sábado, 7 de março de 2020

Abril de 1985




Era 24 de abril de 1985, e eu acabava de completar 18 anos. Naquela época, não me chocara tanto a morte do presidente, pois, além de já ser esperada, dados os longos dias em que se arrastou a agonia de Tancredo, já naquela época, não nutria muitas ilusões ou expectativas em relação a um governo, advindo de uma eleição indireta, entre apenas dois candidatos, os permitidos pelo regime, e por ser mais um dos inúmeros pactos e acordos realizados pelos de cima, pelas elites políticas e econômicas, para a manutenção de sua ordem e esquemas, o que é marca, praticamente, inquebrantável da História do Brasil. Vinha eu, pela Avenida Afonso Pena, esquina com Avenida Álvares Cabral, quando encontro um velho amigo de escola, que não via há anos, e então, como os dois tinham algum tempo disponível, aproveitamos a ocasião para colocarmos a conversa em dia, o que se deu por ali mesmo, plantados, bem no cruzamento das avenidas. Por mais incrível que hoje possa parecer, não nos lembramos, de imediato, que aquele estrondoso ruído que se fazia ouvir ao longe, se tratasse do cortejo do presidente morto, que se aproximava. Estávamos realmente distraídos. Porém, de uma hora para outra, repentinamente, assim, quase do nada, uma multidão em estado de plena comoção, veio correndo em nossa direção. Foi tudo muito rápido. Um mar de gente vinha se formando desde o Aeroporto da Pampulha, havia percorrido toda a Avenida Antônio Carlos, e chegava ao centro a passos rápidos, em correrias e atropelos. Era uma onda gigantesca. Um pouco perplexos e assustados no meio daquela multidão e, como nunca, nem eu ou ele, havíamos visto tanta gente junta, resolvemos acompanhar aquela inigualável massa humana, e subimos a Avenida João Pinheiro, em direção ao Palácio da Liberdade. O problema é que não dimensionávamos o número de pessoas que se arrastavam atrás de nós, pois, pegamos o cortejo em sua ponta inicial, o caminhão com o corpo de Tancredo, passava bem à nossa frente. Com passos aceleradíssimos, quase correndo, subimos em meio à turba e, confesso, que sem sequer entender, exatamente, o que fazia ali, rapidamente, chegaríamos à Praça da Liberdade, onde já se encontrava um outro mar de gentes à nossa espera. Havia uma corrente de energias humanas passando entre nós, que não nos permitia desgarrarmo-nos daquele rebanho. É a partir daí, já na Praça da Liberdade, que tem o início a parte exaustiva, quase dramática, deste fatídico e já distante dia. Quando estávamos bem no centro da Praça, constatamos uma realidade difícil, inusitada, não havia como enxergar os limites, onde terminava aquele mar de corpos amontoados, que se esfregavam, apertavam, acotovelavam, todos tendo como único destino os grandes portões do Palácio da Liberdade, por trás dos quais, o corpo seria velado. Todos os olhos, forças e passos, orientavam-se em um único sentido. Não havia como nos desvencilharmos daquela imensa massa de corpos, a menos que seguíssemos todos, no mesmo sentido. Não havia como desistir ou voltar atrás, pegar o rumo das ruas laterais ou dirigir-se para as traseiras do Palácio, todas estavam abarrotadas, entupidas de gente. Estávamos, literalmente, encurralados. Aquilo tornou-se uma prisão. Confesso que foi assustador. Movíamos não mais com nossos pés e pernas, mas, principalmente, com os ombros, aonde íamos abrindo caminhos na aglomeração. Uma senhora idosa, mais baixa, que estava ao meu lado e pedia ajuda, não havia como fazê-lo, não tinha como colocar os pés no chão e movia-se arrastada. Foram momentos de agonia e aflição e só depois de muitos esfregões, sufocos, e muito tempo, que hoje não sei dizer quanto, é que finalmente, com muito custo, consegui me livrar dali. Não havia opções, só consegui sair depois de transpor os portões e passar pelos jardins do Palácio. Ali me perdi do amigo e nunca mais o vi. Não acompanhei o velório, sequer me aproximei do féretro. Muitas pessoas passaram mal no local, portões se romperam, e por muito pouco, ali não ocorreu uma tragédia. Foi um dia de luto nacional. E como tristeza pouca é bobagem, assumiria, então, a Presidência, José Sarney, advindo da Arena, partido de sustentação da Ditadura que se implantara no país em 1964, a qual, muitos estavam ansiosos em ver o fim. Havia, na ocasião, um forte anseio popular pela instauração de uma democracia no país. Trinta e cinco anos se passaram e como foi rápido. É bom, vez ou outra, puxarmos os fios da memória, esta que às vezes nos trai, mas também nos ajuda a aproximar-nos, pela lembrança, das tragédias passadas e evitá-las à frente. Triste também é, porém, após trinta e cinco anos de história, após tantos sonhos de democracia, assistirmos, de Belo Horizonte, greves de professores e carnavais populares sendo criminalizados pelos agentes do poder e, no plano nacional, milhões de brasileiros elegendo os que defendem o fim das liberdades democráticas, o retorno dos sombrios tempos das ditaduras, com suas práticas autoritárias, violentas, e fortes ataques à arte, à cultura, ao conhecimento e à ciência. Enquanto finalizo estas linhas, ouço também soar na memória, o canto de Zé Ramalho, com o qual me despeço destas recordações: “O povo foge da ignorância/Apesar de viver tão perto dela/E sonham com melhores tempos idos/Contemplam essa vida numa cela/Esperam nova possibilidade/De verem esse mundo se acabar/A Arca de Noé, o dirigível/Não voam, nem se pode flutuar”.



