quarta-feira, 27 de junho de 2012

O supermercado







Antes de sair para o trabalho, fazia questão de deixar a mais perfeita ordem em casa. Deixava o alimento pronto para as crianças, suas toalhas dobradas e cheirosas, os pratos e talheres limpíssimos a brilhar e prontos para o uso dos meninos. A moradia era pequena, precária, mas extremamente organizada, não deixava nada fora do lugar, as revistas sempre empilhadas, umas sobre as outras por sobre o armário, alinhadíssimas, sem uma ponta qualquer que pudesse quebrar a harmonia do conjunto. Sempre fora muito caprichosa com as coisas da casa. Mesmo os utensílios ou equipamentos mais antigos que possuía, tinham aspecto de novos, pois eram sempre espanados, limpos em cada canto, com panos secos e úmidos, e não havia dia em que um cisco qualquer, um poeirinha perdida tivesse sido encontrada. Assim sempre havia levado sua vida, desde que se entendia por gente, como gostava de dizer. Não havia em sua memória ocasião em que sua conduta fosse diferente. Saía de casa em direção ao trabalho, invariavelmente no mesmo horário, dificilmente atrasava-se ou adiantava-se em um minuto que fosse. Cada passo, cada gesto, muitas das vezes repetia os mesmos que haviam sido ontem, e que certamente, também o serão amanhã, e entre vários outros do passado e do porvir, sempre dentro das mesmas frações de segundo. O mundo do trabalho e sua condição materna havia criado naquele espírito uma regularidade mecânica, cronométrica, disciplinada. Habituara-se aquela vida. Uma dor, porém, sempre lhe afligia, antes de ter que deixar seu barraco. As duas crianças, ainda bem jovens, com cerca de uma década apenas de existência cada uma, deveriam ficar sozinhas, até que a tia vizinha pudesse apanhá-las um pouco mais tarde e levá-las para a casa da avó. Assim ocorria todos os dias. Depois de chegarem da escola, a mãe servia o jantar, um prato com um bom bocado de arroz com feijão, duas ou três rodelas de tomate, batatas cozidas, e um ovo frito, ou pedaço de carne.  Feita a refeição, chegava a hora de dirigir-se ao trabalho. Mesmo contando com as graças e a ajuda da família a quem confiava os filhos, uma angústia lhe apertava o peito, o coração e o estômago doíam-lhe quando dava a última volta da chave na fechadura da porta e deixava sua prole para trás. Mas quanto a isso, não havia o que fazer. Sem aquele trabalho não teria como garantir sua modesta sobrevivência, nem a dos filhos, e nem teria como retribuir e remunerar o apoio que lhe era assegurado pela pobre família. Assim era e assim haveria de ser, Deus assim o queria.

Antes de chegar na avenida embaixo, onde pegava seu ônibus, atravessava umas poucas ruas e vielas, onde era bem conhecida, acenava para um, para outro, sempre com um sorriso discreto nos lábios, espalhava umas boas noites, um até mais ver, felicitações e simpatias, a cumprimentar aquela comunidade que sempre fora tão próxima. Mas não era lá de muitas intimidades, sempre fora mais discreta, retraída, e mesmo os acenos, apesar de sinceros, eram relativamente contidos.  No fundo, era uma mulher mais reservada, e apesar de conhecer a maioria de sua antiga vizinhança não era lá de muita exposição e sempre temera que sua vida privada, seus problemas familiares ou domésticos se tornassem de domínio público. Pode-se dizer que era mais caseira, não gostava de envolver-se em fofocas, e nem gostava que os filhos ficassem soltos à rua. Nunca se envolvera em confusão, e tinha o respeito de todos que na vizinhança conhecia. Ao afastar-se, porém, daquele ambiente familiar e ingressar no ônibus que todos os dias a levava ao trabalho, sua expressão alterava-se. A rigor, não era de dar conversas a estranhos. Era polida e educada quando lhe faziam alguma pergunta, pediam informação, quando assentavam ao seu lado, mas definitivamente não era de render assunto. Naquele momento, seu cérebro organizava-se para mais uma noite de trabalho, uma ligeira ansiedade envolvia-lhe a alma, e não considerava que houvesse algo que lhe inspirasse alguma conversa fortuita, um bate-papo. Era o momento de concentrar-se para mais uma noite operária, pois afinal era de onde tirava o sustento, e sempre se preocupou em fazer muito bem feito o que tinha de ser feito. Seus olhos, na maioria das vezes, voltavam-se para o lado de fora, evitava os olhares dos colegas de viajem e observava sempre o que a visão não podia fixar, a imagem em movimento das ruas, do comércio e dos transeuntes. Quando o veículo parava, seja em algum sinal fechado, algum ponto, ou em função de algum engarrafamento ou problemas do trânsito, seus olhos percorriam aflitos por sobre a multidão, como se ali procurassem por alguém, ou como se quisessem ao mesmo tempo, em uma só olhadela, ver todos de uma vez, cada um em meio ao grande alvoroço de corpos. Distraía-se verificando como são diversos os homens, as mulheres, com suas roupas coloridas, cortes variados, penteados inigualáveis, e fisionomias que nunca se repetem. Admirava-se ao observar a grande diversidade de imagens e de personalidades que a humanidade apresentava. O ônibus faz uma curva fechada, sai de uma avenida e entra em outra. Ela levanta-se, puxa o longo cordão de plástico que corria o lotação de ponta a ponta, uma lâmpada vermelha acende-se bem diante ao motorista, e em segundos, este para no ponto, as portas se abrem bruscamente, e finalmente, chegava ao trabalho. Faltavam poucos minutos para as dez horas da noite, quando iniciava o seu turno.

Ao descer do lotação, bastava atravessar a larga avenida que se punha a seus pés, dar uns dez passos adiante, e em seguida, estaria bem diante das imensas portas daquele grande supermercado, no qual já trabalhava há alguns anos. Chegava no exato momento em que as portas se fechavam para o público, mas abria-se para ela. Ali, alguns poucos fregueses ainda estavam a encerrar as suas compras, fazendo seus pagamentos e ajeitando rapidamente algumas mercadorias em suas sacolas e caixas. Algumas luzes se apagavam pelos cantos das paredes, nos fundos dos corredores. Era uma forma velada dos funcionários anunciarem aos clientes que a noite agora chegara para eles. É uma comunicação silenciosa. Como nos bares, nos fins de noites, os proprietários e empregados aflitos pelo encerramento do expediente, começam a fechar mesas e cadeiras e empilhá-las em um canto qualquer, de preferência bem à vista, daqueles últimos beberrões, que estão sempre a pedir algo mais para beber. Normalmente, após estes sinais, os clientes são instintivamente tomados de uma pressa maior, e passam a guardar mais rapidamente suas mais recentes aquisições, apressam-se em enfiar as notas, trocos ou cartões pelos bolsos e correr em direção à saída. Rapidamente, aquele grande pátio de comprar estaria vazio. Um a um, os últimos fregueses colocavam-se para fora. O relógio de ponto apitava, no mesmo momento, em que ela postava-se de frente para ele. Tinha início, mais um turno de trabalho.

Não temos dúvidas que aquelas luzes que se apagavam quando dava dez horas, era mesmo para apressar os fregueses lentos, retardatários, que muitas das vezes, atrasavam um pouco a saída de muitos, isso via-se claramente nas fisionomias dos empregados, o desconforto e o incômodo, os olhares cruzados,  pois não viam a hora de verem-se livres do trabalho extenuante  que acabam de realizar naquele dia, afinal, se não podiam atrasar-se na chegada, era certo que não iriam querer atrasar-se também na hora de irem embora. As luzes principais, os grandes lustres que iluminavam aquele salão do consumo, penetravam todas as entranhas daquele grande estabelecimento, todas as mercadorias, prateleiras, gôndolas, equipamentos, balcões ficavam às claras. As câmeras de vídeo rastreavam todos os cantos, frestas, as pequenas sombras dos insetos noturnos, que quebravam o silêncio da madrugada. Os grandes olhos de vidro, o guardião onipotente que tudo vê, a vigilância eletrônica que guarda o universo das mercadorias, plásticos, utilitários, alimentos, matérias de limpeza, roupas, equipamentos, ferramentas, e tudo quanto os homens podem necessitar para atender suas demandas diárias. Mesmo à noite, com as portas fechadas, as luzes, praticamente todas, mantinham-se acessas. O grande galpão de produtos tornava-se uma imensa vitrine, que não se permitia deixar de mostrar aos cidadãos, que ele ali estava, pronto para atender tanto às reais necessidades, quanto aos mais supérfluos dos desejos. Era o templo contemporâneo, onipresente, onde todos em algum momento, teriam que recorrer. Quem ainda estava há algumas quadras de distância, já enxergavam de longe seu brilho, seu lume, como um farol, a proporcionar tranquilidade aos homens que navegam pelos grandes oceanos do consumo, contra os ventos e intempéries das políticas dos mercados. Quem trouxesse dinheiro ou algum cartão na carteira, não teria dificuldades na vida, pois Ele ali tudo podia oferecer, não se passaria fome ou sede, poderia se controlar o frio ou o calor, e quanto às opções de entretenimento, aquele supermercado era o melhor que poderiam encontrar pelas redondezas, seu departamento de eletrônicos, jogos e músicas, era bastante diversificado.

O senso de organização que possuía para lidar com as coisas de casa, nas atividades domésticas, também trazia para o trabalho. Era bem metódica, e começava sempre por ajeitar as prateleiras. Sua função ali era manter o grande salão limpo e organizado, para que os que ali viessem pela manhã encontrassem tudo pronto para o funcionamento, sejam empregados ou fregueses. Muitas das vezes, um sujeito coloca um produto qualquer em um carrinho, e depois de alguns instantes, desiste de levá-lo, e ao invés de deixá-lo no ponto que o tirou, deposita-o na primeira prateleira que vê à frente. Estas e outras tem que observar a dedicada funcionária que corre o olhos em todas as mercadorias, preenche lacunas, ajeita, afasta os que à beira da gôndola, estão prestes a despencar, ou o pote tombado lá no fundo do armário, que encontra-se praticamente invisível. Suas mãos cuidadosas aprumam todas as coisas, não há marca que se misture à outra, produtos similares que não estejam devidamente alinhados, mercadorias afins em setores distintos. Prima pela ordem e pela limpeza. Espana, passa panos, varre, retira a poeira dos cantos, dá polimentos aos planos e às arestas, deixa transparente os vidros, deixa mais claro o branco gelado dos frigoríficos, deixa mais nítidas as marcas das embalagens. Sua dedicação sempre lhe rende elogios, o que sempre a constrange um pouco, pois não é lá de muitas vaidades, o que faz é por mero e exclusivo sentimento de obrigação e não que goste de aparecer ou mostrar-se bajuladora, não aprendeu a fazer diferente.

Ao cruzar o corredor que dá acesso aos hortifrutigranjeiros, um vento frio atravessa seu corpo gelando-a dos pés à cabeça, fazendo-a estremecer. Naquela noite, não viera preparada para toda aquela friagem, e normalmente, como exercita-se muito realizando suas tarefas, dificilmente é de agasalhar-se, pois o corpo, mantém-se quase todo o tempo, bastante aquecido. O único momento em que talvez desacelere um pouco é no meio da noite, quando para alguns poucos minutos para fazer um lanche rápido com um pão já com a manteiga que sempre trazia de casa. Algumas vezes, trazia um pouco de café, principalmente nas noites frias, noutras, o pão seria ingerido apenas com água mesmo. Mas seja lá como for, era o único momento, em que deixava um pouco de lado os panos e as vassouras. Mas assim que ingeria o último bocado, metia-se ao trabalho novamente, pois temia que o ócio pudesse afetar seu coração, e que seus pensamentos distraíssem-lhe a atenção comprometendo o cumprimento da jornada e missão que tinha à frente. Levanta os olhos para ver se encontra por onde entrava aquela gélida corrente de ar e aproxima-se dos janelões da parte lateral do edifício. Ali provavelmente encontraria algumas frestas abertas. De fato, algumas pequenas janelas abertas na parede superior criavam a corrente que acabava por varrer vez ou outra os grandes corredores do supermercado. Ao subir o vão da parede para alcançar o dispositivo de metal que fechava as janelas avista uma pequena praça ao lado, onde um razoável número de desocupados, desempregados, pedintes, bêbados, estropiados, famintos e doentes se amontoavam. Alguns falavam e gesticulavam muito, uns eram ouvidos por muitos, outros por nenhum. Havia quem falasse sozinho. Outros mantinham-se calados, ouviam um orador, outros os ignoravam por completo. Um velho com uma perna infectada e inchada, provavelmente com muita dificuldade de locomoção parecia entregue ao destino, estava prostrado, não falava e também não ouvia as falações, tinha os olhos petrificados, as mãos encardidas, eram o sinal evidente de quem há muito não sabia o que era um bom banho. Alguns homens andavam inquietos de um lado ao outro da praça, depois se sentavam junto aos outros, levantavam-se, repetiam o percurso, e sentavam-se novamente. Havia um clima de tensão, que só foi quebrado quando um sujeito de calças puídas, com uma magra sacola de pães, onde à primeira vista, percebia-se que não mataria a fome de todos, aproxima-se do local. Neste momento, ninguém permanece mais em seus lugares, seus antigos postos. Levantam-se e vão em busca das fatias que talvez lhes destinassem. Era o momento da ceia, os homens juntavam-se ao que se encarregava de distribuir os bocados, e seus olhos fixavam-se atentamente nos pães que eram repartidos e nas mãos que os repartiam para certificarem-se que tratava-se de fato, de uma partilha justa. Uns que estavam mais atrás na estreita roda que se formava, equilibravam-se nas pontas dos pés para observar a distribuição, mas também para chamar a atenção dos outros e mostrar que também eram parte na disputa. Todos recebem o seu quinhão, que é devorado em poucos segundos. Duas crianças magras disputam, entre si, as migalhas de seus pães que haviam caído ao chão. Catavam os farelos maiores deitados sobre as pedras do chão da praça, e seus dedos, de unhas cumpridas, corriam as junções das pedras, os frisos, as aberturas, o declive no cimento, onde podiam juntar-se o pó do pão, que levados ao dedo molhado, cata daqui, cata dali, transformava-se em um pequena maçaroca que enfiavam afoitamente goela abaixo, como se de farta refeição se tratasse. Com um empurrão brusco, aciona o dispositivo da janela e esta trava-se de uma só vez, interrompendo a passagem da corrente que congelava o lugar. Antes de descer dos degraus, observava mais uma vez aquelas pobres almas, com suas noites mal dormidas e suas fomes não saciadas. Ali, do alto, tinha como observar também quase todo o estabelecimento, via as prateleiras por cima, e percebia bem o conjunto, as divisórias, as seções, as placas com as ofertas, os preços, anúncios, as tabelas, propagandas, em uma grande conjunção de símbolos, códigos, cores e sinais. Ela estava praticamente sozinha aquela noite, o outro funcionário de plantão, tinha demanda grande de trabalho no depósito dos fundos, e provavelmente só daria as caras, quando o dia raiasse, já na troca dos turnos. Um calafrio cortante percorre outra vez todo o seu corpo, seu peito estremece, os braços sacodem-se, e os dentes batem uns contra os outros, como nas poucas vezes, que precisou entrar nas câmaras frigoríficas. Olha para cima, mira novamente a janela, e não encontra mais por onde pudesse passar o vento.  Esfrega as mãos com força, levanta a gola da camisa, apruma todo o corpo após um programado arrepio e salta novamente ao chão.

