<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738</id><updated>2011-11-18T10:19:48.986-08:00</updated><title type='text'>Marcos Vinícius</title><subtitle type='html'>Contos e Crônicas</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>36</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-3353226017999647220</id><published>2011-04-29T14:19:00.001-07:00</published><updated>2011-07-12T16:54:52.548-07:00</updated><title type='text'>O achado</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-bD83fMdRQ7Y/TbsredGQ3SI/AAAAAAAAAh8/ggLMSe1v7K8/s1600/Coral_azul.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5601118363772312866" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-bD83fMdRQ7Y/TbsredGQ3SI/AAAAAAAAAh8/ggLMSe1v7K8/s320/Coral_azul.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O achado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alice tamborilava seus dedos sobre a mesa, assim que terminou o último horário de aula antes do recreio. Assim que o sinal soou, as colegas correram para o pátio enquanto ela ficava ali ainda a pensar sobre o que o professor acabara de dizer. Naquele instante não possuía pressa. A mão avançou sobre o lápis, abriu uma folha branca no final do caderno, e pôs-se a arriscar alguns versos. Imediatamente seus dedos corriam ligeiros sobre o papel, e uma estrutura modelada de palavras, em grafite, tomava forma, enquanto Alice repetia-as em voz alta para si mesma, para que pudesse perceber melhor sua sonoridade. Ainda criança, os versos já lhe encantavam. Escreveu uma estrofe atrás da outra, e elas lhe saíam espontâneas, repentinas, com pressa de chegar, aparentemente já prontas dentro da autora, que mais não fazia, que registrá-las no papel. Lia outra vez, e gostava do que ouvia. Em poucos minutos, o texto ficara pronto. Arranca a folha do caderno, dobra-a e a enfia no bolso, não era para ficar ali exposta sobre a carteira à vista de algum colega mais curioso. Era uma aluna aplicada, gostava das aulas de literatura, ciências e geografia. Não apenas por terem ali os professores de sua preferência, mas porque eram as matérias que mais lhe traziam admiração. Gostava de ler os poetas e vibrava ao descobrir o quão grande era o mundo, com suas ilhas, continentes, rios, oceanos e estrelas, ah, como amava admirar as estrelas. Como outras garotas da sua idade, onde o brilho das cidades e metrópoles ainda não as embaçara de vez, e podiam sempre mirá-las, viam nelas sinais dos amores prometidos, das paixões que ainda desfrutariam e das fortunas que lhes proveriam o caminho. Nas aulas de ciências, maravilhava-se com a grande diversidade da vida, que se espalhava pelo mundo e pelos tempos afora. Vivia distante da cidade em um pequeno povoado, e via nas leituras, mesmo ainda em tenra idade, uma grande janela, para os lugares e épocas onde nunca pudera ir. Era sonhadora, generosa e tinha planos. Queria tornar-se uma grande cientista, não apenas para desvendar os grandes mistérios do universo, que os homens ainda não conseguiram decifrar, como usar seus conhecimentos para melhorar o mundo e salvar as pessoas. Era sincera em seus sentimentos e convicções e além do mais, achava-se apaixonada. Não era um sentimento que já havia experimentado, não naquela intensidade. Alguns garotos já lhe despertaram a atenção, achara-os bonitos e carismáticos, mas nada que lhe fizesse o coração saltar aos pulos, como diante dos olhos daquele rapaz. Era algo novo e as maçãs do rosto lhe coravam quando o via passar ou ele se aproximava. A soma de todas as sensações e vivências faziam de Alice uma garota feliz.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Já era tardezinha quando Alice desgruda-se de suas amigas após as aulas e segue para casa. Vai andando sozinha, e uma série de lembranças vem se descortinando à frente, as falas dos mestres, o namorico da amiga que senta ao lado, e as fofocas entre as colegas de sala já do lado de fora da escola. Vai sorrindo quando lembra-se mais uma vez do garoto e dos versos que levava no bolso. Senta-se sobre a raiz de uma árvore frondosa que se colocava ao caminho, e afoitamente, desdobra o papel que já segurava entre as mãos. Outra vez lê aqueles versos, primeiro silenciosamente, depois em voz alta para certificar-se de vez, da musicalidade do texto. Assim que termina a leitura da última estrofe, um pássaro enorme do peito azulado, pousa sobre um dos galhos da árvore e canta para ela. Apesar de viver já há um bom tempo naquela região, ainda não ouvira canto assim. Era um canto forte, alto, lindo, e a sensação que tivera era que cantava não apenas para si, mas para o planeta inteiro, e sentia que o pássaro lhe dera canção aos versos, como se a leitura do poema e a música daquela ave fossem uma coisa só. O peito se enchia de alegrias. Imaginava que onde quer que estivesse, ao ler novamente aquela última estrofe, aqueles sons lhe viriam à mente. O pássaro olha para Alice e passa a observá-la. Tem os olhos fixos, grandes. Em seguida, estica o pescoço, sacode-se, e estica suas duas compridas asas. Alice espanta-se e o pássaro põe-se a voar. Sobrevoa o local, quase em círculo e pousa novamente, agora em outra árvore, em frente, e continua a observá-la. Alice entrega-se outra vez aos seus pensamentos. O sol escondia-se atrás dos montes e uma sombra escura escorria sobre o povoado. A noite havia chegado. Quase prestes a se levantar, Alice pega do chão um galho seco, espalha com ele as folhas próximas de seus pés, e prepara-se para gravar ali uma idéia em palavras que lhe havia ocorrido, um último gesto, antes de abandonar o local. Fricciona o graveto ao chão e começa a arranhar as primeiras letras, eram letras bem desenhadas, e ali mais valia a beleza da caligrafia, do que o conteúdo que pretendia gravar, que se resumiam nas iniciais de seu nome e o nome do amado, o que não havia feito no pedaço de papel. Esta superfície de terra era mais apropriada para o feito, pois podia exagerar no tamanho dos caracteres, dar-lhes formas novas, e ao despedir-se dali, poderia apagá-los com os pés, para que não ficassem vestígios do amor-não declarado, uma vez que não tinha pretensões de tornar público os sinais de uma estimulante paixão ainda não correspondida. Após riscar as duas letras ao chão, amarra-as com um grande coração, envolto de folhas secas e torrões de terra. As letras são gravadas com força, com profundidade, Alice desejava que a Terra fosse testemunha do seu amor, a grande mãe, que não iria traí-la, nem zombar de seu sensível coração. Ao levantar-se, os últimos feixes de luz solar já haviam desaparecido por completo, e o desenho ofusca-se. Leva os pés sobre ele, para apagá-lo. Ao esfregar a terra com as pontas dos dedos, uma faísca luminosa, azulada, desponta sob suas sandálias. Teria a Terra ouvido seus apelos, seria uma resposta, a benção divina que consagraria aquele desejo? Alice fica eufórica. O mundo, provavelmente, conspirava a seu favor, e o manto do planeta havia se tornado cúmplice. Agacha-se para ver mais de perto, e o brilho intenso que vinha do chão, faz arder os seus olhos. Era um azul maravilhoso, uma coisa mágica, um pó fluorescente, que deixou Alice em êxtase. Apalpou-o, espalhou-o sobre os vestígios de suas iniciais que ainda não haviam se apagado, e se enche de esperanças. Que luz seria aquela? Põe-se de pé, e fica de boca aberta, observando, sem palavras, as duas iniciais que brilhavam no chão.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após certificar-se que não havia ficado qualquer sinal de seus nomes, e nem das tortuosas linhas do coração, Alice volta a lhe esfregar os pés e observa que apenas a luz azul continuava a se desprender do solo. Resolve, então, mostrar a novidade para as amigas mais próximas, para que juntas, pudessem resolver o que fazer com aquilo, e quem sabe, poderiam também testar as possibilidades amorosas de cada uma delas, sugerindo que riscassem também seus nomes ao chão, para ver qual dos amores traria um brilho mais intenso, se é que todos eles contassem com a mesma sorte. Na idade que tinham, todas elas levavam a arder alguma paixão no peito. Corre até a casa, seus pais ainda não haviam chegado, toma um banho rápido, pega um pedaço de pão que havia sobre a mesa da cozinha, e posta-se diante do espelho. Estava mais bonita naquele dia. Fica alguns minutos a se contemplar. Tinha os olhos cheios. Olha-se de frente, vira-se, observa cada detalhe das formas. Retira os cabelos do rosto, enrola-o, contorce-o, e prende-o sobre a cabeça, tem o rosto totalmente descoberto. A conjunção dos olhos e a boca, mais o vermelho das faces, proporcionava-lhe uma beleza única. Solta novamente os cabelos, e ali se revela, a mulher quase pronta que nasceria dela, mas a meninice ainda não havia lhe deixado de vez.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antes que os pais chegassem e colocassem algum impedimento à sua saída, corre em disparada para as casas das garotas, para mostrar-lhes a novidade. Em poucos minutos, reúne um pequeno grupo delas e leva-o até a árvore frondosa, sob a qual uma luz azulada que irradiava do chão quebrava a monotonia da noite, deixando em segundo plano o brilho das estrelas, no coração daquelas meninas. Ficaram todas admiradas com o que viam, e como ver só já não lhes bastasse, após rabiscarem seus nomes e os de seus pretendentes sobre o pó brilhante, escavam mais a terra, para arrancar-lhe mais luz. Estavam em festa, e brincavam. Jogavam o pó umas sobre as outras, esfregavam-se nele, era um encontro radiante. Sem qualquer explicação sobre a descoberta, as garotas começam a especular, sobre como a novidade poderia alterar os seus destinos. Uma delas dizia, Acho que mais que muito amadas, nos tornaremos belas princesas, pois quem sabe não encontramos uma fonte inesgotável de riquezas que possa lá valer mais que o ouro? Já até me vejo em castelos, com jóias de todas as cores e brilhos, e não haverá no mundo, mulheres mais cobiçadas que nós. Outra afirma, Ora, mesmo que não cheguemos a tanto, pelo menos, quem sabe, algum conforto poderemos proporcionar para as nossas famílias, pois uma coisa é certa, de alguma preciosidade se trata.Nunca vi tamanho brilho irradiando em farelos. A menor delas, que ouvia calada, desafia, Mesmo que não tenha valor algum esta coisa, uma certeza podemos ter, se jogarmos este pó por sobre nossas casas, teremos, para reconhecimento internacional, a aldeia mais bonita do mundo. Acho que já não é pouco. As meninas riam da inocência manifesta da caçula. E ficam ali conversando, especulando, brincando, sonhando, com riquezas, amores, com o futuro promissor que teriam. Ali permanecem em transe, até que uma delas lembrava às outras, que há muito já havia passado a hora de irem para a casa, era tarde da noite. E seguem todas para seus lares, carregando consigo uma euforia indisfarçável e uma sombra azulada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em um vilarejo daquele tamanho, segredos desta natureza, não eram para ficar guardados por muito tempo. Indagados pelos parentes porque naquela noite haviam demorado tanto para chegar a casa, os filhos foram contando a história, que foi se propagando de família em família, até que um grupo de homens resolve ir conferir o caso contado pelas crianças. Que luz misteriosa seria aquela. Alguns vizinhos passam chamando uns aos outros para irem até o local. À medida que iam chegando, ficavam paralisados, boquiabertos com a luz azul radiante, aproximavam-se, apalpavam os grãos luminosos, e olhavam uns para os outros, para ver se alguém podia explicar melhor o que seria aquilo. Havia em quantidade suficiente para que todos pudessem apanhar um bocado para si. Houve quem juntasse pequenos montículos e os levassem para a casa, para que todos pudessem ver a luz misteriosa que acabara de chegar aos moradores da vila. Era o assunto em quase todas as casas. A notícia se espalhou muito rapidamente. Durante a madrugada, crianças e adultos brincavam com o pó na intimidade dos seus lares, quem sabe estivesse ali a redenção daquela gente, era o que muitos pensavam.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, uma pequena multidão se aglomerou no local, todos queriam ver de perto a intrigante fonte luminosa. Os adultos e crianças disputavam à cotoveladas uma vaga mais próxima dos grãos azuis. Mas naquele horário, com o sol espraiando sobre o vale, os pequenos grãos haviam perdido sua luz e o desalento era geral. Teriam tido um sonho, um delírio coletivo, a substância fora roubada enquanto dormiam, ou a luz havia se recolhido apenas temporariamente em respeito a luminosidade absoluta do sol que tudo clareia? Deveriam aguardar então, a chegada da noite, para que pudessem certificar-se o que havia acontecido, se o sonho azul da noite passada haveria ou não de se repetir. Voltam todos a seus afazeres, e combinam retornarem juntos, quando o sol começasse a se esconder. Assim foi feito. Quando o dia vai a escurecer, e as primeiras nuances da noite, vem a assombrar-lhe o lume, a multidão outra vez de aglomera e ficam todos, atentos, atônitos, observando a luz que vai ficando a cada instante mais forte. Quando o véu da noite cobre o povoado, os seus moradores reúnem-se em torno da luz que lhes chegara, acreditavam, das profundezas da Terra. Todos queriam saber de Alice como fora a descoberta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;De início, a garota gostava de relatar o caso, contar sua história, omitindo claro, os amores secretos, os corações e os nomes, que haviam por fim, revelado aquele fenômeno. Dizia apenas que esfregava, aleatoriamente, o graveto ao chão, quando a luz se fez. Contava que já havia lido sobre os minérios e os metais, mas que não conhecia imagem que pudesse se associar àquilo que viam. Todos queriam saber diretamente da garota, ouvi-la, como teria chegada àquelas pedras mágicas, iluminadas. Por fim, como eram muitas as pessoas que se aproximavam, todos fazendo as mesmas perguntas, com a mesma insistência, Alice começou a se cansar. Naquele dia, relatou o mesmo caso inúmeras vezes, e certo esmorecimento já se esboçava em seu rosto fadigado. A euforia da noite passada já lhe perturbara o sono e esta noite não seria diferente.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os homens, após muito observarem, tocarem, banharem-se naquele pó, começam a imaginar o que a sorte lhes proporcionaria dali para frente. Formavam um grande círculo em volta dos feixes azuis, onde debatiam suas expectativas e demandas, e sem que percebessem, o pássaro do dia anterior volta a pousar sobre a árvore, antes que o sol se escondesse de todo. Alice o vê assim que se aproxima, os demais estavam muito preocupados em suas conversações e não deram por ele. Ele, do alto, com o pescoço erguido, observava a todos, mas estacionava seus olhos nos olhos de Alice. Ela mirava-o, interrogativa. Percebendo que a noite havia fatalmente chegado, o pássaro levanta vôo, sem antes inclinar por duas vezes a cabeça para mirar melhor a garota. Desta vez, não houve versos, e o pássaro foi-se, silenciosamente. Em baixo, os homens não paravam de falar. Alguém teve que organizar os debates, pois todos queriam expor seu pontos de vista ao mesmo tempo. Havia ali uma grande ansiedade. Alice chateava-se ainda mais. Por instantes, arrependera-se de anunciar a descoberta. Antes tivesse guardado apenas para si, feito segredo, não teria passado por tanto interrogatório, nem causado tanta celeuma. Sabia, porém, que há segredos que não se guardam, principalmente quando se trata destes grandes mistérios que rodeiam a humanidade, onde não há como não compartilhar as dúvidas, curiosidades e anseios. Os raios azuis iluminavam aqueles rostos especulativos, enquanto emitiam suas mais variadas e díspares opiniões. O homem que agachava-se próximo à luz, levantava o pó nas mãos, deixava-o escorrer entre os dedos e dizia, Nós somos um povo de sorte. Iluminados. Este achado nos trará muita fortuna, penso que fomos eleitos. Muito não enriqueceram os homens, quando no passado descobriam o ouro? Muito nos enriqueceremos agora, com o ouro azul que brota por sob os nossos pés. Outro, empolgado, procura complementar o entusiasmo e a fala do homem, Sim, e como sabemos todos, fortuna trás também poder. Imaginem livrar-nos da condição de vila, e este pequeno povoado que somos, transformar-se em um grande Império, de onde poderíamos conquistar o mundo. Faríamos todos, parte de uma mesma elite imperial, e do quase nada que somos, tornaríamos celebridades, e as portas da história se escancarariam para nós. Não é nada mal. Duas mulheres levantam-se e dizem que deveriam ter alguma cautela, pois como consideravam valiosa a descoberta, poderia também de nada valer, era necessário relativizar as coisas, para que posteriormente não amargassem muita desilusão e frustrações. Não queriam ver depois os homens lamentarem por uma eternidade a enorme oportunidade perdida. Melhor talvez fosse chamar as autoridades para que estas sim, em contato quase direto com as coisas da ciência, pudessem entender melhor, tentar traduzir o que por ali se passava.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na terceira noite, quando as autoridades, prefeitos e o governador chegam ao local, encontram o povoado inteiro, todos os seus moradores ao redor da luz misteriosa. Não conseguiam desgrudar dali. O Secretário das Finanças é o primeiro a abrir a falação. Diz alegrar-se com o espírito empreendedor daquela gente, e afirma que logo depois que a substância fosse identificada, tivesse início sua exploração e comércio, e os lucros começassem auferir aos cofres do governo e das grandes empresas, a população teria finalmente sua recompensa. O prefeito elogia a presteza daquele povo em informar-lhes da descoberta assim que esta é feita, e o governador promete mundos e fundos para aquela população agraciada que tivera a graça de receber o milagre à porta de suas casas. Uma mulher mais velha, com a pele enrugada e com grandes papas sob os olhos, agita freneticamente os braços e grita. Somos iluminados, os eleitos, os eleitos. Foi Deus. Foi Deus. Os homens entreolham-se, crédulos. O governador promete retornar o mais rápido possível, assim que estivesse concluído o laudo a partir das amostras que levariam. Antes de partir, porém, queria ouvir Alice. Esta encontrava-se abatida, os olhos estavam irritados, vermelhos, e a sensação de um cansaço incontrolável abatia-lhe o corpo. Alice fizera vômitos e não pode atendê-lo. Atrás do séquito das autoridades, ia aos tropeços, um bando de bajuladores, que disputavam espaço entre si, e rogavam para si, benefícios e piedades. A partir daquela noite, enquanto aguardavam o resultado da análise que era realizada pelos técnicos, a comunidade inteira reunia-se em torno do seu tesouro azulado. Alice não apareceria mais ali, adoecera irremediavelmente. Em três dias, a comunidade recebera o laudo encomendado pelo governo. Não eram boas as notícias. Haviam colocado a descoberto, o césio radioativo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;Marcos Vinícius.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-3353226017999647220?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/3353226017999647220/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=3353226017999647220' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/3353226017999647220'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/3353226017999647220'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2011/04/o-achado.html' title='O achado'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-bD83fMdRQ7Y/TbsredGQ3SI/AAAAAAAAAh8/ggLMSe1v7K8/s72-c/Coral_azul.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-3073250368843357688</id><published>2011-04-11T16:35:00.000-07:00</published><updated>2011-04-12T15:16:33.898-07:00</updated><title type='text'>A Organização</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-216aDXVzrNE/TaOWC5J7lfI/AAAAAAAAAg0/hX9SrlJKIn4/s1600/prisioneiro.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5594480138570667506" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 227px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-216aDXVzrNE/TaOWC5J7lfI/AAAAAAAAAg0/hX9SrlJKIn4/s320/prisioneiro.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O ruído que ouvi ao transpor o grande portão metálico, acredito, estará para sempre em minha memória. É um som único. Uma grande chapa de ferro, um metal pálido e cinzento com grades espessas corria quase silenciosamente com suas roldanas pelos trilhos enterrados no concreto do chão. O barulho inolvidável faz-se quando é acionado o mecanismo que coloca a grande estrutura em movimento. Tanto as arrancadas quanto as paradas são bruscas, abruptas, quando é rompido o grande silêncio da serpente de ferro. Quando as duas barras centrais se encontram, e o portão, finalmente, se fecha, a sensação que dá é de termos sido engolidos. E é o que somos. Não há qualquer dispositivo que amorteça o encontro das placas do portão. O som é petrificante. Quando a trava se lacra, dispositivos eletrônicos são acionados, e um jogo de luzes, cores, sons e códigos, vêm nos revelar que estamos em território onde se investe alto nas chamadas tecnologias de segurança máxima. Uma grande parafernália tecnológica possibilita um confinamento total, a reclusão absoluta. Uma ampla sala de comando com telas coloridas, cadeiras giratórias e máquinas possantes, poderia nos fazer imaginar estarmos no melhor dos mundos, não fosse a ciência tão perversa com a humanidade que a criou. Ainda não sei ao certo por que nos era permitida ter a visão desta sala logo à entrada, que por sinal, não a veríamos mais. Talvez fosse um descuido da segurança, uma falha no sistema, ou quem sabe ao contrário, talvez quisessem mesmo nos fazer crer, que para nós, ali não haveria qualquer alternativa. Os novos deuses, a ciência, a técnica, o capital, as armas, estariam a seu favor e serviço. Isto não me custou ver. Assim que fui retirado do veículo blindado em que havia sido capturado, três ou quatro carrascos se aproximam de mim. Não eram destes carrascos que vemos de cabelo em pé,quando dos filmes de terror, mas carrascos que para uma grande parte de população mundial são vistas como heróis. Homens enormes, com braços e peitos de ferro, alguns com tatuagens, estilos descolados, com celulares e laptops, a fazer inveja a muitos galãs do cinema. Ficamos a imaginar se suas mães suspeitariam algum dia das atrocidades que seus filhos amados seriam levados a executar. Com um chute nas costas, de supetão, não pode ver quem me desferia este golpe, fui atirado ao cimento. Foi tão rápido que mal pude levar a mão ao rosto, cortei as pálpebras, e a testa sangrou embaçando os olhos. Na primeira tentativa de me levantar, uma bota pesada desferiu-me um golpe certeiro entre o queixo e o pescoço, desmontando todas as minhas defesas. Não pude tentar novamente. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A água fria, às vezes, faz mesmo milagres. Após dar-me por encharcado, um grande balde d água foi derramado sobre mim, consigo abrir os olhos. Vestia um macacão, peça única, que me cobria da cabeça aos pés. As pernas e as mãos estavam fortemente amarradas, o que limitava exageradamente os meus movimentos. Dois grandes soldados prenderam à corrente que atava meus pés, uma outra corrente, maior, mais comprida. Ali estava completamente subjugado. Os homens arrastaram-me e minhas costelas esfolavam ao chão. Minha única reação possível, um grito doloroso, foi violentamente reprimido por um bofetão que me quebrara dois pares de dentes. Em seguida, ganhei uma corda estrangulada à boca, que além de impedir qualquer tipo de comunicação, impossibilitava qualquer gritaria, que despertasse a ira dos meus algozes. Sorte ser curto o caminho entre o local em que fui amordaçado e a gaiola que estava à minha espera com sua goela aberta. Era meu primeiro dia, a carne sangrava, mas ainda não estaria desossado. A gaiola onde fui encerrado por longas horas, por mais de um dia, não possuía qualquer cobertura que pudesse proteger-me do calor do sol ou do frio da noite. Durante o dia, o macacão cozinhava-me, suava compulsivamente, e à noite, o frio endurecia meus nervos. Era apertadíssima a jaula e não havia como me esticar. Os poucos movimentos que conseguia ainda realizar eram fruto da necessidade extrema que o corpo tinha de mudar de posição para livrar-se de uma dor, e trocá-la por outra. As dores eram intensas. A boca estourada inchava a cada hora um pouco, os dentes arrancados quase à raiz eram um incômodo que tornava meu sofrimento ainda mais insuportável. As costas queimavam, e as escoriações deixadas pelas boas vindas da recepção eram como deitar-me em brasas. As jaulas foram projetadas de modo a mal caber meio indivíduo. Não há posição possível onde possa se descansar um pouco da posição anterior. As pernas têm que contorcer-se. O peso dos ombros, ora esmaga o braço direito, ora o esquerdo. Depois de alguns minutos dentro da coisa, o incômodo e a sensação de fatalidade impõem um sacrifício mórbido sobre o corpo e a alma. Para aliviar as pernas, sacrifica-se o pescoço, ao dar a este último algum descanso, é quando sofrem novamente as pernas ao se equilibrarem em um contorcionismo inédito, fatigante e doloroso. As cordas das mãos, apertadíssimas e secas, cortavam os punhos, como pequenas navalhas em fios, continuar a friccioná-las, talvez resultasse na dilaceração dos punhos. Estava completamente imobilizado. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era um trapo quando fui retirado dali na segunda noite. Mal conseguia manter-me de pé. Os ombros enrijecidos e os pés esfolados davam-me um aspecto cambaleante. Sentia os ossos se desfazendo, vítima de uma implosão, um desmoronar de si mesmo. O sujeito desmontado. Como não há mal tão ruim que não possa ser piorado, juntam-se ao meu redor um grupo de homens fortemente armados, uniformizados. São grandes, robustos, e não trazem nas faces coradas qualquer sinal de piedade. Todos carregam pesadas armas de fogo, aparentemente desnecessárias diante da fragilidade do suposto inimigo. Bastaria uma única bala, um único golpe, em meia fração de segundo, para ter-me ao chão, perfurado e morto. Mas pouparam-me naquele instante, talvez quisessem algo mais que a minha insignificante vida. Fui levado para uma sala praticamente vazia e escura. Uma única lâmpada iluminava o ambiente. Colocaram-me debaixo dela, amarrado em uma cadeira, onde permaneceria completamente imóvel. Estava exposto, visível, iluminado, com o corpo aberto, esfolado, quem sabe olhavam-me por dentro. Não conseguia distinguir seus rostos, a luz sobre meus olhos e a frágil iluminação do local, permitia-me apenas enxergar seus vultos, que quase não se mexiam. Esforçava-me para entender o que poderia estar a ocorrer. Por longos instantes, não disseram palavra alguma, mantinham-se em silêncio. A ausência de palavras e a rigidez daqueles soldados, aliada a falta de visão que tinha do local, era uma ansiedade a mais, já à beira do pânico, por não conseguir prever até onde iria a perversão alheia. Dois deles seguem em minha direção. Agora sim, posso ver os seus olhos. Um calafrio súbito gela-me a garganta, e o estômago se contrai. Traziam o ódio. Estavam cada vez mais próximos, retiram dos cinturões sintéticos, duas afiadas navalhas, e postam-nas sob os meus olhos. Elas estavam ali, bem diante das minhas retinas e não me tocavam, estacionadas, mas uma dor profunda, invasiva, adiantava-se, cortando-me e perfurando-me. Arregalava-me em desespero. Quando duas lágrimas incontroláveis encharcam as pálpebras, sabe-se lá de onde vêm, pois sentia-me ressecado, os brutamontes abaixam as lâminas em um gesto lento, e cortam as barras da calça e a mangas compridas do camisão. O macacão fora estropiado e restavam-me apenas retalhos do que deixava-me a descoberto o tronco e as pernas. Fazia frio. Sob o sussurro de um deles, apontam as armas para mim. Seria o fim. Mas um deles aproxima-se dos meus ouvidos e grita: quer livrar-se do inferno, ó resto? Vou te dar a última chance para safar-se, vagabundo, do calvário que tens pela frente. Diga-me tudo o que sabes sobre a Organização. Talvez fosse o único a falar a minha língua, os outros, pelos poucos murmúrios que pude ouvir, eram-me completamente incompreensíveis. Um soluço repentino deu-me um nó na laringe e não me saia palavra alguma. Esbocei mais algumas tentativas, mas estavam todas presas dentro de mim. O esforço para dizer algo, sem o conseguir, minava um suor salgado que queimava ainda mais as feridas da boca. Os dentes quebrados doíam intensamente e talvez fosse mesmo impossível me comunicar com as criaturas. O homem insiste: Não queres mesmo salvar a alma, amaldiçoado? Pois vais conhecer o nosso purgatório. Outro homem se aproxima, este não falava minha língua, mas trazia entre as mãos, algo que lhe dispensava qualquer argumento ou razão, uma enorme furadeira, já ligada a uma tomada. Com muito sacrifício, procuro encher os pulmões, tento levar forças dos braços e do abdômen para o peito, de modo a romper a mudez. Respiro fundo, junto as poucas forças todas de uma só vez, e com um som rouco e falho, anuncio, Não sei da Organização. Os homens se irritam, apanham um capuz negro e tampam-me a cabeça. A furadeira é ligada. Podes agora escolher, ou diga o que sabes, e não terá outra chance, ou poderá dizer, por onde quer que se inicie o trabalho de perfuração. Aqui há divisão entre nós. Alguns defendem que se inicie pela língua, pois acreditam que o órgão em pânico, ponha-se a dar com os dentes, e não há o que não diga. Outros defendem que a broca comece por perfurar o crânio, quem sabe o que a língua não diz, possamos encontrar em sinais por algum canto do cérebro? A broca se aproxima dos ouvidos, sobe pelas orelhas e quase encosta-se no parietal. Uma mecha de cabelo, por sob o capuz, arranca-se ante o contato brusco e violento da ferramenta. Um estado de torpor, por alguns instantes, faz-me acreditar que não sentiria qualquer dor. Vêem-me imagens, ilusões, a amortecer-me a carne, nuvens invadem meus olhos e vejo-me vazando por completo. Por um imenso buraco que levo no topo do crânio, começo a escorrer, pedaços de carne, sangue, vísceras, restos, vai tudo saindo por ali, em meio ao amálgama de matéria orgânica e um mundo de palavras e pensamentos. Mas não, a broca ainda não começou a perfurar. Antes, realiza um passeio pelo meu corpo, parte a parte, como a fazer um lento trabalho de reconhecimento, verificar em que território melhor convinha iniciar as suas operações, talvez num ponto onde houvesse um osso mais proeminente, talvez nos tendões, nas mucosas, nas carnes mais musculosas ou nas mais sensíveis. E insistiam que eu falasse - eu poderia escolher. Eu insistia, não sabia da Organização. Eles não acreditavam no que eu dizia, mas desligaram a furadeira. Um silêncio absoluto absorveu-me por poucos segundos, era um silêncio eterno. O som da ferramenta ligada porém, mantinha-se vivo na memória dos meus ouvidos, perfurando-me o que poderia carregar como alma ou espírito. O ruído infernal cortava-me por dentro, antes que minha pele, meu lado exterior, pusesse a triturar-se. Pouparam-me. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A cada negativa que dava diante do interrogatório a que me submetiam, as faces dos homens enrijeciam-se, tornavam-se mais duras e cruéis, mas parecia não quererem me eliminar de vez. Por duas noites, sou privado do sono. Assim que desligam a furadeira elétrica, retiram-me da sala. Imaginei que retornaria para a jaula, mas sou levado em outra direção. Atravesso, amarrado, dois longos corredores. Dois soldados seguem à minha frente, dois seguram-me pelo braço, e dois outros fazem a retaguarda. Sobre uma viga de concreto no final de um dos corredores, um atirador de elite aponta-me uma arma que parece carregar o poder de fogo de uma guarnição inteira. Bem ao lado, rente ao piso, uma portinhola é aberta por um dos homens. Fui empurrado em direção à ela. Não permitiram que entrasse, fizeram questão de me socarem lá dentro. Era um cubículo frio, e muito se assemelhava a um buraco. Estava escuro e não conseguia ver exatamente onde havia sido enfiado, era bem mais apertado que a jaula. Virei-me, ajeitei um pouco as pernas, empurrei o corpo com as mãos nas paredes úmidas e conquistei um pouco mais de espaço. Agora conseguiria respirar melhor. As costas estavam um pouco flexionadas, foi a forma encontrada para que pudesse esticar um pouco mais as pernas e livrar-me das câimbras que me atacavam. Estava trancado ali. Um calafrio percorreu-me o corpo inteiro e passei a suar por todos os poros que trazia comigo. Apesar do frio, sentia-me derreter. Perguntava-me por quanto tempo conseguiria sobreviver naquelas condições. Uma luz é acesa sobre minha cabeça, mas não tenho como ver de onde vem, de que tipo de lâmpada ou fonte de iluminação se trata, mas clareia o local, e vejo-me em uma cápsula branca. Depois, uma outra luz, agora sob os meus pés se acende, movo um pouco minhas pernas, e desta vez, consigo ver de onde vem o foco. Era uma lampadazinha que brilhava ao fundo. A luz sobre minha cabeça apaga-se. Depois, a dos pés. A de cima volta a acender-se, e permanece acesa. O tempo para. Nada mais acontece. O silêncio é total. O som da furadeira vai aos poucos, silenciando-se em minha mente. Não ouço coisa alguma. Nada vejo, além da parede branca, ante a qual me espremo. Ao esticar um dos braços, e empurrar-me pela cápsula, consigo enxergar-me todo até os pés. Um pouco abaixo dos meus joelhos, inicia-se a curvatura das paredes, afunilando o compartimento. Permaneço ali um longo tempo, sem saber se poderia medi-lo em minutos ou horas. Perdera sua noção. Estava exausto e esperava apenas ser esmagado a qualquer momento. Vencido pelo cansaço extremo, pelas já longas horas de privação de sono e pelo silêncio aterrador do local, sem que coisa alguma ocorra, adormeço.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um enorme estrondo sobre minha cabeça acorda-me bruscamente. Depois outro, como a certificar-se que seria impossível que permanecesse dormindo. Não imagino quanto tempo dormi, poderia ter sido um dia ou um século, não havia como discernir, mas seja lá como for, o sono havia limpado um pouco os olhos. Apenas a lâmpada sobre minha cabeça mantinha-se acesa. Ao virar o rosto e destampar um pouco os ouvidos, ouço um ruído distante, que lentamente, muito lentamente, vinha aproximando-se. Um ruído seco, arrastado, duro. Ao levar os olhos aos pés, vejo um grande número de insetos percorrendo as paredes em minha direção. Eram muitos os tipos, as formas, cores e tamanhos, onde a ciência já catalogou mais de 800 mil espécies diferentes. Era uma multidão deles. Nunca vira tantos juntos. O fundo da cápsula estava repleto, vinham cada vez mais, eram tantos que a estrutura parecia mover-se. Não era ela quem se movia, mas os bichos. Vão ficando cada vez mais próximos. Os que vinham à frente aproximavam-se já da altura dos meus quadris. A pele arrepia-se inteira, a epiderme reivindica para si todas as defesas remotas do organismo, que inicia a desarranjar-se. Sempre tivera certa ojeriza por eles. Já se aproximavam mais do meu campo de visão. Poderia agora ver mais de perto a variedade que se apresentava, uns peludos, outros mais finos, insetos escuros, esverdeados, com longas antenas, garras, asas miúdas, esticadas, uns mais secos, outros úmidos, alguns pequenos, muitos enormes, conhecidos, e aqueles que jamais havia visto. Um deles chamou-me particularmente a atenção, um besouro enorme, que mal caberia na palma da mão. Quando ficou bem próximo de minha boca ferida travou seus passos ante o meu olhar de pavor. Ficou a fitar-me. Eram inúmeros e não paravam de chegar, provavelmente, representando todas as classes que povoam o planeta, entre ortópteros, nevrípteros, arquipteros, tisanurus, hemípeteros, dípteros, lepidópteros, coleópteros, himenópteros. A luz de baixo se acende novamente e a de cima se apaga. Deixo de enxergá-los com a mesma nitidez. Ao contrário, são agora suas sombras, que me vem aos olhos, e eles ampliam-se, tornam-se fantasmagóricos. Alguns adquirem formas gigantescas, com antenas que atravessam a cápsula inteira. Após ocuparem as paredes do compartimento, iniciam a peregrinação pelo meu corpo. Sobem pelas pernas desnudas. Sinto-os sobre meus pelos, escalando-os. Outros, impossibilitados de manterem-se agarrados à superfície branca, dada a disputa por território entre eles, caem ou saltam sobre minha barriga, peito e ombros. Sinto cada uma de suas patas, percorrendo cada ponto de meu corpo paralisado. Imaginava que mexer-me poderia ser pior, pois os artrópodes, ameaçados, atacar-me-iam de vez, de forma fulminante e definitiva. Mantinha-me completamente inerte, evitava piscar, retesava os músculos e prendia a respiração, mas não adiantou de todo, pois começavam a me picar. Por instantes, apagaram as luzes, apenas sentia o milhão de insetos movendo-se sobre meu corpo tomado, dominado, e meu espírito, se é que ainda possuía algum, certamente lutava para livrar-se de vez daquele cárcere impiedoso em que havia se tornado as minhas carnes. A repugnância tornou-se onipotente. Jamais havia tido tanta vontade de desaparecer, largar àqueles bichos o meu cadáver, todo o meu acervo de sangue, ossos, gorduras, nervos, músculos e peles. A liberdade absoluta, sem mosca alguma a subjugar-me. Quando a massa escura e movediça cobre-me por completo, a voz de meu intérprete entre os monstros ecoa por toda a estrutura. E agora desgraçado? Vai ou não colaborar? &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O terror havia me invadido por dentro. Sentia que seria devorado antes mesmo que pudesse esboçar qualquer tipo de resposta. Se pudesse, arrancar-me-ia a própria pele para safar-me daquele manto vivo que arrastava-se sobre mim. A voz berrava, Vai nos falar sobre tua Organização? Mudaste de idéia ó morto vivo? Sem revelar o que sabes, sairá das pestes e irá direto aos abutres. Não há outra saída, verás como a humilhação e o escárnio podem ir além do que imaginavas possuir um limite.Fale-nos sobre tua maldita Organização. Na verdade, naquelas circunstâncias falaria qualquer coisa para que os carrascos pudessem me tirar daquela condição. As baratas iam a cobrir-me o rosto. Eu falo. Eu falo, grasnava minha voz, que já não possuía forças para saltar à garganta. Imediatamente, a luz de fora penetra pelo buraco. A portinhola se abre e por uma corda ainda atada à minha cintura, arrastam-me para fora. Dois funcionários com um vassourão cada um, varrem para dentro de meu casulo empesteado, os insetos que me impregnavam a pele. As cerdas duras da vassouras expulsavam os bichos e abriam mais as escoriações que trazia no tronco e nos braços. Sou retirado deitado. Para livrar-me totalmente dos insetos, arrancaram-me os trapos que ainda levava comigo. Ficara completamente nu. Levantam-me em um solavanco e atiram-me à parede. Só aí vou perceber que além de um pequeno grupo de soldados, havia ainda quatro cães enormes que arregalaram seus olhos ao me verem saindo daquele buraco. Os homens deixam-nos à solta, e eles vem ao meu encontro. Os cães posicionam-se circundando todo o meu corpo, mantendo entre um e outro a mesma distância, alinhados em forma de cruz, sou farejado por todos os lados. Sobre suas bocas gigantes que mantinham-se constantemente abertas, focinhos molhados, investigativos, é que me fazem agora a varredura. A carne que servira aos insetos servia agora aos cães. Não te demora a falar, esbraveja o homem. Os cães estão famintos, e verás como podem comportar como lobos, quando fores reduzido ao pó, ao virares ração. Outra vez, uma dor aguda percorre-me por dentro, como se célula por célula houvesse sido afetada, como se um sem número de lanças cortassem-me em pedaços, uma dor paralisante, não consigo mover-me. Tenho todos os músculos tesos, duro como uma estátua, não fosse pela parede que me amparava, já há muito teria ido ao chão. As palavras traiam-me, não me faziam o serviço, afugentavam-se, corriam em direção às profundezas do meu ser e recusavam-se a proporcionar-me defesa. Os cães impacientam-se. Não sabia mesmo da Organização. Não sabia. Mas como fazê-los crer? Ali não havia leis, não havia argumentos, direitos ou tribunais. Ali havia apenas a força bruta, em seu estágio mais selvagem, como outra contradição e ironia da história, quando imaginávamo-nos gozar de um mundo sem peias. Enlouquecia. Não sabia da Organização. