sábado, 9 de maio de 2009

A breve história dos ladrões pequenos







A breve história dos ladrões pequenos


Ana, como diariamente o fazia, normalmente no horário de almoço, excetuando em seus breves finais de semana, chegava ao ponto de ônibus, que a levaria para mais um turno de trabalho, na periferia da cidade. Era pontual. Sempre o mesmo horário e os mesmos passos rápidos. Vinha com a sensação de missão cumprida, por ter encerrado um dia de trabalho em uma empresa, ao término da manhã, mas já sentia-se ansiosa por um outro turno que ainda estava por iniciar. Na verdade, tinha quase os passos contados, cronometrados, e o ônibus, em que viajava, que a levava de um trabalho para outro, dificilmente se atrasava. Sabia, portanto, o tempo exato, em que ali deveria aguardar, parada. Aquele ponto, sempre lhe causava certa apreensão, o que é justificável, por ser sempre mais vazio, deserto, e à beira de uma rodovia, ainda que sob a luz de quase meio-dia. Locais onde normalmente os gatunos e ladrões tem mais facilidade de ação, dadas as vantagens de fuga, principalmente, diante de vítimas mais frágeis, como pessoas à pé, em pontos de ônibus, mulheres e velhos. Mas ali chegava, mais um dia, à espera do embarque.

A apreensão inicial acabou por se dispersar, quando encontra no ponto do ônibus, também a espera, uma jovem e um senhor, já com idade bem avançada, nitidamente perceptíveis, não só pelos sulcos profundos no rosto, as teias de rugas, os labirintos de pele ressecada, a flacidez das mãos, mas um olhar cansado, meio esgotado, de quem não mais alimenta ilusões. A jovem, sentada ao lado, também aparenta ter mais idade do que de fato tem. Senta-se um pouco curvada, como se parte grande do mundo, pesasse sobre seu ombro. Sua atenção é fixa, parece não perceber a chegada de Ana. Tem os olhos pregados ao chão. Os cabelos estão mal arrumados, está sem maquiagem, sem cosméticos ou perfumes, e parece, estar também a trabalho. As mãos, com as unhas por fazer, seguram firmemente uma bolsa emborrachada, que trás atravessada ao pescoço.

Ana mantém-se de pé. O velho tosse. A jovem parece despertar de um transe profundo. Faltam ainda alguns minutos para o próximo ônibus passar. Ana dá uns passos à frente. Silenciosamente, olham-se, um ao outro, os três a olhar-se, mutuamente. Sem palavras ou gestos. Um quê de desconfiança, pois de estranhos e desconhecidos se trata, um quê de cumplicidade, dadas as condições em comum em que se encontram, o ponto, a espera, e a solidão. Em seguida, movem-se os três, ao mesmo tempo, como se combinado. Ana aperta a pasta ao peito, a jovem, com as mãos de quem carrega urgência, abraça a bolsa sobre o colo, e o velho pigarreia e parece resmungar. Como demora este ônibus, diz a jovem.

Subitamente, quase do nada, surgem dois homens na estrada. Com passos apressados, se aproximam também do ponto. As pernas do velho, parecem revelar um susto, que o resto do corpo, não fez por demonstrar, movem-se rapidamente, como se neste preciso momento, não precisasse do comando de seu dono e senhor, como se misteriosamente, se movimentassem por conta própria. Talvez, num corpo mais jovem, se pusesse a levantar ou a correr. Ana, que já quase se descontraia, repentinamente, retesa o corpo, as mãos parecem enrijecer. A jovem olha para os dois, com olhar de perplexidade, e ao mesmo tempo, de desafio. Agarra-se à bolsa.

Entre tremores e suores, se anuncia o assalto. Olha aí, se não passar o que levam aí de valor, dinheiro, principalmente dinheiro, morre. Ta escutando? Morre, diz o mais novo. Vamos, sem moleza, passa logo a grana. Se não, vou ter que esquentar o cano. Passa logo, grita. A jovem, contrariada, agarra-se a bolsa, ainda uma vez, antes de entregá-la. Ana parece suar por todos os poros, empalidece. Os olhos do velho se embaçam, e as mãos parecem não encontrar os caminhos do bolso, onde levava a carteira. Treme. Os homens desistem dele, não se sabe se por compaixão, ou pela quase certeza que pouco lucrariam com o velho de calças puídas e sandálias gastas, com os pés quase ao chão. Talvez não valesse a pena. Levam apenas as bolsas das duas mulheres. Uma emudece, estarrecida. A outra está por explodir.

Os bandidos, após a bem sucedida operação, atravessam a rodovia, e dirigem-se para o pequeno bairro em frente, como se não estivessem a fugir, mas indo para casa. Como de fato, estavam. Talvez mesmo em função da crise que não perdoa a ninguém, tenham preferido os ladrões assaltarem nas proximidades de casa, por uma questão de economia, ou mesmo, de comodidade. A jovem, ainda inconformada com tudo aquilo, e observando os homens à distância, num ímpeto, desabafa, Sei lidar com vagabundo, não serão estes a me dobrar, ah, não, diz com fúria. Levanta-se como se partisse para a guerra. O coração palpita forte e o sangue corre veloz pelas veias. As faces coram. Os olhos parecem apontar uma única direção, meio vidrados, meio às cegas. O passo é uma marcha, firme, duro, determinado. Estes não me escapam, diz afirmativa. Estes não me escapam.

Em poucos minutos, pergunta pra um, pergunta pra outro, e acaba por chegar à morada dos ladrões. Aciona, nem se sabe como, a ronda policial, e rapidamente, como se dotada de poderes, que talvez nunca tenha imaginado possuir, e numa velocidade espantosa, faz cerco aos bandidos. O assalto, para eles, resultou-se vexatório. As bolsas foram encontradas por sobre o telhado, e os bandidos, escondidos, no guarda-roupa, protagonizam um triste espetáculo na vizinhança. Normalmente, estes flagrantes, despertam a curiosidade de todos, que querem saber, como foi, onde foi, o que ocorreu, quais os envolvidos, enfim, todos se amontoam para assistir o espetáculo da prisão dos vizinhos encurralados. Casais, crianças, até os gatos e cães, se aglomeram de frente a casa, para saber quem de lá vai sair, e como sairá. Todos de olhos esbugalhados, curiosos, atentos, para assistir, sem perder um lance sequer, do que está a ocorrer. Qual será o desfecho? Adolescentes roem as unhas. Uma mulher chora. Os curiosos que beiravam a cena, só não viraram multidão, pois a ação da polícia foi rápida, uma vez, que provavelmente, não se tratava, digamos, de ladrões profissionais. Não houve resistência. Os bandidos saem algemados, cabisbaixos, e qual não é a surpresa dos espectadores, ao confirmarem o que já se suspeitava. Muitos não imaginavam que o vizinho próximo, homem trabalhador, em seu dia de folga, chegasse a tanto.

Os homens são arrastados por uma forte escolta policial. Todos observam imóveis, serem, os dois, atirados às grades; acompanham passo por passo, gesto por gesto, lance por lance, até os carros, com suas luzes e sirenes, darem a partida. Por fim, voltam, pois as costas, e passam a narrar histórias, versões, todos ali terão alguma para contar. Como pode, quem imaginava, eu já sabia, há quem conheça toda a família e também, os caprichos e os credores. A pequena multidão, eufórica, aos poucos se desfaz. Encerrado o caso, finalmente, Ana e a jovem entreolham-se, e trocam as primeiras palavras. Foi Deus, diz Ana. Foi - responde secamente a jovem. Mas o final que não há que negar, é que estes infelizes conhecerão, onde estiverem, o inferno, dos homens, do qual não poderão escapar.


Marcos Vinícius.

terça-feira, 28 de abril de 2009

O símbolo de Fallujah


O símbolo de Fallujah



Confesso que nunca sentei diante de um computador para jogar estes games modernos, que circulam à toda pela internet, que lotam Lan-houses de jovens e adolescentes, que passam ali, horas e horas a fio, como se também conectados estivessem. Minha experiência com jogos virtuais, nunca foi além dos antigos brinquedos, do tipo Atari, que eram conectados à televisão. Eram jogos rudimentares, despretensiosos, geralmente, com cenários únicos ou repetitivos, e as cenas, geralmente, apresentavam pouco movimento. Eram jogos sem cores, com pouquíssimos recursos, uma simulação bem primitiva, como supostos jogos de futebol, jogo de tênis, onde sentavam os dois jogadores diante da TV e ficavam a repicar uma bolinha um contra o outro. O mais sofisticado e envolvente era um bichinho, Pac Man, que ia percorrendo labirintos, acumulando pontos pelo caminho, e fugindo de fantasmas que se aproximavam ameaçadores quando o jogador estava próximo de seu destino e da vitória. Os jogos, virtuais, nas telas dos televisores, eram ainda, graciosos, que faziam até os mais velhos, brincarem como se crianças fossem. Eram jogos em preto e branco, um entretenimento, que muitas vezes, era compartilhado em família, dada a novidade do equipamento, que despertava curiosidade em todos. Pareciam ingênuos e fazendo mal a ninguém.

