantes. “Nós não deixaremos nenhum barco estrangeiro entrar no país. A não ser que o barco esteja naufragando ou sem condições de navegar, nossa Marinha dará provisões e depois mandará os imigrantes embora” afirmou o primeiro almirante da Marinha malasiana Tan Kok Kwee. A situação destes homens, mulheres e crianças é de penúria total e devolvê-los ao mar é condená-los à morte. Há dois meses estão no mar e aproximadamente 100 deles morreram durante a viagem. Estão famintos, doentes, as mães estão em prantos, e as crianças, em desespero e amedrontadas, pedem ajuda. Não terão. O poder, seja lá onde for, aqui entre nós, ou do outro lado do mundo, raramente faz-se generoso e costuma exercer-se perverso e sádico. Os semi-náurfragos de hoje são vítimas de um mundo globalizado, onde o dinheiro, o capital, possuem liberdade absoluta para transitarem por onde lhes for mais conveniente ou lucrativo e as fronteiras nacionais há muito deixaram de existir, mas as gentes, os homens de carne e osso, estão condenados a cercas, muralhas e obstáculos de toda natureza, que os impedem de uma vida minimamente digna, onde quer que seja. Calcula-se que aproximadamente outras oito mil almas estão também à deriva na Bacia de Bengala, nas proximidades de Bangladesh e Mianmar, de onde provém, sem a menor perspectiva de resgate ou socorro humanitário. Muitos deles são Rohingyas, segundo as Nações Unidas, um dos povos mais perseguidos do mundo, uma minoria “sem amigos e sem terra”. A maioria deles vive em Mianmar, antiga Birmânia, onde são considerados apátridas, não tem direito à cidadania, são proibidos de se casar ou viajar sem permissão das autoridades, não tem o direito de possuir terras ou propriedades e são vítimas eternas de ataques violentos de extremistas que exigem que deixem o país. A bandeira dos extremistas, próximos aos centros de comando, é a deportação em massa. Em 2012, duas ondas de violência se abateram sobre estes miseráveis, deixando um saldo de cento e quarenta mortos e mais de cem mil desabrigados. Bangladesh, oitava maior população do mundo, tem a maioria de sua população vivendo na pobreza extrema, onde mais de 52% do povo, não sabem ler ou escrever. Segundo especialistas, a região é uma das mais vulneráveis do planeta às mudanças climáticas e estudos recentes apontam que estas vem afetando de forma dramática a vida humana, com prejuízos na agricultura, redução dos níveis de água potável, com altíssimo grau de contaminação por arsênico, redução da segurança alimentar e das possibilidades de abrigo. Estudiosos têm chamado estes novos migrantes, de refugiados climáticos. Provenientes de uma terra que não lhes cabe, navegando à deriva, apinhados em embarcações rústicas e clandestinas, famintos e doentes, mulheres e crianças, sem um porto possível, são o retrato atualizado de uma humanidade que, apesar de todo o desenvolvimento técnico e científico, não deu conta de suas contradições mais elementares. Uma humanidade, que já há tempos, tornou-se descartável, uma civilização repleta de becos sem saída, uma ciência, cada vez mais subserviente ao mundo dos negócios, e o poder, este sim, detentor de um sadismo, cada dia mais requintado.

Marcos Vinícius.


                                    

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A crise hídrica e a Idade dos porcos.





Isto mesmo, vamos todos fechar as torneiras, aterrar as praças, os jardins públicos, afinal, as plantas e flores consomem água em abundância, e sob hipótese alguma, podemos desperdiçá-la. Talvez devamos também, não apenas devido à escassez, mas por espírito cívico, lavarmos nossas roupas, sem antes usá-las, por um período mínimo de uma semana, reduzirmos não apenas o desperdício, mas, inclusive, necessidades básicas, lavarmos o piso da cozinha e do banheiro, apenas depois que o lodo comece a nos ameaçar com escorregões e quedas, e até mesmo eliminarmos este vício selvagem, que herdamos dos índios, de tomarmos banhos diariamente. Lavar calçadas, refrescar-se sob o chuveiro nos dias de calor intenso, são sacrilégios, que apenas os mais irresponsáveis, deverão cometer. Afinal, se já produzimos tanto lixo, nada mal que convivamos com ele. Talvez seja o momento, que nossa espécie, sempre tão resistente em compreender nossa natureza simiesca, tenha que enfim, defrontar-se com sua condição suína. Não é de todo o mal, que nossa civilização, já habituada ao fedor industrial, seja toda ela, uma grande pocilga humana, onde turbas de fedorentos, aprendam umas com as outras, a tratar de suas caracas e cascões.  Quanto ao esgoto atirado sobre nossos rios pelas indústrias e corporações, com seus dejetos químicos, tóxicos e à ação avassaladora das mineradoras contaminando fontes e nascentes, dinamitando cachoeiras e mananciais, não há qualquer problema, afinal, são a base econômica do nosso mundo contemporâneo. Nosso modelo de desenvolvimento fundamenta-se no espectro da devastação. Não há problema, e nem há necessidade de se falar nisto. Nossa natureza econômica faz-se com o fim de nossos recursos naturais. Não há problema que as mineradoras transformem nossos territórios em cenários de fim de mundo, dinamitem, explodam, matem, transformem paraísos naturais em crateras e desertos, a exportação do minério não pode ser interrompida. Não há sequer, que se lembrar disto. Não há que tocar no assunto, afinal quem possui mais forças que o mercado? A propósito, em um futuro não muito distante, deveremos também, eliminarmos não apenas qualquer noção de assepsia, mas reduzirmos o tempo do nosso sono, pois com as crises constantes do sistema, e com a economia, sempre ameaçadora, talvez fosse mais apropriado, que dormíssemos noite sim, noite não, ampliando nosso período de vigília, aumentando as jornadas de trabalho, para que a indústria, o capital, estes sim, possam sempre prosperar. Talvez a etapa mais recente da acumulação capitalista, que agora se processa e constitui, nos atire, a todos, em um mundo de porcos e zumbis.