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Fui levado dali. Ainda não foi desta vez que faria o banquete dos cães. Saio pelo mesmo corredor em que havia entrado. Porém ao invés de seguir pelo setor que me levaria à jaula, sou levado por uma escada estreita em caracol, em direção oposta, que me leva a um ambiente muito próximo dos laboratórios e salas de cirurgia. As paredes eram altas e brancas. Diante de mim, surgiram duas grandes portas, ao lado de um painel ligado a vários dispositivos eletrônicos. Sou levado por quatro policiais a uma delas. Espantei-me ao adentrar o local, não sabia que tipo de experiência nova me aguardava. Era uma sala ampla, com duas macas de metal, um enorme armário repleto ampolas, frascos de medicamentos e uma mesa larga com vários instrumentos cirúrgicos, tesouras, pinças, bisturis, agulhas e alicates. Ocupando uma parede inteira, e uma parte do teto, havia um equipamento enorme, completamente desconhecido para mim, cheio de botões luminosos, teclas e fios, como um computador gigante, ligado a uma estrutura de metal que mais parecia um misto de aparelhos de raios-x e sofisticadas máquinas de tomografia. Uma das macas encontrava-se exatamente abaixo desta grande peça tecnológica. Estava ligada a ela por um volumoso emaranhado de cabos e fios. Logo que acabo de entrar, surgem dois homens, cujos trajes indicavam serem profissionais da medicina. Usavam roupas brancas, jalecos, aventais, toucas, óculos de proteção e máscaras. Dois soldados agarram-me e levam-me em direção à maca. Minhas pernas enrijecem, ficam duras, e uma força superior parece colar-me ao chão. Mas não resisto aos empurrões e solavancos, e em questão de segundos, estou sobre a lisa placa de metal, amarrado pelos braços e pernas. Estava ligado àquele aparelho. Um dos especialistas aciona alguns botões, ajusta o monitor de vídeo, e em seguida, liga-me a uma máscara nasal, conectada por um longo tubo. Sobre minha cabeça é colocada uma estrutura de vidro que lembra uma poderosa e sofisticada máquina de scanner. Estão todos a me observar. Soldados e médicos. Com métodos distintos servem aos mesmos propósitos. O mais alto dos homens, o responsável pela operação, recebe do segundo homem, seu auxiliar, uma injeção já pronta para ser aplicada. Não fazia idéia do tipo de medicamento que seria injetado em mim. Os dois seguram os meus braços, enfiam-me a agulha, e o remédio vai sendo transferido, rapidamente, para o meu sangue e nervos. Sou tomado de uma fraqueza total, faltam-me forças sequer para mover os pés ou as mãos. Apesar de conseguir pensar e estar consciente, não consigo respirar, a substância aplicada havia paralisado os músculos responsáveis pela minha respiração. Finalmente entendia a finalidade daquela máscara maldita, servia para manter-me vivo por respiração artificial. O scanner sobre minha cabeça era colocado em funcionamento. Uma luz azulada projetava-se para fora, e aí tinha a certeza, queriam radiografar os meus pensamentos. O técnico fixava seus olhos na tela, nos gráficos do monitor, para ver se decifrava meus segredos mais recônditos, minha alma acuada, em algum canto de meu cérebro devastado. Respirava pelo mesmo aparelho que procurava decifrar-me por dentro. O soldado, mais uma vez aproxima dos meus ouvidos e berra, Como é trapo? Estamos esgotando as nossas paciências, apesar de não esgotarmos nossos recursos, verás o que faremos contra tua humanidade. Verás o que é deixar de ser, ainda sendo, morrer permanecendo vivo, conhecerás o inferno que nem o Diabo conseguiu inventar, mas ainda poderá se redimir, ó pária da terra, se desvendar os segredos da tua Organização. Diga infeliz, O que sabes da Organização? Apesar de imóvel, a boca estava livre e conseguia falar. Não sei da Organização. A luz do scanner moveu-se sobre minha testa, alguns segundos se passaram, e o aparelho que me permitia respirar, fora desligado. Não respirava, definitivamente não respirava. Sufoco absoluto. Não me movia, também não respirava. Os pulmões põem-se prontos a explodir, o cérebro é tomado de um zumbido cada vez mais forte e opressor, a furadeira parece ter sido outra vez acionada e agora, vou estourar. Um longo e doloroso zumbido. Sinto o manto da morte a apertar-me o pescoço, estou estrangulado. Não me adianta abrir a boca, que o ar não vem, não há como respirá-lo. Iria me arrebentar. Estava morto. Não. O oxigênio me é devolvido. A máquina outra vez é ligada. Não conhecia nada mais aterrador que a sufocação. Não acreditava, mas ainda estava vivo, e ao retornar à vida, percebo que sou atentamente observado por todos. Os soldados que ocupavam a sala e os dois médicos que executavam a operação olhavam-me atentamente, curiosamente, cada qual à sua maneira, o primeiros, possuíam um olhar feroz de satisfação, por verem sua presa ser abatida, os segundos, um ar de júbilo, ao constatarem o quão inventiva pode ser sua ciência, que pode levar o homem ao limite da morte, e trazê-lo de volta. O pânico ante a possibilidade da sufocação total é enlouquecedor. Um segundo pode ser fatal. Não sei como conseguiram calcular tão sistematicamente, cientificamente, os meus precários limites. O botão foi acionado na hora exata. Um milésimo de segundo a mais talvez fosse suficiente para deixar-me definitivamente no outro mundo, e ele postou-se diante de mim. Os instantes da sufocação, da falta de ar, são um mergulho na eternidade da inexistência. Toquei-a, e reencarnei. Não havia ali um espelho, onde pudesse fitar-me, mas tinha noção da cara que tinha. Meus olhos estavam traumatizados, esbugalhados e duros, tinha medo de fechá-los, mantinha-os bem abertos, estatelados, era o estado de pânico, levado a seu mais alto grau, cientificamente dosado. Os dedos das mãos pareciam não ter percebido que retornaram ao mundo. Estavam enrijecidos, apontados para o nada, sem cor. A propósito, encontrava-me inteiro exageradamente pálido, o sangue escondia-se não se sabe onde. Imaginei que nunca mais fosse levantar daquela placa fria. O médico chega à beira da maca, segura-me pelos tornozelos, e em seguida, leva a mão sobre meu peito, a conferir minhas batidas cardíacas e ajeita-me a máscara. Afasta-se e dá um sinal para o outro, como a confirmar que havia sido bem sucedida a operação, e quase consigo antever, pela forma como manuseiam o equipamento e os fios, que preparam-se para repetir o procedimento. Pensava que desta vez não resistiria. Outra vez, posicionam o scanner sobre minha cabeça, repetiriam a leitura do meu cérebro, utilizando um sofisticado detector de mentiras, que de novo, me vasculharia a alma por ressonância magnética. A lembrança da sufocação paralisava-me novamente. O suor escorria frio e em grande quantidade, a maca ensopava. Não pude me contar, urinava pelas pernas. Neste instante, vem o soldado. Sempre em meus ouvidos. É tua última chance, besta. Fale o que sabe sobre a Organização, se mentires, a ciência saberá, se a luz da mentira piscar sobre teu cérebro, a luz do oxigênio não mais te aliviará. A morte é o fim dos que ousam não colaborar. Pelo menos aqui, a morte é rápida, fulminante, não te derramará em sangue, pior seria se junto aos cães, às navalhas, aos choques ou esfolamentos. É quase o benefício da morte súbita. Vamos aos fatos. O que sabe da Organização? Não sei da Organização, respondia. A luz do scanner por duas vezes clareia o meu rosto. A lembrança do suplício da sufocação estrangulava-me por dentro. Não sei da Organização. Outra vez o scanner se acendia. Os homens, médicos e soldados, olham para a tela. Os dois médicos discutem em linguagem técnica. Os soldados, ignorantes, procuram adivinhar o que se revelam naqueles gráficos coloridos e nos códigos das falas dos homens da ciência. Não desligam minha máscara de ar. Dão-me um medicamento e adormeço. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Dormi uma eternidade, não sei exatamente por quanto tempo, mas me surpreende terem me permitido tanto. Quando abro de vez os olhos, vejo-me em outro cômodo, livre da sala de horrores, onde adormeci. Era um local mais arejado, movimentado, onde além de soldados, reuniam-se funcionários, burocratas, e possivelmente executivos do negócio, do empreendimento. Uma funcionária, fortemente armada, serve-me uma sopa artificial, que sorvo de uma só vez, dado meu estado famélico e põe dois pesados comprimidos em minha boca. Dois homens de gravata e um grupo de soldados discutem o meu destino. Não entendia. Não era em minha língua que falavam. Mas pude compreender quando um deles se referiu a mim como a um engano. Devolveram-me as roupas que haviam me tomado na entrada e os documentos que trazia no bolso. Colocaram-me em um veículo militar, retiraram-me daquelas instalações, e sem qualquer palavra ou explicação, abandonaram-me em um movimentado cruzamento de ruas. Quando dei por mim, vivo e inteiro, após salvar-me, imaginei registrar esta memória, para que dela não se esqueça. Em seguida, outro propósito apenas me move. Quero a Organização.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-3073250368843357688?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/3073250368843357688/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=3073250368843357688' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/3073250368843357688'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/3073250368843357688'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2011/04/organizacao_2888.html' title='A Organização'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-216aDXVzrNE/TaOWC5J7lfI/AAAAAAAAAg0/hX9SrlJKIn4/s72-c/prisioneiro.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-5214739807429102822</id><published>2011-01-07T12:12:00.000-08:00</published><updated>2011-01-07T12:17:45.870-08:00</updated><title type='text'>O Labirinto</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/TSd048APR4I/AAAAAAAAAfs/3A2R97D_wcs/s1600/293109444_268863c0cb.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5559540786540791682" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/TSd048APR4I/AAAAAAAAAfs/3A2R97D_wcs/s320/293109444_268863c0cb.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Labirinto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nome realmente fazia por merecer. O lotação estava tão cheio, que difícil era entender porque o motorista ainda parava nos pontos. Certamente são os ossos do ofício, não se sabe os problemas que o condutor pode ter caso passe direto pelas paradas deixando um sem número de furiosos a praguejar. São os rituais, obrigações da profissão que não podem ser esquecidas, ou quem sabe, ainda, movido por uma sensibilidade moral ou um compromisso ético, de pelo menos provar aos que esperam, que de fato, não cabia mais ninguém ali dentro. Passar pelo corredor do veículo era um sacrifício e um desconforto tal, que só se justificava pela necessidade absoluta de uma hora ter que descer. Sorte é que desta vez vinha sentado, uma senhora que sentava-se justamente próxima de onde se contorcia de pé, levantara-se, e ele sem perder um instante, põe-se, confortavelmente, em seu lugar. Assim ia por já bastante tempo. O ônibus havia praticamente atravessado a cidade, cortado ruas, avenidas e bairros. Ele não estava na janela, mas a observava o tempo todo. Distraía-lhe mais as cenas rápidas que ia vendo do lado de fora, do que com as conversas e os olhares dos que com ele viajava. Observava distraidamente, apreciando o cenário urbano que desfilava sob seus olhos. Os pensamentos moviam-se quase ao ritmo do ônibus e ao compasso de seus sacolejos e curvas. Olhava, olhava, mas seu pensamento, porém, não conseguia fixar-se em ponto algum. Ao cruzar a grande avenida, que corta o centro da cidade, lembra-se que se aproximava o momento da descida. Iria enfim, abandonar aquele carro, livrar-se daqueles corpos apertados, que espremiam-se entre resmungos e sussurros, afagos e empurrões, em um apertado coletivo, onde talvez, os estranhos certamente, nunca ficaram tão próximos.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Levanta-se e com uma das mãos agarra a alça de metal que descia do teto, com a outra, segurava o encosto do banco da frente, preparando o corpo para a difícil travessia. Assim que aprumou-se, fez soar a campainha. Entrar naquele corredor era realmente a parte mais desagradável da viagem. Era praticamente impossível não incomodar alguém, os olhos dos que encontravam-se de pé, arregalavam-se entre a ira de ver mais um a apertar-lhes o corpo, e a cobiça diante da oportunidade de poder, enfim, apropriar-se de um assento. A revolta intensificava-se quando além de levar mais um empurrão e aperto, via outro mais rápido e ágil, roubar-lhe o lugar. Era ato contínuo nestas viagens dos lotações. Finalmente, infiltra-se, estica um braço daqui, levanta outro sobre as cabeças, dá um passo, suspira, toma fôlego, pede licença, dá outro passo, empurra, aperta, ajeita, rebola, avança, recua, arrisca, e enquanto o suor dava sinais, de querer escorrer pela testa, a porta de saída vinha aproximando-se. O desconforto era maior quanto menor fosse o número de passageiros a descer na mesma parada. Quando são muitos os que descem, um fluxo natural de corpos e almas se instala, e os viajantes vão sendo levados, quase naturalmente até a rua. Mas quando são poucos, a luta pela saída é dura e estende-se até a porta, quando se é praticamente empurrado para fora, ou insultado com palavras e cotoveladas.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Depois de muito esforço, pois atravessara quase meio ônibus, depara-se com a porta que bruscamente abre à sua frente. O motorista ainda segurava o pé ao freio. A sensação de desgrudar-se, livrar-se daquele emaranhado de corpos que se contorcem sob o calor da tarde, proporciona-lhe uma invejável sensação de alívio. As pernas e os ombros, libertos, podem agora movimentarem-se em paz. A saída fora tão rápida, que seria de se perguntar, se havia dada um salto, pulando os degraus, para libertar-se definitivamente do povaréu, ou se ao contrário, fora a tripulação estressada que o havia enxotado de vez, para que o aperto se aliviasse, e para que o condutor pudesse iniciar logo a viagem interrompida. O fato é que chegara à calçada um pouco atordoado. Sente-se um pouco zonzo, talvez pelo calor excessivo ou o ruído das ruas, e lembra-se de levar a mão à carteira para conferir o dinheiro e os documentos. Ao puxá-la do bolso, pequenos papéis com anotações de telefones e endereços, que se deixavam à mostra, são apanhados por uma furiosa corrente de vento, e rapidamente se misturavam aos outros papéis e lixos que esvoaçavam por sobre as cabeças. Um redemoinho de folhas, pó e papelões, que despenteava os transeuntes, levava aquelas informações para sempre. O documento de identidade que levara consigo, talvez devido ao peso do plástico, resistira a ação violenta do vento, mas mergulhara-se ao chão. Para azar de seu dono, esborrachava-se em cheio a uma poça que se formara na descontinuidade dos blocos da calçada. Imediatamente, refaz-se do mal estar, agacha-se, apanha o documento, e esfrega-o nas pernas das calças, para tentar recuperá-lo da água suja que quase o desintegrara. O estrago, porém, não fora pequeno. A foto estava intacta, não fora nem tocada pela água. Já os dados do portador, a identificação, os números e registros, escorriam pela ponta plástica, sujando seus dedos com gotas que corriam escuras e velozes. Faz um olhar de desolação. Levanta o documento à altura dos olhos e para sua surpresa, apenas seu primeiro nome ficara registrado. João. O resto do documento, além da fotografia, era um grande borrão. Havia desaparecido todos os dados, sua naturalidade, sobrenome, estado civil ou idade. Nenhum sinal que pudesse traduzir-se em identidade o cidadão. Apenas o primeiro nome, João. Mesmo sabendo que o registro não mais teria valor ou utilidade, pois apenas com uma foto e um nome, sem qualquer carimbo ou sequer outra letra legível, melhor talvez fosse atirá-lo ao lixo, mas por prudência não o fez, pois constatara que aquele era o único que carregara consigo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mesmo lamentando a perda de tão importante documento que lhe acompanhava há vários anos, ainda conseguia dar-se por satisfeito, pois o dinheiro que trazia na carteira estava intocável, três notas gordas, que poderiam proporcionar-lhe um dia inteiro sem muitas privações. Põe-se, então, a andar, e ao contrário do que fazia, quando estava dentro do ônibus, olhando para os lados, as lojas e vitrines, volta-se agora, obstinadamente para frente. E vai, quase silenciosamente, murmurando seu nome. João, João. Inexplicavelmente, uma força brusca, que parece desprender de seus músculos e nervos, trava seus passos. Mantem-se inerte no meio da calçada, com as pernas duras. Um pensamento repentino deixa-o totalmente paralisado. João. Mas João de que? Sabia da infinidade de Joões que tem por aí, um universo inteiro, mas que estrela seria a sua? João da Silva, João de Deus, João Aparecido, João das Almas, João Costa, João Penido, João da Cruz, João Alberto, João das Luzes, João das Trevas. Que João seria, afinal? Nenhuma resposta lhe vinda à mente. Um nada. Um buraco negro. Os borrões de sua prejudicada identidade. Forçava-se, procurava concentrar-se, evitava os olhares dos que por ele passavam, necessitava desesperadamente encontrar-se. Era simplesmente, unicamente João. Procura descontrair-se, sabe que não é o primeiro nem será o último a ter lapsos de memória, mas o incomodava profundamente a dimensão do esquecimento. Escapar-lhe o próprio nome. Arrancou o documento do bolso, em desespero, como se para confirmar que aquilo era mesmo real. Uma foto e um nome apenas. Um resto de tinta havia se acumulado no canto inferior do documento, quando as últimas gotas da água suja escorreram pelos panos do bolso. Quantas letras, números, guardariam aquela pequena porção? Quanto de João levará guardado aquela ponta úmida de papel e plástico? Mete novamente o documento na carteira, enfia-a no bolso e resolve seguir seu caminho. Uma hora lembraria.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Anda alguns metros, e em uma loja grande e espaçosa e com pouco movimento, depara-se com um grande espelho, uma parede inteira. Caminha apressadamente em sua direção. Posiciona-se diante dele, quer ver-se por inteiro. Seus olhos percorrem sua imagem refletida dos pés à cabeça, a imagem inteira, cada milímetro, as mãos, as roupas, o sapato, os cabelos, o rosto, tudo, muito rapidamente, procurando dimensionar-se, ir ao encontro de si. Não deixa escapar qualquer detalhe, sequer uma pequena mancha que levava próxima ao botão superior da camisa. Realizava um verdadeiro trabalho de reconhecimento. Leva as mãos ao rosto, tateia a boca, o nariz, as sobrancelhas, e os dedos percorrem lentamente os sulcos e pequenas fendas que iam se abrindo por sob a pequena bolsa que carregava seus olhos. Que idade teria? Outra vez vinha-lhe a mente a sombra da identidade. Que idade teria? Ainda não iria desesperar-se fatalmente, pois a observar bem, era algo que girava em torno dos cinqüenta anos. Não muito mais ou não muito menos. Mas a idade precisa, apesar dos esforços, não lhe vinha à lembrança. Os olhos buscavam na imagem um sinal, um dado qualquer, que pudesse transmitir-lhe qualquer informação a respeito de si mesmo. Não encontrava. Vestia-se sem grandes distinções, mas também não era um maltrapido, era um sujeito comum, que poderia ser encontrado em qualquer ambiente. Não havia um traço que o destacasse ou distinguisse, talvez pudesse mesmo ser um cidadão qualquer de qualquer grande centro do mundo. Cabelos bem penteados, a barba feita, estatura mediana, e peso aparentemente correspondente à altura. Mira seus olhos nos olhos da imagem, procura por dentro, investiga, mergulha, interroga e outra vez sem resposta. Volta à rua.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;João retoma a caminhada. Anda por dois quarteirões, atravessando duas ruas estreitas, e chega a um grande cruzamento. Ali uma grande multidão se deslocava. Um ir e vir sem fim, entre um turbilhão de veículos e uma extensa rede de semáforos. Quando aproxima-se da esquina, da beira da calçada, onde a rua corta-se por todos os lados, retém-se, observa os letreiros que há no entorno, as placas, lê-as todas, reflete, observa os números dos ônibus e os caminhos que tomam, mas decididamente, não sabe para onde deslocar-se. O que exatamente faz ele ali naquele local, aquele horário, no meio daquele grande centro, entre milhares de pessoas que certamente sabem para onde vão? Observa atentamente vários dos que por eles passam, e tem a breve sensação que estão todos programados, com uma rota certa, um traçado pré-definido, caminham todos com passos firmes, parece que além dele próprio, ninguém ali tem dúvidas sobre o roteiro a seguir, o rumo a tomar, mesmo por que, a maioria tem pressa. Encosta-se em um poste e vê uma cena que chama sua atenção. De uma porta estreita, em cujas laterais havia duas placas divulgando preços promocionais de sucos e salgados, sai um homem completamente embriagado. Assim que transpõe a porta do pequeno e estreito bar, leva a mão aos olhos, o interior pouco iluminado do local, onde provavelmente permaneceu por um bom tempo, fez com que se desacostumasse com o excesso de luz. O rosto e a boca estavam um pouco inchados, a camisa desfeita, as pernas pareciam querer dar rasteira uma na outra, por pouco, uma ligeira cambaleada e um tropeço, quase o levam ao chão. O homem escora-se, leva as mãos na parede, e prossegue seu caminho. Seu andar era trôpego, mas sabia para onde ia, onde deveria chegar. João ficou a observá-lo até que desaparecesse de seu campo de visão. Aquela cena deixou-o ainda mais atordoado. Para onde iria ele?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Diante mais uma vez da falta de alternativas ou respostas, resolve sentar-se em uma lanchonete para tomar fôlego, e quem sabe, recobrar suas energias, livrar-se do mal estar, aí sim, lembraria novamente, não apenas para onde ir, mas também o seu nome, e quem de fato era. Senta-se, pede um café, um pão quente, e põe-se a comer. Ao pegar a xícara, detém atentamente os olhos sobre suas mãos, quem sabe ali não estaria um vestígio qualquer de sua identidade perdida. Um calo nos dedos, uma marca ou cicatriz, uma pequena mancha, sinais de algum ofício, algum trabalho, mas as mãos não lhe aliviavam a angústia, apressavam-se apenas em levar o café à boca. Sentia fome, a visão das guloseimas que se expunham nas vitrines dos balcões, abria-lhe o apetite, conhecia bem cada um daqueles salgados e doces, não tinha dúvidas quanto a interpretar o cardápio, ler as informações, placas ou letreiros que encontrava diante de si. Mas quanto à pessoa que era, nada ainda, nem um sinal, uma informação, uma pista ou indício. Não iria mais tentar prosseguir, desconhecia o destino, resolve, então, voltar para o ponto de origem, fazer o caminho de volta, retornar ao local de onde viera. Quem sabe assim, seu drama pudesse ser resolvido. Engole a última lasca de pão apressadamente, corre até o caixa para pagar o que deve, e saí com passos largos em direção ao ponto em que descera, que não estava muito distante dali. Em poucos minutos, encontrava-se exatamente naquele local onde desembarcara, a poça ainda estava lá, do mesmo jeito, ocupando o mesmo espaço e com a mesma quantidade de água. Agacha-se sobre ela, e consegue ver o vulto de seu rosto sobre o líquido amarelo, como a desafiá-lo. Um vento que se arrastava rente ao chão desenha ligeiras ondas naquela pequena poça que se alarga, sua imagem refletida amplia-se e parece rir da imagem real. João levanta-se de uma vez. Uma dor súbita atravessa-lhe o peito. Não sabia para onde voltar.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Estranha sensação. Sem saber o que é ou que fora. De onde veio e que rumo deverá tomar. Como faria agora para recuperar a si próprio? É comum que ao longo da vida percamos uma coisa ou outra, ou várias delas. Afinal, não temos como nos agarrar a tudo a que um dia possuímos. Sempre nos lembraremos de um inconveniente de uma chave perdida, um dinheiro qualquer, um amor, um guarda-chuvas, mas perdermos o que somos, é algo que talvez não ocorra lá com muita freqüência. Estava ali de pé, outra vez sem ter como locomover-se. O que faria a partir dali? Talvez nunca mais voltasse a ser quem era. Não recordava-se de um parente, amigo, um endereço, trabalho, onde mora, nada. Se a cidade fosse pequena, talvez, quem sabe, fosse encontrado por algum conhecido, aí lhe pediria ajuda, e este o levaria para casa, junto aos seus, se é que os tinha. E tudo voltaria ao normal. Mas em uma metrópole deste porte, as possibilidades eram mínimas. Quem sabe fosse alguém famoso ou popular, e em questão de horas, fosse logo identificado por algum fã ou simpatizante qualquer. Mas não parecia ser simples assim. O tempo passava, ele não encontrava ninguém, nem era encontrado, não achava um elo qualquer que o ligasse a sua história pessoal. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Compreendia o mundo que via, mas não sabia que vínculo agora possuía com ele. Nada havia mudado na história da humanidade, apenas na sua própria. Da primeira ainda entendia bem, mas da outra, já coisa alguma. As coisas ao redor, lhe faziam sentido, não era um alienado total. Podia andar pela cidade, entendia o que via, tinha a plena noção de como se organiza esta civilização, da qual tem plena consciência fazer parte, apenas não sabe como. Era estranho e desconhecido apenas de sim mesmo. Não havia muito o que fazer. Vai então perambular pela cidade, a esmo, quem a sabe a sorte, possa lhe restaurar a existência. Leva outra vez a mão ao bolso, retira a carteira, certifica-se que o dinheiro que levava poderia cobrir-lhe as necessidades por no máximo uns dois dias, e arranca, violentamente, o documento manchado. Lá estava novamente, uma foto, era a sua, não havia como negar. O espelho que mirara há pouco, acabava por confirmar. E um nome apenas. Agarra-se ao documento, como o doente em seus suspiros últimos quer agarrar-se à vida, com as forças e esperanças que ainda restam. Segura-o firmemente, observa-o, posiciona-o contra a luz, em perspectivas diferentes, mas a água escura havia feito a limpeza completa.Mesmo assim, não jogaria aquele documento fora por nada, era o fio fino que talvez pudesse conectá-lo ao mundo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Era incrível, mal podia acreditar no que lhe acontecera. Vai andando pelas ruas, olhando para os outros homens e mulheres que cruzavam seu caminho. Esforçava-se por olhá-los um a um, mesmo sabendo da impossibilidade da ação, pois eram inúmeras as pessoas que povoavam aquele hipercentro, porém, era uma forma de manter viva a esperança de que em algum daqueles olhares, daqueles tipos, alguém que lhe fosse próximo, aparecesse em uma esquina, trazendo-lhe a solução. Não tinha dúvidas, que se casso se deparasse com alguém bem conhecido, do seu dia a dia, não lhe iria passar despercebido. Ele mesmo, pensa, o reconheceria de imediato. Afinal, o mundo e a cidade não lhe pareciam tão estranhos. Naquela parte mesmo da cidade em que se encontrava, sabia que já havia passado por ali, incontáveis vezes. O cenário à volta eram-lhe familiares, o que lhe infernizava mais a cada instante, era não saber como se encaixar nele. Que peça seria em meio a este gigantesco quebra-cabeça que tem diante de si? Teria sido a memória que fatalmente falhara ou o seu passado recente, a sua história toda que resolvera escapar-lhe de vez? Seria, pois, um renascimento, a vinda de outro super-homem, um milagre qualquer, ou o simples prenúncio de uma fatalidade, a morte anunciada, a eliminação completa e definitiva? A cidade cheia, movimentada, dinâmica, com suas várias multidões, gestos e apelos, naquele momento, não lhe faziam qualquer sentido. O mundo é real, palpável, vê todas suas cores e formas, mas que significado ele teria dentro dele? Em que medida seria ele parte integrante? As dúvidas se acumulavam. Talvez fosse um simples fantasma, proveniente de gerações passadas, e que aqui acabara de chegar, um extra-terrestre programado para o esquecimento, ou quem sabe ainda, um destes avatares modernos, criados pelos jovens em seus computadores possantes, e agora possíveis de serem soltos por aí? A cabeça já lhe pesava. Abatido por um forte mal estar e um tremor frio que lhe atravessa o corpo, resolve interromper a caminhada, e procurar um local onde pudesse sentar-se um pouco. Atravessa duas avenidas, com os olhos sempre atentos à multidão, e por fim, encontra uma pequena praça, com alguns poucos bancos, cercada por algumas árvores antigas e frondosas, que lhe renderiam uma boa sombra. Seria ali, onde descansaria um pouco, e recuperaria forças para retornar à vida normal.&lt;br /&gt;Havia encontrado um banco em um ponto mais afastado da rua, debaixo de uma grande árvore, e considerava-se com relativa sorte, pois ali poderia refletir um pouco sobre sua nova condição sem que fosse incomodado. Senta-se, estica as pernas, e inclina a cabeça para o alto, observando os longos e sinuosos galhos que sacodem ao vento, o universo de folhas, os pássaros que vão e vem, o movimento da vida. Um tímido vento sopra-lhe ao pescoço e parece aliviar um pouco suas dores. Observa o céu por sobre as árvores. A noite não tardaria a chegar. Uma fresta de luz ilumina seus ombros. Os músculos descontraem-se e seus olhos se fecham.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Acorda repentinamente, assustado. Um solavanco brusco em seus pés, quase lhe arranca do banco. Ao abrir completamente os olhos, vê dois jovens garotos correndo em disparada. Levaram-lhe os sapatos. Era noite alta. Dormira demais e o sono pesado não lhe permitiu perceber a chegada dos garotos. Além de não haver recuperado o que de mais importante havia perdido, ainda perdera os sapatos. Leva a mão ao bolso, outro susto, a carteira havia sido roubada, estava sem dinheiro algum. Apenas o documento estropiado ainda se encontrava com ele, pois estava no bolso inacessível aos ladrões. Agora nem o pouco dinheiro que poderia ainda lhe garantir uma ou outra refeição, a sobrevivência por quem sabe um ou dois dias, tinha mais. Mais que o não-cidadão, os ser que não é, era agora também um despossuído. Um vento frio cortava-lhe os pés descalços e um calafrio agudo fazia tremer seu corpo inteiro. Inclina-se sob o banco, corre os olhos ao chão, para verificar se pelo menos uma nota, não deixaram os garotos para trás, diante fuga apressada. Inútil, nada mais conseguira localizar, além de papéis de bala, uma tampinha de refrigerante e dois tocos de cigarros.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao levantar a cabeça, desconsolado, vê dois policiais vindo em sua direção, eram enormes, tinham a farda bem passada, os braços de ferro, uma boina que quase tampava um dos olhos, escondendo um olhar duro, e tinham os dois, o rosto largo, quadrado. A rua estava deserta, os outros bancos estavam todos desocupados. Apenas ele e os dois policiais pareciam povoar a inquietante madrugada. Os policiais aproximam-se e ordena que fique de pé. João se levanta, leva as mãos ao pescoço, enquanto um dos homens faz a revista. A única coisa que encontram é o documento. O policial puxa-o de uma vez, arrancando-o violentamente do bolso. Levanta-o para o alto e chama seu companheiro para ver mais de perto. Não havia nada escrito ali, apenas a foto do homem. Com os olhos fulminantes, impetuosos, e uma voz metálica e rouca indaga a seu dono. O que é isto? Ele não responde. O policial lhe devolve o que sobrara do úmido documento. Mas o que é isto? Pega rapidamente o documento de volta, como que se este fosse sua única tábua de salvação, seus olhos se esbugalham e o coração aperta, quando percebe que a umidade do papel havia se alastrado por todo o documento, e já nem mais um nome restava. Um outro borrão se formara entre o plástico molhado e o papel, era o pouco que havia restado de si. Até a fotografia já apresentava sinais de esmorecimento, uma pedaço rasgara e começa a deslocar-se do lugar. Novamente, um estrondo invade seus ouvidos. O que é isto? Quem é afinal? Esbravejava o gigante de fardas e botas. O pobre homem não conseguia balbuciar palavra alguma, pois elas não lhe vinham à mente. Qual o seu nome? Insistem as policias. Já não mais o sabia. Não se recordava de nome algum que pudesse dar como resposta. Os policiais não perdem mais tempo. Algemam o homem e atiram-no ao carro. O motorista arranca apressado. No meio do caminho, tem suas pernas amarradas. O veículo segue rumo à saída da cidade. Atravessam os bairros periféricos, acessam a grande rodovia, e deslocam-se em direção às montanhas. Quando a madrugada ensaiava findar-se, estacionam à beira de um precipício, e antes que nele chegassem, uma grande fenda sem fim incrustada ao chão, lhes abreviava a missão. Era um grande fosso de pedras de bocas largas e goelas escuras e profundas. Perguntam ao homem, mais uma vez, se este não lhes diria o nome. O silêncio era completo. É empurrado ao fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-5214739807429102822?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/5214739807429102822/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=5214739807429102822' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/5214739807429102822'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/5214739807429102822'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2011/01/o-labirinto.html' title='O Labirinto'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/TSd048APR4I/AAAAAAAAAfs/3A2R97D_wcs/s72-c/293109444_268863c0cb.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-7494488171972051537</id><published>2010-10-12T16:22:00.000-07:00</published><updated>2010-10-12T16:33:48.397-07:00</updated><title type='text'>Descaminhos</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/TLTwUcy8XUI/AAAAAAAAAfg/T2UR99kltng/s1600/117139_Papel-de-Parede-Barra-de-ouro_1280x960.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5527306876808355138" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/TLTwUcy8XUI/AAAAAAAAAfg/T2UR99kltng/s320/117139_Papel-de-Parede-Barra-de-ouro_1280x960.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Descaminhos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que aposentara, adquirira o hábito de fazer umas caminhadas pela redondeza, pelas vizinhanças. Geralmente, levanta-se mais cedo que a mulher, que nem sempre se dispõe a acompanhá-lo por estas andanças. Mas não abandona o conforto e o calor da casa sem antes observá-la por umas duas longas vezes. Antes de levantar-se, quando as primeiras luzes da manhã invadem a escuridão do quarto, aprecia o amanhecer em seus lábios dormentes e em seus olhos fechados. As rugas incipientes que afloravam em seu rosto tornava-a mais próxima, mais cúmplice, sinais dos tempos, que por estas vidas, trilharam. Era bela e a admirava. Levanta-se vai até o banheiro e a cozinha e volta, outra vez ao pé da cama, para apreciar a mulher, que já acordava. Esperava-a despertar e lhe dizia algumas palavras otimistas. Estava satisfeito por estar ali, e principalmente agora, que com a aposentadoria, não precisava mais prender-se sistematicamente aos horários e à escravidão dos relógios. O que não quer dizer que já não tivesse uma rotina, pois às vezes, acabava por fazer as mesmas coisas nos mesmos momentos, em função dos costumes e dos hábitos que se ia adquirindo. Mas se tinha algo de que se gabava, era de não mais carregar as horas no punho, coisa que parece ter feito uma vida inteira. Sem tirar os olhos da mulher, afasta-se e vai à janela ver como anda o tempo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nada havia naquela manhã que pudesse ser muito diferente das outras. Levantou-se, preparou o lanche, duas fatias de pão e o resto do suco que havia sobrado da refeição de ontem; lavou o rosto, escovou os dentes e mirou-se no espelho. Já não era mais o jovem que há muito não encontrava em sua imagem refletida, mas via-se não como um homem velho, mas alguém que tivera a oportunidade de aprender muito com a vida. Considerava-se um sujeito experiente e que ao longo dos anos pudera acumular algumas sabedorias. Deixa a mulher na cama, pois esta ao acordar, queixa-se de um incômodo mal estar, e resolve dormir mais um pouco, para ver se o sono da manhã, possa quem sabe, revigorar-lhe, proporcionar mais ânimos. Ele aproxima-se para despedir-se e pousa-lhe na testa um beijo quente e afetuoso. Ela parece reconfortar-se. Após vestir-se confortavelmente para a caminhada matinal, rotineira, apaga as luzes e sai para a rua. Lá fora, o dia já estava bem claro.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;As primeiras almas com as quais encontra são seus antigos vizinhos. A senhora do lado, que acordava bem antes das manhãs, ajeitava um pouco a casa, enquanto esta não havia recebido ainda, a luz do dia, e logo em seguida, apressadamente, corria para regar as flores e plantas, que sempre cultivara em seu extenso jardim. Eram muitas as espécimes, as mais variadas formas e tipos, cores conhecidas e inimagináveis, uma infinita biodiversidade, cultivada com extremo rigor e uma disciplina religiosa. Não havia dia, qualquer que seja, de feriados ou festas, que a impedisse de cuidar de sua vasta flora. Seus olhos brilhavam. Ele olhava-a com grande delicadeza, admirava-a pelo seu trabalho com mudas e folhas. A felicidade com que a mulher dedicava-se ao ofício fazia, com que no fundo, aquela manhã, parecesse ser mais alegre. Ele enchia os pulmões, e quase de uma vez, inalava todos os aromas que suas narinas conseguiam captar. Aproxima-se da mulher, e deseja-lhe que tenha um bom dia. É um vizinho generoso. A senhora responde-lhe entusiasmada, com um frenético aceno com as mãos. Não são poucas as manhãs, em que esta rotina se repete. Mal retoma seus passos e encontra-se com um outro vizinho, outro antigo companheiro das primeiras horas do dias, geralmente, é apenas neste horário que se encontram, pois anos e anos de trabalho, seja de um ou de outro, acabaram por afastá-los definitivamente em outros momentos do dia. Agora, com a aposentadoria, é que passa a encontrá-lo mais vezes, parando mesmo, em algumas ocasiões, para conversarem um pouco. A conversa, na maioria das vezes, não se estendia muito, mas os cumprimentos e as trocas de gentilezas eram freqüentes. Falavam amenidades, discutiam problemas da vizinha, o buraco da rua, a lâmpada do poste que não parava de piscar, fazendo vultos na noite, e os movimentos dos carros, que eram às vezes, violentos e velozes. O que muito motiva as conversas, provavelmente, é o fato de quase sempre estarem de acordo, comungarem muitas crenças e princípios, raramente apresentam divergências, e o desfecho de seus breves diálogos era sempre acompanhado de sorrisos e apertos de mão. Apesar desta proximidade, não era sempre que se punham a revelar suas intimidades ou coisas da vida privada. A proximidade territorial que a vizinha lhes impunha, aconselhava certa distância no que diz respeito a suas vidas pessoais. Nos últimos meses, é que tem tido mais tempo para dedicar-se as conversas, e pelo que se recorda, apesar de tantos anos, tendo-o como vizinho, não se lembra de ocasião em que puderam trocar idéias e informações com tanta freqüência. Mas se havia algo que os aproximava mais, portando-se quase como duas crianças, eram quando o cachorro do colega, vinha ao encontro dos dois. Era um animal extremamente amável, tinha um jeito dócil e seus olhos despertavam compaixão. Assim que se reunia aos homens, sentava-se entre eles, como se quisesse se inteirar também do que há um bom tempo debatiam. Imediatamente os vizinhos corriam-lhe as mãos por entre os pelos. O cão fazia-lhes as graças e parecia declarar-se amigo. Após tantos encontros afáveis, o cão certamente possuía alguma consideração pelo vizinho. Era o que mostrava sempre, nunca o importunava ou rosnava ameaçador. Agora, que possuía mais tempo, queria aproveitar melhor os momentos, cansou-se de tanto correr, da casa ao trabalho, do trabalho a casa, uma vida inteira. Sentia, que de certa forma, abria outro olhar para o mundo. Percebia que nunca possuíra tanta tranqüilidade, para deitar um olhar mais prolongado sobre as coisas e as pessoas. Por isso talvez, tenha resolvida caminhar pelas manhãs. Queria aproveitar melhor os dias, todos que ainda teria pela frente. Com mais tempo para si, e sem as amarras do trabalho e dos horários, podia apreciar mais detidamente a bela mulher que o acompanhou por anos e anos a fio, a vizinhança, com a qual sempre se dera muito bem, as flores da casa ao lado, e aquele cão generoso, que parecia querer lhe fazer a guarda. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O que fazia diariamente, já há mais de três semanas, de forma fiel e assídua, antes de pegar o embalo da caminhada, era visitar o amigo de muitos anos que encontrava-se gravemente doente. Fazia questão de estar a casa, que ficava a poucas quadras da sua, onde conversava com a irmã do enfermo, inteirando-se detalhadamente da evolução do quadro clínico e das mazelas da doença. Mas não contentava-se com isto apenas, e queria sempre ajudar. Falava com o homem, alguns poucos anos mais velhos que ele, relembrava os bons momentos que viveram juntos, afinal se conheciam desde a juventude, e muitas histórias tinham para trocar. Mas o homem não se mexia, não esboçava qualquer reação. Seus olhos pareciam boiar pelas órbitas e mirar para um ponto onde seus interlocutores não podiam enxergar, quase não piscava. Não podemos saber se entendia o que estava a se passar. Não havia como avaliar o seu grau de consciência. Estava inerte. Apenas o olhos, fixos, luminosos, pareciam demonstrar algum sinal de vida. O suor escorria-lhe pela face, ensopando seus poros, transformando suas rugas em longas correntezas de água salgada. O homem parecia transbordar ou afogar-se em si mesmo. Por mais que lhe trocassem as roupas, estava sempre encharcada, a febre talvez lhe queimasse os ossos, brasas acessas, que deixavam aquele corpo em chamas. Generoso que era, o velho amigo, cuidadosamente, molhava o lenço na água morna, que havia colocado na mesa ao lado, e limpava seu rosto, como a aliviar-lhe o sofrimento, e assim o fazia com grande emoção, pois era com profunda tristeza que via o antigo companheiro definhar. A irmã, que cuidava daquela pobre alma, sentia-se agradecida com a iniciativa do amigo, e sempre por um bom tempo, deixavam-nos a sós, pois tinha a sensação que o irmão sempre melhorava um pouco após a visita cordial e diária. Cada vez que vai à casa do amigo encontra-o pior, e pelos vistos, nem a bondade alheia nem o rigor da medicina terão como salvar aquela pobre e miserável alma. Mas como já sente o sol esquentar um pouco, percebendo quão alta vai a manhã, resolve então despedir-se da casa e ir, finalmente, à caminhada. Leva outra vez o pano molhado sobre a testa do homem, apalpa-lhe os cabelos, deposita algumas palavras breves em seus ouvidos, e sai do quarto. Já à porta, despede-se da mulher, que amavelmente lhe agradeceu pela dedicação e cuidados. Abraça-a e diz que no dia seguinte estará de volta.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Após alguns minutos de caminhada a passos largos, quando o corpo começa a aquecer-se, a face corar-se, e as pernas tornarem-se mais leves, distanciava-se já algumas quadras de sua vizinhança mais próxima. Atravessa ruas, cruzamentos, anda pelo meio dos carros, até chegar a uma região, onde a estabilidade das calçadas e as árvores frondosas, pareciam proporcionar melhores condições para se realizar um exercício aeróbico, desenvolvendo as musculaturas, e a capacidade dos pulmões. Além do que, era um local mais tranqüilo, com uma quantidade quase rarefeita de veículos e pedestres, onde podia se dar ao luxo de exercitar também os braços, levantando e flexionando-os sem chamar muita atenção. Ali revigorava seu ritmo, e entregava-se aos pensamentos. Era uma boa ocasião onde refletia sobre a vida, a passada, a presente, e as que pretendia almejar. Era um homem de sonhos. Na medida, em que o sangue acelera-se em suas veias, as batidas do coração punham-se ao compasso dos pés e pernas e renovava o ar dentro de si, desenvolvia projetos, tinha idéias, traçava metas. Acreditava mesmo já ter tomado grandes decisões durante estas andanças matutinas, e possuir sabedoria. