quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O cão e o vinho


O cão e o vinho



Todos os dias eram assim. Dotado de uma audição muito bem apurada, ouvia todas as vezes, quando a faxineira do condomínio, vinha-lhe à porta, deixar o jornal do dia, logo que este chegava. Não que esta tarefa fizesse parte no seu rol de obrigações naquela função, mas gostava de ser gentil com os moradores, e no fundo, imaginava ser uma forma de ganhar a simpatia daqueles que viviam em seu local de trabalho. Não falhava um dia na missão que havia designado a si mesma, com exceção dos domingos e feriados, quando tinha a rara oportunidade de estar em casa, junto aos seus. Ao contrário do proprietário, que em algumas ocasiões, mal ouvia o soar da campainha, ele estava atento a todos os ruídos e sinais, como se dentro de seu esguio corpo de cão, houvesse uma antena orgânica, fielmente sintonizada em tudo que viesse a ocorrer por ali, não apenas no interior do apartamento, mas também pelos seus arredores. Não havia carros maiores que passassem pela rua, moleques assobiando, vizinhos conversando alto, ou passos nos corredores, que passassem despercebidos aos ouvidos e sentidos, aparentemente interligados a um emaranhado sistema de fios invisíveis, que os conectavam ao mundo de uma forma bem diversa do que foi possível a espécie humana. Antes mesmo que o jornal fosse deixado ao chão, o exímio farejador, já se postava à porta, como se fosse de sua responsabilidade, abri-la e apanhar o jornal diretamente das mãos da entregadora. Mas sua intervenção se limitava a choramingar baixinho com o focinho no chão, como se viesse a lamentar o fato de estar diariamente impossibilitado de tocar e agradecer com os olhos a gentileza daquela empregada, e logo em seguida, levar as patas ao canto da porta, cutucando-o com alarde, como meio de avisar ao dono, que enfim, o pequeno mundo de papel havia chegado em casa. O que ele então, agradecia com um longo afago na cabeça.


Ele era um animal vistoso, muito bem cuidado, usava perfumes, cosméticos, e tinha direito a um profissional de saúde vez ou outra, ou quando seu comportamento causasse alguma estranheza naquele que sempre fizera muito questão de bem tratá-lo. Enfim, viviam juntos já alguns anos, e foram se tornando dia a dia, bons companheiros, aumentando as razões dos que afirmam que é o cão o melhor amigo do homem. O homem já de meia idade, aposentado, sai pouco de casa, acha o mundo perigoso, pouco decepcionado com os amigos e os amores, e com uma renda mirrada, vez ou outra participa em eventos públicos, festas, muito raramente, um filme no cinema lá uma vez ao ano, às lojas, quando já não se pode mais adiar. Mas na maior parte do tempo, prefere mesmo o conforto do lar, onde também não se vê livre de ocupações. Faz sua própria comida, lava suas roupas, passa, varre e escova, e administra bem o que podemos chamar de lar. A casa, bem cuidada, proporciona considerável conforto, porém sem luxos ou excessos. Seus dias transcorrem entre uma caminhada pelo parque florestal próximo, idas ao mercado, padaria ou farmácia, filmes na televisão, leituras de jornais, revista, um romance ou ficção de vez em quando, além do amor dedicado ao seu companheiro quadrúpede e peludo, que está sempre por perto. Quando a noite se aproxima, em ritual quase religioso, abre uma garrafa de vinho, com a qual se delicia por algumas horas. É quando o cão torna-se mais que um amigo, um confidente. É quando ouve seus desabafos, planos e frustrações, ladainhas dos amores que teve, e do que não tem, das viagens que fez, e das que sabe que jamais fará, das oportunidades perdidas, dos dias que a vida ousou lhe proporcionar. Das saudades e dos desejos. Da paz e da guerra. Do passado e do futuro. O vinho cora-lhe o rosto, esquenta-lhe o peito, e torna-o falante. O cão o observava atentamente. Quando imaginava estar cansando o companheiro com falações sem fim, procurava desculpar-se, ora citando Horácio, segundo o qual, “o vinho revela os sentimentos”, ou nos momentos em que a solidão mais parecia pesar-lhe, lembrava Napoleão, ao dizer que vinho “nas vitórias, é merecido, mas nas derrotas é necessário”. O cão parecia entendê-lo e eram muito raras às vezes em que ouvia com desdém os discursos do homem. Depois de tanta proximidade, e tanto tempo de convívio a impressão mesmo que se tinha era que o cão estava ali entendendo palavra por palavra, história por história, que ouvia incansavelmente dia após dia. Alegrava-se quando o dono se exaltava, narrando alguma boa aventura do passado, entristecia-se, deixando cair as orelhas e abaixando o pescoço, quando ouvia algo que em forma de lamento ou lamúria. Apesar da classificação de vira-latas, por não ter uma ascendência conhecida, resultado de misturas que se processaram por uma infinidade de anos, era muito bem cuidado, como se de raça nobre se tratasse, além de parecer ter retido para si toda a sabedoria que carregaram seus antepassados, pois seu olhar leva a expressão de que compreende tudo que vai ao redor, como se apenas a ausência da fala fosse a causa da impossibilidade de um diálogo com seu dono. Tem estatura mediana, corpo musculoso, o peito branco e o resto do corpo coberto de um pelo castanho espesso e curto, e anda pela casa com uma elegância rara. Possivelmente teve por ancestrais algum cão guia ou cão de guarda, pois além da robustez, e da expressão dura, que geralmente carrega, possui uma fidelidade em relação ao dono, dificilmente encontrada quando a relação se dá apenas entre os homens. Aos mais observadores, a relação entre aqueles dois seres de espécies diferentes poderia despertar muitas invejas em algumas relações sanguíneas, constituídas em forma de família.


A rotina diária não se alterava muito. Pelas manhãs, faziam os dois, uma boa caminhada, ocasião, inclusive, em que o homem conheceu uma rapariga, com quem já há alguns meses se encontrava, geralmente uma vez apenas a cada semana, pois não era lá o que podemos chamar de uma relação apaixonada, além da falta de tempo da moça, que cuidava dia e noite da mãe doente. A caminhada enchia o cão de alegrias, era o momento em que poderia usufruir do sol e do vento por mais tempo, pois gostava de correr ao ar livre, a vida no Condomínio, comparada aos prazeres do parque, era bastante monótona. Já em casa, o homem se encarregava da refeição dos dois, que muitas das vezes, era seguida de um breve cochilo, para que pudessem recompor suas forças e energias para o resto do dia. Normalmente nestas cochiladas durante o dia, o cão dormia colado aos pés do homem, que geralmente lhe acariciavam. Despertos, o homem abria o jornal, e o companheiro parecia acompanhar as leituras, observando atentamente cada fotografia, como se quisesse extrair delas todo o significado que não pôde arrancar das palavras, do texto. Assistem televisão, brincam, e quando a noite cai, os olhos do homem brilham, a língua, desassossegada, mexe-se entre os dentes e lambe os lábios secos. É hora de abrir a garrafa e tomar o primeiro copo. Tomava o primeiro, o segundo, e empolgava-se, a voz mudava de tom, tornava-se mais aveludada, mais macia. Depois de já alguns copos, lembrava os filósofos, a música, a poesia, a arte e a política. Lembrava dos amores. Sorria e chorava. Enchia outro copo, e o vinho descia pela garganta, aquecendo, numa reação em cadeia, um corpo inteiro. Eram horas de fala, lembranças, gracejos, angústias, idéias, planos e sonhos.


Em um destes momentos, o homem sentindo-se tão próximo do cão, e tendo-o como um companheiro privilegiado, resolve servir-lhe também uma tigela de vinho. O cão não se fez de rogado, deu um primeiro trago, e imediatamente, engasgou. Tossiu como se jamais fosse se aproximar daquela estranha bebida, tão diferente da água que está tão acostumado a beber. Mas inesperadamente, como se o mal em bem houvesse se transformado, dá longos goles na bebida, como se fosse o melhor sabor que já houvesse experimentado. O homem, a princípio, assusta-se, não se sabe exatamente, se consigo mesmo, ou com cão, mas acaba servindo mais uma tigela, e depois outra, que deixa por fim, o canídeo completamente embriagado. A partir dali, não haveria mais um dia sequer em que o cão não lhe faria companhia também nas bebedeiras, e mais incrível do que o gosto que o animal sentiu pela bebida foi a rapidez com que se acostumou a ela. Ousasse o homem deixar de servi-lo, que teria em casa um animal desassossegado, farejando entre o tablado da mesa e o resto dos copos, as garrafas no armário, na esperança de encontrar sequer uma gota da doce bebida. Mas o dono acabou rendendo-se aos desejos do animal, tanto por senti-lo mais amável após o vinho, como por sentir-se responsável pelo hábito que havia despertado no pobre cão. Além do mais, não suportava vê-lo sofrer. Certo é que acabaram curtindo juntos, uma série de porres e pileques. Vendo o homem gesticular, recitar poesias, imitar personagens, com o tempo, o animal foi também desenvolvendo algumas performances, dançava, encenava coreografias para os textos ouvidos, e eram raríssimas as ocasiões em que apresentava alguma indisposição, mal estar, ou algum tipo de ressaca. Parecia estar usufruindo grandes prazeres com a bebida de Dionísio. O homem, em algumas ocasiões, imaginando que o amigo pudesse estar saturado de só ouvir feitos humanos, heróis da nossa espécie e história, procurava vangloriar também a natureza do amigo. Dizia ter sido sempre simpático aos cães. Deram contribuições infinitas à edificação de nossa civilização, disse. Vocês cães, em alguma particularidade de nossa história humana, fizeram a nós, e nós geramos vocês. Ao longo de milhares de anos, vocês evoluíram enquanto espécie, a partir das especializações que nossas necessidades demandavam. Por isso, hoje, temos centenas de raças distintas espalhadas pelo mundo afora. Temos cães que guiam os homens, que guardam suas vidas, famílias e bens, cães farejadores, que salvam inúmeras vítimas em meio aos escombros, cães caçadores, cães que guardam e dirigem rebanhos. Cães que aliviam solidões domésticas. Cães que encontram quem há muito foram dados como desaparecidos. Certamente, seríamos menos humanos, não fossem suas riquíssimas contribuições desde nosso passado mais remoto, discursava com entusiasmo o homem. O cão parecia emocionar-se. Bebiam os dois mais alguns tragos de vinho. Bebia o homem no copo de cristal, e o cão em tigela de plástico. Põe o copo sobre a mesa, respira fundo, como a tomar fôlego e continua. Deveriam saber os cães, que também tem a sua história na história que fizemos. Servem a nós com tanta fidelidade e utilidade, que não seriam quem são, não fosse a história humana em seu caminho. Pega um livro na estante, abre-o, mostrando as gravuras. Era um grande livro ilustrado sobre cães. Um dos maiores heróis da história dos cães a partir da história dos homens é o cão Barry, um São Bernardo, que salvou 40 pessoas perdidas na neve, nos Alpes suíços, entre l800 e 1812. Imagine o prestígio que usufruiu. Os homens ergueram um monumento em sua homenagem em um cemitério para animais na França, e seu corpo está preservado, mumificado no Museu de História Natural em Berna, na Suíça. Os olhos do cão se enchiam de alegria, e o homem não saberia onde encontrar outra tão nobre e honrada companhia. Aquela amizade nunca estivera tão selada. E prosseguia. Em 1800 os cães guiaram mais de 40000 do Exército de Napoleão, pelos mais perigosos desfiladeiros dos Alpes, e nenhum deles de perdeu. A fama destes cães à época correu o mundo. O homem acaricia as orelhas do animal, faz um breve silêncio, enquanto observa a luz elétrica que passa por sob o vão estreito da porta. O cão mira o jornal dobrado sobre o sofá. Tem os olhos fixos. Estão a pensar. O vinho. O copo. A tigela. Um trago, outro trago. É difícil para nós humanos, imaginarmos que tipo de reação este vinho tinto poderia proporcionar a este cachorro, sabendo que mesmo entre nós, seus efeitos variam bastante. Mas ele parecia estar no melhor dos mundos, não só pelo prazer que a bebida lhe causava, como pelos mimos que constantemente lhe fazia o dono, enquanto declamava os poetas, que ia arrancando da estante, recorria aos pensadores, visitava a sabedoria dos grandes, mas não esquecia o amigo, o qual considerava o representante de uma espécie, que em muito ajudou a traçar o perfil da civilização e da história dos homens. Vocês, cães, estão nas pinturas das cavernas, como testemunho da dedicação mais antiga aos caçadores pré-históricos, a deusa Neith, dos egípcios, esposa de Rá, a deusa da caça, a que abre os caminhos, tem por animal sagrado, o cão. Pela longa Idade Média, vocês deixaram vestígios, seja nos brasões de grandes famílias, na Heráldica, nas gravuras. Assim como foram também, por muito tempo, o tormento dos homens. Cérbero, o cão de três cabeças, com o pescoço rodeado de serpentes, o guardião do Tártaro, o inferno dos gregos, era amável com os que chegavam, mas implacável com os que pretendiam de lá sair. Devorava-os. Ajudava a tornar a morte e o inferno, eternos. Talvez seja, entre todos os cães, o mais temido. O cão estremece, o homem baixa os olhos. As origens do mito, a lenda, talvez remetam a algum tempo perdido na memória dos homens, nas lacunas da história, em que a relação entre os homens e os cães não tenha sido tão amistosas. Talvez em um período onde os canídeos, ainda não tivessem sido vítimas de uma domesticação fatal, que os tirou da condição de selvagens, colocando-os a serviço das demandas humanas. Talvez a imagem do cão ameaçador, incorporada pelo mito, remeta à lembrança remota de uma época esquecida, em que os cães possam, quem sabe, terem se rebelado contra a submissão total. O homem adormece.


