domingo, 11 de junho de 2017

O busto


Antes que se transmutasse em gesso, cera e bronze, a peça, obra-sujeito, a gênese e o delineamento de sua expressão eram delicadamente retirados do barro, sua forma primeira e definitiva. Com mãos habilidosas, plásticas e firmes, como carregam os melhores e mais extraordinários dos artistas, cavam cada curva do seu rosto, os músculos da face, as covas dos olhos, as rusgas da pele, a dura frouxidão do pescoço, o desenho dos lábios, os arcos das sobrancelhas e a eternidade dos olhos, duros e vivos. Cada detalhe, riscos invisíveis, traços pouco revelados, vão se desenhando na maleabilidade do barro. Os pincéis deslizam-se sobre os acabamentos finais. O semblante é rígido, petrificado, como o são quase a totalidade das esculturas e estátuas que se plantam nas grandes avenidas, jardins e parques públicos, praças, templos, quartéis e palácios. As mandíbulas são retilíneas, quase quadradas, o nariz aponta adiante, em direção a um suposto tempo, que não se sabe onde vai dar. Os olhos, fixos e impenetráveis, a tudo parecem enxergar, retrato metalizado do que foi no passado, fitarão com suas íris acastanhadas de bronze, as gerações do porvir. Dados os retoques finais, as minúsculas ranhuras, o abaixamento do pelo proeminente, o alinhamento dos lóbulos das orelhas, o artista, levemente, dá-lhe o último sopro, que encerra a provisória existência plástica do barro. Dali, metamorfoseia-se a matéria. Do barro ao gesso, do gesso à cera, da cera ao fogo líquido, que derrete e dá forma, do calor das fornalhas, ao endurecimento da peça. Ídolos, heróis, homens de poder e força, que arrastaram multidões ou a elas exterminaram, os conquistadores, os líderes militares, espirituais, os governantes dos altos escalões, as sumidades e os excelentíssimos de toda ordem, humanos que são, tem seu jeito próprio de desafiar a morte, não apenas pelos registros de seus nomes ou feitos nos gigantescos manuais da história, mas pelas multidões de estátuas de todos os tipos, espalhadas por cada rincão deste planeta. Do caso que tratamos, o destino final era uma grande praça pública, rodeada por árvores velhas, de rugosos e grossos troncos retorcidos e bancos quebrados, esparsamente distribuídos no grande pátio de concreto, com caramanchões desfloridos, ressecados, um pequeno coreto com todos os aspectos de abandono e muitas lâmpadas amarelas que tornavam as noites, monocromáticas. Para ali foi levado aquele pesado busto de bronze, firmemente estacado, pregado e parafusado sobre um robusto pedestal de concreto. Uma placa abaixo, em letras elegantes e rebuscadas, trazia, em dourado, o nome e as homenagens. Por ali ficaria, por quantos tempos perduram e sobrevivem esses humanos endurecidos, de metal, gravados no espaço público, até que a terra os engula ou que a história, por algum motivo, os sepultem de vez. 

Desde que foi posto ali, tornou-se, inevitavelmente, um ponto de parada e visitação, por praticamente todos que tinham que transpor aquela larga plataforma de cimento, incrustada em um dos bairros mais antigos e tradicionais da cidade. Praça com pouquíssimos atrativos e quase abandonada pelos poderes públicos, os pequenos arbustos e canteiros de rosas vermelhas e amarelas, sobreviviam à própria sorte, pois a água que os regava era, já sem sombra de dúvidas, a água das chuvas. Em meio ao largo, semidesertificado, a aridez do lugar era permanentemente quebrada pelas roupas coloridas e alegres dos sem número de transeuntes que por ali  passavam. Não eram poucos os que paravam por instantes a observar aquele personagem eternizado. Aquele semblante de metal bruto, endurecido, rígido, pétreo, sempre a observar o inobservável. Os olhos que a tudo parecem ver, que miram o não-horizonte e que não se fecham nunca. A gola fria do paletó com uma pequena dobra que jamais se desdobrará, o gesto dos lábios vitrificados, os fios do cabelo que não se desalinharão, distraíam os cidadãos que sempre o admiravam, não apenas pelo que foi, a maioria talvez não o soubesse, mas pela perfeição do seu acabamento, a fineza e robustez das linhas, a imponência, a eternidade do que já não existe, o poder do bronze, da estatuária, que nos posta à frente, quem aqui já não mais está. Não era raro, principalmente entre os mais jovens e curiosos, que alguns deles, pousassem sobre a face metálica, seus dedos sensíveis, que percorriam as dimensões da escultura, o contorno dos olhos, as papas, as ligeiras e finas rugas que entrecortavam a fronte, o penteado da cabeleira, o relevo do nariz, a espessura da boca e a envergadura do colarinho. De fato, a obra primava pela perfeição. Não são poucas as estátuas  espalhadas pelos centros urbanos, não há quem não as veja sempre, marcando as glórias e fama de um tempo, muitas das vezes, já esquecido, mas muitas delas são demasiadamente grotescas, mal acabadas, feitas às pressas, dada às emergências conjunturais, comemorações, centenários, vitórias políticas e golpes de Estado. Ao contrário da que temos, muitas são carentes de esmero e arte. Não eram poucos os que se impressionavam com o seu realismo e a perfeição do retrato, mesmo que não tenham visto aquela expressão e fisionomia sequer uma vez na vida. Talvez o tamanho natural, a sensibilidade dos moldes, a natureza da matéria-prima e o engenho do artista, sabe-se lá, os sonhos de perpetuação, desejos de imortalidade do retratado, tenham tornado aquele monumento, uma peça única.

Em menos de uma semana, fincado naquele território, já havia recebido um grande número de visitas. As crianças, principalmente, aquelas já acostumadas ao local, eram as primeiras a correr para conhecer a novidade. Os adultos dificilmente passavam sem lançar um olhar contemplativo e inquieto de indagações. No fundo, aquele vulto, que por ali se instalara, causava certo assombro tanto a uns, quanto aos outros. Impunha, à sua maneira, uma autoridade nova naquela praça destituída de grandes atrativos, limitados aos poucos assentos e a farta sombra das árvores. A paisagem mal se ajeitara, o busto ainda era um meio-estranho dominando o cenário, os pássaros pouco o haviam percebido, uma senhora de idade avançada, com a pele desfiada em rugas e as mãos tortas pelos reumatismos e calos, caminha em passos lentos, cambaleantes em seu aspecto físico, mas firmes na determinação em chegar ao seu destino. A mulher posta-se, também ela, uma pedra, o metal, diante da estátua fria. Encara o homem nos olhos, e ali, é como se apenas os dois houvesse. Naquele instante, os olhos de bronze, parecem encarar a mulher, como quem encara o infinito. Ela o desafia, leva lentamente seus dedos até ele e toca com desprezo as maçãs do rosto inerte. Os olhos dela, orgânicos e vivos, os dele, rígidos e secos, fixavam-se, intensamente. Haveria um diálogo possível? Ela range os dentes, e num murmúrio quase inaudível, pragueja, Maldito! Afasta um pouco a mão, injeta-lhe forças, e enfia um tapa naquele rosto compacto, que sequer apresenta qualquer milímetro de vibração. A expressão e o gesto daquele homem estático mantêm-se inalterados, inabalados e irremovíveis. De súbito, sem que ninguém o percebesse, ou que fosse, no mínimo, fenômeno visível ou explicável, e sem abalo de qualquer dos elementos do cenário, uma força inesperada, um desejo incontrolável apodera-se de um não se sabe o que daquele busto, que se tivesse braços ou movimento, teria a velha estrangulado.