Ao descer, sente-se tomada de uma grande inquietação, olha para um lado, para o outro, e praticamente não se lembra do que estava a fazer. Revira as lembranças, tenta voltar o pensamento, mas estes lhe falham, e permanece parada em meio ao corredor. Seus olhos voltam-se novamente para a janela, fixam-se nelas. Imediatamente, num ímpeto, pula sobre o grande degrau de onde poderia observar mais uma vez aquelas almas. Naquele instante, as crianças reviravam o saco de pão, que já nem farelos mais trazia em seu interior, e iam em busca de alguma lasca minúscula que talvez houvesse encravado em algum canto no fundo ou em alguma dobra do papel da embalagem já amassada. A busca é em vão, e as duas pequenas criaturas entreolham-se desconsoladas e cúmplices na escassez e na miséria. A funcionária segura firme a aba da janela, de onde consegue um bom equilíbrio para poder acomodar-se melhor. Dali observa atentamente aquela cena. Por alguns instantes, não consegue ver ou imaginar outra coisa. Quebra, como poucas vezes lhe ocorre, a rotina cotidiana do trabalho. A friagem novamente percorre seu corpo, e um calafrio brusco, faz-lhe sacudir ligeiramente as janelas. Assusta-se com o ruído que provoca e outra vez, prepara-se para descer. Antes, porém, põe-se a observar uma por uma aquelas gentes, seus olhos fazem uma varredura rápida e precisa daqueles seres, correm pelos olhos, pelas mãos, vestimentas e gestos, procura acompanhar cada movimento, cada trejeito daqueles não cidadãos. Observa que por trás de cada particularidade, cada individualidade, existe algo que aparentemente lhes é comum, as marcas da necessidade, os signos da desnutrição. As imagens da partilha do pão persistiam em seu pensamento, o momento em que os homens viam-se irmanados não pela fartura ou deleite, mas pelas privações e pela fome. Uma fome crônica, que acumulada há tantos tempos, parece ter se tornado insaciável, e, portanto, deixado cicatrizes eternas. As marcas das carências múltiplas manifestam-se não apenas pelas roupas surradas, pelos farrapos encardidos, nas barbas por fazer, mas estavam incrustadas nas peles ressecadas precocemente, nas rugas antecipadas, em um couro quase sem brilho. Muitos carregavam os olhos fundos, a tez franzida, e tinham as pernas finas. As crianças, pobres e pequenas, estavam longe das alegrias da infância. Os velhos, distantes do conforto, que a idade deveria demandar. Os jovens, entre uns e outros, completavam a genealogia da pobreza. Tenta voltar de imediato ao trabalho, mas uma força maior retém-lhe ali, não consegue desgrudar-se da janela e as pernas ferram-se ao chão. Volta novamente o olhar, refaz, no sentido inverso, todo o percurso que acabara de realizar, outra vez as crianças, dirige-lhes um olhar de compaixão, e aí finalmente, consegue despregar-se dali, e retornar aos seus afazeres.

Por alguns instantes, custa a lembrar-se da tarefa que iria realizar, mas assim que atravessa o primeiro corredor e vê novamente as prateleiras com sua infinidade de produtos, recorda-se que deveria organizar a seção de frutas, ajeitar as caixas, que muitas das vezes ficavam remexidas e fora do lugar, retirar as frutas que não mais se apresentassem boas para o consumo e as folhas apodrecidas, retirar uma fruta ou outra que estivesse afastada de seus pares, ou que tivesse sido colocada com outras frutas diferentes, seja pela preguiça dos adultos em devolver de onde tirou aquela que havia desistido de levar, ou pela traquinagem das crianças, que muitas das vezes, divertem-se com o mal feito, o que não significa que apenas às crianças devemos reportar a qualidade. Ao dar dois passos na seção, o aroma das frutas invade suas narinas, e ela respira fundo, como a tragar todo o odor que cada uma delas exalava. Era um cheiro doce, suave e amargo, um cheiro da terra e de suas entranhas, seus frutos. Deliciava-se. As frutas estavam bonitas, grandes e vistosas, cada espécie com suas formas e cores únicas. Encantava-se. Tinha a impressão de conhecer poucas coisas tão bonitas e procura aproveitar-se à vontade aquela sensação. Observa atentamente todo aquele colorido, enche os pulmões, e procura outra vez, captar todo aquele universo de aromas que aquela grande seção de frutas poderia proporcionar. Respira fundo. Mas, outra vez, tenta mover-se e não consegue, como acabara de ocorrer agora a pouco, porém em circunstâncias diversas. Primeiro, sobre os degraus, pendurada na janela, agora, em frente esta banca farta de frutas. Estava totalmente paralisada, um torpor inexplicável tomava-a a cada músculo, porém mantinha-se firme de pé, e uma sensação agradável e de conforto revirava-lhe a alma, e as cores das frutas povoavam o seu pensamento. Mantém-se tranquila. Após alguns instantes consegue levantar levemente os braços e escora-se no balcão. Finalmente percebe que aquele não era um dia como os outros, e sente-se ligeiramente atordoada. Repentinamente, todos os estímulos voltam a lhe responder, mas seus olhos estão diferentes, trazem lampejos. Sente em segundos, cada pedacinho de seu corpo, e sente-se inteira. Das pontas dos pés ao último fio de cabelo, cada músculo, tecidos ou nervos, dão-lhe resposta de vida. Sente-se tomada de um ânimo juvenil. As pernas põe-se a correr ligeiras, como não se lembra de ter feito naquele local.

Quebrando radicalmente uma rotina inalterável há alguns anos, retira uma peça estrutural do lugar, interrompendo algo pelo qual sempre zelou, a manutenção da ordem das coisas em seu local de trabalho. Quando retira alguma mesa, ou arrasta algum freezer qualquer, o faz tão somente para que possa retirar alguma poeira escondida ou um sujo do chão, que a vassoura não conseguiu retirar. Tão logo resolva o problema, volta imediatamente o móvel para o lugar, como se dali ele nunca houvesse se afastado. Ela era assim. Desta vez, porém, age completamente diferente. Arrasta abruptamente um grande balcão que servia também como divisória entre uma área de acesso ao público em geral, e outra restrita, onde podem entrar apenas os funcionários, devidamente munidos de crachá e uniforme. Após abrir um grande vão entre uma área e outra, retira uma grande mesa de madeira de dentro, onde os empregados utilizavam para as mais variadas funções, cortar, pesar, medir, embalar, onde também ficam acessórios e instrumentos de trabalho. Após retirar toda a parafernália que sobre ela se encontrava, puxa-a de uma vez, e arrasta-a para a parte central do supermercado, um local onde havia um espaço maior entre as prateleiras, praticamente uma área de confluência, onde durante o dia, quando a loja estava aberta, um grande número de pessoas se cruzava. Afasta um pouco uns caixotes, alguns pequenos balcões expositores, e em instantes, abre uma pequena clareira entre aquele mundo de mercadorias, e bem ao centro, estaciona a grande mesa. Faz todos os movimentos em um ritmo apressado, como se o tempo se tornasse cada vez mais curto, para realizar todas as tarefas que tinha à frente.

Passa um pano úmido sobre aquela mesa, que mais parece um grande tablado, e em seguida, vai rapidamente até uma prateleira da seção de produtos de cozinha, pega uma belíssima toalha colorida de papel, e a estende cuidadosamente sobre ela. Em seguida, vai de um lado ao outro, cruza seções, atravessa balcões, abre e fecha geladeiras, e aos poucos, mas apressadamente, vai enchendo a mesa de produtos. Colocou sobre ela, várias caixas de leites e sucos, garrafas de refrigerante, pães, bolos, salames, defumados, frutas, e uma grande variedade de doces, biscoitos e chocolates. Ajeitou daqui, ajeitou dali, e ornamentou aquela mesa, como se de um grande banquete se tratasse. Em poucos minutos, tinha diante de si, uma mesa como ela mesma nunca havia visto em toda sua vida. Já havia organizado festas de aniversário na família, participado de inúmeras cerimônias de casamento, organizados ceias de Natal, mas nada que lembrasse aquela fartura que acabara de colocar à mesa. Seus olhos brilhavam. Uma luz branca que vinha do teto iluminava todo o seu rosto, e um sorriso farto desprendia-lhe de um canto dos lábios. Carregava um ar de felicidade.

Ao constatar que sua obra estava pronta, corre até o portão dos fundos, que dá acesso à praça, abre-o de uma vez, corre até o meio dos homens e das crianças que vira há pouco e convida-os para uma ceia farta, explicando que o tempo que tinham era curto, e que, portanto, se quisessem aproveitar o máximo o que ela tinha a oferecer, deveriam ser rápidos. Os homens, a princípio, olham uns para os outros, desconfiados, ficam sem entender a oferta, mas diante da insistência da mulher, e do ronco dos estômagos, que reagem instintivamente, diante do pensamento que a surpresa poderia ser verdadeira, não pensam uma segunda ou terceira vez, e vão verificar o que havia por trás daquela porta. Ao verem a ceia pronta, dirigem-se afoitos a ela. Alguns, mais famintos, abrem ali mesmo alguma embalagem e iniciam a degustação, outros acham mais prudente, colocar o que pudessem debaixo dos braços e abandonarem o mais rápido possível o local. Os homens entreolham-se meio sem entender o que viam, mas não podem perder aquela oportunidade. Sobre a mesa, alimentos que nunca tinham tido como saborear, apesar de já tê-los visto algum dia, e havia também aqueles que viam pela primeira vez, era uma descoberta. Embalagens coloridas, frutas saborosas, guloseimas de todas as espécies, estava tudo ali, a disposição daquelas almas nunca saciadas, daquelas fomes crônicas. Quem pensou em saborear aquelas delícias apenas do lado de fora, acabou mudando de ideia ao verem os companheiros já com as bocas cheias e olhos vidrados, e todos abriam vorazmente os pacotes, plásticos, embalagens, rompiam os lacres, fatiavam pedaços, as crianças faziam festa. Ela não participava do banquete, mas olhava o tempo todo, não perdia um movimento sequer, cada mordida, cada um dos produtos que eram abertos, cada olhar de surpresa e indagação. Estava inerte, e posicionada num ângulo tal, que não havia quem pudesse furtar-se ao seu olhar, à sua observação. Tinha a feição serena, mas carregava nos olhos um farol luminoso e o corpo parecia queimar. O frio que sentira mais cedo desaparecera de vez e uma chama incandescente ardia-lhe a alma. Era alta madrugada quando o último homem atravessou a porta de volta para a rua. Sobre a mesa, nenhum alimento sobrara inteiro. Apenas farelos e restos do que fora uma farta refeição. A praça ficara vazia, no entanto. Os homens não voltaram para lá.