Marcos Vinícius.











sábado, 22 de novembro de 2014

Fala sério, presidenta!



Fala sério, presidenta!


Desde que passei a conhecer um pouco sobre a história do Brasil, sempre acreditei ser completamente impossível garantir qualquer tipo de crescimento econômico com justiça social, sem que antes se efetive uma reforma agrária, que sepulte de vez, a perversa estrutura fundiária do nosso país. A altíssima concentração de terras, institucionalizada por séculos, talvez seja, um dos principais fatores responsáveis pelo nosso subdesenvolvimento crônico, pela pobreza profunda e a escassez absoluta, marcas registradas de nossa história de longa duração. O latifúndio é a fatalidade que fez do país, do Descobrimento para cá, terras da fome. Gerações e gerações de miseráveis e famintos, sujeitos ocultos de uma história muitas vezes silenciada, são o resultado de uma política agrária que expulsou uma humanidade do campo e transformou as cidades brasileiras em réplicas de um inferno completo. Guerra urbana, violência generalizada, modernas modalidades de escravidão, poluição, falta de moradia, transporte, condições de higiene e saúde, enfim, todos os males que transformaram nossas cidades, onde se concentram mais de setenta por cento da população brasileira, em formigueiros humanos, territórios apinhados de gente, onde nos acotovelamos uns aos outros, tem suas raízes históricas mais profundas, no latifúndio, que a todos engole. Nas grandes propriedades de terra de nosso país, já conhecido por suas dimensões continentais, não cabem mais as gentes, são territórios do agronegócio, do desmatamento, do gado gordo e povo esquálido, pastagens que são países, territórios da mineração, que fazem desaparecer nossas serras, sítios arqueológicos, mananciais, infinitas modalidades de vida. Somos uma sociedade em movimento e a luta pela terra no Brasil, sempre fez um número apocalíptico de vítimas. São incontáveis os trabalhadores rurais, homens do campo, sem-teto, sem-terra, expropriados de toda ordem, que tombaram vítimas da truculência sempre muito bem armada dos grandes proprietários. Foram inúmeros os movimentos que se constituíram ao longo dos séculos na busca por justiça social, pelo direito a terra, ao trabalho, ao alimento e a um mínimo de dignidade. Inúmeros os mortos.


Não é novidade para ninguém que a ausência total de escrúpulos já faz parte, também há muito tempo, de nossa corrompida cultura política. Não é novidade alguma, que o atual governo, petista, de nossa tão vilipendiada República, é refém não é de hoje, além de si próprio e suas contradições, da sanha de fisiologismos, esquemas e negócios do PMDB. O partido, pode se dizer, é aliado antigo. É sabido que PT e PMDB, apesar dos conflitos e guerras intestinas, já se imbricaram em uma relação praticamente simbiótica. Agora, nomear a senadora Kátia Abreu para Ministra da Agricultura é escárnio, não apenas pelo que ela representa, mas pelo símbolo em que se transformou. Kátia Abreu é a representante maior da bancada ruralista no Congresso Nacional, do agronegócio, das sementes transgênicas; articuladora, porta-voz, testa de ferro, do que há de mais atrasado e perverso em nossa agenda política. Ao optar pela senadora para o controle da pasta responsável pela questão agrária, a presidenta Dilma transmite um inequívoco e lamentável sinal. Não bastasse a eleição de um dos Congressos mais reacionários das últimas décadas, a presidenta dá uma imperdoável guinada à direita, oferecendo aos movimentos populares e aos lutadores sociais, e principalmente, a muitos de seus eleitores, a ressaca de uma derrota, quiçá mais apropriada para seus adversários, recentemente abatidos nas urnas.

Marcos Vinícius.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Onde vamos?




Onde vamos?



Há sempre quem pergunte qual é a moral da História. Muitas das vezes, quando lemos ou ouvimos uma história qualquer, ficamos nos perguntando, o que há por trás dos fenômenos narrados, que lição o autor pretende passar, o que podemos extrair das entrelinhas, das intenções não explicitamente reveladas, que segredo, mistério ou mágica estarão nos aguardando linhas e palavras à frente? Como se cada história que se conta ou se ouve fosse sempre carregada de segundas intenções, caixas-pretas, onde se diz uma coisa, para no fundo, afirmar o seu contrário, onde se revela para esconder e se esconde para revelar. Sim, é lá na frente, no final, que tanto o autor e o observador têm que juntar todas as peças espalhadas ao longo do enredo, e chegar a um desfecho minimamente lógico ou compreensível. É lá nas linhas finais que a complexidade da história deverá se amarrar, quando o suspense estará concluído, as dúvidas dirimidas, as verdades expostas, e toda a conjuntura, real ou fictícia, atingirá sua dimensão conclusiva. Ali estará sua moral, carregada de simbologias e significados.