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao entrar pela chamada alameda das flores, uma rua estreita, onde os moradores, fazem questão de deixar as casas sempre pintadas, e a calçada bem florida, vê uma criatura muito bem agasalhada encostada sob uma árvore, que parece não se afligir muito com o calor que já àquela hora fazia. O sujeito, com roupas escuras, confundia-se com os troncos das árvores, que muito próximas ficavam umas das outras. Naquele momento, era o único com quem teria que dividir aquela rua. Sem que percebesse, reduz ligeiramente o ritmo de seus passos para observar melhor aquela figura, que fica a cada passo, mais próxima. Difícil ver seu rosto, pois usava blusas cumpridas e gola alta, que tampava-lhe os braços, o pescoço e quase toda a cabeça. O chapéu de abas largas escondia o pouco que a blusa deixava destampado. As mãos estavam enfiadas nos bolsos e as pernas protegidas com botas de cano longo. Ao aproximar-se do que provavelmente era um homem, este se mexe, e da alguns passos ligeiros em sua direção. Tem os passos curtos e muito rápidos, suas pernas eram pequenas. Um encontro parece ser inevitável. Aproximam-se, curiosos, e postam-se, frente a frente. Como vinha já de uma longa caminhada, ao parar, parece corar-se ainda mais, o suor começa a correr pela testa e cai em seus olhos. Leva a blusa ao rosto, secando-o, possibilitando ver melhor o que tinha diante de si. O homenzinho parece evitar um olhar direto, esquiva-se, e não se deixa ver, de todo. Vira-se de lado e faz as saudações. Olá, és um homem forte e vê-se logo, que sábio também. Nestas idades, não é todo mundo que se põe a caminhar desta forma. Vê-se que preocupas contigo, e pelos vistos, investes de fato, em uma vida longa. Sim, como agora tenho tempo pelas manhãs, não perco a oportunidade de fazer o que faço. Faz-me bem. Estava a observar-te, desde que despontaste ofegante, daquela esquina lá embaixo. Aprecio a ti, não apenas pela tua disposição, mas pela vitalidade que parece carregar, além do mais, percebo que és um homem generoso, é amigo dos animais e cuida dos doentes. Ditas estas palavras, calam-se. Um silêncio aterrador prostra-se entre eles. As pernas, que vinham aquecidas pela caminhada, gelam-se e ficam endurecidas. Mas que diabos, como podes saber algo a meu respeito se tenho a certeza de nunca tê-lo visto pela frente? Quem és, afinal e o que queres? Como sabe do meu afeto pelos animais e que tenho um grande amigo doente do qual faço questão de dedicar cuidados? O homenzinho dá um giro em volta da árvore, observa-o de cima em baixo, em seguida, aproxima-se, afasta-se, e por fim, baixa a cabeça. Sim, eu te conheço, mesmo que tu não conheças a mim. Pode ser a vida assim, às vezes. Muitas das vezes, conhecemos alguém uma vida inteira, sem que ela sequer perceba nossa presença ou mesmo nossa existência. Não é assim com os famosos e seus fãs? Com as paixões platônicas? Não é lá com o que deva se preocupar. Na verdade, conheço-te profundamente, e por conhecer-te, é que resolvi então, vir ao seu encontro. Eu estava lhe aguardando. Mas o que queres afinal? Quem és? Indagava seu interlocutor com a voz trêmula. Estava visivelmente apavorado. O suor na camisa começava a esfriar e um calafrio percorria seu corpo dos pés a cabeça. Vamos então, direto ao assunto, pois na realidade também não tenho muito tempo a perder. Você não será a única visita que farei por hoje, apesar de ser um contato bem aguardado. Na verdade, venho fazer-lhe uma oferta. Uma grande oferta, e peço-lhe que não a recuse de imediato, sem antes ponderar, pensar duas vezes, pois a boas oportunidades não nos batem à porta por muitas vezes. O que pretendo de ti? Ah, é simples. Quero sua alma, sim, comprá-la com uma oferta generosa e praticamente irresistível. Preciso muito de almas como esta que aí carregas e posso lhe oferecer muito. Ora, deixe de bobagens, estás a divertir-se às minhas custas. Sabe muito bem que não é tudo que podemos comprar, ou encontrarmos a venda. Não me amoles mais, irei prosseguir meu caminho. Calma homem, ainda não disse tudo. Vou comprar-lhe a alma. A ti não faltará riqueza ou poder, dinheiro não é coisa da qual terá que se queixar, poderá viver de viagens, benefícios, privilégios, posses e muitos bens materiais. Você será bajulado e não haverá portas de oportunidades que não se abrirão para você. Não é algo de que devemos nos furtar, sem ao menos pensar duas vezes. Sabes aquele velho sonho que sempre acalentaste e que jamais pode se realizar, pois nunca as finanças permitiram tanto? Talvez tenha chegado a hora. Dar-te-ei um tempo para que dialogues consigo próprio, não precisa resolver de imediato. Dialogue lá com teus botões, seu eu interior, seu coração, invoque sua consciência, amanhã saberei. Dizia com o dedo em riste, e aparentemente sem tocar com os pés o chão, movia-se rapidamente, parecia inquietar-se. Amanhã, quando acordares, encontrará sobre a mesa do quarto, uma grande barra de ouro, é o meu sinal. E será tua, para experimentar a minha oferta, e para ver como não estou de brincadeiras. Aí, aguardarei sua contrapartida. Mas por hoje, não tomarei mais seu tempo, daqui estou de saída. Tem algo que gostaria de dizer, adiantar-me? O homem estivera completamente enrijecido enquanto ouvia. Não lhe ocorria ter que responder qualquer coisa agora. Os músculos da face, com o suor já seco, estavam paralisados. Não imaginava como poderia pronunciar qualquer palavra, além do mais, o ar parecia não querer lhe sair dos pulmões. Não respondeu. Vejo que estás a refletir, não tenha pressa. Amanhã, quando o sol estiver a despontar, encontrará então, o meu tesouro, um adiantamento, dentre outros que ainda estarão por vir. Até o meio dia, aguardarei a sua resposta, pois a partir daí, tenho outros negócios a resolver. O homenzinho dá um rápido rodopio, sai a girar entre as árvores, desaparecendo, sem deixar vestígios. Desaparece como se nunca um dia houvesse existido. Como se mais não fosse, um sonho daqueles que temos acordados, uma breve alucinação, um delírio repentino, mas as pernas agora frias, não tinham mais a disposição para a caminhada, sentia-se exausto. Aquela aparição havia deixado-o transtornado. Enche o peito em busca de fôlego e um forte odor de flores entra em suas narinas. Sente-se um pouco tonto. Muito lentamente, como se as pernas carregassem um peso que não fosse apenas o seu, põe-se a andar. Sentia-se indisposto e resolve voltar para casa.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao ouvir o ruído na porta, a mulher vem ao seu encontro. Ao vê-lo, entranha-o. Está um pouco abatido homem, andou vendo assombrações? Ora, deixe de bobagens, não me sinto muito bem, o sol hoje parece mais quente. Após o almoço, vou deitar-me um pouco. Mas não se preocupe, é apenas um mal estar passageiro, nada que alguns minutos de cochilo não possam resolver. Senta-se, serve-se, e come silenciosamente, com os olhos fixos na mesa, mecanicamente, sem sequer olhar para o prato. Após a refeição, vai até o quarto e pede à mulher que o deixe sozinho, que não o incomode, pois precisa descansar. A mulher resmunga baixinho, sente-se contrariada, mas respeita o desejo de seu esposo, e vai ler o jornal.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele senta-se na cama e permanece por um bom tempo, completamente imóvel, na verdade, não tem tanta vontade de deitar-se, mas ficar a sós, tentando entender o que se passava. Desde que cruzara com aquela coisa, parece ter perdido a expressão. Sentia que a face não refletia emoções, sensações, como se estivesse condenado a ter um rosto de pedra, onde não mais lhe ocorressem o riso, o choro, ou qualquer perturbação. Seria uma face única, fosse ante os mares mais navegáveis e calmos, ou perante os tufões e terremotos, que lhe sangrassem a alma. As coisas pareciam não fazer muito sentido. Levanta-se, repentinamente, e liga a televisão. As imagens e as falas desfilam diante de seus olhos e ouvidos, mas estes não lhe dão atenção. Estão indiferentes. Pouco se movem. As imagens são apenas luzes, que se alternam em cores e ritmos diferentes, o som ininterrupto é quase inaudível, um prolongar de ruídos, que não diz coisa alguma. Talvez as paredes fossem mais receptivas, naquele momento, as informações e propagandas que o aparelho veiculava. Assim, permaneceu por muitas horas sem se dar conta do que ocorria ao redor. Encostado na cama, imobilizado, o rosto duro, iluminado pelo televisor, que enchia o quarto de sons e luzes. Quando deu por si, já eram altas horas da madrugada e a mulher já deitara e adormecera a seu lado. Ele não havia percebido.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Deita-se, mas os olhos não conseguem fechar-se. Afinal daqui a algumas horas, quem sabe, a barra de ouro talvez apareça sobre a mesa. Este pensamento muito o perturba, faz suar frio, e uma dor fina e perfurante, percorre o todo o corpo, partindo do estômago. O coração palpita acelerado. Não adormeceria. Levanta-se e posta-se à mesa, onde em breve, a ser verdade o encontro que acreditava ter tido, uma riqueza considerável estará à sua disposição. Mesmo faltando quase duas horas para que as primeiras luzes do dia trouxessem a manhã, não tiraria os olhos daquela mesa, pois caso o ouro aparecesse mesmo, gostaria de saber como ele chegaria. E ali permanece, tomado de uma ansiedade que não consegue controlar. Os olhos pesam, e às vezes, torna-se difícil segurá-los, e foi em uma destas piscadelas, em que a barra de ouro, reluzente, pesada, apareceu. Não era possível. Ali estava. Como aparecera? Era incrível. Bastou uma piscada, única, para que o tesouro estivesse ali. Acondicionou a barra dourada entre os braços, abriu a porta do guarda roupas, e a escondeu no fundo da última gaveta. Puxou umas fronhas e meias para que o seu tesouro ficasse completamente invisível. Vestiu rapidamente suas roupas, antes que a mulher despertasse, abriu lentamente a porta, e foi para a rua.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Naquela manhã, havia chegado mais cedo que a vizinha das flores. Irritou-se ao ver seu jardim. Rapidamente voltou a casa e, silenciosamente, pegou um tesourão de jardinagem, enfiou no bolso um pote que havia apanhado de cima do armário, e sem que esta percebesse, observou a mulher, que apresentava um sono profundo. Aproveitou então, a ocasião, para observá-la mais de perto. Admirou-se, pela primeira vez, por considerá-la sempre bela. Olhou, olhou, e intrigou-se. Era feia, muito feia. Foi até à frente do jardim, e certificou-se que a rua ainda estava vazia, não havia quem desse por sua presença. Num ímpeto, invade a propriedade da vizinha, abre afoitamente a grande tesoura, e arranca todas as flores, uma a uma. Sabe que ainda tem alguns minutos antes que a senhora apareça. Abre a boca enorme da tesoura, que vai fazendo uma verdadeira limpeza no território, engole as flores pequenas, as grandes, algumas dilacera as pétalas, outras arranca o caule e a raiz. Assim o faz afoitamente, sem vacilar ou demonstrar qualquer piedade. Realiza uma verdadeira devastação, sem sequer estranhar a si. É tomado de uma sensação de fúria, e não se tranqüiliza enquanto não vê as flores todas ao chão. Solta um longo sorriso e gargalha silenciosamente de satisfação. Sente um prazer sem igual. Ao concluir o trabalho, enfia as mãos no bolso e retira o pote que há pouco havia guardado. O rótulo, uma pequena caveira vermelha, indicava o que havia no interior do frágil pote, veneno. Vai em direção à casa do vizinho, dono do cachorro. Entra pela lateral, onde o carro do proprietário estava estacionado, e anda se escondendo por sob as folhagens. Já dentro da garagem, encontra a tina onde o cão bebe água, que estava cheia. A água estava clara, limpa, provavelmente havia sido colocada ali não há muito tempo. Era água fresca, que certamente iria matar a sede do animal, assim que seu dono abrisse a porta. Abre o pote, que segura firmemente entre as mãos, e derrama na tina, todo o seu conteúdo. Levanta a tigela e a imprime um movimento circular, para espalhar o pó verde que havia se acumulado no fundo. Dá algumas voltas na água, e rapidamente o veneno se dilui. Já não tinha mais tempo. Não faltava muito para que os vizinhos saíssem de suas casas.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, resolve afastar-se da região. Distancia-se de casa e anda pela cidade, cortando ruas, avenidas, cruzando praças, sem saber ao certo, onde queria chegar. Precisava andar, sentia-se excitado, mas mal repara nos lugares aonde ia. Andava, andava. O sol da manhã já lhe corava os braços e ia alto. Uma sensação de formigamento toma todo o seu corpo e os braços e as pernas parece comandarem-se sozinhas. Lembra-se do amigo doente. Era preciso vê-lo. Aperta os passos em direção à sua casa, e atravessa a cidade novamente. Lá chegando, faz soar a campainha e a irmã do amigo, prontamente vem lhe atender. Ele hoje parece estar melhor, diz. Desde que saíste ontem, vem esboçando alguma reação. A febre baixou e pude perceber um raro brilho nos olhos. Venha, entre, ele provavelmente o aguarda. A irmã, como sempre faz, acompanha-o até o quarto, e em seguida, retira-se, deixando-os a sós. Ele lentamente aproxima-se do amigo. A mulher parece ter razão, sua aparência hoje é bem melhor. Aproxima-se mais. Os olhos do doente parecem buscá-lo, mas ele não lhe dá confiança. Após um enorme esforço, consegue arrastar a mão trêmula pela cama e repousa-a sobre as mãos do visitante. Este se safa do contato abruptamente, a tentativa de aproximação lhe causa um grande desconforto e afasta-se. Sobre a porta do quarto, um grande relógio, mostrava-lhe as horas. Seu ruído atormentava-o, tornando-se cada vez mais alto, ensurdecedor. Não conseguia ouvir outra coisa. Punha as mãos nos ouvidos e não obtinha resultados. Era enlouquecedor. O ruído dominava todo o ambiente. Num ímpeto, pega a toalha que sempre usava para aliviar o fogo que queimava o amigo, e lhe aliviar a febre, e dá-lhe algumas voltas, enrolando-a, como se fosse uma corda. Aproxima-a do rosto do homem, e a princípio, lhe retira o suor. Em seguida, leva a toalha enrolada em direção ao pescoço, envolvendo-o. Segura firme as duas pontas da corda improvisada e a pressiona sobre a garganta do homem, que começa a sufocar-se. Olha para o relógio e dá a estrangulada definitiva. Era meio dia.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-7494488171972051537?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/7494488171972051537/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=7494488171972051537' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/7494488171972051537'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/7494488171972051537'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2010/10/descaminhos.html' title='Descaminhos'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/TLTwUcy8XUI/AAAAAAAAAfg/T2UR99kltng/s72-c/117139_Papel-de-Parede-Barra-de-ouro_1280x960.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-5240864276252343747</id><published>2010-10-02T13:38:00.000-07:00</published><updated>2010-10-02T13:43:45.051-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/TKeZdtbixTI/AAAAAAAAAfY/vTTIw0d8Lew/s1600/2006032600_velhice-thumb.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5523552203683579186" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 213px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/TKeZdtbixTI/AAAAAAAAAfY/vTTIw0d8Lew/s320/2006032600_velhice-thumb.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Faz-se pânico geral quando o assunto é o envelhecimento. Mas há um lado bom ao percebermos a ação que o tempo imprimiu sobre nós. Seja vendo-nos mais maduros, testemunhos de uma história já de média duração, seja percebendo o processo da vida como uma revelação.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-5240864276252343747?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/5240864276252343747/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=5240864276252343747' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/5240864276252343747'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/5240864276252343747'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2010/10/faz-se-panico-geral-quando-o-assunto-e.html' title=''/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/TKeZdtbixTI/AAAAAAAAAfY/vTTIw0d8Lew/s72-c/2006032600_velhice-thumb.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-6274914949687784102</id><published>2010-08-25T16:58:00.000-07:00</published><updated>2010-08-25T17:08:03.945-07:00</updated><title type='text'>O pescador</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/THWwOGkk1II/AAAAAAAAAfI/tLVcPfbdCrY/s1600/pescador_solitario.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5509503475486348418" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 221px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/THWwOGkk1II/AAAAAAAAAfI/tLVcPfbdCrY/s320/pescador_solitario.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O pescador&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes que o sol viesse clarear o dia, já estava com os olhos abertos. Depois de muitos anos acordando sempre no mesmo horário, quando o breu da noite ainda não havia sido devorado pelos primeiros raios de luz, não mais se lembrava do dia em que acordara mais tarde. Neste sentido, os dias pareciam ser todos iguais. Naquela mesma hora, outro dia estaria para começar. Sempre cedo. Vira algumas vezes na cama, para conferir o conforto que esta lhe proporciona, nas mais variadas posições em que se encontre, além de ser também uma maneira, de sentir os diversos músculos que compõe o ainda jovem corpo que, em seguida, se poria a trabalhar. Antes de levantar-se, porém, aproxima-se mais uma vez da mulher, que normalmente, desperta um pouco depois dele. Gosta de vê-la ali dormindo, e sempre fica a observá-la. Apesar da escuridão do quarto, consegue enxergá-la nitidamente, cada curva do seu corpo, o desarranjo dos cabelos, a posição de seus braços, como se contivessem os olhos memórias, que projetassem em seu cérebro a imagem da mulher que ao seu lado, por vários anos dormira. Instintivamente, respira o seu perfume, feito das flores, que já há muito tempo, acalenta os seus sonhos, ilumina os seus desejos e fantasias. Ao tocá-la outra vez, silenciosamente, com movimentos leves, para que não a desperte, sente o calor que sai de seus poros, da pele, como a aquecer o quarto inteiro. Não conhece remédio melhor para as longas noites frias. As primeiras sensações da manhã, fazem com que sinta-se, apesar de todas as privações que a vida possa lhe impor, um homem feliz. Subitamente, lembra-se do dia que o espera. Empurra as colchas para o lado, senta-se na cama, enquanto seus pés calçam os chinelos, seus olhos procuram outra vez a mulher, que começa agora, a remexer-se entre os lençóis. Em alguns instantes, estará de pé.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Vai até o lavatório e leva o rosto na água fria, quando parece, finalmente, despertar-se de vez. O dia agora clareava diante de si. Levanta os braços e apanha sobre uma placa de madeira, presa à parede, um pedaço de espelho, que mais correto seria lhe chamar caco, um pedacinho de espelho que mal dava para enxergar a metade do rosto. Eram como viam-se no dia a dia, os dois. Verem-se juntos, o casal, por completo, em um espelho de verdade, em grandes proporções, não era algo que tenham algum dia feito. Passa o caco reluzente sobre a face, percorrendo-a e iluminado-a. Observa as últimas gotas que escorrem a penetrar os finos sulcos que afloram em sua pele pouco quebradiça e queimada pelo sol. Apanha a toalha e esfrega rapidamente o rosto. Não é muito das vaidades, e vai então, onde lhe chama o estômago. A dieta não é lá das variadas, muito antes pelo contrário, a vida por ali é de muitas dificuldades. A terra não é nenhum prodígio, e a colheita que se tem é fruto de um trabalho muito duro, árduo, portanto, vai encontrar nas prateleiras, nada mais que uma broa, algumas fatias de pão, e um chá de ervas, do qual já vinha se servindo há alguns dias. As terras, apesar de fornecerem uma matéria prima de excelente qualidade para todo tipo de cerâmica que se possa imaginar, potes, vasilhas, vasos, pratos, recipientes diversos, utilitários, estatuetas, obras de arte, não é muito generosa, com os que tratam de cultivá-la, é terra dura, que quase poderíamos chamar de ingrata, não fosse a determinação e a necessidade humana, de fazê-la produzir. E também, vez por outra, alegrava os moradores da aldeia, com frutas, que pipocavam pelas matas, como se fossem oferendas. O casebre é simples, praticamente um único cômodo, por onde se distribui suas modestas instalações. A cama, o lavatório, o guarda-roupa modesto, em caixas de papelão, e uma parede praticamente inteira dedicada aos utensílios que faziam daquele homem um habilidoso pescador. Todo tipo de anzóis, linhas, redes, fios, serras, balaios, que fazia que também o interior da moradia, tivesse o cheiro do mar. Do lado de fora, ficavam o cercado de madeira, onde faziam suas necessidades, os utensílios domésticos, e a mesa de pedra onde era preparada a comida. A mulher já está desperta, o homem então, abre as cortinas e destrava a janela. A primeira luz da manhã, ao bater sobre as ondas calmas que se aproximavam da praia, saltou das águas e iluminou todo o quarto.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Era possível agora enxergar com clareza todo o interior da tosca habitação. Uma rápida olhadela seria suficiente para dar conta de quase tudo que ali havia, a menos que os olhos queiram deter-se sobre algum canto em especial, algum utensílio, ferramenta, ou jarros de barro, para arrancar deles um pouco de história. São muitas as lembranças que guardam do local, pois além de conviverem ali há uns bons anos, é uma construção bem antiga, levantada há algumas décadas, pelos antepassados dele. Desde menino, conhecia aquelas paredes, a porta e as janelas, onde hoje já se percebe claramente o desgaste causado pelo tempo. As paredes, por serem de barro forte, nem sempre demandam reparos, mas as madeiras das vigas, e dos marcos das portas já sofrem a ação dos carunchos, tornando-as ocas e sonoras à ação do vento. A mesa está ali posta, na mesma posição, desde quando se entende por gente, e proporciona-lhe uma rara sensação de eternidade. Não se recorda de haver vivido numa época em que ela não existisse. As roupas da mulher, os calçados, o vasilhame, os poucos e rústicos móveis, três cadeiras, a mesa, a cama, algumas caixas empilhadas e uma banqueta próxima da porta, além das ferramentas de trabalho dele, que ocupam a maior parte do espaço, formam o cenário que se abre, com a entrada do sol. Ela já se levanta, ele já se encontra à porta. Ela o chama de Antônio e ele a ela, de Ana. Tem o mar diante dos olhos.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aproxima-se do homem, beija-o, e diz, O dia hoje parece mais frio que o de costume. Sim, e pelo visto só há de piorar, é o que nos dizem os ventos, mas nada que continue a incomodar após os primeiros esforços no barco. O trabalho como bem sabe, não nos permite o frio, assim é quando já estou sobre as águas, ou quando está você mulher, no ajeito da casa, na lida da terra a levantar a enxada e o facão. Não há frio que impeça o suor de escorrer. Você está certo, homem. Leva a mão aos cabelos dele, afaga-os e põe-se a penteá-los, passando continuamente os seus dedos finos e longos entre eles. Antônio sorri, e apressa-se a sair de casa. Apanha a linha de anzóis pendurada à parede, um pote com as pobres minhocas que lhe serviriam de isca, e caminha em direção à praia. Ana senta-se à porta, coloca um casaco puído sobre o colo, ajeita uma agulha entre os dedos, e vai costurar os remendos. Ele arrasta o barco pela areia, em direção ao mar, pega um pequeno pote de barro, e com gestos pacientes, retira a água que havia se acumulado no piso. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A natureza exuberante do lugar, com suas águas frias profundamente azuis, sua areia fina e branca, e uma vizinha mata densa, com as mais variadas espécies vegetais, contrastam com a simplicidade da aldeia onde viviam pouco mais de algumas centenas de moradores com seus casebres de barro, onde todos tinham na pesca, seu ofício primordial. Era uma comunidade de pescadores, e dadas as condições geográficas, com mato fechado e altas serranias, além da pouca fertilidade da terra, viviam há muito tempo praticamente isolados. Isolamento que havia lhes proporcionado a preservação de suas águas, árvores, serras e um estilo de vida bem singular e original. Devido às grandes distâncias em relação a outros vilarejos, e quase ausência de trocas ou comércio, os moradores eram quase todos meio aparentados, possuíam geralmente alguma relação sanguínea, mesmo que em graus não muito próximos. Como se tivessem todos uma origem comum, os mesmos ancestrais, um tronco perdido, do qual não mais tivessem lembrança, mais ainda se considerassem os múltiplos galhos, de onde provinham. As condições de sobrevivência eram proporcionadas pelas muitas habilidades que haviam desenvolvido através de gerações e gerações. Uma agricultura pobre, com instrumentos bem rudimentares, que não lhes permitia conhecer a fartura e a abundância, um trabalho tosco com a madeira, uma habilidade fabulosa com a argila, que produzia as mais belas peças e esculturas, e uma grande agilidade com a pesca, que lhes trazia sempre à mesa um variadíssimo cardápio do mar, que era a base da sua alimentação. As ferramentas de metal eram das pouquíssimas mercadorias provenientes do distante e esporádico comércio. O vilarejo situava-se em uma grande baía, cercada por uma areia branquíssima, com águas brilhantes, e protegida por uma grande malha de serras e montes, que havia preservado aquela população antiga, por séculos a fio, dos mais gananciosos desbravadores, invasores ou inimigos. Exímios pescadores, encantavam os raros visitantes com as peças que produziam com o barro, retirado das margens de um córrego cristalino, também farto em peixes. Além de utensílios domésticos de todos os tipos, criavam as mais variadas formas de esculturas, estatuetas dos mais variados modelos ou tamanhos, bonecos, que retratavam alguns moradores ou ofícios, e toda uma produção de peças lendárias, peixes do outro mundo, das águas rasas ou profundas, doces ou salgadas, reais ou imaginários, estavam todos ali, moldadas na argila, e muitas das vezes, adquiriam força mágica e sagrada. A produção era grande, pois não eram poucos os que se dedicavam à arte. Homens, mulheres, crianças e velhos, haviam adquirido o hábito milenar de apalpar o barro entre as mãos, os dedos, e dar-lhe os mais impensáveis contornos. De certo modo, todo aquele universo em cerâmica fazia referência ao mundo das águas e da pesca. Todos os peixes conhecidos e aqueles que conheciam apenas em sua imaginação estavam ali representados. Estas peças eram muito admiradas onde quer que fossem, não só pela sua perfeição e riqueza em detalhes, como pela fidelidade aquilo que se propunham representar. Mesmo em terras mais longínquas, muitos acreditavam que pudessem obter algum tipo de vantagem ou sorte nas pescarias, se guardassem alguma delas como amuleto, utilizados às vezes, como moeda, em seu rarefeito comércio.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;As casas dos pescadores formam uma linha em arco, acompanhando o contorno da baía, e o mar, com todos os seus ritmos, sons, mistérios, e possibilidades, é a vista permanente, obrigatória, e paradisíaca. Destaca-se no topo de um monte mais próximo, o primeiro de um grande conjunto de serras escarpadas, incorporada à paisagem da aldeia, uma grande escultura em madeira, pela qual se tem grande veneração, representando uma espécie de deusa das águas, entidade protetora dos pescadores, que acreditam, teria ensinado, em um passado distante, todas as técnicas, artes e habilidades da pesca. Acreditam os moradores, que teria sido criação dela, todos os instrumentos, que utilizam nas pescarias, dos anzóis aos barcos. Reza a lenda que não apenas ensinara os homens a pescar, mas teria dado a eles também os peixes, providenciando a fartura e a diversidade dos oceanos. Era uma figura feminina, talhada com uma precisão que causava sempre espanto à primeira vista, era muito bela, com expressão que poderia ser ao mesmo tempo doce ou severa. Possuía os olhos grandes, bem abertos, mirando a imensidão das águas, os cabelos eram longos, e carregava dois grandes peixes nas mãos. Não se sabe exatamente quando foi esculpida ou colocada ali, o que já faz parte de um passado bem remoto, do qual não mais se tem registro. Acreditam os moradores que ela tenha vivido no local, muito antes que houvessem levantado o aldeamento e, curiosamente, seus traços, lembram muito os traços das mulheres da terra. A escultura, do tamanho de uns cinco homens, lhes é muito familiar, e os moradores, pelo menos uma vez na semana, lhes prestam oferendas. Geralmente ofertam pães, algum cereal, utensílios, peças de barro ou flores. Os homens imploram por ela, dedicam-lhe canções e versos, mas ela nunca os vê, jamais tira os olhos do mar.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antônio, após a chegada do rapaz que iria lhe acompanhar neste dia de trabalho, dá o último empurrão que livraria o fundo de sua frágil embarcação da areia molhada onde se atracava, e em poucos instantes, estariam a navegar. Seu barco era simples, uma canoa feita de madeira e movida a remos, mas era-lhe muito útil, uma vez que a ampla baía, riquíssima em peixes, das mais diversas espécies, dispensava a necessidade de distanciar-se muito da praia. Ali encontrava um farto alimento. Não eram necessárias muitas horas no mar, para adquirir seu provimento. Na maior parte do tempo que passa dentro da canoa, com seu jovem ajudante e aprendiz, quase não fala, conversa pouquíssimo, com receio de espantar os peixes, que poderiam servir-lhe a mesa. O garoto tinha um aprendizado silencioso, e já praticamente dominava toda a técnica, dada uma observação continuada e atenta. As lições eram demasiadamente práticas, motivadas pelas demandas do trabalho e da necessidade. Os dois, talvez pela graça da sorte, ou pelo respeito que tinham, sejam pela experiência de um, e a relativa inocência do outro, nutriam simpatias mútuas. Sempre que ancoravam, Antônio lhe dava os peixes que era de direito, e em seguida, conversavam, era a ocasião em que passava as orientações que achava fossem mais necessárias, não apenas para enriquecer os conhecimentos do jovem, aperfeiçoando-lhe as técnicas, mas também para reafirmar-se na condição de mestre. Feito isto, partiam para brincadeiras e afagos, corriam na areia, e descabelavam um ao outro, coisa que os ventos marítimos já há muito haviam se encarregado de fazer. Algo, porém, Antônio fazia sempre questão de repetir ao garoto, que nunca deixasse de realizar as oferendas no monte, aos pés da deusa, sob risco, de toda a aprendizagem colocar-se a perder. Sugeria gestos, palavras, invocações, oferendas sempre de acordo com as marés, com as fases da lua, ou o sopro do vento. Dizia que com tais cerimônias, fortaleceria não apenas seus dotes pessoais, como contribuiria com a sobrevivência e felicidade de todos, evitando as doenças, garantindo a pesca, e afugentando as tempestades e os tufões. Embora em muitas das ocasiões, os dois tenham subido juntos o monte, nem sempre o faziam, pois Antônio sempre havia preferido ir ao encontro da deusa a sós. Acreditava que a companhia do garoto, ou qualquer que seja, em muito atrapalhava o diálogo que habituara a ter com aquela a quem sempre havia venerado. Geralmente nos dias de frio, ventos muito fortes ou com chuva fina, subia ao monte, e ali ficava a esquecer-se do tempo, protegido que estava da presença mítica, e da ausência de homens que viessem a importuná-lo. Falava, falava, as vezes, compulsivamente, como a fazer apelos, homenagens, e provar-lhe a fé. Por alguns momentos, emudecia-se, como se fizesse necessário também ouvir. Ficava mudo, imóvel como uma pedra. Às vezes, baixava a cabeça, como a reconhecer a superioridade de sua interlocutora, noutras, mirava-lhe os olhos, ou jogava a visão ao além, para ver quem sabe, pudesse também alcançar, a miragem divina. Há épocas em que sobe diariamente ao monte, e ali fica por horas, a contemplar a enorme estátua de madeira, a aldeia ao longe, os barcos e o mar.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao despedir-se do garoto, anda alguns metros na praia, para encontrar outros pescadores. É quando vão conferir uns aos outros, a sorte do dia. A maioria dos barcos trazia boa pesca, era já uma tradição do lugar. Havia, claro, aqueles mais habilidosos, os que tinham levado horas e horas ao mar, os sortudos da vez, que traziam os barcos abarrotados dos mais abundantes e ricos pescados e sempre uma boa história para contar. As façanhas de uma ou outra captura, os sucessos que tinham como testemunha, prêmio, e as oportunidades perdidas, que seus relatos não permitiam ocultar. Aquele peixe enorme que por pouco não comeu a isca ou escapou de suas armadilhas. A vida ao redor da baía, contínua, milenar talvez, tenha introjetado nestes homens um estilo muito peculiar. Eram, antes de tudo, pescadores. Era o que de melhor a natureza tinha para ofertá-los, e souberam fazer bom uso disto. O trabalho deixava algumas seqüelas, por mais bem sucedidas que sempre eram suas empreitadas ao mar. Os cabelos, assim como a pele, ressecavam quase irreversivelmente, dados a exposição contínua ao sol e aos fortes ventos. As mãos, geralmente, duras, ásperas e calejadas, não só devido ao trato com os anzóis, facas e redes, como em função das lidas agrícolas, a que muitos deles se dedicavam. Alguns trazem cicatrizes nos braços e pés, devido ao contato próximo com instrumentos cortantes, perfurantes, como os anzóis, ou quando se acidentavam com as partes duras dos peixes. A atividade pesqueira havia deixado sua marca praticamente inconfundível nestes homens. Formavam uma roda ao redor de um mastro fincado na areia, e conversavam, discutiam a vida cotidiana e comunitária. Eram os namoricos dos mais jovens, as viagens até as paragens mais distantes, o trabalho com a terra, histórias das aventuras mar adentro, as investidas nas matas, serras e florestas, os bonecos de barro, que trocavam sempre entre eles, com as mais variadas intenções, desde a troca de uma peça por outra, por alguma ferramenta, alimento, ou como forma de jovens apaixonados, declararem-se uns aos outros, através de peças bem modeladas, daquelas onde visivelmente poderia se constatar muito trabalho, arte e dedicação. Muitos dos casais iniciavam seus relacionamentos, ou consolidava-os trocando pequenas estatuetas. Elas possuíam significados profundos no espírito deste povo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antônio fica ali por um bom tempo, ouve atentamente as falas dos companheiros, e faz sempre suas intervenções, gesticulando, apontando, e na maioria das vezes, todos o ouvem com muita curiosidade, devido à sua já famosa experiência e sabedoria. Após as conversações, deixa o local, e rapidamente encaminha-se ao monte. Sobe rapidamente a trilha aberta que lhe dá acesso ao local de adoração. Vira-se de frente para a estátua, agacha-se e pega o maior peixe que trazia no cesto. Levanta-o para o alto com as duas mãos, procura pelos olhos dela, e lhe declama os versos. Os olhos embaçam-se, a voz adquire uma suavidade que não se manifesta em nenhum outro local, os lábios tremem, abre seus braços e estende-os ao mar. Fica assim por alguns minutos sem se mexer, sentindo o vento cortar-lhe a face, sacudindo com fúria seus cabelos e roupas, até que os olhos açoitados pelo vento, façam correr até a boca, uma lágrima salgada. Quando o frio torna-se insuportável, pois já se esconde o sol, faz os últimos sinais de adoração, e desce correndo a trilha.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao aproximar-se da porta de casa, vem a mulher ao seu encontro. Beija-o na boca, e em seguida, acaricia seus cabelos. Naquele dia, também ela, havia se dedicado às linhas e agulhas, porém não na caça ao peixe, mas no reparo de roupas, e na confecção de uma pequena rede para as pescas, que há muito estava por fazer e que havia lhe ferido os dedos. Mostra ao homem o resultado do seu trabalho, e este a admira com ar de satisfação e agradecimento. À mesa, uma refeição bem melhor do que a que havia encontrado pela manhã, com cereais, batatas, leguminosas e um saboroso peixe assado. A boca de Antônio se enche d’água. Ali mesmo, sem cerimônias, faz seu prato, e devora-o com tanta rapidez, que a mulher nem se tinha dado conta, de que já o fizera. Sentam-se à porta, e ficam a observar a chegada da noite, brincam com as estrelas, trocam afagos, e acompanham os últimos barcos, que vem rapidamente, se aproximando da praia. O vento, pois, começa a incomodá-los. Levantam-se e entram para o interior da casa. O homem apanha uma toalha, algumas roupas limpas, e sai novamente em direção ao banho. Lava-se, livrando-se do excesso de sal e areia, e esfregando insistentemente as mãos para safar-se do cheiro de peixe, que insistia em lhe perseguir. Ao abrir mais uma vez a porta da casa, vê a mulher que já o espera na cama. Fecha as janelas e cortinas e apaga o lampião que lhe fazia as claridades. Retira de uma vez as roupas que acabara de vestir e vai aos braços da mulher. Esta o acolhe inteiro, aperta-lhe o corpo, o homem investe sobre ela. Parece que são apenas um, até adormecerem.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quebrando uma rotina que a muito o acompanha, Antônio abriu os olhos pela manhã, e os primeiros fachos de luz já penetravam pelas frinchas das janelas. Assustou-se, não se lembrava de outro sono tão pesado. Ao contrário do que sempre fazia, não se espreguiçou pela cama ou roçou a mulher. Apressou-se em se levantar, evitou abrir de uma vez a porta, para não acordá-la bruscamente, sentou-se a mesa e pôs-se a comer uns bocados da broa, que ali se encontravam desde o dia anterior. A broa engasgara sua garganta seca, e tossiu por duas vezes. Ana começa a mexer-se. E antes que acorde de vez, ou pronuncie as primeiras palavras, Antônio corre os olhos pelas paredes e objetos da casa, que a luz cada vez mais forte, começa a delinear. Vão tomando formas as coisas, e ele segue observando cada forma, relevo, curvas, o cenário que vai se abrindo sob seus olhos curiosos. Quando levanta-se, para finalmente, ir a porta, a mulher acorda. Bom dia, homem. Acordaste apressado. Encontras-te algo a lhe espinhar nesta cama? Não és de saltos tão repentinos. Além do mais, pelos vistos, o garoto ainda não apareceu por aí, senão já estaríamos a ouvir-lhe os gracejos. Antes de responder, Antônio abre a porta. Hoje, a maré parece não estar para peixes, diz, olhando para o céu e para as águas cintilantes, sob o sol que já se punha de pé. Coçou os cabelos, pigarreou outra vez, algum pedaço de broa, talvez ainda se encontrasse engasgada em algum canto da garganta e correu em busca de água. Bebeu dois copos inteiros, mais sedento que qualquer outro dia. Não se lembra se havia considerado a refeição de ontem demasiado salgada. Lavou o rosto, esfregou os olhos, e voltou os olhos para o horizonte. A mulher, calada, ficou a esperar. Antônio tinha os olhos fixos. Não voltou a olhar para dentro da casa. Levantou os olhos ao céu, e a princípio imaginou que talvez fosse chover, pois o céu mais adiante, mais mar adentro, lá onde o azul das águas confunde-se com o azul do firmamento, trazia uma grande mancha escura, ao fundo. O sol, batendo forte na praia, emitiu um clarão, que subtraiu as cores da paisagem, e ofuscou a visão de Antônio. Afasta-se da casa, põe a mão sobre os olhos, para proteger-se da luz excessiva, e procura pela estátua, que lá do monte brilhava. Em vão procura enxergar seu rosto e seus olhos, pois os fortes raios do sol queimavam-lhe a face, e ela, transformava-se em luz. Baixou de uma vez os olhos, voltou-se para o quarto, e foi até a mulher. Dormiste bem?Perguntou à mulher. Parece-me que sim, o cansaço que trago às costas, não é problema do sono, mas o trabalho de costura, que me envergou a coluna. E tu? Parece agitado. Os sonhos da noite estão a incomodar-te?Minha cabeça dói um pouco, vou-me deitar novamente. Quando o garoto por aí aparecer, diga-lhe que hoje está dispensado, pois não sei quando sairei com o barco. A mulher arregalou os olhos, espantando-se, pois sabia, não era o homem, destes desânimos, aproximou-se, passou a mão sobre sua testa, a conferir se havia alguma febre, mas a temperatura encontrava-se normal. Beijou-lhe o rosto e perguntou se queria algo. Antônio disse que não e virou-se para o lado, de costas. No mesmo instante, o garoto vem à porta, e dá suas caras, antes mesmo que a mulher pudesse dispensá-lo. Ao ver sua sombra projetada na parede, que lhe aumentava o tamanho, e ouvir sua voz vigorosa a chamá-lo, Antônio não pensou duas vezes. De um salto, levantou-se da cama, lavou novamente o rosto, beijou a mulher, despediu-se, dizendo estar bem, apanhou seus apetrechos, foi até o garoto, e caminharam em direção ao barco.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O dia parece estranho, diz Antônio ao garoto, assim que os dois se acomodam, depois de lançarem-se às águas. Realmente, tens razão, vê como está escuro lá adiante, já há um tempo está assim, e o que é mais estranho mesmo, afirma o garoto, é que aquelas nuvens pesadas, parecem não se arrastar, não saem do lugar, responde. Ora, mas não exagere, deixemos de conversas, não te inquieta, senão os peixes não vêm a nós, retruca Antônio. O garoto concorda, silenciosamente, apenas balançando a cabeça. Jogam a rede ao mar. Entreolham-se. Antônio esboça um sorriso largo e cúmplice em direção ao garoto, que responde com um olhar humilde, e de quem sente-se protegido e seguro. Passados alguns minutos, recolhem a rede, e para surpresa de ambos, não retiram um peixe da água. O que terá acontecido? Interroga o garoto. Não sei. Talvez algum problema com as marés, as correntes, ou sabe-se lá, resolveram os peixes recusarem a boa isca que trazemos. Um pouco sem graça, sorriram os dois. Mais uma vez, repetem a operação, atirando a rede. Esperam. Dado o tempo necessário, para que normalmente se fizesse um bom pescado, puxam outra vez a rede. Nada. Nem um peixe. Os olhos do garoto enfiam-se pelos olhos de Antônio, a buscar-lhe resposta. O homem embaraça-se, leva os olhos para dentro de si, e diz, Ora, por mais que possamos conhecer os segredos e mistérios das águas, não é para tudo que temos explicação, não está ao alcance dos homens toda a lógica da vida, e como bem sabemos, não há um dia igual ao outro, por mais que pensemos o contrário, ou que eles possam parecer. Vira-se para o lado, e procura por outros pescadores. Ao avistá-los, acena, fazendo sinais, gesticula, estabelecendo contatos. De longe, porém, já percebia o sentimento de desolação e certo desespero dos companheiros, que já se encontravam por ali há mais tempo que ele. Não eram sinais animadores que recebia de volta. Os barqueiros levantavam suas redes, um após o outro, e nada, completamente vazias. Os homens levavam as mãos à cabeça, apontavam para o céu, por todos os lados, meio atordoados, desorientados. Muitos deles, Antônio começou a avistar, já se dirigiam novamente em direção à praia. Antônio e o garoto fazem mais algumas tentativas com a rede, sem obter qualquer resultado. Por fim, resolvem deixar a pesca frustrada para trás, e retornam à aldeia.