Os jogos que hoje se apresentam aos jovens e crianças, são de uma geração completamente nova, digamos, jogos de uma nova era, dos tempos da globalização, onde os cenários e a lógica, normalmente são as das guerras. Os jogos vêm deixando, aos poucos, a condição de brinquedos, na medida em que vão se tornando cada vez mais realistas, violentos e sanguinários. São muitos os personagens que parecem reais, verdadeiros, normalmente, inimigos, que se tem que aniquilar. Interessante, que muitas das vezes, os jogadores podem dar toques bem pessoais, a seus avatares. Normalmente, fantasiam-se fortes, belos, bem trajados, estilo ocidental, brancos e poderosos, imbatíveis, ante um inimigo, que represente tudo aquilo que se quer evitar, às vezes, a imagem de si mesmo, refletida supostamente às avessas, ao contrário, e que se quer extirpar. Há uma possibilidade de construção de identidades, que faz com que estas crianças, nestes brinquedos, queiram se afirmar, e também destruir e matar. É uma lógica violenta e cruel. Não lhes é oferecida outras alternativas fora do campo da violência.

Observe os jovens diante destes brinquedinhos do século XXI. Grudam-se aos teclados, como se plugados a maquina, os olhos estatelados, parecem que não piscam estes garotos, e navegam em transe pelos cenários, batalhas, lutas e estratégias destes jogos sofisticados, sempre renovados e aprimorados, pelas empresas de softwares, que disputam um mercado cada dia mais promissor. São muitos os jovens que dedicam muitas de suas horas, diariamente, aos games. Seja em casa, seja em espaços coletivos. Estão ali, teclando, esbugalhando os olhos, raspando ansiosamente o mouse, suando, gritando, torcendo, se armando, defendendo, traçando armadilhas, emboscadas, matando, fuzilando, exterminando. Os exterminadores do presente. São inúmeros os casos de jogadores, que não saem de casa, varam noites sem dormir, e perdem muito do contato com os outros, com o tempo e o mundo real. Em certa medida, podemos admitir que estamos diante da construção de um ser, até então, inusitado, em nossa infinita humanidade. Um sujeito, que dedica várias horas de seus dias, a virtualmente, matar.

Em 2010 haverá novidade no mercado: será lançado o game “Six Days in Fallujah”, onde se pretende alcançar um realismo máximo, com uma grande variedade de recursos, para aumentar ainda mais a emoção e adrenalina dos jovens jogadores. Detalhe: o jogo será montado a partir de um contexto bem real, com homens reais, de carne, osso, e muito, muito sangue: a operação militar americana, denominada Fúria Fantasma, que em seis dias, quebrou a aguerrida resistência dos combatentes da cidade iraquiana de Fallujah, a 50 Km de Bagdá, em Novembro de 2004, vitimando, segundo os dados oficiais, 38 soldados americanos e 1200 iraquianos. A sofisticação do game inclui consultoria de veteranos de guerra, cenários reais, imagens locais, vídeos e inclusive, vozes de soldados, relatando experiências e lembranças. Neste avançado jogo, os cenários podem ser totalmente destruídos e os jogadores podem eliminar quem atravessar seu caminho. E os jogadores, claro, estarão sob a pele dos soldados americanos.

O realismo do game, de fato, impressiona. Fallujah, a cidade de 800 mil habitantes-sobreviventes, a cidade de verdade, real, hoje, agoniza. O cenário é de desolação. As ruas da região central, esburacadas, são cemitérios de edifícios arrasados, escombros, muros em queda, paredes quebradas, tetos arrancados. Há carência de água, eletricidade, telefones, hospitais. Falta trabalho. Os sunitas de Falluhjah são obrigados a apresentar documentos de identidade magnético para entrar ou sair da cidade. Destruição e controle. A lógica do jogo. A lógica da vida. Ficção e realidade entreolham-se pelo espelho dos softwares, pelos olhos dos jovens do mundo inteiro. Quanto tempo será gasto? Quantos jogadores estarão empenhados em destruir milhões de vezes, o que destruído está? Infinitas vezes hão de matar os mesmos mortos, queimar as mesmas cinzas. Sob o Império do Dinheiro, não cabe a insurgência, sequer a tolerância. A vitória não se dá sob a rendição ou diálogo, mas com o aniquilamento absoluto.

Tempos difíceis, e pelos sinais que se prenunciam, podem, em muito piorar. Quem quiser conhecer um pouco mais a juventude que está a se formar, e os adultos que brevemente serão, não poderá deixar passar despercebido, o mundo dos games, onde muitos deles, coabitam, diante da tela do computador. São mundos novos, imaginários, digitais, mas fortemente vinculados a um substrato real, com uma profundidade ideológica, como até então, ainda não se havia ousado mergulhar. São muitas horas dedicadas com afinco, a eliminar um inimigo virtual, que muitos deles, nem sabem que de fato existem, e acaso saibam ou descubram, quererão logo, no curto prazo, quem sabe, eliminá-los também, pois afinal, não é mesmo a vida um jogo? Além de muito tempo ter sido dedicado às lições, aprendendo a odiá-los, caçá-los, em estratégias de ação, onde o caminho da vitória pavimenta-se sobre o número de vítimas que se propõe fazer. Talvez fiquemos piores, ou não. Uma coisa é certa: nos afundamos num atoleiro moral, onde ficamos, a cada dia, não apenas menos sensíveis em relação aos sofrimentos alheios, como a cada geração, mais radicalmente intolerantes. A sorte está lançada e as cabeças a prêmio.



Marcos Vinícius.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Lições da Venezuela


Lições da Venezuela


Quem procurar pelo nome Gustavo Dudamel em sites de busca, como o Google, por exemplo, irá, certamente, admirar-se pelo formidável contingente de fãs e de elogios que vem recebendo pelo mundo todo, o jovem maestro venezuelano de apenas 28 anos. Encontraremos depoimentos em artigos especializados do tipo “não há promessa mais fulgurante”, “a música em estado puro”, “um milagre”, “o maior maestro do planeta”, “o maior prodígio da música erudita e o melhor monstro vivo”. Ou como diz seu mentor José Antônio Abreu, “Gustavo é uma glória universal para a América Latina”. Sir Simon Rattle, diretor da Filarmônica de Berlim, declarou, “Gustavo é o regente mais assombrosamente dotado que já vi”. O jovem, que nasceu em Barquisimeto, a 260 km de Caracas, de família humilde, é o mais recente fenômeno da música erudita mundial. As 17 anos, torna-se diretor artístico da Orquestra Jovem Simon Bolívar, na capital. A partir de 2005 desbrava o mundo, que acaba por desbravá-lo. Gustavo assumiu, como convidado, a regência das Filarmônicas de Berlim, Viena, Nova York e Israel, além de ópera no Scala de Milão. Em 2006 é escolhido diretor da Sinfônica de Gotemburgo, na Suécia, e agora, em 2009, assume a direção musical da Filarmônica de Los Angeles. Gravou pela Deutsche Grammophon, Beethoven, Mahler e acaba de lançar um álbum interpretando Tchaikovsky.

A regência de Gustavo encanta a todos. Não há quem não fique embasbacado ao ver o sujeito, praticamente em transe, se agitando, perante uma multidão de jovens afinadíssimos, fazendo ressoar, uma música como certamente, nunca se ouviu, no mínimo, inédita e fantástica. Gustavo transforma-se em música, como se diz acima, praticamente em “estado puro”, e acaba por dar à música que cria com sua orquestra, um toque próprio, que ninguém mais teria como fazer. Dono de uma energia e originalidade musical que impressionam. O maestro representa um envolvimento tão íntimo e apaixonante pela regência, que cria com seus músicos, um vínculo aparentemente mágico. Um fenômeno que certamente, e felizmente, veio para ficar. Tornou-se já, tão jovem, um nome obrigatório na história da música erudita universal.

