sexta-feira, 10 de abril de 2020

O milagre - Parte 1




É final do dia, há muito movimento pelas ruas, carros vão e vem para todos os lados, alguns em ritmo frenético e veloz, denunciam a pressa de seus condutores para chegarem logo em casa, outros amontoam-se em engarrafamentos, nos cruzamentos, e de dentro deles, motoristas esbravejam, xingam impropérios, como se desta maneira, pudessem se livrar das irremediáveis complicações do trânsito, principalmente, por estas horas, em que milhares saem de seus locais de trabalho e a noite já se avizinha, com os primeiros sinais da penumbra e da escuridão. Nas grandes cidades, é justamente nos períodos da manhã, quando a claridade do dia começa a se firmar, e depois, quando esta vem se esconder, é que os transeuntes mostram-se mais apressados. Os que, por um motivo ou outro, prostram-se pelas calçadas das grandes avenidas das regiões centrais, ou precisam afrouxar os passos, são, na maioria das vezes, atropelados por gente apressada, que vai não vai, passam por cima, dão solavancos, cotoveladas e empurrões. Os que deslocam-se de carro, apesar dos congestionamentos e do estresse que é estar ao volante nestas horas, em meio ao caos, pretensamente ordenado pelas placas e luminosos, encontram-se ainda em condição de conforto e privilégio, se comparados às multidões que se espremem nas filas dos pontos e no interior das lotações, expostos a todo tipo de odores, esfregões, quiçá, contágios e doenças. Alberto Matias, diariamente, atravessa a cidade, e pertence à categoria dos que, apesar de enfrentarem as longas distâncias para deslocarem-se da casa para o escritório, do escritório para a casa, possuem em suas garagens, veículos de última geração, e se tem algo, do qual sempre faz questão de se gabar, é que com este tipo de conforto e luxo, nunca se preocupa em economizar, afinal, ele acredita que é para isto que trabalha e dedica os esforços que faz na vida. Dia sim, dia não, vez ou outra, dia sim e o outro também, a depender da ocasião, não vai para a casa, sem antes tomar algumas cervejas, em algum boteco pelo caminho.

É quase noite quando Alberto Matias estaciona o carro. Ao descer do veículo, dá alguns passos, cumprimenta dois homens que bebem na calçada e entra para os fundos do bar. Senta-se encostado ao balcão, saúda o garçom, desativa algumas funções do aparelho celular e pede uma cerveja gelada. O primeiro copo, bebe de uma só vez, num único trago. Seu rosto se avermelha, um suor fino escorre da testa às têmporas, leva os dedos à sobrancelha, alisando-as, retira o sal das bochechas e respira aliviado. Abre os primeiros botões da camisa, esfrega as mãos e solta um sopro abafado e quente pelos ares. Passa os olhos, rápido e atentamente, em todos os cantos do estabelecimento. O bar é pequeno e em poucos instantes, o passa em revista. Naquele horário, as poucas mesas ainda estão vazias e o ambiente é silencioso, afora uma música, que toca baixinho, vinda, provavelmente, dos fundos da cozinha, quase um ruído, indistinguível. A cada minuto, o silêncio é entrecortado pelo barulho dos ônibus e caminhões que forçam seus motores para subir a rua, acentuadamente inclinada. Já no terceiro copo, Alberto relaxa o alinhamento, com o qual entrara no bar. A gola da camisa se entortara, as mangas se levantaram para além dos punhos e, depois de alisar e coçar os cabelos, estes de desgrenharam um pouco, e um pequeno e inusitado topete, levantara-se do conjunto, sem que ele o percebesse. Afora isso, mantém uma inquebrantável altivez, a pele, já pela casa das cinco décadas, é estampa de gente bem alimentada, nutrida, rodeada de cuidados, sabe-se lá, cremes, hidratantes e perfumes. A barba grisalha, sempre bem feita, de corte impecável, e os olhos úmidos e brilhantes fazem dele, um homem elegante, admirável. O sorriso simpático, quase amável, lhe dá a aura de boa gente, em quem, talvez, se possa depositar alguma confiança. Esvazia a primeira cerveja, vai até a rua, acende um cigarro e fuma-o inteiro, rapidamente, observando os movimentos dos carros e das pessoas. Em seguida, retorna ao balcão e pede ao garçom uma segunda garrafa. Enche o copo, observa, atentamente, as bolhas e espumas que se formam sobre o líquido amarelado, antes de levá-lo à boca, quando o telefone toca. Alô, Virgínia, meu amor, tudo bem? Ainda não cheguei em casa, estou aqui dentro do mercado, comprando algumas coisinhas que estão me faltando, apenas fazendo algumas reposições ligeiras. Não passasse por aqui, sequer teria um pão amanhã pela manhã. Poxa, como foi corrida a semana. Acho que, por estes dias, não vamos nos ver, o trabalho no escritório anda apertadíssimo, sinto-me um pouco cansado e dormi tão mal esta noite que, provavelmente, vou precisar de mais umas duas noites, no mínimo, para me restabelecer. Marcamos, então, para o final de semana? Sim, sei que está preocupada com a festa, mas ainda faltam muitos dias, acalme-se. Além do mais, fazemos aniversários todos os anos, se formos nos preocupar com eles com tantas antecedências, passaremos uma vida inteira, sem pensar em outra coisa. Já fez a lista? Sugiro que este ano, façamos algo mais modesto, vamos restringir os amigos e fazer um encontro mais familiar, combinado? Mas não se esqueça de incluir todos eles, mesmo aqueles com os quais não nos damos muito bem, os chatos e inconvenientes de sempre, não os deixaremos de fora, afinal, tratando-se de nossas famílias, já sabemos que o melhor mesmo, é a política das boas vizinhanças. Sossega, meu amor, garanto-lhe, aos finais, tudo se ajeita. Descanse, sem preocupações. Sabe que, mais uma vez, será um sucesso. A propósito, já pode, para este final de semana, providenciar um horário no salão, para embelezares ainda mais. É bem provável, que nos encontremos com o pessoal da Redação. Beijos, amor, e uma boa noite. Desliga o telefone e, imediatamente, dá uma golada grande na cerveja, praticamente, esvaziando o copo. Uma sensação de calor lhe invade o corpo, abre mais um botão da camisa, leva a mão ao peito, retirando o excesso do suor, e toma outro copo de cerveja. Por alguns instantes, volta a olhar cada canto do estabelecimento, o rosto do garçom que lá vai limpar as mesas, um quadro de paisagem pendurado sobre o freezer, já transformado em depósito de dejetos de moscas, algumas plantas penduradas na parede do fundo, e dois pôsteres de times de futebol, colados ao lado da velha máquina registradora. Lá fora, a noite cobre de breu e escuridões os passos apressados dos que vão pelas calçadas e enchem de sombras os olhos fixos dos motoristas, orientados pelas luzes fortes e, as vezes, ofuscante, dos faróis. Alberto pega, novamente, o telefone, as luzes do aparelho revelam as linhas e o desenho de sua expressão e um sorriso leve e crescente se esboça a partir do canto direito de sua boca entreaberta. Suas faces estão rubras. Abre a agenda, e vai olhando nome por nome, rola a tela de cima para baixo e de baixo para cima. Verifica os nomes que se iniciam com a letra A. Ali estão Adriano, Álvaro, Andrea, Angelina, Ataíde, Augusto, e tantos outros, em uma listagem quase sem fim. Passa pela letra B, vem a Bárbara, a Beatriz e a Bianca. Sim, a Bianca. Por um rápido instante, tira os olhos da tela, olha para a rua lá fora, e volta à Bianca. Abre o campo das mensagens e escreve, Boa noite, Podemos nos ver esta noite? Ao que ela responde, É claro amor, Que horas pretende? Às 23h, Ok? Combinado, nos encontramos, então, no mesmo local. Combinado. Beijos e até lá. Alberto desliga o telefone, toma mais um copo e outro e, por fim, pede a conta ao garçom. A partir daí, ele se apressa um pouco, despede-se dos poucos que ainda se encontram do lado de fora do bar e caminha em direção ao veículo estacionado à frente. Pelas vezes que já passou por ali, sua fisionomia já se tornara conhecida, ele mesmo, no entanto, não, pois apesar de nunca se demorar demais, também não é muito dado aos assuntos com os poucos que, geralmente, ali bebem naquele horário. O bar é distante de sua casa, o que lhe garantia certo conforto, relaxamento, e principalmente, anonimato. Tem que se apressar, o tempo que lhe resta, até a hora de ir ao encontrar com Bianca, é o suficiente para que chegue em casa, tome um banho, faça um abreviado lanche e desloque-se até o local combinado. Assim fez.