Na manhã seguinte, o animal, enrolado sobre o tapete felpudo, que devido ao longo tempo de uso, já se encaixava perfeitamente em seu corpo, levanta quase de sobressalto, ao sentir o primeiro feixe de luz iluminar seu focinho. Corre até a porta dos fundos, e logo percebe que o jornal ainda não chegou. Seu dono continua adormecido, e por considerar que merece mesmo alguns minutos a mais de repouso, resolve andar pela casa, silenciosamente, para que evite incomodá-lo. Vai até a cozinha, lambe as beiradas das garrafas de vinho vazias guardadas logo atrás da porta da dispensa. Sente a bebida molhar sua garganta, levanta a cabeça para o alto, e sacode o corpo, arrepiando os pelos. Em seguida, mordisca alguns pedaços do pão com presunto que fora deixado sobre a mesa. Dá uma volta rápida por todos os cômodos, como a verificar se as coisas estariam todas no mesmo lugar, a certificar-se que novidade alguma havia ocorrido no interior de seu lar, enquanto dormia. Passa em frente o quarto do homem, ia já passando direto, quando alguma força estranha, superior, invisível, incompreensível, parece travar suas pernas. Repentinamente, muda sua rota. Resolve ir ao homem. Ao se aproximar, roça suas pernas, que pareciam que estar mais frias que de costume. Propõe alguma brincadeira ou gracejo, mas não há respostas. Resolve, então, puxar com os dentes os cobertores, não havia algo melhor para despertar o amigo, que a princípio sempre se irritava, mas em seguida, acabava se divertindo com aquilo, sentindo-se menos só. Daquela vez, porém, não esboçou a menor reação. O cão, já a desesperar-se, sobe até a cama, e começa a lamber o dono. O corpo está inerte e duro. Os olhos cerrados. Estava morto. Ele sabia o que aquilo significava. Não teria mais o amigo. Quando a moça dos jornais entra pelo corredor e se aproxima da porta dos fundos, o animal corre até ela, e late como jamais o fez, põe-se a correr de um lado para o outro, arranha a porta, e atira-se contra ela. A moça, intrigada com a reação do animal, completamente diferente daquela a que já se acostumou, resolve tocar a campainha, seria inclusive, uma delicadeza com o morador, demonstrar que se preocupava com ele. Mas este nunca responde. Como era funcionária antiga, sabia que por este horário, não havia o homem saído de casa. Esperou um tempo, nunca se sabe, algum sono profundo, um banho demorado, ou algo do gênero. Como ia tornando-se inútil insistir, resolveu aguardar mais um pouco, enquanto daria continuidade aos seus afazeres. Algum tempo depois, quando qualquer atividade iniciada pelo homem, que o teria impossibilitado de atender ao chamado, já teria cumprido o prazo para findar-se, volta então, a campainha. Nada. Vai logo em busca de ajuda. Por fim, quando os homens resolvem por arrombar a porta, assim que esta é aberta, o cão abandona o apartamento. Ali não mais voltaria. Saia convencido, que para o mundo em que o amigo se encaminhou não haveria mais retorno. Lembrou-se de Cérbero, o monstro de três cabeças, que nunca permitia a saída dos que nos Reino dos Mortos ingressava. Abandona, definitivamente, a morada que ocupava desde a mais tenra idade. Não se lembrava quando exatamente tinha chegado ali, mas tinha a certeza de não ter vivido em nenhum outro lugar. Era o mundo que conhecia, e já não o tinha mais. Sai pela cidade.


Num primeiro momento, perambula pelos caminhos já conhecidos, nos quais já havia andado com o amigo agora morto. É tomado de sensações dúbias. De um lado, a dor da perda, não uma dor humana, mas uma dor canina, mais difícil de compreender, por não ser a que sentimos, mas fundamentalmente, um pesado e insuportável sentimento de abandono, que se expressava em um profundo e silencioso choro. Por outro lado, possuía uma rara sensação de liberdade, que era poder atravessar aquelas ruas, sem ter que estar a seguir alguém. Sentia, pela primeira vez, caminhar com seus próprios passos, sendo o dono de sua rota, o senhor do seu destino. Poderia subir, descer, virar à esquerda ou à direita, como bem entendesse. Estava triste, atordoado, e sentia-se livre. Seu dono fizera-o sentir-se um ser importante. Enchia-o de afagos e elogios, relacionando em sua lista de heróis da história, personagens caninos. O animal tinha o pelo bem cuidado, era belo, e beirava a vaidade. Dali para frente, a vida mudaria muito. A liberdade teria um preço, também teria limites. Não mais teria seus banhos com shampoo, suas pomadas e receitas médicas, a fartura das refeições, o aconchego de um confortável lar, e principalmente, as noites mágicas regadas ao vinho. Iria caminhar agora por ruas, avenidas, praças completamente novas e desconhecidas. Teria então, ao seu alcance uma grande cidade a ser descoberta e explorada, sua nova morada.


Nestes primeiros dias, andou quase sem parar, sentia pressa em conhecer os lugares, apenas reduziu o ritmo das andanças, sem jamais abandoná-las, quando percebeu que não teria como conhecê-los, todos. Mas sentia-se um explorador e inquietava-lhe, às vezes, constatar que sua nova e grande morada não estava totalmente a seu alcance. Eram infinitos os lugares impenetráveis, inacessíveis, os muros altos, os imensos portões das fábricas, as vitrines do comércio, os bares, restaurantes, e tudo aquilo que pudesse oferecer algum alimento que lembrasse o que tinha no mundo perdido. Tentar furar alguns destes bloqueios poderia lhe render os mais violentos castigos, chutes, pauladas, pedras, ou conforme o sítio, até mesmo tiros. Fora os grandes perigos que ofereciam o trânsito, com seus motoristas apressados em automóveis cada vez mais possantes, como se a serviço de um provável super-homem. Como se ainda fosse pouco, a visão dos cães praticamente não vêem diferença entre as cores amarela, verde ou vermelha, o que fatalmente impossibilita qualquer leitura proveitosa dos sinais ou semáforos.


Nem sempre era fácil encontrar algum local confortável para pernoitar, em que não fosse importunado por algum chato, alguém sem ter mais o que fazer, alguma criança que não sabe ver o animal quieto, sem lhe dar algumas cutucadas ou beliscões. Em muitas das situações era necessário mostrar os dentes. Além de ter o pelame já sujo, o aspecto recém-adquirido de cachorro de rua ou vira-latas, ainda possuía um porte relativamente robusto, o que lhe servia como proteção em muitas adversidades. A crosta de sujeira que se acumulava em seu pelo e a quase impossibilidade dos banhos eram algo que muito o incomodava. Mas já havia percebido que não era o único nesta situação. Vez ou outra, encontrava um ou outro cão de rua, ou às vezes, grupos deles, com alguns desenvolvia alguma simpatia, e momentos de companhia, com outros, era sempre melhor deixar passar-se despercebido. Como havia diferença entre eles. Alguns eram corpulentos, outros franzinos, uns silenciosos e observadores, outros intolerantes e inquietos. De várias cores, claros, escuros, rajados, e muitos estropiados, mancos, feridos, doentes. Às vezes se reuniam em grandes grupos, em uma praça praticamente abandonada pelos homens, próxima de uma igreja velha. Formavam uma verdadeira concentração. Depois se dividiam, um grupo descia uma rua, outro grupo ia em direção oposta. Não sabemos que tipos de acordos realizavam para que chegassem ao ponto, mas a impressão que se passava era de uma estratégia previamente discutida.


Quando a fome apertava, não havia lata, caixa, lixos, sacolas, que não merecessem ser desbravadas, reviradas. Não era a fartura da vida passada, mas quase nunca era a fome total, sempre havia algum resto, uma sobra, aquilo que para muitos humanos talvez já não mais servissem, ou porque outros deles chegassem atrasados à cata, dada a maior facilidade do cão em encontrar a comida. Havia perdido vários quilos, desde que passou a viver pelas ruas. O mais desagradável era quando abria algum alimento deteriorado, em que o apurado faro fazia franzir-lhe a face, ou a presença de vermes que tornava a situação insuportável. Nunca havia utilizado tanto seus instintos caninos. Os olhos, praticamente em lados opostos, devido a sua disposição na face, permitiam-lhe visualizar o perigo por todos os lados, o faro, fundamental, na obtenção do alimento, os dentes, agora serviam não só para a mastigação, mas também para afugentar o inimigo. As quatro pernas ajudam bem a resolver o problema, quando os dentes já não o fazem. Muitas das vezes é necessário colocar-se a correr.


Fora todas as dificuldades do dia a dia, angustiava-lhe muito a ausência do vinho. Muito de seus problemas vinha resolvendo, bem ou mal, havia descoberto água em uma praça pública, onde era possível banhar-se, mesmo precariamente, sem os perfumes e cremes de um passado que ia se distanciando. Havia como refrescar-se vez ou outra. Desenvolveu meios de driblar a fome, ou acostumara a conviver com ela. Havia aprendido a defender-se. Dia após dia, adaptava-se à nova vida. Mas o vinho, jamais havia tido a oportunidade, de sequer aproximar-se dele. Onde o encontraria? Não seria tarefa fácil. Na maioria das vezes, as pessoas quando vão consumi-lo, o fazem em lugares fechados, geralmente em casa, ou em bares, restaurantes, boates, locais em que muito raramente ou nunca mesmo se permite a entrada dos cães. Os dias foram se passando e a vontade de tomar novamente um gole ou outro da bebida dos sonhos era cada vez maior. Lembrava-se das noites passadas com o seu falecido dono, onde as noites regadas a vinho vinham acompanhadas de muitos afagos, brincadeiras, leituras, música, o aconchego de estar entre quatro paredes, e alguma comida. Eram mesmo bons aqueles tempos. A imagem do antigo proprietário surgia de vez em quando à lembrança, mas nada tão forte, quanto a vontade de sentir outra vez aquele sabor inesquecível. Imaginou que se andasse mais noite adentro, ao contrário do que vinha até então fazendo, andando o dia inteiro e à noite buscando meios de dormir, talvez fosse mais bem sucedido em sua busca pela cobiçada e ausente bebida. E assim o fez. Noite após noite, rodou pela cidade. Potencializou seu faro, de modo a concentrar todos os seus esforços à procura de alguma essência ou aroma que pudesse ser uma garrafa, um copo ou mesmo algumas gotas derramadas na calçada. Seu olfato afinadíssimo levou-o até as portas de bares e restaurantes, onde iniciou uma verdadeira peregrinação. As imagens das garrafas nas prateleiras altas que avistava pelo lado de fora era a visão do paraíso perdido, da terra prometida a ser conquistada, era o sonho que estava ali, próximo dos olhos, porém praticamente inacessível, inalcançável, como para demonstrar ao cão, o quanto poderia ser restritiva a eles, cães, uma cidade construída para os homens. Procurava aproximar-se de algum freqüentador, garçons, seguranças, fazia gracejos, expressão de tristeza e carência que demandavam socorro, pulava, agradava, fazia-se passar pela mais simpática das criaturas, e em vão. O máximo que consegui era arrancar algum pedaço de carne, alguma sobra de mesa, um olhar de piedade, mas da bebida mesmo, nada. Em algumas ocasiões, diante da resistência em abandonar o lugar, os templos onde guardavam seu objeto de contemplação e veneração, chegava a ser vítima de agressões e maus tratos, como ponta pés e vassouradas. Em suas andanças noturnas, encontrou latas de cerveja, onde apesar de ter sido atraído pelo cheiro do álcool, nada que se comparasse à inigualável bebida. Pense como deveria ser difícil para um cachorro de rua encontrar um gole de vinho para beber. Mesmo que encontre um beberrão ou um proprietário de alguns destes estabelecimentos que adquira uma grande simpatia e compaixão pelo animal, como iria passar pela cabeça do indivíduo que o outro se contorcia de vontade de tomar alguma quantidade de vinho. Não conseguimos imaginar uma comunicação possível, por mais que tenha tentado o pobre animal, beirando e roçando os móveis onde se guardavam a bebida. Podemos imaginar que tenha sede, fome, necessidade de carícias, vontade de brincar, alguma pulga ou ferimento que o incomode, mas um desejo incontrolável de tomar uma dose de vinho, não ocorreria a alguém adivinhar. As noites se passavam e as buscas tornavam-se cada vez mais impossíveis, as imagens dos rótulos, o formato das garrafas, a tigela cheia, e o cheiro doce que se escondia em algum canto da memória, tornavam-se às vezes, tormento, lembranças que se apagavam de uma utopia perdida, o sonho desfeito.