O que de imediato se poderia perguntar, é como um garoto pobre, de família pobre, de uma região pobre da pobre Venezuela pode chegar ao fascinante estrelato de Gustavo Dudamel? Se repararmos ao redor, veremos que este fenômeno não está só, ou não é algo isolado. Temos outros exemplos na Venezuela, como Edicson Ruiz, 23 anos, um empacotador de supermercado que aos 17 anos tornou-se o mais jovem contrabaixista da Filarmônica de Berlim. Se prestrarmos ainda um pouco mais de atenção, veremos que a Venezuela é um país com um número extraordinário de jovens e crianças que se dedicam por quatro horas diárias, em seis dias da semana, já a partir dos dois anos de idade, à música clássica. As crianças, além das lições, ganham seus instrumentos. Estima-se que cerca de dois milhões de jovens e crianças já tenham passado pelos cursos oferecidos pelo Estado, nos pouco mais de 30 anos de existência da chamada Fundação do Estado para o Sistema de Orquestras Jovens e Infantis da Venezuela. São ao todo, 125 orquestras juvenis, 57 orquestras infantis e 30 orquestras sinfônicas profissionais para adultos. Aproximadamente 250 mil crianças, noventa por cento delas, de famílias pobres, são estudantes de música erudita em todo o país. São 1.800 professores. A Fundação, vinculada ao Ministério da Saúde e do Desenvolvimento Social da Venezuela, vem recebendo anualmente 29 milhões de dólares do governo federal. As orquestras se espalham tanto pelas cidades, quanto pelo meio rural e estão presentes nos 24 estados do país. Segundo o fundador do projeto, criado em 1975, e mentor de Gustavo Dudamel, o pianista José Antonio Abreu, “Es precisamente por el énfasis social del programa que logramos obtener apoyo governamental. El Estado ha entendido perfectamente que este programa aunque trabaja através de la música, es esencialmente um proyecto social, um proyecto para el desarrollo humano, que es la meta del Estado Venezolano”.

Gustavo Dudamel é a ponta do iceberg. Os frutos do investimento estão agora sendo colhidos. Os jovens músicos venezuelanos estão encantando o mundo. Segundo Roberto Minczuk, regente da Orquestra Sinfônica Brasileira “no futuro, nas grandes orquestras, metade dos integrantes serão orientais, e a outra metade, venezuelanos”. Imagino como um investimento nestas proporções, e digamos ainda, nesta magnitude e ordem de grandeza, tenha contribuído para a vida das pobres crianças das classes populares da Venezuela. O trabalho da Fundação constitui-se em uma verdadeira tábua de salvação para várias gerações e certamente, desviou muitos jovens e crianças da delinqüência ou marginalidade. Ainda de acordo com seu mestre-fundador, “Para los ninos con los que trabajamos, la música es prácticamente la única via hacia um destino social digno. La pobreza significa soledad, tristeza y anonimato. Uma orquestra significa alegria, motivación, trabajo en equipo, el logro de uma meta. Es una gran família que está dedicada a la armonía, a todos esas cosas hermosas que solo la música puede brindar a los seres humanos”.

Um exemplo que serve ao mundo. Fico imaginando que bem não teria feito um projeto deste em um país como o nosso. Quantas crianças, adolescentes, ao invés de estarem a empunhar revólveres e canivetes, poderiam estar tocando violino, baixo, contrabaixo, piano, e tantos outros instrumentos maravilhosos, que infelizmente, pouco temos por aqui? Mas infelizmente, nós, ó pobre de nós, não tivemos a sorte. Enquanto a Orquestra de Jovens Simon Bolívar era criada em 1975, em terras da Venezuela, aqui em nosso Brasil brasileiro, amargávamos a feridas dos duros anos de chumbo, em meio à truculência política e a estupidez sem fim. Foi em 1972, que o coronel Jarbas Passarinho, então ministro da Educação e Cultura, aboliu dos currículos das escolas do país inteiro, de forma definitiva, as aulas de música, trazendo um prejuízo incalculável a milhões de crianças há quase quarenta anos. O mesmo Jarbas Passarinho, que ao assinar o Ato Institucional n°5, em l968, pronunciou a célebre frase: “À favas com os escrúpulos da consciência”. Como diz José Saramago, em fábula recente, A viagem do Elefante, "Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas".

A ausência absoluta de uma formação musical mínima da população brasileira tornou-nos, a todos, reféns de uma música meramente comercial, sejam os enlatados americanos, que nos chegam aos tantos, seja a produção nacional, que para vender, torna-se mais um festival de peitos e bundas, do que a revelação de verdadeiros talentos. Afinal, somos o país do pancadão, onde “um tapinha não dói”. E dá-lhe e dá-lhe. Heranças eternas, da ditadura. O silêncio do passado - o vazio do presente. Façamos o futuro a cantar. Ao observarmos bem, veremos que muito temos a aprender com os venezuelanos.



Marcos Vinícius.


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Chimpanzés da vida


Chimpanzés da vida

É impressionante como a cada dia, os cientistas e pesquisadores vão descobrindo o quão próximos de nós, estão os chimpanzés. Ficamos cada vez mais convencidos, que se quisermos de fato, conhecer mais profundamente as nossas mais remotas origens, temos que prestar bastante atenção nestes nossos tão próximos parentes. Não é de hoje que o potencial cerebral, a inteligência e as habilidades dos chimpanzés vêm sendo testados e surpreendendo pesquisadores e curiosos pelo mundo inteiro. Muitos mesmo já chegaram a adotá-los como se mais um membro da família fosse. Os humanos já colocaram os pobres bichinhos a realizarem todos os tipos de façanhas, para que fossem conhecidos, experimentados, adestrados. Nos institutos de pesquisa, nos centros de estudo, nos circos e nos zoológicos, os chimpanzés proporcionam espanto e curiosidade aos perplexos olhos dos homens. Há décadas sua capacidade de raciocínio, de memorização, de organização e de realização de operações complexas foi já desvendada pelas pesquisas. Dentro do aparentemente infinito reino animal, não existe ser ou espécie que nos seja mais próxima. É fato.

Uma das descobertas mais recentes e intrigantes que mais ainda os aproximaram de nós, foi a constatação feita há alguns anos por estudiosos, cujos nomes não me recordo, que observaram durante meses os chimpanzés em seu habitat natural. Puderam observar uma cena que muito mudou a forma de compreendê-los. Uma mãe chimpanzé paciente e dedicada dando uma lição para a filha sobre como quebrar um vegetal de casca dura, utilizando as raízes de uma árvore como bigorna, e uma pedra como um machadinho. Interessante observar o processo. Inicialmente, a mãe explicava à filha, atenta, como realizar a operação. Em seguida, passa a ela a responsabilidade por fazê-lo. Após várias tentativas frustradas e mais uma intervenção da mãe, a criança aprendiz, finalmente, acerta a lição. Um grande salto de qualidade, tanto do ponto de vista daquele núcleo familiar, onde pode se verificar, inclusive, a presença de método, um processo ensino-aprendizagem, práticas de preparação para o trabalho e para a vida, quanto para entendermos um pouco mais sobre a natureza deles e a nossa própria.

Há uma espécie de chimpanzés, que como os humanos, copulam de frente, um a observar o outro, com os olhos nos olhos, como não vimos ainda outras espécies fazerem. Edgard Morin, em "O Enigma do Homem", afirma que este contato frente a frente entre os sapiens, a troca de olhares e feições, durante o ato sexual, ao longo de milhares de anos, teve responsabilidade não só sobre a formação dos caracteres femininos, como a sensualidade da boca, da nuca, a maciez ou aveludado da pele, o olhar sedutor, como acabou por criar laços de afetividade que possibilitaram o desenvolvimento de uma estrutura familiar e a formação de uma sociedade cada vez mais complexa. Há quem defenda que passem os chimpanzés, a pertencerem ao gênero Homo, dadas nossas proximidades genéticas. Justo.

Nova perplexidade nos traz agora, as mais recentes descobertas realizadas pelo grupo da venezuelana Cristina Gomes, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, Alemanha: fêmeas chimpanzés com dificuldade para conseguirem alimento, acabam se prostituindo por carne. Errou quem imaginava que fosse a prostituição uma instituição tipicamente humana ou recente em nossa história. Segundo o jornal Folha de São Paulo, de hoje, dia 08/04/2009, “a descoberta favorece a hipótese de que essa tendência também existia em sociedades humanas primitivas. Segundo os antropólogos, a troca de carnes por sexo fazia com que os melhores caçadores tivessem mais parceiras.” Impressionantes descobertas, e nunca mais serão os mesmos, os chimpanzés e os homens. Mas não entendem os chimpanzés o que é vender-se por dinheiro ou a alma ao diabo. Não sabem os homens o quanto de antiguidade carregam nas palavras, ao dizerem que “vão à caça”, quando, de fato, estão à procura de mulheres.



Marcos Vinícius.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Territórios na aldeia global


Territórios na aldeia global.