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao descerem do barco, Antônio salta rápido sobre a areia e corre em direção a um grande grupo de homens que se reuniam com suas redes vazias nas mãos. Os outros barcos mais distantes da costa, também ensaiavam um retorno. Houve um breve silêncio, quando Antônio se aproximou. Os homens procuravam explicações para o que estava ocorrendo. Não entendiam porque naquela manhã, os peixes não se emaranharam em suas redes ou mordiscaram os seus anzóis. Um, entre eles, que aparentava ser um dos mais velhos do grupo, com a pele bastante enrugada, talvez pela ação contínua e persistente do sol, dos ventos e do sal, olha fixamente para as águas, enfia os dedos entre a barba, enrolando seus fios esbranquiçados e exclama, Custo a entender o que se passa por aqui. São anos e anos, desde a mais tenra idade, buscando o alimento nestas águas fartas, e nunca houve um dia sequer, nem em minha memória, ou na memória dos nossos antepassados, caso contrário, já nos teriam dito, em que a pesca tenha desaparecido desta forma. Nem um único peixe os homens puderam trazer em seus barcos. Nada. Um homem alto e robusto, que até então não abrira a boca, interrompe a fala do outro. Quem sabe o sol ou a terra não está a deslocar-se como ainda não se fez, mudando o rumo do destino e a ordem das coisas?Por mais que tenhamos aqui uma vida tranqüila e pacata, sabemos que o universo movimenta-se continuamente, não é o que nos mostra sempre os mapas das estrelas? Ora bobagens, diz o outro, segurando um remo entre as mãos, talvez os peixes, ao longo das gerações, foram à sua maneira, comunicando-se uns com outros, e os cardumes hoje sabem o risco de serem pescados, ao passarem por estes águas. Talvez, tenha se espalhado pelas profundezas do oceano, a notícia da força que temos como pescadores, e resolveram evitar esta baía, e nadarem por áreas mais tranqüilas, onde possam estar livres da nossa mira e das nossas armadilhas. Ora, falemos sério, irrita-se Antônio, o dia de hoje é apenas um dia atípico, como tantos outros já o foram, vivemos pouco demais, quanto? 20, 30, 40, 80 anos? É nada. O que sabemos nós dos dias em que aqui não estávamos? Talvez outros antepassados remotos já tenham vivido experiência semelhante, mas acabaram se esquecendo dela, quando no dia seguinte, tudo havia voltado ao normal. Sabemos que são antigas as tradições que herdamos, mas não sabemos o quanto. Somos muito pequenos diante da grandeza do tempo, do mundo, e do universo das águas. Enquanto falava, as mulheres saíam das casas, atraídas a princípio pelo movimento diferente na praia, depois umas pelas outras, e corriam para os homens e barcos, para entenderem o que por ali se passava. O centro da aldeia, tradicional ponto de encontro dos pescadores, movimentava-se rapidamente, as crianças, corriam ao verem a aglomeração se formar. Os mais velhos e os doentes apareciam à porta, e preocupavam-se em saber o que estava ocorrendo. Antônio assusta-se quando a mulher corre até ele e se atira em seus braços. Ele estava frio, apesar do sol que lhe doirava a pele. Ela, em vão, tenta aquecê-lo. Após as falações, tagarelices, caras de espanto e incredulidade, um grande desânimo abate-se sobre a aldeia, e as mulheres, apenas elas, põem-se a cantar. Por alguns minutos, o mundo parece parar. Entoam um canto que parece guardarem em suas gargantas, desde uma época em que ainda não haviam nascido, como se as palavras, o tom, o ritmo, os versos, viessem já gravados em sua estrutura genética, como se tivessem vindo ao mundo, com a canção armazenada em algum canto da memória da espécie, em que bastaria que as cordas vocais estivessem prontas para as palavras articuladas, para que aquela música, naturalmente, fluísse. As mulheres, afinadíssimas, formam um coro compacto, não havia aquela que saísse do tom, ou tropeçasse nas palavras. Cantavam, cantavam. Os homens ouviam em silêncio. Antes mesmo que a música findasse, os homens, como se já tivessem combinado, pegam seus remos, redes, enchem vasilhas com água salgada, e caminham enfileirados em direção ao monte. Para ver o mar do alto, para implorar as graças divinas. As mulheres correm até as casas, e pegam, principalmente, o que tem de comer, pães, broas, frutos, farinhas, chás, além de alguns utensílios de barro. Rapidamente, juntam-se aos homens e acompanham a peregrinação. Poucos são os que ficaram para trás, um ou outro, inválidos, incapacitados, cujas pernas, não os levariam morro acima, ou algumas mulheres com gravidez avançada que não se arriscariam à trilha estreita e escorregadia que levava à grande estátua. Havia ainda alguns poucos pessimistas, que achavam inútil toda a movimentação. Lá do alto, todos, em um aspecto, colocam-se de acordo. A cor do mar não era a mesma, com a qual se habituaram uma vida inteira, mesmo sem saberem ao certo que coloração era aquela. Entoam outra vez os seus cânticos, desta vez, cantam todos, não apenas as mulheres. Os homens, calados quando lá embaixo na aldeia, soltam a voz, quase a estourar os pulmões. Depositam as oferendas que haviam trazido aos pés daquela que acreditavam protegê-los, e molham suas vestes de madeira, com a água que haviam trazido do mar. Por ali permanecem, em cerimônia, por bom tempo, cantando, declamando, implorando que dias melhores pudessem vir. A grande estátua continua firme em sua posição. Tem os olhos duros, como a ignorar os apelos humanos, e parecem avistar um ponto do universo, em que nenhum que ali estava, teria como enxergar, mesmo que a injúria de algum pudesse levar-lhe até os seus ombros fortes. Os olhos distantes, as faces de madeira, a superioridade divina, mantinham-se aparentemente alheios aos sofrimentos dos homens. Quando o dia começa a perder sua luminosidade e a tarde vem trazer os ventos frios e cortantes, resolvem voltar para as suas casas, para que pudessem descansar, alimentarem-se, e esperarem a chegada do dia seguinte. Mal caía a noite, e a aldeia silenciava-se, absolutamente.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, os homens se levantam bem mais cedo que o de costume, e apesar de silenciosa a noite, muitos tem a expressão fatigada pela insônia. As imagens e o trauma do dia atormentavam-lhes. Muitos, ao primeiro sinal do sono, eram acometidos pelos mais terríveis pesadelos, peixes gigantes, monstros aquáticos, barcos e redes vazias, vinham suforcar-lhes. Os primeiros a saírem de suas casas, batiam os remos nos barcos, assobiavam, faziam algum barulho para que os demais pudessem vir logo, pois hoje deveriam ir todos juntos, para o grande desafio, que era agora, coletivo. Esta pesca não seria como de todos os dias, muitas das vezes, até solitárias, como no caso de Antônio e o garoto, apenas dois homens e o barco. Desta vez, iriam todos ao mesmo tempo, alinhados, como se de uma grande expedição se tratasse, uma expedição rumo ao desconhecido. Prontificaram-se todos com suas pequenas embarcações, rapidamente equiparam-se com suas ferramentas, colocaram-se a postos, e mais uma vez, foram às águas. Aconselhados pelas esposas, muitos levaram suas melhores redes, as mais novas, e pequenos amuletos que talvez pudessem protegê-los e levar-lhes sorte. Na medida, que se distanciam da costa, os barcos foram se afastando um do outro, lentamente, quase a retornar-se à antiga solidão. Mas não mantém distância suficiente a ponto de sentirem-se desguarnecidos. Por ali permanecem por um bom tempo, e como no dia anterior, nenhum peixe vem à isca, às malhas. O desespero é geral. Mas aquela tropa de pescadores, já sem saber qual o melhor rumo a tomar, resolvem permanecer nos barcos, pelo resto do dia. Mas seria inútil, o fenômeno do dia anterior, voltava a se repetir.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Desapontados e abatidos, recolhem-se todos mais cedo aquela noite. Antônio quase não cabe em si. A mulher vem lhe fazer carícias, ele, porém, afasta-se abruptamente. Ela o observa, desconsolada. Deita-se, vira para o canto, e acompanha os movimentos de seu homem através de sua sombra nas paredes. Anda de um lado para o outro, desassossegado. Pega uma fatia de pão, morde um bocado, e deixa o resto sobre a mesa. Não tem sono. A mulher deseja-lhe boa noite, ele beija seus cabelos e mantém-se sentado. Ela adormece. Ele está sem lugar, é tomado de um misto de desconforto, irritação e impaciência. Aquela casa não lhe cabe. Levanta-se levemente, mansamente, para não despertar a mulher, quase nas pontas dos pés, abre lentamente a porta, e sai de casa com passos rápidos e trêmulos. É tomado de uma forte sensação que o leva em direção ao monte, que mesmo com toda a escuridão, subiria praticamente sem perceber. Quando deu por si já estava aos pés da estátua. Postou-se diante dela, e arrependia-se pela pressa, que o impedira de trazer algum agasalho. O frio ali do alto, parecia rasgar-lhe o peito. Tinha os braços e as pernas trêmulas e diz, em voz alta, para que pudesse, quem sabe, ser ouvido. Desde que vim para este mundo, subo neste monte em busca de ti, já fiz todas as oferendas, dediquei milhares de versos, cantei, cantei, como se fosse esgotar todas as canções, tenho em ti a confiança absoluta, hoje apenas imploro que envie um sinal, pequeno que seja, para que possamos senão compreender, pelo menos safar-nos de uma desgraça maior. Ouso crer em sua proteção, e se julgas pouco as minhas tantas oferendas, dedicar-te-ei desta vez, o meu sacrifício, terás o meu sangue. Antônio enfia a mão em um dos bolsos e retira de lá um canivete. Faz um pequeno corte nas mãos e faz espargir o sangue sobre as vestes de madeira da estátua. Entoa uma suave canção dos pescadores, mergulha em seguida, em um longo silêncio e segue novamente a trilha, em direção à casa. Ao abrir a porta, a mulher acorda. Está bem? Por onde andou? Estava aqui fora, saí a ver a noite. Descanse homem, vê se dorme. Antônio improvisa um rápido curativo para as mãos, sem que a mulher o perceba, e em seguida, deita-se. O sono finalmente havia chegado. A mulher pergunta, Sente este cheiro forte? Ele já havia dormido.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando a noite ainda não havia desaparecido de todo, e a claridade da manhã, projetava-se já sobre as casas e a praia, uma velha moradora, corria aos berros nas frentes das moradias, como se a voz fosse lhe faltar, Os peixes, os peixes, gritava. Os peixes. Os peixes. Era apenas o que sua voz rouca e embargada conseguia pronunciar. Os peixes, os peixes. Muitos correram para ver do que se tratava, alguns ainda com poucas roupas, por ser muito cedo, enrolaram-se em um pano qualquer, e saíram de suas casas, não houve quem não chegasse à porta ou às janelas. A população estava atônita, todos com os olhos esbugalhados, estupefatos, sem entender ou sequer acreditar no que viam. A praia estava repleta de peixes, lotada, sob os barcos, em todos os lugares. Mas os peixes estavam todos mortos e envolvidos em uma gosma escura que logo perceberam ser óleo. Pior. Toda a baía estava tomada. Pânico. Os homens urram, choram, as mulheres desmaiam, as crianças, desesperadas, correm de um lado ao outro, perguntam se é o fim do mundo. Sobem sobre os telhados das casas, até os montes, e era verdade. A massa de óleo escuro, gosmenta, fedida, não tinha limites, não tinha fim à vista, para desespero de todos. Ao longo do dia, os homens andam sem saber para onde, procuram salvar suas embarcações, suas redes, mas o óleo negro já a tudo havia dominado. Não sabiam exatamente há quanto tempo viviam ali, como também não sabiam por quanto tempo teriam condições de por ali permanecer. Todos falavam muito, euforicamente, as palavras, vinham mais como expressão da dor, do que como qualquer peça de discurso que possa considerar-se coerente. A grande baía escura, que se abria a seus olhos, feria-os, quase mortalmente. Não sabiam o que dizer, as palavras iam e vinham, desconexas, soltas, perdidas, sem sentido. A razão não tinha lugar. Não havia quem não se aproximasse daquelas águas escuras, para certificar-se que não estavam sendo enganados pelos olhos ou por algum tipo de alucinação. Voltavam todos com as mãos e pés viscosos daquela água impura. Estavam manchados. Iam até a casa, voltavam à praia, novamente a casa e a praia. Não paravam. Todas as casas tinham as portas abertas. Estavam sufocados. A aldeia parecia pequena, comprimida, como se nela, não mais coubessem os seus habitantes. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No meio da noite, enquanto os homens choravam, gemiam insones, animais marinhos, aves aquáticas agonizavam em meio ao óleo sufocante, Antônio, certifica-se que sua mulher dorme, levanta silenciosamente, e dirige-se aos fundos da casa. Lá apanha uma pá, que guardava junto a outras ferramentas, e segue sozinho, em direção ao monte. É tomado de calafrios e uma força descomunal parece incorporar-lhe. Observa bem aos arredores se não há alguém a lhe observar, e sobe rapidamente pela trilha. Chegando aos pés da estátua, uma das poucas coisas que permaneciam imóveis naquele lugar, pois naquela baía, tudo parecia de pernas para o ar, dispensa, pela primeira vez, as cerimônias e evita olhá-la de frente. Leva a pá até o chão e começa a afastar a terra, endurecida, que há muito atara o monumento ao lugar. O solo é duro, pisado, mas a pá é resistente e Antônio emprega ali toda uma força que não imaginava possuir. Cava freneticamente, às vezes, para um pouco, toma um fôlego, verifica o sítio, e volta a cavar. O suor lhe escorre pelos braços, mas o esforço não parece lhe abater. Após um bom tempo de escavação consegue afrouxar, soltar um pouco do chão, a estátua gigante, objeto de sua adoração. Era mesmo grande. Para dar-lhe um abraço completo, certamente seriam necessários os braços abertos de cerca de quatro ou cinco homens. Isto não seria obstáculo para ele naquela noite. Tomado de uma força que parecia não controlar, abraça-se a estátua e tenta girá-la, mas os esforços resultam-se inúteis, ela não sai do lugar. Antônio investe ali mais uma vez todas as energias, retesa os músculos, enche os pulmões, joga todo o seu corpo, de modo a não deixar falhar a operação, e consegue, finalmente, girá-la um pouco, deslocá-la do lugar. Repete os movimentos várias vezes, e quando os braços estão para partir-se, soltar-se dos ombros, ou o corpo inteiro, quebrar-se aos cacos, exausto, o monumento gira, dando meia volta, postando-se de costas para o povoado e para a baía. Antônio equilibra o monumento, que por pouco não vem ao chão, e apressa-se em soterrar novamente suas bases. Bate bem a pá, agora não mais para retirar a terra, mas para fixá-la de volta ao lugar. Leva quase toda a noite neste trabalho solitário e extenuante, mas conclui sua obra, antes que os primeiros raios de luz comecem iluminar o dia. Desfaz-se de possíveis vestígios, e corre direto para a casa, não havia mais tempo a perder. Guarda a pá no mesmo lugar de onde a havia retirado, bebe um copo de água, e vai para a cama. A mulher não percebeu quando ele se deitou.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mal tivera tempo de Antônio acomodar a cabeça sobre o travesseiro, e um grito estridente do lado de fora da casa, fez com que, sem esboçar qualquer outra reação, esbugalhasse os olhos. A mulher, ao lado, levanta-se de um ímpeto, assustada. Os berros não cessavam, ao contrário, tornavam-se cada vez mais altos e aflitos. Era a mesma mulher da noite anterior, a que anunciara o negrume das águas. Lá no alto, lá no alto, gritava desesperada. Lá no alto, lá no alto. Como se já habituados às tragédias que se sucediam, os morados levantaram-se todos, apressadíssimos, para ver o que agora, o destino lhes guardara. Lá no alto, lá no alto, esgoelava a pobre mulher, cuja voz já se aproximava da rouquidão. Debatia-se, levantava os braços, agonizava. Lá no alto, lá no alto. Juntaram-se todos na areia. As águas estavam negras, viscosas, como nunca. O cheiro dos peixes que se acumulavam aos milhares na praia, somado a um fedor quase insuportável de óleo, tornavam aquele ar da manhã praticamente intragável. Lá no alto, lá no alto, insistia a velha, já quase sem voz. Ninguém permaneceu em casa. Os velhos, curvados pelos hábitos pelos tantos anos de pesca, demoravam-se um pouco para se reunirem aos outros. Os doentes, acamados, arrastavam-se, gritavam, pediam socorro. Custavam a entender o que por ali se passava. As mulheres, lá fora, gritavam, tapem os olhos das crianças, tapem os olhos das crianças, como se não fossem elas, umas das primeiras, a verem o que ocorria, dada a grande correria que aprontaram, quando a aldeia inteira se levantou. Miravam todos, atônitos, para o alto do monte, e viam a grande estátua, a dar-lhe as costas. Por alguns instantes, se calaram todos. Talvez procurassem, dentro de si, alguma explicação que pudesse acalmar-lhes o sangue, a percepção que olhos apenas, não permitiam. Em seguida, puseram-se a correr, sem saber mesmo para onde. Andavam todos sem direção, ora iam em direção ao óleo, ora em direção aos amigos, entravam e saíam de suas casas, atordoados. A velha aldeia, que sempre conheceram melhor que a palma das próprias mãos, fugia-lhes completamente de qualquer compreensão. Nada mais parecia fazer qualquer sentido. Antônio, que havia se levantado sem pressa, procura acalmar a mulher. Estão desamparados, diz. Seja lá o que houver, aqui não ficamos mais. A mulher, resignada, como se não houvesse qualquer motivo para discordar do marido, ajeita rapidamente algumas poucas roupas, enrola-as em um lençol, que tirara de uma das caixas, e as equilibra sobre o ombro. Tem o aspecto cansado. Antônio puxa-lhe pelos braços e juntam-se aos outros. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O local parecia desintegrar-se, o cenário era desolador. As mulheres choravam, algumas berravam histéricas, outros cantavam em desespero. Os homens praguejavam, as crianças abraçavam as mães e tremiam de medo. Muitos tinham as bocas abertas, e os olhos perdidos, sem qualquer direção. Dois homens se atiraram ao óleo, que os devorou em poucos segundos. Dois outros atearam fogo em suas próprias casas. Os demais reuniram-se em um ponto da praia, uma pequena multidão. Quando o sol vai quase a pino e sua incandescência projeta-se sobre os ombros da grande estátua de madeira, ela enche-se de luz. Não mirava mais o mar, a aldeia não se punha mais sob seus olhos ou guarda. Havia virado de costas, mas luzia. Em meio ao alvoroço dos homens, uma voz, já não se sabe de quem, sugere que mudem também, o rumo de suas vidas. Viram-se para o mundo interior, para as serranias, matas adentro, para as terras rochosas e inférteis, e não olham mais para trás. Antônio segue à frente. A aldeia não mais existiria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-6274914949687784102?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/6274914949687784102/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=6274914949687784102' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/6274914949687784102'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/6274914949687784102'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2010/08/o-pescador.html' title='O pescador'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/THWwOGkk1II/AAAAAAAAAfI/tLVcPfbdCrY/s72-c/pescador_solitario.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-5387953656973780966</id><published>2010-08-19T15:03:00.000-07:00</published><updated>2010-08-19T15:38:29.119-07:00</updated><title type='text'>O cão e o vinho</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/TG2yU4FVBfI/AAAAAAAAAes/yxNp1rz7FXc/s1600/vinhos%2Be%2Bculin%25C3%25A1ria.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5507253991065847282" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 250px; CURSOR: hand; HEIGHT: 290px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/TG2yU4FVBfI/AAAAAAAAAes/yxNp1rz7FXc/s320/vinhos%2Be%2Bculin%25C3%25A1ria.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O cão e o vinho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os dias eram assim. Dotado de uma audição muito bem apurada, ouvia todas as vezes, quando a faxineira do condomínio, vinha-lhe à porta, deixar o jornal do dia, logo que este chegava. Não que esta tarefa fizesse parte no seu rol de obrigações naquela função, mas gostava de ser gentil com os moradores, e no fundo, imaginava ser uma forma de ganhar a simpatia daqueles que viviam em seu local de trabalho. Não falhava um dia na missão que havia designado a si mesma, com exceção dos domingos e feriados, quando tinha a rara oportunidade de estar em casa, junto aos seus. Ao contrário do proprietário, que em algumas ocasiões, mal ouvia o soar da campainha, ele estava atento a todos os ruídos e sinais, como se dentro de seu esguio corpo de cão, houvesse uma antena orgânica, fielmente sintonizada em tudo que viesse a ocorrer por ali, não apenas no interior do apartamento, mas também pelos seus arredores. Não havia carros maiores que passassem pela rua, moleques assobiando, vizinhos conversando alto, ou passos nos corredores, que passassem despercebidos aos ouvidos e sentidos, aparentemente interligados a um emaranhado sistema de fios invisíveis, que os conectavam ao mundo de uma forma bem diversa do que foi possível a espécie humana. Antes mesmo que o jornal fosse deixado ao chão, o exímio farejador, já se postava à porta, como se fosse de sua responsabilidade, abri-la e apanhar o jornal diretamente das mãos da entregadora. Mas sua intervenção se limitava a choramingar baixinho com o focinho no chão, como se viesse a lamentar o fato de estar diariamente impossibilitado de tocar e agradecer com os olhos a gentileza daquela empregada, e logo em seguida, levar as patas ao canto da porta, cutucando-o com alarde, como meio de avisar ao dono, que enfim, o pequeno mundo de papel havia chegado em casa. O que ele então, agradecia com um longo afago na cabeça.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele era um animal vistoso, muito bem cuidado, usava perfumes, cosméticos, e tinha direito a um profissional de saúde vez ou outra, ou quando seu comportamento causasse alguma estranheza naquele que sempre fizera muito questão de bem tratá-lo. Enfim, viviam juntos já alguns anos, e foram se tornando dia a dia, bons companheiros, aumentando as razões dos que afirmam que é o cão o melhor amigo do homem. O homem já de meia idade, aposentado, sai pouco de casa, acha o mundo perigoso, pouco decepcionado com os amigos e os amores, e com uma renda mirrada, vez ou outra participa em eventos públicos, festas, muito raramente, um filme no cinema lá uma vez ao ano, às lojas, quando já não se pode mais adiar. Mas na maior parte do tempo, prefere mesmo o conforto do lar, onde também não se vê livre de ocupações. Faz sua própria comida, lava suas roupas, passa, varre e escova, e administra bem o que podemos chamar de lar. A casa, bem cuidada, proporciona considerável conforto, porém sem luxos ou excessos. Seus dias transcorrem entre uma caminhada pelo parque florestal próximo, idas ao mercado, padaria ou farmácia, filmes na televisão, leituras de jornais, revista, um romance ou ficção de vez em quando, além do amor dedicado ao seu companheiro quadrúpede e peludo, que está sempre por perto. Quando a noite se aproxima, em ritual quase religioso, abre uma garrafa de vinho, com a qual se delicia por algumas horas. É quando o cão torna-se mais que um amigo, um confidente. É quando ouve seus desabafos, planos e frustrações, ladainhas dos amores que teve, e do que não tem, das viagens que fez, e das que sabe que jamais fará, das oportunidades perdidas, dos dias que a vida ousou lhe proporcionar. Das saudades e dos desejos. Da paz e da guerra. Do passado e do futuro. O vinho cora-lhe o rosto, esquenta-lhe o peito, e torna-o falante. O cão o observava atentamente. Quando imaginava estar cansando o companheiro com falações sem fim, procurava desculpar-se, ora citando Horácio, segundo o qual, “o vinho revela os sentimentos”, ou nos momentos em que a solidão mais parecia pesar-lhe, lembrava Napoleão, ao dizer que vinho “nas vitórias, é merecido, mas nas derrotas é necessário”. O cão parecia entendê-lo e eram muito raras às vezes em que ouvia com desdém os discursos do homem. Depois de tanta proximidade, e tanto tempo de convívio a impressão mesmo que se tinha era que o cão estava ali entendendo palavra por palavra, história por história, que ouvia incansavelmente dia após dia. Alegrava-se quando o dono se exaltava, narrando alguma boa aventura do passado, entristecia-se, deixando cair as orelhas e abaixando o pescoço, quando ouvia algo que em forma de lamento ou lamúria. Apesar da classificação de vira-latas, por não ter uma ascendência conhecida, resultado de misturas que se processaram por uma infinidade de anos, era muito bem cuidado, como se de raça nobre se tratasse, além de parecer ter retido para si toda a sabedoria que carregaram seus antepassados, pois seu olhar leva a expressão de que compreende tudo que vai ao redor, como se apenas a ausência da fala fosse a causa da impossibilidade de um diálogo com seu dono. Tem estatura mediana, corpo musculoso, o peito branco e o resto do corpo coberto de um pelo castanho espesso e curto, e anda pela casa com uma elegância rara. Possivelmente teve por ancestrais algum cão guia ou cão de guarda, pois além da robustez, e da expressão dura, que geralmente carrega, possui uma fidelidade em relação ao dono, dificilmente encontrada quando a relação se dá apenas entre os homens. Aos mais observadores, a relação entre aqueles dois seres de espécies diferentes poderia despertar muitas invejas em algumas relações sanguíneas, constituídas em forma de família.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A rotina diária não se alterava muito. Pelas manhãs, faziam os dois, uma boa caminhada, ocasião, inclusive, em que o homem conheceu uma rapariga, com quem já há alguns meses se encontrava, geralmente uma vez apenas a cada semana, pois não era lá o que podemos chamar de uma relação apaixonada, além da falta de tempo da moça, que cuidava dia e noite da mãe doente. A caminhada enchia o cão de alegrias, era o momento em que poderia usufruir do sol e do vento por mais tempo, pois gostava de correr ao ar livre, a vida no Condomínio, comparada aos prazeres do parque, era bastante monótona. Já em casa, o homem se encarregava da refeição dos dois, que muitas das vezes, era seguida de um breve cochilo, para que pudessem recompor suas forças e energias para o resto do dia. Normalmente nestas cochiladas durante o dia, o cão dormia colado aos pés do homem, que geralmente lhe acariciavam. Despertos, o homem abria o jornal, e o companheiro parecia acompanhar as leituras, observando atentamente cada fotografia, como se quisesse extrair delas todo o significado que não pôde arrancar das palavras, do texto. Assistem televisão, brincam, e quando a noite cai, os olhos do homem brilham, a língua, desassossegada, mexe-se entre os dentes e lambe os lábios secos. É hora de abrir a garrafa e tomar o primeiro copo. Tomava o primeiro, o segundo, e empolgava-se, a voz mudava de tom, tornava-se mais aveludada, mais macia. Depois de já alguns copos, lembrava os filósofos, a música, a poesia, a arte e a política. Lembrava dos amores. Sorria e chorava. Enchia outro copo, e o vinho descia pela garganta, aquecendo, numa reação em cadeia, um corpo inteiro. Eram horas de fala, lembranças, gracejos, angústias, idéias, planos e sonhos.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em um destes momentos, o homem sentindo-se tão próximo do cão, e tendo-o como um companheiro privilegiado, resolve servir-lhe também uma tigela de vinho. O cão não se fez de rogado, deu um primeiro trago, e imediatamente, engasgou. Tossiu como se jamais fosse se aproximar daquela estranha bebida, tão diferente da água que está tão acostumado a beber. Mas inesperadamente, como se o mal em bem houvesse se transformado, dá longos goles na bebida, como se fosse o melhor sabor que já houvesse experimentado. O homem, a princípio, assusta-se, não se sabe exatamente, se consigo mesmo, ou com cão, mas acaba servindo mais uma tigela, e depois outra, que deixa por fim, o canídeo completamente embriagado. A partir dali, não haveria mais um dia sequer em que o cão não lhe faria companhia também nas bebedeiras, e mais incrível do que o gosto que o animal sentiu pela bebida foi a rapidez com que se acostumou a ela. Ousasse o homem deixar de servi-lo, que teria em casa um animal desassossegado, farejando entre o tablado da mesa e o resto dos copos, as garrafas no armário, na esperança de encontrar sequer uma gota da doce bebida. Mas o dono acabou rendendo-se aos desejos do animal, tanto por senti-lo mais amável após o vinho, como por sentir-se responsável pelo hábito que havia despertado no pobre cão. Além do mais, não suportava vê-lo sofrer. Certo é que acabaram curtindo juntos, uma série de porres e pileques. Vendo o homem gesticular, recitar poesias, imitar personagens, com o tempo, o animal foi também desenvolvendo algumas performances, dançava, encenava coreografias para os textos ouvidos, e eram raríssimas as ocasiões em que apresentava alguma indisposição, mal estar, ou algum tipo de ressaca. Parecia estar usufruindo grandes prazeres com a bebida de Dionísio. O homem, em algumas ocasiões, imaginando que o amigo pudesse estar saturado de só ouvir feitos humanos, heróis da nossa espécie e história, procurava vangloriar também a natureza do amigo. Dizia ter sido sempre simpático aos cães. Deram contribuições infinitas à edificação de nossa civilização, disse. Vocês cães, em alguma particularidade de nossa história humana, fizeram a nós, e nós geramos vocês. Ao longo de milhares de anos, vocês evoluíram enquanto espécie, a partir das especializações que nossas necessidades demandavam. Por isso, hoje, temos centenas de raças distintas espalhadas pelo mundo afora. Temos cães que guiam os homens, que guardam suas vidas, famílias e bens, cães farejadores, que salvam inúmeras vítimas em meio aos escombros, cães caçadores, cães que guardam e dirigem rebanhos. Cães que aliviam solidões domésticas. Cães que encontram quem há muito foram dados como desaparecidos. Certamente, seríamos menos humanos, não fossem suas riquíssimas contribuições desde nosso passado mais remoto, discursava com entusiasmo o homem. O cão parecia emocionar-se. Bebiam os dois mais alguns tragos de vinho. Bebia o homem no copo de cristal, e o cão em tigela de plástico. Põe o copo sobre a mesa, respira fundo, como a tomar fôlego e continua. Deveriam saber os cães, que também tem a sua história na história que fizemos. Servem a nós com tanta fidelidade e utilidade, que não seriam quem são, não fosse a história humana em seu caminho. Pega um livro na estante, abre-o, mostrando as gravuras. Era um grande livro ilustrado sobre cães. Um dos maiores heróis da história dos cães a partir da história dos homens é o cão Barry, um São Bernardo, que salvou 40 pessoas perdidas na neve, nos Alpes suíços, entre l800 e 1812. Imagine o prestígio que usufruiu. Os homens ergueram um monumento em sua homenagem em um cemitério para animais na França, e seu corpo está preservado, mumificado no Museu de História Natural em Berna, na Suíça. Os olhos do cão se enchiam de alegria, e o homem não saberia onde encontrar outra tão nobre e honrada companhia. Aquela amizade nunca estivera tão selada. E prosseguia. Em 1800 os cães guiaram mais de 40000 do Exército de Napoleão, pelos mais perigosos desfiladeiros dos Alpes, e nenhum deles de perdeu. A fama destes cães à época correu o mundo. O homem acaricia as orelhas do animal, faz um breve silêncio, enquanto observa a luz elétrica que passa por sob o vão estreito da porta. O cão mira o jornal dobrado sobre o sofá. Tem os olhos fixos. Estão a pensar. O vinho. O copo. A tigela. Um trago, outro trago. É difícil para nós humanos, imaginarmos que tipo de reação este vinho tinto poderia proporcionar a este cachorro, sabendo que mesmo entre nós, seus efeitos variam bastante. Mas ele parecia estar no melhor dos mundos, não só pelo prazer que a bebida lhe causava, como pelos mimos que constantemente lhe fazia o dono, enquanto declamava os poetas, que ia arrancando da estante, recorria aos pensadores, visitava a sabedoria dos grandes, mas não esquecia o amigo, o qual considerava o representante de uma espécie, que em muito ajudou a traçar o perfil da civilização e da história dos homens. Vocês, cães, estão nas pinturas das cavernas, como testemunho da dedicação mais antiga aos caçadores pré-históricos, a deusa Neith, dos egípcios, esposa de Rá, a deusa da caça, a que abre os caminhos, tem por animal sagrado, o cão. Pela longa Idade Média, vocês deixaram vestígios, seja nos brasões de grandes famílias, na Heráldica, nas gravuras. Assim como foram também, por muito tempo, o tormento dos homens. Cérbero, o cão de três cabeças, com o pescoço rodeado de serpentes, o guardião do Tártaro, o inferno dos gregos, era amável com os que chegavam, mas implacável com os que pretendiam de lá sair. Devorava-os. Ajudava a tornar a morte e o inferno, eternos. Talvez seja, entre todos os cães, o mais temido. O cão estremece, o homem baixa os olhos. As origens do mito, a lenda, talvez remetam a algum tempo perdido na memória dos homens, nas lacunas da história, em que a relação entre os homens e os cães não tenha sido tão amistosas. Talvez em um período onde os canídeos, ainda não tivessem sido vítimas de uma domesticação fatal, que os tirou da condição de selvagens, colocando-os a serviço das demandas humanas. Talvez a imagem do cão ameaçador, incorporada pelo mito, remeta à lembrança remota de uma época esquecida, em que os cães possam, quem sabe, terem se rebelado contra a submissão total. O homem adormece.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, o animal, enrolado sobre o tapete felpudo, que devido ao longo tempo de uso, já se encaixava perfeitamente em seu corpo, levanta quase de sobressalto, ao sentir o primeiro feixe de luz iluminar seu focinho. Corre até a porta dos fundos, e logo percebe que o jornal ainda não chegou. Seu dono continua adormecido, e por considerar que merece mesmo alguns minutos a mais de repouso, resolve andar pela casa, silenciosamente, para que evite incomodá-lo. Vai até a cozinha, lambe as beiradas das garrafas de vinho vazias guardadas logo atrás da porta da dispensa. Sente a bebida molhar sua garganta, levanta a cabeça para o alto, e sacode o corpo, arrepiando os pelos. Em seguida, mordisca alguns pedaços do pão com presunto que fora deixado sobre a mesa. Dá uma volta rápida por todos os cômodos, como a verificar se as coisas estariam todas no mesmo lugar, a certificar-se que novidade alguma havia ocorrido no interior de seu lar, enquanto dormia. Passa em frente o quarto do homem, ia já passando direto, quando alguma força estranha, superior, invisível, incompreensível, parece travar suas pernas. Repentinamente, muda sua rota. Resolve ir ao homem. Ao se aproximar, roça suas pernas, que pareciam que estar mais frias que de costume. Propõe alguma brincadeira ou gracejo, mas não há respostas. Resolve, então, puxar com os dentes os cobertores, não havia algo melhor para despertar o amigo, que a princípio sempre se irritava, mas em seguida, acabava se divertindo com aquilo, sentindo-se menos só. Daquela vez, porém, não esboçou a menor reação. O cão, já a desesperar-se, sobe até a cama, e começa a lamber o dono. O corpo está inerte e duro. Os olhos cerrados. Estava morto. Ele sabia o que aquilo significava. Não teria mais o amigo. Quando a moça dos jornais entra pelo corredor e se aproxima da porta dos fundos, o animal corre até ela, e late como jamais o fez, põe-se a correr de um lado para o outro, arranha a porta, e atira-se contra ela. A moça, intrigada com a reação do animal, completamente diferente daquela a que já se acostumou, resolve tocar a campainha, seria inclusive, uma delicadeza com o morador, demonstrar que se preocupava com ele. Mas este nunca responde. Como era funcionária antiga, sabia que por este horário, não havia o homem saído de casa. Esperou um tempo, nunca se sabe, algum sono profundo, um banho demorado, ou algo do gênero. Como ia tornando-se inútil insistir, resolveu aguardar mais um pouco, enquanto daria continuidade aos seus afazeres. Algum tempo depois, quando qualquer atividade iniciada pelo homem, que o teria impossibilitado de atender ao chamado, já teria cumprido o prazo para findar-se, volta então, a campainha. Nada. Vai logo em busca de ajuda. Por fim, quando os homens resolvem por arrombar a porta, assim que esta é aberta, o cão abandona o apartamento. Ali não mais voltaria. Saia convencido, que para o mundo em que o amigo se encaminhou não haveria mais retorno. Lembrou-se de Cérbero, o monstro de três cabeças, que nunca permitia a saída dos que nos Reino dos Mortos ingressava. Abandona, definitivamente, a morada que ocupava desde a mais tenra idade. Não se lembrava quando exatamente tinha chegado ali, mas tinha a certeza de não ter vivido em nenhum outro lugar. Era o mundo que conhecia, e já não o tinha mais. Sai pela cidade.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Num primeiro momento, perambula pelos caminhos já conhecidos, nos quais já havia andado com o amigo agora morto. É tomado de sensações dúbias. De um lado, a dor da perda, não uma dor humana, mas uma dor canina, mais difícil de compreender, por não ser a que sentimos, mas fundamentalmente, um pesado e insuportável sentimento de abandono, que se expressava em um profundo e silencioso choro. Por outro lado, possuía uma rara sensação de liberdade, que era poder atravessar aquelas ruas, sem ter que estar a seguir alguém. Sentia, pela primeira vez, caminhar com seus próprios passos, sendo o dono de sua rota, o senhor do seu destino. Poderia subir, descer, virar à esquerda ou à direita, como bem entendesse. Estava triste, atordoado, e sentia-se livre. Seu dono fizera-o sentir-se um ser importante. Enchia-o de afagos e elogios, relacionando em sua lista de heróis da história, personagens caninos. O animal tinha o pelo bem cuidado, era belo, e beirava a vaidade. Dali para frente, a vida mudaria muito. A liberdade teria um preço, também teria limites. Não mais teria seus banhos com shampoo, suas pomadas e receitas médicas, a fartura das refeições, o aconchego de um confortável lar, e principalmente, as noites mágicas regadas ao vinho. Iria caminhar agora por ruas, avenidas, praças completamente novas e desconhecidas. Teria então, ao seu alcance uma grande cidade a ser descoberta e explorada, sua nova morada.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nestes primeiros dias, andou quase sem parar, sentia pressa em conhecer os lugares, apenas reduziu o ritmo das andanças, sem jamais abandoná-las, quando percebeu que não teria como conhecê-los, todos. Mas sentia-se um explorador e inquietava-lhe, às vezes, constatar que sua nova e grande morada não estava totalmente a seu alcance. Eram infinitos os lugares impenetráveis, inacessíveis, os muros altos, os imensos portões das fábricas, as vitrines do comércio, os bares, restaurantes, e tudo aquilo que pudesse oferecer algum alimento que lembrasse o que tinha no mundo perdido. Tentar furar alguns destes bloqueios poderia lhe render os mais violentos castigos, chutes, pauladas, pedras, ou conforme o sítio, até mesmo tiros. Fora os grandes perigos que ofereciam o trânsito, com seus motoristas apressados em automóveis cada vez mais possantes, como se a serviço de um provável super-homem. Como se ainda fosse pouco, a visão dos cães praticamente não vêem diferença entre as cores amarela, verde ou vermelha, o que fatalmente impossibilita qualquer leitura proveitosa dos sinais ou semáforos.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nem sempre era fácil encontrar algum local confortável para pernoitar, em que não fosse importunado por algum chato, alguém sem ter mais o que fazer, alguma criança que não sabe ver o animal quieto, sem lhe dar algumas cutucadas ou beliscões. Em muitas das situações era necessário mostrar os dentes. Além de ter o pelame já sujo, o aspecto recém-adquirido de cachorro de rua ou vira-latas, ainda possuía um porte relativamente robusto, o que lhe servia como proteção em muitas adversidades. A crosta de sujeira que se acumulava em seu pelo e a quase impossibilidade dos banhos eram algo que muito o incomodava. Mas já havia percebido que não era o único nesta situação. Vez ou outra, encontrava um ou outro cão de rua, ou às vezes, grupos deles, com alguns desenvolvia alguma simpatia, e momentos de companhia, com outros, era sempre melhor deixar passar-se despercebido. Como havia diferença entre eles. Alguns eram corpulentos, outros franzinos, uns silenciosos e observadores, outros intolerantes e inquietos. De várias cores, claros, escuros, rajados, e muitos estropiados, mancos, feridos, doentes. Às vezes se reuniam em grandes grupos, em uma praça praticamente abandonada pelos homens, próxima de uma igreja velha. Formavam uma verdadeira concentração. Depois se dividiam, um grupo descia uma rua, outro grupo ia em direção oposta. Não sabemos que tipos de acordos realizavam para que chegassem ao ponto, mas a impressão que se passava era de uma estratégia previamente discutida.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando a fome apertava, não havia lata, caixa, lixos, sacolas, que não merecessem ser desbravadas, reviradas. Não era a fartura da vida passada, mas quase nunca era a fome total, sempre havia algum resto, uma sobra, aquilo que para muitos humanos talvez já não mais servissem, ou porque outros deles chegassem atrasados à cata, dada a maior facilidade do cão em encontrar a comida. Havia perdido vários quilos, desde que passou a viver pelas ruas. O mais desagradável era quando abria algum alimento deteriorado, em que o apurado faro fazia franzir-lhe a face, ou a presença de vermes que tornava a situação insuportável. Nunca havia utilizado tanto seus instintos caninos. Os olhos, praticamente em lados opostos, devido a sua disposição na face, permitiam-lhe visualizar o perigo por todos os lados, o faro, fundamental, na obtenção do alimento, os dentes, agora serviam não só para a mastigação, mas também para afugentar o inimigo. As quatro pernas ajudam bem a resolver o problema, quando os dentes já não o fazem. Muitas das vezes é necessário colocar-se a correr.