Numa noite fria de inverno, quando a lembrança ainda o atormentava, mas já vinha praticamente desistindo das buscas, dado os contínuos fracassos em que suas missões haviam resultado, encontra, ao dobrar uma esquina, de uma hora para outra, um grande evento em uma praça pública, aberta, onde vários jovens se reuniam para ouvir música, cantar e dançar, havia à frente, um grande palco iluminado. Era uma festa bastante animada, e seu faro não se deixou enganar, a bebida preferida pelos jovens aquela noite, era o vinho. Seus olhos se acenderam, sua expressão foi tomada de uma felicidade, que a qualquer um seria possível perceber. Sim. Havia muita gente ali, e um grande número delas, com copos de vinho nas mãos. Choramingou sob alguns pés, mas a estratégia não lhe funcionou. Ao atravessar a praça, encontrou um casal sentado em um banco de concreto, onde os amantes não paravam um minuto sequer de se esfregarem, provavelmente ali a mistura de hormônios e vinhos já começava a apresentar seus primeiros resultados. A boca do homem colava-se á boca da jovem e seus corpos se espremiam vorazmente um contra o outro. Com os olhos fechados, suas mãos percorriam os corpos emaranhados, como às cegas, a tatearem-se no escuro, mas sem perderem o destino, onde desejavam chegar. Nada mais importava aqueles dois a não ser entregarem-se um ao outro, já pouco importava a música ao fundo, os que ao lado passavam, os outros casais, ou a garrafa ainda cheia de vinho, que aguardava ao lado do banco, no chão. Estavam colados um no outro, enlaçados, como se o mundo ao redor não tivesse a menor importância, não mais lhe dissessem respeito. O cão admirava-se. Não era possível depois de tanto tempo, encontrar ali, quando quase já não mais esperava, uma garrafa quase cheia à sua disposição. Deu alguns passos em direção à bebida. Parou. Fixou os olhos no casal. Não seriam obstáculo. Voltou-se para o vinho e não perdeu mais um segundo qualquer. Verteu a garrafa ao chão, cujo líquido se concentrou em uma concavidade do concreto, e ali ficou a beber, euforicamente, toda a poção que derramara. O casal, muito envolvido nas aventuras e peripécias do amor, sequer percebeu o que ocorrera. O animal sorveu o líquido da garrafa inteira. Não ficou uma gota sequer, e quem por ali passasse, talvez soubesse que era tinto o vinho, dada a mancha escura que deixou gravada no chão. Nunca havia bebido com tanta vontade, deliciou-se, empaturrou-se. Sentiu um fogo ardente percorrer todo o seu corpo, e uma faísca de luz adentrou aos seus olhos. As pernas por um instante tremeram, mas em seguida, recuperaram o vigor. Os pelos ouriçaram-se um pouco, e ele deu-lhes uma sacudidela, para ajeitar-lhes o prumo. A música que saía dos enormes alto-falantes incomodava seus sensíveis ouvidos. O coração batia forte. Havia chegado a hora de deixar aquela praça, e saiu a andar pela cidade. Estava feliz, mas não sabia por onde ia, as pernas não lhe davam descanso, e andava, andava, não se dispunham ao freio. A cidade nunca lhe pareceu tão iluminada, e a noite jamais lhe saltou tanto aos olhos. Uma suave canção lhe vem à memória e embala seus passos. Sente não ser deste mundo, e um estranho cansaço abate-lhe a expressão. Mas não para de andar. Sem olhar para os lados, e como se apenas uma vaga lembrança musical o levasse, corre a atravessar a movimentada avenida. Era tarde quando percebeu a velocidade e a violência com que vinha em sua direção o pesado veículo. Era o encontro fatal. O animal desfez-se na pista, o motorista prosseguiu seu caminho. Não parou para olhar.


Marcos Vinícius

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O aparelho



O aparelho



Ele morava a poucos quilômetros do centro da cidade, e eram raras às vezes, em que utilizava um veículo, quando tinha que ir a algum local que não fosse muito distante de casa. Ônibus ou táxi só mesmo quando o percurso iria lhe exigir longas caminhadas, ou quando não tivesse tempo suficiente para que pudesse percorrê-lo a pé. Gostava mesmo era de sair por aí andando, pois além de considerar estar proporcionando um grande bem para sua saúde, teria a oportunidade, de conhecer um pouco das intimidades, e algumas particularidades da grande cidade, que os veículos apressados não nos permitem perceber. Observava as fachadas dos prédios, dos novos e dos antigos, como a desvendar o perfil de uma cidade que pouco a pouco ia se revelando, em cada janela entreaberta, porta por porta, esquina por esquina, nas placas, nas praças, nos olhares cruzados pelas ruas e calçadas, nas infinidades de serviços e mercadorias, que procuram seduzir os que passam. Lê os letreiros, as faixas, os destinos dos lotações, para onde vão os que esperam nos pontos, nos números pintados. Lê as ofertas e promoções, os nomes das lojas, os sobrenomes dos profissionais, os panfletos, as propagandas, os cardápios do dia. Admira ver a cidade pulsando, assim de perto, praticamente a tocá-la, em meio ao vento e a poeira, em meio ao ruído dos automóveis, aos gritos dos vendedores, e ao murmúrio das multidões.

Por trabalhar em casa, a vida lhe permite certa flexibilidade nos horários, podendo então, usufruir destas andanças. E é uma das coisas, das quais faz questão de não abrir mão. É daqueles que crêem que muitas das vezes, mais vale as alegrias e tristezas dos caminhos do que o desejo de chegar ao final. Sobe morros, desce ladeiras, atravessa pontes, viadutos e sinais. Conhece como a palma da mão a região central da cidade. Os anos de andanças acabaram lhe proporcionando uma grande habilidade e desenvoltura para percorrer o grande centro. Vibra com a descoberta dos atalhos, das conexões de vias, cruzamentos de ruas, os novos acessos, que às vezes, se abrem diante de seus olhos sempre atentos e observadores. Quase não há endereço que ainda não conheça. Conhece tão bem estes locais, que caso queira refazer alguns destes caminhos mentalmente, em casa, com os olhos fechados, certamente revisitaria cada loja, escritório, porta aberta, porta fechada, sem que nada lhe escapasse à memória. Talvez até mesmo o belo olhar da atendente da casa de salgados e refrescos, o mau-humor do homem da loteria, o sorriso largo da doceira da praça central e o inchaço das mãos do pedinte que sempre o aborda, insistente. Orgulha-se de ser um conhecedor da cidade e adora quando lhe requisitam alguma informação. Quando alguém se aproxima para perguntar onde encontraria tal rua ou endereço, não se apressa ao passar as orientações, sempre muito cheias de detalhes, onde aqueles que perdidos se encontravam, passam a sentirem-se mais seguros de seus próprios passos, quando não conseguem esconder o ar de gratidão, que muitas das vezes se traduz em um generoso sorriso ou um forte aperto de mão. Conhece como ninguém os nomes das ruas, e seus pontos de cruzamentos, onde uma se encontra com a outra, e o que poderia se encontrar em cada uma destas intersecções.

Como já se viu, não eram poucas as coisas lhe despertavam o interesse e a curiosidade, mas ultimamente, talvez mesmo em função de uma vida mais solitária que tem levado nos últimos tempos, prestava uma atenção muito especial às diversas mulheres com as quais cruzava pelo caminho. Impressiona-se não apenas com a beleza e sensualidade que muitas delas esbanjam, mas também com sua rica diversidade. Havia para todos os tipos, tamanhos, gostos e idades. Poucas coisas lhe causavam tanta admiração quanto à variedade de estilos e formatos, resultado de um processo de misturas e miscigenações que ao longo da história foi se configurando. Outra coisa que, muitas das vezes, fazia com que atrasasse seus passos eram as manchetes de jornais, estampadas em várias bancas da cidade. Não era muito afeito à leitura dos jornais, mas os episódios de destaques nas primeiras páginas sempre lhe prendiam a atenção. Fascínios mesmo lhe proporcionavam as lojas de eletrônicos e afins, que lhe ofereciam as novas ferramentas tecnológicas. Ficava às vezes, horas perambulando entre elas, em busca de novidades, tentando desvendar o funcionamento desta gigantesca parafernália que os mercados têm para oferecer, de forma tão abruptamente sedutora. Computadores, portáteis, telefones celulares, aparelhos de áudio, vídeo, e um infinito leque de opções que a ciência e o capital insistem em vender, em prateleiras de luxo, vitrines de luzes, políticas de ofertas, que deixa quase sem escolhas, o encurralado cidadão. Desta maneira, embala seu sonho de consumo. Alguns anos de sua vida encontravam-se já comprometidos em inúmeras prestações, para que não tão perto estivesse, da condição de excluído digital. Havia adquirido um bom computador de mesa, um telefone celular com câmera fotográfica embutida, e mais recentemente, um aparelho de mp4, com os quais consumia uma grande parte de suas horas de folga.

Num sábado pela manhã, durante uma de suas caminhadas matinais, feliz por ter eliminado mais uma de suas prestações, descobre em uma vitrine, um aparelhinho, que ainda não conhecia, uma novidade que muito o intrigou, um GPS, que já traduzido para o português, podemos chamar de Sistema de Posicionamento Global. Sim. Um aparelho através do qual, o seu vasto conhecimento sobre as vias, e a malha urbana, poderia tornar-se menos útil, afinal aquela coisa ali, poderia, desde que bem programada, orientar qualquer um sobre os destinos, e os rumos que deveria seguir em qualquer parte da cidade. Bastava colocar o ponto de partida e o destino final, que a coisa traria pronto o itinerário a ser seguido. Não haveria como perder-se, salvo um caso ou outro, um problema de funcionamento, falhas na atualização dos dados, deficiências que certamente, não demorariam muito para serem superadas, em um contexto onde equipamentos desta natureza, parecem ter vindo mesmo para ficar. Não consegue tirar os olhos daquela coisa. Sua expressão quase congela-se. À primeira vista, é impossível saber se sua reação é fruto de uma tristeza, ao perceber-se substituível, pois agora, mesmo o cidadão que vem pela primeira vez à cidade, poderá se orientar e andar de ponta a ponta, como se milhares de outras vezes já tivesse passado por estas paragens, ou se ao contrário, entusiasma-se por saber que daqui em diante, ficará mais seguro ao se aventurar pelos mais longínquos cantos da cidade, que nunca para de crescer. Lentamente sua fisionomia volta ao normal e seus olhos vão se descolando do objeto. Bruscamente, então, vira-se, e como se voltasse de um lugar distante, do qual não mais se lembrasse, dirige-se ao balcão.

Após uma lenta negociação, segura uma nota entre os dedos, assina os papéis e rapidamente vai ao caixa. Adquire o produto. Vai direto para casa, e desta vez não se preocupa muito com os caminhos. Tem pressa em chegar. Como funcionará esta coisa? Dará mesmo certo? Como pode coisa igual ter sido inventada? Claro. Como não havia pensado? A ciência e a técnica estão sempre a dar saltos de qualidade. Além do mais, já tínhamos os conhecimentos para tanto, faltava juntá-los em uma coisa só, o que parece finalmente ter sido feito. Agarra-se ao objeto. Já em casa, excitado, ainda de pé, rasga a caixa, manuseia o aparelho, vira-o para um lado, para o outro, e incrivelmente, sem lhe tirar o olho, põe-se a ler o manual. Liga-o, e agora parece ter a certeza, de que a coisa, realmente funciona. É tomado de uma agitação que não consegue, de imediato, compreender. Parece ter entendido como operar aquilo e sai novamente. Anda vários quarteirões, não consegue parar, vira à direita, à esquerda, à direita e à esquerda de novo, sobe, desce, acelera os passos, ora os retarda, vai pelos lugares já conhecidos, e pelos bairros distantes, onde ainda não havia passado, atravessa a cidade inteira e conclui que de fato, dá certo. Estava exausto.

Na manhã seguinte, levanta-se da cama em um só salto, como se não tivesse tempo a perder. Vai ao banheiro lava o rosto, pega uns biscoitos na cesta e vai direto em busca no novo brinquedo que muito o havia impressionado e feito caminhar a esmo por uma cidade inteira e por quase toda a noite. Ficava ali admirando a peça, imaginando o quão criativo pode ser o gênio humano, que a cada dia coloca no mercado algumas invenções que deixam muitos de boca aberta. Iria testá-lo mais uma vez, imediatamente. Veste uma roupa às pressas, acopla o aparelho ao corpo, e sai rápido, queria ter aquela sensação outra vez. Liga o aparelho e inicia uma nova marcha, agora, sob as orientações de uma voz metálica, digital, que lhe dita as regras e os rumos do caminho. Ele parece não ouvir outra coisa, sente-se meio hipnotizado. Apalpa o aparelho e tem a sensação de carregar a cidade na palma das mãos, a cidade que agora navega sob seus pés. Quanto mais observa as imagens que o tal Sistema de Posicionamento lhe envia, mais força parece ter nas pernas, e mais ânimo adquire para andar. É tomado de um estado de êxtase que o põe a andar como nunca andou. Atravessa todas as ruas e avenidas do grande centro, entra em uma, sai na outra, anda, volta, apressa-se, como se não quisesse parar. Anda horas e horas, sem mais se preocupar em guardar os caminhos, pois agora, tem todos eles sob o alcance de seus dedos, não apenas aqueles já conhecidos e exaustivamente explorados, mas também aqueles pelos quais nunca passou, e sequer mesmo imaginava que pudessem existir. Quer aproveitar ao máximo a descoberta que acabara de fazer.

A partir daí, este ritual vai se repetir, dia por dia, e todos eles, um atrás do outro, vão levando aquele homem por vias, viadutos, edifícios, rodovias, planaltos e planícies. Os passos firmes, muitas das vezes, aparentemente cronometrados, os ouvidos conectados aos ruídos da coisa, levam-no a rodar pela cidade, aleatoriamente. Por meses e meses, esta maratona se repetiu, diariamente.

Em um destes dias, ao sair de casa, em direção à região central, viu que nuvens escuras e carregadas se aglomeravam no céu. Mas imaginou, porém, que devido ao vento, que naquele momento soprava muito forte, o temporal que se anunciava certamente não iria vingar, e em nada iria comprometer a sua já tradicional volta pela cidade. Saiu despreocupado, e a brisa que em seu rosto batia, despertava-lhe mesmo uma sensação de prazer e sentia-se feliz. Ao se aproximar, porém, no ponto mais central da cidade, raios e trovões cortaram os céus, como se a fúria divina viesse a aniquilar o mundo. Os clarões refletidos nas paredes de concreto, nos vidros dos edifícios e na lataria dos carros, enchiam a cidade de brilhos e sombras, como se a natureza estivesse libertando todos os seus fantasmas. Um longo arrepio correu pelas suas costelas. Neste momento, outro trovão desabou, e a água caiu em peso do céu, numa chuva grossa, torrencial, que em minutos, escorria dos prédios como cascatas, e lavava as ruas em fortes correntezas. Ele procura se esconder, sob uma marquise, mas o esforço é inútil, pois já se encontrava ensopado da cabeça aos pés. Ao perceber a inevitabilidade do acaso, leva desesperadamente às mãos ao aparelho, que estava por afogar-se. Sacode-o, mas não adianta, não funcionaria mais, a tela encharcada e um zumbido baixo e contínuo eram o anúncio do fim. É tomado de tal estado de pânico, que praticamente não percebe quando o tempo se abre, e as nuvens de chuva, seguem a levar tempestades para outras regiões. O sol volta a brilhar intenso, iluminando a cidade. Era chuva forte e passageira. Pela primeira vez, depois que havia adquirido o aparelhinho, estaria então a sós, desacompanhado de sua bússola moderna, da qual não desgrudava os olhos. Deu uns passos à frente, titubeante, parecendo estranhar o que via. Foi e voltou. Manteve-se imóvel, inerte, em meio à larga calçada. Já não sabia para onde ir. Estava completamente perdido.