Assim que tranca a porta dos fundos, e encontra-se novamente sozinha, naquele supermercado violado, uma sirene alta interrompe o silêncio da noite e luzes vermelhas e giratórias refletem nos vidros do portão principal. O local estava cercado. Um exército de homens armados, com cães, fuzis e veículos blindados arrebenta as fechaduras e num piscar de olhos, ocupam todo o interior do estabelecimento. As câmeras haviam feito o registro e dispensavam grandes interrogatórios, as imagens falavam por si. A mulher não foi poupada. Meteram-lhe uma grande algema e empurram-na para um dos carros. Dentro do supermercado, os homens discutiam e avaliavam o tamanho do prejuízo. De dentro do veículo, ela mantinha a expressão inalterada. Tinha a feição serena e mantinha os olhos iluminados. Quando o policial liga o motor para dar a partida, ela dá a última olhada para o supermercado. Sua face é tomada de um largo sorriso.


FIM


Marcos Vinícius.



segunda-feira, 11 de abril de 2011

A Organização


O ruído que ouvi ao transpor o grande portão metálico, acredito, estará para sempre em minha memória. É um som único. Uma grande chapa de ferro, um metal pálido e cinzento com grades espessas corria quase silenciosamente com suas roldanas pelos trilhos enterrados no concreto do chão. O barulho inolvidável faz-se quando é acionado o mecanismo que coloca a grande estrutura em movimento. Tanto as arrancadas quanto as paradas são bruscas, abruptas, quando é rompido o grande silêncio da serpente de ferro. Quando as duas barras centrais se encontram, e o portão, finalmente, se fecha, a sensação que dá é de termos sido engolidos. E é o que somos. Não há qualquer dispositivo que amorteça o encontro das placas do portão. O som é petrificante. Quando a trava se lacra, dispositivos eletrônicos são acionados, e um jogo de luzes, cores, sons e códigos, vêm nos revelar que estamos em território onde se investe alto nas chamadas tecnologias de segurança máxima. Uma grande parafernália tecnológica possibilita um confinamento total, a reclusão absoluta. Uma ampla sala de comando com telas coloridas, cadeiras giratórias e máquinas possantes, poderia nos fazer imaginar estarmos no melhor dos mundos, não fosse a ciência tão perversa com a humanidade que a criou. Ainda não sei ao certo por que nos era permitida ter a visão desta sala logo à entrada, que por sinal, não a veríamos mais. Talvez fosse um descuido da segurança, uma falha no sistema, ou quem sabe ao contrário, talvez quisessem mesmo nos fazer crer, que para nós, ali não haveria qualquer alternativa. Os novos deuses, a ciência, a técnica, o capital, as armas, estariam a seu favor e serviço. Isto não me custou ver. Assim que fui retirado do veículo blindado em que havia sido capturado, três ou quatro carrascos se aproximam de mim. Não eram destes carrascos que vemos de cabelo em pé,quando dos filmes de terror, mas carrascos que para uma grande parte de população mundial são vistas como heróis. Homens enormes, com braços e peitos de ferro, alguns com tatuagens, estilos descolados, com celulares e laptops, a fazer inveja a muitos galãs do cinema. Ficamos a imaginar se suas mães suspeitariam algum dia das atrocidades que seus filhos amados seriam levados a executar. Com um chute nas costas, de supetão, não pode ver quem me desferia este golpe, fui atirado ao cimento. Foi tão rápido que mal pude levar a mão ao rosto, cortei as pálpebras, e a testa sangrou embaçando os olhos. Na primeira tentativa de me levantar, uma bota pesada desferiu-me um golpe certeiro entre o queixo e o pescoço, desmontando todas as minhas defesas. Não pude tentar novamente.

A água fria, às vezes, faz mesmo milagres. Após dar-me por encharcado, um grande balde d água foi derramado sobre mim, consigo abrir os olhos. Vestia um macacão, peça única, que me cobria da cabeça aos pés. As pernas e as mãos estavam fortemente amarradas, o que limitava exageradamente os meus movimentos. Dois grandes soldados prenderam à corrente que atava meus pés, uma outra corrente, maior, mais comprida. Ali estava completamente subjugado. Os homens arrastaram-me e minhas costelas esfolavam ao chão. Minha única reação possível, um grito doloroso, foi violentamente reprimido por um bofetão que me quebrara dois pares de dentes. Em seguida, ganhei uma corda estrangulada à boca, que além de impedir qualquer tipo de comunicação, impossibilitava qualquer gritaria, que despertasse a ira dos meus algozes. Sorte ser curto o caminho entre o local em que fui amordaçado e a gaiola que estava à minha espera com sua goela aberta. Era meu primeiro dia, a carne sangrava, mas ainda não estaria desossado. A gaiola onde fui encerrado por longas horas, por mais de um dia, não possuía qualquer cobertura que pudesse proteger-me do calor do sol ou do frio da noite. Durante o dia, o macacão cozinhava-me, suava compulsivamente, e à noite, o frio endurecia meus nervos. Era apertadíssima a jaula e não havia como me esticar. Os poucos movimentos que conseguia ainda realizar eram fruto da necessidade extrema que o corpo tinha de mudar de posição para livrar-se de uma dor, e trocá-la por outra. As dores eram intensas. A boca estourada inchava a cada hora um pouco, os dentes arrancados quase à raiz eram um incômodo que tornava meu sofrimento ainda mais insuportável. As costas queimavam, e as escoriações deixadas pelas boas vindas da recepção eram como deitar-me em brasas. As jaulas foram projetadas de modo a mal caber meio indivíduo. Não há posição possível onde possa se descansar um pouco da posição anterior. As pernas têm que contorcer-se. O peso dos ombros, ora esmaga o braço direito, ora o esquerdo. Depois de alguns minutos dentro da coisa, o incômodo e a sensação de fatalidade impõem um sacrifício mórbido sobre o corpo e a alma. Para aliviar as pernas, sacrifica-se o pescoço, ao dar a este último algum descanso, é quando sofrem novamente as pernas ao se equilibrarem em um contorcionismo inédito, fatigante e doloroso. As cordas das mãos, apertadíssimas e secas, cortavam os punhos, como pequenas navalhas em fios, continuar a friccioná-las, talvez resultasse na dilaceração dos punhos. Estava completamente imobilizado.

Era um trapo quando fui retirado dali na segunda noite. Mal conseguia manter-me de pé. Os ombros enrijecidos e os pés esfolados davam-me um aspecto cambaleante. Sentia os ossos se desfazendo, vítima de uma implosão, um desmoronar de si mesmo. O sujeito desmontado. Como não há mal tão ruim que não possa ser piorado, juntam-se ao meu redor um grupo de homens fortemente armados, uniformizados. São grandes, robustos, e não trazem nas faces coradas qualquer sinal de piedade. Todos carregam pesadas armas de fogo, aparentemente desnecessárias diante da fragilidade do suposto inimigo. Bastaria uma única bala, um único golpe, em meia fração de segundo, para ter-me ao chão, perfurado e morto. Mas pouparam-me naquele instante, talvez quisessem algo mais que a minha insignificante vida. Fui levado para uma sala praticamente vazia e escura. Uma única lâmpada iluminava o ambiente. Colocaram-me debaixo dela, amarrado em uma cadeira, onde permaneceria completamente imóvel. Estava exposto, visível, iluminado, com o corpo aberto, esfolado, quem sabe olhavam-me por dentro. Não conseguia distinguir seus rostos, a luz sobre meus olhos e a frágil iluminação do local, permitia-me apenas enxergar seus vultos, que quase não se mexiam. Esforçava-me para entender o que poderia estar a ocorrer. Por longos instantes, não disseram palavra alguma, mantinham-se em silêncio. A ausência de palavras e a rigidez daqueles soldados, aliada a falta de visão que tinha do local, era uma ansiedade a mais, já à beira do pânico, por não conseguir prever até onde iria a perversão alheia. Dois deles seguem em minha direção. Agora sim, posso ver os seus olhos. Um calafrio súbito gela-me a garganta, e o estômago se contrai. Traziam o ódio. Estavam cada vez mais próximos, retiram dos cinturões sintéticos, duas afiadas navalhas, e postam-nas sob os meus olhos. Elas estavam ali, bem diante das minhas retinas e não me tocavam, estacionadas, mas uma dor profunda, invasiva, adiantava-se, cortando-me e perfurando-me. Arregalava-me em desespero. Quando duas lágrimas incontroláveis encharcam as pálpebras, sabe-se lá de onde vêm, pois sentia-me ressecado, os brutamontes abaixam as lâminas em um gesto lento, e cortam as barras da calça e a mangas compridas do camisão. O macacão fora estropiado e restavam-me apenas retalhos do que deixava-me a descoberto o tronco e as pernas. Fazia frio. Sob o sussurro de um deles, apontam as armas para mim. Seria o fim. Mas um deles aproxima-se dos meus ouvidos e grita: quer livrar-se do inferno, ó resto? Vou te dar a última chance para safar-se, vagabundo, do calvário que tens pela frente. Diga-me tudo o que sabes sobre a Organização. Talvez fosse o único a falar a minha língua, os outros, pelos poucos murmúrios que pude ouvir, eram-me completamente incompreensíveis. Um soluço repentino deu-me um nó na laringe e não me saia palavra alguma. Esbocei mais algumas tentativas, mas estavam todas presas dentro de mim. O esforço para dizer algo, sem o conseguir, minava um suor salgado que queimava ainda mais as feridas da boca. Os dentes quebrados doíam intensamente e talvez fosse mesmo impossível me comunicar com as criaturas. O homem insiste: Não queres mesmo salvar a alma, amaldiçoado? Pois vais conhecer o nosso purgatório. Outro homem se aproxima, este não falava minha língua, mas trazia entre as mãos, algo que lhe dispensava qualquer argumento ou razão, uma enorme furadeira, já ligada a uma tomada. Com muito sacrifício, procuro encher os pulmões, tento levar forças dos braços e do abdômen para o peito, de modo a romper a mudez. Respiro fundo, junto as poucas forças todas de uma só vez, e com um som rouco e falho, anuncio, Não sei da Organização. Os homens se irritam, apanham um capuz negro e tampam-me a cabeça. A furadeira é ligada. Podes agora escolher, ou diga o que sabes, e não terá outra chance, ou poderá dizer, por onde quer que se inicie o trabalho de perfuração. Aqui há divisão entre nós. Alguns defendem que se inicie pela língua, pois acreditam que o órgão em pânico, ponha-se a dar com os dentes, e não há o que não diga. Outros defendem que a broca comece por perfurar o crânio, quem sabe o que a língua não diz, possamos encontrar em sinais por algum canto do cérebro? A broca se aproxima dos ouvidos, sobe pelas orelhas e quase encosta-se no parietal. Uma mecha de cabelo, por sob o capuz, arranca-se ante o contato brusco e violento da ferramenta. Um estado de torpor, por alguns instantes, faz-me acreditar que não sentiria qualquer dor. Vêem-me imagens, ilusões, a amortecer-me a carne, nuvens invadem meus olhos e vejo-me vazando por completo. Por um imenso buraco que levo no topo do crânio, começo a escorrer, pedaços de carne, sangue, vísceras, restos, vai tudo saindo por ali, em meio ao amálgama de matéria orgânica e um mundo de palavras e pensamentos. Mas não, a broca ainda não começou a perfurar. Antes, realiza um passeio pelo meu corpo, parte a parte, como a fazer um lento trabalho de reconhecimento, verificar em que território melhor convinha iniciar as suas operações, talvez num ponto onde houvesse um osso mais proeminente, talvez nos tendões, nas mucosas, nas carnes mais musculosas ou nas mais sensíveis. E insistiam que eu falasse - eu poderia escolher. Eu insistia, não sabia da Organização. Eles não acreditavam no que eu dizia, mas desligaram a furadeira. Um silêncio absoluto absorveu-me por poucos segundos, era um silêncio eterno. O som da ferramenta ligada porém, mantinha-se vivo na memória dos meus ouvidos, perfurando-me o que poderia carregar como alma ou espírito. O ruído infernal cortava-me por dentro, antes que minha pele, meu lado exterior, pusesse a triturar-se. Pouparam-me.