Caralhos, mas que esbofeteio é este? Não que doa, deixe ferimentos ou arranhões, mas é uma desonra que jamais admitiria, pudesse livrar-me deste corpo imóvel, esculpido, cimentado, parafusado e os castigos e dores que se imporiam a estas mãos agressoras seriam os mais cruéis que meus carrascos pudessem imaginar. Velha estúpida! E o pior, definitivamente, não há o que se possa fazer. Qual terá sido o imbecil a me enfiar em uma estrutura destas, por que não dão aos mortos o descanso que supomos merecer? Óbvio que ambicionamos a imortalidade, mas não desgraçadamente nesta condição. Depois de tantas conquistas, disputas, artimanhas, planos bem sucedidos, guerras vencidas, tantos inimigos abatidos, não é a estátua que sou, a mais terrível humilhação que os vivos, maliciosamente, puderam oferecer? Pudesse ao menos, movimentar-me com pernas e braços de ferro, aço ou concreto, para esmagar os estúpidos e traidores que me subtraíram o silêncio e o esquecimento que o tempo lança sobre os corpos sepultos. Mas não, entrevaram-me. Óbvio que viveria um milhão de anos, mas com um corpo minimamente saudável, com carnes, peles, ossos e um sangue viscoso correndo entre as veias. Não esta imortalidade absoluta, inquebrantável. Duvido mesmo que os bajuladores quiseram desta forma, prestar-me homenagens, prolongar-me em suas memórias, a mim, mais parece, quiseram mesmo, foder-me, de uma vez por todas, aproveitando-se da fatalidade de estar a mais de sete palmos nas profundidades da terra, para erigir-me sobre esta praça, fatalmente indignado e, irremediavelmente, imóvel e endurecido. 

A velha ainda fitou-o por alguns segundos, ensaiou um segundo ataque, mas as forças dos braços não lhe estavam muito favoráveis, então, resignou-se a um fulminante murmúrio, virou-se de costas, lançou uma cusparada ao chão e afastou-se dali, até desaparecer de vez dos raios da visão, entre os caules das árvores, o brilho dos automóveis e o labirinto das avenidas. Ainda assim, o incômodo não o abandonou. E os anos se passaram.


Não há quem não queira prolongar suas vidas, por isso, não é de hoje, já desde o mais remoto dos tempos, todas as simpatias, emplastos, curandeiros, médicos, indústrias, voltaram-se para as mais variadas alternativas, no intuito de prolongar, o que já está por extinguir-se. Fracassadas todas as tentativas, formularam-se as mais sofisticadas técnicas de embalsamento e mumificação, sepulturas-fortalezas, palácios aos avessos do chão, uma parafernália infinita, que visava, em última instância, não apenas preservar, conservando por mais tempos nossos restos humanos, com a matéria que lhe é própria, mas acima de tudo, proporcionando-nos, segurança, sossego, o silêncio, o descanso e a escuridão. O que carrego não é sobrevida, mas um martírio. Prolongar-se em pedra, ligas metálicas, é pior que estar a si próprio, preso, pois é a prisão inteira, o cárcere onipresente, que se apodera de você. Esses bandos de seres, estudantes, trabalhadores, burocratas, funcionários, curiosos, que ficam a fitar-me, seja postando-se parados à minha frente, ou retardando seus passos, para radiografar-me inteiro, fazem-me sentir mais agoniado ainda. É um desalento inimaginável não poder acompanhar com os olhos, torcê-los um pouco, para acompanhar a silhueta daquela fêmea seminua, semidivina, que me passa à frente, apalpar os seios fartos e quentes que se ajeitam sob o meu nariz, ou me esfregam por todos os lados, para fotografar-nos, juntos, sob os mais variados ângulos. Enlouquecedor não poder soltar o mais alto e terrível dos berros, para expulsar esses moleques imbecis, que se põem a pendurar em meu célebre pescoço, ou não ter como esbofetear os pobres solitários que me vem revelar suas confidências, segredos ou intimidades, o que a mim, não desperta o mais ínfimo dos interesses, mas me enche de nojo e mal-estar. Pudera tombar sobre suas cabeças. Os anos passam, a bem da verdade, perdi suas contas, como se isso me fizesse alguma diferença, talvez já tenham se passado mesmo décadas ou séculos, que aqui estou a mirar esta humanidade. Isto, se não houver parado o tempo, o que sempre me levo a desconfiar. Passam os indivíduos, a impressão de serem sempre os mesmos, e não o são, já viraram gerações, introduziram novos gestos, manias, modismos, penteados extravagantes, indumentárias exóticas, mas por mais diferentes que sejam, estou sempre a confundi-los, como se, fossem um só corpo, um só movimento. Mas quem sou eu para falar em movimento, eu que vivo minuto por minuto de imobilidade a atravessar os séculos. Pergunto-me, quantas piscadelas me serão expropriadas se por aqui ainda estiver em um milhão de anos? Ah... Como é sofrível não pregar os olhos, não que sinta sono ou vontade de adormecer, isso não é sensação que tenham as estátuas, mas deixar de enxergar o mundo e esses homens e mulheres que não param de passar, por um segundo que fosse, talvez isso apenas, me trouxesse algum conforto. Mas não. Estou condenado a vê-los e tolerá-los, impedido de esboçar a mais insignificante reação. Há dias que são mais insuportáveis, dolorosos eu diria, não fosse o fato de não sentir qualquer tipo de dor, aqueles que me despertam o desejo de explodir, arrebentar-me, ou não sei o quê, algo que me tirasse de mim, livrando-me desta casca-masmorra, que não me permite sequer franzir a testa. Foi um final de semana, quando bem próximos, um grupo de jovens, garotos e garotas, puseram-se a dançar sob o som de uma música maravilhosa e inebriante. Não que aquilo me tornasse mais leve, como ocorria com todos aqueles corpos juvenis que se entregavam aos ritmos, mas um desejo insuportável e arrebatador de mexer-me, gingar-me minimamente, levava-me ao sonho ou delírio de ser dinamitado. Não havia um que por ali passasse, naquele momento, que não tivesse um cantarolar nos lábios, um estalo nos dedos, um descompasso nos pés, aquela música, mais que qualquer outra, fazia os homens vibrarem. Não há vibração possível. Talvez haja na explosão.