Vivemos um tempo de grandes e profundas contradições, como talvez sempre tenha sido. Há quem diga que são elas, as contradições, quem guardam as chaves do mundo e são a força-motriz das grandes engrenagens da história. Mas em dadas ocasiões, algumas delas, por serem tão gritantes, tão evidentes e típicas de um momento preciso, parecem mesmo marcar uma época, um período de média ou longa duração. Se procurarmos bem pelos fios e veredas do tempo, veremos que cada época, cada período, idade ou era, trazem as que lhes são próprias, que pertencem aquele momento e a nenhum outro. Assim, supostamente, caminha a humanidade. A espécie humana caminha por sobre um fio, sobre um abismo de contradições. Atualmente, o que chama a atenção de forma particularmente exagerada, são as contradições entre as relações que se estabelecem entre o público e o privado, na construção da chamada aldeia global. Não é algo de difícil percepção. Há um processo contínuo, iniciado nas últimas décadas, intensificado nos últimos anos, de transformar de forma radical e irreversível o que é público em privado e o que há muito acreditávamos pertencer ao espaço meramente privado, vem tornar-se a cada dia, de domínio público.

O mundo da globalização é a vitória do mundo do mercado. A chamada aldeia global torna-se um paraíso privado, uma ilha de delícias e negócios, ladeada pelo grande oceano da exclusão social e econômica. O mundo dos ricos é o mundo do esbanjamento e do desperdício e o mundo dos pobres, o mundo das bombas e da escassez absoluta. É o mundo da peste e das grandes fomes, o mundo das guerras. Um mundo a mirar-se no espelho, refletido às avessas. A imagem de uma época. Tem sido assim. Fora estas contradições maiores, fundamentais, absolutas, estruturais, outras mais, vamos encontrando pelos caminhos. Vivemos uma fase do desenvolvimento econômico, onde o capital torna-se cada vez mais guloso, em um contexto de estados nacionais enfraquecidos e com governos subservientes a seus interesses imediatos. Nestas condições, as riquezas das nações, são geralmente extorquidas para as grandes bolsas de valores, onde o milagre da vida, torna-se jogatina, onde ganham poucos gatunos e espertalhões e sacrifica-se, no altar dos negócios, uma humanidade inteira. A grande cartada das corporações multinacionais foi adquirir, nos últimos anos, empresas nacionais, lucrativas, a preço de banana, através de esquemas, negociatas, pelos balcões dos partidos políticos, em redes de influências e corrupções. O que era público tornou-se privado, como nunca até então, se havia visto. No Brasil, o governo FHC levou a política de privatizações à sua efetivação mais radical. Era a modernidade à moda tucana. O patrimônio público do país foi à feira. Muitos enriqueceram, os brasileiros, de maneira geral, ao contrário, ficaram mais pobres.

A tendência é, portanto, mundial. A palavra de ordem é privatizar. Privatizamos os rios, as terras, as águas, as matas. Privatizamos as gentes. Privatizamos tudo. Privatizamos a vida. Privatizamos os sonhos. Tudo foi colocado à venda. Tornamo-nos coisas, negociáveis, vendáveis. É a lei maior. A lei do mercado. As grandes corporações apropriaram-se do nosso mundo físico, do nosso labor, com o seu dinheiro, e expropriaram nossas almas, com a sua propaganda, suas verdades de mentira. Em que acreditamos todos. É a modernidade que a tudo salvaria. O mundo da globalização em que todos caberiam, e onde entre os homens, menos fronteiras haveria.

Mas o que é fato, e o que motiva a reflexão, é mostrar a tendência, do que era público, tornar-se privado, como a lógica mesmo de ser do mundo contemporâneo, e o que foi de domínio privado, caindo vertiginosamente no espaço público. As contradições que fazem época. De um lado, uma política de privatizações radical, de outro, uma exposição pública de nossas vidas privadas, cada vez mais intensiva. Vivemos na sociedade de informação e, portanto, sociedade do controle, que se pretende fazer, de forma completa, total. As grandes empresas, através de uma grande revolução nos sistemas de informações nos controlam a todos. Sabem nossas preferências, de todos os tipos, o que comemos, o que vestimos, com o que trabalhamos, com o que gostaríamos de trabalhar, para onde fomos e onde pretendemos passar as próximas férias, se empregos tivermos para tanto. Um trabalhador que por ventura, mover ação judicial, trabalhista contra seus patrões, estará provavelmente condenado, a não conseguir mais empregos em seu setor de trabalho, ou talvez mesmo, em qualquer outro setor, pois a classe patronal, possue a seu serviços outras empresas especializadas que se encarregam de rastrear os pretendentes às suas escassas, quando as tem, ofertas de emprego. As câmeras nos vigiam a cada passo, em todos os horários, e em quase todos os lugares. Somos intimamente monitorados. Até onde? Vamos perdendo a dimensão do espaço privado, em uma tendência ascendente. Às vezes, parecem nos faltar, apenas os chips.

Ao usarmos as novas ferramentas de informação e comunicação, baixamos para nossas máquinas, cada vez mais velozes, as tantas vidas privadas que se expõem por aí, ora menos, ora mais que nós mesmos. Fazemos downloads de nossas fantasias, nossos desejos e sonhos, fazemos uploads de nossas frustrações, nossa identidade, na ilusão da cidadania perdida. Perdemos nossos espaços públicos, e acabamos por tornar públicos a nós mesmos. No fundo, sentimo-nos seduzidos pela exposição. Nos escancaramos, nos blogs, nos arquivos virtuais, pelos vídeos domésticos, pelos álbuns de imagens das grandes comunidades virtuais. Aposto como nos próximos anos, a maioria dos jovens casais, enamorados, terão seus momentos de prazer e intimidade, ao contrário do que as gerações que nos antecederam, geralmente o fizeram, às escondidas, mas à vista de quem se dispuser a assisti-los pela tela do computador ou aparelho celular. Sim. O que era público fez-se privado, e o privado, público tornou-se. Assim ensaiam-se os primeiros passos do terceiro milênio. A engatinhar-se.



Marcos Vinícius.

segunda-feira, 30 de março de 2009

A raposa e as galinhas


A raposa e as galinhas.


Já há muito tempo viviam naquele galinheiro. Na verdade, o sonho de seu proprietário, era formar uma grande granja, mas as dívidas que acabou contraindo nos bancos, fizeram com que forçosamente tivesse que optar por um investimento mais modesto. E ali viviam as quatro, praticamente isoladas naquele fundo de quintal, mas recebiam diariamente sua ração de milho, pela qual deveriam retribuir, regularmente, em forma de ovos. Assim viviam, ciscando o chão, bicando as paredes, talvez por alguma carência alimentar, alguma deficiência nutritiva, a falta de cálcio no sangue, ou sabe-se lá o que, constantemente davam umas bicadinhas das paredes laterais do galinheiro. No mais, como de praxe, dormiam cedo, e acordavam cedo também, limpavam suas penas, enchiam os papos, e ficavam a tagarelar. Quem de perto espiasse, poderia imaginar que são antigas amigas, confidentes, companheiras, apesar de aparentemente sempre desconfiadas, umas em relação às outras. A impressão que se tem, é que, olham-se sempre, mutuamente, com o chamado olhar de soslaio, sorrateiro, desconfiado. Em alguns momentos, parecem zangarem-se umas com as outras e chegam a trocar bicadas. Vivem ali, as quatro, a sós, isoladas entre caixotes de madeira, e uma tela de arame, em forma de L que se prende nos cantos do muro de concreto, sem sequer imaginar, que habitam um planeta, com uma população estimada em mais de 25 bilhões de galinhas.

Num dia qualquer, descobrem a firme intenção da raposa que vivia pela mata vizinha, em atacar-lhes pelo meio da noite. As quatro se ouriçam, e entram em uma terrível inquietude, sabiam que tinham chances de escapar, mas que para tanto, precisavam se organizar, e antes de qualquer coisa, era necessário que estivessem unidas naquele momento, pois tinham a noção exata do perigo que corriam, seja pelo brilho dos olhos daquela temível raposa, que seus olhos já tinham tido a oportunidade de cruzar, seja pelos gritos agonizantes das galinhas vizinhas, já entre os dentes de seu predador, que tiveram a infelicidade de ouvir por mais de uma vez. Pode-se dizer que mais que nunca, estavam aterrorizadas. A possibilidade de não se safarem, era terrivelmente considerada.

Passaram o dia inteiro tagarelando. Difícil saber quem tagarelava mais. Estavam visivelmente apavoradas e cada qual, a seu modo, de acordo com seu jeito próprio de conceber e ver as coisas, apresentava uma alternativa, uma receita de salvação que considerava mais apropriada para a ocasião. A galinha mais cinzenta, sugeria para as demais, que fossem todas, no final da tarde, para a parte mais alta do galinheiro, porque por ali, havia uma passagem, para um caixote por sobre o telhadinho, por onde certamente estariam mais seguras. Riscos? Sim, havia. Se o caixote cedesse ao peso, poderiam cair no quintal do vizinho, e aí sim, tornar-se-iam presas mais fáceis, e seriam certamente, devoradas. A galinha mais velha, sugeria o silêncio total quando a noite caísse, pois já era do seu conhecimento que o faro daquela raposa não era dos melhores, e que desconfiava inclusive, que ela identificasse suas vítimas pelo ruído. Acreditava que se mantivessem caladas, literalmente, de bichos fechados, ficariam, pois, protegidas. Riscos? Sim, a condição silenciosa acabaria por obrigá-las a uma posição pouco defensiva, o que em caso de ataque, poderia ser fatal. A outra, a mais franzina, sugeria que passassem a noite apertadas por sob o buraco do muro, pois ali seria de mais difícil acesso à velha raposa, mas havia o inconveniente de não conseguirem dormir, dada a posição incômoda em que teriam que pernoitar. Riscos? Sim. A noite insone, poderia deixá-las mais fragilizadas perante um ataque fulminante. A galinha de crista quebrada, sugeria avançar sobre o animal e apresentava uma estratégia ousada, heróica, onde a raposa parecia mesmo não ter vez. Riscos? Havia. Um descuido, um vôo ou bicada em falso, e transformar-se-iam em penas esvoaçantes.