Poucas imagens são tão divulgadas e conhecidas como retrato da história da evolução humana, quanto aquela que traz uma sucessão de desenhos de nossos antepassados, desde os mais antigos, até nossa moderníssima espécie sapiens sapiens, em fila indiana, numa escala temporal de alguns milhões de anos. Os primeiros são antropoides primitivos, comedores de raízes, que se arrastam pelo chão; em seguida, nossos ancestrais, peludos e selvagens, vão aos poucos, deixando de curvarem-se ante as violentas forças da natureza e já encaram os inimigos de pé, com o peito aberto, e as mãos livres para a manipulação de ferramentas e armamentos rudimentares. Tem o cérebro menor, e nada mais natural que se pareçam infinitamente menos inteligentes que o homem moderno. A longa trajetória, retrato e símbolo de nossa história de longa duração, desde as mais primitivas das espécies, passando pela selvageria e barbárie, e superada a idade das trevas, parece desembocar em um resultado de redenção e glórias, onde o desenvolvimento científico e tecnológico, nos põe a frente, um futuro cada dia mais rico e promissor. Nada mais falacioso e enganador.


Apesar de conhecermos bem, após milhares de anos de história, todo o repertório de perversidades e absurdos que criamos e aperfeiçoamos ao longo de inúmeras gerações, a fome crônica, as mais devastadoras bombas e mísseis, as indústrias farmacêutica e alimentícia, que se colocam mais a serviço da morte que da vida, a constituição de territórios sem limites de miséria e escassez, a transformação dos rios em esgotos e das florestas em desertos, a criação da sub-raça humana, a genética da desnutrição, nenhum outro episódio ou imagem que nos põe à mostra, são mais reveladores do quão degenerado e corrompido é o destino de nossa espécie, quanto às que nos abarrotam a vista e estão em todo canto, do genocídio cometido por Israel contra os palestinos da faixa de Gaza. Fatalidade e absurdo. O fim de qualquer esperança que exista algum tipo de ética na civilização e no mundo que construímos. Os amontoados de crianças mortas, ensanguentadas, estripadas, os bombardeios contínuos sobre o que mais parece um campo de concentração, são as mais recentes imagens e tragédias que nossa humanidade conseguiu produzir. Difícil esconder o sangue que perturba nosso sonho e aflige nossas ilusões. Talvez a linha reta de nossa evolução nos leve ao abismo, o abismo que irresponsavelmente, deixaremos às gerações futuras. Afinal, a história, também ela, pode ser imoral.



Marcos Vinícius.

sábado, 19 de julho de 2014

A guerra, o futuro e os girassóis



A guerra, o futuro e os girassóis.



Acho que mesmo os mais otimistas terão que concordar que a segunda metade do ano de 2014 que agora se inicia, não tem nos oferecido sinais de que dias melhores virão, como muitos gostariam de acreditar. Quem consegue ver o mundo um pouco além das Copas, e a realidade que se esconde por trás da manipulação e deformação das mídias, certamente irá encontrar uma humanidade um pouco pior do que a encontramos dias atrás. O semestre se abre com episódios tragicamente perturbadores, onde as engrenagens da história apresentam-se mais como trituradores de gentes e sonhos, que como perspectiva de liberdade e redenção. Aqui em nossa colônia contemporânea, condição exposta mais às claras que nunca, com a intervenção estrangeira a que acabamos por nos submeter, com ocupação armada de territórios, muita violência e terrorismo de Estado, em função dos jogos do Mundial, uma nuvem carregada de retrocessos e arbitrariedades, paira sobre um país que se recusa a livrar-se de sua arraigada cultura ditatorial. A forte repressão que vem se abatendo sobre os movimentos populares e as prisões políticas e desaparecimentos que tem ocorrido em todo território nacional, sepulta de vez qualquer ilusão que um dia podemos ter tido de vivermos sob um sistema democrático. São bobagens que apenas os editoriais de nossa imprensa conservadora e reacionária insistem em fazer acreditar, além é claro, dos oportunistas de toda ordem. Que futuro construímos quando os jovens que se propõem a lutar por um mundo melhor, ao contrário da maioria alienada, esmagada pela propaganda e desinformação, são trancados em prisões de segurança máxima, condenados a todo tipo de torturas, e sem qualquer perspectiva de acesso aos princípios mais elementares do Estado de Direito?

O noticiário internacional da semana que se encerra também não é dos mais animadores. Além das guerras de sempre, com seus milhares de mortos, feridos e refugiados, duas fatalidades ocorridas nos últimos dias nos fazem perguntar sobre quem neste mundo pode ainda acreditar em qualquer perspectiva de um futuro de paz. Há pouco mais de dez dias, Israel vem lançando sobre a humanidade, sim, humanidade, é bom frisar, para que não nos esqueçamos, da faixa de Gaza, um bombardeio intenso e contínuo, com um saldo de cerca de trezentos palestinos mortos e dois mil feridos, na operação denominada Margem Protetora. Em 17 de julho, décimo dia da ofensiva, forças terrestres invadiram o território e, em poucas horas, aproximadamente cinquenta e oito civis foram barbaramente assassinados. As operações israelenses na faixa de Gaza, um gigantesco presídio a céu aberto, sempre fazem um número muito grande de vítimas crianças, mortas ou mutiladas, em uma região onde se apresenta uma das mais elevadas taxas de fecundidade do planeta. Mais uma vez, é de se imaginar que perspectivas futuras construímos com gerações inteiras gestadas sob o terrorismo chapa branca, o assombro e o medo. Por mais que possamos nos beneficiar do desenvolvimento científico e tecnológico dos últimos tempos, não podemos ter ilusões, as descobertas e os inventos mais sofisticados, são aplicados na indústria da guerra e da morte, talvez a mais poderosa e afortunada da história. A indústria bélica israelense, sócia-irmã da norte-americana, é uma das mais avançadas, do ponto de vista tecnológico e dos investimentos,  que se tem notícia. Os manifestantes e ativistas brasileiros, nos últimos tempos, tem tido a oportunidade de experimentar, obviamente na condição de vítimas, alguns destes novos armamentos, tão cobiçadas pela elite nacional e largamente utilizados pelas forças de repressão. O Brasil é um dos cinco maiores importadores de armas de Israel.