São vinte e três horas em ponto, quando Alberto estaciona o carro em frente a uma pequena lanchonete, onde Bianca o aguarda. Ele a vira muito antes de se aproximar. Ela usa uma roupa clara, uma blusa curta lilás e um short branco que, as vistas dele, são perceptíveis a mais de duas quadras de distância. Ele a enxerga de tão longe que, às vezes, chega a imaginar que se trata de alguma miragem ou alucinação, mas não, é sempre ela mesma. Ele não se recorda de identificar alguém desta forma, há tantos metros distante. É assim todas as vezes. Ela entra no carro e uma nuvem de perfumes acomoda-se no interior do veículo. Solta-lhe um sorriso largo, dá-lhe um beijo breve e encara-o com olhos de fogo. Sua pele clara reluz sob a incandescência do poste que ilumina a rua e seus pelos curtos arrepiam-se sob as mãos pesadas de Alberto. É uma bela jovem e, bem feitas as contas, sua idade talvez não se aproxime da metade dos anos que ele tem. Antes de ligar, novamente, o motor e dar a partida, Alberto a fita-a de cima em baixo e, pelas linhas de sua expressão é de se crer que, ele gosta muito do que vê. Acostumou-se a dizer a ela que, a cada dia que a encontra, está sempre mais bela e atraente que da vez anterior. O elogio lhe arranca um sorriso doce. Em menos de quinze minutos, estão à porta do motel. A recepcionista pede apenas o documento dela, ele, com um simples gesto amistoso com as mãos, um breve aceno, resolve a necessidade de identificação, ou sabe-se lá, a camareira já o conhecesse de outras ocasiões. O quarto é espaçoso e aconchegante. A cama é redonda, há espelhos pelas paredes e no teto e a iluminação é regulável através de um sofisticado sistema de interruptores e botões. Há as opções de penumbra, claridade total, alternância de cores, ou pisca-pisca, como nas boates. À disposição dos amantes, uma série de fragrâncias à venda, perfumes para cada tipo de fantasias, das catalogadas e das incatalogáveis, e um freezer farto de bebidas e guloseimas. Para atender aos mais variados gostos e opções, o estabelecimento oferece um enorme cardápio, com todos os tipos de acessórios e brinquedinhos. Bianca, após lavar suas mãos, vai até o frigobar, de lá retira uma garrafa de vinho, abre-a, enche duas taças e põe-se a brindar. Por todo o tempo, ela persegue os olhos de Alberto, sabe o poder sedutor que carrega no olhar, entrelaça seus braços aos dele, amarrados um ao outro, e com a taça em punho, celebram o primeiro gole. Um fogo, de imediato, se acende dentro dela e seus olhos faíscam. Alberto sente a volúpia do sangue acelerar-se por dentro das veias. Ela levanta-se, escolhe uma música no rádio e dança para ele, despindo-se, lentamente, peça por peça, até que fica completamente nua e se atira em seus braços. É alta madrugada, quando os corpos úmidos de Alberto e Bianca se desgrudam e, já exaustos, devido às demandas e emergências do amor e do sexo, põem seus músculos ainda quentes a relaxar sobre a cama macia. Ela passa os dedos, então, suavemente, sobre seus lábios e, depois, repete o movimento sobre os lábios dele. Ele alisa as pernas de Bianca, levemente, do quadril ao joelho, dá-lhe uma piscadela, levanta-se, bebe mais um gole do vinho, observa o corpo bem desenhado e atraente de Bianca, por um feixe de luz que atravessa a fresta da cortina, e deita-se novamente. Ela se agarra a ele que, está deitado olhando, agora, para o teto, e o abraça em concha, dobra sua perna sobre as dele, encosta a cabeça sobre o seu peito e lhe acaricia os pelos. Alberto repousa suas mãos sobre os ombros delgados e aveludados da amante. Como você está? Há tanto tempo não o via. Pensei que já nem mais se lembrasse de mim. Veja se não me abandona desta forma, podemos combinar assim? Ela pergunta. Claro, meu amor. Você bem sabe que sou um sujeito sem tempos, o trabalho no escritório, aperta-se a cada dia, e ultimamente, quase não tenho ido à minha própria casa, e você sabe que não é alguém que se esqueça ou abandone com facilidade. Não conseguiria. Vamos combinar de nos vermos com mais frequência, uma vez pela semana, o que acha? Ótimo, mas diga-me, que trabalho é este que te toma tanto tempo? Alberto silencia-se, mira fixamente o teto, inclina-se, levemente, para dar mais um trago no vinho e, rapidamente, volta à posição anterior, enlaçado pelo corpo leve e pela cabeça de Bianca em seu tórax. Você é misterioso, ela diz. Nunca fala às claras sobre o ofício que tem. Não há segredos, meu bem, como já lhe disse, sou jornalista. Mais da metade de minha vida enfurnado nas redações de jornais, já fiz todo tipo de jornalismo, policial, político, esportivo, sensacionalista, e já passei por várias empresas, das pequenas às grandes, hoje, depois de muitos sacrifícios e muitos socos em pontas de facas, consegui me posicionar um pouco melhor, e diria que sou um Diretor Editorial. Nossa, que chique, ela exclama. Então, você pode me dizer o nome do jornal em que trabalha atualmente? Você me parece ser uma pessoa importante, porém, não se revela. Certamente, deve ter os seus motivos, mas confesso que, às vezes, fico curiosa. Mas tudo bem. Diga apenas o que puder ou se sentir a vontade em dizê-lo, o que me importa mesmo é que você não desapareça, seu fujão. Ele sorri e leva os dedos entre os cabelos dela, massageando o seu couro cabeludo. Ela o aperta, aconchegando-o mais de perto. Sabe o que é? Diz ele, A bem da verdade, nos últimos anos, não presto serviço a um jornal apenas, como fiz na maior parte da minha vida, mas coordeno uma rede de entidades e jornalistas que produzem artigos, matérias, editoriais que são destinados a diversos órgãos de imprensa espalhados por todo o país, entre jornais, revistas, até televisão, para ser muito sincero e, principalmente, produzimos material para muitos sites, blogs e redes sociais. O jornalismo já não é mais como foi a uns anos atrás. Hoje em dia, ou nos sofisticamos ou ficamos para trás e somos engolidos pelo rápido avanço da ciência e da tecnologia. Poxa, senhor Alberto, Alberto o quê, mesmo? Ah, sim, me lembrei, Senhor Alberto Matias, minhas intuições não falham, sabia que lidava com gente importante, diz ela. Não é bem assim, meu amor, o mercado é muito competitivo, revolto como um mar tempestuoso, com suas ondas gigantes e demolidoras, ora surfamos pelo alto, ora somos destroçados nas arrebentações. E ouso dizer que se a maré não está boa para os peixes, também não está para muitos aventureiros, que acabam se afogando em suas águas intranquilas. Felizmente, posso dizer que, por enquanto, surfo bem e os ventos tem sido favoráveis. Em parte, consegui me adaptar a algumas demandas do mundo contemporâneo. Os dois sorriem juntos. Que luxo, ela diz. Ainda resta quase meia garrafa de vinho. Desta vez, a iniciativa é dela. Inclina-se na cama, enche as duas taças e convida-o a um brinde. Ela saboreia suavemente o vinho, ele dá um trago longo. Então, você deve ser um homem famoso no meio jornalístico, não é? Não é bem assim. O trabalho que hoje realizo não me proporciona muita visibilidade, as tecnologias digitais, me permitem que o execute de forma bem discreta. Mesmo porque, hoje, não assino matérias ou artigos, apenas administro uma equipe, um sistema. Minha equipe não sai às ruas, em busca das notícias, nossa tarefa, ofício, poderia dizer, é pegar a notícia pronta, já veiculada, e dar a ela o verniz das concepções e pontos de vista daqueles que nos contratam. Nós trabalhamos as notícias, as adaptamos às expectativas e demandas do público que consome as informações dos nossos clientes. Nossos clientes? Grandes portais de notícias, mídias impressas, televisivas e digitais, instituições religiosas, que são sediadas no país e até fora dele, temos muitas organizações do Império que nos contratam. O meu patrão, com o qual tenho pouco contato direto, é um sujeito muito bem relacionado, passa a maior parte do seu tempo fora do país, é um sujeito que possui contatos poderosos. Enquanto estiver sob sua guarda e proteção, não me faltará o trabalho e, também, algum conforto. A menos que algo dê muito errado e nos ponha à mostra, é um trabalho que, apesar de se destinar a um público enorme, nos permite trabalhar mais à sombra dos escritórios, do que à luz dos holofotes. Mas, poxa, acho que já falei demais. Deve ser resultado do vinho, não sou lá de desembolar estes assuntos, mesmo porque, se for falar de trabalho nos poucos momentos em que estou fora dele, posso acabar me estafando, não acha? Verdade, meu bem. Mas só uma pergunta, Como é isso de adaptar a notícia às expectativas de alguém? É a parte que não compreendi bem. A notícia não é o fato por si só? Claro que não, minha linda. O fato é uma coisa, a notícia é outra. Notícia é narrativa, é alguém, alguma entidade, empresarial, governamental, religiosa ou sei lá o quê, que relata o ocorrido de acordo com suas conveniências, suas crenças ou negócios. A notícia é algo muito maleável, somos os artesãos da notícia. Porém, artesãos à moda contemporânea, lhes metemos as mãos, dando nossas formas, tintas e tons, em um trabalho minucioso, cirúrgico e artesanal, depois, as distribuímos em escala industrial. Aliás, somos os operários da notícia. E hoje, mais que nunca, a notícia anda cada vez mais à distância dos fatos que se propõe narrar.  Olha, Alberto, sendo assim, não é então, a notícia, uma representação, um retrato da realidade do fato? Pelo que diz, há casos em que a notícia pode caminhar em um sentido e a verdade para o outro, a depender dos interesses de grupos ou ocasiões? Poxa, Bianca, você é mais atenta do que podia imaginar. Sim, em muitos dos casos, e é o que fazemos. Mas não acha que prolongamos demais o assunto? Não demora a manhã chega e precisamos descansar, diz, Alberto, encerrando o assunto. Isso mesmo, meu Redator, querido, aliás, Redator? Penso que é mais um gerente, não é isso? Diretor Editorial ou Gerente Geral de Negócios?  Acho que as duas coisas, sua curiosa, mas quem trata mesmo da parte financeira é o homem lá de cima, esta entidade milagrosa, que vem salvando um setor do jornalismo da bancarrota total, nestas épocas de rápida circulação do noticiário, e de uma proliferação infinita de sites e blogs de todos os tipos e para todos os gostos e públicos. A disputa e concorrência são tão grandes que passamos por um acelerado processo de seleção natural, onde uma grande parte de profissionais são, literalmente, ceifados do mercado. Assim é a vida, assim é o mundo. Boa noite? Boa noite, meu lindo. O sol já brilha forte, quando Alberto abre os olhos, um pouco empapuçados, devido aos excessos com a bebida, e assusta-se com a claridade do dia, escondido por trás das cortinas, anunciado apenas pela fresta que, ainda ontem, iluminava o corpo sedutor de Bianca. Olha para o relógio e constata que estava atrasado de fato. Sacode delicadamente o ombro esquerdo de Bianca e sussurra em seu ouvido que já passou da hora de se levantarem. Ela abre os olhos, lentamente, também incomodada com a claridade que lhe batia no rosto, puxa-o para os seus braços, no que ele cede e mais uma vez, enlaça-o nas teias do sexo e do amor, com sua carne quente e seu sangue jovem e vulcânico. Após um banho rápido, vestem, apressadamente, suas roupas, Bianca demora um pouco mais, pois o batom deveria seguir fielmente as linhas dos lábios, o que lhe realça a beleza e a jovialidade. Alberto, antes de dirigir-se à porta, retira a carteira do bolso, arranca de dentro duas notas de cem e as entrega a Bianca. Ela dá-lhe um beijo no rosto e diz, Obrigado, amor, Vamos já marcar nosso próximo encontro? Ainda não, meu bem, meus horários por estes dias são instáveis e imprevisíveis. Assim que der e, espero que seja breve, te envio uma mensagem. Ele a deixa no mesmo local que a apanhou e em poucos minutos, chega em casa.