Numa madrugada, um jovem bem agasalhado, certamente fazia frio, para diante de mim e, rapidamente, saca por sob o paletó, uma pequena lata de tinta e pixa-me a testa, rabiscou signos e letras, os quais nunca pude descobrir do que se tratava. Ainda não decidi o que se tornou mais ridículo, o pixo em si, aquela situação ofensiva, uma mancha a deformar-me o perfil, o retrato, ou a ação indigna daqueles agentes públicos, que me esfregavam o rosto com uma escova já esfolada e gasta, e soluções auto-limpantes baratas, que não atentavam aos cuidados técnicos no trato com o bronze. Dada a rapidez com que se processou a operação, muito provavelmente, as inscrições do pichador, tinham conotações políticas. O trabalho realizado visava antes, a eliminação da mensagem, que a preservação do monumento, visto que muitos dos visitantes notavam que algo diferente, alguma espécie de defeito ou deterioração, havia corroído, o que provavelmente fui. Os bêbados me atormentavam com suas conversas desconexas, sem pés nem cabeça, a fala alta, o barulho aterrador, os namorados, com seus beijos, carícias e desejos, afrontavam a frieza do bronze que forma o meu peito. Se é certo que do pó viemos e a ele um dia iremos retornar, não faço ideia das quantas avarezas ainda irei testemunhar, para dissolver-me desta matéria bruta. Já não sei há quanto tempo, sobrevivo morto, e a cada dia o sei menos. Cem anos terão se passado? Não creio que aqui já esteja há um milênio, senão já teria me derramado em enfados. Há química que transforme o bronze em pó? Quem poderá responder-me?

Não sei o que se passa ao redor, mas as humanidades, já não são as mesmas, observo que, mais que nunca, estão a me homenagear, com longos palavrórios, fotografias, mas também me fazem alvo de  xingamentos e ofensas.  Venho despertando amores e ódios. Por estes dias, um tresloucado tentou, sem sucesso, arrancar a placa que traz completo o meu nome, minhas insígnias e condecorações. Não estivesse fatalmente engessado, em poucos minutos, o concreto o teria engolido. A placa não se soltou, mas tenho a impressão inconfundível, que se desalinhou, um pequeno empeno, que com certeza, jamais será restaurado, sequer percebido. Uma bela jovem, uma hora, se aproximou, passo a passo, ficou bem diante de mim, olhei para dentro dela, ah, e como gostaria de poder me arrepiar, mas acho que nunca fiquei tão imóvel, mais que já era, tão inerte e paralítico como naquele instante. A mulher aproximou seu rosto e de súbito, escarrou-me um jato grosso e esverdeado. A gosma escorria pelas minhas faces, adentrava ao pescoço e uma sobra de sua viscosidade pingava no chão. Não sei descrever o turbilhão de emoções e sentimentos que bem poderiam ter me proporcionado algum sacolejo, mas não. Minha imobilidade jamais havia sido tão duramente posta à prova. Não que estivesse livre de assédios, manifestos de admiração ou repulsa, mas, ultimamente, estes gestos não apenas se tornaram mais comuns, como também mais intensos. As esculturas serão resistentes aos humores, como o são ao tempo? Afora todos os incômodos que as humanidades aqui despejam, nesta existência longínqua, sobrevida-morta, longeva, ainda sobram-me os pombos. Soubesse que estes malditos iriam cagar-me por uma eternidade, teria os varrido da face da terra, quando pude fazê-lo. Não deixariam descendências. Por que os serviços de limpeza, quase nunca, retiram os dejetos dos pombos? Um rastro esbranquiçado de fezes desta ave asquerosa está a se fossilizar, por baixo dos lóbulos das minhas orelhas. Que honra construída em vida proporcionou-me este depósito de excrementos? Que batalhas aguerridas, territórios conquistados, transformaram meus cabelos alinhados em crostas de estrumes? Impossível saber se os mais nefastos são os inimigos declarados ou os bajuladores despudorados, extravagantes. Os últimos são sempre mais propensos a perpetuarem, petrificarem a injúria, a vergonha e a humilhação, principalmente, as alheias. Quisera tê-los feito engolir os pombos.

Mas Ó Deus das fundições e do fogo líquido, com o qual se fez meu corpo! Que tremores são esses? O chão de concreto parece balançar sob o suporte do busto que sou. Que hordas são estas? Quem é este povo e que bandeiras carregam? Invasores estrangeiros ou rebeldes nacionais? De onde saíram tantos, estes todos nas ruas? Uma multidão a galope. Punhos cerrados e gritos de guerra. Avançam sobre a praça, que fervilha de gentes. Venha a mim, Ó Revolução, exploda-me de vez, traga a dinamite e me arranque daqui, nem que seja a marteladas. Isto mesmo. Sabia que a força de mil braços conseguiria enfim, tombar-me. Que viva a morte. Livram-se de mim, talvez seja, minha última vitória, pois assim, o liberto, sou eu. Vejo, agora, o quanto sou pesado, são inúmeros os braços, escolhidos entre os mais fortes, a carregar-me pelos ares. Não imaginava quão rápido fossem desparafusar-me. Agora atiram-me ao chão e sou posto a arrastar-me no asfalto, por incontáveis mãos que, estapeiam-se pelo revezamento. Os homens estão frenéticos. A poucos metros, o cortejo fora breve, sou atirado, em uma vala larga, garganta profunda, ali, onde cabe-me inteiro. A fúria daqueles homens, os quais desconheço, um a um, tanto como os seus motivos, em tempo recorde, soterram-me. Ali não faltam areias, entulhos, escombros, para sepultar-me de vez. Ufa, é o meu fim. Não me interessam as causas e forças que movem estes braços determinados e ferozes, o que me importa é, agora, despedir-me do mundo. Uma última pá de lama é atirada sobre os tapumes, vedando em definitivo, o último feixe de luz que ainda vinha de fora. Mas, poxa, é muito escuro aqui no fundo e a terra é úmida e compacta.


