quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Belo Horizonte, a política e as eleições.



Havia prometido a mim mesmo que não voltaria a ocupar este espaço para falar de política, não só para não amolar os colegas que, vez ou outra, perdem seu tempo com o que escrevo aqui, como para evitar assuntos desagradáveis, pessimistas e vazios de esperança, que é o que se transformou a política em nosso país e em nossa cidade. Mas vou quebrar a promessa, pois sinto-me tentado a algumas considerações. Belo Horizonte, palco de inúmeras lutas e manifestações populares, que nos últimos anos, apresentaram-se revigoradas, com o surgimento de novos e diversos coletivos, movimentos de rua, como Praia da Estação, Fora Lacerda, Tarifa Zero, Ocupa a Câmara, ocupações urbanas, Atingidos por Barragens, Marcha das Vadias, movimento Hip-Hop, movimentos feministas, LGBT e outros tantos, apresentou uma campanha eleitoral nos modelos mais atrasados e reacionários que conhecemos, a anos-luz de distância da efervescência política que tomou conta de nossas ruas e praças. As duas candidatas à Prefeitura, mulheres, pobres, lideranças sindicais e sempre presentes nas lutas cotidianas da cidade, não encontraram espaço nas mídias e nos veículos convencionais de informação, foram impedidas de participarem dos debates televisivos e suas candidaturas acabaram por tornarem-se irremediavelmente invisíveis, resultando em uma votação pífia e muito pouco expressiva. Grande parte da população foi às urnas sem sequer saber da existência destas candidatas. O debate político-eleitoral tornou-se enfadonho, com muito do mesmo, e os candidatos, sempre previsíveis, apesar de apresentarem algumas pequenas divergências, discordâncias pontuais, pertencem todos ao mesmo campo, tem o mesmo discurso e o mesmo projeto. A grande novidade que temos, talvez seja um segundo turno, com duas candidaturas com um histórico ligado ao Clube Atlético Mineiro, o que nos faz entender, lamentavelmente, que o eleitorado belo-horizontino, grosso modo, não encontra grandes diferenças entre a disputa política e os jogos e campeonatos do Mineirão. Em uma partida sem entusiasmo, num eterno e entediante zero a zero, parece que nos sobrou a opção do nada ao lugar nenhum. É o que temos, quase uma morte da política, enquanto um campo de possibilidades. A esperança encurralou-se em um beco sem saída e o voto nulo torna-se um dever cívico. O projeto popular que um dia encontrou ressonância no Partido dos Trabalhadores frustrou-se; as candidaturas, vermelho-desbotadas, acabaram por tornarem-se plataformas chapas brancas, que no âmbito nacional, acabou por desaguar em um dos governos mais antipovo da história do país e no caso de Belo Horizonte, após anos e anos de governos petistas, temos uma administração que transformou a cidade em um imenso laboratório das políticas neoliberais levadas à radicalidade. Não é isto o governo Lacerda? A cidade como Business City, território dos grandes negócios, do empresariado e empreiteiros, não a pólis democrática, cidadã e popular. A capital do concreto. Os governos Temer e Lacerda, no entanto, não são resultado de uma frustração de anos das administrações petistas, onde a população insatisfeita resolveu votar na oposição. São nomes da continuidade, e apesar da ruptura posterior e do golpe que ora nos abate, quer queiramos ou não, chegaram onde estão em alianças com o petismo. A história é esta. Enfim, apesar do grande jogo das cartas marcadas e o júbilo da vitória não ecoar em nossos ouvidos, pois a festa restringe-se às muralhas da casa grande, a conquista de duas vagas na Câmara dos Vereadores pelo PSOL e a eleição de Áurea Carolina é um alento. Candidata do campo popular, mulher, negra, pobre, militante, feminista, que promete um mandato radicalmente democrático, porta-voz da juventude, dos ambulantes, da população de rua, e cujas palavras de ordem, ao lado do Fora Temer, são nenhum direito a menos e nenhum despejo a mais, além de recordista na votação, nos permite constatar que, mesmo em meio às maiores adversidades, nem tudo está perdido. E a tal esperança, sempre ela, mesmo que não seja a última a morrer, ainda nos dá um pouco de alegria, quando sentimos o sopro do seu suspiro.



Marcos Vinícius.

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