No mesmo dia em que as forças terroristas sionistas invadiam por terra a faixa de Gaza, um míssil russo, não se sabe ainda se lançado pelos próprios russos ou por ucranianos, pois seus armamentos são praticamente similares, derrubam um avião comercial que havia saído de Amsterdã com destino a Kuala Lumpur, Malásia, com 283 passageiros e 15 tripulantes, quando atravessava a fronteira da Ucrânia com a Rússia. O míssil que derrubou o BOEING-777, conhecido por AS-11 Gadfly, é um equipamento poderoso e sofisticadíssimo, guiado por radares, atinge uma velocidade supersônica, e uma ogiva apenas destrói facilmente um avião deste porte até a 22 mil metros de altura, em um piscar de olhos. Os corpos se espalharam pelas plantações do leste ucraniano a um raio de 15 km de extensão. Dentre as vítimas, de várias nacionalidades, dezenas delas, eram renomados cientistas e ativistas que viajavam para Melbourne, na Austrália, para participarem de uma importante conferência sobre a AIDS, a 20ª Conferência Internacional de AIDS, que se inicia no domingo, dia 20 de Julho. Um dos mortos foi o holandês Joep Lange, um dos mais importantes especialistas em HIV no mundo e pesquisava o assunto havia 30 anos. Foi um dos primeiros a defender o acesso a medicamentos contra a doença em países pobres. A médica brasileira Eliana Gutierrez, que participará da Conferência afirma que o acidente “é uma perda impossível de calcular, que pode comprometer bastante o futuro do enfrentamento da AIDS”.

Enfim, esta primeira semana do pós-Copa, com seu misto de tragédias e fatalidades, não nos permite vislumbrar ainda, o arco-íris colorido e vibrante que os mais otimistas fazem questão de pintar. Neste cenário sombrio que se configurou nos últimos dias, um elemento que se repete como gerador de infortúnios, seja aqui ou acolá, é o estrago causado pelo terrorismo de Estado. A violência policial e o Estado de Exceção que se implantou no Brasil, o genocídio que mais uma vez se inicia em Gaza e a derrubada de um avião comercial, certamente, por um exército profissional e regular, são fortes indícios e significativamente simbólicos, do quanto ainda terá que caminhar a humanidade, para se escrever uma história, minimamente feliz. Acrescentaria ainda, para fins de ilustração, duas imagens inquietantes trazidas nos jornais a respeito do acidente com o Boeing. Em uma delas, vê-se um corpo estendido em um vasto campo de girassóis, a flor-símbolo da sorte e felicidade, a outra, uma fotografia da aeronave abatida, antes da decolagem, que o holandês Cor Pan, passageiro do voo, publicou em seu Facebook, pouco antes de morrer.  Em uma referência ao avião que sumiu em 08 de março com 239 pessoas e nunca foi achado, e como mais um sintoma da crise de otimismo nos dias em que vivemos, atribuiu a seguinte legenda à fotografia, “Se ele desaparecer, é assim que ele era”.



Marcos Vinícius.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Amor de tempestade



A primeira vista não havia nada que fizesse com que se destacasse entre a multidão de transeuntes. Não era lá um homem daqueles que chamam a atenção pela beleza, porte físico, que fazem com que os olhares, principalmente os femininos, se enverguem quando passam por elas. Ao contrário, apesar de ser dono de traços, isoladamente, bonitos, no conjunto, considerando a somatória dos atributos, a impressão que se passava talvez fosse mais de feiura, do que fonte de admirações e desejos. Vestia-se bem e carregava um ar de despreocupação. O vento forte que varria a cidade, fazendo os homens levarem as mãos aos cabelos e as mulheres segurarem as barras das saias, arrancava dele, um sorriso descomprometido, um olhar de contemplação, e uma sensação de alegria, ao sentir-se refrescado por uma lufada de ar frio. Aproveita a revigorada que a ventania lhe proporciona e aperta os passos. Talvez, apressando-se, chegue ao destino ainda seco, antes que a chuva caia e alague a cidade. Assim que se aproxima do cruzamento, um raio luminoso corta o céu e este se escurece por completo. Um ruído estrondoso faz os cidadãos taparem os ouvidos e arregalarem os olhos. As nuvens cinza-escuro, num ballet ritmado, traçam uma coreografia misteriosa por sobre a cabeça dos homens. Os que olham para o alto, admiram-se. O vento passa a soprar mais furioso e num ímpeto, varre as calçadas e levanta o pó e o lixo, cegando os que passam e fazendo tossir os mais jovens e os velhos. O cheiro de poeira, o esvoaçar dos cabelos e uma friagem úmida eram o sinal que a tempestade não tardaria.