Marcos Vinícius.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O dia em que fiz 50 anos




Pode-se dizer que o ano em que nasci, 1967, não foi um ano qualquer, como nenhum outro o é, não apenas porque decididamente pus-me neste mundo, mas por uma série de outros episódios, com certeza, mais relevantes, que marcaram para sempre, esta ocasião em que me foi concedido o benefício do nascimento. Foi nele em que perdemos personagens importantes do mundo contemporâneo, como Ernesto Che Guevara, vítima de uma emboscada na Bolívia e, segundo Jean Paul Sartre, autor de “A Idade da Razão”, “o ser humano mais completo de nossa era”, e o mineiro João Guimarães Rosa, autor de “Sagarana” e “Grande Sertão Veredas”, clássicos da literatura universal. Ainda neste mesmo ano, assumiria a presidência da República do Brasil, o General Costa e Silva, que no ano seguinte, 1968, com a decretação do Ato Institucional Nº5, implantaria em nosso país, um dos períodos mais duros, autoritários, repressivos e sanguinários da história brasileira. Mas como temos, humanos que somos, a habilidade inigualável de sempre nos reinventarmos, dada a nossa persistência em sobrevivermos enquanto espécie, 1967 foi também o ano em que Gabriel Garcia Márquez publicou o memorável e fascinante “Cem anos de solidão”, lançando um olhar inédito e definitivo sobre nossa América Latina, Caetano Veloso e Gilberto Gil gravaram “Alegria, alegria” e “Domingo no parque”, Glauber Rocha estreava nas telas do cinema com “Terra em transe” , as pílulas anticoncepcionais chegavam às farmácias, possibilitando o que se convencionou chamar de Revolução Sexual e na Cidade do Cabo,  África do Sul, foi realizado o primeiro transplante de coração; o órgão, de uma jovem de vinte e cinco anos possibilitou a sobrevida de um homem de cinquenta e cinco. Mas, talvez como uma demonstração de que talvez, não estivéssemos, afinal, com esta bola toda, o transplantado veio a falecer dezoito dias após a cirurgia. Para não prolongar demais em citações e lembranças, citaria por fim, como mais um símbolo de um ano, que agora, me sopra aos ouvidos, o filme que nesta ocasião, levaria o prêmio do Oscar, e que traz um título curioso e sugestivo, “O homem que não vendeu sua alma”. Não é pouca coisa. Mas enfim, no dia dezenove de abril, completei exatos cinquenta anos de existência e vida. Confesso que, ultimamente, não tenho tido muita paciência para ler os jornais, mas neste dia vinte, um dia após o aniversário, resolvi dar uma breve olhada neles, para ver as mais recentes bobagens que nossa humanidade metida a besta, resolveu aprontar bem no dia em que completava meio século aqui neste mundo. Infelizmente, nesta perspectiva, não há muito o que comemorar. As notícias que as páginas enfadonhas dos jornais trazem são efetivamente desalentadoras. O mundo parece ter se enfiado em uma galeria de horrores e a violência extrema pauta o noticiário, praticamente da primeira à última página, de cabo a rabo, desde as violências que nos rodeiam mais imediatamente, nas vizinhanças, com as ações dos bandidos pequenos, assaltantes e malfeitores de toda a ordem, até as investidas dos grandes bandidos, transformados em líderes mundiais, autoridades, figuras públicas, presidentes, que nos ameaçam com seus golpes, delírios de poder, bombas e políticas de extermínio, em uma espiral de atrocidades, que não tem fim. O alucinado representante dos estadunidenses, com seu topete gigante de arrogâncias, parece decidido a tocar fogo no mundo. Seus porta-aviões aproximam-se da Coréia do Norte e ameaçam atacá-la, esta por sua vez, disposta ao revide, talvez não se intimide, em utilizar seu arsenal nuclear. Difícil imaginar o que nos aguarda no dia seguinte ao acirramento das hostilidades e à detonação do conflito. Aqui em nosso país, transformado em uma grande pocilga, o banditismo está na ordem do dia. Como se não bastasse ostentar uma das mais altas taxas de criminalidade e homicídios do mundo, onde mata-se por nada, e morre-se na condição de alvo fácil ou vítima de balas perdidas, nossas lideranças políticas entregam-se a tarefa covarde de eliminar, sem qualquer constrangimento ou pudor, de forma indireta e gradativa, sem tréguas, os pobres, os trabalhadores, desempregados, aposentados, miseráveis de toda ordem, no campo e nas cidades, com uma sucessão de golpes, que se sucedem, um após o outro, dia após dia, seja na calada da noite ou sob a luz dos holofotes. Fim da aposentadoria, eliminação de direitos trabalhistas, congelamento por décadas de investimentos em educação e saúde, sucateamento de hospitais, postos de saúde, escolas públicas, fechamento das farmácias populares, esquemas de corrupção em escala dos bilhões de reais, valores que nossa imaginação não consegue dimensionar. Somados a um desastre que se faz completo, assistimos ainda a um crescimento assustador de um fascismo revigorado, entre jovens e velhos, articulados em redes sociais, aliciados por organizações multibilionárias alienígenas, pelo pensamento único, que leva para ruas uma multidão de imbecis, fantasiados de verde e amarelo, que clamam por intervenção militar, levantam bandeiras genocidas, e apregoam um ideal de liberdade, proveniente das incubadoras dos mais reacionários golpistas, raposas da política, agentes de capital financeiro e do neocolonialismo, que atuam à distância, lançam suas pedras e escondem as mãos, sujas de muito sangue, protegidos pelo anonimato que lhes confere a tecnologia digital e pela nossa eterna e reciclada ignorância. Não é pouco, mas somos um país pródigo em falsificações. A grande mídia, ela própria, conluiada em uma rede de tevês, jornais, revistas, através de seus editoriais, programações, novelas e afins, tem como tarefa maior, a arte dos currais, a destruição do pensamento e o fim da política como geradora do bem comum. Aqui se faz a política menor, rasteira, mafiosa, medíocre, fábricas de mentiras que se fazem verdades e verdades que são grandes mentiras. A arte do engano, a indústria da manipulação, onde o jornalismo exibe sua face mais degradada, corrupta e perversa. Não há tréguas nesta guerra, onde os pobres são a única vítima. Diante de uma geração que tem como referências Jair Bolsonaro, Kim Kataguiri e que elege pelo DEM, Fernando Holiday, vereador da cidade de São Paulo, compreende-se o que deveria causar espanto, o fechamento da Escola Municipal Doutor José Queiroz, em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, após ser invadida por criminosos vinte e cinco vezes em apenas dois anos, símbolo de nossa promiscuidade moral. Após o último assalto, no ano passado, os pais pararam de levar os filhos à escola e os funcionários se recusam a trabalhar. “Foi um episódio muito traumático.(...)trancaram os funcionários em uma sala e roubaram tudo. No final, ainda colocaram fogo em livros e carteiras”, relata o professor da escola, José Eudes Santos. O tema foi manchete em jornais do dia vinte de abril de 2017. Como se vê, não é fácil chegar aos cinquenta anos. Aqui, tenho apenas duas certezas. Como alguém já o disse, sem qualquer sombra de dúvida, tenho agora, muito mais tempo para trás do que para frente e que se não chegamos ainda ao fundo do poço do mundo e do país que temos, é porque ele está muito abaixo do que até ontem imaginávamos. Para comemorar, o fato de ter sobrevivido.