A cada negativa que dava diante do interrogatório a que me submetiam, as faces dos homens enrijeciam-se, tornavam-se mais duras e cruéis, mas parecia não quererem me eliminar de vez. Por duas noites, sou privado do sono. Assim que desligam a furadeira elétrica, retiram-me da sala. Imaginei que retornaria para a jaula, mas sou levado em outra direção. Atravesso, amarrado, dois longos corredores. Dois soldados seguem à minha frente, dois seguram-me pelo braço, e dois outros fazem a retaguarda. Sobre uma viga de concreto no final de um dos corredores, um atirador de elite aponta-me uma arma que parece carregar o poder de fogo de uma guarnição inteira. Bem ao lado, rente ao piso, uma portinhola é aberta por um dos homens. Fui empurrado em direção à ela. Não permitiram que entrasse, fizeram questão de me socarem lá dentro. Era um cubículo frio, e muito se assemelhava a um buraco. Estava escuro e não conseguia ver exatamente onde havia sido enfiado, era bem mais apertado que a jaula. Virei-me, ajeitei um pouco as pernas, empurrei o corpo com as mãos nas paredes úmidas e conquistei um pouco mais de espaço. Agora conseguiria respirar melhor. As costas estavam um pouco flexionadas, foi a forma encontrada para que pudesse esticar um pouco mais as pernas e livrar-me das câimbras que me atacavam. Estava trancado ali. Um calafrio percorreu-me o corpo inteiro e passei a suar por todos os poros que trazia comigo. Apesar do frio, sentia-me derreter. Perguntava-me por quanto tempo conseguiria sobreviver naquelas condições. Uma luz é acesa sobre minha cabeça, mas não tenho como ver de onde vem, de que tipo de lâmpada ou fonte de iluminação se trata, mas clareia o local, e vejo-me em uma cápsula branca. Depois, uma outra luz, agora sob os meus pés se acende, movo um pouco minhas pernas, e desta vez, consigo ver de onde vem o foco. Era uma lampadazinha que brilhava ao fundo. A luz sobre minha cabeça apaga-se. Depois, a dos pés. A de cima volta a acender-se, e permanece acesa. O tempo para. Nada mais acontece. O silêncio é total. O som da furadeira vai aos poucos, silenciando-se em minha mente. Não ouço coisa alguma. Nada vejo, além da parede branca, ante a qual me espremo. Ao esticar um dos braços, e empurrar-me pela cápsula, consigo enxergar-me todo até os pés. Um pouco abaixo dos meus joelhos, inicia-se a curvatura das paredes, afunilando o compartimento. Permaneço ali um longo tempo, sem saber se poderia medi-lo em minutos ou horas. Perdera sua noção. Estava exausto e esperava apenas ser esmagado a qualquer momento. Vencido pelo cansaço extremo, pelas já longas horas de privação de sono e pelo silêncio aterrador do local, sem que coisa alguma ocorra, adormeço.




Um enorme estrondo sobre minha cabeça acorda-me bruscamente. Depois outro, como a certificar-se que seria impossível que permanecesse dormindo. Não imagino quanto tempo dormi, poderia ter sido um dia ou um século, não havia como discernir, mas seja lá como for, o sono havia limpado um pouco os olhos. Apenas a lâmpada sobre minha cabeça mantinha-se acesa. Ao virar o rosto e destampar um pouco os ouvidos, ouço um ruído distante, que lentamente, muito lentamente, vinha aproximando-se. Um ruído seco, arrastado, duro. Ao levar os olhos aos pés, vejo um grande número de insetos percorrendo as paredes em minha direção. Eram muitos os tipos, as formas, cores e tamanhos, onde a ciência já catalogou mais de 800 mil espécies diferentes. Era uma multidão deles. Nunca vira tantos juntos. O fundo da cápsula estava repleto, vinham cada vez mais, eram tantos que a estrutura parecia mover-se. Não era ela quem se movia, mas os bichos. Vão ficando cada vez mais próximos. Os que vinham à frente aproximavam-se já da altura dos meus quadris. A pele arrepia-se inteira, a epiderme reivindica para si todas as defesas remotas do organismo, que inicia a desarranjar-se. Sempre tivera certa ojeriza por eles. Já se aproximavam mais do meu campo de visão. Poderia agora ver mais de perto a variedade que se apresentava, uns peludos, outros mais finos, insetos escuros, esverdeados, com longas antenas, garras, asas miúdas, esticadas, uns mais secos, outros úmidos, alguns pequenos, muitos enormes, conhecidos, e aqueles que jamais havia visto. Um deles chamou-me particularmente a atenção, um besouro enorme, que mal caberia na palma da mão. Quando ficou bem próximo de minha boca ferida travou seus passos ante o meu olhar de pavor. Ficou a fitar-me. Eram inúmeros e não paravam de chegar, provavelmente, representando todas as classes que povoam o planeta, entre ortópteros, nevrípteros, arquipteros, tisanurus, hemípeteros, dípteros, lepidópteros, coleópteros, himenópteros. A luz de baixo se acende novamente e a de cima se apaga. Deixo de enxergá-los com a mesma nitidez. Ao contrário, são agora suas sombras, que me vem aos olhos, e eles ampliam-se, tornam-se fantasmagóricos. Alguns adquirem formas gigantescas, com antenas que atravessam a cápsula inteira. Após ocuparem as paredes do compartimento, iniciam a peregrinação pelo meu corpo. Sobem pelas pernas desnudas. Sinto-os sobre meus pelos, escalando-os. Outros, impossibilitados de manterem-se agarrados à superfície branca, dada a disputa por território entre eles, caem ou saltam sobre minha barriga, peito e ombros. Sinto cada uma de suas patas, percorrendo cada ponto de meu corpo paralisado. Imaginava que mexer-me poderia ser pior, pois os artrópodes, ameaçados, atacar-me-iam de vez, de forma fulminante e definitiva. Mantinha-me completamente inerte, evitava piscar, retesava os músculos e prendia a respiração, mas não adiantou de todo, pois começavam a me picar. Por instantes, apagaram as luzes, apenas sentia o milhão de insetos movendo-se sobre meu corpo tomado, dominado, e meu espírito, se é que ainda possuía algum, certamente lutava para livrar-se de vez daquele cárcere impiedoso em que havia se tornado as minhas carnes. A repugnância tornou-se onipotente. Jamais havia tido tanta vontade de desaparecer, largar àqueles bichos o meu cadáver, todo o meu acervo de sangue, ossos, gorduras, nervos, músculos e peles. A liberdade absoluta, sem mosca alguma a subjugar-me. Quando a massa escura e movediça cobre-me por completo, a voz de meu intérprete entre os monstros ecoa por toda a estrutura. E agora desgraçado? Vai ou não colaborar?

O terror havia me invadido por dentro. Sentia que seria devorado antes mesmo que pudesse esboçar qualquer tipo de resposta. Se pudesse, arrancar-me-ia a própria pele para safar-me daquele manto vivo que arrastava-se sobre mim. A voz berrava, Vai nos falar sobre tua Organização? Mudaste de idéia ó morto vivo? Sem revelar o que sabes, sairá das pestes e irá direto aos abutres. Não há outra saída, verás como a humilhação e o escárnio podem ir além do que imaginavas possuir um limite.Fale-nos sobre tua maldita Organização. Na verdade, naquelas circunstâncias falaria qualquer coisa para que os carrascos pudessem me tirar daquela condição. As baratas iam a cobrir-me o rosto. Eu falo. Eu falo, grasnava minha voz, que já não possuía forças para saltar à garganta. Imediatamente, a luz de fora penetra pelo buraco. A portinhola se abre e por uma corda ainda atada à minha cintura, arrastam-me para fora. Dois funcionários com um vassourão cada um, varrem para dentro de meu casulo empesteado, os insetos que me impregnavam a pele. As cerdas duras da vassouras expulsavam os bichos e abriam mais as escoriações que trazia no tronco e nos braços. Sou retirado deitado. Para livrar-me totalmente dos insetos, arrancaram-me os trapos que ainda levava comigo. Ficara completamente nu. Levantam-me em um solavanco e atiram-me à parede. Só aí vou perceber que além de um pequeno grupo de soldados, havia ainda quatro cães enormes que arregalaram seus olhos ao me verem saindo daquele buraco. Os homens deixam-nos à solta, e eles vem ao meu encontro. Os cães posicionam-se circundando todo o meu corpo, mantendo entre um e outro a mesma distância, alinhados em forma de cruz, sou farejado por todos os lados. Sobre suas bocas gigantes que mantinham-se constantemente abertas, focinhos molhados, investigativos, é que me fazem agora a varredura. A carne que servira aos insetos servia agora aos cães. Não te demora a falar, esbraveja o homem. Os cães estão famintos, e verás como podem comportar como lobos, quando fores reduzido ao pó, ao virares ração. Outra vez, uma dor aguda percorre-me por dentro, como se célula por célula houvesse sido afetada, como se um sem número de lanças cortassem-me em pedaços, uma dor paralisante, não consigo mover-me. Tenho todos os músculos tesos, duro como uma estátua, não fosse pela parede que me amparava, já há muito teria ido ao chão. As palavras traiam-me, não me faziam o serviço, afugentavam-se, corriam em direção às profundezas do meu ser e recusavam-se a proporcionar-me defesa. Os cães impacientam-se. Não sabia mesmo da Organização. Não sabia. Mas como fazê-los crer? Ali não havia leis, não havia argumentos, direitos ou tribunais. Ali havia apenas a força bruta, em seu estágio mais selvagem, como outra contradição e ironia da história, quando imaginávamo-nos gozar de um mundo sem peias. Enlouquecia. Não sabia da Organização.

Fui levado dali. Ainda não foi desta vez que faria o banquete dos cães. Saio pelo mesmo corredor em que havia entrado. Porém ao invés de seguir pelo setor que me levaria à jaula, sou levado por uma escada estreita em caracol, em direção oposta, que me leva a um ambiente muito próximo dos laboratórios e salas de cirurgia. As paredes eram altas e brancas. Diante de mim, surgiram duas grandes portas, ao lado de um painel ligado a vários dispositivos eletrônicos. Sou levado por quatro policiais a uma delas. Espantei-me ao adentrar o local, não sabia que tipo de experiência nova me aguardava. Era uma sala ampla, com duas macas de metal, um enorme armário repleto ampolas, frascos de medicamentos e uma mesa larga com vários instrumentos cirúrgicos, tesouras, pinças, bisturis, agulhas e alicates. Ocupando uma parede inteira, e uma parte do teto, havia um equipamento enorme, completamente desconhecido para mim, cheio de botões luminosos, teclas e fios, como um computador gigante, ligado a uma estrutura de metal que mais parecia um misto de aparelhos de raios-x e sofisticadas máquinas de tomografia. Uma das macas encontrava-se exatamente abaixo desta grande peça tecnológica. Estava ligada a ela por um volumoso emaranhado de cabos e fios. Logo que acabo de entrar, surgem dois homens, cujos trajes indicavam serem profissionais da medicina. Usavam roupas brancas, jalecos, aventais, toucas, óculos de proteção e máscaras. Dois soldados agarram-me e levam-me em direção à maca. Minhas pernas enrijecem, ficam duras, e uma força superior parece colar-me ao chão. Mas não resisto aos empurrões e solavancos, e em questão de segundos, estou sobre a lisa placa de metal, amarrado pelos braços e pernas. Estava ligado àquele aparelho. Um dos especialistas aciona alguns botões, ajusta o monitor de vídeo, e em seguida, liga-me a uma máscara nasal, conectada por um longo tubo. Sobre minha cabeça é colocada uma estrutura de vidro que lembra uma poderosa e sofisticada máquina de scanner. Estão todos a me observar. Soldados e médicos. Com métodos distintos servem aos mesmos propósitos. O mais alto dos homens, o responsável pela operação, recebe do segundo homem, seu auxiliar, uma injeção já pronta para ser aplicada. Não fazia idéia do tipo de medicamento que seria injetado em mim. Os dois seguram os meus braços, enfiam-me a agulha, e o remédio vai sendo transferido, rapidamente, para o meu sangue e nervos. Sou tomado de uma fraqueza total, faltam-me forças sequer para mover os pés ou as mãos. Apesar de conseguir pensar e estar consciente, não consigo respirar, a substância aplicada havia paralisado os músculos responsáveis pela minha respiração. Finalmente entendia a finalidade daquela máscara maldita, servia para manter-me vivo por respiração artificial. O scanner sobre minha cabeça era colocado em funcionamento. Uma luz azulada projetava-se para fora, e aí tinha a certeza, queriam radiografar os meus pensamentos. O técnico fixava seus olhos na tela, nos gráficos do monitor, para ver se decifrava meus segredos mais recônditos, minha alma acuada, em algum canto de meu cérebro devastado. Respirava pelo mesmo aparelho que procurava decifrar-me por dentro. O soldado, mais uma vez aproxima dos meus ouvidos e berra, Como é trapo? Estamos esgotando as nossas paciências, apesar de não esgotarmos nossos recursos, verás o que faremos contra tua humanidade. Verás o que é deixar de ser, ainda sendo, morrer permanecendo vivo, conhecerás o inferno que nem o Diabo conseguiu inventar, mas ainda poderá se redimir, ó pária da terra, se desvendar os segredos da tua Organização. Diga infeliz, O que sabes da Organização? Apesar de imóvel, a boca estava livre e conseguia falar. Não sei da Organização. A luz do scanner moveu-se sobre minha testa, alguns segundos se passaram, e o aparelho que me permitia respirar, fora desligado. Não respirava, definitivamente não respirava. Sufoco absoluto. Não me movia, também não respirava. Os pulmões põem-se prontos a explodir, o cérebro é tomado de um zumbido cada vez mais forte e opressor, a furadeira parece ter sido outra vez acionada e agora, vou estourar. Um longo e doloroso zumbido. Sinto o manto da morte a apertar-me o pescoço, estou estrangulado. Não me adianta abrir a boca, que o ar não vem, não há como respirá-lo. Iria me arrebentar. Estava morto. Não. O oxigênio me é devolvido. A máquina outra vez é ligada. Não conhecia nada mais aterrador que a sufocação. Não acreditava, mas ainda estava vivo, e ao retornar à vida, percebo que sou atentamente observado por todos. Os soldados que ocupavam a sala e os dois médicos que executavam a operação olhavam-me atentamente, curiosamente, cada qual à sua maneira, o primeiros, possuíam um olhar feroz de satisfação, por verem sua presa ser abatida, os segundos, um ar de júbilo, ao constatarem o quão inventiva pode ser sua ciência, que pode levar o homem ao limite da morte, e trazê-lo de volta. O pânico ante a possibilidade da sufocação total é enlouquecedor. Um segundo pode ser fatal. Não sei como conseguiram calcular tão sistematicamente, cientificamente, os meus precários limites. O botão foi acionado na hora exata. Um milésimo de segundo a mais talvez fosse suficiente para deixar-me definitivamente no outro mundo, e ele postou-se diante de mim. Os instantes da sufocação, da falta de ar, são um mergulho na eternidade da inexistência. Toquei-a, e reencarnei. Não havia ali um espelho, onde pudesse fitar-me, mas tinha noção da cara que tinha. Meus olhos estavam traumatizados, esbugalhados e duros, tinha medo de fechá-los, mantinha-os bem abertos, estatelados, era o estado de pânico, levado a seu mais alto grau, cientificamente dosado. Os dedos das mãos pareciam não ter percebido que retornaram ao mundo. Estavam enrijecidos, apontados para o nada, sem cor. A propósito, encontrava-me inteiro exageradamente pálido, o sangue escondia-se não se sabe onde. Imaginei que nunca mais fosse levantar daquela placa fria. O médico chega à beira da maca, segura-me pelos tornozelos, e em seguida, leva a mão sobre meu peito, a conferir minhas batidas cardíacas e ajeita-me a máscara. Afasta-se e dá um sinal para o outro, como a confirmar que havia sido bem sucedida a operação, e quase consigo antever, pela forma como manuseiam o equipamento e os fios, que preparam-se para repetir o procedimento. Pensava que desta vez não resistiria. Outra vez, posicionam o scanner sobre minha cabeça, repetiriam a leitura do meu cérebro, utilizando um sofisticado detector de mentiras, que de novo, me vasculharia a alma por ressonância magnética. A lembrança da sufocação paralisava-me novamente. O suor escorria frio e em grande quantidade, a maca ensopava. Não pude me contar, urinava pelas pernas. Neste instante, vem o soldado. Sempre em meus ouvidos. É tua última chance, besta. Fale o que sabe sobre a Organização, se mentires, a ciência saberá, se a luz da mentira piscar sobre teu cérebro, a luz do oxigênio não mais te aliviará. A morte é o fim dos que ousam não colaborar. Pelo menos aqui, a morte é rápida, fulminante, não te derramará em sangue, pior seria se junto aos cães, às navalhas, aos choques ou esfolamentos. É quase o benefício da morte súbita. Vamos aos fatos. O que sabe da Organização? Não sei da Organização, respondia. A luz do scanner por duas vezes clareia o meu rosto. A lembrança do suplício da sufocação estrangulava-me por dentro. Não sei da Organização. Outra vez o scanner se acendia. Os homens, médicos e soldados, olham para a tela. Os dois médicos discutem em linguagem técnica. Os soldados, ignorantes, procuram adivinhar o que se revelam naqueles gráficos coloridos e nos códigos das falas dos homens da ciência. Não desligam minha máscara de ar. Dão-me um medicamento e adormeço.