Não vai demorar em casa, apenas trocar de roupa, pegar alguns documentos, certificar-se de que as coisas estão em seus lugares e, em seguida, correr para o escritório, pois o atraso, sempre lhe traz problemas e embaraços. Enquanto abotoa a camisa, o telefone dá o sinal que acabava de receber uma mensagem do seu chefe, aquele homem impenetrável, exigente e rigoroso, porém com poderes ainda não completamente dimensionados, dados os contatos e influências que tem no Império, os quais nunca revela, em detalhes, quais são exatamente. O aparelho telefônico está programado para acender uma luz alaranjada e forte, quando recebe qualquer tipo de mensagem desta entidade onipresente e invisível. Foram poucas as vezes em que, apesar do bom tempo que lhe presta serviços, os dois se encontraram pessoalmente, assim, em carne e osso, olho no olho, ao vivo e a cores, como muitos diriam. Normalmente, estes encontros presenciais, ocorrem apenas diante de demandas mais urgentes, as reuniões, quase, invariavelmente, se dão pelo sistema de videoconferências. Nos primeiros tempos de Alberto no cargo, estas reuniões eram mais frequentes, porém, foram reduzindo a frequência, à medida que aumentou a confiança do chefe em seu empregado. Alberto nunca lhe traz problemas, a empresa vai bem, é perceptível o enriquecimento do patrão e, ele sempre elogia os editoriais e os artigos que, junto à equipe que montara, Alberto despacha para as milhares de organizações e empresas que as compram e disseminam para um público cada dia mais vasto. É um negócio em ascensão. Quando recebe destas mensagens, Alberto larga o que quer que esteja fazendo, para verificar do que se trata. Afinal, dali vem as orientações e diretrizes que traçam não apenas as linhas do seu trabalho, mas os rumos da sua vida. Ele não termina de fechar todos os botões da camisa. Corre até o aparelho e abre, curiosamente, a mensagem, que diz, Preciso falar com você com urgência. Podemos nos reunir às dezesseis horas? Um abraço e não atrase. Claro, Senhor Hamilton. A partir das quinze horas, já estarei à sua espera e inteira disposição. Um abraço. Desliga o telefone, desacelera a pressa inicial, afinal, seu compromisso maior, para o qual deve poupar energias, será apenas no final da tarde. Joga-se no sofá e põe-se a imaginar do que poderia se tratar, pensa em uma série de possibilidades e motivos, algum contrato novo, algum material que não tenha saído a gosto e contento de algum cliente poderoso, algum excesso, alguma falha técnica imperdoável, uma transferência, mudança de posto? Pensa, pensa e, acaba por se convencer que, certamente, não seria nada daquilo. Dado o perfil megalomaníaco e excêntrico do chefe, estes raros encontros e reuniões, são sempre uma surpresa. As ligações que o patrão possui com o mundo dos negócios, circulação de capitais e fortunas, seja no plano nacional ou transnacional, fazem dele um homem sempre surpreendente. Além de estar bem consolidado no ramo das comunicações, possui um bom faro para as forças e tendências do mercado e da política e, vez ou outra, aventura-se em outros empreendimentos. E, por enquanto, vem se saindo bem. A preocupação com a reunião das dezesseis horas, somada a uma ligeira ressaca, advinda das cervejas e vinhos consumidos na noite anterior, lhe proporciona uma incômoda dor de cabeça e o desconforto das ansiedades. Esforça-se para relaxar e, para tanto, puxa do fundo do baú das memórias, momentos que passara no campo, no mato, põe-se a recordar do barulho das águas, dos roncos das ondas do mar à melodia úmida do rio em cachoeiras, que se arrebenta nas pedras. É uma tática costumeira que utiliza quando lhe escapa o sono ou as tensões lhe formigam os nervos. Geralmente, funciona. Afunda-se no sofá e, por sorte, pode desfrutar de um sono de quase uma hora.