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Fora todas as dificuldades do dia a dia, angustiava-lhe muito a ausência do vinho. Muito de seus problemas vinha resolvendo, bem ou mal, havia descoberto água em uma praça pública, onde era possível banhar-se, mesmo precariamente, sem os perfumes e cremes de um passado que ia se distanciando. Havia como refrescar-se vez ou outra. Desenvolveu meios de driblar a fome, ou acostumara a conviver com ela. Havia aprendido a defender-se. Dia após dia, adaptava-se à nova vida. Mas o vinho, jamais havia tido a oportunidade, de sequer aproximar-se dele. Onde o encontraria? Não seria tarefa fácil. Na maioria das vezes, as pessoas quando vão consumi-lo, o fazem em lugares fechados, geralmente em casa, ou em bares, restaurantes, boates, locais em que muito raramente ou nunca mesmo se permite a entrada dos cães. Os dias foram se passando e a vontade de tomar novamente um gole ou outro da bebida dos sonhos era cada vez maior. Lembrava-se das noites passadas com o seu falecido dono, onde as noites regadas a vinho vinham acompanhadas de muitos afagos, brincadeiras, leituras, música, o aconchego de estar entre quatro paredes, e alguma comida. Eram mesmo bons aqueles tempos. A imagem do antigo proprietário surgia de vez em quando à lembrança, mas nada tão forte, quanto a vontade de sentir outra vez aquele sabor inesquecível. Imaginou que se andasse mais noite adentro, ao contrário do que vinha até então fazendo, andando o dia inteiro e à noite buscando meios de dormir, talvez fosse mais bem sucedido em sua busca pela cobiçada e ausente bebida. E assim o fez. Noite após noite, rodou pela cidade. Potencializou seu faro, de modo a concentrar todos os seus esforços à procura de alguma essência ou aroma que pudesse ser uma garrafa, um copo ou mesmo algumas gotas derramadas na calçada. Seu olfato afinadíssimo levou-o até as portas de bares e restaurantes, onde iniciou uma verdadeira peregrinação. As imagens das garrafas nas prateleiras altas que avistava pelo lado de fora era a visão do paraíso perdido, da terra prometida a ser conquistada, era o sonho que estava ali, próximo dos olhos, porém praticamente inacessível, inalcançável, como para demonstrar ao cão, o quanto poderia ser restritiva a eles, cães, uma cidade construída para os homens. Procurava aproximar-se de algum freqüentador, garçons, seguranças, fazia gracejos, expressão de tristeza e carência que demandavam socorro, pulava, agradava, fazia-se passar pela mais simpática das criaturas, e em vão. O máximo que consegui era arrancar algum pedaço de carne, alguma sobra de mesa, um olhar de piedade, mas da bebida mesmo, nada. Em algumas ocasiões, diante da resistência em abandonar o lugar, os templos onde guardavam seu objeto de contemplação e veneração, chegava a ser vítima de agressões e maus tratos, como ponta pés e vassouradas. Em suas andanças noturnas, encontrou latas de cerveja, onde apesar de ter sido atraído pelo cheiro do álcool, nada que se comparasse à inigualável bebida. Pense como deveria ser difícil para um cachorro de rua encontrar um gole de vinho para beber. Mesmo que encontre um beberrão ou um proprietário de alguns destes estabelecimentos que adquira uma grande simpatia e compaixão pelo animal, como iria passar pela cabeça do indivíduo que o outro se contorcia de vontade de tomar alguma quantidade de vinho. Não conseguimos imaginar uma comunicação possível, por mais que tenha tentado o pobre animal, beirando e roçando os móveis onde se guardavam a bebida. Podemos imaginar que tenha sede, fome, necessidade de carícias, vontade de brincar, alguma pulga ou ferimento que o incomode, mas um desejo incontrolável de tomar uma dose de vinho, não ocorreria a alguém adivinhar. As noites se passavam e as buscas tornavam-se cada vez mais impossíveis, as imagens dos rótulos, o formato das garrafas, a tigela cheia, e o cheiro doce que se escondia em algum canto da memória, tornavam-se às vezes, tormento, lembranças que se apagavam de uma utopia perdida, o sonho desfeito.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Numa noite fria de inverno, quando a lembrança ainda o atormentava, mas já vinha praticamente desistindo das buscas, dado os contínuos fracassos em que suas missões haviam resultado, encontra, ao dobrar uma esquina, de uma hora para outra, um grande evento em uma praça pública, aberta, onde vários jovens se reuniam para ouvir música, cantar e dançar, havia à frente, um grande palco iluminado. Era uma festa bastante animada, e seu faro não se deixou enganar, a bebida preferida pelos jovens aquela noite, era o vinho. Seus olhos se acenderam, sua expressão foi tomada de uma felicidade, que a qualquer um seria possível perceber. Sim. Havia muita gente ali, e um grande número delas, com copos de vinho nas mãos. Choramingou sob alguns pés, mas a estratégia não lhe funcionou. Ao atravessar a praça, encontrou um casal sentado em um banco de concreto, onde os amantes não paravam um minuto sequer de se esfregarem, provavelmente ali a mistura de hormônios e vinhos já começava a apresentar seus primeiros resultados. A boca do homem colava-se á boca da jovem e seus corpos se espremiam vorazmente um contra o outro. Com os olhos fechados, suas mãos percorriam os corpos emaranhados, como às cegas, a tatearem-se no escuro, mas sem perderem o destino, onde desejavam chegar. Nada mais importava aqueles dois a não ser entregarem-se um ao outro, já pouco importava a música ao fundo, os que ao lado passavam, os outros casais, ou a garrafa ainda cheia de vinho, que aguardava ao lado do banco, no chão. Estavam colados um no outro, enlaçados, como se o mundo ao redor não tivesse a menor importância, não mais lhe dissessem respeito. O cão admirava-se. Não era possível depois de tanto tempo, encontrar ali, quando quase já não mais esperava, uma garrafa quase cheia à sua disposição. Deu alguns passos em direção à bebida. Parou. Fixou os olhos no casal. Não seriam obstáculo. Voltou-se para o vinho e não perdeu mais um segundo qualquer. Verteu a garrafa ao chão, cujo líquido se concentrou em uma concavidade do concreto, e ali ficou a beber, euforicamente, toda a poção que derramara. O casal, muito envolvido nas aventuras e peripécias do amor, sequer percebeu o que ocorrera. O animal sorveu o líquido da garrafa inteira. Não ficou uma gota sequer, e quem por ali passasse, talvez soubesse que era tinto o vinho, dada a mancha escura que deixou gravada no chão. Nunca havia bebido com tanta vontade, deliciou-se, empaturrou-se. Sentiu um fogo ardente percorrer todo o seu corpo, e uma faísca de luz adentrou aos seus olhos. As pernas por um instante tremeram, mas em seguida, recuperaram o vigor. Os pelos ouriçaram-se um pouco, e ele deu-lhes uma sacudidela, para ajeitar-lhes o prumo. A música que saía dos enormes alto-falantes incomodava seus sensíveis ouvidos. O coração batia forte. Havia chegado a hora de deixar aquela praça, e saiu a andar pela cidade. Estava feliz, mas não sabia por onde ia, as pernas não lhe davam descanso, e andava, andava, não se dispunham ao freio. A cidade nunca lhe pareceu tão iluminada, e a noite jamais lhe saltou tanto aos olhos. Uma suave canção lhe vem à memória e embala seus passos. Sente não ser deste mundo, e um estranho cansaço abate-lhe a expressão. Mas não para de andar. Sem olhar para os lados, e como se apenas uma vaga lembrança musical o levasse, corre a atravessar a movimentada avenida. Era tarde quando percebeu a velocidade e a violência com que vinha em sua direção o pesado veículo. Era o encontro fatal. O animal desfez-se na pista, o motorista prosseguiu seu caminho. Não parou para olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-5387953656973780966?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/5387953656973780966/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=5387953656973780966' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/5387953656973780966'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/5387953656973780966'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2010/08/o-cao-e-o-vinho.html' title='O cão e o vinho'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/TG2yU4FVBfI/AAAAAAAAAes/yxNp1rz7FXc/s72-c/vinhos%2Be%2Bculin%25C3%25A1ria.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-3868628799884803299</id><published>2010-04-01T10:32:00.000-07:00</published><updated>2010-04-03T04:46:13.681-07:00</updated><title type='text'>O aparelho</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/S7TZIs03Y2I/AAAAAAAAAeU/uXlD_Q_EKmM/s1600/sem_rumo2.png"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5455223792147587938" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 318px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/S7TZIs03Y2I/AAAAAAAAAeU/uXlD_Q_EKmM/s320/sem_rumo2.png" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;O aparelho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele morava a poucos quilômetros do centro da cidade, e eram raras às vezes, em que utilizava um veículo, quando tinha que ir a algum local que não fosse muito distante de casa. Ônibus ou táxi só mesmo quando o percurso iria lhe exigir longas caminhadas, ou quando não tivesse tempo suficiente para que pudesse percorrê-lo a pé. Gostava mesmo era de sair por aí andando, pois além de considerar estar proporcionando um grande bem para sua saúde, teria a oportunidade, de conhecer um pouco das intimidades, e algumas particularidades da grande cidade, que os veículos apressados não nos permitem perceber. Observava as fachadas dos prédios, dos novos e dos antigos, como a desvendar o perfil de uma cidade que pouco a pouco ia se revelando, em cada janela entreaberta, porta por porta, esquina por esquina, nas placas, nas praças, nos olhares cruzados pelas ruas e calçadas, nas infinidades de serviços e mercadorias, que procuram seduzir os que passam. Lê os letreiros, as faixas, os destinos dos lotações, para onde vão os que esperam nos pontos, nos números pintados. Lê as ofertas e promoções, os nomes das lojas, os sobrenomes dos profissionais, os panfletos, as propagandas, os cardápios do dia. Admira ver a cidade pulsando, assim de perto, praticamente a tocá-la, em meio ao vento e a poeira, em meio ao ruído dos automóveis, aos gritos dos vendedores, e ao murmúrio das multidões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por trabalhar em casa, a vida lhe permite certa flexibilidade nos horários, podendo então, usufruir destas andanças. E é uma das coisas, das quais faz questão de não abrir mão. É daqueles que crêem que muitas das vezes, mais vale as alegrias e tristezas dos caminhos do que o desejo de chegar ao final. Sobe morros, desce ladeiras, atravessa pontes, viadutos e sinais. Conhece como a palma da mão a região central da cidade. Os anos de andanças acabaram lhe proporcionando uma grande habilidade e desenvoltura para percorrer o grande centro. Vibra com a descoberta dos atalhos, das conexões de vias, cruzamentos de ruas, os novos acessos, que às vezes, se abrem diante de seus olhos sempre atentos e observadores. Quase não há endereço que ainda não conheça. Conhece tão bem estes locais, que caso queira refazer alguns destes caminhos mentalmente, em casa, com os olhos fechados, certamente revisitaria cada loja, escritório, porta aberta, porta fechada, sem que nada lhe escapasse à memória. Talvez até mesmo o belo olhar da atendente da casa de salgados e refrescos, o mau-humor do homem da loteria, o sorriso largo da doceira da praça central e o inchaço das mãos do pedinte que sempre o aborda, insistente. Orgulha-se de ser um conhecedor da cidade e adora quando lhe requisitam alguma informação. Quando alguém se aproxima para perguntar onde encontraria tal rua ou endereço, não se apressa ao passar as orientações, sempre muito cheias de detalhes, onde aqueles que perdidos se encontravam, passam a sentirem-se mais seguros de seus próprios passos, quando não conseguem esconder o ar de gratidão, que muitas das vezes se traduz em um generoso sorriso ou um forte aperto de mão. Conhece como ninguém os nomes das ruas, e seus pontos de cruzamentos, onde uma se encontra com a outra, e o que poderia se encontrar em cada uma destas intersecções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como já se viu, não eram poucas as coisas lhe despertavam o interesse e a curiosidade, mas ultimamente, talvez mesmo em função de uma vida mais solitária que tem levado nos últimos tempos, prestava uma atenção muito especial às diversas mulheres com as quais cruzava pelo caminho. Impressiona-se não apenas com a beleza e sensualidade que muitas delas esbanjam, mas também com sua rica diversidade. Havia para todos os tipos, tamanhos, gostos e idades. Poucas coisas lhe causavam tanta admiração quanto à variedade de estilos e formatos, resultado de um processo de misturas e miscigenações que ao longo da história foi se configurando. Outra coisa que, muitas das vezes, fazia com que atrasasse seus passos eram as manchetes de jornais, estampadas em várias bancas da cidade. Não era muito afeito à leitura dos jornais, mas os episódios de destaques nas primeiras páginas sempre lhe prendiam a atenção. Fascínios mesmo lhe proporcionavam as lojas de eletrônicos e afins, que lhe ofereciam as novas ferramentas tecnológicas. Ficava às vezes, horas perambulando entre elas, em busca de novidades, tentando desvendar o funcionamento desta gigantesca parafernália que os mercados têm para oferecer, de forma tão abruptamente sedutora. Computadores, portáteis, telefones celulares, aparelhos de áudio, vídeo, e um infinito leque de opções que a ciência e o capital insistem em vender, em prateleiras de luxo, vitrines de luzes, políticas de ofertas, que deixa quase sem escolhas, o encurralado cidadão. Desta maneira, embala seu sonho de consumo. Alguns anos de sua vida encontravam-se já comprometidos em inúmeras prestações, para que não tão perto estivesse, da condição de excluído digital. Havia adquirido um bom computador de mesa, um telefone celular com câmera fotográfica embutida, e mais recentemente, um aparelho de mp4, com os quais consumia uma grande parte de suas horas de folga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num sábado pela manhã, durante uma de suas caminhadas matinais, feliz por ter eliminado mais uma de suas prestações, descobre em uma vitrine, um aparelhinho, que ainda não conhecia, uma novidade que muito o intrigou, um GPS, que já traduzido para o português, podemos chamar de Sistema de Posicionamento Global. Sim. Um aparelho através do qual, o seu vasto conhecimento sobre as vias, e a malha urbana, poderia tornar-se menos útil, afinal aquela coisa ali, poderia, desde que bem programada, orientar qualquer um sobre os destinos, e os rumos que deveria seguir em qualquer parte da cidade. Bastava colocar o ponto de partida e o destino final, que a coisa traria pronto o itinerário a ser seguido. Não haveria como perder-se, salvo um caso ou outro, um problema de funcionamento, falhas na atualização dos dados, deficiências que certamente, não demorariam muito para serem superadas, em um contexto onde equipamentos desta natureza, parecem ter vindo mesmo para ficar. Não consegue tirar os olhos daquela coisa. Sua expressão quase congela-se. À primeira vista, é impossível saber se sua reação é fruto de uma tristeza, ao perceber-se substituível, pois agora, mesmo o cidadão que vem pela primeira vez à cidade, poderá se orientar e andar de ponta a ponta, como se milhares de outras vezes já tivesse passado por estas paragens, ou se ao contrário, entusiasma-se por saber que daqui em diante, ficará mais seguro ao se aventurar pelos mais longínquos cantos da cidade, que nunca para de crescer. Lentamente sua fisionomia volta ao normal e seus olhos vão se descolando do objeto. Bruscamente, então, vira-se, e como se voltasse de um lugar distante, do qual não mais se lembrasse, dirige-se ao balcão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após uma lenta negociação, segura uma nota entre os dedos, assina os papéis e rapidamente vai ao caixa. Adquire o produto. Vai direto para casa, e desta vez não se preocupa muito com os caminhos. Tem pressa em chegar. Como funcionará esta coisa? Dará mesmo certo? Como pode coisa igual ter sido inventada? Claro. Como não havia pensado? A ciência e a técnica estão sempre a dar saltos de qualidade. Além do mais, já tínhamos os conhecimentos para tanto, faltava juntá-los em uma coisa só, o que parece finalmente ter sido feito. Agarra-se ao objeto. Já em casa, excitado, ainda de pé, rasga a caixa, manuseia o aparelho, vira-o para um lado, para o outro, e incrivelmente, sem lhe tirar o olho, põe-se a ler o manual. Liga-o, e agora parece ter a certeza, de que a coisa, realmente funciona. É tomado de uma agitação que não consegue, de imediato, compreender. Parece ter entendido como operar aquilo e sai novamente. Anda vários quarteirões, não consegue parar, vira à direita, à esquerda, à direita e à esquerda de novo, sobe, desce, acelera os passos, ora os retarda, vai pelos lugares já conhecidos, e pelos bairros distantes, onde ainda não havia passado, atravessa a cidade inteira e conclui que de fato, dá certo. Estava exausto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, levanta-se da cama em um só salto, como se não tivesse tempo a perder. Vai ao banheiro lava o rosto, pega uns biscoitos na cesta e vai direto em busca no novo brinquedo que muito o havia impressionado e feito caminhar a esmo por uma cidade inteira e por quase toda a noite. Ficava ali admirando a peça, imaginando o quão criativo pode ser o gênio humano, que a cada dia coloca no mercado algumas invenções que deixam muitos de boca aberta. Iria testá-lo mais uma vez, imediatamente. Veste uma roupa às pressas, acopla o aparelho ao corpo, e sai rápido, queria ter aquela sensação outra vez. Liga o aparelho e inicia uma nova marcha, agora, sob as orientações de uma voz metálica, digital, que lhe dita as regras e os rumos do caminho. Ele parece não ouvir outra coisa, sente-se meio hipnotizado. Apalpa o aparelho e tem a sensação de carregar a cidade na palma das mãos, a cidade que agora navega sob seus pés. Quanto mais observa as imagens que o tal Sistema de Posicionamento lhe envia, mais força parece ter nas pernas, e mais ânimo adquire para andar. É tomado de um estado de êxtase que o põe a andar como nunca andou. Atravessa todas as ruas e avenidas do grande centro, entra em uma, sai na outra, anda, volta, apressa-se, como se não quisesse parar. Anda horas e horas, sem mais se preocupar em guardar os caminhos, pois agora, tem todos eles sob o alcance de seus dedos, não apenas aqueles já conhecidos e exaustivamente explorados, mas também aqueles pelos quais nunca passou, e sequer mesmo imaginava que pudessem existir. Quer aproveitar ao máximo a descoberta que acabara de fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir daí, este ritual vai se repetir, dia por dia, e todos eles, um atrás do outro, vão levando aquele homem por vias, viadutos, edifícios, rodovias, planaltos e planícies. Os passos firmes, muitas das vezes, aparentemente cronometrados, os ouvidos conectados aos ruídos da coisa, levam-no a rodar pela cidade, aleatoriamente. Por meses e meses, esta maratona se repetiu, diariamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um destes dias, ao sair de casa, em direção à região central, viu que nuvens escuras e carregadas se aglomeravam no céu. Mas imaginou, porém, que devido ao vento, que naquele momento soprava muito forte, o temporal que se anunciava certamente não iria vingar, e em nada iria comprometer a sua já tradicional volta pela cidade. Saiu despreocupado, e a brisa que em seu rosto batia, despertava-lhe mesmo uma sensação de prazer e sentia-se feliz. Ao se aproximar, porém, no ponto mais central da cidade, raios e trovões cortaram os céus, como se a fúria divina viesse a aniquilar o mundo. Os clarões refletidos nas paredes de concreto, nos vidros dos edifícios e na lataria dos carros, enchiam a cidade de brilhos e sombras, como se a natureza estivesse libertando todos os seus fantasmas. Um longo arrepio correu pelas suas costelas. Neste momento, outro trovão desabou, e a água caiu em peso do céu, numa chuva grossa, torrencial, que em minutos, escorria dos prédios como cascatas, e lavava as ruas em fortes correntezas. Ele procura se esconder, sob uma marquise, mas o esforço é inútil, pois já se encontrava ensopado da cabeça aos pés. Ao perceber a inevitabilidade do acaso, leva desesperadamente às mãos ao aparelho, que estava por afogar-se. Sacode-o, mas não adianta, não funcionaria mais, a tela encharcada e um zumbido baixo e contínuo eram o anúncio do fim. É tomado de tal estado de pânico, que praticamente não percebe quando o tempo se abre, e as nuvens de chuva, seguem a levar tempestades para outras regiões. O sol volta a brilhar intenso, iluminando a cidade. Era chuva forte e passageira. Pela primeira vez, depois que havia adquirido o aparelhinho, estaria então a sós, desacompanhado de sua bússola moderna, da qual não desgrudava os olhos. Deu uns passos à frente, titubeante, parecendo estranhar o que via. Foi e voltou. Manteve-se imóvel, inerte, em meio à larga calçada. Já não sabia para onde ir. Estava completamente perdido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-3868628799884803299?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/3868628799884803299/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=3868628799884803299' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/3868628799884803299'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/3868628799884803299'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2010/04/o-aparelho.html' title='O aparelho'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/S7TZIs03Y2I/AAAAAAAAAeU/uXlD_Q_EKmM/s72-c/sem_rumo2.png' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-2670956652753407241</id><published>2009-12-27T09:56:00.000-08:00</published><updated>2010-01-20T15:32:42.157-08:00</updated><title type='text'>Na primavera dos tempos</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SzegXgwwkYI/AAAAAAAAAck/10jaS3yNJHs/s1600-h/abstrato2.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5419977002355560834" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 256px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SzegXgwwkYI/AAAAAAAAAck/10jaS3yNJHs/s320/abstrato2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na primavera dos tempos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A bem da verdade, não sabemos qual era seu nome, pois viveu em uma época, em que muito pouco ficou de registros, não só pela rusticidade da vida naqueles tempos, onde a palavra escrita ainda nem havia sido inventada, como tantos e tantos anos já se consumiram, em um passado, que por tão distante, pouco temos como alcançá-lo, ou sequer desvendá-lo, satisfatoriamente. Uma história da qual pouco conhecemos, apenas por algumas pouquíssimas peças, de um gigantesco quebra-cabeça, que há muito, foi consumido pelo tempo. Costumamos chamar, equivocadamente, a estas longínquas passagens, onde nosso desconhecimento suplanta tudo o que podemos conhecer - de pré-história. Como se por ignorarmos a complexidade destas vidas passadas, não podemos permitir que possuam uma história, negamos-lhes o direito, pois a história que temos e somos, não mais lhes cabe. Ao denominar-lhes pejorativamente de pré-históricas, podemos, também, de quebra, nos afirmarmos em nossa pretensa superioridade civilizatória, onde acreditamos, muitas das vezes, sem pensar, que a evolução que carregamos em nós, tenha fatalmente nos conduzido ao progresso. Não é bem o que podemos constatar com o quadro de guerras, fomes e misérias de todos os tipos que vemos em nossos tempos. Enfim, o que se sabe, é que viveu em um tempo muito distante, quase do outro lado do mundo, num passado que pouco conhecemos, e que possuía uma rara beleza. Seu nome, como dissemos, não chegou até nós, perdeu-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim. Estamos em um lugar do passado, muito, mas muito distante mesmo. Ela, depois que perdeu a mãe, passou a ser mais nômade que nunca, pois nunca ficava por muito tempo no mesmo lugar. Não chegou a conhecer o pai, coisa não muito incomum naqueles tempos. Durante a infância, cresceu com a mãe, e muitas das habilidades que desenvolveu havia adquirido com ela, que por sinal, era não só era uma excelente caçadora, mas também boa guerreira, e já conhecia a arte do maneio da terra e a força do grão. Vez ou outra se estabeleciam em alguma área fértil, nas proximidades de algum riacho, e por ali ficavam, a se alimentarem das guloseimas que a natureza gentilmente lhes ofertava, claro, que nada sem esforço, uma vez, que tanto a lida agrícola, quanto às atividades de caça, exigiam muito trabalho. A mãe sabia manejar os arcos e as lanças como ninguém, os quais se voltavam não apenas contra os animais que deveriam abater, para saciarem a fome, mas também contra eventuais inimigos, que em algumas ocasiões apareciam a espreitar, geralmente, em busca de alimentos, ou movidos pelos apetites sexuais. As crianças eram muitas das vezes, presas fáceis, naquele meio selvagem, condição que ainda nos dias de hoje, insiste em se perpetuar. Por sorte, a Terra ainda não estava densamente povoada, como posteriormente, veio a ficar, e a população era bastante rarefeita. Havia épocas, em que viviam longos períodos, sequer sem a sombra de visitantes indesejáveis. Graças à proximidade de uma mãe tão dedicada ao trabalho e tão cuidadosa com a filha, esta pode então sobreviver, quando a outra, definitivamente, se foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era bem nova, quando saiu, sozinha, a explorar o mundo. O tempo em que viveu com a mãe foi suficiente para que pudesse sempre observá-la atentamente, e aprender com ela as inúmeras estratégias de sobrevivência que havia acumulado ao longo da breve existência. Interessante como havia adquirido não apenas os mesmos dons, como repetia seus gestos, com os mesmos trejeitos e movimentos, como se de uma cópia perfeita se tratasse. A forma de segurar o facão, de derrubar o mato e amainar a terra. O jeito como apertava os grãos e os depositava nas pequenas covas que abria no chão com as próprias mãos. Cobria as sementes e resmungava baixinho como se estivesse a confidenciar sabe-se lá com quem, desejando que dali brotasse bons frutos. A maneira de pegar o arco, testar-lhes a cordas e a elasticidade, era tal e qual a mãe havia feito sob seus olhos atentos, a cada dia em que viveram juntas. Eram poucas as presas que lhes escapavam da pontaria certeira. Tinha tanta facilidade com a caça e vivia em um território tão rico em frutos e leguminosas, que nossa personagem, praticamente abandonou a horticultura. Talvez, agora, ao contrário da mãe, fosse mais afeita ao nomadismo, do que a uma vida mais sedentária e estável. Não se sabe se a preferência da mãe, por fixar-se em uma determinada região se dava em função de uma opção que sempre teve, ou se deu devido às demandas de uma maternidade precoce. Para se cuidar de uma criança, a vida sedentária talvez fosse bem mais tranqüila do que a vida cheia de surpresas, que o nomadismo trazia, principalmente quando já se domina as técnicas do plantio. Mas agora, sozinha, queria correr mundo. Muito lhe estimulava as mudanças de paisagens e cenários que suas andanças lhe proporcionavam. Notava que em algumas regiões, a árvores eram mais altas que em outras; mudavam as cores e as formas das flores, frutos diferentes eram encontrados, na medida em que se afastava da terra natal, de onde havia saído. Os seres vivos não eram os mesmos. Sempre havia algum novo animalzinho, novas possibilidades de caça e os mais variados sabores. No fundo, era uma apaixonada pela grande diversidade que a vida lhe oferecia e lhe saltava aos olhos. A vida só e nômade lhe proporcionou grande agilidade. Desenvolveu muitas habilidades que lhe possibilitaram uma sobrevivência relativamente tranqüila, e, geralmente, enfrentava os perigos com tanta ousadia, que eles foram deixando de se constituírem em ameaça. Até dos homens, trêmulos de desejos e violência, que de vez em quando apareciam e vinham molestá-la, ela sabia se safar. E naqueles tempos selvagens, para sobreviver, alguns mortos teve que deixar pelo caminho. Não devemos nos iludir quanto às facilidades de sobrevivência, neste passado remoto. É bem verdade que as disputas entre os homens naqueles tempos, não eram tão freqüentes quantos nos dias em que vivemos, mesmo porque a espécie não estava tão disseminada, mas como ainda hoje, muitos conflitos, eram resolvidos com sangue. Obviamente estas demandas da vida, deixavam-na abalada, mas por saber inevitável a situação, logo se recuperava a observar as belezas, maravilhas e riquezas que a Terra lhe apresentava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ainda vivia com a mãe, ouvia as mais variadas histórias e experiências vividas e relatadas por ela. O relato se dava em uma língua, com uma estrutura, completamente diferente de tudo que já vimos, pois dela nada ficou de registro, numa época sem os recursos da tecnologia digital, CDs, mp3, ou sequer um gravador daqueles bem toscos, que quase não mais vemos, aqueles à base de fita cassete, que nem os das gerações mais passadas que ainda vivem entre nós, cultivam seu uso. Infelizmente a história apesar de contar com técnicas cada vez mais sofisticadas para desvendar o passado que se foi, juntar um número cada vez maior de peças de seu interminável quebra-cabeças, algumas, com certeza, estarão, para sempre, perdidas, sepultada de vez, na longa vala do tempo. Qual seja não apenas os sabores, advindos das mais variadas combinações de frutos e temperos, de espécies já muito extintas, ou os mais adocicados e inebriantes perfumes, provenientes de climas e pastagens que há muito, a própria natureza, por motivos que não cabe a nós, simples mortais, compreender, já fez questão se desvencilhar. Se tem algo que provavelmente jamais conheceremos são as línguas que se perderam, e junto delas, um universo cultural gigantesco, povoados de histórias, mistérios, sons, dialetos, cantos e música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A convivência com a mãe havia lhe proporcionado o desenvolvimento de uma fala muito bem articulada, com uma grande variedade de recursos, que talvez fosse mesmo de surpreender até quem vivesse à época. Consta que a mãe, em um passado ainda mais remoto, quando da sua infância e curta juventude, teve contato com grupos humanos numerosos, e com conhecimento técnicos bem avançados, inclusive fazendo uso de uma agricultura relativamente desenvolvida. Teria pertencido a um grupo de uma tradição cultural complexa, que já contava com uma grande variedade de recursos materiais, utensílios, instrumentos, ferramentas e armas. Talvez tenha sido a herança destes conhecimentos, que lhe tenha permitido sobreviver por tanto tempo em um mundo tão inóspito, e ainda criando praticamente só, uma filha. Esta que sempre fora uma excelente observadora, não apenas do que a sua volta estivesse, mas às infinitas falas a que se dedicava à mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentia muita falta dos diálogos que travava com a mãe, pois sua fala sempre lhe pareceu um longo fio a se desenrolar de um baú sem tamanho, repleto de ricos e vastos conhecimentos e mistérios que diante de seus ouvidos atentos iam se revelando. Como aprendia com ela. Além disto, prestava muita atenção em cada fonema, na articulação de cada som, como uns se encaixavam aos outros, gerando uma fala melodiosa, que na maioria das vezes, a levava ao encantamento. A mãe, apesar de toda a rusticidade que era a vida, possuía uma voz bela e suave, a comprovar o desenvolvimento deste rico instrumental corpóreo, já naquela ocasião. Pela manhã, aquela voz a animava, enchendo-lhe de energia e entusiasmo para o dia que estava por iniciar. Noutros momentos, assumia um tom metódico, como quem carrega a preocupação pela responsabilidade de ter um mundo inteiro a ensinar, bem mais multidisciplinar, que nossas mentes contemporâneas, tão habituadas à especialização do trabalho e dos saberes, nos permitem dimensionar. Ao fim do dia, quando vinha a tarde, a noite, a lua e uma multidão incontável de estrelas encobriam o planeta, sua voz tornava-se poética, musical. Eram experiências que ela nunca mais se esqueceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia algo que deixasse a mãe mais orgulhosa que constatar a eficácia de seus ensinamentos ou métodos. A filha às vezes, parecia até superá-la, pois além do conhecimento e informações que absorvia, era de uma percepção exagerada. As manifestações e conversas da filha eram muitas das vezes, surpreendentes. A mãe acabava por fazer descobertas, indagações, reflexões, que sequer havia imaginado em seus tantos anos de vida. O mundo ainda estava por descobrir, e naquele ambiente ainda meio selvagem, meio bárbaro, duas cabeças teriam mais utilidade que uma, em um cenário sempre pronto a apresentar novidades, revelações e perigos. Mas alegria maior foi quando a filha, passou a dominar não apenas as habilidades técnicas, mas as técnicas e habilidades da fala. Quando a garota pronunciava o rol de palavras que agora também lhe pertencia, os olhos da mãe se enchiam de encanto e o coração apertava de alegria. Não eram raras às vezes, em que a mãe chorava ao ouvir o que a filha tinha a lhe dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a vida havia mudado. Os tempos eram outros. Já havia alguns anos que vivia só a perambular pelos sempre novos caminhos que seus incertos passos vinham lhe abrindo. Praticamente havia feito a opção de estar a só. As poucas gentes que conheceu em suas andanças, acreditava, não eram daquelas a que talvez valesse a pena compartilhar os dias e os destinos. Os poucos contatos humanos mais contínuos, nada além de alguns poucos dias, que manteve desde a morte da mãe, mais a aprisionavam do que possibilitavam a meta a que havia traçado, sobreviver, e conhecer o quanto mais pudesse sobre o mundo que se abria aos seus olhos e a seus passos largos. Não que fizesse questão de evitar os outros humanos, que raramente lhe atravessavam o caminho, mas os poucos que encontrou não lhe motivaram a estabelecer o que poderíamos chamar de vida em grupo, quando muito, ou no mínimo, uma vida a dois. Era detentora de um rico universo cultural, herdado da mãe e aguçado pelos seus selvagens instintos, que lhe proporcionava um firme senso de autonomia e um pleno gosto pela liberdade. No fundo, não era lá muito afeita a criar amarras, pois sentia ter um vasto mundo ainda a conquistar. Já era de sonhos nossa personagem. A vida não era desprovida de perigos, mas a região, em contrapartida, era muito rica em frutos, dádivas da terra, das águas, e o clima era ameno e parecia estar a serviço de uma vida longa. Não havia paragens onde não pudesse se alimentar à vontade. Frutos de todas as formas, arredondados, achatados, lisos, com espinhos, sobre árvores altas, no mato rasteiro, em todas as partes, que levavam consigo todas as cores que a natureza pôde inventar. Doces, azedos, nutritivos, dos que curam, dos que matam a sede, os que fartam os estômagos, os que enchem os olhos. Alimentos prontos que a terra não cessava de ofertar. A rica e variada dieta havia deixado seus cabelos sedosos e fortes, por mais que a longa exposição ao tempo tivesse a chance de danificá-lo. Era daquelas fêmeas que enchiam os olhos de qualquer macho, entre os velhos ou novos, dos mais fortes aos mais fracos, mesmo daqueles que por sorte, naqueles tempos, matinha-se em dia com suas demandas sexuais. Imagine os desejos e impulsos que algumas vezes tinha que enfrentar, principalmente quando se encontrava com homens sedentos que há muito não viam uma mulher passar diante de si, numa época, em que a humanidade não era lá tão vasta, e onde enquanto muitos eram caçadores, outros tantos eram ainda simplesmente caça. A moça possuía um rico arsenal de pontas de pedra, machadinhas, raspadores, facas e pequenas lanças, os quais estava sempre a amolar, e os manejava com tanta habilidade e rapidez, que garantia não apenas apetitosas refeições, como também sua sobrevivência ante alguns bandos de famintos sexuais. Como já dissemos, muitos desses encontros resultavam em machos estropiados, esfaqueados, que a garota na luta dura pela sobrevivência, degolava quase sem dó. Era dotada de uma força descomunal. Em muitas das ocasiões o enfrentamento, o corpo a corpo fazia-se desnecessário, pois aprendera com o tempo, a domar o inimigo com os olhos. Lançava sobre eles um tão fulminante olhar, que muitos punham as pernas a tremer, e quando não, disparavam a correr assustados, atormentados, sem saber se de fato, tinham visto uma mulher, ou um animal feroz e mortífero, do qual ainda não haviam encontrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por muito e muito tempo viveu isolada, sem contatos com outros dos seus. E diante do silêncio de sua solidão, passou a ouvir os sons do mundo, como pouquíssimos até hoje talvez tenham ouvido. De início, vinham-lhe aos ouvidos, a voz da mãe. Aparecia assim de repente, e parecia repercutir pelos cantos do mundo, repetindo-se em ecos. Nunca conseguia identificar ao certo o que dizia a voz. Mas era a voz bela e suave de sempre, que cantava aos ouvidos e ao mesmo tempo, parecia espalhar-se pela eternidade. Em seguida, ouvia a sua própria, sem que abrisse a boca. Talvez a mesma voz que tinha, quando ainda era uma criança. Nestas ocasiões testava suas cordas vocais para certificar-se que assim como seu corpo havia se desenvolvido, tornando-se tão bela mulher, sua voz também tornara-se estranha aos seus próprios ouvidos. Aí é que percebeu o quão calada havia estado por alguns bons anos. Esta súbita percepção acabou lhe causando algum desconforto, pois pouco usava a voz que tinha. Na ausência de uma família, círculo de amigos, ou um companheiro, resolveu que a partir daquele dia, iria comunicar-se, expressar-se pela fala, com os fenômenos e as coisas vivas, que encontrasse pela frente. Iria a partir dali, relacionar-se vocalmente não apenas com os peixes, as aves, répteis, mamíferos, insetos, com os quais topasse pelo caminho, mas também com o ruído dos ventos, o esgoelar das tempestades, as melodias das florestas, o canto das águas. Daria voz à voz que tinha, e o que se emudecia, iria tornar-se um vasto depósito de sons. E assim se fez. Às vezes, permanecia calada e se punha, silenciosamente, a ouvir. Aprendia a cada dia, os códigos sonoros da natureza, os quais costumamos imaginar secretos, mas só o são, em função da nossa intolerância em querer ouvi-los, desvendá-los. Mesmo porque, a vida nas cidades, que muito posteriormente se desenvolveram, em nada facilitava este contato, muito antes pelo contrário. Os ruídos e as luzes das grandes metrópoles impedem hoje, não só que ouçamos o que tem a terra a nos dizer, como sequer nos permitem lembrar as estrelas radiantes ad infinitum que brilham sobre nossas cabeças. Descobriu a música que havia guardada em cada ambiente, em cada ser que dela se aproximava. Primeiro ela os fitava, olhos nos olhos, depois trocavam sons, sinais. Desenvolveu um universo de códigos sonoros que se sofisticava a cada nova experiência, que poderíamos já chamar de interativa. Ao longo dos anos parecia falar com os trovões, com as flores que se abriam, e talvez por isso mesmo, se abrissem mais belas, entoou o canto dos pássaros, que admirados, passaram, em várias ocasiões, a lhes fazer companhia. Nestes momentos, uma verdadeira sinfonia paralisava todos que carregassem seiva, sangue ou alma. O mundo parava a ouvi-los. Ao se banhar nos córregos cristalinos que atravessavam as terras que ainda não eram territórios, cantava, cantava, como se estivesse a encarnar, o que poderia ter sido uma sereia. Projeto da natureza, quem como hoje sabemos, acabou por não vingar. Alguns pássaros e pequenos mamíferos, muitas das vezes, costumavam acompanhá-la por algumas léguas, presos ao seu canto, até que as novas condições ambientais, de terras desconhecidas, ameaçassem sua sobrevivência, e aí acabavam por abandoná-la. Mas sempre, por onde passava, parecia conquistar a simpatia dos bichos e o sorriso dos céus. Mesmo estando só, parecia nunca o estar. E cantava pelos caminhos afora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa fria manhã em que o céu estava completamente azul, como se alguém houvesse levado para sempre todas as nuvens do firmamento, despertou subitamente, e como se trouxesse algo dos sonhos, que talvez ainda não tivessem de todo se desfeito, decidiu que naquele momento mesmo, executaria uma idéia que parecia ter vindo pronta, sob encomenda. Animou-se. De um salto, levantou-se de sua cama de folhas e ramos, nas quais nunca pernoitava por muitas vezes. Catou galhos de árvores, troncos caídos, cipós, folhas com diversas consistências e envergaduras, deu nós, esticou daqui, puxou dali, amarrou cortou, aparou, e começou a montar o que hoje chamaríamos de instrumento musical. É uma parte difícil da história, pois desconhecemos os detalhes de como este instrumento primordial se fez ou sequer podemos imaginar que tipo de som ele foi capaz de produzir. A moça o admirava com os olhos de quem havia realizado qualquer espécie de mágica e com um considerável instinto religioso. E ficava a imaginar como teria conseguido fazer aquilo. Mas uma coisa é certa: o som daquela coisa, que ora mais lembrava um instrumento de corda, ora um instrumento de sopro, associada aquela voz, agora talhada, afinadíssima, criou algo, que chamaríamos de encantador. Quando soavam os acordes, e aquela voz se propagava no ar, a vida parecia um concerto, o mundo girava harmoniosamente, e a acústica da atmosfera, ressoava-a pelo infinito. Era de fato, um canto poderoso. Infelizmente não havia naquela época, gravadores ou qualquer parafernália tecnológica que pudessem registrar esta música para a posteridade, pois por onde passava aquela moça, seu canto enchia o silêncio de alegrias, e os homens ficavam de bocas abertas e ouvidos estatelados. Devemos registrar que o desenvolvimento desta rica habilidade artística da jovem a poupou de muitos conflitos violentos. Se no passado a moça se livrava dos perigos utilizando inicialmente as armas, e posteriormente até um olhar, acabou por afastar praticamente todos eles, com a música que entoava, com os códigos sonoros do mundo, um instrumento musical único, e aquela voz, como ainda não havia se ouvido. Até os mais selvagens dos instintos animais acanhavam-se em atacar o que lhes parecia incrivelmente belo e prazeroso. Fazia-se mais feliz a vida naquelas paisagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era outono. Numa manhã qualquer, daquele longínquo passado, ao atravessar pela primeira vez, uma infinita planície que se abre após um longo emaranhado de colinas e penhascos, avista ao longe, quase imperceptível, não fossem seus olhos atentos, uma crescente nuvem de poeira, que mesmo distante, parecia se aproximar a cada momento. Paralisa-se. Ainda não havia visto aquilo. O que seria? Um novo fenômeno que a criativa natureza estaria agora a lhe apresentar? Efeito de ventos, tufões, tempestades? Ou eram seus olhos que se ofuscavam diante o clarão do