Marcos Vinícius, em Causos e Histórias de BH e Fotos Antigas de Belo Horizonte.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Fantasmas




Já há alguns meses, estou lendo uma das mais completas biografias de Hitler, do historiador alemão, Joachim Fest, publicado em 1973. Ainda estou pelos anos de 1929, portanto, faltando, ainda, alguns anos para que Hitler se transformasse no monstro que hoje, todos conhecemos. O que tem me deixado um pouco impressionado é que, a cada página, a dramática história da Alemanha na primeira metade do século XX, me remete mais ao Brasil de 2020. O discurso do ódio na ordem do dia, a mitificação de assassinos e corruptos contumazes, a idiotização da sociedade e o forte apelo popular a fórmulas simplistas, grotescas e violentas, a militarização da política e politização e ascensão ao poder de milícias armadas, o combate ao pensamento das esquerdas e às agendas sociais e humanitárias, o empoderamento de uma legião dos “sem noção”, que sem compreender o que se passa a um palmo do nariz, vê-se como detentora de verdades absolutas, a disseminação do fanatismo político de direita, a justiça a serviço do engodo e da mentira, ataques brutais à ciência, à cultura e ao conhecimento. Sequer cheguei à metade do livro, mas confesso que a leitura e o Brasil tem me deixado assustado. Ainda é 1929 e não temos ainda os campos de extermínio, as câmaras de gás e os crematórios. No Brasil de 2020, temos um mandatário-mor, que afirma que os livros didáticos têm um excesso de coisas escritas e que a solução para o país, seria matar, no mínimo, uns trinta mil. A violência contra lideranças políticas, militantes, trabalhadores, homossexuais, indígenas, pobres em geral, agrava-se a cada dia e o noticiário político já vai se escrevendo a sangue. Para onde vamos, Brasil?


Marcos Vinícius.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Sonora




Não sou de parar para ouvir conversas alheias de desconhecidos, bisbilhotices, seja na rua ou vizinhança, a menos que essas ocorram bem próximas de mim e aos berros. Não deu para vê-los, apenas ouvir os exaltados interlocutores. O mais velho, supostamente, o pai da garota, tentando ganhar o debate no grito, defendendo alguns autoritarismos, a voz era dura, severa e implacável, tenta desqualificar o argumento da filha, quando esta, dando voltas à conversa, interpela-o e diz, em alto e bom tom: - O meu Deus não defende a morte ou assassinatos, o meu Deus não prega o ódio. O meu Deus é o Deus do amor. Seguiu-se um silêncio, quase absoluto. Não vi suas expressões ou gestos, sequer suas sombras, mas foi lindo. Tem horas que até parece que as coisas ainda têm jeito.

Marcos Vinicius.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Poderemos?