Marcos Vinícius.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Supremo Caos


O estado de caos e violência que se vê no Espírito Santo nos deixa chocados, atônitos, diante de uma convulsão social que tende, fatalmente, a se agravar. O Espírito Santo somos todos nós. Mais dia, menos dia, viveremos caos semelhante ou pior. Por mais apavorante que possam ser as imagens que pipocam nos jornais, tevês e redes sociais, vamos nos habituando a elas pois, a cada dia, vão ficando mais próximas. A violência generalizada torna-se inevitável em um território, onde a grande política tem como marca principal, o banditismo institucional. De certa forma, os rumos que tomamos, por mais alarmantes que sejam, enquadram-se ainda, dentro do que se é esperado. A violência cotidiana, das ruas aos gabinetes de ouro, é paisagem típica do Brasil. Há muito se sabe. 










não nos permite assustar-nos, quando as páginas de nossa história são escritas com o sangue.



Marcos Vinícius.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Prosa de Salão

Final do dia em Belo Horizonte. A noite cobre a cidade com seu grande manto negro, enquanto nuvens pesadas se derramam em águas, e uma chuva contínua, sonora e fria, encharca os cruzamentos e as calçadas. Por alguns instantes, um apagão parece apropriar-se do mundo. O portão não se abre, as luzes não se acendem, os prédios se apagam. Não há qualquer sinal de telefonia ou possibilidade de acesso às redes, tudo está fora do ar. Por alguns instantes, ficamos, absolutamente, off-line. O tempo quase parou. Mas não. Logo em seguida, as lâmpadas frias, vagarosamente, voltaram a brilhar. Pouco a pouco, o lúmen fraco vai varrendo o breu que se instalara e os primeiros sinais de que a humanidade volta a conectar-se, anunciam-se na tela do eletrônico, este sim, insistentemente luminoso. Rapidamente, o mundo, a noite e a cidade, voltam ser o que eram. Enquanto se desfazia a escuridão e a luz não dominava de todo, uma volta rápida em frente ao espelho revelou-me, em uma perspectiva ainda pouco explorada, uma penumbra insurgente e uma imagem fosca, que talvez já passasse da hora de cortar os cabelos. Os fios grandes e desconexos tornaram-se sombras disformes. Não era coisa de se pensar duas vezes, enfrentei o tempo úmido e fui ao salão.

Tenho sorte por servir-me de um cabeleireiro há anos, que antes de qualquer credencial que lhe possa ser atribuída no campo profissional, é, sobretudo, um artista. Não que seja operador de milagres, ou possa consertar os estragos, que a natureza já consagrou, mas executa seu trabalho, como se ali, estivesse a dar o melhor de si. Observando-o em ação, não é difícil perceber como suas mãos, como a dos pintores ou escultores, procuram, diante do espelho, o corte ideal, a franja justa, dominar a mecha rebelde, que não quer se acalmar, os fios desgrenhados, o toque à medida, o traço original. Além do que, arrancarmos os excessos, os pelos inúteis, sempre nos dá uma sensação de leveza, afinal, seja lá o que for que possa aliviar o calor e o mormaço nestes dias de verão, será sempre bem vindo. Sem contar que a permanência em salões, muitas das vezes, pode ser uma excelente fonte de inspiração e aprendizagem.

Aprendi muito hoje. Uma senhora, muito próxima de seus sessenta anos de idade, de cabelos claros, longos e raízes brancas, que ali estava para tingi-los, empenhou-se, o tempo todo, em dominar a cena. Tagarela, queria dar lições sobre política. Afirmou estar sempre preocupada em inteirar-se do assunto, e sentiu-se no local apropriado, privilegiado, para que uma plateia, praticamente inescapável, pudesse ser capturada. Não sobraram muitas alternativas, e tanto os profissionais, quanto os clientes, enquanto cuidavam de seus cabelos, pés ou mãos, davam-lhe os ouvidos. Não foram poucas as novas informações que obtivemos neste início de noite molhada. Segundo ela, todos os males e problemas existentes em nosso país, são de responsabilidade exclusiva de uma das mulheres mais megeras que passaram pela história, ninguém menos, que a presidenta derrubada, Dilma Rousseff. Não fosse ela, certamente, estaríamos muito provavelmente, ingressos no Primeiro Mundo e não no fim dele. Já o que estraga a performance de Michel Temer, diz com convicção, é andar acompanhado de Renan Calheiros, este sim, o corrupto, o vende-pátria. Não fosse isto, nossos problemas talvez, já estivessem solucionados.

A mulher, à medida que falava, não só gesticulava com mais vigor, como exaltava-se. Os músculos da face tornavam-se mais rígidos, os olhos tensos e a voz, definitivamente, dura. Confessava, porém, que tinha dificuldade em entender como Lula ainda não estava na cadeia, principalmente, após ela ter descoberto, por fontes que não havia como revelar, que ele possui uma gigantesca mansão, de um quarteirão inteiro, não se sabe, se no Uruguai ou no Paraguai, ou talvez mesmo, nos dois países. A outra, que a ouvia, sem piscar, atentamente, afirma que já ouvira falar que, na verdade, ele possui mansões como essa, não em um paisinho ou outro, mas no mundo inteiro. Deixando as temáticas nacionais de lado, e voltando a carga, com um ânimo revigorado, após um largo sorriso de satisfação e a certeza de ser respaldada, passa a opinar sobre a conjuntura internacional. Afirma com ênfase e empolgação que, apesar de todos os problemas que nos infernizam a vida, está muito otimista é com os Estados Unidos, pois lá venceu o seu candidato. Será um presidente surpreendente, sem sombra de dúvidas. Tem a certeza que coisas maravilhosas estão por vir, apesar de não saber o que, e o mundo tornar-se-á melhor. Que esta conversa sobre discriminação de estrangeiros, brasileiros, latinos, é pura balela, pois a eleição de Trump é resultado de uma campanha poderosa, levada a cabo pela mídia mexicana e que Hillary é demoníaca a ponto de, junto ao marido, envolver-se em escândalos de pedofilia.

Ela diz sentir-se muito segura para falar sobre os problemas do mundo e da política, pois hoje, com a internet, sabe-se de tudo, nunca foi possível o acesso a tanto conhecimento e informação. Diz saber de coisas que até Deus duvida. Eu não. Finalmente, o corte fica pronto e a sensação de alívio dá-se em dobro. O ar de fim de chuva, as luzes intensas do salão e o bafo dos cremes e perfumes, tornavam o ambiente quase insuportável. Antes que minha jornada se encerrasse e fosse embora de vez, a senhora dizia estar muito satisfeita com as cores do seu novo cabelo, como também lamentava, que outras mudanças não pudesse fazer em si, por razões financeiras. Não que pretendesse fazer como uma amiga, que realizou uma arriscada cirurgia, que a transformou da cabeça aos pés, mas que, no mínimo, pudesse dar um fim ao acúmulo de peles, que ao longo do tempo, inevitavelmente, incorporou. Nesta hora pensei. Mentirosa. O que chama de excesso de pele, mais apropriado me parece, denominar-se pelancas, e até onde sei, as pelancas cerebrais, infelizmente, ainda, não são passíveis de intervenções cirúrgicas, mesmo que muito cabeludas e o dinheiro esteja a sobrar.