Correr não iria, pois não valeria o esforço, suas vestimentas não eram apropriadas, a calça era um pouco pesada e o sapato novo, ainda duro, fariam seus galopes extremamente desconfortáveis. Além do mais, o que tinha a fazer, não era coisa que se demandasse muita urgência, era mais vantagem atrasar-se, do que chegar ao destino completamente desarranjado e molhado da cabeça aos pés. As primeiras gotas de chuva, grossas e frias, despencavam furiosamente dos céus, encharcando as ruas, avenidas e as paredes dos edifícios em poucos segundos. Poucos poderiam prever que as águas cairiam tão rápido.  Praticamente sem alternativas, abriga-se sob uma ampla marquise, já tomada pelos corpos que procuravam proteger-se do aguaceiro e da friagem. Acomoda-se sobre um degrau no canto da entrada de um grande edifício. Ali estaria protegido e poderia assistir, com visão privilegiada, a chuva densa que a tudo alagava, e aos murmúrios e resmungos dos que, praticamente à força das águas, tinham seus apressados passos interrompidos. Deixava-se entregue então, na falta do que fazer, aos devaneios e pensamentos. Observa todos ao redor, um a um, a fisionomia enrugada dos velhos, o rosto assustado das crianças diante dos estrondos dos trovões, a maquiagem borrada das raparigas, e as roupas ensopadas dos que chegavam por último. De sua parte, os sinais de gotas encharcadas sobre os ombros, mostrava que não se salvara por completo.


A interrupção do fluxo da cidade, a paralisia da multidão, que não arriscava desafiar a tempestade, as aglomerações sob as marquises e a enxurrada que lavava o asfalto criavam um cenário a dar uma perspectiva diferente da condição humana. E era nisto que pensava. Por minutos, observava a multidão, gentes de todas as idades, de todos os tipos, credos, religiões, tendências políticas, estavam ali, paradas, esperando, ansiosas, resignadas, sob um temporal, que ameaçava engolir a cidade.  Às vezes, as pessoas olhavam-se, desconfiadas, umas para as outras, afinal, estavam próximas demais, noutras, trocavam olhares solidários, cúmplices, eram vítimas da mesma imprevisibilidade. Se o mundo resolvesse, de uma vez, tragar a todos, engolir a humanidade, teriam todos o mesmo destino. E uma vez chegado o momento, pode até ser, que no instante final, dessem as mãos, trocassem palavras derradeiras, mas isto, não saberemos.


Certo é que já se espremiam por ali há um bom tempo, o temporal não dava sinais de que tão cedo, poderia cessar, e aos poucos, na falta de alternativas, enquanto uns mexiam e remexiam os papéis que tiravam do bolso, os liam uma vez, outra, ou apertavam freneticamente os seus aparelhos celulares, havia os que contemplavam desolados a paisagem, fitavam os céus, para ver se de lá arrancavam alguma mensagem ou entreolhavam-se para certificarem-se mais uma vez, através da observação atenta, de cada fisionomia, que os homens, de fato, não se repetem. Nada como estarmos em meio a uma multidão para percebermos quanta diferença há entre nossas semelhanças. Apesar de sermos todos, uma única espécie, ponha-nos juntos, lado a lado, aos milhares, milhões, para percebermos a infinidade de diferenças que há entre nós. É bastante criativa a mão invisível que modela cada um de nossos gestos, olhares, ângulo facial, largura e intensidade dos sorrisos, uma pequena ruga aqui, outra ali, o peso dos ossos, a força dos braços, a habilidade das mãos, o timbre da voz, tornando-nos únicos, peculiares e originais, entre nossos supostos semelhantes.


Olha para o relógio. Estava realmente atrasado, mas era bobagem desesperar-se. Seria impossível atravessar o aguaceiro. Ademais, o atraso era plenamente justificável, uma vez que, certamente, a cidade inteira estaria sob as águas. Resolvera então, não ter pressa, e estava observando um letreiro que piscava à sua frente, quando sente paralisar-se, algo o impedia de realizar qualquer movimento, sentia ser observado, fincava os pés ao chão, e não via ainda, quem, insistentemente, olhava para ele. Ainda não criara forças suficientes para voltar-se para quem o admirava. Uma timidez mórbida o impedia que encarasse a situação de frente. Raspa a garganta, enfia a mão nos bolsos, volta a conferir o relógio, passa os dedos sobre os ombros molhados e por fim, move os pés, ajeitando uma posição mais confortável, quebrando aos poucos, a rigidez dos músculos e dos ossos. Uma névoa imaginária que pousa em seus olhos, uma comichão no braço esquerdo eram o sinal de que continuava sendo contemplado. Quem estaria a encará-lo? Uma coisa tinha certeza. Era uma jovem mulher. Mas como? Não se lembrava de ocasião em que tivesse despertado atenções femininas de forma tão persistente. A bem da verdade, nunca foi de muita sorte com a mulheres, e as que passaram por sua vida, foram fruto de muita conversa e jogos de sedução, que na maioria das vezes, sempre levavam algum tempo. Nada de paixões repentinas, amores à primeira vista, maiores intimidades no primeiro encontro, entregas inesperadas. Suas conquistas, e não haviam sido muitas, eram resultado de estratégias, organização e planejamento, ou coisas arranjadas.