Quantos genocídios teremos ainda que testemunhar para que os povos compreendam o quanto é inadiável execrar o fascismo? O que preocupa e assusta é que, no caso brasileiro, fosse possível submeter ao voto, nossos concidadãos, compatriotas, supostos homens de bem, provavelmente, optassem por construir no país, grandiosos campos de concentração e extermínio, sabe-se lá, transformar o Brasil, em um gigantesco Auschwitz. Em tempos de trevas, obscurantismos, absurdos e violência de toda ordem, é sempre prudente e aconselhável recorrermos às lições que a História nos deixou. Ignorar o seu legado é sempre muito perigoso. E recordarmos, jamais nos esquecermos, do que já nos demonstramos capazes, em nossas mais íntimas sado-humanidades. Há dias em que torna-se mais necessário que nunca, mantermos muito vivas as chamas fracas da cautela, sensatez, da tolerância e sabedoria. Poderemos?


Marcos Vinícius.


sábado, 18 de janeiro de 2020

No ônibus




Quando o ônibus, finalmente, parou, depois de rodar quebrado, por cerca de meia hora, sob o sol dilacerante das duas da tarde, pudemos entender que aquele veículo não mais nos levaria, pois o problema ocorrido não seria de rápida solução. Não, a empresa não providenciou uma substituição do veículo, mesmo próximos de um grande centro. Transformou todos nós, passageiros, em suplicantes de carona à beira da rodovia. Era a única alternativa, e parados ficamos, por mais de uma hora. Fomos conseguindo carona em outros ônibus, aos poucos, à medida da disponibilidade de vagas e capacidade de lotação, uma caronagem a conta-gotas, se é que podemos dizer assim. Consegui retomar a viagem em um ônibus bem melhor do que estava. Mais silencioso, tudo parecia funcionar bem e ainda acomodei-me no segundo andar, era um daqueles grandes ônibus duplos, não como os moves, uma carroceria atrás da outra, mas uma sobre a outra. Se não me falha a memória, foi a segunda vez que viajei em um carro assim. Tenho que admitir que a vista é privilegiada. Mal me sentei e a senhora da poltrona ao lado já puxou os assuntos. Resolvi deixá-los render e dar-lhes corda, pois imaginei que assim a viagem pudesse, quem sabe, se abreviar. Às vezes, o diálogo distrai e nos afasta do tédio das intermináveis viagens de ônibus. A conversa corria bem, falávamos das paisagens, dos lugares, das coisas corriqueiras do dia a dia e eu parecia ter razão ao imaginar que assim me abreviaria o tempo. Os assuntos se sucediam, um após o outro, e pudemos, em quase todos eles, entrarmos em acordo. Quando o elenco deles pareceu se esgotar, um breve silêncio postou-se entre nós. Ela, para não perder o rumo da conversa, diz, num ímpeto: - De todo, no mais a mais, acho que agora as coisas se ajeitam. E vejo que o país já vai para melhor. Um pouco surpreso, pergunto: - Mas como assim, exatamente? Ela responde que a economia vai a pleno vapor, não é mais nave desgovernada e que vê cheia de esperanças a grande queda dos números do desemprego. Apenas murmurei: - É Fake News. Foi o fim da conversa e a viagem se prolongou por outra eternidade.


Marcos Vinícius.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Um diálogo entre os cegos de Saramago e os de Sebastián Piñera.