Marcos Vinícius.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Na primavera dos tempos


Na primavera dos tempos



A bem da verdade, não sabemos qual era seu nome, pois viveu em uma época, em que muito pouco ficou de registros, não só pela rusticidade da vida naqueles tempos, onde a palavra escrita ainda nem havia sido inventada, como tantos e tantos anos já se consumiram, em um passado, que por tão distante, pouco temos como alcançá-lo, ou sequer desvendá-lo, satisfatoriamente. Uma história da qual pouco conhecemos, apenas por algumas pouquíssimas peças, de um gigantesco quebra-cabeça, que há muito, foi consumido pelo tempo. Costumamos chamar, equivocadamente, a estas longínquas passagens, onde nosso desconhecimento suplanta tudo o que podemos conhecer - de pré-história. Como se por ignorarmos a complexidade destas vidas passadas, não podemos permitir que possuam uma história, negamos-lhes o direito, pois a história que temos e somos, não mais lhes cabe. Ao denominar-lhes pejorativamente de pré-históricas, podemos, também, de quebra, nos afirmarmos em nossa pretensa superioridade civilizatória, onde acreditamos, muitas das vezes, sem pensar, que a evolução que carregamos em nós, tenha fatalmente nos conduzido ao progresso. Não é bem o que podemos constatar com o quadro de guerras, fomes e misérias de todos os tipos que vemos em nossos tempos. Enfim, o que se sabe, é que viveu em um tempo muito distante, quase do outro lado do mundo, num passado que pouco conhecemos, e que possuía uma rara beleza. Seu nome, como dissemos, não chegou até nós, perdeu-se.

Sim. Estamos em um lugar do passado, muito, mas muito distante mesmo. Ela, depois que perdeu a mãe, passou a ser mais nômade que nunca, pois nunca ficava por muito tempo no mesmo lugar. Não chegou a conhecer o pai, coisa não muito incomum naqueles tempos. Durante a infância, cresceu com a mãe, e muitas das habilidades que desenvolveu havia adquirido com ela, que por sinal, era não só era uma excelente caçadora, mas também boa guerreira, e já conhecia a arte do maneio da terra e a força do grão. Vez ou outra se estabeleciam em alguma área fértil, nas proximidades de algum riacho, e por ali ficavam, a se alimentarem das guloseimas que a natureza gentilmente lhes ofertava, claro, que nada sem esforço, uma vez, que tanto a lida agrícola, quanto às atividades de caça, exigiam muito trabalho. A mãe sabia manejar os arcos e as lanças como ninguém, os quais se voltavam não apenas contra os animais que deveriam abater, para saciarem a fome, mas também contra eventuais inimigos, que em algumas ocasiões apareciam a espreitar, geralmente, em busca de alimentos, ou movidos pelos apetites sexuais. As crianças eram muitas das vezes, presas fáceis, naquele meio selvagem, condição que ainda nos dias de hoje, insiste em se perpetuar. Por sorte, a Terra ainda não estava densamente povoada, como posteriormente, veio a ficar, e a população era bastante rarefeita. Havia épocas, em que viviam longos períodos, sequer sem a sombra de visitantes indesejáveis. Graças à proximidade de uma mãe tão dedicada ao trabalho e tão cuidadosa com a filha, esta pode então sobreviver, quando a outra, definitivamente, se foi.

Era bem nova, quando saiu, sozinha, a explorar o mundo. O tempo em que viveu com a mãe foi suficiente para que pudesse sempre observá-la atentamente, e aprender com ela as inúmeras estratégias de sobrevivência que havia acumulado ao longo da breve existência. Interessante como havia adquirido não apenas os mesmos dons, como repetia seus gestos, com os mesmos trejeitos e movimentos, como se de uma cópia perfeita se tratasse. A forma de segurar o facão, de derrubar o mato e amainar a terra. O jeito como apertava os grãos e os depositava nas pequenas covas que abria no chão com as próprias mãos. Cobria as sementes e resmungava baixinho como se estivesse a confidenciar sabe-se lá com quem, desejando que dali brotasse bons frutos. A maneira de pegar o arco, testar-lhes a cordas e a elasticidade, era tal e qual a mãe havia feito sob seus olhos atentos, a cada dia em que viveram juntas. Eram poucas as presas que lhes escapavam da pontaria certeira. Tinha tanta facilidade com a caça e vivia em um território tão rico em frutos e leguminosas, que nossa personagem, praticamente abandonou a horticultura. Talvez, agora, ao contrário da mãe, fosse mais afeita ao nomadismo, do que a uma vida mais sedentária e estável. Não se sabe se a preferência da mãe, por fixar-se em uma determinada região se dava em função de uma opção que sempre teve, ou se deu devido às demandas de uma maternidade precoce. Para se cuidar de uma criança, a vida sedentária talvez fosse bem mais tranqüila do que a vida cheia de surpresas, que o nomadismo trazia, principalmente quando já se domina as técnicas do plantio. Mas agora, sozinha, queria correr mundo. Muito lhe estimulava as mudanças de paisagens e cenários que suas andanças lhe proporcionavam. Notava que em algumas regiões, a árvores eram mais altas que em outras; mudavam as cores e as formas das flores, frutos diferentes eram encontrados, na medida em que se afastava da terra natal, de onde havia saído. Os seres vivos não eram os mesmos. Sempre havia algum novo animalzinho, novas possibilidades de caça e os mais variados sabores. No fundo, era uma apaixonada pela grande diversidade que a vida lhe oferecia e lhe saltava aos olhos. A vida só e nômade lhe proporcionou grande agilidade. Desenvolveu muitas habilidades que lhe possibilitaram uma sobrevivência relativamente tranqüila, e, geralmente, enfrentava os perigos com tanta ousadia, que eles foram deixando de se constituírem em ameaça. Até dos homens, trêmulos de desejos e violência, que de vez em quando apareciam e vinham molestá-la, ela sabia se safar. E naqueles tempos selvagens, para sobreviver, alguns mortos teve que deixar pelo caminho. Não devemos nos iludir quanto às facilidades de sobrevivência, neste passado remoto. É bem verdade que as disputas entre os homens naqueles tempos, não eram tão freqüentes quantos nos dias em que vivemos, mesmo porque a espécie não estava tão disseminada, mas como ainda hoje, muitos conflitos, eram resolvidos com sangue. Obviamente estas demandas da vida, deixavam-na abalada, mas por saber inevitável a situação, logo se recuperava a observar as belezas, maravilhas e riquezas que a Terra lhe apresentava.

Quando ainda vivia com a mãe, ouvia as mais variadas histórias e experiências vividas e relatadas por ela. O relato se dava em uma língua, com uma estrutura, completamente diferente de tudo que já vimos, pois dela nada ficou de registro, numa época sem os recursos da tecnologia digital, CDs, mp3, ou sequer um gravador daqueles bem toscos, que quase não mais vemos, aqueles à base de fita cassete, que nem os das gerações mais passadas que ainda vivem entre nós, cultivam seu uso. Infelizmente a história apesar de contar com técnicas cada vez mais sofisticadas para desvendar o passado que se foi, juntar um número cada vez maior de peças de seu interminável quebra-cabeças, algumas, com certeza, estarão, para sempre, perdidas, sepultada de vez, na longa vala do tempo. Qual seja não apenas os sabores, advindos das mais variadas combinações de frutos e temperos, de espécies já muito extintas, ou os mais adocicados e inebriantes perfumes, provenientes de climas e pastagens que há muito, a própria natureza, por motivos que não cabe a nós, simples mortais, compreender, já fez questão se desvencilhar. Se tem algo que provavelmente jamais conheceremos são as línguas que se perderam, e junto delas, um universo cultural gigantesco, povoados de histórias, mistérios, sons, dialetos, cantos e música.

A convivência com a mãe havia lhe proporcionado o desenvolvimento de uma fala muito bem articulada, com uma grande variedade de recursos, que talvez fosse mesmo de surpreender até quem vivesse à época. Consta que a mãe, em um passado ainda mais remoto, quando da sua infância e curta juventude, teve contato com grupos humanos numerosos, e com conhecimento técnicos bem avançados, inclusive fazendo uso de uma agricultura relativamente desenvolvida. Teria pertencido a um grupo de uma tradição cultural complexa, que já contava com uma grande variedade de recursos materiais, utensílios, instrumentos, ferramentas e armas. Talvez tenha sido a herança destes conhecimentos, que lhe tenha permitido sobreviver por tanto tempo em um mundo tão inóspito, e ainda criando praticamente só, uma filha. Esta que sempre fora uma excelente observadora, não apenas do que a sua volta estivesse, mas às infinitas falas a que se dedicava à mãe.

Sentia muita falta dos diálogos que travava com a mãe, pois sua fala sempre lhe pareceu um longo fio a se desenrolar de um baú sem tamanho, repleto de ricos e vastos conhecimentos e mistérios que diante de seus ouvidos atentos iam se revelando. Como aprendia com ela. Além disto, prestava muita atenção em cada fonema, na articulação de cada som, como uns se encaixavam aos outros, gerando uma fala melodiosa, que na maioria das vezes, a levava ao encantamento. A mãe, apesar de toda a rusticidade que era a vida, possuía uma voz bela e suave, a comprovar o desenvolvimento deste rico instrumental corpóreo, já naquela ocasião. Pela manhã, aquela voz a animava, enchendo-lhe de energia e entusiasmo para o dia que estava por iniciar. Noutros momentos, assumia um tom metódico, como quem carrega a preocupação pela responsabilidade de ter um mundo inteiro a ensinar, bem mais multidisciplinar, que nossas mentes contemporâneas, tão habituadas à especialização do trabalho e dos saberes, nos permitem dimensionar. Ao fim do dia, quando vinha a tarde, a noite, a lua e uma multidão incontável de estrelas encobriam o planeta, sua voz tornava-se poética, musical. Eram experiências que ela nunca mais se esqueceu.

Não havia algo que deixasse a mãe mais orgulhosa que constatar a eficácia de seus ensinamentos ou métodos. A filha às vezes, parecia até superá-la, pois além do conhecimento e informações que absorvia, era de uma percepção exagerada. As manifestações e conversas da filha eram muitas das vezes, surpreendentes. A mãe acabava por fazer descobertas, indagações, reflexões, que sequer havia imaginado em seus tantos anos de vida. O mundo ainda estava por descobrir, e naquele ambiente ainda meio selvagem, meio bárbaro, duas cabeças teriam mais utilidade que uma, em um cenário sempre pronto a apresentar novidades, revelações e perigos. Mas alegria maior foi quando a filha, passou a dominar não apenas as habilidades técnicas, mas as técnicas e habilidades da fala. Quando a garota pronunciava o rol de palavras que agora também lhe pertencia, os olhos da mãe se enchiam de encanto e o coração apertava de alegria. Não eram raras às vezes, em que a mãe chorava ao ouvir o que a filha tinha a lhe dizer.

Mas a vida havia mudado. Os tempos eram outros. Já havia alguns anos que vivia só a perambular pelos sempre novos caminhos que seus incertos passos vinham lhe abrindo. Praticamente havia feito a opção de estar a só. As poucas gentes que conheceu em suas andanças, acreditava, não eram daquelas a que talvez valesse a pena compartilhar os dias e os destinos. Os poucos contatos humanos mais contínuos, nada além de alguns poucos dias, que manteve desde a morte da mãe, mais a aprisionavam do que possibilitavam a meta a que havia traçado, sobreviver, e conhecer o quanto mais pudesse sobre o mundo que se abria aos seus olhos e a seus passos largos. Não que fizesse questão de evitar os outros humanos, que raramente lhe atravessavam o caminho, mas os poucos que encontrou não lhe motivaram a estabelecer o que poderíamos chamar de vida em grupo, quando muito, ou no mínimo, uma vida a dois. Era detentora de um rico universo cultural, herdado da mãe e aguçado pelos seus selvagens instintos, que lhe proporcionava um firme senso de autonomia e um pleno gosto pela liberdade. No fundo, não era lá muito afeita a criar amarras, pois sentia ter um vasto mundo ainda a conquistar. Já era de sonhos nossa personagem. A vida não era desprovida de perigos, mas a região, em contrapartida, era muito rica em frutos, dádivas da terra, das águas, e o clima era ameno e parecia estar a serviço de uma vida longa. Não havia paragens onde não pudesse se alimentar à vontade. Frutos de todas as formas, arredondados, achatados, lisos, com espinhos, sobre árvores altas, no mato rasteiro, em todas as partes, que levavam consigo todas as cores que a natureza pôde inventar. Doces, azedos, nutritivos, dos que curam, dos que matam a sede, os que fartam os estômagos, os que enchem os olhos. Alimentos prontos que a terra não cessava de ofertar. A rica e variada dieta havia deixado seus cabelos sedosos e fortes, por mais que a longa exposição ao tempo tivesse a chance de danificá-lo. Era daquelas fêmeas que enchiam os olhos de qualquer macho, entre os velhos ou novos, dos mais fortes aos mais fracos, mesmo daqueles que por sorte, naqueles tempos, matinha-se em dia com suas demandas sexuais. Imagine os desejos e impulsos que algumas vezes tinha que enfrentar, principalmente quando se encontrava com homens sedentos que há muito não viam uma mulher passar diante de si, numa época, em que a humanidade não era lá tão vasta, e onde enquanto muitos eram caçadores, outros tantos eram ainda simplesmente caça. A moça possuía um rico arsenal de pontas de pedra, machadinhas, raspadores, facas e pequenas lanças, os quais estava sempre a amolar, e os manejava com tanta habilidade e rapidez, que garantia não apenas apetitosas refeições, como também sua sobrevivência ante alguns bandos de famintos sexuais. Como já dissemos, muitos desses encontros resultavam em machos estropiados, esfaqueados, que a garota na luta dura pela sobrevivência, degolava quase sem dó. Era dotada de uma força descomunal. Em muitas das ocasiões o enfrentamento, o corpo a corpo fazia-se desnecessário, pois aprendera com o tempo, a domar o inimigo com os olhos. Lançava sobre eles um tão fulminante olhar, que muitos punham as pernas a tremer, e quando não, disparavam a correr assustados, atormentados, sem saber se de fato, tinham visto uma mulher, ou um animal feroz e mortífero, do qual ainda não haviam encontrado.