Dormi uma eternidade, não sei exatamente por quanto tempo, mas me surpreende terem me permitido tanto. Quando abro de vez os olhos, vejo-me em outro cômodo, livre da sala de horrores, onde adormeci. Era um local mais arejado, movimentado, onde além de soldados, reuniam-se funcionários, burocratas, e possivelmente executivos do negócio, do empreendimento. Uma funcionária, fortemente armada, serve-me uma sopa artificial, que sorvo de uma só vez, dado meu estado famélico e põe dois pesados comprimidos em minha boca. Dois homens de gravata e um grupo de soldados discutem o meu destino. Não entendia. Não era em minha língua que falavam. Mas pude compreender quando um deles se referiu a mim como a um engano. Devolveram-me as roupas que haviam me tomado na entrada e os documentos que trazia no bolso. Colocaram-me em um veículo militar, retiraram-me daquelas instalações, e sem qualquer palavra ou explicação, abandonaram-me em um movimentado cruzamento de ruas. Quando dei por mim, vivo e inteiro, após salvar-me, imaginei registrar esta memória, para que dela não se esqueça. Em seguida, outro propósito apenas me move. Quero a Organização.




Marcos Vinícius.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O Labirinto




O Labirinto



O nome realmente fazia por merecer. O lotação estava tão cheio, que difícil era entender porque o motorista ainda parava nos pontos. Certamente são os ossos do ofício, não se sabe os problemas que o condutor pode ter caso passe direto pelas paradas deixando um sem número de furiosos a praguejar. São os rituais, obrigações da profissão que não podem ser esquecidas, ou quem sabe, ainda, movido por uma sensibilidade moral ou um compromisso ético, de pelo menos provar aos que esperam, que de fato, não cabia mais ninguém ali dentro. Passar pelo corredor do veículo era um sacrifício e um desconforto tal, que só se justificava pela necessidade absoluta de uma hora ter que descer. Sorte é que desta vez vinha sentado, uma senhora que sentava-se justamente próxima de onde se contorcia de pé, levantara-se, e ele sem perder um instante, põe-se, confortavelmente, em seu lugar. Assim ia por já bastante tempo. O ônibus havia praticamente atravessado a cidade, cortado ruas, avenidas e bairros. Ele não estava na janela, mas a observava o tempo todo. Distraía-lhe mais as cenas rápidas que ia vendo do lado de fora, do que com as conversas e os olhares dos que com ele viajava. Observava distraidamente, apreciando o cenário urbano que desfilava sob seus olhos. Os pensamentos moviam-se quase ao ritmo do ônibus e ao compasso de seus sacolejos e curvas. Olhava, olhava, mas seu pensamento, porém, não conseguia fixar-se em ponto algum. Ao cruzar a grande avenida, que corta o centro da cidade, lembra-se que se aproximava o momento da descida. Iria enfim, abandonar aquele carro, livrar-se daqueles corpos apertados, que espremiam-se entre resmungos e sussurros, afagos e empurrões, em um apertado coletivo, onde talvez, os estranhos certamente, nunca ficaram tão próximos.



Levanta-se e com uma das mãos agarra a alça de metal que descia do teto, com a outra, segurava o encosto do banco da frente, preparando o corpo para a difícil travessia. Assim que aprumou-se, fez soar a campainha. Entrar naquele corredor era realmente a parte mais desagradável da viagem. Era praticamente impossível não incomodar alguém, os olhos dos que encontravam-se de pé, arregalavam-se entre a ira de ver mais um a apertar-lhes o corpo, e a cobiça diante da oportunidade de poder, enfim, apropriar-se de um assento. A revolta intensificava-se quando além de levar mais um empurrão e aperto, via outro mais rápido e ágil, roubar-lhe o lugar. Era ato contínuo nestas viagens dos lotações. Finalmente, infiltra-se, estica um braço daqui, levanta outro sobre as cabeças, dá um passo, suspira, toma fôlego, pede licença, dá outro passo, empurra, aperta, ajeita, rebola, avança, recua, arrisca, e enquanto o suor dava sinais, de querer escorrer pela testa, a porta de saída vinha aproximando-se. O desconforto era maior quanto menor fosse o número de passageiros a descer na mesma parada. Quando são muitos os que descem, um fluxo natural de corpos e almas se instala, e os viajantes vão sendo levados, quase naturalmente até a rua. Mas quando são poucos, a luta pela saída é dura e estende-se até a porta, quando se é praticamente empurrado para fora, ou insultado com palavras e cotoveladas.



Depois de muito esforço, pois atravessara quase meio ônibus, depara-se com a porta que bruscamente abre à sua frente. O motorista ainda segurava o pé ao freio. A sensação de desgrudar-se, livrar-se daquele emaranhado de corpos que se contorcem sob o calor da tarde, proporciona-lhe uma invejável sensação de alívio. As pernas e os ombros, libertos, podem agora movimentarem-se em paz. A saída fora tão rápida, que seria de se perguntar, se havia dada um salto, pulando os degraus, para libertar-se definitivamente do povaréu, ou se ao contrário, fora a tripulação estressada que o havia enxotado de vez, para que o aperto se aliviasse, e para que o condutor pudesse iniciar logo a viagem interrompida. O fato é que chegara à calçada um pouco atordoado. Sente-se um pouco zonzo, talvez pelo calor excessivo ou o ruído das ruas, e lembra-se de levar a mão à carteira para conferir o dinheiro e os documentos. Ao puxá-la do bolso, pequenos papéis com anotações de telefones e endereços, que se deixavam à mostra, são apanhados por uma furiosa corrente de vento, e rapidamente se misturavam aos outros papéis e lixos que esvoaçavam por sobre as cabeças. Um redemoinho de folhas, pó e papelões, que despenteava os transeuntes, levava aquelas informações para sempre. O documento de identidade que levara consigo, talvez devido ao peso do plástico, resistira a ação violenta do vento, mas mergulhara-se ao chão. Para azar de seu dono, esborrachava-se em cheio a uma poça que se formara na descontinuidade dos blocos da calçada. Imediatamente, refaz-se do mal estar, agacha-se, apanha o documento, e esfrega-o nas pernas das calças, para tentar recuperá-lo da água suja que quase o desintegrara. O estrago, porém, não fora pequeno. A foto estava intacta, não fora nem tocada pela água. Já os dados do portador, a identificação, os números e registros, escorriam pela ponta plástica, sujando seus dedos com gotas que corriam escuras e velozes. Faz um olhar de desolação. Levanta o documento à altura dos olhos e para sua surpresa, apenas seu primeiro nome ficara registrado. João. O resto do documento, além da fotografia, era um grande borrão. Havia desaparecido todos os dados, sua naturalidade, sobrenome, estado civil ou idade. Nenhum sinal que pudesse traduzir-se em identidade o cidadão. Apenas o primeiro nome, João. Mesmo sabendo que o registro não mais teria valor ou utilidade, pois apenas com uma foto e um nome, sem qualquer carimbo ou sequer outra letra legível, melhor talvez fosse atirá-lo ao lixo, mas por prudência não o fez, pois constatara que aquele era o único que carregara consigo.



Mesmo lamentando a perda de tão importante documento que lhe acompanhava há vários anos, ainda conseguia dar-se por satisfeito, pois o dinheiro que trazia na carteira estava intocável, três notas gordas, que poderiam proporcionar-lhe um dia inteiro sem muitas privações. Põe-se, então, a andar, e ao contrário do que fazia, quando estava dentro do ônibus, olhando para os lados, as lojas e vitrines, volta-se agora, obstinadamente para frente. E vai, quase silenciosamente, murmurando seu nome. João, João. Inexplicavelmente, uma força brusca, que parece desprender de seus músculos e nervos, trava seus passos. Mantem-se inerte no meio da calçada, com as pernas duras. Um pensamento repentino deixa-o totalmente paralisado. João. Mas João de que? Sabia da infinidade de Joões que tem por aí, um universo inteiro, mas que estrela seria a sua? João da Silva, João de Deus, João Aparecido, João das Almas, João Costa, João Penido, João da Cruz, João Alberto, João das Luzes, João das Trevas. Que João seria, afinal? Nenhuma resposta lhe vinda à mente. Um nada. Um buraco negro. Os borrões de sua prejudicada identidade. Forçava-se, procurava concentrar-se, evitava os olhares dos que por ele passavam, necessitava desesperadamente encontrar-se. Era simplesmente, unicamente João. Procura descontrair-se, sabe que não é o primeiro nem será o último a ter lapsos de memória, mas o incomodava profundamente a dimensão do esquecimento. Escapar-lhe o próprio nome. Arrancou o documento do bolso, em desespero, como se para confirmar que aquilo era mesmo real. Uma foto e um nome apenas. Um resto de tinta havia se acumulado no canto inferior do documento, quando as últimas gotas da água suja escorreram pelos panos do bolso. Quantas letras, números, guardariam aquela pequena porção? Quanto de João levará guardado aquela ponta úmida de papel e plástico? Mete novamente o documento na carteira, enfia-a no bolso e resolve seguir seu caminho. Uma hora lembraria.



Anda alguns metros, e em uma loja grande e espaçosa e com pouco movimento, depara-se com um grande espelho, uma parede inteira. Caminha apressadamente em sua direção. Posiciona-se diante dele, quer ver-se por inteiro. Seus olhos percorrem sua imagem refletida dos pés à cabeça, a imagem inteira, cada milímetro, as mãos, as roupas, o sapato, os cabelos, o rosto, tudo, muito rapidamente, procurando dimensionar-se, ir ao encontro de si. Não deixa escapar qualquer detalhe, sequer uma pequena mancha que levava próxima ao botão superior da camisa. Realizava um verdadeiro trabalho de reconhecimento. Leva as mãos ao rosto, tateia a boca, o nariz, as sobrancelhas, e os dedos percorrem lentamente os sulcos e pequenas fendas que iam se abrindo por sob a pequena bolsa que carregava seus olhos. Que idade teria? Outra vez vinha-lhe a mente a sombra da identidade. Que idade teria? Ainda não iria desesperar-se fatalmente, pois a observar bem, era algo que girava em torno dos cinqüenta anos. Não muito mais ou não muito menos. Mas a idade precisa, apesar dos esforços, não lhe vinha à lembrança. Os olhos buscavam na imagem um sinal, um dado qualquer, que pudesse transmitir-lhe qualquer informação a respeito de si mesmo. Não encontrava. Vestia-se sem grandes distinções, mas também não era um maltrapido, era um sujeito comum, que poderia ser encontrado em qualquer ambiente. Não havia um traço que o destacasse ou distinguisse, talvez pudesse mesmo ser um cidadão qualquer de qualquer grande centro do mundo. Cabelos bem penteados, a barba feita, estatura mediana, e peso aparentemente correspondente à altura. Mira seus olhos nos olhos da imagem, procura por dentro, investiga, mergulha, interroga e outra vez sem resposta. Volta à rua.