dia, que se refletia das pedras do chão? A nuvem se aproxima. Após um estado de paralisia, que prendeu seus pés firmemente ao solo, agora sente todo seu corpo tremer, dos pés à cabeça. Um repentino calafrio lhe sobe a partir do estômago, o coração acelera as batidas, e o sangue dispara apressado pelas veias. No vasto campo em que estava, o encontro com o desconhecido que se aproximava parecia ser inevitável. Praticamente não havia onde se esconder. Agacha-se por trás de uma trincheira de pedras, e procura forçosamente identificar o elemento estranho que avança rapidamente. Percebe que à frente a cortina de poeira de que se levanta, movimentam-se num ritmo frenético, sombras e luzes, como que a alternar-se. Vem a galope. Seus olhos por fim, começam a delinear a paisagem que se forma apressada. Homens, muitos homens, e muitos cavalos. Nunca os vira, tantos, sejam os homens, sejam os cavalos. Muito menos que montassem uns sobre os outros, e sobre eles tivessem tanto controle e domínio. Os cavalos vinham montados, e incrivelmente alinhados, em quatro fileiras paralelas. Cada uma delas, com cerca de oito homens e oito cavalos. Sentia que o corpo lhe tremia, não era à toa. Correr pela planície, em busca de um abrigo, que provavelmente não encontraria naquelas terras abertas em que penetrara, iria torná-la um alvo fácil. A alternativa seria ficar por ali, e torcer para que o perigo passasse, sem que desse por ela. Sabia que não seria fácil. Deveria encolher-se, calar-se, e evitar qualquer ruído. Assim permaneceu, sem se mexer. Mas seus olhos se arregalavam cada vez que percebiam mais detalhadamente os traços dos visitantes, que a distância escondia. Já havia visto de quase tudo, nestas longas andanças a que havia se entregado. Mas uma formação de homens, cavalos, insígnias e metais, que ora vislumbrava, deixavam-lhe atônita, pasma. O esconderijo que havia encontrado não lhe seria suficiente, estava praticamente a descoberto, por mais que se encolhesse, as pedras não eram grandes o suficiente, e nem possuíam uma formação contígua, que pudesse oferecer-lhe proteção. Mas não perdia aquela tropa de vista. Seus olhos sequer piscavam. Observava cada detalhe. Assustava-se. A organização das fileiras, a velocidade dos animais, o controle de uns sobre os outros, a montaria, os penachos coloridos, que ornavam os corpos, sejam dos bípedes ou dos quadrúpedes, traziam-lhe cada vez mais apreensão. Além do mais, não tinham cara de bons amigos, afinal possuíam uma organização protomilitar, e não pareciam estar em missão de paz. Mais uma vez, pareciam ser mais dóceis os cavalos do que os homens, como em muitas outras ocasiões, já tivera a oportunidade de perceber. A dureza daqueles rostos, em conjunto, galopantes, proporcionavam-lhe uma peculiaridade única, uma natureza férrea, um espírito de pedra. Ostentavam armamentos poderosos, talvez os mais sofisticados que existissem à época. Grandes lanças pontiagudas, afiadíssimas, que os guerreiros portavam com ostentação. Facas, punhais, adagas, todas feitas de um metal, pronto para sangrar, cortar, perfurar, causar dores e sofrimentos sob as mais variadas modalidades. Os homens deixavam-nas à mostra, não apenas para que ficasse mais fácil e rápido seu uso, quando se fizesse necessário, mas também como demonstração ostensiva de força. Às vezes, apenas o medo que impunham, ante a superioridade bélica que apresentavam, já era o suficiente para dobrar o inimigo. O poder parecia tornar-se uma espécie de espetáculo. Levavam às cabeças, elmos ricamente confeccionados, que variavam de tamanho e requinte, conforme a posição que os guerreiros ocupavam em suas fileiras. Os que vinham à frente, portavam elmos de ouro, incrustados com as mais preciosas pedras, que vinham de domínios distantes. Uma larga armadura de bronze protegia seus tórax de qualquer infortúnio, como uma lança de algum grupo inimigo, ou uma flechada, daqueles que viviam ainda, a idade da pedra. Os braços eram cobertos com placas de metal, minuciosamente moldadas com símbolos, gravuras, códigos, que nossa personagem, assustada, sequer poderia imaginar do que se tratasse. Até os cavalos carregavam ornamentos, plumas, distintivos, tornozeleiras, dando mostras claras, que já há mais tempo que se imagina, estas pobres criaturas, já haviam sido subjugadas, pela natureza humana. Os que vinham aos fundos possuíam vestimentas mais modestas, mas ainda assim, vinham armados até os dentes. E não eram raras as situações em que tinham que assumir posições dianteiras, principalmente, quando eram maiores os riscos, mais sanguinários os conflitos e lutas, pois aí deveriam sacrificar-se para poupar o sangue e as vidas de suas lideranças, que passavam a proteger-se na retaguarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais que se enroscasse entre as pedras em que se escondia, não foi capaz de escapar à observação vigilante do bando. Ao vê-la, o que ia a frente fez um sinal. Em seguida comunicou-se numa língua, que lhe era completamente desconhecida. O grupo, de uma só vez, como se fosse um único corpo, parou. Aí pode perceber melhor o agrupamento. O homem que ia à frente, o que a havia visto primeiro, era a autoridade maior, o que se podia perceber não apenas em função da relativa exuberância dos trajes, como através do tom da sua fala, que mais estava para gritos, do seu nariz em pé e seu ar de superioridade. Era ainda nítido o olhar de submissão do restante do grupo. Os que iam mais próximos ainda lhe dirigiam a palavra e trocaram breves opiniões. Os que vinham aos fundos, sequer encaravam-no nos olhos. Mas ainda assim, pareciam orgulhosos, de peitos inflados, convencidos, que eram de fato, peças importantes da missão. Lá bem atrás dos últimos homens a cavalo, o que só agora podia ver, havia um grupo de cinco homens feridos, amarrados uns aos outros, pelos braços, pernas e pescoços. Prováveis escravos ou prisioneiros de guerra. Era um mundo desconhecido para ela. Os homens encaram-na com olhos de desejo e os que iam mais à frente, se preparam para pular dos cavalos e irem ao seu encontro. Pareciam ter pressa em tocá-la. Quando as coisas caminhavam rumo a uma fatalidade, ela então resolveu recorrer ao recurso que tantas vezes já lhe havia salvado. Controlou o medo que insistia em estrangular-lhe a garganta, buscou encher de ar seus pulmões, como a revitalizar as energias, molhou os lábios, e pôs-se a cantar . E ao cantar, fez-se forte. Sua voz repercutia ao longe, quase a preencher o espaço. Aves coloridas sobrevoaram suas cabeças cortando o céu, respondendo ao clamor daquele canto, as nuvens suavemente se abriram, deixando mais claro aquele momento, uma sinfonia de luzes e notas musicais insistia em dominar o mundo. Os homens contiveram seus passos. Enquanto ouviam aquele canto permaneciam inertes, paralisados, como estátuas. Seus olhos grudavam-se nela. Sequer arriscavam-se, num primeiro momento, a olharem uns para os outros, como se não quisessem perder um segundo sequer, daquela melodia, que certamente, ressoaria para sempre nos recônditos de suas mentes, em lembranças e memórias. O céu se abria e fechava, como se tivesse a encher de efeitos especiais algum espetáculo da natureza. Os homens arrefeceram seus ânimos. Aos poucos, a musculatura e os nervos dos corpos relaxavam ante a música que invadia os ouvidos. Suas feições tornaram-se menos duras e tensas. Naquele breve instante, sentiam-se magicamente descontraídos e felizes. O comandante em chefe arregalou os olhos, como se estes fossem saltar de suas órbitas. Quem por ali passasse, poderia imaginar que aquele amontoado de homens e cavalos, já há muito fora de seu tradicional alinhamento, fosse um grupo de perdidos e desorientados. Como se não apenas houvessem se esquecido para onde iam, mas também de onde haviam acabado de vir. Não arriscavam uma palavra qualquer, continham as tosses, pigarros e espirros, pois de alguma forma, aquele canto mantinham-nos em estado de graça. O comandante em chefe arrisca dois passos, afinal, tem que mostrar aos subalternos, que ainda é dele a iniciativa naquele lugar. A música chega ao fim. Ela abaixa os olhos e uma nuvem escura ofusca o sol, subtraindo o excesso de luzes que iluminava aquele episódio. Um vento forte faz revoar as crinas, os rabos dos cavalos, as plumas, penachos, estandartes, e os cabelos dos homens presos entre couraças e laços, parecem querer arrancar de suas metálicas cabeças. Os cabelos da moça taparam seus olhos, como se quisessem ocultar-lhes o destino. O comandante em chefe dá ordens para que se afastem os outros. Arranca o elmo e a placa de bronze do peito, faz baixar a guarda e aproxima-se lentamente dela. Ela fita-o, imóvel. Procura manter as batidas do coração que estão a estourar-lhe o peito. O homem aproxima e toca o seu corpo, suas mãos percorrem cada curva, como a conferir os detalhes das dimensões e formas. As mãos acariciam seus cabelos, correm pelo pescoço, alisam seus seios e tocam suas intimidades e entranhas. Devido à presença de seus homens, que o observavam de longe, achou inadequado possuí-la ali, não só por considerar que estas intimidades e taras não devem se revelar aos olhos dos subalternos, como havia ainda o risco de estimular desejos contidos, a libido daqueles homens de ferro, que poderia despertar paixões, que viessem alterar o rumo da história, quebrar a ordem das coisas. Seria melhor não se arriscar. Resolveu levá-la para si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça esperneou, gritou, arranhou, mordeu, mas não pode com a força daqueles brutamontes. O instrumento musical, que chegou a usar para tentar proteger-se, acabou partindo-se em vários pedaços e ficando para trás. Eles amarraram-na e o comandante em chefe decidiu que aquela fêmea seria dele, fruto de uma vida de conquistas e expropriações. Um espólio de guerra, um troféu. Assim o fez. Fez questão, ele mesmo, de levá-la em seu próprio cavalo, por sob suas garras. Após uma cavalgada de algumas poucas horas, finalmente chegam ao destino. Estavam de novo em casa. Viviam estes homens, num estágio civilizatório, onde não apenas dominavam as artes dos metais, como já conheciam a propriedade privada. Possuíam vastos campos cultivados e fartos rebanhos que pastavam às margens de um caudaloso rio. Para garantir seus territórios, não apenas mantendo-os, mas ampliando-os, recorriam sempre à guerra. Talvez fosse mesmo sua maior especialidade. Os saques e pilhagens eram parte de seu ofício. Acumulavam luxos e tesouros. Os trabalhos pesados com as plantações, com a foice, enxadas e facões eram dados a homens muito maltratados que eram, na maioria das vezes, capturados nas incursões militares. Aos quais restava ainda o trabalho nas construções, nas oficinas, estalagens, as tarefas domésticas e as bajulações a que faziam questão os seus senhores. Estes, fora a guerra, se é que assim realmente podemos chamar, o que mais se constitui em assaltos organizados, dedicam-se vez ou outra às caçadas, o que muito contribuiu para o espírito guerreiro daquelas elites primitivas. Mas de volta às suas terras, gozam uma vida de prazeres, com muita festa, bebidas, orgias e farturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caso alguém que a conhecesse em outras circunstâncias, a visse presa naquele local, jamais imaginaria ser a mesma pessoa. Suas mãos estavam trêmulas, a face pálida, como se o sol não mais se pusesse a pino. Os olhos pareciam encharcar-se irremediavelmente. É como se a história houvesse passado rápido demais diante deles. O comandante não tinha pretensões de deixar-se livrar de sua mais nova conquista. Manda os escravos construírem uma grande gaiola de ouro, onde iria mantê-la, quando não estivesse por perto. Naquela primeira noite, ele a leva para um cômodo, repleto de aromas e decorações, um lugar luxuoso e confortável, com tecidos finos, lençóis e almofadas, confeccionados para redimensionar os prazeres. Ela mantem-se calada, encolhida. O odor daquele ambiente, somado ao suor daquele homem sobem-lhe as narinas, causando-lhe náuseas. Falavam línguas estranhas e não lhes parecia haver comunicação possível. Causava-lhe nojo as palavras, que não queria compreender. Ele tornava-se indelicado no gesto. Ela não lhe emprestava o olhar. Atirou-a sobre a cama, arrancou o manto que lhe fazia as vestes, e penetrou-a, abruptamente. Ela sangrou. Fez-se escrava. Ele exigiu que cantasse pela manhã. No dia seguinte, mostrando a eficácia, que o comandante exigia de seus artesãos, sua gaiola estava pronta, dourada, entre a cama e a janela do quarto. Ele não tinha dúvidas de que era ali que deveria mantê-la. Ali ela passou o resto de seus dias, mas a voz e o canto nunca mais lhe saíram à garganta.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-2670956652753407241?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/2670956652753407241/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=2670956652753407241' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/2670956652753407241'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/2670956652753407241'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/12/na-primavera-dos-tempos.html' title='Na primavera dos tempos'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SzegXgwwkYI/AAAAAAAAAck/10jaS3yNJHs/s72-c/abstrato2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-8064883087871183120</id><published>2009-12-04T16:33:00.000-08:00</published><updated>2010-02-18T14:36:33.429-08:00</updated><title type='text'>Brincam os garotos.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SxmqrdCHLcI/AAAAAAAAAcc/m-gMVDY33qA/s1600-h/129_2722-Meninos.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5411544090766945730" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 257px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SxmqrdCHLcI/AAAAAAAAAcc/m-gMVDY33qA/s320/129_2722-Meninos.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Brincam os garotos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estavam reunidos os três, já entediados com suas brincadeiras rotineiras, quando resolveram encontrar uma forma de conhecerem melhor aquele vizinho da rua ao lado, que há pouco menos de um ano havia se mudado para a região. Afinal, parecia um sujeito simpático, e certamente, talvez trouxesse algum novo brinquedo ou algo, no mínimo, diferente, daquela terra distante, de onde sequer, haviam ouvido falar. O maiorzinho, ainda insistia na forra daquelas bolinhas de gude, que havia perdido no dia anterior, para o mais novo deles, que por sua vez, preferia já o jogo de cartas, que muito o fascinava, com seus reis, valetes e rainhas. O do meio insistia em que deveriam no dia seguinte, convidar o novo vizinho para um jogo qualquer. O sotaque que o recém-chegado trazia, despertava mesmo a curiosidade nas redondezas, onde a maioria das pessoas, principalmente os mais jovens, ainda não tinha visto aquilo. Sabemos o quanto a convivência com quem vemos como diferente, estranho, curioso, pode nos fascinar ou proporcionar graves incômodos, pelas mais diversas razões. Os garotos então, resolveram, que iriam, no outro dia, ainda pela manhã, à casa daqueles forasteiros, não só para conhecê-los, e mais ainda, para tentar conhecê-los melhor que qualquer outro na vizinhança. Feito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo cedo, se encontraram e se dirigiram à casa do menino. Pelo caminho, discutiam os três, qual seria a melhor estratégia, para melhor conhecer o convidado. O que ia à frente, o mais alto, sugeriu, que de início, perguntassem de onde havia vindo, falariam um pouco de suas vidas e preferências, e depois pediriam a ele, enfim, que falasse da sua própria. O que ia ao meio, sugeriu que deveriam tentar, no mesmo dia, entrar em sua casa, conhecer seu quarto e seus brinquedos. De quebra, poderiam conhecer parte da família, aquela irmã bonita, que muito desperta a atenção dos rapazes, e aquele cachorro esquisito, cuja raça, nunca haviam visto por estas bandas. O caçula desaconselhou as propostas dos colegas, dizendo que com idéias como estas, iriam assustar o garoto, e aí perderiam, não apenas a viagem, mas também a oportunidade. O que faremos, então? Indagaram os outros. A idéia do menino era convidá-lo para uma brincadeira, onde estivesse em suas mãos o destino dos outros, por que aí, imaginava, discutiria com eles, nas entrelinhas ou explicitamente, o que do outro mundo, que fatalmente desconheciam, ele trazia consigo. Mesmo não entendendo muito bem, o que pretendia com tal sugestão, e olhando meio desconfiados o pirralho, resolveram apostar na idéia e ver no que ia dar. Afinal, a perspectiva de possuir algum poder, mesmo que de brincadeira, para muitos, pode ser mesmo algo irresistível, irrecusável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O garoto topou a brincadeira, que consistia no seguinte: durante aquele dia, enquanto juntos estivessem, ele seria responsável pela sobrevivência do grupo, não que tivesse que mantê-los, diríamos, as suas custas, mas deveria ser a liderança capaz de criar alternativas, para que todos, sob seu controle pudessem não só ter um dia melhor, mas se divertirem com as novidades que o novo colega, certamente conhecia. Era a idéia original. Como se naquele dia, tivesse sido eleito para a função de rei, o líder entre eles. Queriam conhecer os garotos os hábitos da terra mágica da qual acreditavam ter vindo o vizinho. O garoto, ao entender então, o convite, entusiasmou-se, pediu um minuto, e imediatamente voltou, com uma blusa um pouco mais nova, que já algum tempo, estava pendurada no cabide. Pegou um velho distintivo que guardava na gaveta e aprumou-o ao peito. Passou rapidamente pelo espelho e sentiu-se maior, seus olhos estavam cheios. Inexplicavelmente, sentiu-se corar. Mas por que diabos estavam os garotos a lhe fazer tal convite? Mas não se fez de rogado, e afinal, também estava disposto a se divertir, além do mais, aqueles três não eram lá o que se possa chamar de ameaçadores, e já os havia visto sempre por aí, pareciam mesmo serem boa gente, e tinham os moleques, jeito de bem intencionados. O rapazinho não quis perder tempo. Desceu correndo as escadas e reencontrou os vizinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao certificar-se que de fato, os garotos não iriam lhe causar qualquer tipo de mal, teve repentinamente uma idéia. Lembrou-se da nota de cinqüenta que há uns dias guardava em um pequeno livro de cabeceira. Pediu aos novos colegas mais um minuto, rapidamente correu até a casa, e sem que o vissem, meteu o dinheiro no bolso. Voltava feliz e animado. Ao longo de um dia inteiro, ele se divertiu. Quem estivesse observando de longe, talvez imaginasse que fosse o exemplo do bom amigo e do espírito de solidariedade. Gastou quase a totalidade do dinheiro que levava no bolso com os três. Pagou sorvetes, pipocas e refrigerantes. Um brinquedo no parque para cada um deles. Mas a façanha, porém, não saiu de graça para os outros. Ele os fez pagar, ainda que não lhes cobrasse qualquer dinheiro. No entusiasmo que a circunstância lhe apanhou, praticamente reinou de fato, sentiu-se grande. Os garotos acabaram, a contragosto, se subjugando, pois não era todos os dias que alguém lhes custeava tamanhos prazeres, e além do mais, havia sido deles, a idéia. O rapazinho, em contrapartida, lhes cobrava todos os tipos de mimos e bajulações. Deveriam os garotos carregá-lo aos ombros, limpar os seus restos, tirar-lhe a poeira dos sapatos. Era a regra. O pacto. Afinal, cabia a ele, dar as ordens, que vinham muitas das vezes acompanhadas de gritos e safanões, pois acreditava que tais arrogâncias eram parte do papel que lhe fora atribuído. Por fim, divertiu-se o garoto, os novos colegas resignaram-se, e na carência de dias melhores, resolveram subestimar a humilhação. O dia terminou. O forasteiro jamais iria esquecê-lo. Os meninos nunca mais lhe bateram à porta. Por muito tempo se perguntaram se teria sido o mesmo garoto, se o convite fosse outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-8064883087871183120?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/8064883087871183120/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=8064883087871183120' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/8064883087871183120'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/8064883087871183120'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/12/garotos.html' title='Brincam os garotos.'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SxmqrdCHLcI/AAAAAAAAAcc/m-gMVDY33qA/s72-c/129_2722-Meninos.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-699011397187715899</id><published>2009-09-23T17:22:00.000-07:00</published><updated>2009-10-18T15:53:11.045-07:00</updated><title type='text'>Sobre a mentira</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Srq8IGE9xaI/AAAAAAAAAcU/Kibgld9OYt0/s1600-h/iceberg_de_mentira.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5384823151731262882" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 234px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Srq8IGE9xaI/AAAAAAAAAcU/Kibgld9OYt0/s320/iceberg_de_mentira.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sobre a mentira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia 18 de setembro de 2008, José Saramago, publicou em seu blog um artigo, onde afirmava que “George Bush expulsou a verdade do mundo para, em seu lugar, fazer frutificar a idade da mentira. (...) honra lhe seja feita ao menos uma vez na vida, há no robô George Bush, presidente dos Estados Unidos, um programa que funciona à perfeição: o da mentira. (...) A sociedade humana actual está contaminada de mentira como da pior das contaminações morais, e ele é um dos principais responsáveis. A mentira circula impunemente por toda a parte, tornou-se já numa espécie de outra verdade. (...) a mentira como arma, a mentira como guarda avançada dos tanques e dos canhões, a mentira sobre as ruínas, sobre os mortos, sobre as míseras e sempre frustradas esperanças da humanidade”.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Após ler estas palavras, voltei a relê-las outras tantas vezes, fiz cópias, distribui entre pessoas mais próximas e colei-as em alguns poucos lugares públicos. Desde então, as palavras não mais me saíram da cabeça. Nunca imaginei poder encontrar definições tão exatas, não apenas sobre a roupagem da qual se traveste a mentira em nossos tempos, mas também como se configuram estes mesmos tempos a partir das mentiras que carregam e são. O autor abre uma perspectiva, fundamental, para que possamos compreender um pouco mais profundamente não apenas o mundo em que vivemos, coabitamos, mas também, a humanidade que somos. O fenômeno da mentira, não das pequenas mentiras, mas das mentiras grandes, aquelas que arrastam povos inteiros, ceifam vidas, criam ódios e guerras, vai se tornando um elemento cada vez mais comum, repetitivo, sistemático das bases de nossa civilização global. As grandes mentiras, se observarmos bem, cercam-nos a todos, em uma tendência mundial.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A mentira, enquanto fenômeno, encontra-se tão disseminada, que por mais que sejamos atentos, estamos sempre a ser enganados. Os veículos das grandes mentiras são muito poderosos e viajam pelo mundo com blindagens indestrutíveis, a serviço de negócios inconfessáveis, geralmente em defesa de interesses de governos ou das grandes corporações privadas, dos setores financeiros, dos oligopólios. A mentira tornou-se estrutural. Jamais poderia imaginar que as brincadeiras de infância, associadas ao inocente primeiro de abril pudessem esconder uma perversidade absoluta, em que poderia a mentira se transformar. Vivemos sob a ditadura da mentira. Quem pode acreditar nos discursos dos governos? Os governantes de plantão, geralmente a serviço do grande capital, transformados em gerentes e marqueteiros, querem nos fazer acreditar que mergulhamos nos melhores dos mundos, quando nos afogamos, populações inteiras, em desempregos e misérias. Querem nos fazer acreditar que não há outras alternativas, que não as deles, ou dos interesses escusos, onde muitos, são testas de ferro. As grandes organizações e organismos multilaterais fundamentam-se sobre princípios de falácias e engodos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;De certa forma, a mentira acaba por criar uma nova estrutura de poder e uma nova cultura também. Tornou-se recurso universal, imprescindível de quem detém algum poder de fato, sejam os poderes maiores, em escala global, sejam nos níveis intermediários, ou nos níveis mais individualizados e próximos, onde um indivíduo está para exercer o poder sobre o outro. É como se a mentira funcionasse como um amplificador de poderes, pois quando estão a mentir, e tem o domínio, a mentira passa a ser a verdade, sobre a qual tem o controle. Os grandes veículos de comunicação mentem o tempo todo, enganam as crianças, enganam a nós, com suas meias verdades, omissões previsíveis, táticas, distorções, deturpações, ilusões fáceis. Querem transformar a todos em dóceis consumidores, nada além de força de trabalho e consumidores de entulhos e supérfluos, não-pensantes. Querem transformar-nos em massa de manobra, currais eleitorais, e compradores da fé. Descobriu-se o quanto pode se lucrar com a mentira e ela fez-se grande, disseminou-se. Há saída? É o que devemos buscar. Talvez um bom começo seja recusando-nos a sermos cúmplices, descosturando a cada dia o manto que caiu sobre nós. É necessário estarmos de olhos abertos, tatearmos nas trevas, para perceber que as maiores mentiras são as que nos apresentam como as únicas verdades ou para descobrir a verdade que há por trás de uma grande mentira. Não dá para cochilar. Obrigado Saramago, por manter a vigília.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-699011397187715899?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/699011397187715899/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=699011397187715899' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/699011397187715899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/699011397187715899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/09/sobre-mentira.html' title='Sobre a mentira'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Srq8IGE9xaI/AAAAAAAAAcU/Kibgld9OYt0/s72-c/iceberg_de_mentira.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-1783682512422049330</id><published>2009-09-16T15:40:00.000-07:00</published><updated>2009-09-16T19:14:47.843-07:00</updated><title type='text'>Breve viagem à Diamantina.</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SrFriIMIsoI/AAAAAAAAAcM/PaWTVbpmQ3o/s1600-h/Diamantina-photo2010-5.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5382201263742562946" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 238px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SrFriIMIsoI/AAAAAAAAAcM/PaWTVbpmQ3o/s320/Diamantina-photo2010-5.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Breve viagem à Diamantina.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Existem ocasiões que exigem ser, de alguma forma, retratadas, seja para que possamos sempre voltar a contemplá-as, seja para guardar alguma memória de nós mesmos, para que possamos, posteriormente, lembrar de quem fomos um dia, ou quem sabe, para que possam lembrar de nós, quando por aqui já não mais estivermos. Existem ocasiões que exigem algo além das fotografias. Não que estas não sirvam para nos trazer as boas ou as más recordações, mas que podem não ser o bastante, quando se pretende recorrer não só às lembranças visuais, mas também aos sentimentos e sensações que se teve, ou pelas quais se foi tomado, quando se conheceu alguma nova localidade. Após a viagem à Diamantina, cravada na Serra do Espinhaço, torna-se irresistivelmente tentador transformar em linhas de palavras, a trilhas percorridas, entre as montanhas, serranias, cursos d’água, rastros do passado, que magicamente vão se abrindo diante de nossos olhos, admirados. É como se não se tivesse sossego, diante dos fatos que não querem se dar por esquecidos, e que exigissem de nós que os registremos além das fotos de nossas câmeras digitais. Escrever sobre uma viagem é não só revivê-la, de forma intensa, mas também recheá-la com novos significados, redescobrindo-a.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Natural, mineiros que somos, que fiquemos, quase todos, maravilhados diante da beleza inigualável do mar e do calor das praias e das cidades litorâneas. É comum, principalmente, em períodos de férias, deslocar-se uma fatia bastante significativa da população do Estado, para as paradisíacas praias que se estendem por todo o litoral brasileiro. A grande peregrinação dos mineiros ocorre no verão. As estradas, vias de acesso ao litoral do Espírito Santo e Bahia, para não se ir mais longe, ficam ininterruptamente entupidas, os acidentes automobilísticos se contam aos montes, resultado não só da imprudência dos motoristas, mas de uma demanda do mercado, com seus carros velocíssimos, e rodovias, completamente entregues aos buracos. É plenamente compreensível, no entanto, o desejo pelo mar, com sua espuma, que nos roça freneticamente os pés, e suas ondas que nos levam ao deleite. Quem não quer estar à beira-mar, curtindo o sol do verão, tomando uma cerveja gelada, ouvindo o quebrar das águas, o canto das sereias, e o rebolado das ninfas, que seminuas, desfilam com suas tatuagens coloridas, os seus piercings, com os cabelos ao sol e ao vento? Mas o que muito me impressiona, é como muitos destes cidadãos, que a cada ano lotam as praias mais próximas e as mais distantes também, morrem sem nunca terem voltado os olhos para o que de tão valioso temos cá guardado pelo imenso coração da antiga Capitania das Minas Gerais. Visitar as serras que se estendem para além da Serra do Cipó, e penetrar pelas pedrarias do Espinhaço, pode ser uma viagem, da qual por mais que a façamos e retornemos, sempre por lá ficará, um pedaço de nós.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Partindo de Belo Horizonte, são muitos os caminhos e roteiros que nos introduzem nos encantos, do que pode ser considerada a única cordilheira do Brasil. A Serra é bastante longa e se estende por mais de 1000 km de extensão, sublevando os territórios de Minas e Bahia, como uma gigantesca flor de pedras, que se levanta com força da Terra, não só proporcionando aos olhos uma imagem inusitada, como se noutro mundo estivéssemos, principalmente para os marinheiros de primeira viagem, tão acostumados aos caminhos do litoral, como nos ofertam com uma infinidade de histórias, que realmente, apenas amplia a nossa condição de viajantes. São muitos os roteiros que nos permitem abordá-la, partindo aqui da região metropolitana. Nossa primeira viagem, dentre outras que virão, tem com destino, Diamantina.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Tem início a viagem. Após um percurso de cerca de 300 km, a cidade se abre, principalmente para os que ainda não a conhecem, como uma alternativa bem desafiadora, como penetrar pelos mistérios do passado, desvendar seus traçados de ruas, com seus becos estreitos, seus imensos casarios, suas pesadas portas e janelas, que tantos segredos guardaram do tempo e dos homens, sentir sua altitude, e o espírito de uma cidade, cravada no meio das pedras. Infelizmente o tempo de que dispunha era bastante exíguo, para explorar sequer uma pequena parte das riquezas que o local oferece. Não foi desta vez que pude conhecer as cachoeiras da Sentinela, do Barão, dos Cristais, da Toca, Batatal, das Fadas, do Telésforo, e também não foi desta vez, que as portas das antigas igrejas dos séculos passados, se abriram para mim. As cachoeiras não puderam ser conhecidas porque o tempo não o permitia, dado o propósito do roteiro já traçado, ambicioso, não só pelo tempo curto, mas também para uma grana contada. Quanto às igrejas, confesso que me senti um pouco frustrado. Antes de seguir viagem fiz uma lista com muitas delas como, Basílica do Sagrado Coração de Jesus, Igreja Matriz de Sant'Ana, Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, Igreja de Nossa Senhora das Mercês, Igreja de Nossa Senhora do Amparo, Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Igreja de Nosso Senhor do Bonfim dos Militares, Igreja de São Francisco de Assis, Matriz Metropolitana de Santo Antônio. Tinha como objetivo conhecer algumas delas, mas encontrei abertas apenas as portas desta última, que fica no centro da cidade, em frente à antiga morada do inconfidente Padre Rolim, hoje Museu do Diamante, sobre o qual se falará à frente, e a Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. A primeira, uma igreja imponente, teve sua construção concluída em 1932, já a segunda, como a maioria delas, data do século XVIII. O interior desta Igreja é realmente de encher os olhos. Todos os cantos do templo dão uma demonstração inequívoca da riqueza e prosperidade da época. Belíssima pintura de teto, trabalhos em talha dourada, esculturas magníficas, quadros, o corpo de Cristo sobre o altar-mor, uma arquitetura plenamente voltada ao sagrado, criam um ambiente em que os fiéis possam sentir não apenas todo o peso da onipresença de Deus, como também o luxo e a faustuosidade que os diamantes proporcionaram, o poder e grandeza, dos quais puderam usufruir alguns poucos homens. Nos fundos, um pequeno cemitério, edificado nas paredes, repletas de gavetas. Gavetas que certamente, guardam os restos, se é que ainda existem, daqueles privilegiados, que puderam comprar um território supostamente eterno, onde pudessem estar infinitamente sob a proteção dos anjos, santos e da casa do Pai. O nome dos mortos gravados nas pedras, nos mármores, são manifestações explícitas do desejo humano de se perpetuar. Os nomes lá estão, praticamente intocáveis, acompanhados das datas de nascimento e morte, com as cinzas do tempo, desafiando a brancura do mármore. São mortos antigos, e o que mais terá restado deles, além dos nomes que lemos?Infelizmente, não pude permanecer tempo suficiente na cidade para descobri-lo. Mas o que desperta mesmo a atenção nesta igreja, provavelmente até mesmo a dos mais desatentos, é a localização da torre sineira, na parte posterior, fenômeno bem original e inusitado. A explicação para o feito possui versões variadas. Uns afirmam, que por ter sido edificada a mando de Chica da Silva, ordenou que assim fosse feito, em função de uma lei que vigorava na época, que negava aos negros irem para “além das torres”. Outros dizem que assim o fez, para que o barulho dos sinos não a perturbasse, pois sua residência era bem próxima do templo. Sendo uma coisa ou outra, o que impressiona mesmo é o poder que tinha esta mulher, não só entre os homens, mas também entre as coisas da fé. Lendo depois sobre esta igreja, uma curiosidade, acaba por fazer obrigatório o retorno a ela um dia. Dizem que José Soares de Araújo, pintor do forro de teto da capela, por não ter recebido o valor combinado pela Irmandade, para a realização do trabalho, acabou por acrescentar à obra desenhos dos irmãos, com cara de ratos. Que falta faz um guia nestas ocasiões.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Um local que certamente muito impressiona todos que por lá passam, é o famoso caminho dos escravos. Na verdade, em Minas, são muitos os caminhos dos escravos. A Capitania se encheu deles quando de suas entranhas e rios, aflorava o tão cobiçado metal, que tantas mortes fez, e tanto poder construiu - o ouro. Eram os escravos, quem com suas foices e enxadas, abriam o caminho na mata, entre as serras, cortando rios, para que a riqueza pudesse circular. Foram os seus caminhos que permitiram a tão disputada corrida do ouro, pois sem os seus mortíferos esforços, como as nobrezas, os agentes da Coroa, poderiam entrar, como as pedras preciosas, ouro e os diamantes poderiam sair? De certo modo, podemos compreender que sem o seu sacrifício, dificilmente o denominado século do ouro poderia ter tanto esplendor. Hoje, no Estado, os caminhos abertos por eles, são ironicamente chamados de Estradas Reais, e apesar de servirem de fato, à época, aos interesses da Coroa, do Rei, possuem, ainda hoje, força, imortalidade e exuberância, provenientes talvez do sangue ao longo delas derramado e do sal e suor, que durante anos e anos, foi se escorrendo caudalosamente dos corpos doloridos e sendo depositados nos veios da terra devassados. Neste sentido, é muito ilustrativa a visita ao caminho dos escravos, em Diamantina, talvez o mais conhecido deles em toda a região. Trata-se de uma estrada enorme, comprida, larga e espessa, que ligava à época, Diamantina a Mendanha, toda feita de pedras, meticulosamente encaixadas umas nas outras, pelas mãos dos escravos, e fincadas numa terra inóspita em meio às montanhas. Uma estrada que mostra aos olhos mais atentos, como foi dado também aos homens, o dom de operar milagres, claro, que não daqueles que se executam com preces, orações ou rituais mágicos, mas como fruto de um trabalho árduo, exaustivo, duríssimo, e sem o recurso da parafernália técnica e das sofisticadas máquinas que temos hoje à nossa disposição quando dos grandes trabalhos de construção. Deviam as autoridades, colocar um anúncio bem à entrada da cidade “Visitem os museus, os monumentos, as igrejas, as obras de arte, mas em hipótese alguma, deixem de conhecer o caminho dos escravos”. Porque ali, naquela estrada toda feita de pedra, e com certeza, muito sangue e suor, não há como não sentir a história pulsar, pois no silêncio do tempo, o vento das montanhas parece trazer os gemidos dos pobres, que enterraram suas vidas, entre as pedras de um caminho, que talvez, sequer soubessem, onde ia dar. A marca do choro nas pedras, parece a todo o momento, em choro, querer outra vez se transformar. Todos que vão à Diamantina, deveriam ir ao local. A visita deveria ser obrigatória, incluída nos currículo de todas as instituições de ensino. Não há lição melhor não só da história local, como da história do mundo. Aqui se percebe e se sente talvez o que já se saiba, mas ainda não tanto. Poderia se dizer, que também nas igrejas monumentais, se vê muito do seu suplício, o que é correto, mas ali, a impressão que se tem é que a obra de Deus ofusca um pouco a obra dos homens. Ante o esplendor das construções e as sombras e luzes divinas, o esforço humano parece ser nada. Enquanto na estrada, os blocos de pedras são menores, interpostos uns sobre os outros, numa grande teia de rochas, com argamassa humana e incrustada no chão, os templos são construções para o alto, edificações, com gigantescos blocos de pedras, empilhados, montados a dar a dimensão dos céus e a grandeza de Deus. Se quiser sentir mais de perto, o quanto pôde ser dura a vida destas pobres bestas humanas, o caminho, além de caminho, é parada obrigatória, pois ali, mais que em qualquer outro lugar, a história parece não querer se tornar o passado. Os espíritos dos mortos parecem querer dialogar. Ao suspirarmos, ficamos à dúvida, se o fizemos nós mesmos, ou se um sussurro do tempo veio a nos contar um segredo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os lugares por onde passamos, passam a viver e existir também dentro de nós, mesmo que lá já não mais estejamos. Vão se constituindo em memória e como pequenas pedras de um intrincado mosaico vão formando a imagem reveladora que temos do mundo, e a imagem que temos de nós mesmos. Nunca mais seremos o que fomos, quando uma nova paisagem for descortinada, quando uma nova história for contada ou descoberta. A humanidade vai fazendo das coisas o que são, e vamos sendo quem somos, a partir do que as coisas e os lugares vão fazendo de nós. Assim é cada viagem, assim é cada canto do mundo, quando olhado de frente, à olho nu. Os lugares vão deixando suas impressões, impressionando-nos. É interessante o relato sobre a viagem feita, pois, em última instância, é uma forma de refazê-la, retê-la. Uma maneira de estarmos não-estando, voltar pelos mesmos caminhos, porém com novas possibilidades, o caminho pode então, ser visto do alto, pois visto agora à certa distância, a partir da visão do conjunto que na mente se formou, que não tínhamos quando da primeira vez. O relato acaba por abrir pois, novos caminhos nas fronteiras do nosso entendimento. Claro que nos esquecemos de muito do que se viu, mas também resignificamos o que há muito já poderia ter se esquecido. Arrisco-me a afirmar que os caminhos são não apenas as pedras e o pó que a terra levanta, as cercas esticadas, as matas rasgadas por trilhas, as indicações, as curvas, os buracos e o barro, mas são antes de tudo, o que buscamos por eles. Os caminhos que fazemos acabam por fazer a nós e, geralmente, não tem fim. Quando imaginamos que mais não há, sempre uma trilha escondida reaparece por sob os pés, uma nova direção ou sentido, sempre havendo algum novo lugar para se chegar. Por mais que andemos, nunca andamos tudo, e a Terra parece, nunca terminar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas o passeio desta vez não é longo, três dias apenas, e ainda temos o que andar. Infelizmente, como já foi lamentado acima, o tempo é bem curto em relação ao que se tem por ver. E muita coisa, descobertas que não fizemos, ficará para trás, sem que possamos dimensionar a riqueza que se deixou de conhecer. Sim, em toda viagem, a gente sempre ganha pelo que então se descobriu, e também sempre se perde, por ter deixado irremediavelmente para o campo das nossas ignorâncias, o que de muito importante se colocou pelo nosso caminho, e acabamos, por desviar-nos dele, por nossos próprios passos, passando tão perto. Nunca dá mesmo para se conhecer tudo. Deixemos de lamentos, pois o que se pretende é um relato do que foi visto e sentido, e não do que se furtou ao olhar. Sensação bem peculiar é a que nos é proporcionada pela bela obra arquitetônica do século XIX, o passadiço da Glória, que liga, os dois prédios da Casa da Glória, antigo educandário e orfanato, por sobre a rua, a partir do primeiro andar. Era por onde passavam as internas. Pelo que se conta, o passadiço servia não apenas como meio de facilitar a comunicação entre os prédios, mas também para proteger as moças, dos rapazes que pela rua passassem. Para evitar que pudessem seduzi-las, ou que por elas, fossem seduzidos. Certamente havia suspiros entre os jovens que do passadiço se aproximassem, sejam os rapazes, que vislumbravam as grandes portas e fechaduras de seus possíveis grandes tesouros guardados, a imaginar sabe-se lá o que, ao passar exatamente por baixo, do passadiço onde as virgens, estivessem a sobrevoar como anjos suas cabeças, seja entre as moças, que lá do alto, podiam contemplar sem serem contempladas, e escolher um dos que por baixo de si passasse, para que pudesse ser seu homem, num futuro próximo, ou possuí-la em seus íntimos e guardados pensamentos e delírios noturnos. Sim, havia suspiros pelo passadiço da Glória. Serão os passadiços elevados condenados aos suspiros? O estilo arquitetônico se inspirou na chamada Ponte dos Suspiros, construída na Veneza do século XVII. A ponte tem este nome, porque também ela, tem uma história de suspiros. O nome se deve ao fato da ponte fazer a passagem e ligação entre o antigo Palácio de Governo e a Prisão. Segundo a lenda, os presos ao passarem de um prédio ao outro, dirigindo-se ao cárcere, tinham na ponte sua provável última visão do mundo externo, daí o suspiro. No nosso passadiço, o suspiro que se fez predominar, foi certamente, o suspiro das moças e rapazes, que ardendo-se uns para os outros, não tinham sequer como tocarem-se. Já a ponte deles, testemunha os suspiros de dor e sofrimento, ante a última visão do mundo, que acabou de se perder, que acabou por tornar-se, portanto, intocável. São passagens elevadas, que arquitetonicamente, facilitam o contato, a comunicação, o intercâmbio, mas que na realidade, na sua aplicação prática, ante os métodos da concepção humana, são clausura, encerramento, confinamento e prisão. A genialidade humana parece se manifestar não apenas em sua capacidade de inventar e criar coisas, mas também em sua insistência em sempre querer subvertê-las. A travessia do passadiço foi uma experiência única.