Por muito e muito tempo viveu isolada, sem contatos com outros dos seus. E diante do silêncio de sua solidão, passou a ouvir os sons do mundo, como pouquíssimos até hoje talvez tenham ouvido. De início, vinham-lhe aos ouvidos, a voz da mãe. Aparecia assim de repente, e parecia repercutir pelos cantos do mundo, repetindo-se em ecos. Nunca conseguia identificar ao certo o que dizia a voz. Mas era a voz bela e suave de sempre, que cantava aos ouvidos e ao mesmo tempo, parecia espalhar-se pela eternidade. Em seguida, ouvia a sua própria, sem que abrisse a boca. Talvez a mesma voz que tinha, quando ainda era uma criança. Nestas ocasiões testava suas cordas vocais para certificar-se que assim como seu corpo havia se desenvolvido, tornando-se tão bela mulher, sua voz também tornara-se estranha aos seus próprios ouvidos. Aí é que percebeu o quão calada havia estado por alguns bons anos. Esta súbita percepção acabou lhe causando algum desconforto, pois pouco usava a voz que tinha. Na ausência de uma família, círculo de amigos, ou um companheiro, resolveu que a partir daquele dia, iria comunicar-se, expressar-se pela fala, com os fenômenos e as coisas vivas, que encontrasse pela frente. Iria a partir dali, relacionar-se vocalmente não apenas com os peixes, as aves, répteis, mamíferos, insetos, com os quais topasse pelo caminho, mas também com o ruído dos ventos, o esgoelar das tempestades, as melodias das florestas, o canto das águas. Daria voz à voz que tinha, e o que se emudecia, iria tornar-se um vasto depósito de sons. E assim se fez. Às vezes, permanecia calada e se punha, silenciosamente, a ouvir. Aprendia a cada dia, os códigos sonoros da natureza, os quais costumamos imaginar secretos, mas só o são, em função da nossa intolerância em querer ouvi-los, desvendá-los. Mesmo porque, a vida nas cidades, que muito posteriormente se desenvolveram, em nada facilitava este contato, muito antes pelo contrário. Os ruídos e as luzes das grandes metrópoles impedem hoje, não só que ouçamos o que tem a terra a nos dizer, como sequer nos permitem lembrar as estrelas radiantes ad infinitum que brilham sobre nossas cabeças. Descobriu a música que havia guardada em cada ambiente, em cada ser que dela se aproximava. Primeiro ela os fitava, olhos nos olhos, depois trocavam sons, sinais. Desenvolveu um universo de códigos sonoros que se sofisticava a cada nova experiência, que poderíamos já chamar de interativa. Ao longo dos anos parecia falar com os trovões, com as flores que se abriam, e talvez por isso mesmo, se abrissem mais belas, entoou o canto dos pássaros, que admirados, passaram, em várias ocasiões, a lhes fazer companhia. Nestes momentos, uma verdadeira sinfonia paralisava todos que carregassem seiva, sangue ou alma. O mundo parava a ouvi-los. Ao se banhar nos córregos cristalinos que atravessavam as terras que ainda não eram territórios, cantava, cantava, como se estivesse a encarnar, o que poderia ter sido uma sereia. Projeto da natureza, quem como hoje sabemos, acabou por não vingar. Alguns pássaros e pequenos mamíferos, muitas das vezes, costumavam acompanhá-la por algumas léguas, presos ao seu canto, até que as novas condições ambientais, de terras desconhecidas, ameaçassem sua sobrevivência, e aí acabavam por abandoná-la. Mas sempre, por onde passava, parecia conquistar a simpatia dos bichos e o sorriso dos céus. Mesmo estando só, parecia nunca o estar. E cantava pelos caminhos afora.

Numa fria manhã em que o céu estava completamente azul, como se alguém houvesse levado para sempre todas as nuvens do firmamento, despertou subitamente, e como se trouxesse algo dos sonhos, que talvez ainda não tivessem de todo se desfeito, decidiu que naquele momento mesmo, executaria uma idéia que parecia ter vindo pronta, sob encomenda. Animou-se. De um salto, levantou-se de sua cama de folhas e ramos, nas quais nunca pernoitava por muitas vezes. Catou galhos de árvores, troncos caídos, cipós, folhas com diversas consistências e envergaduras, deu nós, esticou daqui, puxou dali, amarrou cortou, aparou, e começou a montar o que hoje chamaríamos de instrumento musical. É uma parte difícil da história, pois desconhecemos os detalhes de como este instrumento primordial se fez ou sequer podemos imaginar que tipo de som ele foi capaz de produzir. A moça o admirava com os olhos de quem havia realizado qualquer espécie de mágica e com um considerável instinto religioso. E ficava a imaginar como teria conseguido fazer aquilo. Mas uma coisa é certa: o som daquela coisa, que ora mais lembrava um instrumento de corda, ora um instrumento de sopro, associada aquela voz, agora talhada, afinadíssima, criou algo, que chamaríamos de encantador. Quando soavam os acordes, e aquela voz se propagava no ar, a vida parecia um concerto, o mundo girava harmoniosamente, e a acústica da atmosfera, ressoava-a pelo infinito. Era de fato, um canto poderoso. Infelizmente não havia naquela época, gravadores ou qualquer parafernália tecnológica que pudessem registrar esta música para a posteridade, pois por onde passava aquela moça, seu canto enchia o silêncio de alegrias, e os homens ficavam de bocas abertas e ouvidos estatelados. Devemos registrar que o desenvolvimento desta rica habilidade artística da jovem a poupou de muitos conflitos violentos. Se no passado a moça se livrava dos perigos utilizando inicialmente as armas, e posteriormente até um olhar, acabou por afastar praticamente todos eles, com a música que entoava, com os códigos sonoros do mundo, um instrumento musical único, e aquela voz, como ainda não havia se ouvido. Até os mais selvagens dos instintos animais acanhavam-se em atacar o que lhes parecia incrivelmente belo e prazeroso. Fazia-se mais feliz a vida naquelas paisagens.

Era outono. Numa manhã qualquer, daquele longínquo passado, ao atravessar pela primeira vez, uma infinita planície que se abre após um longo emaranhado de colinas e penhascos, avista ao longe, quase imperceptível, não fossem seus olhos atentos, uma crescente nuvem de poeira, que mesmo distante, parecia se aproximar a cada momento. Paralisa-se. Ainda não havia visto aquilo. O que seria? Um novo fenômeno que a criativa natureza estaria agora a lhe apresentar? Efeito de ventos, tufões, tempestades? Ou eram seus olhos que se ofuscavam diante o clarão do dia, que se refletia das pedras do chão? A nuvem se aproxima. Após um estado de paralisia, que prendeu seus pés firmemente ao solo, agora sente todo seu corpo tremer, dos pés à cabeça. Um repentino calafrio lhe sobe a partir do estômago, o coração acelera as batidas, e o sangue dispara apressado pelas veias. No vasto campo em que estava, o encontro com o desconhecido que se aproximava parecia ser inevitável. Praticamente não havia onde se esconder. Agacha-se por trás de uma trincheira de pedras, e procura forçosamente identificar o elemento estranho que avança rapidamente. Percebe que à frente a cortina de poeira de que se levanta, movimentam-se num ritmo frenético, sombras e luzes, como que a alternar-se. Vem a galope. Seus olhos por fim, começam a delinear a paisagem que se forma apressada. Homens, muitos homens, e muitos cavalos. Nunca os vira, tantos, sejam os homens, sejam os cavalos. Muito menos que montassem uns sobre os outros, e sobre eles tivessem tanto controle e domínio. Os cavalos vinham montados, e incrivelmente alinhados, em quatro fileiras paralelas. Cada uma delas, com cerca de oito homens e oito cavalos. Sentia que o corpo lhe tremia, não era à toa. Correr pela planície, em busca de um abrigo, que provavelmente não encontraria naquelas terras abertas em que penetrara, iria torná-la um alvo fácil. A alternativa seria ficar por ali, e torcer para que o perigo passasse, sem que desse por ela. Sabia que não seria fácil. Deveria encolher-se, calar-se, e evitar qualquer ruído. Assim permaneceu, sem se mexer. Mas seus olhos se arregalavam cada vez que percebiam mais detalhadamente os traços dos visitantes, que a distância escondia. Já havia visto de quase tudo, nestas longas andanças a que havia se entregado. Mas uma formação de homens, cavalos, insígnias e metais, que ora vislumbrava, deixavam-lhe atônita, pasma. O esconderijo que havia encontrado não lhe seria suficiente, estava praticamente a descoberto, por mais que se encolhesse, as pedras não eram grandes o suficiente, e nem possuíam uma formação contígua, que pudesse oferecer-lhe proteção. Mas não perdia aquela tropa de vista. Seus olhos sequer piscavam. Observava cada detalhe. Assustava-se. A organização das fileiras, a velocidade dos animais, o controle de uns sobre os outros, a montaria, os penachos coloridos, que ornavam os corpos, sejam dos bípedes ou dos quadrúpedes, traziam-lhe cada vez mais apreensão. Além do mais, não tinham cara de bons amigos, afinal possuíam uma organização protomilitar, e não pareciam estar em missão de paz. Mais uma vez, pareciam ser mais dóceis os cavalos do que os homens, como em muitas outras ocasiões, já tivera a oportunidade de perceber. A dureza daqueles rostos, em conjunto, galopantes, proporcionavam-lhe uma peculiaridade única, uma natureza férrea, um espírito de pedra. Ostentavam armamentos poderosos, talvez os mais sofisticados que existissem à época. Grandes lanças pontiagudas, afiadíssimas, que os guerreiros portavam com ostentação. Facas, punhais, adagas, todas feitas de um metal, pronto para sangrar, cortar, perfurar, causar dores e sofrimentos sob as mais variadas modalidades. Os homens deixavam-nas à mostra, não apenas para que ficasse mais fácil e rápido seu uso, quando se fizesse necessário, mas também como demonstração ostensiva de força. Às vezes, apenas o medo que impunham, ante a superioridade bélica que apresentavam, já era o suficiente para dobrar o inimigo. O poder parecia tornar-se uma espécie de espetáculo. Levavam às cabeças, elmos ricamente confeccionados, que variavam de tamanho e requinte, conforme a posição que os guerreiros ocupavam em suas fileiras. Os que vinham à frente, portavam elmos de ouro, incrustados com as mais preciosas pedras, que vinham de domínios distantes. Uma larga armadura de bronze protegia seus tórax de qualquer infortúnio, como uma lança de algum grupo inimigo, ou uma flechada, daqueles que viviam ainda, a idade da pedra. Os braços eram cobertos com placas de metal, minuciosamente moldadas com símbolos, gravuras, códigos, que nossa personagem, assustada, sequer poderia imaginar do que se tratasse. Até os cavalos carregavam ornamentos, plumas, distintivos, tornozeleiras, dando mostras claras, que já há mais tempo que se imagina, estas pobres criaturas, já haviam sido subjugadas, pela natureza humana. Os que vinham aos fundos possuíam vestimentas mais modestas, mas ainda assim, vinham armados até os dentes. E não eram raras as situações em que tinham que assumir posições dianteiras, principalmente, quando eram maiores os riscos, mais sanguinários os conflitos e lutas, pois aí deveriam sacrificar-se para poupar o sangue e as vidas de suas lideranças, que passavam a proteger-se na retaguarda.