Respira profundamente, enche os pulmões de oxigênio, inala a umidade do ar, estufa o peito, mantem os olhos firmes e vira-se, lentamente, para o lado. Finalmente fixa os olhos que  procuravam os seus. Dois olhos negros, grandes e admirados, parecem vasculhá-lo por dentro. Mantem-se inerte. A mulher contempla-o fixamente. Era jovem e bonita, muito bonita, talvez umas das mais belas que havia visto por aí. Ele a observa em cada detalhe, completamente, e sente o corpo inteiro arrepiar-se. A mulher não tirava os olhos dele. Ele sentia o peito apertar, o coração batia forte. Uma gota d’água fria descola-se da marquise e cai sobre os ombros descobertos da jovem. Ela seca a água que já escorria com os dedos, cruza os braços trêmulos e solta um quase silencioso gemido, sem tirar os olhos dele. Ele cora. A jovem parecia-lhe cada vez mais bela, e começa a imaginar se não teria sido ela a povoar seus sonhos em alguma ocasião da vida, ou se não estaria sonhando ali, agora, quem sabe peripécias do destino, no qual apesar de não acreditar muito, talvez pudessem estar atravessando o seu caminho. Nunca havia confiado muito na sorte. Quem sabe a recompensa por acreditar-se um sujeito de bem. Talvez fosse oportunidade única. Sente-se um pouco inseguro e sem jeito. A mulher olha como quem espera. A chuva reduz a intensidade, começa a abrandar-se, um feixe luminoso abre-se por sobre os edifícios e o asfalto põe-se a brilhar. O tempo começa a abrir-se e um sorriso cúmplice se esboça na face iluminada da mulher.


Não havia tempo a perder. Daqui a pouco, a chuva pararia e não mais haveria motivos para que permanecessem ali. A forma como o fitava, não deixava dúvidas, não eram apenas olhos de curiosidade, ou de quem está a reconhecer um amigo antigo que não vê há anos. Sua fisionomia, e para percebê-lo, não há que ser um especialista, era de desejo e sedução. Não entendia bem que qualidade sua poderia despertar tanto o interesse e a atenção da mulher. Toma algum fôlego em segundos, ajeita um pouco a camisa, procura descontrair-se, ensaia um passo em sua direção e tenta já deixar articuladas, guardadas em algum canto da boca, as primeiras palavras que deveria dirigir-lhe. Ela não desvia os olhos dele. A chuva torna-se a cada instante, mais fina e rala. Ele caminha em sua direção. Por um instante, tem a sensação que as palavras vão lhe trair, dizer o que não deve ser dito, soltarem-se engasgadas ou trancarem-se no peito. Segue adiante. Quando chega bem próximo, um ligeiro tremor corre por suas pernas, como se estas, quisessem fugir de sua missão, ou ao contrário, correr em sua direção, mas certo é, que de certa forma, alteraram o ritmo dos passos. Abrindo caminho entre os que ainda se amontoavam sob a marquise, vai lentamente, aproximando-se dela. A cada passo, impressionava-se mais com a beleza da mulher. Por um segundo, pensa em desistir, deve ser algum engano, pensou. Não houve em sua vida outra ocasião em que mulher tão bela e atraente estive a observá-lo dessa maneira, em um encontro repentino e casual. Posta-se diante dela. De alguma maneira, saem raios dos olhos dos dois. Ele, meio sem jeito e quase aos atropelos, diz a ela, que adoraria conhecê-la. Ela diz que gostaria muito de conhecê-lo também, que não sabia ainda exatamente o porquê, mas que ele havia despertado nela algo de bom. A tempestade que terminava, parecia ter se transferido para dentro dele. Um trovão ensurdecedor estoura em seus peitos e aquece seu corpo inteiro, que vibra. O sangue, circulando mais veloz, deixa seu rosto e o pescoço vermelhos, e um raio de luz desponta em seus olhos admirados. A voz da mulher era excessivamente doce, suave e feminina. Os timbres de sua resposta, a cadência de suas palavras, como o vinho e o mel, deram-lhe uma sensação de encantamento ou embriaguez, da qual mal conseguia disfarçar. Mais uma vez, imaginou que esta pudesse ser a mulher que já povoara seus sonhos. Agora que ouvira sua voz, intérprete de almas, espíritos e intenções, não tinha mais dúvidas. A chuva parou. A mulher diz não poder demorar, pois, uma vez que a chuva havia cessado, deveria tentar recuperar o tempo perdido, já estava atrasada em seus afazeres. Passou o número de seu telefone, que ele rapidamente anotou em seu aparelho celular, e insistiu que ligasse. Ele põe a mão em seu cabelo e ela beija-lhe o rosto, dando-lhe um gracioso sorriso de despedida, que faz com ele, perdesse por completo, o rumo dos passos. Por pouco, não mais se recordava em que direção deveria prosseguir. Um torpor inusitado havia lhe arrebatado os sentidos.


O encontro havia sido breve, mas avassalador. Depois que ela vira de costas, deixando um rastro de perfume no ar, uma inebriante fragrância entra pelas suas narinas, ele a respira profundamente. O mundo parece revolver-se dentro de si. Pouco a pouco retoma os passos em direção ao seu destino, em uma lenta caminhada automatizada, uma trajetória programada, da qual parece ter perdido a noção ou a necessidade. A imagem da mulher continua a persegui-lo, mesmo que siga em frente, sem mais olhar para trás, ela está ali, presente, em cada rosto que surge do nada, em cada esquina ou automóvel, em cada nova multidão que se aproxima, seja nas portas dos shoppings, nas calçadas dos templos ou nos pontos de ônibus. Não consegue perdê-la de vista. Imagina porque não aproveitou melhor a oportunidade do encontro, talvez se insistisse que se demorassem um pouco mais, se tivesse feito perguntas mais apropriadas para a ocasião, ou fosse mais ousado. Talvez não, seja lá como for, ela parecia estar mesmo um pouco apressada, levava umas pastas nas mãos e tinha horários, mas o melhor, havia se interessado por ele. Que horas ligaria? Mais conveniente talvez fosse esperar a noite chegar, quando provavelmente já terá se livrado de seus afazeres e obrigações. Mas uma ansiedade crônica tomava conta de si. Havia horas ainda pela frente. Não via o momento de ouvir novamente aquela voz adocicada. Pouco dialogara com ela, mas sua presença, a forma como o olhava, os gestos suaves, o sorriso aberto, haviam lhe conquistado, definitivamente.