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No coração do centro histórico da cidade, faz-se visita obrigatória, o Museu do Diamante, funcionando na casa que pertenceu ao Inconfidente Padre Rolim, considerado um dos mais ricos ativistas do movimento conspiratório. O movimento da Inconfidência é um símbolo da mineiridade, transformando os mineiros em sujeitos da história nacional, proporcionando orgulho em serem os mineiros que são, e aproximando nossas peculiaridades humanas às sagas dos heróis. Mas infelizmente, uma leitura mais cuidadosa dos motivos que de fato levaram nossos ícones rebeldes ao rompimento com a Coroa, reduz um pouco a grandeza do ato. Na maioria dos casos, homens da elite, beneficiários da estrutura escravista, grandes proprietários, viam na autonomia do Estado, não uma forma de construir uma nação nova, com distribuição de riquezas e trabalho livre, mas a possibilidade da construção de um sistema político, onde pudessem tratar diretamente de seus interesses privados mais imediatos, sem a ingerência dos agentes da metrópole. Vê-se que a concepção de liberdade, que tinham nossos inconfidentes, era bem limitada. Na verdade, a Inconfidência, foi um grande movimento ou fato, que de fato, não chegou a acontecer. Os agentes do governo se adiantaram aos rebeldes e estrangularam o movimento. Defendem os historiadores, que o movimento ocorrido na Bahia, pela mesma época, com o mesmo desfecho, a derrota, conhecido com Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, foi um movimento de caráter mais popular, com participação social mais ampla, e com referências à questão da propriedade da terra e o fim da escravidão. Cabeças rolaram por lá também. Enquanto por aqui apenas Tiradentes foi morto, enforcado, na Bahia, alguns anos depois, foram cinco os condenados. Um deles escapou da execução, pois conseguiu fugir e nunca mais foi localizado. Enquanto partes do corpo de Tiradentes, esquartejado, foi fincado em diversas cidades por onde fazia sua propaganda subversiva, as cabeças dos baianos ficaram expostas pelo centro de Salvador por cinco dias, para o terror da população, que teria à prova a inclemência da Coroa com os seus súditos infiéis. Mas não estamos aqui a tratar de uma narrativa histórica, mas apenas de um rápido passeio a que me permiti fazer aqui pelas franjas da serra do Espinhaço, tendo como porta de entrada, Diamantina. Para os padrões nacionais podemos dizer que o Museu dos Diamantes é um grande museu, e maior ainda acabou por ficar, com a entusiasmada orientação de uma guia, que demonstra uma grande satisfação ao contar para os turistas admirados a história da sua terra. Bom são os guias quando nos fazem imaginar que ao dialogarmos com eles, dialogamos diretamente com o passado e a história. Existem guias que podem tornar uma visita a um museu, uma viagem grandiosa e inesquecível. Felizes de nós. No prédio, vemos equipamentos ligados à extração diamantífera, diamantes, balanças, artigos religiosos, armas, correntes para escravos, instrumentos de tortura, mobiliário, máquinas de escrever, privadas, ferros de passar, dentre outros. O que sempre impressiona são os ferros que aprisionavam e torturavam escravos, é como se o sofrimento, as dores, os cortes, o sangue, o suor, que eles haviam causado, os deixassem impregnados de alguma humanidade. Os objetos desta sala, talvez sejam os que mais falem por si mesmos, dentre todos os outros espalhados pelo museu. É a sala onde talvez menos se façam necessárias as palavras, para que se compreenda o que cada uma daquelas peças possa significar. A liteira exposta no maior salão do museu, já bem danificada, nos permite vislumbrar não apenas a suntuosidade em que viviam os que tinham capital e poder, mas a condição mesma em que um ser humano pode literalmente se transformar em um verdadeiro “burro de carga”. As privadas de madeira e gavetões que serviam para o alívio dos proprietários da casa, certamente, aumentavam as condições degradantes de trabalho de quem do ofício deveria cuidar, e transformavam as cidades da época, em centro urbanos não muito aromáticos. O museu é uma ilustração quase viva do que foi Diamantina há alguns poucos séculos atrás.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Como a intenção era conhecer a maior quantidade de coisas e lugares em um tempo sempre próximo do fim, não poderia sair da cidade, sem antes conhecer a curiosa Biribiri. A estrada para o lugarejo é bem diferente de todas as outras estradas que já tive a oportunidade de conhecer. A impressão que temos é de viajar por vários quilômetros sobre uma enorme pedra. O ambiente é árido, a poeira da estrada é branca e o chão repleto de cascalhos. As pedras, de todos os tamanhos, vão se prostrando à nossa frente, por todos os lados, com as mais variadas formações, como que para se afirmarem diante de nós, e mostrarmo-nos que ali são elas quem imperam. Vez ou outra, ouvimos o ruídos das águas e o corpo do córrego se põe à vista. A água é cristalina, e em alguns pontos da estrada, corre bem apressada, perfurando as pedras e oferecendo aos olhos um belo espetáculo. É aparentemente limpa e gelada, principalmente por estarmos no inverno. Neste dia o acesso à Cachoeira dos Cristais estava vedado e uma grossa corrente fechava a passagem. Segundo, pude saber posteriormente, a interdição se deu em função de ataques de ladrões que vinham assaltando os carros dos visitantes. Por mais que já tenhamos visto fotografias de Biribiri, a chegada ao local é uma surpresa. Na chegada, a estrada parece tornar-se mais íngreme e estreita, e a sensação que temos é que um descuido no volante ou um problema técnico qualquer, pode derrubar o automóvel pela serra abaixo. Os que têm medo de altura ou ainda não aprenderam bem a arte de dirigir devem evitar assumir a condução de seus veículos quando estiverem viajando pelas serranias do Espinhaço. Não imagino o que poderia ocorrer a uma estrada destas em períodos de chuva. Mas enfim, o pequeno povoado aparece. Parece uma cidade fantasma, não fossem as reformas pelas quais estava passando para transformar-se em cenário de um novo filme nacional, que irá contar a história de um matador que viveu pela região há muitos anos. O filme, segundo um morador, terá a participação de José Wilker e as filmagens teriam início uns dois meses apenas após a minha visita. O lugarejo foi construído em fins do século XIX para abrigar uma fábrica têxtil e seus operários, viriam a constituir uma das primeiras comunidades fabris do Estado. Sob o controle da Arquidiocese de Diamantina, entre 1876 e 1921, a partir de então, passou para a mão de particulares. O lugar floresceu até o fechamento da fábrica em 1973, e acabou eclipsando-se. Junto com a fábrica, os moradores também se retiraram. O acesso difícil e as longas distâncias dos centros consumidores de seus produtos tornaram o local economicamente inviável. Ao chegarmos, uma placa nos avisa que ingressamos em território privado, o que à primeira vista, soa-nos estranho, por não estarmos acostumados a passarmos por cidades cercadas. A igreja parece ter sido levantada pela iniciativa das operárias que ali viviam e trabalhavam e resiste à ação do tempo. As casas dos antigos moradores hoje são alugadas para os turistas que querem não só o acesso às suas belas águas, mas que pretendem mergulhar no passado, instalando-se num local cuja estrutura física manteve-se aparentemente intocável. Desenvolveu-se, floresceu, depois parece ter perdido a razão de ser, como se vítima de uma morte lenta e inevitável. As casas alugadas possuem certo aspecto de abandono. Ouvi de um morador da região, que o lugarejo estava à venda. Quanto valeria um local como este? Quem o compraria e que destino teria? A conservação e administração de tão rico patrimônio histórico não deveriam estar sob o controle do Estado? A visita a Biribiri, na verdade, trouxe mais perguntas do que respostas e ficamos a imaginar, se nós, simples mortais, teremos ainda acesso a este patrimônio quando ele estiver nas mãos de algum bilionário qualquer. Uma outra questão fica por se saber. Será a denominação do local uma referência à frutinha de mesmo nome? Biribiri, uma frutinha azeda, parente da carambola, da qual pode se fazer suco, doces, picles, temperar carne, tem uma característica interessante e curiosa, suas folhas se abrem ao nascer do sol e fecham-se à noite, para dormir. Como o lugar, que tem hoje suas folhas fechadas, adormece, após o encerramento de suas atividades econômicas, enquanto não chegam os atores, ou não vem os turistas, que não sabemos se poderão despertá-la de um sono que parece eterno. Despeço-me com a esperança de poder voltar um dia, para poder conhecer o que não pode ser visto nestas poucas e rápidas horas em que pude estar por ali. Há lugares que nos obrigam ao retorno. É como se um segredo que tivesse muita necessidade de se revelar não quisesse perder a oportunidade de ter para quem se mostrar, e nós, em nossa pressa humana, insistimos em partir, virando-lhe as costas. Ficamos, às vezes, inconscientemente, com uma dívida com o local, que não pôde se revelar de todo para o viajante apressado. Um dia, terá que se retornar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-1783682512422049330?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/1783682512422049330/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=1783682512422049330' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/1783682512422049330'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/1783682512422049330'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/09/breve-viagem-diamantina.html' title='Breve viagem à Diamantina.'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SrFriIMIsoI/AAAAAAAAAcM/PaWTVbpmQ3o/s72-c/Diamantina-photo2010-5.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-8300788276769270519</id><published>2009-07-10T16:27:00.000-07:00</published><updated>2009-07-10T16:44:24.857-07:00</updated><title type='text'>Drama da consciência</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SlfPdW30c-I/AAAAAAAAAZw/gBunZpP47hI/s1600-h/espelho.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5356978385043354594" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 234px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SlfPdW30c-I/AAAAAAAAAZw/gBunZpP47hI/s320/espelho.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Drama da consciência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ambulância para em frente ao grande portão de ferro e reduz a luz dos faróis. Um guarda, de prontidão, retira uma pesada chave da cintura, e abre rapidamente os cadeados. O portão se abre. O carro avança pela rampa de acesso, e as luzes de emergência se apagam. Assim que estaciona, surgem pelo portão principal dois musculosos enfermeiros, que se dirigem imediatamente a recepcionar o doente. Ao abrirem o veículo, dois olhos enormes saltam sobre eles, e os fita profundamente. Num primeiro momento, desconcertam-se um pouco, os profissionais. Mas como não era ocasião de se perder tempo, retiram o paciente, que estava transtornado, nitidamente alucinado, do interior do veículo. Perguntaram os enfermeiros pelos recônditos de suas consciências e memórias se já tinham cruzado com um olhar assim. Mesmo nunca tendo visto aquele homem antes, era óbvio que estava desfigurado. Que mal levaria consigo? Parecia ter saído de um momento de fúria. Estava amarrado. Dois vizinhos e um parente distante ajudaram a segurá-lo. Naquele momento, encontrava-se aparentemente sob controle, e já um pouco sedado, pelos fortes medicamentos que lhe foram aplicados pelo caminho. Tinha a face dura. Não havia expressão, além do aspecto, de quem, teve que reter suas forças, por forças maiores o segurarem, sejam os que vinham pelo interior da ambulância, seja pela segurança, que o recepcionava na chegada. O corpo estava sob domínio, mas parecia carregar um sujeito sem alma. Os olhos estavam fixos, talvez, em coisa alguma. Pareciam mirar o nada, que carregava por dentro, como se mais não fosse, que um infinito universo vazio, uma grande noite de silêncios e sem estrelas. As mãos estavam trêmulas e a boca ressecada. Não havia pronunciado palavra alguma. Mantinha-se amarrado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Enquanto os acompanhantes davam a entrada em alguns papéis, é levado para a ala que passaria a ocupar. Vai andando. Não olha para os lados. Segue pelo imenso corredor, que não parece correr por seus olhos. É certo que não o vê. Mas anda como se os passos já conhecessem o destino, vai em linha reta, observado, sem observar, não vê os outros internos, com os quais cruza pelo caminho. Ficará no quarto no final do corredor, pois mesmo entre os demais doentes, poderia despertar atenções e curiosidades, pois de fato, se trata de alguém diferente. Ainda não se sabe o que está a ocorrer. Um caso atípico, talvez.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Dois médicos avaliam o doente, que está inerte. Tem os olhos voltados para cima, não dorme, mas também não parece estar acordado. Não emite som algum. O coração bate forte. Os cabelos estão desfeitos. Não reage às tentativas de diálogo. Os médicos, ainda sem um diagnóstico preciso, um pouco desorientados, acham mais conveniente, deixá-lo amarrado. Aplicam mais uma dose de remédios, observam mais um pouco, e em seguida, dada a urgência de outros atendimentos, abandonam-no a sós, no quarto. Ao saírem, o homem se mexe. Parece dotado de uma força que surpreenderia, se alguém estivesse a observar. Num único gesto, desvincula-se das espessas cordas que atavam seus braços e mãos, como se fossem finos barbantes, e tenta se levantar. Neste momento, é tomado de um pânico violentamente incontrolável. E naquele hospital, solta as primeiras palavras, que saem engasgadas. Você de novo? O que fazes por aqui? Por que não me abandonas de vez, ó tormento? Não posso mais, responde o espectro que se acomodava por sobre a mesinha ao lado do banheiro. O doente sente todo o corpo arrepiar. Terei que acompanhá-lo, agora para sempre. Chame-me sua consciência. Sou companheira antiga, e resolvi firmar-me de vez, em ti, por passares tanto tempo sem notar minha permanente presença. Tens longas dívidas comigo. Não pretendo deixá-lo. O doente é tomado de um pânico total, desta vez, tenta gritar, pedir um último socorro, mas não consegue, o grito é sufocado na garganta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O que queres, suplica o doente. Como consciência que sou, não posso deixá-lo em grandes dívidas, principalmente, com o maior credor que tens, que sou eu própria. Afinal, já estás na idade, de me dares algumas respostas. Quanto às perguntas, como agora bem sabes, tenho-as de sobra, tanto as que se referem aos casos pequenos, quantos às referentes aos de maior gravidade. Por que nunca atendeu aos meus apelos? Uma vida inteira. São tantos anos. Lembra-se quando corroia-se de invejas? Esperneei-me, supliquei, sacudi, gritei aos ouvidos e nada. Quando se envolveu em golpes e mentiras, fiz de mim fortaleza, para poder te segurar. Nunca consegui lhe conter. Quando esfolou, trapaceou, quase me dei por morta, mas consegui soerguer. Puxei-lhe pelos braços, agarrei os seus cabelos, e de nada adiantou. Deve-me respostas. Sabia que um dia, nos veríamos de frente. O doente suava por todos os poros, a mão tremia e os cabelos, assim como o lençol da cama, estavam ensopados. Inquietava-se irremediavelmente. As pernas, no entanto, mantinham-se amarradas. O visitante, que grande incômodo lhe trazia, sentia-se à vontade, esticava-se sobre a mesa, sorria confortavelmente, e punha-se a falar. Falava, falava, compulsivamente, como se um mundo de palavras e intenções, estivesse condenado a libertar. Sentindo o estado de choque do paciente, a consciência, resolve então, se aproximar. Desce da mesinha e encosta-se à cama.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Algumas horas depois, um alvoroço percorre o hospital. Os médicos, todos eles, são chamados às pressas pela direção da instituição. Todos, sem exceção, os que se encontrassem no horário de repouso e os que estivessem em meio a algum atendimento, deveriam atender à emergência do chamado. Luzes insistentes piscavam, e uma eufórica correria se espalhou pelos longos corredores. Em pouco tempo, o quarto do paciente estava repleto de todos os tipos de médicos, enfermeiros, técnicos de equipamentos, especialistas de toda ordem, a burocracia, representantes do governo e autoridades policiais. Todos perplexos. Olhavam-se, uns para os outros, sem palavras com as quais pudessem se expressar. Seria um dia inesquecível para a medicina. No dia seguinte, estaria estampado nos jornais, o doente havia morrido, incrivelmente estrangulado pelas próprias mãos. Dizem que perdera a consciência de si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-8300788276769270519?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/8300788276769270519/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=8300788276769270519' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/8300788276769270519'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/8300788276769270519'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/07/drama-da-consciencia.html' title='Drama da consciência'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SlfPdW30c-I/AAAAAAAAAZw/gBunZpP47hI/s72-c/espelho.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-119301143858260402</id><published>2009-06-28T14:49:00.000-07:00</published><updated>2009-07-10T16:47:37.503-07:00</updated><title type='text'>O Rei e os ratos</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Skfvd9ldtQI/AAAAAAAAAZo/HQl8_CUBM-Y/s1600-h/untitled.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5352509980180067586" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 314px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Skfvd9ldtQI/AAAAAAAAAZo/HQl8_CUBM-Y/s320/untitled.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Rei e os ratos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já há muitos anos que era senhor absoluto por aquelas terras. Na verdade, o poder que acumulava, não o fez apenas em uma vida ou geração, é poder que vinha de muito tempo, pois a família tem sangue real, e em função da precariedade do serviço de registros, não se sabe dizer ao certo, há quanto tempo dominaram por ali. O reino era bem vasto, resultado de uma política expansionista agressiva, levada a cabo por várias gerações de antepassados, e sob seu comando, atingiu o seu limite máximo, nunca fora tão amplas suas fronteiras. Dominava não só a região das montanhas, os planaltos, mas também a região dos lagos, as planícies, os vales e as praias. Os domínios estendiam-se por desertos e florestas. As insígnias do poder real espalhavam-se por todos os cantos, para que o rei pudesse estar em todos os lugares, onipresente, a fiscalizar a todos, a ditar-lhes as ordens, a ameaçá-los, pois de ameaças e arrogâncias também se faz o poder. Não havia muro, construções, monumentos, templos, prédios, que não trouxessem pendurados ou gravados os símbolos do Estado, da nação. Era preciso sempre lembrar aos homens, aos povos, quem de fato, exerce o domínio e o poder sobre eles. Era necessário também espalhar o medo, pois sem ele, dificilmente, reinados, impérios sobreviveriam ao longo dos tempos. A demonstração de força é recurso fundamental dos que desejam manter entre as mãos, o cetro, e sobre os ombros, o manto real. Não há realeza que sobreviva, ante súditos destemidos. Vez ou outra, punições exemplares, públicas, geralmente em praças, em centros religiosos, para que possam também as execuções, serem atos de fé, consagrações. Os impérios se edificam não apenas sobre leis e fortalezas, pedras e pontes, mas também sobre o sangue dos homens.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele era particularmente impiedoso. Gostava, na maioria das vezes, de participar diretamente dos rituais de execução. Não se sabe ao certo, o porquê do gosto especial que sentia em fazê-lo, mas era algo que há muito o fascinava. Talvez, fosse mesmo o momento em que mais poderoso se sentia. Afinal, era ali, mais que em qualquer outra ocasião, que se manifestava e se comprovava seu poder absoluto, pois podia trazer à morte, quem desejasse, no momento em que melhor lhe conviesse. Não era ele quem dava o golpe final, mas fazia sempre questão, de entregar, pessoalmente, o machado ao carrasco. São ritos, que sempre considerou necessários, para que pudesse tornar-se e manter-se especial e temível diante dos olhos de seus súditos. Quando jovem, fez vigorar por alguns anos, uma lei que condenava ao degredo ou à morte, quem ousasse sobre sua sombra pisar. Gostava sempre de manter-se à distância dos outros seres supostamente inferiores, mortais, não que dispensasse os bajuladores, mas é que no fundo, sentia-se um deus, o qual de fato não poderia ser, se muito próximo aos homens estivesse.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O excesso de vaidade condenava-o a alguns vícios. Geralmente, não usava a mesma roupa mais de uma vez, o que não era o problema, uma vez que possuía inúmeras costureiras e criadas à sua disposição. Mais difícil às vezes, o que sempre custava algumas vidas, era conseguir as matérias-primas, pois muitas de suas vestimentas preferidas eram costuradas com peças, tecidos, pedrarias, jóias, vindas de terras muito distantes e de difícil acesso. Fazia questão de perfurmar-se como ninguém. Havia uma grande perfumaria no palácio, onde montou uma considerável equipe de especialistas provenientes das mais diversas regiões do mundo, até então conhecido. Semanalmente banhava-se com ervas, flores, perfumes, para que a ninguém mais fosse proporcionada a graça dos mais finos aromas e cheiros. Usava pomadas, ungüentos, cremes, que retardavam o envelhecimento e proporcionavam uma pele suave, como só os reis, príncipes e princesas, podiam usufruir. As roupas eram costuradas com fios de ouro. A coroa era mais bela e rica que de todos os outros ancestrais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazia questão que as ruas e os caminhos por onde passasse, fossem todos exaustivamente varridos, mais pelo ritual que lhe proporcionaria pela passagem, com centenas de homens e mulheres envolvidos na varrição, quando ia por longas caminhadas, que por uma mania ou obsessão pela limpeza. Não gostava de animais em casa e fazia questão que os tapetes fossem sempre trocados. Mas algo o irritava profundamente. Ver ratos atravessando os cômodos e dependências do palácio. Nunca o admitia, o que a propósito, foi um sentimento que herdou das gerações anteriores, pois recorda-se que já seu avô, possuía verdadeiro horror aos roedores, e sempre mandava seus criados persegui-los e elimina-los. Tarefa que hoje se sabe inglória, que por mais que se persigam os murídeos, eles estão sempre ainda, a cruzar-lhe os caminhos. Em quase todos os lugares. Já os encontrou em vários cômodos, pelos corredores e até pelos grandes jardins. Se já é assim pelas entranhas do palácio, imagine quando vai o rei visitar as regiões mais distantes e pobres do seu crescente império. Essa presença animal deixa-o intrigado. Se já subjugou tantos povos, eliminou tantas aldeias e povoados, venceu tantas guerras e batalhas, por que sua dinastia não foi capaz enfim, de eliminar os malditos ratos? Que tem esses animaizinhos que resistem aos tempos, aos exércitos e às escaramuças? Com eles, não podem as armas, os venenos, as orações, as mudanças de hábito, a força, e parecem não poderem os deuses. Vem atravessando as gerações de homens, súditos e reis, invencíveis.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Muito o incomodava saber, que a rigor, os ratos, dominavam já estas regiões, muitos anos que os seus mais antigos antepassados, pois pertencem a uma estirpe animal que já somam dezenas de milhões de anos, desde a pré-história dos tempos. São mesmo antiqüíssimos estes roedores que são aparentemente insaciáveis. Uma eternidade a roer. Vem há milhões e milhões de anos no encalço dos homens, afinal, a humanidade, sempre proporcionou a eles uma grande possibilidade de sobrevivência, com seus mortos insepultos, seus lixos individuais e coletivos, sobras, restos, esgotos, sujeiras de todos os tipos. Muito do que não é bom para os homens é banquete para eles. Afinal, um sistema olfativo privilegiado deu condições a eles, não só de escolher o que lhe é ainda saudável entre o que perdido está, como ainda lhe proporcionar a possibilidade de escolhas, entre variadas preferências, e cardápios de todos os tipos. Além do mais, tem os roedores uma invejável capacidade de adaptação aos mais diversos ambientes ou condições de vida, permitindo-lhes sobreviver, em muitas situações, onde os homens, certamente morreriam.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os grandes prejuízos que já tinham causado ao reino, desde um tempo, de que já não mais se tem lembrança, foram transmitindo, a todos que o trono ocupasse, ou próximo dele estivesse, uma aversão muito grande à sua presença. Perdas de colheitas, ataques aos depósitos de alimentos, silos, doenças e pestes, sempre fizeram dos ratos, ratazanas e camundongos alvos preferências das políticas de governo no reino. Seus antepassados fizeram todos os tipos de tentativas, todas fracassadas no longo prazo. Tipos imagináveis e inimagináveis de engenhocas foram criadas por inúmeros inventores que de todas as partes afluíam, incentivadas pelo rei e por seus funcionários. Quase de tudo se tentou, os danados sumiam, às vezes, até por um tempo, mas retornavam depois, aos milhares, subitamente, a zombar dos inventos humanos e a desafiar o poder sagrado dos soberanos. Talvez, fosse mais por isso, do que por qualquer outro motivo, que o rei havia herdado uma obsessão praticamente genética, hereditária, em querer eliminá-los. Mais que uma necessidade de fato, era uma questão de honra. Um desejo de vingança que pudesse redimir os espíritos de seus ancestrais.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando à distância, o rei gostava de observá-los. Era um exercício. Fica sempre a imaginar, como podiam ser tão poderosos e resistentes. Não cediam. Eram como os homens, extremamente territoriais. Sobreviveram através da conquista de territórios, que apesar de dentro dos limites do reino, fugiam ao controle dos governos. As profundezas, os subterrâneos, as frinchas dos telhados, os buracos imperceptíveis, as entranhas, os cantos, às escuras. Além do mais, se reproduzem em proporções geométricas, e parecem ainda não dominar o mundo, pois não venceram de todo, a cruzada eterna, que se abateu sobre eles. Sim. Não podia haver esmorecimento. A impressão que tinha era que a antiga peleja que sempre tiveram que travar contra eles, era condição fundamental da sobrevivência de seu poderio. Sem o ataque sistemático ao inimigo comum, dos povos e dos reis, talvez ao grande reino não houvesse sobrado, nem mesmo os escombros, não só pela ação destruidora dos roedores, mas pelo que a luta contra os pequenos mamíferos não humanos, pode gerar entre os que humanos são - um sentimento de identidade, além dos ressentimentos de classe. A guerra aos roedores servia, pois, como estímulo ao espírito patriótico, fortalecia o rei e ajudava a manter uma relativa ordem e paz social.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Como rei que era, não podia se descuidar deles, e subitamente, uma idéia lhe veio à mente. Ao invés de enviar equipes profissionais, técnicos, burocratas pelo território, a caça dos inimigos, por que não envolver cada súdito, a população inteira, numa guerra, que afinal beneficiaria supostamente a todos? Sim. A idéia o estimulava. Seus olhos brilhavam. Quem sabe inventasse um método próprio, que mais sucesso tivesse que todas as tentativas anteriores. Além de rei que é, poderia ainda no futuro, quando neste mundo não mais estivesse, virar respeitável divindade, por haver dobrado fatalmente o inimigo, que a todos sempre dobrou. Por que não havia pensado nisto antes? Os traços de seu rosto desenhavam linhas de satisfação e um sorriso rejuvenescedor agarrava-se aos cantos da boca. Os olhos estavam fulminantes. Por duas vezes, passou a mão pela testa, para certificar-se se um suor frio lhe escorria pela testa. Por que não havia pensado nisto antes? Claro. Pagar aos homens, a todos quantos puderem, pelos ratos que conseguirem capturar. O reino vive relativa prosperidade econômica e uma vitória como esta, o levará à consagração com que sempre sonhou, conquistar o amor ou o medo dos homens, e um trono cativo pelos reinos do além. Seu rosto se iluminava.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Decretou que a partir da décima lua, uma grande caçada, uma caçada coletiva, que deveria atrair não apenas um voluntário ou outro, mas multidões inteiras, se iniciaria por todas as terras do reino. Cada canto deveria ser devassado, todos os armários de todas as casas seriam abertos, revirados, os telhados seriam vasculhados, os porões iluminados, cada sombra perseguida, cada vulto inspecionado. A grande cruzada aos ratos. O estímulo seria em ouro, afinal não era pouca coisa o que estava em jogo. As famílias apresentariam às repartições oficiais o seu montante em ratos e levariam em troca, proporcionalmente ao peso, uma porção de pó de ouro. Seria a promessa real. As multidões se alvoroçaram. Na verdade, não conheciam o que era o ouro, mas tinham ouvido sempre falar dele. O sonho do enriquecimento rápido mobilizou uma população inteira. Nos litorais, nos desertos, nas montanhas e florestas. No campo, nas aldeias, em todas as partes, crianças, velhos, homens, mulheres, doentes, se armavam de paus, cassetetes, venenos, armadilhas, para capturar o valioso adversário. O espírito da caça nunca seduziu a tantos. Parecia estar próxima do fim a espécie dos ratos, pavimentando à eternidade e à gloria divina a criatividade do rei, que nunca havia se sentido tão genial. Tinha a certeza da vitória, antes mesmo que a grande Cruzada tivesse início.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na véspera do grande dia, uma série de festividades animou o reino. O nome do rei corria de boca em boca. Todos faziam apostas, dançavam, cantavam e bebiam. Havia uma comoção nacional. Estavam felizes e ansiosos. Trocar ratos por ouro era algo em que realmente nunca haviam pensado. Mas seja como for, seria uma oportunidade única, para que a alguns se mudasse o destino. A partir do aparecimento da lua, que naquela noite, estaria a clarear o país inteiro, e viria pela madrugada, começaria a campanha que poria fim a um longo capítulo da história do reino.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O rei recolheu-se aos seus aposentos. Estava feliz como nunca. O coração batia mais forte do que normalmente o fazia. Não conseguia pensar em outra coisa, além da grande guerra que estava por iniciar. Envaidecia-se. Não imaginava o quanto pudesse ser criativo e genial. Sentia-se ansioso, porém. Um ligeiro formigamento percorria por todo seu corpo, como se um sangue novo, divino quem sabe, estivesse a percorrer rapidamente as veias. A sensação que tem é que não é mais o mesmo e que jamais o será. Não se lembra de ter vivido tão grande e satisfatória emoção. Será ele, depois de tantos anos, séculos, a conquistar uma vitória, que sempre pareceu impossível. Fecha a última janela do quarto, mas deixa a porta dos fundos entreaberta, para que a luz da lua, possa adentrar pelo quarto, quando a grande hora chegar. Deita-se. Mas a sensação de formigamento se intensifica e o sono acaba por perder-se. Encosta-se na cabeceira da cama e põe-se a observar uma claridade intensa que começa a despontar por sobre os montes. Nunca havia experimentado nada igual. Sente uma coceira pelo corpo e os olhos ficam um pouco embaçados, quando a luz da lua, que majestosamente se levanta, começa a clarear os objetos e móveis do quarto real. A visão prejudicada incomoda-o um pouco e resolve ir até a janela, mas uma sensação estranha acaba por prendê-lo à cama. Um forte cheiro de urina de rato sobe pelas narinas. Imagina que naquele momento, muitos homens, insones, já tenham saído para a guerra, que se promete vitoriosa, e que os inimigos já sentem a derrota iminente. O cheiro intenso faz o nariz arder e ao coçá-lo, estremece, pois nunca o sentiu tão frio e molhado. Terá apanhado um resfriado justamente numa noite tão importante para si? Resolve então apalpá-lo mais uma vez. Entra em pânico. O nariz, que esfregava, agora violentamente, estava terrivelmente modificado, mais pontiagudo, sentia-o pelo toque. Próximo dele, um grande bigode despontava como jamais imaginou que pudesse aparecer em um homem, quem dirá em um rei. O corpo repentinamente se enche de um pelame grosso e denso. O pânico é total. Ao virar-se abruptamente para o lado uma cauda comprida e fina, embaralha-se por entre as pernas. Ao correr em busca de socorro, percebe o quão grande está a cama, e que duas outras novas pernas o ajudam a se locomover. Não compreende o que ocorreu. A voz não lhe sai, sente as orelhas enormes. Desce pelas pernas da cama e corre apressado, rente ao assoalho. Sorte ter deixado a enorme e pesada porta entreaberta, por onde atravessa. O sol já estava a pino, e a lua, muito branca, transparente, ainda resistia em deixar o céu. Uma criada do palácio, munida de um porrete, como quase todos os súditos do reino, aplica um golpe único e fatal no rato insolente que arrisca-se a andar pelos corredores reais. Naquele dia, os ratos sofreram uma perseguição implacável. Em pouco tempo, haviam desaparecido, e o rei, inexplicavelmente, também.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-119301143858260402?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/119301143858260402/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=119301143858260402' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/119301143858260402'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/119301143858260402'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/06/o-rei-e-os-ratos.html' title='O Rei e os ratos'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Skfvd9ldtQI/AAAAAAAAAZo/HQl8_CUBM-Y/s72-c/untitled.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-9026765668813945114</id><published>2009-06-13T06:54:00.000-07:00</published><updated>2009-06-13T06:58:04.799-07:00</updated><title type='text'>Os dias de Lúcia</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SjOwZgMF0hI/AAAAAAAAAZY/pDSy56i4oXE/s1600-h/virtual.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5346811134802776594" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 206px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SjOwZgMF0hI/AAAAAAAAAZY/pDSy56i4oXE/s320/virtual.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os dias de Lúcia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exatamente às sete e meia, Lúcia entra pela porta de seu apartamento, como o faz praticamente todos os dias, de segunda a sexta-feira, sempre no mesmo horário. É uma rotina de muitos anos. É uma funcionária pontual, tanto no que diz respeito à hora da entrada, quanto da saída, mesmo porque a sua atividade profissional, o seu ofício diário, não requer horas-extras, ou permanência no local de trabalho além do horário estipulado no contrato de trabalho. O patrão é de uma família de tradição patronal, pois o avô do proprietário já era empresário à época, e ele conhece bem a legislação trabalhista, e faz questão de se organizar no sentido de evitar que seus empregados, estendam a sua jornada de trabalho diária, além do que rezam os acordos classistas, sindicais. Geralmente a funcionária sai pontualmente às seis horas da tarde, ao findar o dia, pega sempre o mesmo ônibus no mesmo ponto, no mesmo horário, motorista, e muitos dos mesmos passageiros, seus desconhecidos e eternos companheiros de viagem. No banco da frente, a mesma senhora de óculos, que faz questão de sentar sempre perto da janela, gosto pelo qual pode se dar ao luxo, por pegar o ônibus sempre no início da viagem, o senhor que vai sempre de pé, logo atrás do motorista, e o pirralho, que vai acompanhado da mãe, o qual já flagrou inúmeras vezes, colando melecas do nariz, debaixo do banco da frente. É sempre assim. Ao largar o trabalho, a primeira providência é realizar algumas ligações telefônicas para resolver assuntos pessoais, e na maioria das vezes, utiliza um telefone público, bem próximo ao ponto de ônibus. O tempo gasto nestas ligações, nunca excede os dez minutos, normalmente, é o tempo que leva para esperar sua condução. Por isto, chega, quase invariavelmente, às sete e meia em casa.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;As circunstâncias da vida e algumas desilusões amorosas condenaram Lúcia à solidão. Normalmente, quando abre a porta, ao chegar, tem pressa em entrar, acender logo a luz, e ligar o som ou a TV, pois a sensação de romper o ambiente de escuro e silêncio, muito a incomoda. Suas mãos, ao largarem a maçaneta da porta, dirigem-se voluptuosas, apressadas em direção ao interruptor, como se não houvesse tempo a perder, como se o breu da sala, pudesse sombrear sua alma ou entristecer seu coração. As luzes se acendem, e quando há alguma correspondência por sob a porta, faz questão de verificar o remetente, quanto ao conteúdo, pode deixar para após o banho, a menos que seja algo que incite inevitavelmente sua pouca curiosidade. Fora isso, liga o rádio, e sem muito rigor seletivo, ou exigência musical, pois neste momento inicial, quando está a desvendar o lar, já deixado há horas, o que mais importa, é um ruído qualquer que possa preencher a sensação de vazio.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não se sabe ao certo, se é o rigor profissional, com sua disciplina e horários, que fazem com que já em casa, Lúcia, tenha também uma rotina rígida e cronometrada, ou se ao contrário, são os hábitos domésticos, que a adequaram ao seu sistema de trabalho. Se pudéssemos colocar os dias de Lúcia, um por sobre o outro, como a película de um filme, veríamos como as mesmas tarefas e atividades sempre coincidem com os mesmos momentos e horários. É como se todo o tempo, fosse sempre o mesmo. Momentos eternizados pela repetição, como se cada passo, cada gesto, acompanhasse os mesmos tics e os mesmo tacs do relógio suntuoso do fundo do corredor que dá acesso aos quartos. Momentos que trazem a herança de ontem, e a quase certeza, do que pode vir a ser amanhã. Com algumas luzes acesas e o rádio ligado, prepara-se para o banho, pelo qual nutre um sentido quase sagrado, como se este fosse um ritual de purificação ou passagem, é quando se livra do arquétipo do trabalho, de seu padrão profissional, uniforme, quando deixa para trás o bafo das ruas, os fungos e bactérias dos assentos que precisou usar ao longo do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Após um bom banho, realmente, se sente outra pessoa. E de fato, praticamente o é. A água quente e poder livrar-se das vestimentas que usou durante todo o dia, lhe proporcionam uma inigualável sensação de alívio e prazer. Após o banho se enrola na toalha e vai até a cozinha, às vezes, mesmo, até sem ter o que fazer, é um antigo hábito, como se necessitasse não só de fazer mais um reconhecimento dos cômodos do apartamento, para certificar-se que tudo estava normalmente, mais uma vez em ordem, mas também para que pudesse andar um pouco, livre das roupas escuras e pesadas que compõem seu uniforme de trabalho. Quem sabe, talvez, ainda nutrir alguma fantasia, guardada nos recônditos de seu subconsciente ou do velho lar, a lembrança de algum amor passado, o despir-se sensual, ante o amante que já não tem mais, ou quem sabe, algum belo vizinho, que possa estar a bisbilhotá-la, por sob as franjas das cortinas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Volta mais uma vez ao banheiro. Antes de vestir a camiseta surrada, destas de se usar em casa, que sempre proporcionam um grande conforto, dá mais uma passada ao espelho. Joga os cabelos para trás, depois, repousa-os sobre os seios, para ver o quão de erotismo ainda pode tirar da sua face um pouco cansada. Apalpa os quadris, depois, suavemente, corre os dedos por sobre os seios, que se arrepiam repentinamente, suas pálpebras, chegam a abaixar, seus olhos negros, por poucas frações de minuto, parecem boiar, vagar como nau perdida em alto mar, mas o estado de semi-êxtase se rompe com a cantoria do vizinho do apartamento de cima, que normalmente, neste mesmo horário, preenche não só os espaços coletivos do condomínio, mas também dos apartamentos mais próximos com sua voz estridente de taquara rachada. Não há tesão que resista, ainda mais se tratando do mal-educado vizinho, que faz sempre questão de hostilizar suas raras intervenções ou falas nas assembléias dos moradores. O vizinho é um tormento, do qual ela adoraria poder se livrar. Pega bruscamente a camiseta, veste-a, fecha a porta do banheiro, para ver se isola um pouco o desagradável ruído e entra em seu quarto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Abre a porta do guarda-roupa onde ficam os perfumes e cosméticos. Há uma grande variedade deles. Loção pós-banho, fragrâncias variadas, óleos, cremes, hidratantes, esfoleantes, perfumes, pomadas, formando um grande acervo de frascos, vidros, arranjos, potes, das mais variadas cores ou marcas, todos organizados sistematicamente, em seus mesmos lugares, milimetricamente posicionados. Tem dias, em que faz uso de praticamente todos eles. Não só pelos perfumes ou pelo conforto que os produtos podem lhe proporcionar, mas pela rara sensação de prazer que tem ao passá-los pelo corpo, é quase uma forma de massagem, excitamento, auto-conhecimento, um contato consigo mesmo, que a correria do dia a dia e as demandas do trabalho, quase impossibilitam. Além de ser ainda um bom exercício de vaidade, pois Lúcia se acha bela. Sente-se também, de certa forma, ungida, cidadã, na medida em que se vê como inserida no mercado de consumo, por guardar uma verdadeira coleção de marcas e nomes consagrados no mercado. Pensando bem, são muitos os seus conhecidos, ou colegas que não teriam as condições de manter um arsenal químico como os seu. Sente-se aliviada, e mesmo, privilegiada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Após o ritual, que é repetido diariamente, de segunda a segunda, sempre ali no mesmo horário, no mesmo quarto, vai então, até a cozinha, fazer um breve lanche. Lúcia gosta de se vangloriar de comer pouco, não é quem se possa chamar de gulosa, muito antes pelo contrário, é bastante comedida em seus hábitos alimentares. Há anos mantém uma dieta bem equilibrada, evitando massas, gorduras e refrigerantes. Sempre acreditou que dessa maneira, pudesse manter a forma, e ganhar um tempinho a mais na linha da vida. À noite, quase não come, além deste pequeno lanche após o banho. Às vezes, toma um suco, um copo de leite ou achocolatado, torradas, biscoitos, pães e broas, quanto aos doces, apenas em raras ocasiões, dá-se ao prazer de degustá-los. Em raros momentos se excede no pecado capital da gula, o que normalmente ocorre, quando vai a festas de finais de ano, aniversários, na casa de amigos, ou em qualquer outra comemoração ou evento, em que não precise pagar. Não que seu salário não lhe permita manter uma alimentação saudável e satisfatória, mas sente-se orgulhosa por aproveitar bem as oportunidades de ocasião. E acredita que isto não afeta a qualidade se seu regime, por que não é lá dessas pessoas muito sociáveis, que possuem uma longa lista de amigos, para fazer dela uma freqüentadora assídua de festas, bares ou restaurantes. Os contatos sociais, fora do ambiente de trabalho, nos últimos anos, vêm se limitando mais a alguns amigos virtuais, conhecidos em sites de relacionamento, ou em salas de bate-papo, onde Lúcia perde às vezes, inúmeras horas de seu dia, principalmente às noites, nos finais de semana e feriados. É praticamente um vício. A impressão que se tem é que tanto o banho, quanto a massagem com os cremes, ou o lanche são sempre um pouco, inconscientemente acelerados, para que no final das contas, possa usufruir um tempo cada vez maior diante da tela de seu computador. Come apressadamente seus biscoitos, lava uma maçã, que não tem que necessariamente ser toda ingerida na cozinha, pode acompanhá-la pelo apartamento, e dá a última golada em seu suco, como se tempo não mais tivesse para esperar. Levanta-se de uma vez, e vai até o quarto, onde fica o PC.