São quinze horas e cinquenta minutos e, pelas marcações e agendamento, em dez minutos, Senhor Hamilton entrará por aquela porta. O escritório de onde despacha diariamente é uma sala enorme, bastante iluminada e ventilada, graças as enormes janelas de vidro que rodeiam todo o edifício. A vista ali de cima é privilegiada, e é possível mirar uma grande parte da cidade, com seus prédios cinzentos, as áreas das encostas, os morros degradados e os brilhos dos automóveis, enfim, um retrato panorâmico e do alto, do que são nossas cidades e o que fizemos de nós mesmos, os contemporâneos, Homo urbanus. O salão é amplo, confortável, a mesa onde trabalha Alberto está plantada sobre um tablado de madeira, elevado do plano do chão em dois curtos degraus, onde se espalham dois armários com arquivos, dois computadores enormes e possantes, um notebook, e um telefone celular de última geração acoplado a um tripé, bem ao lado da poltrona de couro utilizada por Alberto. Sem luxos desnecessários, o espaço é ornamentado com quadros pendurados nas paredes, fotografias de paisagens, um cactos ao fundo, oitos poltronas estofadas, para o caso de reuniões ou visitas, e uma pequena estante, próxima da porta de entrada, guarda várias publicações e títulos nas áreas de jornalismo, gestão de negócios, tecnologias e mídias digitais. Na prateleira de cima, há uma pequena coleção de best-sellers de autores estrangeiros. Alberto dá uma última conferida, se está tudo em ordem, ajeita alguns papéis sobre a mesa, organiza as pastas, alinhando-as umas sobre as outras, abre e fecha gavetas e olha para o relógio, são dezesseis horas. O local é adequado para quem quer trabalhar em privacidade, apenas ele fica ali, sua equipe de trabalho ocupava as salas adjacentes, por onde Alberto passa a maior parte de seu dia. Com dez minutos de atraso, a secretária anuncia a chegada do Senhor Hamilton. Alberto levanta-se para recebê-lo à porta. Olá, boa tarde, Sr. Hamilton, como vai? Há um bom tempo não nos vemos, não é mesmo? Boa tarde, Senhor Alberto Matias. Aqui estamos novamente. Os dois homens se cumprimentam com um aperto de mão e um abraço rápido e formal. Como era de costume, os olhos curiosos e investigativos do chefe percorrem, rápida e atentamente, cada canto e detalhe do salão, enquanto desloca-se da entrada à poltrona em que ocuparia para dialogar com o seu Diretor Editorial. Alberto observa que o homem havia adquirido um peso a mais, desde a última vez que o vira. As mãos, sob o paletó, estão roliças, rechonchudas e arredondadas. O rosto, mais redondo, brilhoso e bronzeado, denuncia uma vida de excessos e farturas, coisas que o dinheiro em sobra, geralmente, à falta de cuidados, costuma proporcionar. O visitante veste um terno azul, muito alinhado, e uma gravata bege, ajeitada ao pescoço com uma precisão milimétrica, certamente, havia alguém contratado, especializado, para dar um nó tão perfeito. Alberto toma seu lugar à mesa e o patrão senta-se, quase jogando-se, na acolchoada poltrona de visitante à frente. Como vão as coisas Senhor Alberto Matias? Tudo bem? A família, como vai? Virgínia? Estão todos bem, Senhor. E o Senhor e os seus? Tudo ok, Alberto, tudo ok. Fico satisfeito em lhe ver bem, Senhor Matias. Devo admitir que, através de seus reconhecidos esforços, o senhor, hoje, adquiriu posição de destaque entre os nossos melhores quadros. Estamos muito satisfeitos com os resultados apresentados, nossos clientes tem elogiado muito a qualidade e eficácia das matérias e editoriais produzidos por sua equipe. O senhor é um bom articulador, o que me dá seguranças, principalmente, em uma conjuntura de crescimento da demanda por nossos produtos. Sabe, Senhor Matias, em um mundo polarizado e dividido como o nosso, a propaganda, digo, o jornalismo, torna-se uma arma muito importante para os nossos clientes. As versões que vocês têm produzido encontram uma aceitação muito grande no mercado das notícias. Nossos clientes, gente poderosa, são guerreiros em uma batalha permanente, e como bem sabe, não só com pólvora e bombas se ganha uma guerra. E consideram que umas das frentes vitoriosas deste gigantesco campo de batalha, é a guerra, onde nós, temos produzido das armas mais eficazes. Hoje as bandeiras que mais arrastam as multidões, já não são as de mastro e tecido costurado, são as forças das ideias, a subjetividade dos símbolos, a arte do convencimento, as palavras de ordem, os robôs digitais, as palavras-chave, os algoritmos e as campanhas de hashtags. O mundo gira, Senhor Matias. E vejo que você é um artista, captou bem o espírito da época. O senhor, Alberto Matias, é um especialista na arte de plantar a notícia, a boa notícia. Estamos satisfeitos mesmo, de verdade, com a qualidade do trabalho, a perspicácia do argumento, as linhas do raciocínio, as premissas e os princípios, a força dos vocábulos e das expressões, a sedução da palavra, o disfarce, o despiste, a arte de mostrar o que não se viu, e de ocultar o que não pode ou não deve ser revelado. Sejamos francos, Senhor Alberto, assim ganhamos a vida, quiçá, conquistamos o mundo, declara o senhor Hamilton. Apesar de ter a plena consciência do quanto se dedica com afinco ao trabalho, dando o máximo de si e o máximo que acredita poder oferecer, a contundência do elogio do chefe, deixa Alberto, visivelmente, constrangido. Suas mãos não encontram local que as caiba, acaricia as bordas das pastas sobre a mesa, muda de posição a caixa de lápis, deixa os dedos tamborilando sobre o estojo, enquanto o restante do corpo mantém-se imóvel e sem tirar os olhos do patrão. Aqui, Senhor Alberto Matias, nas organizações que comando, sabemos bem valorizar os talentos que temos, sabe-se lá, não é este o segredo do nosso sucesso. A propósito, como vão os seus tempos? Tens outros compromissos afora os quem temos entre nós? Talvez precisemos ainda mais do senhor, com dedicações exclusivas, possibilidades de viagens, algumas ações fora da cidade. Tem outras ocupações que o limitam, senhor Alberto? Estamos expandindo e potencializando nossos empreendimentos e temos promovido uma ousada política de promoções. Tens interesse? Por alguns segundos, Alberto engasga-se com uma tosse seca, pigarreia, as maçãs do rosto ficam ligeiramente coradas, toma um gole d´água, e responde, Claro que tenho interesse, senhor. O senhor bem sabe que nos últimos anos não tenho feito outra coisa, do que dedicar-me às demandas da organização. Não fosse assim, talvez não merecesse os elogios que faz. A escolha de uma equipe competente, a aplicação disciplinada dos editoriais, abordagens e versões, aos princípios que nos regem e pelos quais trabalhamos, a realização de pesquisas e análises permanentes, que nos permitem conhecer a fundo e sistematicamente os mais variados nichos de leitores e consumidores que atendemos, a disposição em dialogar com os clientes para conhecermos melhor os detalhes e especificidades de seus públicos e seguidores, nada disso seria possível de ser executado com a mínima eficiência, se já não estivesse dedicando-me em regime de dedicação exclusiva. A linha de frente, senhor, exige empenhos férreos e a disciplina dos combatentes. Pois, então, gosto de ouvi-lo, senhor Alberto, o senhor nunca me faz perder o tempo, este bem precioso, ao contrário, sempre me retiro daqui acreditando, que saio em benefícios e vantagens. O senhor agrega muitos valores aos nossos empreendimentos e negócios, é um homem que soma.  Além do que, depois de tudo que já foi realizado, fico tranquilo em afirmar que o senhor é um colaborador da minha mais estrita confiança. Alberto sorri em um constrangimento indisfarçável e lança um olhar fugidio e distante para a janela, encara novamente o chefe e agradece, Obrigado, senhor, muito obrigado mesmo. Sinto-me lisonjeado e, agora, sem palavras. Um ligeiro silêncio interpõe-se entre os dois homens. O senhor Hamilton observa atenta e fixamente o seu Diretor Editorial, mais do que é observado por este. Alberto esforça-se para livrar-se do desconforto e da ansiedade, remexe-se continuamente na poltrona, tampa e destampa a caneta posta sobre a mesa, esfregando lhe o polegar. O Senhor Hamilton aproxima a poltrona da mesa, coloca as duas mãos sobre ela, procura os olhos de Alberto e indaga, Tudo bem, senhor Alberto? Tudo ótimo, senhor. Que bom, e Virgínia, como vai? Virgínia está muito bem, no momento, está empenhada na organização da minha festa de aniversário, adora organizar eventos, mas é um pouco ansiosa e, praticamente, não pensa em outra coisa. É uma excelente mulher, acho que não poderia ter feito escolha melhor. Inclusive, aproveito a ocasião para já lhe estender e antecipar o convite, ficando a dever os detalhes sobre horário e endereço que estamos definindo por estes dias. Muito obrigado, Alberto, mas não estarei no país. Viajo na próxima semana, e ficarei cerca de dois meses em viagens. De antemão, porém, lhe desejo muitas felicidades e sucesso. Levanta-se e abraça Alberto. Senta-se novamente e retorna à carga. Bem, senhor Alberto Matias, voltemos, pois, aos assuntos. Hamilton segura as bordas da mesa com as pontas dos dedos, retirando as costas do encosto da poltrona, levanta o peito e posiciona-se frente a frente com Alberto. Senhor Alberto, temos uma missão à frente. E o senhor me parece a pessoa mais qualificada, senão, ideal, para colaborar no intento. Vejo-o com todas as credenciais para tal, é das nossas confianças, acredita no que faz, veste a camisa, é determinado e possuí um inegável espirito de liderança de equipe. A fórmula fechou. Um calafrio, como nunca lhe ocorrera, rasga o peito e atravessa o estômago de Alberto que, por alguns instantes, tem a sensação de perder a cor e ser possuído por uma incontrolável frouxidão nos braços. Respira fundo algumas vezes, procurando disfarçar ao máximo a ação à frente do patrão, pois sabe que o recurso lhe cai bem quando diante de grandes expectativas ou ansiedades. Rapidamente, porém, retoma o fôlego e, acredita que a pequena movimentação tenha passado imperceptível aos olhos do chefe. Tome um gole d´água, Senhor Alberto. O patrão se apressa em servi-lo. Muito obrigado, senhor, muito obrigado. Dá um gole apressado e indaga, Mas como o senhor lá ia dizendo. Pois bem, senhor Alberto, em breve, teremos as eleições municipais. E como o senhor bem sabe, nestas ocasiões, nossos clientes assanham-se, mesmo porque, o jornalismo político e religioso são nossos carros-chefes, nossas especialidades primeiras e inadiáveis. A demanda por nossos serviços aumenta muito. É hora de arregaçarmos as mangas mais que nunca. O problema é que nossos mais importantes e poderosos clientes vão se tornando, a cada dia, mais exigentes. Querem cada vez mais de nós. Às vezes, me ponho a imaginar até onde vamos, para atender as suas mais extravagantes exigências. O mundo dá muitas voltas, disso sabemos, as coisas, às vezes, parecem colocarem-se de pernas para o ar, mas é o mundo que temos. Não há outro. Dos formadores de opinião, estrategistas da comunicação, exigem-se não apenas o controle da narrativa, mas também, a criação do enredo. As estratégias de campanha não são mais as mesmas do que eram há apenas algumas décadas. Tornaram-se mais contundentes, bilionárias e ofensivas. Há um campo infinito e inexplorado de possibilidades, ações e recursos que, por mais domínio que acreditamos possuir na área, nunca deixamos de nos surpreender.  Como sempre ouço, em várias ocasiões, as forças do mercado e as poderosas forças políticas, em nome de supostas modernidades, exigem de profissionais de todas as áreas, não apenas competência técnica, mas o que chamam, aos quatro de cantos, de maleabilidade, um sinal de progresso, e de nós, agentes do jornalismo e da propaganda, nos querem, a cada momento, cada vez mais versáteis. Disto se trata. Querem nos ver às estripulias e hoje, já não nos basta o controle da narrativa como disse há pouco,  somos convocados a interferir nos rumos próprios da história. Hamilton faz um breve silêncio e fica a observar a reação de Alberto. Este, não consegue conter-se de ansiedade e os olhos estão mais abertos do que o de costume. Força uma tosse, para dar-lhe tempo de pronunciar a pergunta, sem o risco de engasgar-se, e atreve-se, Sim, senhor Hamilton, mas onde é, exatamente, que entro nesta história? É uma boa pergunta, senhor Matias, aguentou por muito tempo, hein? Pois, então, agentes do Império, gente poderosa que nada nos dinheiros e nos luxos, como você não imagina, ligados a poderosas corporações econômicas e políticas, a maioria deles, nunca colocou os pés por aqui, mas estão interessadíssimos nos rumos e resultados das eleições do final do ano, sabe onde? Pasme, senhor Alberto, em Jurupemba. O senhor já ouviu falar em Jurupemba, senhor Alberto Matias? Sei que não, lugarejo isolado, enfurnado nos cafundós, eu também até quinze dias atrás, nunca havia ouvido falar. Estas terras são muito grandes, não se conhece tudo, por mais que se leve uma vida inteira viajando em veículos de toda espécie, carros, jatos, navios, não temos a oportunidade de conhecermos uma ínfima parte do chão deste planeta, mesmo deste país. Jurupemba, senhor Alberto, guarde bem este nome. Pois, então, nossos clientes já têm o seu candidato em Jurupemba. Na verdade, eles sempre têm seus candidatos. E quais são os seus candidatos? Obviamente, desnecessário dizer, que são aqueles que, compactuam com seus negócios, fazem os acordos prévios, às vezes, às claras, às vezes, as sombras, para garantirem o sucesso dos empreendimentos. Não há fronteiras para estes grupos, estão em todos os lugares, em todo o mundo. Agora, estão empenhadíssimos na campanha de Jurupemba. Ainda não conhecemos de perto o candidato deles e, obviamente, também nosso, mas certo é que técnicos encontraram, não faz muito tempo, riquezas grossas no subsolo do município. Jurupemba não faz ideia de quantos olhos voltam-se sobre ela. Melhor dizendo, sobre o que há por baixo dela. O centro urbano é pequeno, os habitantes são algumas poucas dezenas de milhares, mas o território do município é vasto e se constatou que ali há um potencial fabuloso para a indústria extrativista, parece-me que são minérios, dos quais se alimentam a produção de eletrônicos, computadores, telefones, parafernálias tecnológicas de toda ordem. Mas esta parte não é a que nos interessa diretamente, ou que nos diz respeito. É apenas para que compreenda, senhor Alberto, a complexidade do trabalho. E se não há como varrer aquele povo daquele território, o que temos a fazer, é que eles se convençam e se alinhem às políticas que são gestadas para eles. Entende-me, senhor Alberto, por onde entramos? Compreendo, senhor, mas ainda não vi onde há a novidade, afinal não será a primeira vez que realizamos trabalho deste tipo. Diria mesmo que, não é de pouco tempo que fazemos coisas assim. Não é nisto que vamos nos especializando e conquistando cada vez mais os mercados? Exato, senhor Alberto, porém, como se diz por aí, cada caso é um caso, e não há um dia igual ao outro, não é verdade? Pois, sim. Então, vou lhe dar os detalhes. Explicar-lhe o passo a passo.  Antes, porém, preciso saber se há alguma objeção da parte do senhor em instalar-se em Jurupemba por um período, talvez umas duas semanas, talvez mais ou menos, ainda não se sabe exatamente, para levar a cabo a missão.  