Mil imagens e pensamentos vinham-lhe à mente. Seria esta a mulher, que talvez, os céus haviam reservado para ele? Sempre acreditou, que dado o tamanho da humanidade, muitos certamente morrerão sem conhecer aquela parceira que provavelmente lhe caberia bem. Não que acreditasse na existência de almas gêmeas ou caras-metades, mas que dado o tamanho do mundo, impossível que não houvesse alguém, mesmo que lá pelos seus cantões mais distantes ou inacessíveis, a quem pudesse amar. Mas neste aspecto, não era lá muito otimista, e chegava a imaginar que em seu caso, fosse mais difícil que encontrar uma agulha no palheiro. Por outro lado sabia também, que as coisas não estavam de todo, perdidas. Quem sabe a sorte tenha vindo bater-lhe a porta? Apesar do pessimismo, nunca foi totalmente descrente. Acreditava que as possibilidades da vida, mesmo que muito remotas, eram sempre possibilidades, e que enquanto ainda estamos vivos, sempre pode haver alguma forma de redenção. Uma chuva fina volta a cair. Estranha sensação, mas a água, da qual não procura mais se esquivar, tem a fragrância da mulher. Ele então aperta os passos, levanta a cabeça em direção à chuva, como se quisesse tragá-la e deixa-se encharcar. Quase sem perceber, levanta os braços para o alto. Gesto pouco esperado entre os transeuntes, dado seu relativo ineditismo, muitos olham para ele. Ele vê a mulher em cada um dos rostos, todos são ela, e estão a admirá-lo. Não se faz de rogado. Prossegue com os passos firmes, daqui a pouco chegará a seu destino.


Já ofegante, depois de muito caminhar, estimulado pelo frenesi que o encontro lhe proporcionara, resolve parar sobre a ponte, que ligava as duas porções da cidade, e observar a violência das águas do rio, que corria bem sob seus pés. Impressionante como havia se enchido rapidamente, as águas revoltosas e barulhentas, estavam prestes a transbordar. As ruas laterais alagavam-se. A força das águas chicoteavam as bases e os pilares da ponte, que trepidava. Era possível sentir o roncar das águas e o tremor das estruturas de metal e concreto. Ele, já molhado por inteiro, observa tudo, atentamente, mas tremia, como que tomado de febre. Tremia muito, tremia todo. Por um minuto chegou a pensar, se era ele quem tremia com a ponte, ou se era a ponte quem tremia com ele. Sacolejando-se sobre o asfalto molhado e apoiado no parapeito da estrutura, solta um largo sorriso de felicidade. A sorte, quase inesperada, havia atravessado seu caminho. Agora sabia. Estava irremediavelmente apaixonado e a sombra da mulher estava em todos os lugares. Para certificar-se mais uma vez da sorte grande, enfia a mão no bolso, retira de lá o aparelho celular. Estava ali gravado o número para o qual mais tarde ligaria, e a depender das suas expectativas, talvez pudesse dar algum outro sentido à sua existência. Queria ver o número mais uma vez, o tesouro guardado. Com a mão ainda trêmula, leva o dedo à tela do aparelho para acionar seus comandos, mas por um pequeno descuido, imprime sobre o teclado uma força maior que a necessária para acioná-lo, e ao invés de ligá-lo, acaba por empurrá-lo para o fundo das águas. O aparelho estava perdido, e suas ilusões também. Havia sido apenas um amor de tempestade.



Marcos Vinícius.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Somos todos macacos?


Somos todos macacos?