Para os leitores de Ensaio Sobre a Cegueira, não há como não se lembrar da história da cegueira branca, criada por José Saramago, ao deparar-se com as imagens da marcha dos manifestantes chilenos que perderam a visão nos últimos dias, vítimas de uma nova modalidade de violência policial e truculência política, como ainda não havia registro na história, que condena os que saem as ruas, não apenas a jatos d´água e bombas de gás, como sempre vimos nas manifestações no Chile, mas a tiros de escopetas com esferas de chumbo e balas de borracha, elas próprias, com chumbo em seu núcleo, balas de ar comprimido, projéteis de nove milímetros, que geram lesões profundas no globo ocular, condenando uma legião de manifestantes à perda total da visão, a uma cegueira definitiva. Mais de duzentos e trinta chilenos perderam a visão nas manifestações que a partir de 18 de outubro, se alastraram por todo o Chile. O saldo da violência é estarrecedor. Além dos cegos, já são mais de vinte mortos, mais de dois mil feridos e cinco mil detidos. Segundo Maurício Lopez, oftalmologista, chefe de turno da Unidade de Trauma Ocular do Hospital Salvador, “Temos o triste recorde mundial no número de casos de cegueira. Foi inacreditável. Nada parecido já aconteceu na história da medicina ocular no Chile. É uma epidemia.” Inevitável não nos remetermos ao memorável romance, à cegueira branca de José Saramago. Mas, o que há em comum entre os cegos de Saramago e os cegos de Sebastián Piñera? Onde suas cegueiras se cruzam? Que relação há entre os cegos do mundo da ficção e os cegos do nosso trágico mundo real? Tantos uns quanto outros, são vítimas de uma cegueira coletiva e repentina. Uma e outra ocorrem em cenários de caos social e excessos de violência institucional. São cegueiras típicas do mundo contemporâneo. Há uma linha de comunicação, um diálogo entre eles, o que faz de Saramago quase um visionário. Mas o que diferencia os cegos de Saramago e os cegos de Piñera? Os cegos de Saramago nos mostram o quanto estamos próximos do caos e da desordem absoluta, o quanto é fino o fio que faz fronteiras entre a civilização e a barbárie. Através da linguagem da ficção, nos faz ver, a nós, que temos “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”, o quão fácil é cairmos no precipício da perturbação e da loucura, do olho por olho, dente por dente, no domínio da perversidade e do medo. O romance de Saramago é um alerta. É aí que realiza o que sempre fez de melhor, que é abrir nossos olhos. A literatura de Saramago é, de maneira geral, um apelo contra a cegueira e luz sobre as coisas do mundo. Já os cegos de Piñera são a constatação que em nosso mundo real já cabem até os horrores dos absurdos da ficção e a consumação da tragédia anunciada. Os cegos de Piñera nos apresentam um mundo as avessas, também de pernas para o ar, onde quem protesta contra ele, não está condenado apenas a morte ou ao cárcere, mas a uma perda de visão, parcial ou total, de um olho ou dos dois, como se desta forma, fosse possível cegar os anseios populares e conter resistências e rebeliões. Como se através da cegueira involuntária, desta vez, criminosa, as perversidades políticas e o terrorismo de Estado, se tornassem menos visíveis. A cegueira como arma política. Vê o que pode te acontecer? Podemos cegá-lo. Os cegos de Piñera são o símbolo de um mundo sem compaixão ou piedade. Não é apenas no Chile, porém, que as esferas de chumbo, os tiros de escopetas e as bombas de gás fazem suas vítimas, elas estão espalhadas por todos os quadrantes do planeta, ali, se destacou pela intensidade, pelo recorde histórico. A propósito, cegar homens e povos tem sido uma estratégia bastante eficaz de controle e domínio político e hoje se apresentam inéditas modalidades de cegueira, digamos, cegueiras, que vem desde a destruição dos globos oculares dos manifestantes nas ruas até a criação de um mundo de mentiras e ilusões, de faz-de-conta, que grande parte das populações e largas fatias do eleitorado, consomem como se tratasse da mais pura e absoluta das verdades. Este processo de cegueira, artificialmente criado, induzido, é facilitado pelos truques da tecnologia digital, da psicologia aplicada, dos algoritmos, muito dinheiro, pelas tramoias espúrias entre a ciência e o capital. Aqui na América Latina, em 2019, temos sentido de forma muita dura e perversa o impacto desta política, que se impõe muito rapidamente. Para ficar em breves exemplos, diria que, se um dia quiser entender o que se passa na Venezuela, terá uma tarefa árdua pela frente, pois a grande mídia criou um extenso, quase intransponível ‘cordão sanitário’ jornalístico que, a serviço das grandes corporações e de interesses inconfessáveis, tem por missão, confundir e desinformar, e para tanto, utilizam-se de sofisticadas técnicas de manipulação, omissão e mentiras. Não é nada fácil compreender o que, de fato, se passa por lá, as mídias da cegueira não podem ser esclarecedoras. E isso ocorre em toda a América Latina. Como explicar que pobres, dependentes da saúde pública, diante de todas as precariedades impostas, queiram expulsar médicos cubanos? No Brasil, uma ideologia da morte, que prega a violência extrema como solução para os nossos males, vem se capilarizando pelo país em sucessivas eleições. Enquanto adota-se uma política que tem como pressupostos e pilares, apologia à tortura e à ditadura, legitimação da exploração do trabalho infantil e escravo, racismo, censura e brutal retirada de direitos, leva um amplo setor da população a defender, fanaticamente, que a terra é plana, peixes são inteligentes e sabem como se safarem da contaminação do óleo tóxico, óleo este que brota de lugar algum, que Jesus, vez ou outra, sobe pelas goiabeiras, que o nazismo é de esquerda e que os meninos vestem azul e as meninas, cor-de-rosa. Trata-se de uma epidemia. Na Bolívia, golpistas, amparados pela polícia e pelo Exército, matam manifestantes, promovem sequestros, incendeiam casas, queimam a bandeira sagrada dos indígenas, e tomam de assalto o palácio presidencial, com a Bíblia em punho. Instalam uma ditadura brutal sob os auspícios e coadjuvância da OEA, supostamente, encarregada de zelar pela democracia no continente. Trata-se de uma epidemia. Em um diálogo no Ensaio Sobre a Cegueira, diz-se, “Por que foi que cegamos? Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão. Queres que te diga o que penso? Diz! Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.” Alguns poucos dias após o início do levante chileno, o presidente Sebastian Piñera veio a público pedir perdão por sua “falta de visão” e que iria reconhecer as demandas da população. Já era tarde demais. O Chile exige sua renúncia e tornou-se um barril de pólvora. Em outro trecho do romance, “a mulher do médico compreendeu que não tinha qualquer sentido, se o havia tido alguma vez, continuar com o fingimento de ser cega, está visto que aqui já ninguém se pode salvar, a cegueira também é isso, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.” Na linha do diálogo entre os cegos de Saramago e os cegos de Piñera, um destes últimos afirma “os médicos me dizem que agora preciso me cuidar, porque a recuperação será lenta, mas ainda vou aos protestos, quando me sinto forte”, ao que um outro acrescenta, “Ainda tenho um olho, e pretendo continuar usando até que algo mude”. Pelo visto, ainda há luz. Há?