João retoma a caminhada. Anda por dois quarteirões, atravessando duas ruas estreitas, e chega a um grande cruzamento. Ali uma grande multidão se deslocava. Um ir e vir sem fim, entre um turbilhão de veículos e uma extensa rede de semáforos. Quando aproxima-se da esquina, da beira da calçada, onde a rua corta-se por todos os lados, retém-se, observa os letreiros que há no entorno, as placas, lê-as todas, reflete, observa os números dos ônibus e os caminhos que tomam, mas decididamente, não sabe para onde deslocar-se. O que exatamente faz ele ali naquele local, aquele horário, no meio daquele grande centro, entre milhares de pessoas que certamente sabem para onde vão? Observa atentamente vários dos que por eles passam, e tem a breve sensação que estão todos programados, com uma rota certa, um traçado pré-definido, caminham todos com passos firmes, parece que além dele próprio, ninguém ali tem dúvidas sobre o roteiro a seguir, o rumo a tomar, mesmo por que, a maioria tem pressa. Encosta-se em um poste e vê uma cena que chama sua atenção. De uma porta estreita, em cujas laterais havia duas placas divulgando preços promocionais de sucos e salgados, sai um homem completamente embriagado. Assim que transpõe a porta do pequeno e estreito bar, leva a mão aos olhos, o interior pouco iluminado do local, onde provavelmente permaneceu por um bom tempo, fez com que se desacostumasse com o excesso de luz. O rosto e a boca estavam um pouco inchados, a camisa desfeita, as pernas pareciam querer dar rasteira uma na outra, por pouco, uma ligeira cambaleada e um tropeço, quase o levam ao chão. O homem escora-se, leva as mãos na parede, e prossegue seu caminho. Seu andar era trôpego, mas sabia para onde ia, onde deveria chegar. João ficou a observá-lo até que desaparecesse de seu campo de visão. Aquela cena deixou-o ainda mais atordoado. Para onde iria ele?



Diante mais uma vez da falta de alternativas ou respostas, resolve sentar-se em uma lanchonete para tomar fôlego, e quem sabe, recobrar suas energias, livrar-se do mal estar, aí sim, lembraria novamente, não apenas para onde ir, mas também o seu nome, e quem de fato era. Senta-se, pede um café, um pão quente, e põe-se a comer. Ao pegar a xícara, detém atentamente os olhos sobre suas mãos, quem sabe ali não estaria um vestígio qualquer de sua identidade perdida. Um calo nos dedos, uma marca ou cicatriz, uma pequena mancha, sinais de algum ofício, algum trabalho, mas as mãos não lhe aliviavam a angústia, apressavam-se apenas em levar o café à boca. Sentia fome, a visão das guloseimas que se expunham nas vitrines dos balcões, abria-lhe o apetite, conhecia bem cada um daqueles salgados e doces, não tinha dúvidas quanto a interpretar o cardápio, ler as informações, placas ou letreiros que encontrava diante de si. Mas quanto à pessoa que era, nada ainda, nem um sinal, uma informação, uma pista ou indício. Não iria mais tentar prosseguir, desconhecia o destino, resolve, então, voltar para o ponto de origem, fazer o caminho de volta, retornar ao local de onde viera. Quem sabe assim, seu drama pudesse ser resolvido. Engole a última lasca de pão apressadamente, corre até o caixa para pagar o que deve, e saí com passos largos em direção ao ponto em que descera, que não estava muito distante dali. Em poucos minutos, encontrava-se exatamente naquele local onde desembarcara, a poça ainda estava lá, do mesmo jeito, ocupando o mesmo espaço e com a mesma quantidade de água. Agacha-se sobre ela, e consegue ver o vulto de seu rosto sobre o líquido amarelo, como a desafiá-lo. Um vento que se arrastava rente ao chão desenha ligeiras ondas naquela pequena poça que se alarga, sua imagem refletida amplia-se e parece rir da imagem real. João levanta-se de uma vez. Uma dor súbita atravessa-lhe o peito. Não sabia para onde voltar.



Estranha sensação. Sem saber o que é ou que fora. De onde veio e que rumo deverá tomar. Como faria agora para recuperar a si próprio? É comum que ao longo da vida percamos uma coisa ou outra, ou várias delas. Afinal, não temos como nos agarrar a tudo a que um dia possuímos. Sempre nos lembraremos de um inconveniente de uma chave perdida, um dinheiro qualquer, um amor, um guarda-chuvas, mas perdermos o que somos, é algo que talvez não ocorra lá com muita freqüência. Estava ali de pé, outra vez sem ter como locomover-se. O que faria a partir dali? Talvez nunca mais voltasse a ser quem era. Não recordava-se de um parente, amigo, um endereço, trabalho, onde mora, nada. Se a cidade fosse pequena, talvez, quem sabe, fosse encontrado por algum conhecido, aí lhe pediria ajuda, e este o levaria para casa, junto aos seus, se é que os tinha. E tudo voltaria ao normal. Mas em uma metrópole deste porte, as possibilidades eram mínimas. Quem sabe fosse alguém famoso ou popular, e em questão de horas, fosse logo identificado por algum fã ou simpatizante qualquer. Mas não parecia ser simples assim. O tempo passava, ele não encontrava ninguém, nem era encontrado, não achava um elo qualquer que o ligasse a sua história pessoal.



Compreendia o mundo que via, mas não sabia que vínculo agora possuía com ele. Nada havia mudado na história da humanidade, apenas na sua própria. Da primeira ainda entendia bem, mas da outra, já coisa alguma. As coisas ao redor, lhe faziam sentido, não era um alienado total. Podia andar pela cidade, entendia o que via, tinha a plena noção de como se organiza esta civilização, da qual tem plena consciência fazer parte, apenas não sabe como. Era estranho e desconhecido apenas de sim mesmo. Não havia muito o que fazer. Vai então perambular pela cidade, a esmo, quem a sabe a sorte, possa lhe restaurar a existência. Leva outra vez a mão ao bolso, retira a carteira, certifica-se que o dinheiro que levava poderia cobrir-lhe as necessidades por no máximo uns dois dias, e arranca, violentamente, o documento manchado. Lá estava novamente, uma foto, era a sua, não havia como negar. O espelho que mirara há pouco, acabava por confirmar. E um nome apenas. Agarra-se ao documento, como o doente em seus suspiros últimos quer agarrar-se à vida, com as forças e esperanças que ainda restam. Segura-o firmemente, observa-o, posiciona-o contra a luz, em perspectivas diferentes, mas a água escura havia feito a limpeza completa.Mesmo assim, não jogaria aquele documento fora por nada, era o fio fino que talvez pudesse conectá-lo ao mundo.



Era incrível, mal podia acreditar no que lhe acontecera. Vai andando pelas ruas, olhando para os outros homens e mulheres que cruzavam seu caminho. Esforçava-se por olhá-los um a um, mesmo sabendo da impossibilidade da ação, pois eram inúmeras as pessoas que povoavam aquele hipercentro, porém, era uma forma de manter viva a esperança de que em algum daqueles olhares, daqueles tipos, alguém que lhe fosse próximo, aparecesse em uma esquina, trazendo-lhe a solução. Não tinha dúvidas, que se casso se deparasse com alguém bem conhecido, do seu dia a dia, não lhe iria passar despercebido. Ele mesmo, pensa, o reconheceria de imediato. Afinal, o mundo e a cidade não lhe pareciam tão estranhos. Naquela parte mesmo da cidade em que se encontrava, sabia que já havia passado por ali, incontáveis vezes. O cenário à volta eram-lhe familiares, o que lhe infernizava mais a cada instante, era não saber como se encaixar nele. Que peça seria em meio a este gigantesco quebra-cabeça que tem diante de si? Teria sido a memória que fatalmente falhara ou o seu passado recente, a sua história toda que resolvera escapar-lhe de vez? Seria, pois, um renascimento, a vinda de outro super-homem, um milagre qualquer, ou o simples prenúncio de uma fatalidade, a morte anunciada, a eliminação completa e definitiva? A cidade cheia, movimentada, dinâmica, com suas várias multidões, gestos e apelos, naquele momento, não lhe faziam qualquer sentido. O mundo é real, palpável, vê todas suas cores e formas, mas que significado ele teria dentro dele? Em que medida seria ele parte integrante? As dúvidas se acumulavam. Talvez fosse um simples fantasma, proveniente de gerações passadas, e que aqui acabara de chegar, um extra-terrestre programado para o esquecimento, ou quem sabe ainda, um destes avatares modernos, criados pelos jovens em seus computadores possantes, e agora possíveis de serem soltos por aí? A cabeça já lhe pesava. Abatido por um forte mal estar e um tremor frio que lhe atravessa o corpo, resolve interromper a caminhada, e procurar um local onde pudesse sentar-se um pouco. Atravessa duas avenidas, com os olhos sempre atentos à multidão, e por fim, encontra uma pequena praça, com alguns poucos bancos, cercada por algumas árvores antigas e frondosas, que lhe renderiam uma boa sombra. Seria ali, onde descansaria um pouco, e recuperaria forças para retornar à vida normal.
Havia encontrado um banco em um ponto mais afastado da rua, debaixo de uma grande árvore, e considerava-se com relativa sorte, pois ali poderia refletir um pouco sobre sua nova condição sem que fosse incomodado. Senta-se, estica as pernas, e inclina a cabeça para o alto, observando os longos e sinuosos galhos que sacodem ao vento, o universo de folhas, os pássaros que vão e vem, o movimento da vida. Um tímido vento sopra-lhe ao pescoço e parece aliviar um pouco suas dores. Observa o céu por sobre as árvores. A noite não tardaria a chegar. Uma fresta de luz ilumina seus ombros. Os músculos descontraem-se e seus olhos se fecham.



Acorda repentinamente, assustado. Um solavanco brusco em seus pés, quase lhe arranca do banco. Ao abrir completamente os olhos, vê dois jovens garotos correndo em disparada. Levaram-lhe os sapatos. Era noite alta. Dormira demais e o sono pesado não lhe permitiu perceber a chegada dos garotos. Além de não haver recuperado o que de mais importante havia perdido, ainda perdera os sapatos. Leva a mão ao bolso, outro susto, a carteira havia sido roubada, estava sem dinheiro algum. Apenas o documento estropiado ainda se encontrava com ele, pois estava no bolso inacessível aos ladrões. Agora nem o pouco dinheiro que poderia ainda lhe garantir uma ou outra refeição, a sobrevivência por quem sabe um ou dois dias, tinha mais. Mais que o não-cidadão, os ser que não é, era agora também um despossuído. Um vento frio cortava-lhe os pés descalços e um calafrio agudo fazia tremer seu corpo inteiro. Inclina-se sob o banco, corre os olhos ao chão, para verificar se pelo menos uma nota, não deixaram os garotos para trás, diante fuga apressada. Inútil, nada mais conseguira localizar, além de papéis de bala, uma tampinha de refrigerante e dois tocos de cigarros.



Ao levantar a cabeça, desconsolado, vê dois policiais vindo em sua direção, eram enormes, tinham a farda bem passada, os braços de ferro, uma boina que quase tampava um dos olhos, escondendo um olhar duro, e tinham os dois, o rosto largo, quadrado. A rua estava deserta, os outros bancos estavam todos desocupados. Apenas ele e os dois policiais pareciam povoar a inquietante madrugada. Os policiais aproximam-se e ordena que fique de pé. João se levanta, leva as mãos ao pescoço, enquanto um dos homens faz a revista. A única coisa que encontram é o documento. O policial puxa-o de uma vez, arrancando-o violentamente do bolso. Levanta-o para o alto e chama seu companheiro para ver mais de perto. Não havia nada escrito ali, apenas a foto do homem. Com os olhos fulminantes, impetuosos, e uma voz metálica e rouca indaga a seu dono. O que é isto? Ele não responde. O policial lhe devolve o que sobrara do úmido documento. Mas o que é isto? Pega rapidamente o documento de volta, como que se este fosse sua única tábua de salvação, seus olhos se esbugalham e o coração aperta, quando percebe que a umidade do papel havia se alastrado por todo o documento, e já nem mais um nome restava. Um outro borrão se formara entre o plástico molhado e o papel, era o pouco que havia restado de si. Até a fotografia já apresentava sinais de esmorecimento, uma pedaço rasgara e começa a deslocar-se do lugar. Novamente, um estrondo invade seus ouvidos. O que é isto? Quem é afinal? Esbravejava o gigante de fardas e botas. O pobre homem não conseguia balbuciar palavra alguma, pois elas não lhe vinham à mente. Qual o seu nome? Insistem as policias. Já não mais o sabia. Não se recordava de nome algum que pudesse dar como resposta. Os policiais não perdem mais tempo. Algemam o homem e atiram-no ao carro. O motorista arranca apressado. No meio do caminho, tem suas pernas amarradas. O veículo segue rumo à saída da cidade. Atravessam os bairros periféricos, acessam a grande rodovia, e deslocam-se em direção às montanhas. Quando a madrugada ensaiava findar-se, estacionam à beira de um precipício, e antes que nele chegassem, uma grande fenda sem fim incrustada ao chão, lhes abreviava a missão. Era um grande fosso de pedras de bocas largas e goelas escuras e profundas. Perguntam ao homem, mais uma vez, se este não lhes diria o nome. O silêncio era completo. É empurrado ao fundo.