Por mais que se enroscasse entre as pedras em que se escondia, não foi capaz de escapar à observação vigilante do bando. Ao vê-la, o que ia a frente fez um sinal. Em seguida comunicou-se numa língua, que lhe era completamente desconhecida. O grupo, de uma só vez, como se fosse um único corpo, parou. Aí pode perceber melhor o agrupamento. O homem que ia à frente, o que a havia visto primeiro, era a autoridade maior, o que se podia perceber não apenas em função da relativa exuberância dos trajes, como através do tom da sua fala, que mais estava para gritos, do seu nariz em pé e seu ar de superioridade. Era ainda nítido o olhar de submissão do restante do grupo. Os que iam mais próximos ainda lhe dirigiam a palavra e trocaram breves opiniões. Os que vinham aos fundos, sequer encaravam-no nos olhos. Mas ainda assim, pareciam orgulhosos, de peitos inflados, convencidos, que eram de fato, peças importantes da missão. Lá bem atrás dos últimos homens a cavalo, o que só agora podia ver, havia um grupo de cinco homens feridos, amarrados uns aos outros, pelos braços, pernas e pescoços. Prováveis escravos ou prisioneiros de guerra. Era um mundo desconhecido para ela. Os homens encaram-na com olhos de desejo e os que iam mais à frente, se preparam para pular dos cavalos e irem ao seu encontro. Pareciam ter pressa em tocá-la. Quando as coisas caminhavam rumo a uma fatalidade, ela então resolveu recorrer ao recurso que tantas vezes já lhe havia salvado. Controlou o medo que insistia em estrangular-lhe a garganta, buscou encher de ar seus pulmões, como a revitalizar as energias, molhou os lábios, e pôs-se a cantar . E ao cantar, fez-se forte. Sua voz repercutia ao longe, quase a preencher o espaço. Aves coloridas sobrevoaram suas cabeças cortando o céu, respondendo ao clamor daquele canto, as nuvens suavemente se abriram, deixando mais claro aquele momento, uma sinfonia de luzes e notas musicais insistia em dominar o mundo. Os homens contiveram seus passos. Enquanto ouviam aquele canto permaneciam inertes, paralisados, como estátuas. Seus olhos grudavam-se nela. Sequer arriscavam-se, num primeiro momento, a olharem uns para os outros, como se não quisessem perder um segundo sequer, daquela melodia, que certamente, ressoaria para sempre nos recônditos de suas mentes, em lembranças e memórias. O céu se abria e fechava, como se tivesse a encher de efeitos especiais algum espetáculo da natureza. Os homens arrefeceram seus ânimos. Aos poucos, a musculatura e os nervos dos corpos relaxavam ante a música que invadia os ouvidos. Suas feições tornaram-se menos duras e tensas. Naquele breve instante, sentiam-se magicamente descontraídos e felizes. O comandante em chefe arregalou os olhos, como se estes fossem saltar de suas órbitas. Quem por ali passasse, poderia imaginar que aquele amontoado de homens e cavalos, já há muito fora de seu tradicional alinhamento, fosse um grupo de perdidos e desorientados. Como se não apenas houvessem se esquecido para onde iam, mas também de onde haviam acabado de vir. Não arriscavam uma palavra qualquer, continham as tosses, pigarros e espirros, pois de alguma forma, aquele canto mantinham-nos em estado de graça. O comandante em chefe arrisca dois passos, afinal, tem que mostrar aos subalternos, que ainda é dele a iniciativa naquele lugar. A música chega ao fim. Ela abaixa os olhos e uma nuvem escura ofusca o sol, subtraindo o excesso de luzes que iluminava aquele episódio. Um vento forte faz revoar as crinas, os rabos dos cavalos, as plumas, penachos, estandartes, e os cabelos dos homens presos entre couraças e laços, parecem querer arrancar de suas metálicas cabeças. Os cabelos da moça taparam seus olhos, como se quisessem ocultar-lhes o destino. O comandante em chefe dá ordens para que se afastem os outros. Arranca o elmo e a placa de bronze do peito, faz baixar a guarda e aproxima-se lentamente dela. Ela fita-o, imóvel. Procura manter as batidas do coração que estão a estourar-lhe o peito. O homem aproxima e toca o seu corpo, suas mãos percorrem cada curva, como a conferir os detalhes das dimensões e formas. As mãos acariciam seus cabelos, correm pelo pescoço, alisam seus seios e tocam suas intimidades e entranhas. Devido à presença de seus homens, que o observavam de longe, achou inadequado possuí-la ali, não só por considerar que estas intimidades e taras não devem se revelar aos olhos dos subalternos, como havia ainda o risco de estimular desejos contidos, a libido daqueles homens de ferro, que poderia despertar paixões, que viessem alterar o rumo da história, quebrar a ordem das coisas. Seria melhor não se arriscar. Resolveu levá-la para si.

A moça esperneou, gritou, arranhou, mordeu, mas não pode com a força daqueles brutamontes. O instrumento musical, que chegou a usar para tentar proteger-se, acabou partindo-se em vários pedaços e ficando para trás. Eles amarraram-na e o comandante em chefe decidiu que aquela fêmea seria dele, fruto de uma vida de conquistas e expropriações. Um espólio de guerra, um troféu. Assim o fez. Fez questão, ele mesmo, de levá-la em seu próprio cavalo, por sob suas garras. Após uma cavalgada de algumas poucas horas, finalmente chegam ao destino. Estavam de novo em casa. Viviam estes homens, num estágio civilizatório, onde não apenas dominavam as artes dos metais, como já conheciam a propriedade privada. Possuíam vastos campos cultivados e fartos rebanhos que pastavam às margens de um caudaloso rio. Para garantir seus territórios, não apenas mantendo-os, mas ampliando-os, recorriam sempre à guerra. Talvez fosse mesmo sua maior especialidade. Os saques e pilhagens eram parte de seu ofício. Acumulavam luxos e tesouros. Os trabalhos pesados com as plantações, com a foice, enxadas e facões eram dados a homens muito maltratados que eram, na maioria das vezes, capturados nas incursões militares. Aos quais restava ainda o trabalho nas construções, nas oficinas, estalagens, as tarefas domésticas e as bajulações a que faziam questão os seus senhores. Estes, fora a guerra, se é que assim realmente podemos chamar, o que mais se constitui em assaltos organizados, dedicam-se vez ou outra às caçadas, o que muito contribuiu para o espírito guerreiro daquelas elites primitivas. Mas de volta às suas terras, gozam uma vida de prazeres, com muita festa, bebidas, orgias e farturas.

Caso alguém que a conhecesse em outras circunstâncias, a visse presa naquele local, jamais imaginaria ser a mesma pessoa. Suas mãos estavam trêmulas, a face pálida, como se o sol não mais se pusesse a pino. Os olhos pareciam encharcar-se irremediavelmente. É como se a história houvesse passado rápido demais diante deles. O comandante não tinha pretensões de deixar-se livrar de sua mais nova conquista. Manda os escravos construírem uma grande gaiola de ouro, onde iria mantê-la, quando não estivesse por perto. Naquela primeira noite, ele a leva para um cômodo, repleto de aromas e decorações, um lugar luxuoso e confortável, com tecidos finos, lençóis e almofadas, confeccionados para redimensionar os prazeres. Ela mantem-se calada, encolhida. O odor daquele ambiente, somado ao suor daquele homem sobem-lhe as narinas, causando-lhe náuseas. Falavam línguas estranhas e não lhes parecia haver comunicação possível. Causava-lhe nojo as palavras, que não queria compreender. Ele tornava-se indelicado no gesto. Ela não lhe emprestava o olhar. Atirou-a sobre a cama, arrancou o manto que lhe fazia as vestes, e penetrou-a, abruptamente. Ela sangrou. Fez-se escrava. Ele exigiu que cantasse pela manhã. No dia seguinte, mostrando a eficácia, que o comandante exigia de seus artesãos, sua gaiola estava pronta, dourada, entre a cama e a janela do quarto. Ele não tinha dúvidas de que era ali que deveria mantê-la. Ali ela passou o resto de seus dias, mas a voz e o canto nunca mais lhe saíram à garganta.




Marcos Vinícius.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Brincam os garotos.


Brincam os garotos


Estavam reunidos os três, já entediados com suas brincadeiras rotineiras, quando resolveram encontrar uma forma de conhecerem melhor aquele vizinho da rua ao lado, que há pouco menos de um ano havia se mudado para a região. Afinal, parecia um sujeito simpático, e certamente, talvez trouxesse algum novo brinquedo ou algo, no mínimo, diferente, daquela terra distante, de onde sequer, haviam ouvido falar. O maiorzinho, ainda insistia na forra daquelas bolinhas de gude, que havia perdido no dia anterior, para o mais novo deles, que por sua vez, preferia já o jogo de cartas, que muito o fascinava, com seus reis, valetes e rainhas. O do meio insistia em que deveriam no dia seguinte, convidar o novo vizinho para um jogo qualquer. O sotaque que o recém-chegado trazia, despertava mesmo a curiosidade nas redondezas, onde a maioria das pessoas, principalmente os mais jovens, ainda não tinha visto aquilo. Sabemos o quanto a convivência com quem vemos como diferente, estranho, curioso, pode nos fascinar ou proporcionar graves incômodos, pelas mais diversas razões. Os garotos então, resolveram, que iriam, no outro dia, ainda pela manhã, à casa daqueles forasteiros, não só para conhecê-los, e mais ainda, para tentar conhecê-los melhor que qualquer outro na vizinhança. Feito.

Logo cedo, se encontraram e se dirigiram à casa do menino. Pelo caminho, discutiam os três, qual seria a melhor estratégia, para melhor conhecer o convidado. O que ia à frente, o mais alto, sugeriu, que de início, perguntassem de onde havia vindo, falariam um pouco de suas vidas e preferências, e depois pediriam a ele, enfim, que falasse da sua própria. O que ia ao meio, sugeriu que deveriam tentar, no mesmo dia, entrar em sua casa, conhecer seu quarto e seus brinquedos. De quebra, poderiam conhecer parte da família, aquela irmã bonita, que muito desperta a atenção dos rapazes, e aquele cachorro esquisito, cuja raça, nunca haviam visto por estas bandas. O caçula desaconselhou as propostas dos colegas, dizendo que com idéias como estas, iriam assustar o garoto, e aí perderiam, não apenas a viagem, mas também a oportunidade. O que faremos, então? Indagaram os outros. A idéia do menino era convidá-lo para uma brincadeira, onde estivesse em suas mãos o destino dos outros, por que aí, imaginava, discutiria com eles, nas entrelinhas ou explicitamente, o que do outro mundo, que fatalmente desconheciam, ele trazia consigo. Mesmo não entendendo muito bem, o que pretendia com tal sugestão, e olhando meio desconfiados o pirralho, resolveram apostar na idéia e ver no que ia dar. Afinal, a perspectiva de possuir algum poder, mesmo que de brincadeira, para muitos, pode ser mesmo algo irresistível, irrecusável.

O garoto topou a brincadeira, que consistia no seguinte: durante aquele dia, enquanto juntos estivessem, ele seria responsável pela sobrevivência do grupo, não que tivesse que mantê-los, diríamos, as suas custas, mas deveria ser a liderança capaz de criar alternativas, para que todos, sob seu controle pudessem não só ter um dia melhor, mas se divertirem com as novidades que o novo colega, certamente conhecia. Era a idéia original. Como se naquele dia, tivesse sido eleito para a função de rei, o líder entre eles. Queriam conhecer os garotos os hábitos da terra mágica da qual acreditavam ter vindo o vizinho. O garoto, ao entender então, o convite, entusiasmou-se, pediu um minuto, e imediatamente voltou, com uma blusa um pouco mais nova, que já algum tempo, estava pendurada no cabide. Pegou um velho distintivo que guardava na gaveta e aprumou-o ao peito. Passou rapidamente pelo espelho e sentiu-se maior, seus olhos estavam cheios. Inexplicavelmente, sentiu-se corar. Mas por que diabos estavam os garotos a lhe fazer tal convite? Mas não se fez de rogado, e afinal, também estava disposto a se divertir, além do mais, aqueles três não eram lá o que se possa chamar de ameaçadores, e já os havia visto sempre por aí, pareciam mesmo serem boa gente, e tinham os moleques, jeito de bem intencionados. O rapazinho não quis perder tempo. Desceu correndo as escadas e reencontrou os vizinhos.

Ao certificar-se que de fato, os garotos não iriam lhe causar qualquer tipo de mal, teve repentinamente uma idéia. Lembrou-se da nota de cinqüenta que há uns dias guardava em um pequeno livro de cabeceira. Pediu aos novos colegas mais um minuto, rapidamente correu até a casa, e sem que o vissem, meteu o dinheiro no bolso. Voltava feliz e animado. Ao longo de um dia inteiro, ele se divertiu. Quem estivesse observando de longe, talvez imaginasse que fosse o exemplo do bom amigo e do espírito de solidariedade. Gastou quase a totalidade do dinheiro que levava no bolso com os três. Pagou sorvetes, pipocas e refrigerantes. Um brinquedo no parque para cada um deles. Mas a façanha, porém, não saiu de graça para os outros. Ele os fez pagar, ainda que não lhes cobrasse qualquer dinheiro. No entusiasmo que a circunstância lhe apanhou, praticamente reinou de fato, sentiu-se grande. Os garotos acabaram, a contragosto, se subjugando, pois não era todos os dias que alguém lhes custeava tamanhos prazeres, e além do mais, havia sido deles, a idéia. O rapazinho, em contrapartida, lhes cobrava todos os tipos de mimos e bajulações. Deveriam os garotos carregá-lo aos ombros, limpar os seus restos, tirar-lhe a poeira dos sapatos. Era a regra. O pacto. Afinal, cabia a ele, dar as ordens, que vinham muitas das vezes acompanhadas de gritos e safanões, pois acreditava que tais arrogâncias eram parte do papel que lhe fora atribuído. Por fim, divertiu-se o garoto, os novos colegas resignaram-se, e na carência de dias melhores, resolveram subestimar a humilhação. O dia terminou. O forasteiro jamais iria esquecê-lo. Os meninos nunca mais lhe bateram à porta. Por muito tempo se perguntaram se teria sido o mesmo garoto, se o convite fosse outro.



Fim.


Marcos Vinícius.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sobre a mentira


Sobre a mentira



No dia 18 de setembro de 2008, José Saramago, publicou em seu blog um artigo, onde afirmava que “George Bush expulsou a verdade do mundo para, em seu lugar, fazer frutificar a idade da mentira. (...) honra lhe seja feita ao menos uma vez na vida, há no robô George Bush, presidente dos Estados Unidos, um programa que funciona à perfeição: o da mentira. (...) A sociedade humana actual está contaminada de mentira como da pior das contaminações morais, e ele é um dos principais responsáveis. A mentira circula impunemente por toda a parte, tornou-se já numa espécie de outra verdade. (...) a mentira como arma, a mentira como guarda avançada dos tanques e dos canhões, a mentira sobre as ruínas, sobre os mortos, sobre as míseras e sempre frustradas esperanças da humanidade”.


Após ler estas palavras, voltei a relê-las outras tantas vezes, fiz cópias, distribui entre pessoas mais próximas e colei-as em alguns poucos lugares públicos. Desde então, as palavras não mais me saíram da cabeça. Nunca imaginei poder encontrar definições tão exatas, não apenas sobre a roupagem da qual se traveste a mentira em nossos tempos, mas também como se configuram estes mesmos tempos a partir das mentiras que carregam e são. O autor abre uma perspectiva, fundamental, para que possamos compreender um pouco mais profundamente não apenas o mundo em que vivemos, coabitamos, mas também, a humanidade que somos. O fenômeno da mentira, não das pequenas mentiras, mas das mentiras grandes, aquelas que arrastam povos inteiros, ceifam vidas, criam ódios e guerras, vai se tornando um elemento cada vez mais comum, repetitivo, sistemático das bases de nossa civilização global. As grandes mentiras, se observarmos bem, cercam-nos a todos, em uma tendência mundial.