Marcos Vinícius.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

O resgate




Surpreendente o ato de bravura, coragem e solidariedade do presidente mexicano, Manuel López Obrador, no resgate de Evo Morales, salvando-lhe a pele e a vida. Obrador realizou um gesto histórico de rara grandeza. Deu a Evo a oportunidade de salvação que a história recente da América Latina negou a tantos outros. Alan Garcia, ex-presidente do Peru, suicidou logo após ter seu pedido de asilo negado pelo Uruguai; o Equador de Lenin Moreno expulsou Assange de sua embaixada em Londres, colocando-o no caminho dos corredores da morte nos EUA. A própria Bolívia de Evo Morales, entregou Cesare Battisti às garras dos fascistas italianos, ainda ontem. E há quem diga que o Brasil fez vistas grossas a um desejo de Snowden em vir para cá. Morales teve sorte em conseguir escapar, estava sitiado. Não fosse o heroísmo, a valentia e a grandeza de Obrador, talvez, não sobrevivesse. Vida longa a Evo Morales. Vida longa a Manuel Obrador, e à sua ousadia e coragem. Precisamos deles.


Marcos Vinícius.

domingo, 10 de novembro de 2019

No espelho




Um dos mais antigos ditos populares, de natureza universal, e de caráter, fundamentalmente, educativo e pedagógico, que a sabedoria milenar já consagrou, "sujou, limpou", por aqui, no Brasil de 2019, não tem a menor valia ou sentido, e disso, já temos mostras diárias, mas a imundície que se espalhou por nossos paradisíacos litorais, o óleo derramado, somado à total ausência de qualquer iniciativa dos poderes constituídos, seja para a adoção de políticas mínimas de redução de danos, seja para a identificação dos responsáveis pela tragédia e cobrança de ações emergenciais de despoluição, afora o discurso oficial, dominante e exclusivo, de que o vazamento é obra de uma conspiração venezuelana, são demonstrações espetaculares e tenebrosas, de como o povo brasileiro migrou do já conhecido sono profundo, para as profundezas dos piores dos pesadelos. No Brasil da nova era, somos milhões de perfis fakes, fantasmagóricos e raivosos, prostrados à frente de um grande espelho, fazendo chacotas e simulando tiros e assassínios, em nós mesmos. O gigante desacordou.


Marcos Vinícius.