As galinhas estavam todas convencidas que as alternativas que apresentavam, as suas próprias, eram as melhores, todas as outras apresentavam falhas gravíssimas, irreversíveis, diante das que acabava de formular. Cada uma delas cacarejava com mais veemência e convicção. Ao longo do dia, somavam argumentos às suas causas, que passaram a defender com paixão e fervor praticamente religioso. Cada uma acreditava piamente, que havia encontrado, finalmente, o caminho da salvação. Pulavam sobre o poleiro, tagarelavam, cacarejavam, gritavam, e quase não ouviam as alternativas, umas das outras.

A galinha, do primeiro plano, defendia a saída pelo alto, pois além de acreditar, estar livre de qualquer possibilidade de vir a falhar, via ainda, a alternativa como a possibilidade de uma vitória completa por sobre o inimigo. A saída por cima. Considerava as propostas das demais, que pouco ouvira, como entreguistas e ingênuas. Completamente inviáveis. A que pregava o silêncio, talvez inconscientemente, estivesse mesmo, a legislar em causa própria, na medida em que, sua alternativa, acreditava, era a que menos lhe exporia a riscos, dada a sua idade já avançada. Acreditava que as outras idéias, fossem por demais ousadas, egoístas e, portanto, fadadas ao fracasso. A magricela da turma, considerava muito mais sensato, ficarem as quatro, comprimidas por sob o muro, pois dali não teria como a raposa alcançá-las e que as propostas das companheiras eram irrealistas, e sem qualquer chance de êxito. A que certamente, quebrou a crista, em alguma disputa, ou rinha qualquer, defendia que o ataque ofensivo pode dobrar o inimigo, e dizia-se desonrada em saber que divide o território com companheiras covardes e derrotistas.

Arrastaram-se por horas num debate sem fim. Ali concentravam todas as suas energias, as quais não pensavam em poupar. O clima era tenso entre elas. O dia chegava ao fim, e muito distantes estavam de um consenso, um acordo. Tagarelavam, tagarelavam. As defesas cada vez mais apaixonados e os ataques cada vez mais fulminantes e mortais. As galinhas cacarejavam umas contra as outras, e se odiavam como nunca haviam feito. Nunca foram tão desunidas e loucas. Não deram por si, quando a raposa engoliu a todas.



Marcos Vinícius.

domingo, 29 de março de 2009

Efeito borboleta possível.


Efeito borboleta possível.



O passeio em uma grande locadora pode ser muito interessante, não só pela gama imensa de filmes ainda não assistidos que ela oferece, como pela oportunidade de relembrar de filmes já há muito vistos, tantos aqueles, que a muito custo e sofrimento, chegamos ao final, quanto aquelas histórias inesquecíveis, que não só indicaríamos para amigos ou desconhecidos, como estaríamos sempre prontos para assisti-los por uma segunda vez. Os filmes podem nos fascinar por uma série de motivos, seja pelo desempenho ímpar de seus atores, pelo cenário, fotografia, seja pelo enredo, pela sofisticação da produção, por emoções proporcionadas, pelo choro ou pelo riso, e por uma série de outras razões.

Revejo na prateleira o filme “Efeito Borboleta”, que assisti em uma sala de cinema cheia, quando do seu lançamento. Achei uma experiência muito interessante. Não me lembro mais dos detalhes da trama, mas o que faz deste filme, especial? Após estes anos todos, não me lembro de comentários negativos a respeito dele, ou de alguém que dissesse não ter gostado. Além de ser um filme, que praticamente, prende a atenção do início ao fim, ele praticamente nos traz uma lição, daquelas que costumamos chamar de lições de vida. Sim. Ao nos mostramos de forma enfática o óbvio. Qual seja, o quanto um detalhe pequeno da vida, um fato menor, aparentemente sem muita importância, pode mudar, fatalmente, irremediavelmente, o rumo de uma vida, ou o curso de uma grande história. O filme desperta certo sentimento de responsabilidade com nossas próprias vidas, na medida em que a todo o momento nos faz recordar, como nossos atos, além de simples ações em si, por menores que sejam, podem acarretar tão enormes e fatais desdobramentos, tantos os esperados, quanto os fatalmente imprevisíveis.

O filme é a história de um jovem, com um distúrbio grave, relacionado a memória, que adquire condições de voltar ao passado, e assim, fazer e refazer ações da sua vida, para melhorar-lhe o destino, para restaurar algo em sua vida, que sempre acreditava pudesse ser mudado. O enredo é uma sucessão de idas e vindas, onde a cada alteração, feita através da intervenção no tempo, o personagem se vê mais atolado em situações dramáticas, quando não trágicas. Em nossas vidas reais, sabemos que nem sempre, temos como voltar atrás. Talvez nisto, esteja a pertinência do filme, lembrar-nos da nossa condição tipicamente humana, tanto no sentido das nossas próprias limitações, quando no das possibilidades conquistadas ou decisivamente perdidas, que vamos somando ao longo do tempo. Diz José Saramago, em seu “A viagem do Elefante”, “Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas”.

Muitos querem nos fazer crer, que exista já um destino traçado, para cada homem, para a humanidade inteira, cujo desenrolar não tem como ser alterado pelas ações humanas, pois pela eternidade dos tempos, foi já traçado nos laboratórios dos deuses. Olhando para a história, para o tempo passado, retrospectivamente, temos a falsa impressão, de que o presente sob o qual montamos assento, foi sempre uma fatalidade, sem caminhos ou rotas alternativas, do qual não há como escapar, um fenômeno inexorável. Como se a história inteira fosse uma grande novela traçada por mãos divinas, cujo destino fosse inevitável, e aos homens nada mais coubesse, que simplesmente, arrastar-se pelo fio condutor de uma história, cujo fim já está definido, desde o início.Não creio que assim seja. Não que a vida não seja dotada de sentidos, mas que estes sentidos se vão construindo, com o que fazemos deles.

Sabemos o quão poderosas são as grandes forças da história. Para fins de ilustração, sabemos que independente do que pessoalmente fizeram os grandes inventores dos séculos XVII e XVIII, o fenômeno chamado de Revolução Industrial, ocorreria de qualquer maneira. Não fossem Cabral ou Colombo, a América certamente seria descoberta pela Europa, pela mesma época, ou quem sabe, pelas mesmas naus. Não fosse o assassinato do arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, em Saravejo, o mundo, também não se pouparia da grande carnificina que foram as grandes guerras mundiais. Mesmo que Marx não houvesse nascido, a história não se livraria da longeva luta de classes.

Há grandes fatos e fenômenos históricos, que parecem mesmo dispensar as realizações pessoais, o heroísmo de determinados personagens, a persistência de alguns sujeitos. Mas isto é uma meia verdade. Para além das forças da história, que são de fato, poderosas, justamente por serem fruto das opções humanas, para além das forças do destino, traçado por deuses, que parecem desconhecer o perdão, a responsabilidade do indivíduo sobre sua própria vida e sobre a história do mundo é de fato, muito grande. Um passo em falso, o caminhar lento pela avenida apressada, pode ser fatal. Sem nos esquecermos, ainda, que os homens constroem seus mitos, de acordo com suas escolhas ou crenças, pois somos nós, quem no fim das contas, os elegemos. Para que possamos refletir neles e eles em nós. Somos o reflexo do espelho que construímos com nossas próprias mãos e desejos. As nossas opções ou escolhas, quer acreditemos nisto ou não, certamente deixarão nossas vidas, o mundo e a história, melhores ou piores. Podemos sim, alterar o destino, o efeito borboleta possível.