A mentira, enquanto fenômeno, encontra-se tão disseminada, que por mais que sejamos atentos, estamos sempre a ser enganados. Os veículos das grandes mentiras são muito poderosos e viajam pelo mundo com blindagens indestrutíveis, a serviço de negócios inconfessáveis, geralmente em defesa de interesses de governos ou das grandes corporações privadas, dos setores financeiros, dos oligopólios. A mentira tornou-se estrutural. Jamais poderia imaginar que as brincadeiras de infância, associadas ao inocente primeiro de abril pudessem esconder uma perversidade absoluta, em que poderia a mentira se transformar. Vivemos sob a ditadura da mentira. Quem pode acreditar nos discursos dos governos? Os governantes de plantão, geralmente a serviço do grande capital, transformados em gerentes e marqueteiros, querem nos fazer acreditar que mergulhamos nos melhores dos mundos, quando nos afogamos, populações inteiras, em desempregos e misérias. Querem nos fazer acreditar que não há outras alternativas, que não as deles, ou dos interesses escusos, onde muitos, são testas de ferro. As grandes organizações e organismos multilaterais fundamentam-se sobre princípios de falácias e engodos.


De certa forma, a mentira acaba por criar uma nova estrutura de poder e uma nova cultura também. Tornou-se recurso universal, imprescindível de quem detém algum poder de fato, sejam os poderes maiores, em escala global, sejam nos níveis intermediários, ou nos níveis mais individualizados e próximos, onde um indivíduo está para exercer o poder sobre o outro. É como se a mentira funcionasse como um amplificador de poderes, pois quando estão a mentir, e tem o domínio, a mentira passa a ser a verdade, sobre a qual tem o controle. Os grandes veículos de comunicação mentem o tempo todo, enganam as crianças, enganam a nós, com suas meias verdades, omissões previsíveis, táticas, distorções, deturpações, ilusões fáceis. Querem transformar a todos em dóceis consumidores, nada além de força de trabalho e consumidores de entulhos e supérfluos, não-pensantes. Querem transformar-nos em massa de manobra, currais eleitorais, e compradores da fé. Descobriu-se o quanto pode se lucrar com a mentira e ela fez-se grande, disseminou-se. Há saída? É o que devemos buscar. Talvez um bom começo seja recusando-nos a sermos cúmplices, descosturando a cada dia o manto que caiu sobre nós. É necessário estarmos de olhos abertos, tatearmos nas trevas, para perceber que as maiores mentiras são as que nos apresentam como as únicas verdades ou para descobrir a verdade que há por trás de uma grande mentira. Não dá para cochilar. Obrigado Saramago, por manter a vigília.


Marcos Vinícius.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Breve viagem à Diamantina.




Breve viagem à Diamantina.


Existem ocasiões que exigem ser, de alguma forma, retratadas, seja para que possamos sempre voltar a contemplá-as, seja para guardar alguma memória de nós mesmos, para que possamos, posteriormente, lembrar de quem fomos um dia, ou quem sabe, para que possam lembrar de nós, quando por aqui já não mais estivermos. Existem ocasiões que exigem algo além das fotografias. Não que estas não sirvam para nos trazer as boas ou as más recordações, mas que podem não ser o bastante, quando se pretende recorrer não só às lembranças visuais, mas também aos sentimentos e sensações que se teve, ou pelas quais se foi tomado, quando se conheceu alguma nova localidade. Após a viagem à Diamantina, cravada na Serra do Espinhaço, torna-se irresistivelmente tentador transformar em linhas de palavras, a trilhas percorridas, entre as montanhas, serranias, cursos d’água, rastros do passado, que magicamente vão se abrindo diante de nossos olhos, admirados. É como se não se tivesse sossego, diante dos fatos que não querem se dar por esquecidos, e que exigissem de nós que os registremos além das fotos de nossas câmeras digitais. Escrever sobre uma viagem é não só revivê-la, de forma intensa, mas também recheá-la com novos significados, redescobrindo-a.


Natural, mineiros que somos, que fiquemos, quase todos, maravilhados diante da beleza inigualável do mar e do calor das praias e das cidades litorâneas. É comum, principalmente, em períodos de férias, deslocar-se uma fatia bastante significativa da população do Estado, para as paradisíacas praias que se estendem por todo o litoral brasileiro. A grande peregrinação dos mineiros ocorre no verão. As estradas, vias de acesso ao litoral do Espírito Santo e Bahia, para não se ir mais longe, ficam ininterruptamente entupidas, os acidentes automobilísticos se contam aos montes, resultado não só da imprudência dos motoristas, mas de uma demanda do mercado, com seus carros velocíssimos, e rodovias, completamente entregues aos buracos. É plenamente compreensível, no entanto, o desejo pelo mar, com sua espuma, que nos roça freneticamente os pés, e suas ondas que nos levam ao deleite. Quem não quer estar à beira-mar, curtindo o sol do verão, tomando uma cerveja gelada, ouvindo o quebrar das águas, o canto das sereias, e o rebolado das ninfas, que seminuas, desfilam com suas tatuagens coloridas, os seus piercings, com os cabelos ao sol e ao vento? Mas o que muito me impressiona, é como muitos destes cidadãos, que a cada ano lotam as praias mais próximas e as mais distantes também, morrem sem nunca terem voltado os olhos para o que de tão valioso temos cá guardado pelo imenso coração da antiga Capitania das Minas Gerais. Visitar as serras que se estendem para além da Serra do Cipó, e penetrar pelas pedrarias do Espinhaço, pode ser uma viagem, da qual por mais que a façamos e retornemos, sempre por lá ficará, um pedaço de nós.



Partindo de Belo Horizonte, são muitos os caminhos e roteiros que nos introduzem nos encantos, do que pode ser considerada a única cordilheira do Brasil. A Serra é bastante longa e se estende por mais de 1000 km de extensão, sublevando os territórios de Minas e Bahia, como uma gigantesca flor de pedras, que se levanta com força da Terra, não só proporcionando aos olhos uma imagem inusitada, como se noutro mundo estivéssemos, principalmente para os marinheiros de primeira viagem, tão acostumados aos caminhos do litoral, como nos ofertam com uma infinidade de histórias, que realmente, apenas amplia a nossa condição de viajantes. São muitos os roteiros que nos permitem abordá-la, partindo aqui da região metropolitana. Nossa primeira viagem, dentre outras que virão, tem com destino, Diamantina.


Tem início a viagem. Após um percurso de cerca de 300 km, a cidade se abre, principalmente para os que ainda não a conhecem, como uma alternativa bem desafiadora, como penetrar pelos mistérios do passado, desvendar seus traçados de ruas, com seus becos estreitos, seus imensos casarios, suas pesadas portas e janelas, que tantos segredos guardaram do tempo e dos homens, sentir sua altitude, e o espírito de uma cidade, cravada no meio das pedras. Infelizmente o tempo de que dispunha era bastante exíguo, para explorar sequer uma pequena parte das riquezas que o local oferece. Não foi desta vez que pude conhecer as cachoeiras da Sentinela, do Barão, dos Cristais, da Toca, Batatal, das Fadas, do Telésforo, e também não foi desta vez, que as portas das antigas igrejas dos séculos passados, se abriram para mim. As cachoeiras não puderam ser conhecidas porque o tempo não o permitia, dado o propósito do roteiro já traçado, ambicioso, não só pelo tempo curto, mas também para uma grana contada. Quanto às igrejas, confesso que me senti um pouco frustrado. Antes de seguir viagem fiz uma lista com muitas delas como, Basílica do Sagrado Coração de Jesus, Igreja Matriz de Sant'Ana, Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, Igreja de Nossa Senhora das Mercês, Igreja de Nossa Senhora do Amparo, Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Igreja de Nosso Senhor do Bonfim dos Militares, Igreja de São Francisco de Assis, Matriz Metropolitana de Santo Antônio. Tinha como objetivo conhecer algumas delas, mas encontrei abertas apenas as portas desta última, que fica no centro da cidade, em frente à antiga morada do inconfidente Padre Rolim, hoje Museu do Diamante, sobre o qual se falará à frente, e a Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. A primeira, uma igreja imponente, teve sua construção concluída em 1932, já a segunda, como a maioria delas, data do século XVIII. O interior desta Igreja é realmente de encher os olhos. Todos os cantos do templo dão uma demonstração inequívoca da riqueza e prosperidade da época. Belíssima pintura de teto, trabalhos em talha dourada, esculturas magníficas, quadros, o corpo de Cristo sobre o altar-mor, uma arquitetura plenamente voltada ao sagrado, criam um ambiente em que os fiéis possam sentir não apenas todo o peso da onipresença de Deus, como também o luxo e a faustuosidade que os diamantes proporcionaram, o poder e grandeza, dos quais puderam usufruir alguns poucos homens. Nos fundos, um pequeno cemitério, edificado nas paredes, repletas de gavetas. Gavetas que certamente, guardam os restos, se é que ainda existem, daqueles privilegiados, que puderam comprar um território supostamente eterno, onde pudessem estar infinitamente sob a proteção dos anjos, santos e da casa do Pai. O nome dos mortos gravados nas pedras, nos mármores, são manifestações explícitas do desejo humano de se perpetuar. Os nomes lá estão, praticamente intocáveis, acompanhados das datas de nascimento e morte, com as cinzas do tempo, desafiando a brancura do mármore. São mortos antigos, e o que mais terá restado deles, além dos nomes que lemos?Infelizmente, não pude permanecer tempo suficiente na cidade para descobri-lo. Mas o que desperta mesmo a atenção nesta igreja, provavelmente até mesmo a dos mais desatentos, é a localização da torre sineira, na parte posterior, fenômeno bem original e inusitado. A explicação para o feito possui versões variadas. Uns afirmam, que por ter sido edificada a mando de Chica da Silva, ordenou que assim fosse feito, em função de uma lei que vigorava na época, que negava aos negros irem para “além das torres”. Outros dizem que assim o fez, para que o barulho dos sinos não a perturbasse, pois sua residência era bem próxima do templo. Sendo uma coisa ou outra, o que impressiona mesmo é o poder que tinha esta mulher, não só entre os homens, mas também entre as coisas da fé. Lendo depois sobre esta igreja, uma curiosidade, acaba por fazer obrigatório o retorno a ela um dia. Dizem que José Soares de Araújo, pintor do forro de teto da capela, por não ter recebido o valor combinado pela Irmandade, para a realização do trabalho, acabou por acrescentar à obra desenhos dos irmãos, com cara de ratos. Que falta faz um guia nestas ocasiões.



Um local que certamente muito impressiona todos que por lá passam, é o famoso caminho dos escravos. Na verdade, em Minas, são muitos os caminhos dos escravos. A Capitania se encheu deles quando de suas entranhas e rios, aflorava o tão cobiçado metal, que tantas mortes fez, e tanto poder construiu - o ouro. Eram os escravos, quem com suas foices e enxadas, abriam o caminho na mata, entre as serras, cortando rios, para que a riqueza pudesse circular. Foram os seus caminhos que permitiram a tão disputada corrida do ouro, pois sem os seus mortíferos esforços, como as nobrezas, os agentes da Coroa, poderiam entrar, como as pedras preciosas, ouro e os diamantes poderiam sair? De certo modo, podemos compreender que sem o seu sacrifício, dificilmente o denominado século do ouro poderia ter tanto esplendor. Hoje, no Estado, os caminhos abertos por eles, são ironicamente chamados de Estradas Reais, e apesar de servirem de fato, à época, aos interesses da Coroa, do Rei, possuem, ainda hoje, força, imortalidade e exuberância, provenientes talvez do sangue ao longo delas derramado e do sal e suor, que durante anos e anos, foi se escorrendo caudalosamente dos corpos doloridos e sendo depositados nos veios da terra devassados. Neste sentido, é muito ilustrativa a visita ao caminho dos escravos, em Diamantina, talvez o mais conhecido deles em toda a região. Trata-se de uma estrada enorme, comprida, larga e espessa, que ligava à época, Diamantina a Mendanha, toda feita de pedras, meticulosamente encaixadas umas nas outras, pelas mãos dos escravos, e fincadas numa terra inóspita em meio às montanhas. Uma estrada que mostra aos olhos mais atentos, como foi dado também aos homens, o dom de operar milagres, claro, que não daqueles que se executam com preces, orações ou rituais mágicos, mas como fruto de um trabalho árduo, exaustivo, duríssimo, e sem o recurso da parafernália técnica e das sofisticadas máquinas que temos hoje à nossa disposição quando dos grandes trabalhos de construção. Deviam as autoridades, colocar um anúncio bem à entrada da cidade “Visitem os museus, os monumentos, as igrejas, as obras de arte, mas em hipótese alguma, deixem de conhecer o caminho dos escravos”. Porque ali, naquela estrada toda feita de pedra, e com certeza, muito sangue e suor, não há como não sentir a história pulsar, pois no silêncio do tempo, o vento das montanhas parece trazer os gemidos dos pobres, que enterraram suas vidas, entre as pedras de um caminho, que talvez, sequer soubessem, onde ia dar. A marca do choro nas pedras, parece a todo o momento, em choro, querer outra vez se transformar. Todos que vão à Diamantina, deveriam ir ao local. A visita deveria ser obrigatória, incluída nos currículo de todas as instituições de ensino. Não há lição melhor não só da história local, como da história do mundo. Aqui se percebe e se sente talvez o que já se saiba, mas ainda não tanto. Poderia se dizer, que também nas igrejas monumentais, se vê muito do seu suplício, o que é correto, mas ali, a impressão que se tem é que a obra de Deus ofusca um pouco a obra dos homens. Ante o esplendor das construções e as sombras e luzes divinas, o esforço humano parece ser nada. Enquanto na estrada, os blocos de pedras são menores, interpostos uns sobre os outros, numa grande teia de rochas, com argamassa humana e incrustada no chão, os templos são construções para o alto, edificações, com gigantescos blocos de pedras, empilhados, montados a dar a dimensão dos céus e a grandeza de Deus. Se quiser sentir mais de perto, o quanto pôde ser dura a vida destas pobres bestas humanas, o caminho, além de caminho, é parada obrigatória, pois ali, mais que em qualquer outro lugar, a história parece não querer se tornar o passado. Os espíritos dos mortos parecem querer dialogar. Ao suspirarmos, ficamos à dúvida, se o fizemos nós mesmos, ou se um sussurro do tempo veio a nos contar um segredo.