O senhor se dispõe? Espero que sim, pois os prazos, não demora se esgotam, e confesso que, provavelmente, terei dificuldades em encontrar um substituto à altura, neste ponto do campeonato. A campanha eleitoral já está bem aquecida em Jurupemba e daqui a alguns dias, entraremos em sua fase crucial, onde, certamente, se definirão os resultados. Ganhamos ou perdemos, e não podemos perder, senhor Alberto Matias. O senhor, volto a repetir, já conquistou a confiança e o respeito de nossos clientes. Não podemos frustrá-los. O senhor se dispõe? Alberto sorri para o chefe, na tentativa de esconder o desconforto, sabe que não é o momento para titubear, estufa o peito, a mostrar-se decidido e, sem tempo ou condições para pensar em qualquer possibilidade de um não, adianta-se, antes que qualquer constrangimento pudesse ocorrer em meio ao diálogo com o patrão. Sim, senhor Hamilton, quando foi que não estive à frente, preparado, armas em punho, para atender as demandas da empresa e seus projetos? Sabia que podia contar com o senhor. Então, ouça-me. Caberá ao senhor a coordenação de uma equipe, não mais que dez homens. Alguns serão indicados pelo senhor, homens que além da competência técnica, já tenham demonstrado lealdade aos propósitos de nossos negócios, profissionais da sua confiança, e alguns outros, serão indicação dos clientes. Isso ainda vai se ver em detalhes. Temos um plano a ser executado. Desta vez, não somos nós os idealizadores, já vem pronto, empacotado, diria mesmo, lacrado, do Império. Resta a nós, a parte da execução, seguirmos a receita já elaborada. Vamos por etapas. Regra primeira, a equipe se instalará em um hotel na região central da cidade. É uma equipe de jornalismo, a serviços da mídia nacional e internacional , que chegará à cidade para fazer uma cobertura meramente jornalística da campanha eleitoral que ocorre no município. Todos os candidatos deverão ser entrevistados, filmados, fotografados, suas falas serão registradas, em tempos e tratamentos similares, para não se gerar as legítimas suspeitas. Colocaremos à disposição da equipe, logomarcas das empresas que pactuam com a ação e que tem os votos de confiança do povo, são conglomerados importantes, que também financiam os nossos trabalhos e foram incorporados ao imaginário popular, como símbolos da verdade, do respeito e da confiabilidade. Estamos em boas mãos. O que ninguém precisa saber é que, além do trabalho jornalístico a ser realizado, ao fim e ao cabo, o material produzido estará a cargo de outras equipes, nacionais e estrangeiras, agregando valores, que o transformará em objeto de propaganda política a ser disseminado pelas redes sociais, a favor claro, do nosso candidato, o senhor Josemar de Miranda, que já fechou os contratos. Assim é a política e esse é, no frigir dos ovos, o nosso trabalho. E vamos além. Agora vêm as novidades, senhor Alberto Matias. E esta talvez seja a parte mais empolgante e inovadora desta nossa ação. Preste muita atenção, senhor Alberto. A sua equipe ficará hospedada em um hotel na região central da cidade. É um alojamento modesto, porém, confortável, estrategicamente localizado e atende bem aos nossos propósitos. Em frente à janela do quarto onde o senhor se hospedará há uma praça, com alguns bancos, um pequeno jardim, árvores, ao fundo, há guardada em uma cúpula de vidro, uma imagem de uma santa, onde, em dadas ocasiões, devotos lhe depositam flores e oferendas, até às dez horas da noite ainda é possível encontrar um ou outro casal de namorados e, ao centro da praça, bem ao lado de uma antiga fonte luminosa, hoje, desativada, há uma estátua em tamanho real, à altura de um homem de quase dois metros. Não tenho lá certezas se, de fato, era assim, tão grande, o representado, o estatuado, quando em vida. Bem, mas isto não importa. Assim o fizeram, assim é visto por seus conterrâneos. Alberto, impaciente, o interpela, O senhor esteve lá? Ora, Alberto, não esbanje ingenuidades, isto não é necessário. Os agentes do Império já estiveram por lá, a área está bem mapeada, fotografada, inclusive, se preferir, temos imagens até em escala tridimensional. Estas novas tecnologias são mesmo uma beleza, o senhor não acha? Da janela do seu quarto, senhor Alberto, o senhor tem uma vista privilegiada para esta estátua, diria mesmo que, sentado em sua cama, poderá, praticamente, caso o queira, mirá-la nos olhos. É a estátua de um dos fundadores da cidade, feita de um realismo que sempre impressionou os moradores. Hoje, sua história confunde-se com as lendas, e quase ninguém sabe ao certo, quais os feitos e ditos pertencem à realidade dos fatos, e quais deles, são provenientes dos campos do imaginário popular e das crendices. Certo é que o consideram um herói, tombado em uma violenta luta, há mais de cem anos, quando bandos de saqueadores invadiram o local, abusaram das mulheres e mataram muitos homens e inocentes. Em seu traje de combatente, agora em bronze, há um corte grande à altura do peito, uma rasgadura, por onde teria entrado o punhal que lhe subtraíra a vida. Ao lado da estátua, há um pequeno obelisco que traz afixada uma placa onde se lê as últimas palavras proferidas pelo guerreiro, quando acuado e cercado pelos inimigos, já próximo da emboscada fatal, “Morrerei na batalha, mas meu sangue e minhas lágrimas inundarão de esperanças e coragem o coração do povo e a terra de Jurupemba”. Hamilton faz uma pausa, toma um gole d’água, enquanto observa as reações de Alberto. Alberto encara-o, espantado e curioso. Prossiga, senhor Hamilton. Pois bem, senhor Alberto, este herói local, hoje em bronze, denominado Coronel Jovelino Miranda, é ninguém mais, ninguém menos, que o avô de nosso candidato, o senhor Josemar Miranda. A primeira vista, talvez, possa se imaginar que, diante de um antepassado assim, a eleição do neto fosse favas contadas, um tiro certeiro, mas não, tantas bobagens fizeram os descendentes, ele próprio, o candidato, envolvido em falcatruas e negócios suspeitos, que comprometeram um resultado favorável e uma vitória eleitoral garantida à família. Se ainda há muitos que o apoiam, muitos outros também, já o repudiam, influenciados pelos casos mal elucidados e pela má fama que, principalmente, em épocas eleitorais, os opositores nunca deixam de explorar. Além disto, aparece um jovem candidato, carismático, cuja popularidade cresce a olhos vistos, que pelos dados e informações que levantamos, tem tudo para quebrar a hegemonia dos Miranda. É onde entramos, Alberto. E o que vou lhe contar agora, é de sigilo absoluto. Nem Virgínia ou ninguém, qualquer outra pessoa, poderá sabê-lo. Por favor, desligue o seu telefone, senhor Alberto. Alberto, imediatamente, desliga o aparelho. O que vem agora é a parte mais delicada da ação. Já disse que alguns homens que o acompanharão virão designados lá do Império, tranquilize-se, que trata-se de gente da mais larga experiência, e eles tem uma tarefa, diria melhor, uma missão, para o qual estão plenamente treinados, equipados e capacitados, qual seja, plantar um milagre em Jurupemba. Isto mesmo, plantar um milagre. Como assim? Uma equipe de estrategistas, gente que se dedica aos temas da política, dos negócios, das ciências e tecnologias, especialistas das estatísticas, psicologias sociais e de massa, gentes para lá das fronteiras, dos laboratórios do Império, estão convencidos que só mesmo um milagre poderá levar à vitória, o nosso candidato. Sabe o que os especialistas sugerem, ou melhor, determinam? Que a estátua do Coronel Jovelino Miranda chore e sangre as vésperas das eleições. Alberto, em uma reação espontânea, dá um pequeno salto da poltrona e tem os olhos, involuntariamente, arregalados. Como pode uma estátua lacrimejar e verter sangue, senhor? Realmente, devo admitir que é uma boa e inteligente pergunta. Milagres acontecem, senhor Alberto. Somos nós que os operamos. Pode crer nisto? Se o puder, melhor. Os homens sabem como fazê-lo. Os agentes que vão acompanhá-lo são especialistas nestas modalidades, é gente experiente, nada de marinheiros de primeira viagem. De primeira viagem, em ação desta natureza e de tal envergadura, somos nós, senhor Alberto. Eles, porém, não tem como infiltrarem-se nesta comunidade, onde todos se conhecem e dão notícias de uns sobre os outros e tudo o mais, e realizarem com sucesso seus serviços, se não estiverem amparados e acompanhados de uma sofisticada equipe de jornalistas que, certamente, despertarão os olhares curiosos, mas tem a admiração e a fé da população local, por carregarem os símbolos e as logomarcas sempre estampadas nas bancas dos jornais e nos canais de televisão que, por seguidas gerações, levam filmes, noticiário e novelas para o interior de suas casas. Nestas cidades do interior, mais que nos grandes centros, as grandes mídias, principalmente, as televisivas, são, na maioria dos casos, colocados sempre acima de qualquer suspeita. Então, enquanto nossa equipe se encarrega da parte das filmagens e entrevistas, diria, do aspecto jornalístico do trabalho, os agentes realizam sua operação. Eles ficarão acobertados sob nossa equipe de repórteres e técnicos. Nós lhes daremos as devidas coberturas. Já os vi, senhor Alberto, são dois homens gentis, inteligentes e, apesar de discretos, como é próprio do ofício, lhes farão uma boa companhia, apesar de não dominarem por completo a nossa língua. Inclusive, a sugestão é que os dois, principalmente, quando em público, falem o menos possível, obviamente, para que o sotaque estrangeiro não desperte muitas atenções. Sabe como é, forasteiros, nestes lugares, sempre despertam os olhares atentos e curiosos dos nativos, quanto mais diferentes de si são os visitantes, mais são alvos de curiosidades e bisbilhotices. Não se aflija, senhor Alberto, tudo sairá bem. Dois dias antes da eleição, o candidato fará um comício bem ao lado da estátua do avô. Ao elogiar o coronel em seu discurso, puxando para si, as palhas e as sardinhas, em vistas a faturar sobre glórias alheias, Josemar de Miranda tocará os ombros em bronze de Jovelino Miranda. E neste instante, justamente, neste instante, lágrimas grossas, de água e sal, escorrerão pelos olhos do avô, enquanto um sangue vermelho, viscoso e vivo, escorrerá do seu peito rasgado, alvejado. Técnicos e cientistas renomados e a serviço do Império desenvolveram um pequeno dispositivo com um material especial e completamente transparente, invisível mesmo, que, bem acoplado a estátua, fará, de forma eficaz e rápida, jorrar lágrimas e sangue da imortal estátua de bronze. Já estiveram em Jurupemba, visitaram a estátua, tiraram todas as suas medidas e desenvolveram o equipamento perfeito, completamente ajustado à estrutura. Holofotes estarão posicionados sobre ela, e a equipe de fotografia e filmagem se posicionará de modo a capturar, dos mais variados ângulos, as melhores imagens deste dia histórico. Certamente, um pequeno alvoroço, entre falatórios e espantos, se sucederá à constatação do ocorrido. Neste primeiro momento, em questão de segundos, por um fio, a pequena, leve e invisível parafernália, já estará nas mãos dos agentes e, sem sombras de dúvidas, para sempre ocultadas, da curiosidade ou investigação de quem quer que seja. Os caras são perfeitos nisto, Alberto. Eles irão embora na manhã seguinte ao comício, para que, de imediato e, definitivamente, possam ser destruídos quaisquer rastros de sua operação. O senhor e a equipe ficarão ainda realizando a cobertura do dia da eleição. Os homens, lá do Império, estão plenamente convencidos que após o milagre da estátua, a eleição de Josemar estará garantida e nisto, estão apostando muitas de suas fichas. A propósito, Alberto, será o trabalho mais bem remunerado, entre todas as encomendas que já lhe trouxe. Após o feito, sugiro, inclusive, que tire umas boas férias, conheça e explore os tantos paraísos que temos aí pelo mundo afora. O senhor bem merece e lhes ofereceremos das melhores estadias. As portas vão se abrindo, Alberto. Sugiro que leve Virgínia, será necessário oferecer-lhe compensações, após ver frustrada sua propalada festa de aniversário. Hamilton interrompe a fala, toma mais um gole d’água e, antes que, qualquer outra palavra se interpusesse entre eles, procura fazer a leitura da expressão de Alberto de modo a antecipar-se a qualquer comentário ou resposta de seu interlocutor. Alberto mantém-se em silêncio, gira a caneta entre os dedos, e pelas linhas de sua fisionomia, pode se supor que ainda esteja digerindo os detalhes do plano que lhe foi apresentado. Um breve silêncio toma conta da sala. Alberto procura palavras, os olhos permanecem bem abertos e estáticos e, balbucia, Sim, o aniversário. Sim, senhor Alberto, já se esqueceu o quanto estamos próximos das eleições? Estamos, de fato, em cima da hora, mas apenas agora, a proposta surgiu. Acredito que coisas assim, não se programam mesmo com muitas antecedências, o plano, na verdade, é uma estratégia de emergência. Acredito que há alguns meses ainda não contavam com o crescimento da candidatura opositora, foram todos pegos de surpresa. Senhor Hamilton, estou pronto para atendê-lo em mais esta missão, mas cá estou a interrogar-me, não seria um exagero, não estamos forçando um pouco os limites e as linhas do oficio que, normalmente, executamos? Ora, senhor Alberto Matias, pelos vistos, não carrega toda a ousadia que, às vezes, faz parecer. A que limite, exatamente, o senhor se refere? Ora, senhor Hamilton, aqui não estamos apenas manipulando notícias e narrativas, mas criando o fato, já é certo que forjamos as versões, mas forjarmos a realidade a ponto de plantar-lhe milagres não é algo que vai muito além dos produtos que vendemos? Ora, Alberto, perdoe-me discordar, mas o que faz, no dia a dia, neste escritório, ao forjar as versões, como o senhor mesmo diz, não é também uma forma de forjar a própria realidade do mundo? Se você manipula os modelos e as fórmulas para a compreensão das coisas, não está a mudar a própria realidade e natureza delas? Senhor Alberto, não sou um empreendedor alheio aos produtos nos quais invisto, do tipo distante. Acompanho de perto seu trabalho e parabenizo-o na forma como o faz com maestria. O senhor e sua equipe trabalham bem com as palavras, com o trato das narrativas, com a guerra de propaganda. Mas bem sabe, Senhor Alberto, que muito do mundo e das versões que vende, são embasadas na mentira. De certa forma, nos tornamos mercadores de mentiras, ou não o vê? Tem as contas do quanto já foi obrigado a esconder e omitir, do quanto foi necessário silenciar? Tem a lembrança de quantas meias palavras, quantas edições mal recortadas, foram utilizadas para encaixar-se na narrativa pronta? Uma meia verdade também é uma mentira, senhor Alberto. A palavra também é uma arma e admira-me como a manipula bem, sabe lidar com seus códigos, seja para exaltar nossos melhores clientes ou para destruir os seus inimigos. Vejo como lhe são úteis os adjetivos e tenho aqui uma lista deles. Hamilton retira do bolso o aparelho celular e acessa os arquivos. Veja, aos nossos, o senhor brinda com adjetivos como esplêndido, intocável, grande, grandioso, resplandecente, incontestável, cristalino, esclarecido, santo ou fenômeno, aos adversários os artigos são recheados de agressivos, ladinos, fanáticos, impávidos, espertalhões, desqualificados, boçais, pitorescos, para ficar em apenas alguns exemplos, senhor Alberto. O senhor já está nesta guerra e já rompeu as linhas do ofício não é de hoje, meu amigo. Quando estas grandes engrenagens da mentira encaixam-se nas engrenagens da política e das disputas pelo poder e pelo dinheiro, não há como retroceder, é um caminho sem volta, mesmo quando não imaginamos o que nos aguarda à frente. Volta os olhos ao celular, acessa um outro arquivo e volta-se, novamente, para Alberto, Veja esta passagem, senhor Matias, de Martinho Lutero, “Somos por natureza propensos a acreditar em mentiras, em vez de verdades. Uma mentira é como uma bola de neve; quanto mais roda, maior se torna”. Pois, então, a bola de neve cresceu. E o senhor, está apenas sendo promovido. Parabéns, senhor Matias. O chefe o cumprimenta e trocam um aperto de mão. Fechado, senhor Alberto? Fechado, senhor. Hamilton levanta-se. Bem, combinado, então. Vou levantar âncoras, já passou dos meus horários. Fique mais um pouco, senhor. Tome um pouco de café. Obrigado, Alberto, mas este fica para outra ocasião. Preciso ir. A gente vai se falando. Prepare-se. Organize os seus homens, suas coisas, providenciarei as reservas para a semana que vem. Passe bem, senhor Alberto. Daqui em diante, o que tivermos de acertar ou resolver, quanto aos detalhes da operação, nos comunicamos pelo telefone. Estou de malas prontas e nos próximos dias estarei fora do país. É sempre um prazer reunir-me com o senhor. Tem descansado, se divertido? Cuidando da saúde? O senhor é um homem de sorte e ainda tem Virgínia, que é uma bela mulher.  Cuide-se, senhor Alberto, ainda precisaremos muito de seus serviços. Hamilton apressa-se em direção à porta, coloca as mãos sobre os ombros de Alberto e despede-se, Sucesso, senhor Alberto, Sucesso. Vira as costas em direção ao elevador. Alberto acompanha-o com os olhos até que desaparecesse pelo corredor. 