Marcos Vinícius.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Descaminhos



Descaminhos



Depois que aposentara, adquirira o hábito de fazer umas caminhadas pela redondeza, pelas vizinhanças. Geralmente, levanta-se mais cedo que a mulher, que nem sempre se dispõe a acompanhá-lo por estas andanças. Mas não abandona o conforto e o calor da casa sem antes observá-la por umas duas longas vezes. Antes de levantar-se, quando as primeiras luzes da manhã invadem a escuridão do quarto, aprecia o amanhecer em seus lábios dormentes e em seus olhos fechados. As rugas incipientes que afloravam em seu rosto tornava-a mais próxima, mais cúmplice, sinais dos tempos, que por estas vidas, trilharam. Era bela e a admirava. Levanta-se vai até o banheiro e a cozinha e volta, outra vez ao pé da cama, para apreciar a mulher, que já acordava. Esperava-a despertar e lhe dizia algumas palavras otimistas. Estava satisfeito por estar ali, e principalmente agora, que com a aposentadoria, não precisava mais prender-se sistematicamente aos horários e à escravidão dos relógios. O que não quer dizer que já não tivesse uma rotina, pois às vezes, acabava por fazer as mesmas coisas nos mesmos momentos, em função dos costumes e dos hábitos que se ia adquirindo. Mas se tinha algo de que se gabava, era de não mais carregar as horas no punho, coisa que parece ter feito uma vida inteira. Sem tirar os olhos da mulher, afasta-se e vai à janela ver como anda o tempo.


Nada havia naquela manhã que pudesse ser muito diferente das outras. Levantou-se, preparou o lanche, duas fatias de pão e o resto do suco que havia sobrado da refeição de ontem; lavou o rosto, escovou os dentes e mirou-se no espelho. Já não era mais o jovem que há muito não encontrava em sua imagem refletida, mas via-se não como um homem velho, mas alguém que tivera a oportunidade de aprender muito com a vida. Considerava-se um sujeito experiente e que ao longo dos anos pudera acumular algumas sabedorias. Deixa a mulher na cama, pois esta ao acordar, queixa-se de um incômodo mal estar, e resolve dormir mais um pouco, para ver se o sono da manhã, possa quem sabe, revigorar-lhe, proporcionar mais ânimos. Ele aproxima-se para despedir-se e pousa-lhe na testa um beijo quente e afetuoso. Ela parece reconfortar-se. Após vestir-se confortavelmente para a caminhada matinal, rotineira, apaga as luzes e sai para a rua. Lá fora, o dia já estava bem claro.


As primeiras almas com as quais encontra são seus antigos vizinhos. A senhora do lado, que acordava bem antes das manhãs, ajeitava um pouco a casa, enquanto esta não havia recebido ainda, a luz do dia, e logo em seguida, apressadamente, corria para regar as flores e plantas, que sempre cultivara em seu extenso jardim. Eram muitas as espécimes, as mais variadas formas e tipos, cores conhecidas e inimagináveis, uma infinita biodiversidade, cultivada com extremo rigor e uma disciplina religiosa. Não havia dia, qualquer que seja, de feriados ou festas, que a impedisse de cuidar de sua vasta flora. Seus olhos brilhavam. Ele olhava-a com grande delicadeza, admirava-a pelo seu trabalho com mudas e folhas. A felicidade com que a mulher dedicava-se ao ofício fazia, com que no fundo, aquela manhã, parecesse ser mais alegre. Ele enchia os pulmões, e quase de uma vez, inalava todos os aromas que suas narinas conseguiam captar. Aproxima-se da mulher, e deseja-lhe que tenha um bom dia. É um vizinho generoso. A senhora responde-lhe entusiasmada, com um frenético aceno com as mãos. Não são poucas as manhãs, em que esta rotina se repete. Mal retoma seus passos e encontra-se com um outro vizinho, outro antigo companheiro das primeiras horas do dias, geralmente, é apenas neste horário que se encontram, pois anos e anos de trabalho, seja de um ou de outro, acabaram por afastá-los definitivamente em outros momentos do dia. Agora, com a aposentadoria, é que passa a encontrá-lo mais vezes, parando mesmo, em algumas ocasiões, para conversarem um pouco. A conversa, na maioria das vezes, não se estendia muito, mas os cumprimentos e as trocas de gentilezas eram freqüentes. Falavam amenidades, discutiam problemas da vizinha, o buraco da rua, a lâmpada do poste que não parava de piscar, fazendo vultos na noite, e os movimentos dos carros, que eram às vezes, violentos e velozes. O que muito motiva as conversas, provavelmente, é o fato de quase sempre estarem de acordo, comungarem muitas crenças e princípios, raramente apresentam divergências, e o desfecho de seus breves diálogos era sempre acompanhado de sorrisos e apertos de mão. Apesar desta proximidade, não era sempre que se punham a revelar suas intimidades ou coisas da vida privada. A proximidade territorial que a vizinha lhes impunha, aconselhava certa distância no que diz respeito a suas vidas pessoais. Nos últimos meses, é que tem tido mais tempo para dedicar-se as conversas, e pelo que se recorda, apesar de tantos anos, tendo-o como vizinho, não se lembra de ocasião em que puderam trocar idéias e informações com tanta freqüência. Mas se havia algo que os aproximava mais, portando-se quase como duas crianças, eram quando o cachorro do colega, vinha ao encontro dos dois. Era um animal extremamente amável, tinha um jeito dócil e seus olhos despertavam compaixão. Assim que se reunia aos homens, sentava-se entre eles, como se quisesse se inteirar também do que há um bom tempo debatiam. Imediatamente os vizinhos corriam-lhe as mãos por entre os pelos. O cão fazia-lhes as graças e parecia declarar-se amigo. Após tantos encontros afáveis, o cão certamente possuía alguma consideração pelo vizinho. Era o que mostrava sempre, nunca o importunava ou rosnava ameaçador. Agora, que possuía mais tempo, queria aproveitar melhor os momentos, cansou-se de tanto correr, da casa ao trabalho, do trabalho a casa, uma vida inteira. Sentia, que de certa forma, abria outro olhar para o mundo. Percebia que nunca possuíra tanta tranqüilidade, para deitar um olhar mais prolongado sobre as coisas e as pessoas. Por isso talvez, tenha resolvida caminhar pelas manhãs. Queria aproveitar melhor os dias, todos que ainda teria pela frente. Com mais tempo para si, e sem as amarras do trabalho e dos horários, podia apreciar mais detidamente a bela mulher que o acompanhou por anos e anos a fio, a vizinhança, com a qual sempre se dera muito bem, as flores da casa ao lado, e aquele cão generoso, que parecia querer lhe fazer a guarda.


O que fazia diariamente, já há mais de três semanas, de forma fiel e assídua, antes de pegar o embalo da caminhada, era visitar o amigo de muitos anos que encontrava-se gravemente doente. Fazia questão de estar a casa, que ficava a poucas quadras da sua, onde conversava com a irmã do enfermo, inteirando-se detalhadamente da evolução do quadro clínico e das mazelas da doença. Mas não contentava-se com isto apenas, e queria sempre ajudar. Falava com o homem, alguns poucos anos mais velhos que ele, relembrava os bons momentos que viveram juntos, afinal se conheciam desde a juventude, e muitas histórias tinham para trocar. Mas o homem não se mexia, não esboçava qualquer reação. Seus olhos pareciam boiar pelas órbitas e mirar para um ponto onde seus interlocutores não podiam enxergar, quase não piscava. Não podemos saber se entendia o que estava a se passar. Não havia como avaliar o seu grau de consciência. Estava inerte. Apenas o olhos, fixos, luminosos, pareciam demonstrar algum sinal de vida. O suor escorria-lhe pela face, ensopando seus poros, transformando suas rugas em longas correntezas de água salgada. O homem parecia transbordar ou afogar-se em si mesmo. Por mais que lhe trocassem as roupas, estava sempre encharcada, a febre talvez lhe queimasse os ossos, brasas acessas, que deixavam aquele corpo em chamas. Generoso que era, o velho amigo, cuidadosamente, molhava o lenço na água morna, que havia colocado na mesa ao lado, e limpava seu rosto, como a aliviar-lhe o sofrimento, e assim o fazia com grande emoção, pois era com profunda tristeza que via o antigo companheiro definhar. A irmã, que cuidava daquela pobre alma, sentia-se agradecida com a iniciativa do amigo, e sempre por um bom tempo, deixavam-nos a sós, pois tinha a sensação que o irmão sempre melhorava um pouco após a visita cordial e diária. Cada vez que vai à casa do amigo encontra-o pior, e pelos vistos, nem a bondade alheia nem o rigor da medicina terão como salvar aquela pobre e miserável alma. Mas como já sente o sol esquentar um pouco, percebendo quão alta vai a manhã, resolve então despedir-se da casa e ir, finalmente, à caminhada. Leva outra vez o pano molhado sobre a testa do homem, apalpa-lhe os cabelos, deposita algumas palavras breves em seus ouvidos, e sai do quarto. Já à porta, despede-se da mulher, que amavelmente lhe agradeceu pela dedicação e cuidados. Abraça-a e diz que no dia seguinte estará de volta.


Após alguns minutos de caminhada a passos largos, quando o corpo começa a aquecer-se, a face corar-se, e as pernas tornarem-se mais leves, distanciava-se já algumas quadras de sua vizinhança mais próxima. Atravessa ruas, cruzamentos, anda pelo meio dos carros, até chegar a uma região, onde a estabilidade das calçadas e as árvores frondosas, pareciam proporcionar melhores condições para se realizar um exercício aeróbico, desenvolvendo as musculaturas, e a capacidade dos pulmões. Além do que, era um local mais tranqüilo, com uma quantidade quase rarefeita de veículos e pedestres, onde podia se dar ao luxo de exercitar também os braços, levantando e flexionando-os sem chamar muita atenção. Ali revigorava seu ritmo, e entregava-se aos pensamentos. Era uma boa ocasião onde refletia sobre a vida, a passada, a presente, e as que pretendia almejar. Era um homem de sonhos. Na medida, em que o sangue acelera-se em suas veias, as batidas do coração punham-se ao compasso dos pés e pernas e renovava o ar dentro de si, desenvolvia projetos, tinha idéias, traçava metas. Acreditava mesmo já ter tomado grandes decisões durante estas andanças matutinas, e possuir sabedoria.