Marcos Vinícius.

terça-feira, 17 de março de 2009

Descoberta da feiúra


Descoberta da feiúra


No fundo, no fundo, nunca pensei que pudessem ser feias as mulheres. Pelos motivos óbvios que já todos conhecem. Desde o início dos tempos, sejam os nossos, sejam os do mundo, a imagem feminina sempre esteve associada ao mito da beleza, da criação da espécie, a fonte primordial da vida. Seja pelos mitos, seja pelo prazer que podem proporcionar, as mulheres sempre inspiraram as mais belas canções, os mais admirados retratos, e os mais líricos dos poemas. Tem sido assim. A presença feminina esteve sempre associada a algum tipo de encantamento, é o que se ouve sempre, nas mais variadas línguas, nos mais diferentes tempos ou lugares.

Os homens muitas vezes, pretendem lhes roubar o que se tornou de direito. Ao estudarmos, por exemplo, a evolução humana, embalarmos o berço da espécie, encontraremos nomes que parecem querer deixar de lado, elas. Homo erectus, Homem de Neandertal, Homem de Cro – magno, Homo habilis, sapiens, e por aí afora, como se fosse a grande forra, como se a história humana só de homens tratasse. Onde a própria espécie, tornou-se, subjetivamente masculina, ao ser denomina de humanidade -, e não outro nome qualquer que lembrasse mais a elas que a nós. As palavras são poderosas, e não conseguimos dimensionar a força que podem adquirir ao longo do tempo, principalmente quando eternamente repetidas. Mas como algumas naturalidades, não têm como serem encobertas, a beleza mágica que trazem as mulheres ao longo do tempo, acabam por se afirmar no inconsciente coletivo, seja através das evidências religiosas, científicas, ou por uma paixão avassaladora qualquer que pode se revelar ao se cruzar uma esquina.

Um dos nomes divinos que sempre me trouxe encantamento foi Paccha Mamma, Mãe Terra, deusa da América pré-colombiana, que encarna o ideal feminino como força criadora. Osíris, no Antigo Egito, não atingiria a eternidade, ou até mesmo a fartura anual das colheitas, não fosse pelas mãos mágicas de sua esposa-irmã Ísis. A sombra da beleza das deusas antigas, e praticamente mortas, permanece vivíssima em nossas elucubrações poéticas, em nosso imaginário. Não ouvi quem dissesse que Eva fosse feia, e nem acredito que Adão, fosse de fato, definitivamente, resistir aos seus encantos. Assim é. Ademais, apesar de todas as grandes descobertas científicas, dos inúmeros fósseis que foram encontrados ao longo dos séculos, são ainda, as ancestrais femininas, as mais populares e representativas das origens da nossa espécie. Seja Lucy, a fêmea australopitecínea, considerada a grande mãe de todos nós, africana, seja Luzia, uma das mais antigas representantes humanas, cá das Américas. Talvez os homens se enganem ao acreditarem que Deus, fez a nós, sua imagem e semelhança. Acredito mesmo, que muitos impérios, tenham sido conquistados, territórios anexados, exércitos inteiros destroçados, para que o rei poderoso pudesse tornar-se, no máximo, atraente, aos olhos da amada. Talvez possa o desejo ter sido o grande motor da história.

Dados estes e tantos motivos é que nunca acreditei que pudesse achar feias as mulheres, claro está que algumas podem ser mais belas e atraentes, em função de todo tipo de sortes que pela vida se vai encontrar, mas feias, de todo feias, nunca acreditei que pudessem, no fundo, no fundo, serem. Seja pelos atributos naturais, seja pelo imaginário milenar, que levamos guardados em nós, são fundamentalmente, belas. Recentemente, porém, descobri, uma fórmula perversa, pela qual pode deixar uma mulher, e assim ainda podemos dizer, completamente desprovida de qualquer beleza. Uma mistura heterogênea de vaidades pessoais, disputas por poder, cargos ou influência, que fazem com que toda a beleza historicamente construída, torne-se um grande borrão, como imaginava, que apenas aos homens pudesse ocorrer. Ledo engano. Um sistema complexo, envolvendo intrigas, trapaças, difamações, inescrupulosidades, faz com que uma feiúra pálida, amorfa, exale do ventre de rugas precoces, tristemente femininas. Descobri, então, o quanto pode ser feia uma mulher.



Marcos Vinícius.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Muro Dona Marta - o nosso muro da vergonha.




Muro Dona Marta – o nosso muro da vergonha.


Já há milhares de anos, que os homens se põem a levantar muros e muralhas. Os muros foram criados ainda nos mais remotos tempos como forma de garantir a propriedade privada, expandir impérios e separar os povos. Ao longo da História, incontáveis deles foram construídos. Muitos ainda guardam a memória dos tempos idos, através de suas ruínas ou partes inteiras, dada a grandiosidade de suas dimensões, muitos foram completamente derrubados, e não deixaram para a posteridade, quaisquer vestígios, muitos outros, ainda estão a atormentar populações inteiras, outros tantos, se planejam construir pelo mundo afora, ilustrando, como a intolerância e a arrogância do poder, são manifestações que se perpetuam no tempo, e são, às vezes, mais duras e resistentes que as próprias pedras, com que são construídas as maiores muralhas.

A mãe de todas as muralhas, a muralha da China, cortou o território da Ásia, entre desertos e montanhas, por aproximadamente 6500 km. Nos pontos mais altos, chega a medir 16,5metros e serviu como fronteira do Antigo Império Chinês por mais de mil anos, consumindo o trabalho de cerca de um milhão de homens. Calcula-se que com o material utilizado em sua construção, daria para se construir um muro de 2 metros de altura em torno da linha do Equador. A muralha de Adriano, que protegia a fronteira norte do Império Romano com a Escócia, concluída no ano 126, construída de pedra e turfa, tinha 118 km de extensão. Possuía cerca de 4 metros de altura e 2,5 metros de largura, e de tão larga, foi construída sobre ela, uma estrada, por onde percorriam as sentinelas do Império.

Em tempos mais recentes, um enorme muro, de mais ou menos 150 km de extensão e 4 metros de altura, com cercas de ferro, barreiras antiveículos, arame farpado e mais de 300 postos de vigilância, dividiram um país e uma cidade inteira, entre 1961 e 1989, o memorável Muro de Berlim, símbolo de um mundo dividido em dois. Os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia vêm sendo cercados por muros fortificados, cercas de arame, valas e barreiras por centenas de quilômetros. Em alguns pontos, chegam a medir 9 metros de altura, mais que o dobro da altura do muro de Berlim. O imperialismo norte-americano não podia ficar para trás e o governo de George W. Bush, com o respaldo do Congresso, vem construindo um muro gigantesco para separar os EUA, da América Latina, na fronteira com o México. Diversos outros muros e valas de separação distanciaram homens e povos ao longo dos tempos. Como exemplos mais recentes, poderíamos citar ainda, as barreiras físicas que tornaram incomunicáveis cipriotas, turcos e gregos, irlandeses católicos e protestantes, coreanos do norte e coreanos do sul, dentre tantos outros.

O imperador Adriano, no momento da expansão máxima de seu Império, procurava protegê-lo dos bárbaros que vinham do norte. Os imperados chineses na Antiguidade, num esforço monumental, tentavam impedir a penetração de tribos nômades da Mongólia e da Manchúria em suas fronteiras. O muro de Berlim dividiu o mundo e separou os povos, entre os que viveriam na banda ocidental da cidade, sob os ditames da economia americana, e os do lado oriental, que estariam sob o domínio da União Soviética. Os muros construídos por Israel têm como finalidade primeira encarcerar os palestinos. Na faixa de Gaza, com 40 km de extensão e 10 km de largura, vivem confinadas cerca de um milhão e meio de pessoas. O chamado muro de Bush, em construção, visa, fundamentalmente, afastar os pobres do Sul, do paraíso e das oportunidades que muitos esperam encontrar no Norte rico. Para isso servem os muros, anexar e expandir domínios, expropriar territórios, garantir a propriedade, separar os homens, humilhá-los, confiná-los, subjugá-los, ou até mesmo, eliminá-los, o que torna-se mais fácil, quando estão encurralados.

O governo do Estado do Rio de Janeiro pretende construir também o seu muro, podendo, inclusive, criar mais um símbolo nacional. O muro, já para ser construído, orçado em 980 mil reais, terá quase 650 metros de cumprimento, e terá altura bem próxima à do muro de Berlim, 3 metros. A obra será realizada para cercar uma lateral inteira do Morro Dona Marta, Botafogo. De acordo com o governo, basta cercar apenas um lado da favela, pois do outro lado, há um plano inclinado e muros de propriedades particulares. De acordo com as notas oficiais, o muro será uma forma de conter a expansão da favela e também impedir a devastação da floresta vizinha. “A proposta é de proteção ao meio ambiente. Quando não há rochas ou outros protetores naturais, a comunidade avança na mata.”, diz Ícaro Moreno, presidente da Empresa de Obras Públicas do Estado. Segundo a assessoria do governo, “estamos investindo na ordem pública, enfrentando o tráfico de drogas e as milícias, impondo limites ao crescimento desordenado. Os ecolimites vão ao encontro dessa política de investimentos sociais com ordem pública”, diz a nota. Veja a peculiaridade brasileira. Aqui os muros da exclusão e do segregacionismo são chamados de ecolimites. Não há como doirar a pílula. Apesar da denominação com viés ecológico, a intenção do governo vai muito além que, minimamente, proteger a natureza.