Marcos Vinícius.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Belo Horizonte, a política e as eleições.



Havia prometido a mim mesmo que não voltaria a ocupar este espaço para falar de política, não só para não amolar os colegas que, vez ou outra, perdem seu tempo com o que escrevo aqui, como para evitar assuntos desagradáveis, pessimistas e vazios de esperança, que é o que se transformou a política em nosso país e em nossa cidade. Mas vou quebrar a promessa, pois sinto-me tentado a algumas considerações. Belo Horizonte, palco de inúmeras lutas e manifestações populares, que nos últimos anos, apresentaram-se revigoradas, com o surgimento de novos e diversos coletivos, movimentos de rua, como Praia da Estação, Fora Lacerda, Tarifa Zero, Ocupa a Câmara, ocupações urbanas, Atingidos por Barragens, Marcha das Vadias, movimento Hip-Hop, movimentos feministas, LGBT e outros tantos, apresentou uma campanha eleitoral nos modelos mais atrasados e reacionários que conhecemos, a anos-luz de distância da efervescência política que tomou conta de nossas ruas e praças. As duas candidatas à Prefeitura, mulheres, pobres, lideranças sindicais e sempre presentes nas lutas cotidianas da cidade, não encontraram espaço nas mídias e nos veículos convencionais de informação, foram impedidas de participarem dos debates televisivos e suas candidaturas acabaram por tornarem-se irremediavelmente invisíveis, resultando em uma votação pífia e muito pouco expressiva. Grande parte da população foi às urnas sem sequer saber da existência destas candidatas. O debate político-eleitoral tornou-se enfadonho, com muito do mesmo, e os candidatos, sempre previsíveis, apesar de apresentarem algumas pequenas divergências, discordâncias pontuais, pertencem todos ao mesmo campo, tem o mesmo discurso e o mesmo projeto. A grande novidade que temos, talvez seja um segundo turno, com duas candidaturas com um histórico ligado ao Clube Atlético Mineiro, o que nos faz entender, lamentavelmente, que o eleitorado belo-horizontino, grosso modo, não encontra grandes diferenças entre a disputa política e os jogos e campeonatos do Mineirão. Em uma partida sem entusiasmo, num eterno e entediante zero a zero, parece que nos sobrou a opção do nada ao lugar nenhum. É o que temos, quase uma morte da política, enquanto um campo de possibilidades. A esperança encurralou-se em um beco sem saída e o voto nulo torna-se um dever cívico. O projeto popular que um dia encontrou ressonância no Partido dos Trabalhadores frustrou-se; as candidaturas, vermelho-desbotadas, acabaram por tornarem-se plataformas chapas brancas, que no âmbito nacional, acabou por desaguar em um dos governos mais antipovo da história do país e no caso de Belo Horizonte, após anos e anos de governos petistas, temos uma administração que transformou a cidade em um imenso laboratório das políticas neoliberais levadas à radicalidade. Não é isto o governo Lacerda? A cidade como Business City, território dos grandes negócios, do empresariado e empreiteiros, não a pólis democrática, cidadã e popular. A capital do concreto. Os governos Temer e Lacerda, no entanto, não são resultado de uma frustração de anos das administrações petistas, onde a população insatisfeita resolveu votar na oposição. São nomes da continuidade, e apesar da ruptura posterior e do golpe que ora nos abate, quer queiramos ou não, chegaram onde estão em alianças com o petismo. A história é esta. Enfim, apesar do grande jogo das cartas marcadas e o júbilo da vitória não ecoar em nossos ouvidos, pois a festa restringe-se às muralhas da casa grande, a conquista de duas vagas na Câmara dos Vereadores pelo PSOL e a eleição de Áurea Carolina é um alento. Candidata do campo popular, mulher, negra, pobre, militante, feminista, que promete um mandato radicalmente democrático, porta-voz da juventude, dos ambulantes, da população de rua, e cujas palavras de ordem, ao lado do Fora Temer, são nenhum direito a menos e nenhum despejo a mais, além de recordista na votação, nos permite constatar que, mesmo em meio às maiores adversidades, nem tudo está perdido. E a tal esperança, sempre ela, mesmo que não seja a última a morrer, ainda nos dá um pouco de alegria, quando sentimos o sopro do seu suspiro.



Marcos Vinícius.

sábado, 17 de setembro de 2016

O cerco de 29 de Agosto



Observando ontem (29/08/16) o desenrolar da sabatina a que se submeteu a presidenta Dilma no plenário do Senado Federal, constatei mais uma vez, o que já havia visto quando da aprovação da abertura do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, e em vários outros lugares e ocasiões onde se discute o destino do seu mandato. Os senadores, ao se dirigirem à presidenta, que respondeu a todos os seus inquisidores, das nove horas da manhã até quase a meia noite, com uma firmeza e lucidez surpreendentes, aparentemente, posicionavam-se em um local privilegiado, proeminente, como se investidos de uma aura de autoridade e moralidade inquebrantável e única. Os discursos eram fortes, duros, ríspidos, condenatórios, raivosos e intolerantes. De onde, velhos senhores da política, mesmo os novos são também velhos, não apenas pelas práticas políticas que adotam, mas pelos interesses que representam, as velhas oligarquias escravocratas de sempre, retiram tamanha envergadura moral? De onde, os velhos barões dos cartéis, testas de ferros das multinacionais, capitães do mato de terno e gravata, politiqueiros profissionais, lobistas, entreguistas de plantão, usurpadores do povo, retiram a empáfia e a propriedade do discurso da ética? De onde falam estes senhores nervosos e obcecados? Sabem todos, o quanto tem seus rabos presos, as mãos sujas das negociatas e falcatruas, dos rombos, dos desvios, conspirações e conluios. Falam de uma tribuna supostamente superior, não o móvel de madeira, onde se posicionam no plenário, em frente a mesa diretora e a ré, mas do palanque confortável da condição de homens, brancos, ricos e poderosos. Os mesmos homens brancos, ricos e poderosos de sempre. Os mesmos, que perpassam os séculos, em uma linha contínua, que não se rompe ou quebra; podemos ver em seus olhos e mãos ainda, os vultos das chibatas e correntes, as sombras nítidas das liteiras e dos pelourinhos. A abordagem, o tom e a coreografia, dos inquisidores à presidenta, além do processo de impeachment em si, são outros legados à história, não apenas como os adereços de um golpe, mas como símbolo indestrutível de um machismo revigorado. Impossível não imaginar como agiriam os mesmos golpistas, se à sua frente, o julgado fosse um homem, nascido em berço de ouro, dono de impérios, acionista das mineradoras, bajulador das potências estrangeiras, magnata das telecomunicações, ou um general presidente. Certamente, sequer falariam em impeachment. Estariam, certamente, os mais arrogantes e prepotentes, de cabeça baixa, mergulhados na mesma subserviência e complacência de sempre, sem qualquer exceção ou constrangimento. O golpe deu a estes senhores, fascistas, a oportunidade da manifestação explícita de um machismo institucional e espetacularizado, além de demonstrar, sem deixar sombras de dúvidas, o quanto um golpista é antes de tudo, um covarde.