sábado, 7 de março de 2020

Abril de 1985




Era 24 de abril de 1985, e eu acabava de completar 18 anos. Naquela época, não me chocara tanto a morte do presidente, pois, além de já ser esperada, dados os longos dias em que se arrastou a agonia de Tancredo, já naquela época, não nutria muitas ilusões ou expectativas em relação a um governo, advindo de uma eleição indireta, entre apenas dois candidatos, os permitidos pelo regime, e por ser mais um dos inúmeros pactos e acordos realizados pelos de cima, pelas elites políticas e econômicas, para a manutenção de sua ordem e esquemas, o que é marca, praticamente, inquebrantável da História do Brasil. Vinha eu, pela Avenida Afonso Pena, esquina com Avenida Álvares Cabral, quando encontro um velho amigo de escola, que não via há anos, e então, como os dois tinham algum tempo disponível, aproveitamos a ocasião para colocarmos a conversa em dia, o que se deu por ali mesmo, plantados, bem no cruzamento das avenidas. Por mais incrível que hoje possa parecer, não nos lembramos, de imediato, que aquele estrondoso ruído que se fazia ouvir ao longe, se tratasse do cortejo do presidente morto, que se aproximava. Estávamos realmente distraídos. Porém, de uma hora para outra, repentinamente, assim, quase do nada, uma multidão em estado de plena comoção, veio correndo em nossa direção. Foi tudo muito rápido. Um mar de gente vinha se formando desde o Aeroporto da Pampulha, havia percorrido toda a Avenida Antônio Carlos, e chegava ao centro a passos rápidos, em correrias e atropelos. Era uma onda gigantesca. Um pouco perplexos e assustados no meio daquela multidão e, como nunca, nem eu ou ele, havíamos visto tanta gente junta, resolvemos acompanhar aquela inigualável massa humana, e subimos a Avenida João Pinheiro, em direção ao Palácio da Liberdade. O problema é que não dimensionávamos o número de pessoas que se arrastavam atrás de nós, pois, pegamos o cortejo em sua ponta inicial, o caminhão com o corpo de Tancredo, passava bem à nossa frente. Com passos aceleradíssimos, quase correndo, subimos em meio à turba e, confesso, que sem sequer entender, exatamente, o que fazia ali, rapidamente, chegaríamos à Praça da Liberdade, onde já se encontrava um outro mar de gentes à nossa espera. Havia uma corrente de energias humanas passando entre nós, que não nos permitia desgarrarmo-nos daquele rebanho. É a partir daí, já na Praça da Liberdade, que tem o início a parte exaustiva, quase dramática, deste fatídico e já distante dia. Quando estávamos bem no centro da Praça, constatamos uma realidade difícil, inusitada, não havia como enxergar os limites, onde terminava aquele mar de corpos amontoados, que se esfregavam, apertavam, acotovelavam, todos tendo como único destino os grandes portões do Palácio da Liberdade, por trás dos quais, o corpo seria velado. Todos os olhos, forças e passos, orientavam-se em um único sentido. Não havia como nos desvencilharmos daquela imensa massa de corpos, a menos que seguíssemos todos, no mesmo sentido. Não havia como desistir ou voltar atrás, pegar o rumo das ruas laterais ou dirigir-se para as traseiras do Palácio, todas estavam abarrotadas, entupidas de gente. Estávamos, literalmente, encurralados. Aquilo tornou-se uma prisão. Confesso que foi assustador. Movíamos não mais com nossos pés e pernas, mas, principalmente, com os ombros, aonde íamos abrindo caminhos na aglomeração. Uma senhora idosa, mais baixa, que estava ao meu lado e pedia ajuda, não havia como fazê-lo, não tinha como colocar os pés no chão e movia-se arrastada. Foram momentos de agonia e aflição e só depois de muitos esfregões, sufocos, e muito tempo, que hoje não sei dizer quanto, é que finalmente, com muito custo, consegui me livrar dali. Não havia opções, só consegui sair depois de transpor os portões e passar pelos jardins do Palácio. Ali me perdi do amigo e nunca mais o vi. Não acompanhei o velório, sequer me aproximei do féretro. Muitas pessoas passaram mal no local, portões se romperam, e por muito pouco, ali não ocorreu uma tragédia. Foi um dia de luto nacional. E como tristeza pouca é bobagem, assumiria, então, a Presidência, José Sarney, advindo da Arena, partido de sustentação da Ditadura que se implantara no país em 1964, a qual, muitos estavam ansiosos em ver o fim. Havia, na ocasião, um forte anseio popular pela instauração de uma democracia no país. Trinta e cinco anos se passaram e como foi rápido. É bom, vez ou outra, puxarmos os fios da memória, esta que às vezes nos trai, mas também nos ajuda a aproximar-nos, pela lembrança, das tragédias passadas e evitá-las à frente. Triste também é, porém, após trinta e cinco anos de história, após tantos sonhos de democracia, assistirmos, de Belo Horizonte, greves de professores e carnavais populares sendo criminalizados pelos agentes do poder e, no plano nacional, milhões de brasileiros elegendo os que defendem o fim das liberdades democráticas, o retorno dos sombrios tempos das ditaduras, com suas práticas autoritárias, violentas, e fortes ataques à arte, à cultura, ao conhecimento e à ciência. Enquanto finalizo estas linhas, ouço também soar na memória, o canto de Zé Ramalho, com o qual me despeço destas recordações: “O povo foge da ignorância/Apesar de viver tão perto dela/E sonham com melhores tempos idos/Contemplam essa vida numa cela/Esperam nova possibilidade/De verem esse mundo se acabar/A Arca de Noé, o dirigível/Não voam, nem se pode flutuar”.