Os ecolimites, como afirma o próprio governo, vão ao encontro da política de investimentos sociais com ordem pública. De acordo com a propaganda oficial, o Morro Dona Marta foi a primeira favela do Rio em que a polícia conseguiu acabar com o tráfico de drogas, desde a ocupação policial ocorrida em 19 de novembro de 2008. A construção do muro faz parte das táticas de combate ao narcotráfico e também, da estratégia da guerra aos morros. Em 2004, o governo de Rosinha Mateus, manifestou a intenção de cercar a Rocinha, mas acabou recuando, após a resistência da comunidade. A meta dos governos parece ser tentar deter o crescimento destes bolsões de miséria através de uma ação policial truculenta e da construção de muralhas. É uma política de criação de guetos, inspirada em modelos estrangeiros. O atual governador do Rio, Sérgio Cabral, em entrevista recente, ao se enveredar pela polêmica discussão sobre o aborto, afirmou: “Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal. O Estado não dá conta.” De acordo com o governador, os pobres se reproduzem em proporções perigosas. É necessário contê-los. A construção do muro insere-se nesta lógica. Ademais, se observarmos atentamente os mapas e as fotos de satélite, veremos que o morro da Marta é uma mancha de pobreza em um dos principais cartões postais do Rio de Janeiro e quase uma ilha de escassez cercada por uma bela paisagem, por áreas nobres e grandes mansões.

O morro Dona Marta possui cerca de 7.500 moradores, e segundo o presidente da associação de moradores do morro, José Mário, em nenhum momento, os líderes da comunidade local foram consultados sobre a viabilidade e conveniência da construção do muro. O Brasil agora se orgulha, por ter uma das 7 maravilhas do mundo moderno, o Cristo Redentor, o que se tem que perceber, é que bem abaixo do seu gigantesco nariz de pedra, um outro símbolo nacional é forjado, o nosso muro da vergonha.


Marcos Vinícius.

domingo, 9 de novembro de 2008

Parece mentira





Se tivesse lido em algum lugar sobre o assunto, provavelmente, nem ousaria escrever sobre ele, talvez até me desse mesmo por satisfeito. Mas como não vi qualquer referência a tal coincidência, faço questão de citá-la. Quando ouvi falar pela primeira vez em Barack Obama, pensei de imediato, que esta candidatura não teria como vingar, independente de quem fosse o sujeito, pois, com um nome deste, que lembra o inimigo declarado número um dos EUA, Osama Bin Laden, o candidato não tivesse qualquer chance na disputa. Considerei que no imaginário popular, após o trauma do onze de setembro, e à condução política que se tem dado à chamada guerra ao terror, ser dono de um nome que além, de ser de origem africana, é um nome queniano, e tão parecido com o nome do terrorista saudita, fosse motivo para desqualificá-lo, de antemão, à corrida pela Casa Branca. Obama, que acabou sendo eleito, a partir de uma campanha que mobilizou e emocionou o país, tem ainda, o Hussein, que o aproxima também, nominalmente, de Saddam Hussein, que foi capturado e morto pelo governo dos EUA, após uma caçada impetuosa, que fez no Iraque todo o tipo de vítimas, de estudantes em universidades, a doentes em hospitais.

José Saramago, disse recentemente, que a era Bush inaugura também, a era da mentira. Bush fez da mentira escancarada o mote de seu desastroso e hoje, impopular, governo. Umas das principais razões da vitória de Obama, segundo analistas, são o descrédito e o repúdio popular à chamada doutrina Bush. O representante da extrema direita americana, testa de ferro da poderosa indústria de armamentos e das mega-indústrias petrolíferas, sai de cena, amargando um índice de impopularidade, praticamente inédito na história da América. Bush, e os conservadores do Partido Republicano, foram vítimas de suas próprias mentiras, uma ironia do destino. Os americanos, que elegeram e reelegeram Bush, fartaram-se de suas falácias, pois como sabemos, não se pode querer enganar a todos a todo o momento, eternamente. Bush atacou a liberdade individual tão vangloriada pelos americanos, com a sua “liberdade vigiada”, sombreando os tão propagados princípios do americanismo, o “americans life”, o liberalismo e a democracia; enfiou suas tropas num verdadeiro atoleiro militar que é o Iraque, que tem trazido mais lágrimas que vitórias aos seus concidadãos,além de ter o final de seu governo, marcado por uma das piores crises financeiras da história.

Os americanos talvez tenham descoberto que Bin Laden foi treinado e financiado durante vários anos, por agentes da CIA, quando a Casa Branca e o Pentágono, queriam expulsar os soviéticos do Afeganistão. Talvez os americanos tenham se cansado de esperar para ver, finalmente, as tais armas químicas e biológicas desenvolvidas pelo Iraque, no governo de Saddam. Talvez tenham se fartado da política do Grande Irmão, que a tudo e a todos pretende controlar, vigiar, da falta de privacidade em seus emails, e de uma polícia política cada vez mais intrusiva. Quem sabe, tenham se envergonhado, os autoproclamados herdeiros da polis democrática, das atrocidades que são cometidas em seus presídios pelo mundo afora? Quem sabe queiram se redimir das formas repugnantes e desumanizantes da violência que puderam ver simbolizadas nos presídios de Guantánamo e de Abu Ghraib, onde afegãos, sauditas, iraquianos, e povos de várias outras nacionalidades são humilhados pelas torturas mais degradantes e bizarras da história da humanidade? Sim, os americanos elegeram um presidente, de nome Barack Hussein Obama Júnior. Parece mentira.



Marcos Vinícius.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Outubro, os jornais e o mercado.


Outubro, os jornais e o mercado



Quem teve a oportunidade de acompanhar os jornais neste mês de Outubro pôde perceber a força, onipotência e onipresença do grande deus-mercado. Este foi um mês atípico e nas linhas e entrelinhas dos jornais, podemos observar o quanto a poderosa entidade tem contribuído para tornar o mundo mais desigual, triste e patético. Do reino dos céus do capital, no centro nevrálgico do sistema, uma avalanche de bancos quebrados deixou os governos de plantão, reféns de uma crise financeira sem precedentes. Os pobres do mundo certamente pagarão a conta mais uma vez. A expectativa, diante da crise, é que a miséria, no médio e longo prazo, se aprofunde e agrave ainda mais. Já sabemos que a gritaria nas Bolsas, a brusca oscilação dos números, do câmbio, do valor das moedas, acaba por resultar no aumento da fome, da desnutrição, de doenças crônicas, mortalidade infantil, violência e de tantos outros dramas que afligem a população mundial em nosso capitalismo global e selvagem.


No campo da política, em qualquer esfera ou setor, vimos que praticamente não há alternativa. Entre os verdes, amarelos, azuis, roxos, vermelhos, ou qualquer outra coloração ou bandeira que possa aparecer, as receitas e a fórmulas, são sempre praticamente as mesmas. A arte da política vem se tornando cada vez mais estreita. Em tempos de campanha eleitoral, os candidatos são apresentados ao eleitorado como se mais não fossem, que simples mercadorias, bem embaladinhas pelos marqueteiros que tem a responsabilidade de eleger seus clientes. São eles os grandes agentes da ação política eleitoral, pois são, em ultima instância, quem, a serviço do grande capital, elegem, de fato, os governantes. Como bem observou o filósofo John Dewey, a política tornou-se “uma sombra dos negócios sobre a sociedade”. A política submissa aos mercados.


Quem leu os jornais de Outubro, pôde se indignar com o episódio do poeta e professor de literatura que foi demitido de um colégio particular no Rio de Janeiro, porque os pais dos alunos descobriram no blog e nos livros publicados pelo professor, versos eróticos. Os pais consideraram então, que os versos poderiam desqualificá-lo como educador e pressionaram a escola a demiti-lo. Como a escola não tinha a intenção de contrariar os interesses de seus clientes, o professor perdeu seu emprego. A escola alegou que havia um ‘parecer de psicólogos e juristas condenando a combinação do professor com o escritor em uma só pessoa’. O gesto ilustra de forma bem simbólica como o mercado, pode mais uma vez, ser alienante. A poesia foi extirpada do local onde prioritariamente, deveria se produzir o conhecimento, o saber - a instituição escolar. Na confusão dos negócios, muita coisa fica fora do lugar.