Ao entrar pela chamada alameda das flores, uma rua estreita, onde os moradores, fazem questão de deixar as casas sempre pintadas, e a calçada bem florida, vê uma criatura muito bem agasalhada encostada sob uma árvore, que parece não se afligir muito com o calor que já àquela hora fazia. O sujeito, com roupas escuras, confundia-se com os troncos das árvores, que muito próximas ficavam umas das outras. Naquele momento, era o único com quem teria que dividir aquela rua. Sem que percebesse, reduz ligeiramente o ritmo de seus passos para observar melhor aquela figura, que fica a cada passo, mais próxima. Difícil ver seu rosto, pois usava blusas cumpridas e gola alta, que tampava-lhe os braços, o pescoço e quase toda a cabeça. O chapéu de abas largas escondia o pouco que a blusa deixava destampado. As mãos estavam enfiadas nos bolsos e as pernas protegidas com botas de cano longo. Ao aproximar-se do que provavelmente era um homem, este se mexe, e da alguns passos ligeiros em sua direção. Tem os passos curtos e muito rápidos, suas pernas eram pequenas. Um encontro parece ser inevitável. Aproximam-se, curiosos, e postam-se, frente a frente. Como vinha já de uma longa caminhada, ao parar, parece corar-se ainda mais, o suor começa a correr pela testa e cai em seus olhos. Leva a blusa ao rosto, secando-o, possibilitando ver melhor o que tinha diante de si. O homenzinho parece evitar um olhar direto, esquiva-se, e não se deixa ver, de todo. Vira-se de lado e faz as saudações. Olá, és um homem forte e vê-se logo, que sábio também. Nestas idades, não é todo mundo que se põe a caminhar desta forma. Vê-se que preocupas contigo, e pelos vistos, investes de fato, em uma vida longa. Sim, como agora tenho tempo pelas manhãs, não perco a oportunidade de fazer o que faço. Faz-me bem. Estava a observar-te, desde que despontaste ofegante, daquela esquina lá embaixo. Aprecio a ti, não apenas pela tua disposição, mas pela vitalidade que parece carregar, além do mais, percebo que és um homem generoso, é amigo dos animais e cuida dos doentes. Ditas estas palavras, calam-se. Um silêncio aterrador prostra-se entre eles. As pernas, que vinham aquecidas pela caminhada, gelam-se e ficam endurecidas. Mas que diabos, como podes saber algo a meu respeito se tenho a certeza de nunca tê-lo visto pela frente? Quem és, afinal e o que queres? Como sabe do meu afeto pelos animais e que tenho um grande amigo doente do qual faço questão de dedicar cuidados? O homenzinho dá um giro em volta da árvore, observa-o de cima em baixo, em seguida, aproxima-se, afasta-se, e por fim, baixa a cabeça. Sim, eu te conheço, mesmo que tu não conheças a mim. Pode ser a vida assim, às vezes. Muitas das vezes, conhecemos alguém uma vida inteira, sem que ela sequer perceba nossa presença ou mesmo nossa existência. Não é assim com os famosos e seus fãs? Com as paixões platônicas? Não é lá com o que deva se preocupar. Na verdade, conheço-te profundamente, e por conhecer-te, é que resolvi então, vir ao seu encontro. Eu estava lhe aguardando. Mas o que queres afinal? Quem és? Indagava seu interlocutor com a voz trêmula. Estava visivelmente apavorado. O suor na camisa começava a esfriar e um calafrio percorria seu corpo dos pés a cabeça. Vamos então, direto ao assunto, pois na realidade também não tenho muito tempo a perder. Você não será a única visita que farei por hoje, apesar de ser um contato bem aguardado. Na verdade, venho fazer-lhe uma oferta. Uma grande oferta, e peço-lhe que não a recuse de imediato, sem antes ponderar, pensar duas vezes, pois a boas oportunidades não nos batem à porta por muitas vezes. O que pretendo de ti? Ah, é simples. Quero sua alma, sim, comprá-la com uma oferta generosa e praticamente irresistível. Preciso muito de almas como esta que aí carregas e posso lhe oferecer muito. Ora, deixe de bobagens, estás a divertir-se às minhas custas. Sabe muito bem que não é tudo que podemos comprar, ou encontrarmos a venda. Não me amoles mais, irei prosseguir meu caminho. Calma homem, ainda não disse tudo. Vou comprar-lhe a alma. A ti não faltará riqueza ou poder, dinheiro não é coisa da qual terá que se queixar, poderá viver de viagens, benefícios, privilégios, posses e muitos bens materiais. Você será bajulado e não haverá portas de oportunidades que não se abrirão para você. Não é algo de que devemos nos furtar, sem ao menos pensar duas vezes. Sabes aquele velho sonho que sempre acalentaste e que jamais pode se realizar, pois nunca as finanças permitiram tanto? Talvez tenha chegado a hora. Dar-te-ei um tempo para que dialogues consigo próprio, não precisa resolver de imediato. Dialogue lá com teus botões, seu eu interior, seu coração, invoque sua consciência, amanhã saberei. Dizia com o dedo em riste, e aparentemente sem tocar com os pés o chão, movia-se rapidamente, parecia inquietar-se. Amanhã, quando acordares, encontrará sobre a mesa do quarto, uma grande barra de ouro, é o meu sinal. E será tua, para experimentar a minha oferta, e para ver como não estou de brincadeiras. Aí, aguardarei sua contrapartida. Mas por hoje, não tomarei mais seu tempo, daqui estou de saída. Tem algo que gostaria de dizer, adiantar-me? O homem estivera completamente enrijecido enquanto ouvia. Não lhe ocorria ter que responder qualquer coisa agora. Os músculos da face, com o suor já seco, estavam paralisados. Não imaginava como poderia pronunciar qualquer palavra, além do mais, o ar parecia não querer lhe sair dos pulmões. Não respondeu. Vejo que estás a refletir, não tenha pressa. Amanhã, quando o sol estiver a despontar, encontrará então, o meu tesouro, um adiantamento, dentre outros que ainda estarão por vir. Até o meio dia, aguardarei a sua resposta, pois a partir daí, tenho outros negócios a resolver. O homenzinho dá um rápido rodopio, sai a girar entre as árvores, desaparecendo, sem deixar vestígios. Desaparece como se nunca um dia houvesse existido. Como se mais não fosse, um sonho daqueles que temos acordados, uma breve alucinação, um delírio repentino, mas as pernas agora frias, não tinham mais a disposição para a caminhada, sentia-se exausto. Aquela aparição havia deixado-o transtornado. Enche o peito em busca de fôlego e um forte odor de flores entra em suas narinas. Sente-se um pouco tonto. Muito lentamente, como se as pernas carregassem um peso que não fosse apenas o seu, põe-se a andar. Sentia-se indisposto e resolve voltar para casa.


Ao ouvir o ruído na porta, a mulher vem ao seu encontro. Ao vê-lo, entranha-o. Está um pouco abatido homem, andou vendo assombrações? Ora, deixe de bobagens, não me sinto muito bem, o sol hoje parece mais quente. Após o almoço, vou deitar-me um pouco. Mas não se preocupe, é apenas um mal estar passageiro, nada que alguns minutos de cochilo não possam resolver. Senta-se, serve-se, e come silenciosamente, com os olhos fixos na mesa, mecanicamente, sem sequer olhar para o prato. Após a refeição, vai até o quarto e pede à mulher que o deixe sozinho, que não o incomode, pois precisa descansar. A mulher resmunga baixinho, sente-se contrariada, mas respeita o desejo de seu esposo, e vai ler o jornal.


Ele senta-se na cama e permanece por um bom tempo, completamente imóvel, na verdade, não tem tanta vontade de deitar-se, mas ficar a sós, tentando entender o que se passava. Desde que cruzara com aquela coisa, parece ter perdido a expressão. Sentia que a face não refletia emoções, sensações, como se estivesse condenado a ter um rosto de pedra, onde não mais lhe ocorressem o riso, o choro, ou qualquer perturbação. Seria uma face única, fosse ante os mares mais navegáveis e calmos, ou perante os tufões e terremotos, que lhe sangrassem a alma. As coisas pareciam não fazer muito sentido. Levanta-se, repentinamente, e liga a televisão. As imagens e as falas desfilam diante de seus olhos e ouvidos, mas estes não lhe dão atenção. Estão indiferentes. Pouco se movem. As imagens são apenas luzes, que se alternam em cores e ritmos diferentes, o som ininterrupto é quase inaudível, um prolongar de ruídos, que não diz coisa alguma. Talvez as paredes fossem mais receptivas, naquele momento, as informações e propagandas que o aparelho veiculava. Assim, permaneceu por muitas horas sem se dar conta do que ocorria ao redor. Encostado na cama, imobilizado, o rosto duro, iluminado pelo televisor, que enchia o quarto de sons e luzes. Quando deu por si, já eram altas horas da madrugada e a mulher já deitara e adormecera a seu lado. Ele não havia percebido.


Deita-se, mas os olhos não conseguem fechar-se. Afinal daqui a algumas horas, quem sabe, a barra de ouro talvez apareça sobre a mesa. Este pensamento muito o perturba, faz suar frio, e uma dor fina e perfurante, percorre o todo o corpo, partindo do estômago. O coração palpita acelerado. Não adormeceria. Levanta-se e posta-se à mesa, onde em breve, a ser verdade o encontro que acreditava ter tido, uma riqueza considerável estará à sua disposição. Mesmo faltando quase duas horas para que as primeiras luzes do dia trouxessem a manhã, não tiraria os olhos daquela mesa, pois caso o ouro aparecesse mesmo, gostaria de saber como ele chegaria. E ali permanece, tomado de uma ansiedade que não consegue controlar. Os olhos pesam, e às vezes, torna-se difícil segurá-los, e foi em uma destas piscadelas, em que a barra de ouro, reluzente, pesada, apareceu. Não era possível. Ali estava. Como aparecera? Era incrível. Bastou uma piscada, única, para que o tesouro estivesse ali. Acondicionou a barra dourada entre os braços, abriu a porta do guarda roupas, e a escondeu no fundo da última gaveta. Puxou umas fronhas e meias para que o seu tesouro ficasse completamente invisível. Vestiu rapidamente suas roupas, antes que a mulher despertasse, abriu lentamente a porta, e foi para a rua.


Naquela manhã, havia chegado mais cedo que a vizinha das flores. Irritou-se ao ver seu jardim. Rapidamente voltou a casa e, silenciosamente, pegou um tesourão de jardinagem, enfiou no bolso um pote que havia apanhado de cima do armário, e sem que esta percebesse, observou a mulher, que apresentava um sono profundo. Aproveitou então, a ocasião, para observá-la mais de perto. Admirou-se, pela primeira vez, por considerá-la sempre bela. Olhou, olhou, e intrigou-se. Era feia, muito feia. Foi até à frente do jardim, e certificou-se que a rua ainda estava vazia, não havia quem desse por sua presença. Num ímpeto, invade a propriedade da vizinha, abre afoitamente a grande tesoura, e arranca todas as flores, uma a uma. Sabe que ainda tem alguns minutos antes que a senhora apareça. Abre a boca enorme da tesoura, que vai fazendo uma verdadeira limpeza no território, engole as flores pequenas, as grandes, algumas dilacera as pétalas, outras arranca o caule e a raiz. Assim o faz afoitamente, sem vacilar ou demonstrar qualquer piedade. Realiza uma verdadeira devastação, sem sequer estranhar a si. É tomado de uma sensação de fúria, e não se tranqüiliza enquanto não vê as flores todas ao chão. Solta um longo sorriso e gargalha silenciosamente de satisfação. Sente um prazer sem igual. Ao concluir o trabalho, enfia as mãos no bolso e retira o pote que há pouco havia guardado. O rótulo, uma pequena caveira vermelha, indicava o que havia no interior do frágil pote, veneno. Vai em direção à casa do vizinho, dono do cachorro. Entra pela lateral, onde o carro do proprietário estava estacionado, e anda se escondendo por sob as folhagens. Já dentro da garagem, encontra a tina onde o cão bebe água, que estava cheia. A água estava clara, limpa, provavelmente havia sido colocada ali não há muito tempo. Era água fresca, que certamente iria matar a sede do animal, assim que seu dono abrisse a porta. Abre o pote, que segura firmemente entre as mãos, e derrama na tina, todo o seu conteúdo. Levanta a tigela e a imprime um movimento circular, para espalhar o pó verde que havia se acumulado no fundo. Dá algumas voltas na água, e rapidamente o veneno se dilui. Já não tinha mais tempo. Não faltava muito para que os vizinhos saíssem de suas casas.


Em seguida, resolve afastar-se da região. Distancia-se de casa e anda pela cidade, cortando ruas, avenidas, cruzando praças, sem saber ao certo, onde queria chegar. Precisava andar, sentia-se excitado, mas mal repara nos lugares aonde ia. Andava, andava. O sol da manhã já lhe corava os braços e ia alto. Uma sensação de formigamento toma todo o seu corpo e os braços e as pernas parece comandarem-se sozinhas. Lembra-se do amigo doente. Era preciso vê-lo. Aperta os passos em direção à sua casa, e atravessa a cidade novamente. Lá chegando, faz soar a campainha e a irmã do amigo, prontamente vem lhe atender. Ele hoje parece estar melhor, diz. Desde que saíste ontem, vem esboçando alguma reação. A febre baixou e pude perceber um raro brilho nos olhos. Venha, entre, ele provavelmente o aguarda. A irmã, como sempre faz, acompanha-o até o quarto, e em seguida, retira-se, deixando-os a sós. Ele lentamente aproxima-se do amigo. A mulher parece ter razão, sua aparência hoje é bem melhor. Aproxima-se mais. Os olhos do doente parecem buscá-lo, mas ele não lhe dá confiança. Após um enorme esforço, consegue arrastar a mão trêmula pela cama e repousa-a sobre as mãos do visitante. Este se safa do contato abruptamente, a tentativa de aproximação lhe causa um grande desconforto e afasta-se. Sobre a porta do quarto, um grande relógio, mostrava-lhe as horas. Seu ruído atormentava-o, tornando-se cada vez mais alto, ensurdecedor. Não conseguia ouvir outra coisa. Punha as mãos nos ouvidos e não obtinha resultados. Era enlouquecedor. O ruído dominava todo o ambiente. Num ímpeto, pega a toalha que sempre usava para aliviar o fogo que queimava o amigo, e lhe aliviar a febre, e dá-lhe algumas voltas, enrolando-a, como se fosse uma corda. Aproxima-a do rosto do homem, e a princípio, lhe retira o suor. Em seguida, leva a toalha enrolada em direção ao pescoço, envolvendo-o. Segura firme as duas pontas da corda improvisada e a pressiona sobre a garganta do homem, que começa a sufocar-se. Olha para o relógio e dá a estrangulada definitiva. Era meio dia.




Marcos Vinícius.

sábado, 2 de outubro de 2010





Faz-se pânico geral quando o assunto é o envelhecimento. Mas há um lado bom ao percebermos a ação que o tempo imprimiu sobre nós. Seja vendo-nos mais maduros, testemunhos de uma história já de média duração, seja percebendo o processo da vida como uma revelação.

Marcos Vinícius.