Marcos Vinícius, em Causos e Histórias de BH e Fotos Antigas de Belo Horizonte.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Fantasmas




Já há alguns meses, estou lendo uma das mais completas biografias de Hitler, do historiador alemão, Joachim Fest, publicado em 1973. Ainda estou pelos anos de 1929, portanto, faltando, ainda, alguns anos para que Hitler se transformasse no monstro que hoje, todos conhecemos. O que tem me deixado um pouco impressionado é que, a cada página, a dramática história da Alemanha na primeira metade do século XX, me remete mais ao Brasil de 2020. O discurso do ódio na ordem do dia, a mitificação de assassinos e corruptos contumazes, a idiotização da sociedade e o forte apelo popular a fórmulas simplistas, grotescas e violentas, a militarização da política e politização e ascensão ao poder de milícias armadas, o combate ao pensamento das esquerdas e às agendas sociais e humanitárias, o empoderamento de uma legião dos “sem noção”, que sem compreender o que se passa a um palmo do nariz, vê-se como detentora de verdades absolutas, a disseminação do fanatismo político de direita, a justiça a serviço do engodo e da mentira, ataques brutais à ciência, à cultura e ao conhecimento. Sequer cheguei à metade do livro, mas confesso que a leitura e o Brasil tem me deixado assustado. Ainda é 1929 e não temos ainda os campos de extermínio, as câmaras de gás e os crematórios. No Brasil de 2020, temos um mandatário-mor, que afirma que os livros didáticos têm um excesso de coisas escritas e que a solução para o país, seria matar, no mínimo, uns trinta mil. A violência contra lideranças políticas, militantes, trabalhadores, homossexuais, indígenas, pobres em geral, agrava-se a cada dia e o noticiário político já vai se escrevendo a sangue. Para onde vamos, Brasil?


Marcos Vinícius.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Sonora




Não sou de parar para ouvir conversas alheias de desconhecidos, bisbilhotices, seja na rua ou vizinhança, a menos que essas ocorram bem próximas de mim e aos berros. Não deu para vê-los, apenas ouvir os exaltados interlocutores. O mais velho, supostamente, o pai da garota, tentando ganhar o debate no grito, defendendo alguns autoritarismos, a voz era dura, severa e implacável, tenta desqualificar o argumento da filha, quando esta, dando voltas à conversa, interpela-o e diz, em alto e bom tom: - O meu Deus não defende a morte ou assassinatos, o meu Deus não prega o ódio. O meu Deus é o Deus do amor. Seguiu-se um silêncio, quase absoluto. Não vi suas expressões ou gestos, sequer suas sombras, mas foi lindo. Tem horas que até parece que as coisas ainda têm jeito.

Marcos Vinicius.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Poderemos?


Quantos genocídios teremos ainda que testemunhar para que os povos compreendam o quanto é inadiável execrar o fascismo? O que preocupa e assusta é que, no caso brasileiro, fosse possível submeter ao voto, nossos concidadãos, compatriotas, supostos homens de bem, provavelmente, optassem por construir no país, grandiosos campos de concentração e extermínio, sabe-se lá, transformar o Brasil, em um gigantesco Auschwitz. Em tempos de trevas, obscurantismos, absurdos e violência de toda ordem, é sempre prudente e aconselhável recorrermos às lições que a História nos deixou. Ignorar o seu legado é sempre muito perigoso. E recordarmos, jamais nos esquecermos, do que já nos demonstramos capazes, em nossas mais íntimas sado-humanidades. Há dias em que torna-se mais necessário que nunca, mantermos muito vivas as chamas fracas da cautela, sensatez, da tolerância e sabedoria. Poderemos?


Marcos Vinícius.


sábado, 18 de janeiro de 2020

No ônibus




Quando o ônibus, finalmente, parou, depois de rodar quebrado, por cerca de meia hora, sob o sol dilacerante das duas da tarde, pudemos entender que aquele veículo não mais nos levaria, pois o problema ocorrido não seria de rápida solução. Não, a empresa não providenciou uma substituição do veículo, mesmo próximos de um grande centro. Transformou todos nós, passageiros, em suplicantes de carona à beira da rodovia. Era a única alternativa, e parados ficamos, por mais de uma hora. Fomos conseguindo carona em outros ônibus, aos poucos, à medida da disponibilidade de vagas e capacidade de lotação, uma caronagem a conta-gotas, se é que podemos dizer assim. Consegui retomar a viagem em um ônibus bem melhor do que estava. Mais silencioso, tudo parecia funcionar bem e ainda acomodei-me no segundo andar, era um daqueles grandes ônibus duplos, não como os moves, uma carroceria atrás da outra, mas uma sobre a outra. Se não me falha a memória, foi a segunda vez que viajei em um carro assim. Tenho que admitir que a vista é privilegiada. Mal me sentei e a senhora da poltrona ao lado já puxou os assuntos. Resolvi deixá-los render e dar-lhes corda, pois imaginei que assim a viagem pudesse, quem sabe, se abreviar. Às vezes, o diálogo distrai e nos afasta do tédio das intermináveis viagens de ônibus. A conversa corria bem, falávamos das paisagens, dos lugares, das coisas corriqueiras do dia a dia e eu parecia ter razão ao imaginar que assim me abreviaria o tempo. Os assuntos se sucediam, um após o outro, e pudemos, em quase todos eles, entrarmos em acordo. Quando o elenco deles pareceu se esgotar, um breve silêncio postou-se entre nós. Ela, para não perder o rumo da conversa, diz, num ímpeto: - De todo, no mais a mais, acho que agora as coisas se ajeitam. E vejo que o país já vai para melhor. Um pouco surpreso, pergunto: - Mas como assim, exatamente? Ela responde que a economia vai a pleno vapor, não é mais nave desgovernada e que vê cheia de esperanças a grande queda dos números do desemprego. Apenas murmurei: - É Fake News. Foi o fim da conversa e a viagem se prolongou por outra eternidade.


Marcos Vinícius.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Um diálogo entre os cegos de Saramago e os de Sebastián Piñera.