Desde que me entendo por gente, e isto não faz muito tempo, entendo que nós, humanos, somos, dentre as centenas de espécies de macacos, uma das linhagens, que do ponto de vista evolutivo, foi relativamente mais bem sucedida, uma vez que ao contrário dos nossos outros parentes macacos vivos, proliferamos. Nossa espécie, que em um passado não tão remoto assim, já foi espécie rara, encontrada em apenas alguns pontos isolados no planeta, hoje é encontrada em qualquer parte da Terra, seja em ambientes paradisíacos, seja em territórios completamente inóspitos. Além do mais, na guerra genocida que travamos contra as demais espécies, fomos devastadores, muitas outras espécies talvez tenham sido extintas, antes mesmo que tivéssemos tempo de dar-lhes um nome. Criamos um modelo de civilização, onde além de parecer não cabermos todos, nós mesmos, os humanos, parece também não ter direito à vida qualquer outro ser da natureza, que de alguma forma, não esteja a nosso serviço. Estabelecemos uma relação destrutiva com nossa parentalha animal, que condena à morte, não apenas os primatas, mas o conjunto dos mamíferos, dos répteis, anfíbios, peixes e aves, dentre outros. Somos, inclusive, vítimas de nós mesmos, dadas nossas guerras fratricidas, nossa natureza bélica, nossas bombas, gases, venenos, exércitos e aparatos militares. Os chimpanzés, nossos parentes vivos mais próximos, a ponto de estudiosos considerarem a possibilidade de incluí-los no gênero Homo, dada seu grau de semelhança conosco, do ponto de vista genético, muito maior que as diferenças, são vítimas exemplares de nossa perversidade civilizatória. Sua população não apenas foi drasticamente reduzida, como a de todos os outros macacos antropoides, os mais próximos de nós, os gibões, gorilas e orangotangos, dada a implacável devastação ambiental a que submetemos o planeta, como muitos dos sobreviventes, são submetidos aos mais cruéis dos testes e exames laboratoriais. O fato de sermos muito semelhantes a eles, não significou que tenham tido qualquer tipo de vantagem ou benefício, muito antes pelo contrário, tiveram que se submeter aos experimentos mais macabros que se possa imaginar, talvez não desumanos, bem humanos mesmo, contaminando-os com todos os tipos de vírus, bactérias e doenças, condenando-os aos mais variados infortúnios, medicamentos e torturas. Recentemente, causando revolta em várias entidades defensores dos animais em geral e dos primatas e chimpanzés em particular, mudanças na legislação americana, permitiram que chimpanzés de laboratórios já velhos e aposentados, estropiados, doentes, estressados e deprimidos, voltassem aos centros de pesquisa. Hoje sabemos que os chimpanzés são muito mais inteligentes do que até há pouco tempo se ousava imaginar. Houve época que dizíamos que uma das características que diferenciavam nossa espécie das demais, era, junto ao cérebro avantajado, nossa capacidade de produzir, utilizar ferramentas e trabalhar. Hoje sabemos que os chimpanzés não apenas as utilizam também, como são capazes de transmitir às gerações mais novas, informações e conhecimento. Não é isto o que faz uma fêmea ao dar uma lição ao filhote de como quebrar um vegetal de casca dura, utilizando uma pedra como martelo e a raiz de uma árvore como bigorna? E se “macaco velho não mete a mão em cumbuca” é porque, certamente, foi submetido a algum aprendizado.


O zoólogo Desmond Morris, autor do livro “O Macaco Nu”, afirma que o homem é dentre tantas espécies de macacos e símios, o que levantou-se, ficou de pé, desenvolveu seu cérebro, criou um universo cultural extraordinário, e tornou-se o mais desprovido de pelos. Ele tem razão, e sob este prisma, somos mesmo, todos macacos. Fazer esta afirmação, no entanto, não significa aderir à campanha “Somos todos macacos”, espertamente criada pelo jogador Neymar junto a uma empresa de publicidade, transformando o racismo brasileiro em mercadoria, o ódio e a intolerância em vantajosos negócios. Diria que a atitude do jogador Daniel Alves em comer a banana que lhe foi atirada, talvez tenha sido um gesto heróico, pois não se intimidou diante da agressão e de certa forma, ridicularizou o agressor. Já a campanha publicitária que veio daí, onde um bando de humanos, perdoe-me, mas imbecis, dão suas caras às redes sociais, com uma banana enfiada na boca, afirmando serem todos macacos, talvez seja um dos exemplos mais exponenciais de nossa degradação moral, enquanto humanos que somos. Afirmarmos que somos macacos, nesta perspectiva mercantil e degradante, em uma sociedade conservadora como a nossa, onde muitos indivíduos, inclusive jovens, vítimas da falta de informação ou do fundamentalismo religioso, sequer dão fé à teoria da evolução, pois se consideram de natureza superior, jamais comparável aos toscos animais, serve mais para reafirmar o que dizem combater, do que falar sobre a realidade da vida. Fotografar-se com uma banana à boca, ao contrário de significar um rechaço ao racismo, reforça-o, na medida em que reduz a condição humana ao lugar do ridículo. Somos mais do que comedores de bananas. Entre nós e os outros macacos do mundo, existem semelhanças, mas existem também diferenças, que sabemos não serem poucas. Se dissermos que somos todos macacos significa dizer, veja como somos bonzinhos e solidários, topamos até nos rebaixarmos, abrirmos mãos de nossa humanidade, para ficarmos iguais a eles, negros e macacos, e é isto que parece significar, esta campanha então, merece ser repudiada. Se a campanha é um estrago, do ponto de vista dos humanos, onde se viu até gente de boa fé, “pagando o mico”, acredito que os macacos, caso fossem capazes de decifrarem a linguagem que usamos, certamente iriam também repudiá-la. Não acredito que sejamos motivo de orgulho para eles. Parecidos conosco e vencidos na relação que estabelecemos entre as espécies, jamais poderemos acusá-los de degradação moral. Talvez seja a diferença que recoloca em seu lugar o “cada macaco no seu galho”. Somos todos humanos e também, como nos prova a ocasião, de futilidade incomparável.




Marcos Vinicius.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Nós e os Pit Bulls



Vemos praias belíssimas, paraísos terrestres, que são tomadas de assalto, cercadas, e infestadas de Pit Bulls, mesmo que vazias de coisas ou gentes. Os ferozes cães tornam-se, assim, símbolos sanguinolentos da propriedade privada. Se são temíveis esses animais por sua capacidade de atacar e arrancar pedaços, pois assim a natureza os fez, o que diremos de nossa espécie, que deliberadamente, os colocam ali, para que façam uso, contra quem quer que seja, justamente, do que mais tememos neles, que é sua índole carniceira. Há quem se ofenda quando falamos de nossa condição animal, pois nossa humanidade seria algo mais nobre e refinado, mesmo que usemos garras e dentes, ainda que alheias, para trucidar, escalpelar, quem por ventura, ouse cruzar o caminho de nossas ambições e vaidades.



Marcos Vinícius.