Marcos Vinícius.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Temer, 12 dias, e o realismo fantástico.



Já perdemos a conta de quantos ministros do desgoverno Temer estão implicados com a Operação Lava Jato, o que a bem da verdade, temos que admitir, não pega muito bem para um suposto governo de salvação nacional, não é? Afinal, deste jeito, fica parecendo que pretendem salvar mais a si próprios, que qualquer outra coisa, correto? Principalmente, tratando-se de uma elite política, que deixou muito claro, diante das telas de tevês, computadores e smartphones do mundo inteiro, na recente e fatídica sessão do dia 17 de Abril, que estão muito mais preocupados com suas próprias famílias, com a própria pele, do que com qualquer tipo de moralidade pública ou espírito patriótico. A extinção de ministérios como o da Cultura e o Das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, não apenas deixou o governo com uma fisionomia mais selvagem, como causou uma grande comoção nacional, onde um vasto setor da intelectualidade e artistas consagrados, através de manifestações permanentes e ocupações, levaram a um duro revés, os inábeis articuladores do golpe, ainda em curso. Tentando amenizar os estragos e tapar buracos, o titubeante presidente interino, criticado por não incluir mulheres em seu Ministério, sai à cata de celebridades para dar uma aparência mais feminina ao seu governo turrão, de bufões, dinossauros da política, oferecendo-lhes uma Pasta. A consultora de projetos culturais e coordenadora de curso de pós-graduação na FGV, Eliane Costa, a antropóloga Cláudia Leitão, Bruna Lombardi, Marília Gabriela, Daniela Mercury, uma a uma, recusaram a oferta. O nome de um militante e operador das causas da Igreja Universal, indicado para O Ministério da Ciência e Tecnologia, gerou perplexidade nos meios acadêmicos e científicos, e foi necessário recuar. Mas seja lá como for, a salada exótica de reacionarismos políticos, mantem-se na ordem do dia, alimentando o monstro tenebroso e capenga, que não apenas nos avilta a condição de cidadãos, retira direitos e destrói conquistas, como reforça nossa vocação colonial, e nos coloca no centro do mundo, não como referência de moralidade ou exemplo, mas alvo de piadas e chacotas. O novo Ministro da Segurança e Direitos Humanos, lembre-se, é necessário ser emblemático e simbólico é, ninguém menos que o secretário de segurança do governo Alckmin, reforçando nossa tradição de que as questões sociais são eternos casos de polícia e que a repressão deverá sempre preceder o diálogo. Assim como o General de Temer, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, despreza o relatório da Comissão de Verdade e Justiça. O Ministro do Meio Ambiente é um Sarney, pobre Maranhão, pobre Brasil, e o Ministério da Educação, ocupado por um representante do DEM. Como nada é tão ruim que não possa tornar-se ainda pior, José Serra, ele mesmo, operador histórico do desmonte do patrimônio público brasileiro, articulador-chefe da denominada Privataria Tucana, serviçal dos grandes oligopólios estrangeiros e que, em revelação mais recente, via WikiLeaks, descobriu-se que prometeu o pré-sal aos norte-americanos, é nosso mais novo Ministro das Relações Exteriores. Praticamente, como entregar às raposas a chave do galinheiro. Tem mais. Mesmo que tudo isto não fizesse parte de um grande golpe, mesmo assim o seria, depois das certeiras e precisas revelações de quem ajudou a planejar tudo, o próprio ministro do Planejamento, em uma explosão de realismo fantástico. O editorial da Folha de São Paulo de hoje, 24/05, que aborda a queda de Jucá, tem como título “A Primeira crise”. Quanta benevolência.



Marcos Vinícius.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

A entrevista



O calor da manhã, associado a uma considerável dose de nervosismo e ansiedade, fazia com que filetes frios de suor corressem sob a camisa laranja que Ermínio escolhera para aquele dia. Apesar de não fazer qualquer esforço físico naquele momento, a longa espera e a expectativa do que poderia ocorrer na entrevista que aguardava, aumentava o volume do suor salgado, que escorria quase pelo corpo inteiro e, em pouco tempo, a camisa ficara praticamente ensopada. Procurava conter-se, respirava profundamente e esforçava-se para tranquilizar seu pensamento, o que parecia ser impossível, sabia que a tensão excessiva poderia fatalmente comprometer o sucesso da sessão a que esperava submeter-se. Apanha uma folha verde caída ao chão, observa-a detidamente, alisa a textura, acompanha com a ponta dos dedos suas estrias e veias, quebra-a, dobrando-a em várias partes, arrancando-lhe o resto de seiva, que ainda guardava consigo, antes que o sol e o vento a secassem de vez. Por fim, esfrega as folhas entre os dedos, esmagando-a freneticamente, tingindo as unhas de verde e de uma gosma esbranquiçada. Por várias vezes, repete o mesmo movimento, até que folha úmida, desfigurada, transforme-se completamente em pó. Quando encontrava-se já com as mãos vazias e levava os dedos próximos das narinas para verificar o perfume que a operação lhe deixara, é surpreendido pelo sentinela que lhe anuncia a vez. Senhor, a Diretora o aguarda. Ermínio levanta-se, apesar das pernas fazerem um movimento contrário, quase o puxam para o banco novamente, mas ele mantém-se firme, de pé, e entra na sala iluminada.

As mulheres que o atenderiam ajeitavam-se em seus lugares; a terceira a sentar-se, que ocuparia a lateral direita da mesa, ainda não havia terminado de bater o ponto no equipamento eletrônico, pendurado próximo da porta de entrada, quando Ermínio senta-se na cadeira que lhe fora reservada. Enquanto aguardava o início da conversa, observava seu entorno. A mulher assentada bem ao seu lado, à esquerda, terminava de ajeitar os papéis sobre a mesa e abria uma agenda, onde certamente realizaria algumas anotações. A outra, bem à sua frente, ocupando o centro da mesa, mantinha-se imóvel, a observá-lo, discretamente. Parecia estar plantada ali há séculos, petrificada, como se tivesse o corpo de concreto, tinha a pele muito branca e os olhos fundos e roxos. Há quantos séculos permanecia naquela posição? Sua imagem confundia-se com a paisagem do fundo e Ermínio temia que seus olhos encontrassem com os dela. A última a sentar-se, após enfiar o cartão do ponto no bolso dianteiro da calça, observa-o, até o momento que ele se vira para ela. Ela mantém uma ansiedade incontrolável, parece nunca encontrar uma posição adequada na cadeira que ocupa e esfrega-se nela o tempo todo. Dobra a perna para um lado, para o outro, ajeita os óculos na face, alisa o cabelos, enrola-o, faz e desfaz uma trança, joga-o para trás e depois, ajeita-os sobre os peitos fartos, comprimidos sob a blusa branca.