Outro caso típico de coisa fora do lugar é a crise pela qual vem passando a arte circense no país afora, matéria do jornal Estado de Minas desta semana. Só aqui em Belo Horizonte, onde há 3o anos, havia mais de 35 circos de bairro, hoje, não existem mais. É o prenúncio do fim de uma das manifestações mais antigas da arte popular. Entre um sem número de fatores que explicam o fracasso pouco espetacular dos circos itinerantes no Brasil é justamente o mercado imobiliário. Na maioria das vezes, os aluguéis dos imóveis nas regiões mais acessíveis ao grande público são incompatíveis com as rendas auferidas e a necessidade de sobrevivência dos artistas. A arte circense agoniza e morre ante o jogo da especulação imobiliária. Segundo Sônia Braskuper, acrobata, trapezista e mágica do circo Imperial, “Um dos prefeitos teve a capacidade de me dizer que nós, artistas, quando chegamos ao município, atrapalhamos a economia local, uma vez que os moradores compram os ingressos”. Os artistas, além de praticamente excluídos do mercado, também o são das praças, das cidades, demonstrando que junto à exclusão sócio-econômica, sempre vem acompanhada uma dose de intolerância, principalmente advinda das elites locais. Quase não há espaço para o circo mambembe, itinerante, em nossa pós-moderna aldeia global. “A coisa mais triste do mundo é quando encontramos um palhaço tradicional na porta de uma loja, fazendo palhaçadas para um público que não a enxerga”, afirma Sula Mavrudis, fundadora da entidade Rede de Apoio ao Circo.


Deu no jornal. Um pequeno grupo de adolescentes encontrou, às margens de um córrego fétido no Bairro Solar, em Belo Horizonte, um baú recém desenterrado por pedreiros, que não deram importância ao objeto, repleto de pedras de várias cores, semelhantes a esmeraldas, rubis e safiras, além de colares, brincos e pingentes. O anúncio da descoberta abriu na região, entre a vizinhança, uma verdadeira corrida ao ouro; vários moradores foram ao local ver se podiam encontrar alguma sobra, alguma pedrinha que pudesse ser trocada no mercado. Mas a busca parece, ter sido vã, o sonho e a alegria duraram pouco, pois de acordo com um especialista, as pedras são crizopázios, usadas para a produção de bijuterias. O tesouro, que muitos acreditavam ter pertencido a garimpeiros ou a um rico fazendeiro que viveu por estas bandas há muitos anos, acabou virando pó ante os olhos sonhadores dos antes sortudos e privilegiados descobridores, do bairro Solar. Outro sonho de eldorado desfeito. “(...)é uma pena não ter valor de mercado. Serve como lição. A gente que nasceu pobre, para crescer, tem que ser por meio do trabalho. Não adianta sonhar”, desabafa a dona-de-casa Marcelinha Pereira, de vinte e nove anos, quem também foi à cata do tesouro, sem poder certamente dimensionar o efeito devastador que a crise atual terá sobre o já estrangulado mercado de trabalho.


Estes episódios, aparentemente isolados, veiculados pelos jornais nesta primeira semana de Outubro são como muitos outros, amostras da força do mercado enquanto entidade suprema que controla a tudo e a todos, tornando o mundo, a cada dia, menos poético e alegre. Talvez as maiores lições que possamos tirar disso tudo, seja a voz dos principais protagonistas das histórias relatadas. Do poeta professor Oswaldo Martins: “Goya/o sonho o pintor revela/gostáramos de bruxas/de vê-las arder fogueira adentro/dos fuzilamentos/do caso Dreyfus/de ver Flaubert dizer/nos tribunais/e Sócrates ser morto/os espetáculo, senhores/está vivo”. Ou o depoimento emocionado do palhaço Rapadura: “No picadeiro está a vida, a alegria e o aconchego. Mesmo que a luta seja grande, temos que sobreviver e persistir na continuidade dessa arte. Fechar as cortinas é o mesmo que matar um sorriso”. Talvez ainda adiante sonhar. A vida se reinventa na arte, como alguém certamente já o disse, e essa certamente, não morreu, apesar do mercado, apesar da política.




Marcos Vinícius.

sábado, 4 de outubro de 2008

Os aviões de Wall Street


Os aviões de Wall Street




Não entendo coisa alguma de economia. Muito pela minha falta de esforço em tentar compreender sua ciência, muito pelo excesso de esforço das classes dirigentes ou dos que estão a seu serviço, em fazer com que ela seja, muitas das vezes, ininteligível. Não é qualquer cidadão que consegue folhear as páginas dos cadernos de economia e ler com facilidade e desenvoltura os artigos, e principalmente, as opiniões, os debates que ali se travam. Neste aspecto, não estou sozinho. As opiniões, como em qualquer outro assunto, ou polêmica relacionada ao mundo dos homens, são contraditórias, conflitantes, divergentes. Há um sem números de quadros, números, tabelas, gráficos, que deixa a maioria dos leitores estarrecidos, diante de um código, que à primeira vista, parece absolutamente indecifrável. Talvez, seja este, mais um dos motivos, pelos quais a maioria absoluta dos brasileiros, leitores de jornais, lêem praticamente apenas os cadernos esportivos. Muitas das vezes, as explicações mais dificultam do que facilitam a compreensão de determinados fenômenos da economia. E assim caminha a humanidade.


Diante da mais recente crise do sistema capitalista global, os cadernos de economia tem vindo mais volumosos. O tempo gasto nos telejornais a tratar dos temas econômicos é também maior. Compreenderão os cidadãos do mundo o que se passa afinal com o sistema econômico que de certa forma, entrelaça todo o planeta e todos os povos? Compreenderão os africanos, os sul-americanos, os pobres do mundo, os pobres do sul, o que está a se passar de fato com o mundo, em seus fundamentos econômicos? Entenderemos nós, o que verdadeiramente medem os índices Nasdaq , Dow Jones, Bovespa e tantos outros? As flutuações do câmbio, as taxas dos mercados, a gritaria das Bolsas, o intuito dos planos, os discursos dos especialistas e tecnocratas? Entenderão os povos a língua desta nova entidade, o culto da nova divindade, o deus-mercado? Certamente, não. Estão a ver navios. É uma linguagem difícil de ser desvendada para a maioria da população mundial, que vive, digamos alijada, das benesses do capital. É uma fatalidade.


A crise recente, que se manifesta a partir de Wall Street, mesmo sendo difícil de ser compreendida, será certamente sentida, vivida pela maioria da população mundial que será chamada, mais uma vez, a pagar a conta. Isto é certo. Não saberia explicar esta crise, com o rigor técnico que a natureza complexa do sistema demanda. Mas este fenômeno me fez lembrar um golpe que vi sendo aplicado, pelo menos duas vezes, anos atrás. Golpe que fez, por sinal, uma infinidade de vítimas. Claro, que em proporções infimamente menores em relação à crise de Nova Iorque. O golpe começava com um jogo, que se não me trai a memória, chamava-se avião. Aqui em Belo Horizonte, começou com algumas poucas pessoas, e rapidamente, envolveu praticamente quase a cidade inteira; não havia quem não conhecesse alguém que tivesse entrado neste jogo, neste avião que mais parecia uma canoa furada. Funcionava assim: você pagava um valor x para quem te apresentasse ao esquema. Feito isto, você deveria encontrar mais dez vítimas, e cada uma deveria lhe pagar o mesmo valor x que você havia pago. Neste momento, você obtinha o seu montante, aumentado dez vezes. Um bom negócio. Cada um que pagou o valor x, teria que arrebanhar mais dez vítmas para que enfim, pudesse também usufruir do seu quinhão, do seu investimento. Aqueles que deram início ao jogo acabaram se dando bem, pois era uma novidade, e todos queriam se aproveitar, porém o crescimento do sistema, em escala geométrica, rapidamente envolveu uma população bastante considerável. Mas como garantir a partir daí, que todos lucrassem? Impossível. O sistema não se auto-sustentava, pois para cada ganhador, havia dez pagadores. E claro está que em um sistema assim é logicamente impossível que todos ganhem. Pelo contrário, a maioria esmagadora pagou o pato para uma minoria espertalhona que deu o sinal de partida. Muita gente ficou no prejuízo. E pouquíssimos, na verdade, se divertiram com o jogo.


Por algum motivo, a crise em Wall Street me lembrou este golpe. Só que em escala bem maior. A população agora, chamada para pagar a conta da farra das elites que controlam a economia mundial, é infinitamente maior que as vítimas do aviãozinho, e o montante envolvido é um valor, que nós, pobres mortais, não temos como mensurar. O preço a pagar será alto. A grande burguesia fez a festa e lucrou como nunca em toda a história, se empanturrou. A ressaca sofrerá grande parte da humanidade. Os estragos serão conhecidos no médio ou longo prazo. E este jogo, este avião que partiu de Wall Street terá certamente efeito mais nefasto que os aviões que recentemente vitimaram os americanos. O que fazer para que o mundo não se transforme num futuro próximo, em um gigantesco marco zero?



Marcos Vinícius.