Os lugares por onde passamos, passam a viver e existir também dentro de nós, mesmo que lá já não mais estejamos. Vão se constituindo em memória e como pequenas pedras de um intrincado mosaico vão formando a imagem reveladora que temos do mundo, e a imagem que temos de nós mesmos. Nunca mais seremos o que fomos, quando uma nova paisagem for descortinada, quando uma nova história for contada ou descoberta. A humanidade vai fazendo das coisas o que são, e vamos sendo quem somos, a partir do que as coisas e os lugares vão fazendo de nós. Assim é cada viagem, assim é cada canto do mundo, quando olhado de frente, à olho nu. Os lugares vão deixando suas impressões, impressionando-nos. É interessante o relato sobre a viagem feita, pois, em última instância, é uma forma de refazê-la, retê-la. Uma maneira de estarmos não-estando, voltar pelos mesmos caminhos, porém com novas possibilidades, o caminho pode então, ser visto do alto, pois visto agora à certa distância, a partir da visão do conjunto que na mente se formou, que não tínhamos quando da primeira vez. O relato acaba por abrir pois, novos caminhos nas fronteiras do nosso entendimento. Claro que nos esquecemos de muito do que se viu, mas também resignificamos o que há muito já poderia ter se esquecido. Arrisco-me a afirmar que os caminhos são não apenas as pedras e o pó que a terra levanta, as cercas esticadas, as matas rasgadas por trilhas, as indicações, as curvas, os buracos e o barro, mas são antes de tudo, o que buscamos por eles. Os caminhos que fazemos acabam por fazer a nós e, geralmente, não tem fim. Quando imaginamos que mais não há, sempre uma trilha escondida reaparece por sob os pés, uma nova direção ou sentido, sempre havendo algum novo lugar para se chegar. Por mais que andemos, nunca andamos tudo, e a Terra parece, nunca terminar.



Mas o passeio desta vez não é longo, três dias apenas, e ainda temos o que andar. Infelizmente, como já foi lamentado acima, o tempo é bem curto em relação ao que se tem por ver. E muita coisa, descobertas que não fizemos, ficará para trás, sem que possamos dimensionar a riqueza que se deixou de conhecer. Sim, em toda viagem, a gente sempre ganha pelo que então se descobriu, e também sempre se perde, por ter deixado irremediavelmente para o campo das nossas ignorâncias, o que de muito importante se colocou pelo nosso caminho, e acabamos, por desviar-nos dele, por nossos próprios passos, passando tão perto. Nunca dá mesmo para se conhecer tudo. Deixemos de lamentos, pois o que se pretende é um relato do que foi visto e sentido, e não do que se furtou ao olhar. Sensação bem peculiar é a que nos é proporcionada pela bela obra arquitetônica do século XIX, o passadiço da Glória, que liga, os dois prédios da Casa da Glória, antigo educandário e orfanato, por sobre a rua, a partir do primeiro andar. Era por onde passavam as internas. Pelo que se conta, o passadiço servia não apenas como meio de facilitar a comunicação entre os prédios, mas também para proteger as moças, dos rapazes que pela rua passassem. Para evitar que pudessem seduzi-las, ou que por elas, fossem seduzidos. Certamente havia suspiros entre os jovens que do passadiço se aproximassem, sejam os rapazes, que vislumbravam as grandes portas e fechaduras de seus possíveis grandes tesouros guardados, a imaginar sabe-se lá o que, ao passar exatamente por baixo, do passadiço onde as virgens, estivessem a sobrevoar como anjos suas cabeças, seja entre as moças, que lá do alto, podiam contemplar sem serem contempladas, e escolher um dos que por baixo de si passasse, para que pudesse ser seu homem, num futuro próximo, ou possuí-la em seus íntimos e guardados pensamentos e delírios noturnos. Sim, havia suspiros pelo passadiço da Glória. Serão os passadiços elevados condenados aos suspiros? O estilo arquitetônico se inspirou na chamada Ponte dos Suspiros, construída na Veneza do século XVII. A ponte tem este nome, porque também ela, tem uma história de suspiros. O nome se deve ao fato da ponte fazer a passagem e ligação entre o antigo Palácio de Governo e a Prisão. Segundo a lenda, os presos ao passarem de um prédio ao outro, dirigindo-se ao cárcere, tinham na ponte sua provável última visão do mundo externo, daí o suspiro. No nosso passadiço, o suspiro que se fez predominar, foi certamente, o suspiro das moças e rapazes, que ardendo-se uns para os outros, não tinham sequer como tocarem-se. Já a ponte deles, testemunha os suspiros de dor e sofrimento, ante a última visão do mundo, que acabou de se perder, que acabou por tornar-se, portanto, intocável. São passagens elevadas, que arquitetonicamente, facilitam o contato, a comunicação, o intercâmbio, mas que na realidade, na sua aplicação prática, ante os métodos da concepção humana, são clausura, encerramento, confinamento e prisão. A genialidade humana parece se manifestar não apenas em sua capacidade de inventar e criar coisas, mas também em sua insistência em sempre querer subvertê-las. A travessia do passadiço foi uma experiência única.


No coração do centro histórico da cidade, faz-se visita obrigatória, o Museu do Diamante, funcionando na casa que pertenceu ao Inconfidente Padre Rolim, considerado um dos mais ricos ativistas do movimento conspiratório. O movimento da Inconfidência é um símbolo da mineiridade, transformando os mineiros em sujeitos da história nacional, proporcionando orgulho em serem os mineiros que são, e aproximando nossas peculiaridades humanas às sagas dos heróis. Mas infelizmente, uma leitura mais cuidadosa dos motivos que de fato levaram nossos ícones rebeldes ao rompimento com a Coroa, reduz um pouco a grandeza do ato. Na maioria dos casos, homens da elite, beneficiários da estrutura escravista, grandes proprietários, viam na autonomia do Estado, não uma forma de construir uma nação nova, com distribuição de riquezas e trabalho livre, mas a possibilidade da construção de um sistema político, onde pudessem tratar diretamente de seus interesses privados mais imediatos, sem a ingerência dos agentes da metrópole. Vê-se que a concepção de liberdade, que tinham nossos inconfidentes, era bem limitada. Na verdade, a Inconfidência, foi um grande movimento ou fato, que de fato, não chegou a acontecer. Os agentes do governo se adiantaram aos rebeldes e estrangularam o movimento. Defendem os historiadores, que o movimento ocorrido na Bahia, pela mesma época, com o mesmo desfecho, a derrota, conhecido com Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, foi um movimento de caráter mais popular, com participação social mais ampla, e com referências à questão da propriedade da terra e o fim da escravidão. Cabeças rolaram por lá também. Enquanto por aqui apenas Tiradentes foi morto, enforcado, na Bahia, alguns anos depois, foram cinco os condenados. Um deles escapou da execução, pois conseguiu fugir e nunca mais foi localizado. Enquanto partes do corpo de Tiradentes, esquartejado, foi fincado em diversas cidades por onde fazia sua propaganda subversiva, as cabeças dos baianos ficaram expostas pelo centro de Salvador por cinco dias, para o terror da população, que teria à prova a inclemência da Coroa com os seus súditos infiéis. Mas não estamos aqui a tratar de uma narrativa histórica, mas apenas de um rápido passeio a que me permiti fazer aqui pelas franjas da serra do Espinhaço, tendo como porta de entrada, Diamantina. Para os padrões nacionais podemos dizer que o Museu dos Diamantes é um grande museu, e maior ainda acabou por ficar, com a entusiasmada orientação de uma guia, que demonstra uma grande satisfação ao contar para os turistas admirados a história da sua terra. Bom são os guias quando nos fazem imaginar que ao dialogarmos com eles, dialogamos diretamente com o passado e a história. Existem guias que podem tornar uma visita a um museu, uma viagem grandiosa e inesquecível. Felizes de nós. No prédio, vemos equipamentos ligados à extração diamantífera, diamantes, balanças, artigos religiosos, armas, correntes para escravos, instrumentos de tortura, mobiliário, máquinas de escrever, privadas, ferros de passar, dentre outros. O que sempre impressiona são os ferros que aprisionavam e torturavam escravos, é como se o sofrimento, as dores, os cortes, o sangue, o suor, que eles haviam causado, os deixassem impregnados de alguma humanidade. Os objetos desta sala, talvez sejam os que mais falem por si mesmos, dentre todos os outros espalhados pelo museu. É a sala onde talvez menos se façam necessárias as palavras, para que se compreenda o que cada uma daquelas peças possa significar. A liteira exposta no maior salão do museu, já bem danificada, nos permite vislumbrar não apenas a suntuosidade em que viviam os que tinham capital e poder, mas a condição mesma em que um ser humano pode literalmente se transformar em um verdadeiro “burro de carga”. As privadas de madeira e gavetões que serviam para o alívio dos proprietários da casa, certamente, aumentavam as condições degradantes de trabalho de quem do ofício deveria cuidar, e transformavam as cidades da época, em centro urbanos não muito aromáticos. O museu é uma ilustração quase viva do que foi Diamantina há alguns poucos séculos atrás.



Como a intenção era conhecer a maior quantidade de coisas e lugares em um tempo sempre próximo do fim, não poderia sair da cidade, sem antes conhecer a curiosa Biribiri. A estrada para o lugarejo é bem diferente de todas as outras estradas que já tive a oportunidade de conhecer. A impressão que temos é de viajar por vários quilômetros sobre uma enorme pedra. O ambiente é árido, a poeira da estrada é branca e o chão repleto de cascalhos. As pedras, de todos os tamanhos, vão se prostrando à nossa frente, por todos os lados, com as mais variadas formações, como que para se afirmarem diante de nós, e mostrarmo-nos que ali são elas quem imperam. Vez ou outra, ouvimos o ruídos das águas e o corpo do córrego se põe à vista. A água é cristalina, e em alguns pontos da estrada, corre bem apressada, perfurando as pedras e oferecendo aos olhos um belo espetáculo. É aparentemente limpa e gelada, principalmente por estarmos no inverno. Neste dia o acesso à Cachoeira dos Cristais estava vedado e uma grossa corrente fechava a passagem. Segundo, pude saber posteriormente, a interdição se deu em função de ataques de ladrões que vinham assaltando os carros dos visitantes. Por mais que já tenhamos visto fotografias de Biribiri, a chegada ao local é uma surpresa. Na chegada, a estrada parece tornar-se mais íngreme e estreita, e a sensação que temos é que um descuido no volante ou um problema técnico qualquer, pode derrubar o automóvel pela serra abaixo. Os que têm medo de altura ou ainda não aprenderam bem a arte de dirigir devem evitar assumir a condução de seus veículos quando estiverem viajando pelas serranias do Espinhaço. Não imagino o que poderia ocorrer a uma estrada destas em períodos de chuva. Mas enfim, o pequeno povoado aparece. Parece uma cidade fantasma, não fossem as reformas pelas quais estava passando para transformar-se em cenário de um novo filme nacional, que irá contar a história de um matador que viveu pela região há muitos anos. O filme, segundo um morador, terá a participação de José Wilker e as filmagens teriam início uns dois meses apenas após a minha visita. O lugarejo foi construído em fins do século XIX para abrigar uma fábrica têxtil e seus operários, viriam a constituir uma das primeiras comunidades fabris do Estado. Sob o controle da Arquidiocese de Diamantina, entre 1876 e 1921, a partir de então, passou para a mão de particulares. O lugar floresceu até o fechamento da fábrica em 1973, e acabou eclipsando-se. Junto com a fábrica, os moradores também se retiraram. O acesso difícil e as longas distâncias dos centros consumidores de seus produtos tornaram o local economicamente inviável. Ao chegarmos, uma placa nos avisa que ingressamos em território privado, o que à primeira vista, soa-nos estranho, por não estarmos acostumados a passarmos por cidades cercadas. A igreja parece ter sido levantada pela iniciativa das operárias que ali viviam e trabalhavam e resiste à ação do tempo. As casas dos antigos moradores hoje são alugadas para os turistas que querem não só o acesso às suas belas águas, mas que pretendem mergulhar no passado, instalando-se num local cuja estrutura física manteve-se aparentemente intocável. Desenvolveu-se, floresceu, depois parece ter perdido a razão de ser, como se vítima de uma morte lenta e inevitável. As casas alugadas possuem certo aspecto de abandono. Ouvi de um morador da região, que o lugarejo estava à venda. Quanto valeria um local como este? Quem o compraria e que destino teria? A conservação e administração de tão rico patrimônio histórico não deveriam estar sob o controle do Estado? A visita a Biribiri, na verdade, trouxe mais perguntas do que respostas e ficamos a imaginar, se nós, simples mortais, teremos ainda acesso a este patrimônio quando ele estiver nas mãos de algum bilionário qualquer. Uma outra questão fica por se saber. Será a denominação do local uma referência à frutinha de mesmo nome? Biribiri, uma frutinha azeda, parente da carambola, da qual pode se fazer suco, doces, picles, temperar carne, tem uma característica interessante e curiosa, suas folhas se abrem ao nascer do sol e fecham-se à noite, para dormir. Como o lugar, que tem hoje suas folhas fechadas, adormece, após o encerramento de suas atividades econômicas, enquanto não chegam os atores, ou não vem os turistas, que não sabemos se poderão despertá-la de um sono que parece eterno. Despeço-me com a esperança de poder voltar um dia, para poder conhecer o que não pode ser visto nestas poucas e rápidas horas em que pude estar por ali. Há lugares que nos obrigam ao retorno. É como se um segredo que tivesse muita necessidade de se revelar não quisesse perder a oportunidade de ter para quem se mostrar, e nós, em nossa pressa humana, insistimos em partir, virando-lhe as costas. Ficamos, às vezes, inconscientemente, com uma dívida com o local, que não pôde se revelar de todo para o viajante apressado. Um dia, terá que se retornar.



Marcos Vinícius.