Para os leitores de Ensaio Sobre a Cegueira, não há como não se lembrar da história da cegueira branca, criada por José Saramago, ao deparar-se com as imagens da marcha dos manifestantes chilenos que perderam a visão nos últimos dias, vítimas de uma nova modalidade de violência policial e truculência política, como ainda não havia registro na história, que condena os que saem as ruas, não apenas a jatos d´água e bombas de gás, como sempre vimos nas manifestações no Chile, mas a tiros de escopetas com esferas de chumbo e balas de borracha, elas próprias, com chumbo em seu núcleo, balas de ar comprimido, projéteis de nove milímetros, que geram lesões profundas no globo ocular, condenando uma legião de manifestantes à perda total da visão, a uma cegueira definitiva. Mais de duzentos e trinta chilenos perderam a visão nas manifestações que a partir de 18 de outubro, se alastraram por todo o Chile. O saldo da violência é estarrecedor. Além dos cegos, já são mais de vinte mortos, mais de dois mil feridos e cinco mil detidos. Segundo Maurício Lopez, oftalmologista, chefe de turno da Unidade de Trauma Ocular do Hospital Salvador, “Temos o triste recorde mundial no número de casos de cegueira. Foi inacreditável. Nada parecido já aconteceu na história da medicina ocular no Chile. É uma epidemia.” Inevitável não nos remetermos ao memorável romance, à cegueira branca de José Saramago. Mas, o que há em comum entre os cegos de Saramago e os cegos de Sebastián Piñera? Onde suas cegueiras se cruzam? Que relação há entre os cegos do mundo da ficção e os cegos do nosso trágico mundo real? Tantos uns quanto outros, são vítimas de uma cegueira coletiva e repentina. Uma e outra ocorrem em cenários de caos social e excessos de violência institucional. São cegueiras típicas do mundo contemporâneo. Há uma linha de comunicação, um diálogo entre eles, o que faz de Saramago quase um visionário. Mas o que diferencia os cegos de Saramago e os cegos de Piñera? Os cegos de Saramago nos mostram o quanto estamos próximos do caos e da desordem absoluta, o quanto é fino o fio que faz fronteiras entre a civilização e a barbárie. Através da linguagem da ficção, nos faz ver, a nós, que temos “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”, o quão fácil é cairmos no precipício da perturbação e da loucura, do olho por olho, dente por dente, no domínio da perversidade e do medo. O romance de Saramago é um alerta. É aí que realiza o que sempre fez de melhor, que é abrir nossos olhos. A literatura de Saramago é, de maneira geral, um apelo contra a cegueira e luz sobre as coisas do mundo. Já os cegos de Piñera são a constatação que em nosso mundo real já cabem até os horrores dos absurdos da ficção e a consumação da tragédia anunciada. Os cegos de Piñera nos apresentam um mundo as avessas, também de pernas para o ar, onde quem protesta contra ele, não está condenado apenas a morte ou ao cárcere, mas a uma perda de visão, parcial ou total, de um olho ou dos dois, como se desta forma, fosse possível cegar os anseios populares e conter resistências e rebeliões. Como se através da cegueira involuntária, desta vez, criminosa, as perversidades políticas e o terrorismo de Estado, se tornassem menos visíveis. A cegueira como arma política. Vê o que pode te acontecer? Podemos cegá-lo. Os cegos de Piñera são o símbolo de um mundo sem compaixão ou piedade. Não é apenas no Chile, porém, que as esferas de chumbo, os tiros de escopetas e as bombas de gás fazem suas vítimas, elas estão espalhadas por todos os quadrantes do planeta, ali, se destacou pela intensidade, pelo recorde histórico. A propósito, cegar homens e povos tem sido uma estratégia bastante eficaz de controle e domínio político e hoje se apresentam inéditas modalidades de cegueira, digamos, cegueiras, que vem desde a destruição dos globos oculares dos manifestantes nas ruas até a criação de um mundo de mentiras e ilusões, de faz-de-conta, que grande parte das populações e largas fatias do eleitorado, consomem como se tratasse da mais pura e absoluta das verdades. Este processo de cegueira, artificialmente criado, induzido, é facilitado pelos truques da tecnologia digital, da psicologia aplicada, dos algoritmos, muito dinheiro, pelas tramoias espúrias entre a ciência e o capital. Aqui na América Latina, em 2019, temos sentido de forma muita dura e perversa o impacto desta política, que se impõe muito rapidamente. Para ficar em breves exemplos, diria que, se um dia quiser entender o que se passa na Venezuela, terá uma tarefa árdua pela frente, pois a grande mídia criou um extenso, quase intransponível ‘cordão sanitário’ jornalístico que, a serviço das grandes corporações e de interesses inconfessáveis, tem por missão, confundir e desinformar, e para tanto, utilizam-se de sofisticadas técnicas de manipulação, omissão e mentiras. Não é nada fácil compreender o que, de fato, se passa por lá, as mídias da cegueira não podem ser esclarecedoras. E isso ocorre em toda a América Latina. Como explicar que pobres, dependentes da saúde pública, diante de todas as precariedades impostas, queiram expulsar médicos cubanos? No Brasil, uma ideologia da morte, que prega a violência extrema como solução para os nossos males, vem se capilarizando pelo país em sucessivas eleições. Enquanto adota-se uma política que tem como pressupostos e pilares, apologia à tortura e à ditadura, legitimação da exploração do trabalho infantil e escravo, racismo, censura e brutal retirada de direitos, leva um amplo setor da população a defender, fanaticamente, que a terra é plana, peixes são inteligentes e sabem como se safarem da contaminação do óleo tóxico, óleo este que brota de lugar algum, que Jesus, vez ou outra, sobe pelas goiabeiras, que o nazismo é de esquerda e que os meninos vestem azul e as meninas, cor-de-rosa. Trata-se de uma epidemia. Na Bolívia, golpistas, amparados pela polícia e pelo Exército, matam manifestantes, promovem sequestros, incendeiam casas, queimam a bandeira sagrada dos indígenas, e tomam de assalto o palácio presidencial, com a Bíblia em punho. Instalam uma ditadura brutal sob os auspícios e coadjuvância da OEA, supostamente, encarregada de zelar pela democracia no continente. Trata-se de uma epidemia. Em um diálogo no Ensaio Sobre a Cegueira, diz-se, “Por que foi que cegamos? Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão. Queres que te diga o que penso? Diz! Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.” Alguns poucos dias após o início do levante chileno, o presidente Sebastian Piñera veio a público pedir perdão por sua “falta de visão” e que iria reconhecer as demandas da população. Já era tarde demais. O Chile exige sua renúncia e tornou-se um barril de pólvora. Em outro trecho do romance, “a mulher do médico compreendeu que não tinha qualquer sentido, se o havia tido alguma vez, continuar com o fingimento de ser cega, está visto que aqui já ninguém se pode salvar, a cegueira também é isso, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.” Na linha do diálogo entre os cegos de Saramago e os cegos de Piñera, um destes últimos afirma “os médicos me dizem que agora preciso me cuidar, porque a recuperação será lenta, mas ainda vou aos protestos, quando me sinto forte”, ao que um outro acrescenta, “Ainda tenho um olho, e pretendo continuar usando até que algo mude”. Pelo visto, ainda há luz. Há?


Marcos Vinícius.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

O resgate




Surpreendente o ato de bravura, coragem e solidariedade do presidente mexicano, Manuel López Obrador, no resgate de Evo Morales, salvando-lhe a pele e a vida. Obrador realizou um gesto histórico de rara grandeza. Deu a Evo a oportunidade de salvação que a história recente da América Latina negou a tantos outros. Alan Garcia, ex-presidente do Peru, suicidou logo após ter seu pedido de asilo negado pelo Uruguai; o Equador de Lenin Moreno expulsou Assange de sua embaixada em Londres, colocando-o no caminho dos corredores da morte nos EUA. A própria Bolívia de Evo Morales, entregou Cesare Battisti às garras dos fascistas italianos, ainda ontem. E há quem diga que o Brasil fez vistas grossas a um desejo de Snowden em vir para cá. Morales teve sorte em conseguir escapar, estava sitiado. Não fosse o heroísmo, a valentia e a grandeza de Obrador, talvez, não sobrevivesse. Vida longa a Evo Morales. Vida longa a Manuel Obrador, e à sua ousadia e coragem. Precisamos deles.


Marcos Vinícius.

domingo, 10 de novembro de 2019

No espelho




Um dos mais antigos ditos populares, de natureza universal, e de caráter, fundamentalmente, educativo e pedagógico, que a sabedoria milenar já consagrou, "sujou, limpou", por aqui, no Brasil de 2019, não tem a menor valia ou sentido, e disso, já temos mostras diárias, mas a imundície que se espalhou por nossos paradisíacos litorais, o óleo derramado, somado à total ausência de qualquer iniciativa dos poderes constituídos, seja para a adoção de políticas mínimas de redução de danos, seja para a identificação dos responsáveis pela tragédia e cobrança de ações emergenciais de despoluição, afora o discurso oficial, dominante e exclusivo, de que o vazamento é obra de uma conspiração venezuelana, são demonstrações espetaculares e tenebrosas, de como o povo brasileiro migrou do já conhecido sono profundo, para as profundezas dos piores dos pesadelos. No Brasil da nova era, somos milhões de perfis fakes, fantasmagóricos e raivosos, prostrados à frente de um grande espelho, fazendo chacotas e simulando tiros e assassínios, em nós mesmos. O gigante desacordou.


Marcos Vinícius.

Belo Horizonte, 2019




Para não deixar dúvidas que aqui se trata de fascismo, Belo Horizonte, através de sua Câmara Municipal, pela primeira vez, em trinta e cinco anos, fechada para o povo, com um esquema de policiamento ostensivo, aprovou o Projeto 274/17, Lei da Mordaça ou Escola sem partido, em um primeiro turno de votação. A Lei da Mordaça é um ataque feroz da extrema direita, que visa destruir os mais elementares pilares do processo educativo, a liberdade, a universalidade do conhecimento, e criminalizar o trabalho docente e o professor. O projeto inspira-se na famigerada paranóia do marxismo cultural, teoria conspiratória, hoje alimentada pelos ianques, mas que remonta à Alemanha do período entre guerras, onde os ressentimentos, o ódio e a bestialidade triunfante, conduziram o mundo e sua civilização à barbárie, aos campos de extermínio, às câmaras de gás, ao hitlerismo. Não se trata de exagero ou força de expressão , o fascismo é histórico, contemporâneo, e seus monstros continuam vivos, muito vivos, entre nós. Pobres de nós. A Câmara Municipal, lacrada, tornou-se então, além do reforçado cordão policial, uma grande vitrine, onde Belo Horizonte, absurdamente, tristemente, se expõe, como a grande vanguarda do atraso. Corre o ano de 2019.


Marcos Vinícius.

Na rodoviária



Bem antiga esta foto da rodoviária de Belo Horizonte, não? A propósito, passei nela por estes dias. Há uma mudança sendo feita que irá alterar completamente sua imagem e modelo. O espaço púbico da estrutura, do prédio, está sendo garfado, fisgado pela iniciativa privada. Mesas de um restaurante, que já haviam ocupado um vão inteiro há alguns anos, onde antes ficavam vários assentos, agora, com reformas em andamento, vão ocupar dois vãos inteiros. Não demora muito, o povo vai esperar suas viagens de pé, e só vão poder se acomodar sentados, os que pagarem as fortunas cobradas pelos privilegiados restaurantes. Como será que a gente faz para ter uma sorte assim?


Marcos Vinícius.

sábado, 10 de agosto de 2019

Bug




Hoje, ouvi de um bozopateta, que ele estava muito feliz, sentindo-se realizado. Afinal, acabava de adquirir um sapato de couro, legítimo, afirmava com convicção, por apenas 49 reais. Já era um sinal dos novos tempos e que as coisas estavam melhorando. Argumentava que com o comércio quebrado, e as lojas encerrando suas atividades, uma a uma, os lojistas seriam forçados a baixarem seus preços e realizarem promoções eternas. Deve ter se inspirado na teoria econômica da absoluta falta de noção, a qual vai formando um exército de especialistas. E viva o fim.

Marcos Vinícius.