Belo Horizonte, 2019




Para não deixar dúvidas que aqui se trata de fascismo, Belo Horizonte, através de sua Câmara Municipal, pela primeira vez, em trinta e cinco anos, fechada para o povo, com um esquema de policiamento ostensivo, aprovou o Projeto 274/17, Lei da Mordaça ou Escola sem partido, em um primeiro turno de votação. A Lei da Mordaça é um ataque feroz da extrema direita, que visa destruir os mais elementares pilares do processo educativo, a liberdade, a universalidade do conhecimento, e criminalizar o trabalho docente e o professor. O projeto inspira-se na famigerada paranóia do marxismo cultural, teoria conspiratória, hoje alimentada pelos ianques, mas que remonta à Alemanha do período entre guerras, onde os ressentimentos, o ódio e a bestialidade triunfante, conduziram o mundo e sua civilização à barbárie, aos campos de extermínio, às câmaras de gás, ao hitlerismo. Não se trata de exagero ou força de expressão , o fascismo é histórico, contemporâneo, e seus monstros continuam vivos, muito vivos, entre nós. Pobres de nós. A Câmara Municipal, lacrada, tornou-se então, além do reforçado cordão policial, uma grande vitrine, onde Belo Horizonte, absurdamente, tristemente, se expõe, como a grande vanguarda do atraso. Corre o ano de 2019.


Marcos Vinícius.

Na rodoviária



Bem antiga esta foto da rodoviária de Belo Horizonte, não? A propósito, passei nela por estes dias. Há uma mudança sendo feita que irá alterar completamente sua imagem e modelo. O espaço púbico da estrutura, do prédio, está sendo garfado, fisgado pela iniciativa privada. Mesas de um restaurante, que já haviam ocupado um vão inteiro há alguns anos, onde antes ficavam vários assentos, agora, com reformas em andamento, vão ocupar dois vãos inteiros. Não demora muito, o povo vai esperar suas viagens de pé, e só vão poder se acomodar sentados, os que pagarem as fortunas cobradas pelos privilegiados restaurantes. Como será que a gente faz para ter uma sorte assim?


Marcos Vinícius.

sábado, 10 de agosto de 2019

Bug




Hoje, ouvi de um bozopateta, que ele estava muito feliz, sentindo-se realizado. Afinal, acabava de adquirir um sapato de couro, legítimo, afirmava com convicção, por apenas 49 reais. Já era um sinal dos novos tempos e que as coisas estavam melhorando. Argumentava que com o comércio quebrado, e as lojas encerrando suas atividades, uma a uma, os lojistas seriam forçados a baixarem seus preços e realizarem promoções eternas. Deve ter se inspirado na teoria econômica da absoluta falta de noção, a qual vai formando um exército de especialistas. E viva o fim.

Marcos Vinícius.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

O bebedouro



Dentro do shopping, em meio ao corredor que dá acesso não apenas aos banheiros, como à rampa que leva à plataforma do metrô, o que faz do local um ponto de intensa movimentação de transeuntes, trabalhadores e consumidores, há um bebedouro, onde sempre há quem vai ali matar a sua sede. Não são raras as ocasiões, em que filas se formam entre ansiosos e apressados, quase todos, com os olhos pregados nas telas luminosas dos smartphones. Ao me aproximar, para que, também eu, pudesse beber um pouco daquela água filtrada, fui bruscamente barrado por uma senhora, que com as mãos espalmadas e voltadas para mim, disse: - O senhor não pode beber desta água, pois desliguei o bebedouro para carregar a bateria do meu telefone celular. E me fitou com um olhar decidido e definitivo. No primeiro instante, me senti estupefato, mais surpreso que indignado. Afinal, como chegar a tal ponto? Mas o que é isto? Como pode? O bebedouro, tão disputado, seria interditado, para que o aparelho dela adquirisse a sua carga? Confesso que é a primeira vez que me deparo com o fenômeno e senti-me, de imediato, desorientado e admirado. Dolorosamente, porém, compreendi que ali, na verdade, estava um retrato recém-revelado de um perfil de brasileiro que hoje vem se configurando. Uma brasilidade fundamentada em um individualismo exacerbado, em um déficit ético crônico e aparentemente insuperável, e em uma moralidade tosca e hipócrita. Ali estava o retrato de um novo país, que se está a construir, as últimas pás de cal, atiradas sobre o que chamamos de Estado Democrático de Direito, já se fazem sentir nos comportamentos de nossos concidadãos, em manifestações exemplares, reveladoras e fantásticas. É o nascimento de um novo ânimo nacional, em que autoritarismos e arrogâncias, já estão caricaturados em meio das gentes, em uma nova cultura, um novo modus operandi, onde o espírito das leis e da justiça jaz sepultado. Estão plantados os alicerces da brasilidade radical, mágico-fascista, não apenas sobre delírios, paranoias, exageros e conspirações, mas lançados às raias do absurdo. Nasce um novo espírito, com a força do caos.

Marcos Vinícius.