Não era a primeira entrevista de emprego a que o pobre se submetia na semana. Dado o colapso da economia mundial, mal sentava-se na cadeira e já ia a levantar-se em busca de outras salas, mesas, cadeiras, diretoras, gerentes, empresas. Perdera a conta de quantas portas havia batido nos últimos quinze dias, em busca de uma oportunidade de trabalho. Mas não tinha como render-se. Insistiria, até que conseguisse, não havia qualquer possibilidade de desistência, de jogar a toalha. A mulher, à sua esquerda, anuncia que, finalmente, a entrevista teria início. É feita a primeira pergunta. Talvez, em função das repetidas tentativas, das múltiplas entrevistas e infinitas recusas a que se submetera nos últimos tempos, a voz lhe sai pesada, como presa à garganta, sofrida, cansada, mas procura responder da melhor maneira que dá conta. Não prolonga as palavras, busca objetividade e precisão, mas elas, as palavras, mesmo curtas, revelam seu espírito, acabam por colocar sobre a mesa um pedaço considerável de si. Ermírio era uma alma humilde, apesar de vestir-se com roupas limpas e bem passadas, não carregava marcas, adornos e ostentações. As peças, por exemplo, eram de tecido barato, e lembravam as de produção doméstica, caseira. Suas mãos, grossas, indicavam muitos anos de trabalho pesado, os sulcos no rosto, as rugas precoces, lhe imprimiam uma idade mais avançada do que realmente possuía. É feita a segunda pergunta. Ele mantem o tom e pausadamente, responde, espremendo o pedaço de papel, que suas mãos, quase involuntariamente, capturaram sobre a mesa. Assim que conclui esta segunda resposta, as mulheres se entreolham e, com um gesto combinado, codificado, selam a sorte de Ermínio, ele não seria contratado.

Mesmo assim, mediante um pacto silencioso, combinaram entre elas, que a agonia do candidato se prolongaria. A expressão das três, a partir daí, seria outra. A da esquerda, mexe mais uma vez os papéis e começa a rabiscar garatujas nas páginas da agenda amarela que tinha sob as mãos, a do meio, mantinha-se petrificada, sólida, com o olhar duro e congelado, medindo os gestos e o desespero do homem, que suava rios, diante de si. A esta altura, o pobre fora tomado de uma sensação de pânico, as batidas cardíacas intensificavam-se, sem que soubesse por quê; a outra, a terceira, rebolava inquieta sobre a cadeira, que chegava a arrastar-se; o cabelo, talvez de tanto que o pegava e retorcia, tinha um aspecto oleoso e engordurado, mas ela, mesma ansiosa e agitada, parecia divertir-se. Fitavam Ermínio e entreolhavam-se. Depois de trabalharem há um bom tempo juntas, aprenderam a ler os olhares, os silêncios e os gestos umas das outras. Comunicavam-se sem que o entrevistado o percebesse. Uma sensação de fraqueza e desânimo percorre o corpo de Ermínio e um golpe de cansaço faz-se sentir em cada uma de suas veias e células e a pressão arterial parece cair. Mas não tinha o direito de esmorecer, não podia. Levanta a cabeça, raspa a garganta, ajeita o colarinho e procura fugir aos olhares das inquisidoras, aventurando-se a observar os detalhes do escritório. É uma repartição burocrática, lotada de papéis, manuais, estantes, armários e dois computadores. Na parede ao fundo, um quadro grande, traz o retrato de um homem de meia idade, uma gravata cafona, cabelos grisalhos, olhos inchados e bochechas gordas, que mais lhe recordava um sapo. Certamente é o chefe. Aos pés da gravura, havia uma inscrição com um nome e título, que aquela distância, não conseguia decifrar. Observando a rápida distração do entrevistado, a inquisidora à esquerda, aumenta e endurece o tom da voz e das perguntas.

Das questões de natureza profissional, já quase esgotadas, em uma entrevista que já se estendia além do previsto e desejável, iniciam uma devassa em sua vida pessoal, privada. Está desempregado há muito tempo? Como faz para viver nestas condições? Tem filhos? Garotos, garotas, um casal? Sua esposa, se é que possui uma, também está fora do mercado de trabalho? O senhor fuma ou bebe? Mora em casa própria? A família é numerosa? É desta cidade ou forasteiro? Sabe com quantos paus se faz uma canoa? Sabe resolver equações, domina programas de computador? Prefere carne de boi ou de porco? Café ou chá? A da esquerda apoiava-se sobre os cotovelos e aproximava-se de Ermírio, mostrava-se tranquila e, não fosse a gola puída, talvez aparentasse um estilo aristocrático; era a que mais interrogava. A do meio, estátua, gélida, incompreensível, fez algumas poucas perguntas sem que, incrivelmente, abrisse a boca. Permaneceria ali, plantada, por mais mil anos. A terceira, tagarela, não falava coisa com coisa, era a que apresentava as questões mais desconexas, não as mais embaraçosas. Seus pés e mãos contorciam-se em volta de si mesma. Quando não havia mais o que perguntar, viram-se para Ermírio, exaurido, e dão a sentença final, que já traziam consigo desde os primeiros minutos da sessão interminável, ainda na segunda pergunta. Infelizmente, Senhor Ermínio, para o perfil que apresenta, nosso quadro está lotado, concluiu. Aqui estão seus documentos, lhe desejamos uma boa sorte e, quem sabe em uma próxima ocasião. Ermínio, um pouco atordoado e confuso, levanta-se, agradece e, finalmente deixa o local. Ali, certamente, nunca mais voltaria.


Não se passaram dez minutos que o pobre havia se retirado e, com um pontapé na porta, que quase desaba, fazendo as três saltarem assustadas de seus assentos, entra bufando o chefe, o do retrato na parede. Ainda que, com a cara de sapo, como havia constatado Ermínio, fedia como um porco. O cheiro de cigarro e o odor impregnado de álcool alteravam sensivelmente o ambiente da sala. As três, subitamente, murcharam. O homem dá um soco na mesa da recepção, joga um maço de papéis no colo da mais inquieta, que treme descontroladamente, passa um lenço encardido sob a bochecha gorda e suada, abre os primeiros botões da camisa e esbraveja. Mas que diabos, quantas vezes preciso dizer para não deixarem todas as lâmpadas acesas? Da próxima vez, vão as três, juntas, para o olho da rua. De cabeça baixa, caladas, retomam seus afazeres. A da esquerda faz anotações na agenda, a do meio muda os manuais de lugar, sem se mexer, a outra, em um rodopio rápido, senta-se em frente ao computador, resignadas. O chefe permaneceria ali, pelo resto do dia, onipresente, autoritário e absoluto. Um cheiro de urina e enxofre impregnava toda a atmosfera.


Marcos Vinícius.