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Liga as tomadas, que ficam todas desplugadas em sua ausência, arranja os fios, ajeita o tapetinho do mouse, sopra um restinho de poeira por sobre o teclado, resíduos de um biscoitinho de queijo, que não resistiu em comer, na noite de ontem, coisa que normalmente não faz, pois teme danificar o equipamento, mas na noite passada não teve como evitar, pois a conversa calorosa que travou com seu namorado virtual, que diz viver na Europa, fez com que sonhos e fantasias, despertassem uma ansiedade tal, que não tinha como contê-la não fosse umas rosquinhas e uns biscoitinhos de queijo, que comprou no mercado ao lado da empresa em que trabalha, onde passa de vez em quando para comprar pães integrais ou alimentos dietéticos. Às vezes, ela própria, tão cuidadosa com seu patrimônio material, fica sem entender como pode cometer tamanho pecado ou delito. Afinal, sabe que farelos caídos por entre as teclas podem em última instância, comprometer o bom funcionamento de sua máquina. Mas a conversa ´caliente` que a absorvia, ao mesmo tempo, que despertava uma necessidade fisiológica qualquer, que acabava por descarregar no ato de comer, não permita que tirasse seus olhos vidrados, da tela do monitor de última geração que acabou de adquir. É aqui onde passa quase a totalidade de seu tempo, quando está em casa. Diante da tela. E é justamente, dentro de casa onde passa a maior parte de seu tempo, quando não está no trabalho. Nota-se que fora o trabalho, e a noite de sono, as horas gastas no computador são as que mais ocupam sua vida. Isso já há alguns anos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Todos os dias é praticamente a mesma coisa. Aperta o botão, e ao captar o som da máquina ligada, tem a sensação de estar dando os primeiros passos para penetrar em outra dimensão, arranja a postura do corpo, como se estivesse prestes a realizar uma longínqua viagem, prepara-se, seus olhos fixam-se prontamente na tela, quando esta se ilumina. Lúcia não mais se atreve a virar para os lados. Está inerte, à abertura enfim, de sua esperada navegação pela internet. Os olhos de Lucia adquirem certo fascínio, estão brilhantes, estatelados. A luz excessiva do monitor de tela grande deixa seu rosto pálido, e os ligeiros sulcos em sua face, salientados. Mas é o momento esperado, enfim, quando poderá finalmente navegar, acariciar o pequeno mouse, bater ansiosamente seus dedos sobre o teclado, cujas letras, já começam a se apagar, o que não importa, pois seus pequenos dedos, como pequenos cérebros, memorizaram, quase sem chance de errar, a posição exata de cada letra, número, sinal, cada acento ou ponto. Locomovem-se sobre as teclas, como se fossem estas, sua antiga morada. Caminham por sobre elas, com uma desenvoltura e velocidade, que chega a impressionar. Inicia então a rotina diária, o seu plano de vôo, a sua rota de navegação traçada. Verifica sua caixa de correio, onde a maioria absoluta da correspondência é de anônimos, scraps, ou textos de auto-ajuda, de teor religioso, recheado de belas imagens, com fundo musical, feitos em Power Point. Sempre os recebe, mas dificilmente os lê até o final, mas os repassa imediatamente assim mesmo, para a maioria dos contatos de sua lista de emails. É sempre assim.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aqui, pode-se mesmo afirmar que Lúcia perde a noção do tempo, como raramente acontece ao longo de seus dias, seja quando está no trabalho, ou dedicando-se a qualquer outra atividade fora do mundo virtual. Às vezes, se distrai a ponto de passar alguns minutos do horário que habitualmente faz questão de desligar a máquina para dirigir-se à cama. Neste aspecto, é disciplinada, pois não tolera a idéia, seja lá por que motivo for, de ver-se obrigada a reduzir o tempo de sono diário, que considera lhe ser de direito. Sabe, pela experiência dos já muitos anos que carrega às costas, que pouco tempo que subtraia ao seu sono, irá lhe trazer grandes prejuízos no dia seguinte, como uma dor de cabeça, que lhe traz uma baita mal humor, um raciocínio provavelmente um pouco mais lento, alguns esquecimentos, que considera insuportáveis, e por fim, uma sensação de mal estar, da qual sabe que poderá se safar, apenas no dia seguinte. Apesar de ficar por horas, em suas peregrinações pelas vias telemáticas, pelas páginas e links sem fim, faz questão de ser pontual, como se um último gesto de disciplina do dia, ao deitar-se e apagar as luzes do apartamento. Geralmente, nem minuto a mais, nem minuto a menos, às onze horas da noite.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sentada diante da tela, Lúcia, vive uma contradição de sensações. Enquanto sente-se rodeada de informações e contatos, pois faz questão de se interagir com blogueiros, participar das grandes correntes de e-mails, trocar mensagens de auto-ajuda, militar em diversas comunidades de sites de relacionamentos, sente-se também, no casulo, no claustro do quarto, uma solidão arrebatadora, da qual tem a forte impressão de que não poderá se livrar, e de ser prisioneira de si mesma. Estranha sensação. Como se a vida, outro destino não tivesse que lhe apresentar. Mas evita perder-se neste tipo de pensamento, pois sabe bem o desconforto que ele lhe causa, além de lhe tomar o pouco tempo que tem para fazer o que acredita ter de ser feito todas as noites, diariamente, metodicamente, em seus poucos momentos de folga.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lúcia recorda-se de quando se iniciou por esta saga pela internet. A princípio, gostava de coletar informações, saber dos próximos capítulos da novela, que sequer assiste, inteirar-se das fofocas dos ídolos, uma receita de bolo, a temperatura, a previsão do tempo, imagens dos lugares que pretende conhecer um dia, e daqueles que sabe que jamais conhecerá, fazer amizades, comunicar-se com os que do outro lado do mundo se encontram, em tempo real. Era o mundo a lhe abrir as portas. Mas com o tempo, os gostos e preferências de nossa personagem foram se alterando. Lúcia passava a descobrir alguns novos macetes que o uso diário das ferramentas passava a lhe proporcionar, foi adquirindo algumas habilidades, e a cada dia, novas e intrigantes descobertas. Novas idéias. Se estava mesmo sozinha em casa, e não havendo quem pudesse testemunhar a façanha, por que não poderia então, finalmente, fantasiar, fazer-se passar por quem nunca foi ou haveria de ser? Por que não falsear? Emitir opiniões, que além das suas próprias, outras muitas que nunca talvez tenha pensado, outras tantas que apesar de imaginar, nunca lhe passou pela cabeça divulgar? Por que não aproveitar então, a ocasião, vasculhar vidas alheias, devassar privacidades? Sim. Lúcia sentia-se vaidosa e dona de algum poder. Poderia, pois, conhecer de perto alguns universos pessoais, observar sem ser observado, como se de uma entidade superior se tratasse, podendo acompanhar os passos dos homens, quem os acompanha, por onde passam e o que fazem pelo caminho. E mais. Deixou de lhe bastar, com o tempo, a simples vigília, o rastreamento. A novidade e o exercício do poder tornaram-na ambiciosa. Queria testar sua criatividade e suas habilidades, alterando agora, as vidas, as realidades e contextos, dos outros.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim Lúcia o fez. Criou perfis e identidades falsos. Adulterou, burlou, corrompeu, aplicou pequenos golpes, tentou decifrar senhas. Copiou aqui, colou acolá. Potencializou como nunca, sua ação criadora. Sentia-se poderosa, e achava graça em poder manipular os homens, à distância, e em algumas ocasiões, e em certas medidas, alterar-lhe o destino. Afinal, pôde, invisivelmente, criar atritos entre casais, alguns novos, outros nem tão novos assim, vizinhos, parentes, conhecidos e desconhecidos, alguns embaraços no trabalho daquele cobiçado namorado da vizinha do apartamento ao lado, alguns desentendimentos entre familiares, que sempre se deram tão bem. Resolveu alterar a ordem e o aparente rumo natural das coisas. Estava vaidosa. O mundo cujas portas lhe abriam, parecia agora, entregar-lhe algumas chaves, desvendar-lhe alguns mistérios, e por fim, pousar-lhe sobre as mãos. Mas como em todas as noites, apressava-se ao se aproximar às onze horas. Era o fim do dia. Antes de desligar o computador, enfiava os dedos por entre as pernas e masturbava-se num gemido silencioso. Depois se levantava, ia até a cozinha, abria a porta do armário, e freneticamente, levava um comprimido à boca. Não se passavam quinze minutos, antes que começasse a dormir, até o dia seguinte, às seis.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-9026765668813945114?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/9026765668813945114/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=9026765668813945114' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/9026765668813945114'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/9026765668813945114'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/06/os-dias-de-lucia.html' title='Os dias de Lúcia'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SjOwZgMF0hI/AAAAAAAAAZY/pDSy56i4oXE/s72-c/virtual.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-6128963462646499233</id><published>2009-06-06T05:42:00.000-07:00</published><updated>2009-06-06T08:27:07.429-07:00</updated><title type='text'>Amor digital</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SiqKFyT-DII/AAAAAAAAAZQ/6YvEqv1MrXI/s1600-h/16_MHG_rshow_flexor.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5344235739838024834" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 205px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SiqKFyT-DII/AAAAAAAAAZQ/6YvEqv1MrXI/s320/16_MHG_rshow_flexor.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Sipsii2yF7I/AAAAAAAAAZI/jaGkPU-9Iio/s1600-h/lensflareVTT.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Amor digital&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazia três meses que se conheciam. Mais um destes relacionamentos modernos, resultado da procura por príncipes encantados e princesas dos sonhos infantis, que ainda perturbam a mente dos jovens e velhos, pelos bilhões de sites, agências de encontros, namoros, que se encontram tão fartamente no mundo virtual. Afinal, não eram os primeiros contatos que um ou outro faziam; na verdade, já haviam tido a oportunidade de trocarem e-mails com vários outros pretendentes, mas nada como agora, entre os dois. Os contatos anteriores pareciam frágeis, insignificantes, ante as novas impressões que são agora trocadas. As listas de contatos de um e de outro, caíram no esquecimento. Um tornou-se a lista do outro. Aqueles versos trocados, milhares de rimas de amor, imagens e fundos musicais edificantes, com os contatos anteriores, pertenciam já ao passado. E embrenharam-se, agora, em uma incessante troca de palavras, olhares e afagos digitais, praticamente diários. O círculo se fechou. O fluxo de mensagem entre as caixas de correio é cada vez mais freqüente. São muito eficazes os novos filtros de busca utilizados pelas grandes empresas, e neste caso, parecem ter realmente acertado. Os perfis pareciam feitos um para o outro. Na medida em que trocavam suas confidências diárias, suas imagens, não imaginavam mais a possibilidade de separarem-se, mesmo separados estando. Nunca talvez, os dados tenham se cruzado com tanta perfeição. O serviço parecia ter oferecido o impossível, acreditavam terem encontrado, enfim, suas almas gêmeas, seus pares perfeitos. Estavam admirados, encantados, em estado de graça, pelo novo achado, pela descoberta. Como não havia aparecido um para o outro há mais tempo? Por que o tempo fez-lhes tanto esperar? Com intervalos menores do que se possa imaginar, consultam não apenas suas caixas de correio eletrônico, mas seus perfis em comunidades diversas, e literalmente vasculham, rastreiam a vida um do outro. Sabem de cor os nomes de todos os amigos, dos amigos dos amigos, que também compartilham, participam dos mesmos grupos, e dos mesmos tópicos de discussão, um a reafirmar o outro, a abrir-lhe o caminho ou aparar a retaguarda. Era uma aventura nova e curiosa, para ambos. Ouviam músicas juntos, discutiam-nas, liam artigos, crônicas, assistiam a vídeos, se interagiam da forma como ainda não testemunharam os tempos e a história. Mensagens de textos, arquivos, figuras, beijos, torpedos, paraísos, num ir e vir estonteante, que acabou por entorpecer aos dois. Entregaram-se. São cúmplices, enfim. Era noite de sábado, ela um copo de vinho, ele uma garrafa de cerveja. Conectam-se. Ela está ansiosa, ele afoito. Acertam-se diante o teclado. Ela apaga a luz. Vêem-se pela tela escura. Ele geme seu nome. Ela se faz obscena. Gozam os dois, entre léguas intransponíveis e sem se conhecerem de fato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-6128963462646499233?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/6128963462646499233/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=6128963462646499233' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/6128963462646499233'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/6128963462646499233'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/06/amor-digital.html' title='Amor digital'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SiqKFyT-DII/AAAAAAAAAZQ/6YvEqv1MrXI/s72-c/16_MHG_rshow_flexor.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-4435332722440768568</id><published>2009-05-28T12:13:00.000-07:00</published><updated>2009-05-28T18:19:15.896-07:00</updated><title type='text'>O Vôo</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Sh7ohYQLlOI/AAAAAAAAAZA/QrfASBuEI4g/s1600-h/asas.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5340961868251632866" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Sh7ohYQLlOI/AAAAAAAAAZA/QrfASBuEI4g/s320/asas.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O Vôo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Rapidamente adormeceu. Nesta noite, não precisou rolar muito na cama para que o sono lhe dominasse. Encostou a cabeça no travesseiro, deu um longo suspiro, teve ainda algumas vagas e breves lembranças de partes do dia que acabara de viver, abaixou definitivamente as pálpebras, e mergulhou em um sono profundo. Parecia cansado. E dormia tão profundamente, como quem descansava não de um dia apenas, mas de uma vida inteira. O silêncio e a escuridão do quarto protegiam seus sonhos, e nem o ruído distante do relógio da cozinha ou o fraco feixe de luz que por sob a porta passava, poderiam quebrar a sensação, que ali o tempo parara. Naquela noite, dormia sozinho, ninguém que pudesse testemunhar, o quão tranqüilo estava, praticamente não se mexia, as marcas do rosto, que o tempo havia deixado, aparentavam descontração, e os olhos, totalmente fechados, pareciam encontrar o repouso absoluto. As palmas das mãos, descobertas, abertas para o alto, como que a clamar aos céus, ao infinito. A boca fechada, emudecida, aparentemente condenada a um silêncio eterno. De fato, era um sono profundo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;De forma surpreendente, como a ciência ainda não ousou explicar, aquele homem ali deitado, iniciava um longo sobrevôo por sobre o mundo e o tempo. Percorreu em frações de minuto, tempos que foram eternidades. Sentiu a dores de quando veio ao mundo, viveu a sensação de umedecer-se com as lágrimas que primeiro chorou, percorreu os parques da infância, os brinquedos, as gangorras, e as rodas-gigantes. Aprendeu, de uma só vez, as milhares de lições, que lhe foram ensinadas. Adentrou-se pelas fórmulas matemáticas que foi obrigado a decorar. Beijou o primeiro dos beijos, desnudou-se, desfilou por inúmeros corpos, conhecidos e pelos que nunca havia visto ou tocado, sentiu prazer, explodiu-se em orgasmos. Ouviu cânticos. Entoou antigas preces, reviveu velhos pecados. Deleitou-se. Percorreu os caminhos por onde havia passado, as estradas, os campos, as praias, as águas, vagou por sobre o deserto da alma, gemeu pelas dores da carne. Ah... Sobrevoou o mar, quão extenso é o mar. Os montes, os picos, a neblina, os campos abertos, o mato fechado. Sobrevoou as cidades, atravessou oceanos e continentes. Aqueceu-se por aproximar-se excessivamente do sol, tremeu pela proximidade das geleiras.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Bisbilhotou a intimidade dos homens, por sob os milhões de telhados, visitou as moradas dos deuses. Derramou-se pelo sangue, que escorrera das guerras, atirou-se por sobre as culturas, os povos, como a chuva, que traz o alimento, e como os projéteis que levam a morte. Acompanhou a luz, com a velocidade que lhe é própria, a clarear o universo. Incorporou-se em música, adentrou-se pelas nuances da poesia, fez-se imensidão e partícula, percorreu as galáxias, as moléculas e os átomos. Adentrou-se pelo espírito da história. Voava alto, atingia o cume dos céus, depois deixava-se cair, plainando o espaço, e o mundo tornava-se grande, tornava-se pequeno.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Inesperadamente acordou. De súbito. Os olhos se abriram. Tentou levantar as mãos, mas estas não lhe obedeciam. Os olhos, apesar de abrirem-se, pareciam presos às órbitas, e pouco podiam enxergar. Sentia o corpo frio, as pernas geladas. O corpo inteiro não respondia aos comandos e se enrijecia. Uma lágrima salgada escorria pelo rosto e molhava os lábios ressecados. Faltavam-lhe os movimentos, a respiração vinha a parar. Uma sensação diferente porém, lhe percorria os ombros e ele, finalmente, sorria, silenciosamente, timidamente. Das costas, onde a princípio, manifestava-se um ligeiro formigamento, num estalo, rompem-se duas asas enormes, que desvencilham-se da cama, e esticam-se como a testar o vigor e a elasticidade. O corpo se aquece, os músculos se soltam e os pulmões se enchem de ar. As asas se aprumam, e como num passe de mágica, a janela do quarto se abre, e aí então, novamente, se põe a voar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-4435332722440768568?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/4435332722440768568/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=4435332722440768568' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/4435332722440768568'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/4435332722440768568'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/05/o-voo.html' title='O Vôo'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Sh7ohYQLlOI/AAAAAAAAAZA/QrfASBuEI4g/s72-c/asas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-6320831856142389503</id><published>2009-05-14T19:12:00.000-07:00</published><updated>2009-05-14T19:31:04.161-07:00</updated><title type='text'>O fim ao princípio.</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SgzQJ-nSdSI/AAAAAAAAAXI/IdtUUc97dlc/s1600-h/deus.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5335868528372380962" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 319px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SgzQJ-nSdSI/AAAAAAAAAXI/IdtUUc97dlc/s320/deus.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O fim ao princípio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava deitado sobre um vasto colchão de nuvens, e apesar do tamanho gigantesco, enorme, e com todo o peso que seria de se supor, ainda assim, parecia ser mais leve que elas, e elas, por sua vez, pareciam acomodá-lo, proporcionando o conforto, como talvez melhor não lhe pudessem oferecer. Naquele momento, onde o tempo fora o que hoje não podemos conceber, havia um grande silêncio, uma longa escuridão, nada, no entanto, que o impedisse, de a tudo enxergar. E seus olhos, um pouco ainda inchados, de um tempo sem noites ou dias, tardes ou manhãs, vagavam pelo infinito e por sobre a face sem rosto das águas. Parecia abatido, como estas fortalezas de pedras, palácios de bronzes, que a eternidade insiste em corroer. Além dos músculos fortes, dos braços compridos e das longas mãos, que parecia a tudo poder criar ou destruir, havia um indisfarçável sinal de esmorecimento. O grande corpo parecia não estar disposto a se levantar. Os olhos pareciam contemplar, liricamente, o nada, e um rubor nas faces duras, revelavam um profundo estado febril. Os olhos procuravam ainda, um porto, um ponto, onde pudessem repousar, ante as águas profundas e infindas, que estava a contemplar. Com certo esforço, sem resignação, repousou os braços sobre o peito, e suspirou longamente. Parecia tomado de um cansaço, como ainda não havia experimentado. Revelava a imagem de um guerreiro robusto, alimentado pelas inúmeras vitórias, mas com o semblante de quem não mais tem o que conquistar, como se vãs tivessem sido as lutas, como se inúteis houvessem sido todas as duras batalhas. Os olhos esforçam-se para manterem-se abertos, e uma tosse seca, um ligeiro tremor, parecem ameaçar como nunca, sua imortalidade. A febre parece aumentar. Os olhos embaçam. Um suor frio, escorre pelas nucas divinas. Os espírito do mundo, parece querer se soltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mira as águas, mira as trevas. Uma luz no olhar parece revigorar-lhe. Levanta um braço, que estava a pender sobre o abismo, e num movimento único, como um gesto que se faz derradeiro, estala os dedos. Um grande clarão rompe os céus, como se estivesse a parti-lo. A luz excessiva reflete em seus olhos, que parecem faiscar. Num estado de quase entorpecimento, mas com o olhar encantado, admira-se com o que estava a criar. Diante de si, o que nunca havia visto ou imaginado. Inquietava-se, e o suor lhe encharcava os cabelos. Mas parecia feliz. Num ímpeto, criou quase tudo que há. Divertia-se com o que estava a fazer, sorrindo, aliviando as dores e o mal que lhe atormentavam. Fez pois, o que viria a se chamar de luz, os dias, as noites, o céu, o sol, a lua, as estrelas, fez a terra e os mares, e divertia-se mais ainda, às roucas gargalhadas, que vibravam pelos fios do tempo, com a diversidade de tipos e formas, que trazia à vida. A terra, cobria-a de cores, muito verde, todas as cores que possam existir, fez árvores, de todas espécies, frutos de todos os sabores, os que fossem possíveis, e os impossíveis também, plantas, flores, de todas as formas que a matemática da vida permitia, ainda abrindo exceções.Apenas não lhes deu os nomes. Estes viriam depois. Cobriu-se a terra de vida. Todos os seres, os do ar, do mar, da terra, os insetos, as aves, os peixes, os anfíbios, os répteis, os mamíferos. Desde as espécies que viveriam por milhares de anos, aos microorganismos, cujo ciclo de vida, gira em torno de apenas trinta minutos. Assim se fez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observava atentamente a obra, já quase concluída, e sentia-se levemente reconfortado. Trazia um sorriso agarrado ao canto da boca, e achava-se surpreso, com o que acabara de realizar. Surpreendeu-se com a obra em si, e consigo mesmo, por descobrir o quanto era genioso e inventivo. Sentia-se vaidoso. Repentinamente, uma dor súbita, percorre todo o seu corpo, da cabeça aos pés. Sente calafrios, e a febre parece aumentar. A tosse está para lhe estourar os pulmões. Afunda-se um pouco mais nas nuvens, que suavemente o embalam. Emite um fraco suspiro. Tem a forte impressão que o tempo que acabara de criar, vem lhe escapar pelas mãos. Vê um trovão cortar o céu, e lamenta por não poder agarrá-lo, está sem forças para tanto. Observa mais uma vez, sua mais recente criação. Enfia a mão pelo barro, e com a visão já um pouco às cegas, como se a obra não estivesse completa, e como se muito, não mais pudesse fazer, manipula o torrão, como se uma forma nova, quisesse lhe dar. Uma dor aguda e profunda atravessa-lhe o peito. Um mal estar incontrolável. Os membros não lhe respondem. Um último suspiro, que em sopro se transforma, faz levantar do pó da terra, uma outra criatura. Nasce o homem, mas Ele, já estaria morto.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-6320831856142389503?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/6320831856142389503/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=6320831856142389503' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/6320831856142389503'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/6320831856142389503'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/05/o-principio.html' title='O fim ao princípio.'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SgzQJ-nSdSI/AAAAAAAAAXI/IdtUUc97dlc/s72-c/deus.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-1580691901582680828</id><published>2009-05-09T05:31:00.001-07:00</published><updated>2009-05-11T14:33:44.730-07:00</updated><title type='text'>A breve história  dos ladrões pequenos</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SgbP8MhAuEI/AAAAAAAAAXA/vjVjOEgLUa0/s1600-h/queda.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5334179441725716546" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 252px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SgbP8MhAuEI/AAAAAAAAAXA/vjVjOEgLUa0/s320/queda.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SgbPwLBLzgI/AAAAAAAAAW4/dcq4fPkPU8c/s1600-h/preso.bmp"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SgbO6ORQ73I/AAAAAAAAAWw/dYpehpTGCyY/s1600-h/queda.bmp"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A breve história dos ladrões pequenos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana, como diariamente o fazia, normalmente no horário de almoço, excetuando em seus breves finais de semana, chegava ao ponto de ônibus, que a levaria para mais um turno de trabalho, na periferia da cidade. Era pontual. Sempre o mesmo horário e os mesmos passos rápidos. Vinha com a sensação de missão cumprida, por ter encerrado um dia de trabalho em uma empresa, ao término da manhã, mas já sentia-se ansiosa por um outro turno que ainda estava por iniciar. Na verdade, tinha quase os passos contados, cronometrados, e o ônibus, em que viajava, que a levava de um trabalho para outro, dificilmente se atrasava. Sabia, portanto, o tempo exato, em que ali deveria aguardar, parada. Aquele ponto, sempre lhe causava certa apreensão, o que é justificável, por ser sempre mais vazio, deserto, e à beira de uma rodovia, ainda que sob a luz de quase meio-dia. Locais onde normalmente os gatunos e ladrões tem mais facilidade de ação, dadas as vantagens de fuga, principalmente, diante de vítimas mais frágeis, como pessoas à pé, em pontos de ônibus, mulheres e velhos. Mas ali chegava, mais um dia, à espera do embarque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A apreensão inicial acabou por se dispersar, quando encontra no ponto do ônibus, também a espera, uma jovem e um senhor, já com idade bem avançada, nitidamente perceptíveis, não só pelos sulcos profundos no rosto, as teias de rugas, os labirintos de pele ressecada, a flacidez das mãos, mas um olhar cansado, meio esgotado, de quem não mais alimenta ilusões. A jovem, sentada ao lado, também aparenta ter mais idade do que de fato tem. Senta-se um pouco curvada, como se parte grande do mundo, pesasse sobre seu ombro. Sua atenção é fixa, parece não perceber a chegada de Ana. Tem os olhos pregados ao chão. Os cabelos estão mal arrumados, está sem maquiagem, sem cosméticos ou perfumes, e parece, estar também a trabalho. As mãos, com as unhas por fazer, seguram firmemente uma bolsa emborrachada, que trás atravessada ao pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana mantém-se de pé. O velho tosse. A jovem parece despertar de um transe profundo. Faltam ainda alguns minutos para o próximo ônibus passar. Ana dá uns passos à frente. Silenciosamente, olham-se, um ao outro, os três a olhar-se, mutuamente. Sem palavras ou gestos. Um quê de desconfiança, pois de estranhos e desconhecidos se trata, um quê de cumplicidade, dadas as condições em comum em que se encontram, o ponto, a espera, e a solidão. Em seguida, movem-se os três, ao mesmo tempo, como se combinado. Ana aperta a pasta ao peito, a jovem, com as mãos de quem carrega urgência, abraça a bolsa sobre o colo, e o velho pigarreia e parece resmungar. Como demora este ônibus, diz a jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subitamente, quase do nada, surgem dois homens na estrada. Com passos apressados, se aproximam também do ponto. As pernas do velho, parecem revelar um susto, que o resto do corpo, não fez por demonstrar, movem-se rapidamente, como se neste preciso momento, não precisasse do comando de seu dono e senhor, como se misteriosamente, se movimentassem por conta própria. Talvez, num corpo mais jovem, se pusesse a levantar ou a correr. Ana, que já quase se descontraia, repentinamente, retesa o corpo, as mãos parecem enrijecer. A jovem olha para os dois, com olhar de perplexidade, e ao mesmo tempo, de desafio. Agarra-se à bolsa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre tremores e suores, se anuncia o assalto. Olha aí, se não passar o que levam aí de valor, dinheiro, principalmente dinheiro, morre. Ta escutando? Morre, diz o mais novo. Vamos, sem moleza, passa logo a grana. Se não, vou ter que esquentar o cano. Passa logo, grita. A jovem, contrariada, agarra-se a bolsa, ainda uma vez, antes de entregá-la. Ana parece suar por todos os poros, empalidece. Os olhos do velho se embaçam, e as mãos parecem não encontrar os caminhos do bolso, onde levava a carteira. Treme. Os homens desistem dele, não se sabe se por compaixão, ou pela quase certeza que pouco lucrariam com o velho de calças puídas e sandálias gastas, com os pés quase ao chão. Talvez não valesse a pena. Levam apenas as bolsas das duas mulheres. Uma emudece, estarrecida. A outra está por explodir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os bandidos, após a bem sucedida operação, atravessam a rodovia, e dirigem-se para o pequeno bairro em frente, como se não estivessem a fugir, mas indo para casa. Como de fato, estavam. Talvez mesmo em função da crise que não perdoa a ninguém, tenham preferido os ladrões assaltarem nas proximidades de casa, por uma questão de economia, ou mesmo, de comodidade. A jovem, ainda inconformada com tudo aquilo, e observando os homens à distância, num ímpeto, desabafa, Sei lidar com vagabundo, não serão estes a me dobrar, ah, não, diz com fúria. Levanta-se como se partisse para a guerra. O coração palpita forte e o sangue corre veloz pelas veias. As faces coram. Os olhos parecem apontar uma única direção, meio vidrados, meio às cegas. O passo é uma marcha, firme, duro, determinado. Estes não me escapam, diz afirmativa. Estes não me escapam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em poucos minutos, pergunta pra um, pergunta pra outro, e acaba por chegar à morada dos ladrões. Aciona, nem se sabe como, a ronda policial, e rapidamente, como se dotada de poderes, que talvez nunca tenha imaginado possuir, e numa velocidade espantosa, faz cerco aos bandidos. O assalto, para eles, resultou-se vexatório. As bolsas foram encontradas por sobre o telhado, e os bandidos, escondidos, no guarda-roupa, protagonizam um triste espetáculo na vizinhança. Normalmente, estes flagrantes, despertam a curiosidade de todos, que querem saber, como foi, onde foi, o que ocorreu, quais os envolvidos, enfim, todos se amontoam para assistir o espetáculo da prisão dos vizinhos encurralados. Casais, crianças, até os gatos e cães, se aglomeram de frente a casa, para saber quem de lá vai sair, e como sairá. Todos de olhos esbugalhados, curiosos, atentos, para assistir, sem perder um lance sequer, do que está a ocorrer. Qual será o desfecho? Adolescentes roem as unhas. Uma mulher chora. Os curiosos que beiravam a cena, só não viraram multidão, pois a ação da polícia foi rápida, uma vez, que provavelmente, não se tratava, digamos, de ladrões profissionais. Não houve resistência. Os bandidos saem algemados, cabisbaixos, e qual não é a surpresa dos espectadores, ao confirmarem o que já se suspeitava. Muitos não imaginavam que o vizinho próximo, homem trabalhador, em seu dia de folga, chegasse a tanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os homens são arrastados por uma forte escolta policial. Todos observam imóveis, serem, os dois, atirados às grades; acompanham passo por passo, gesto por gesto, lance por lance, até os carros, com suas luzes e sirenes, darem a partida. Por fim, voltam, pois as costas, e passam a narrar histórias, versões, todos ali terão alguma para contar. Como pode, quem imaginava, eu já sabia, há quem conheça toda a família e também, os caprichos e os credores. A pequena multidão, eufórica, aos poucos se desfaz. Encerrado o caso, finalmente, Ana e a jovem entreolham-se, e trocam as primeiras palavras. Foi Deus, diz Ana. Foi - responde secamente a jovem. Mas o final que não há que negar, é que estes infelizes conhecerão, onde estiverem, o inferno, dos homens, do qual não poderão escapar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-1580691901582680828?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/1580691901582680828/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=1580691901582680828' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/1580691901582680828'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/1580691901582680828'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/05/um-ponto-um-conto.html' title='A breve história  dos ladrões pequenos'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SgbP8MhAuEI/AAAAAAAAAXA/vjVjOEgLUa0/s72-c/queda.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-6858977245552274395</id><published>2009-04-28T13:01:00.000-07:00</published><updated>2009-04-29T20:30:14.247-07:00</updated><title type='text'>O símbolo de Fallujah</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SfdhJUA3U6I/AAAAAAAAAWo/Q33w6pyQxac/s1600-h/cod4.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5329835496635323298" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 188px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SfdhJUA3U6I/AAAAAAAAAWo/Q33w6pyQxac/s320/cod4.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O símbolo de Fallujah&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que nunca sentei diante de um computador para jogar estes games modernos, que circulam à toda pela internet, que lotam Lan-houses de jovens e adolescentes, que passam ali, horas e horas a fio, como se também conectados estivessem. Minha experiência com jogos virtuais, nunca foi além dos antigos brinquedos, do tipo Atari, que eram conectados à televisão. Eram jogos rudimentares, despretensiosos, geralmente, com cenários únicos ou repetitivos, e as cenas, geralmente, apresentavam pouco movimento. Eram jogos sem cores, com pouquíssimos recursos, uma simulação bem primitiva, como supostos jogos de futebol, jogo de tênis, onde sentavam os dois jogadores diante da TV e ficavam a repicar uma bolinha um contra o outro. O mais sofisticado e envolvente era um bichinho, Pac Man, que ia percorrendo labirintos, acumulando pontos pelo caminho, e fugindo de fantasmas que se aproximavam ameaçadores quando o jogador estava próximo de seu destino e da vitória. Os jogos, virtuais, nas telas dos televisores, eram ainda, graciosos, que faziam até os mais velhos, brincarem como se crianças fossem. Eram jogos em preto e branco, um entretenimento, que muitas vezes, era compartilhado em família, dada a novidade do equipamento, que despertava curiosidade em todos. Pareciam ingênuos e fazendo mal a ninguém.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os jogos que hoje se apresentam aos jovens e crianças, são de uma geração completamente nova, digamos, jogos de uma nova era, dos tempos da globalização, onde os cenários e a lógica, normalmente são as das guerras. Os jogos vêm deixando, aos poucos, a condição de brinquedos, na medida em que vão se tornando cada vez mais realistas, violentos e sanguinários. São muitos os personagens que parecem reais, verdadeiros, normalmente, inimigos, que se tem que aniquilar. Interessante, que muitas das vezes, os jogadores podem dar toques bem pessoais, a seus avatares. Normalmente, fantasiam-se fortes, belos, bem trajados, estilo ocidental, brancos e poderosos, imbatíveis, ante um inimigo, que represente tudo aquilo que se quer evitar, às vezes, a imagem de si mesmo, refletida supostamente às avessas, ao contrário, e que se quer extirpar. Há uma possibilidade de construção de identidades, que faz com que estas crianças, nestes brinquedos, queiram se afirmar, e também destruir e matar. É uma lógica violenta e cruel. Não lhes é oferecida outras alternativas fora do campo da violência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observe os jovens diante destes brinquedinhos do século XXI. Grudam-se aos teclados, como se plugados a maquina, os olhos estatelados, parecem que não piscam estes garotos, e navegam em transe pelos cenários, batalhas, lutas e estratégias destes jogos sofisticados, sempre renovados e aprimorados, pelas empresas de softwares, que disputam um mercado cada dia mais promissor. São muitos os jovens que dedicam muitas de suas horas, diariamente, aos games. Seja em casa, seja em espaços coletivos. Estão ali, teclando, esbugalhando os olhos, raspando ansiosamente o mouse, suando, gritando, torcendo, se armando, defendendo, traçando armadilhas, emboscadas, matando, fuzilando, exterminando. Os exterminadores do presente. São inúmeros os casos de jogadores, que não saem de casa, varam noites sem dormir, e perdem muito do contato com os outros, com o tempo e o mundo real. Em certa medida, podemos admitir que estamos diante da construção de um ser, até então, inusitado, em nossa infinita humanidade. Um sujeito, que dedica várias horas de seus dias, a virtualmente, matar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 2010 haverá novidade no mercado: será lançado o game “Six Days in Fallujah”, onde se pretende alcançar um realismo máximo, com uma grande variedade de recursos, para aumentar ainda mais a emoção e adrenalina dos jovens jogadores. Detalhe: o jogo será montado a partir de um contexto bem real, com homens reais, de carne, osso, e muito, muito sangue: a operação militar americana, denominada Fúria Fantasma, que em seis dias, quebrou a aguerrida resistência dos combatentes da cidade iraquiana de Fallujah, a 50 Km de Bagdá, em Novembro de 2004, vitimando, segundo os dados oficiais, 38 soldados americanos e 1200 iraquianos. A sofisticação do game inclui consultoria de veteranos de guerra, cenários reais, imagens locais, vídeos e inclusive, vozes de soldados, relatando experiências e lembranças. Neste avançado jogo, os cenários podem ser totalmente destruídos e os jogadores podem eliminar quem atravessar seu caminho. E os jogadores, claro, estarão sob a pele dos soldados americanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O realismo do game, de fato, impressiona. Fallujah, a cidade de 800 mil habitantes-sobreviventes, a cidade de verdade, real, hoje, agoniza. O cenário é de desolação. As ruas da região central, esburacadas, são cemitérios de edifícios arrasados, escombros, muros em queda, paredes quebradas, tetos arrancados. Há carência de água, eletricidade, telefones, hospitais. Falta trabalho. Os sunitas de Falluhjah são obrigados a apresentar documentos de identidade magnético para entrar ou sair da cidade. Destruição e controle. A lógica do jogo. A lógica da vida. Ficção e realidade entreolham-se pelo espelho dos softwares, pelos olhos dos jovens do mundo inteiro. Quanto tempo será gasto? Quantos jogadores estarão empenhados em destruir milhões de vezes, o que destruído está? Infinitas vezes hão de matar os mesmos mortos, queimar as mesmas cinzas. Sob o Império do Dinheiro, não cabe a insurgência, sequer a tolerância. A vitória não se dá sob a rendição ou diálogo, mas com o aniquilamento absoluto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempos difíceis, e pelos sinais que se prenunciam, podem, em muito piorar. Quem quiser conhecer um pouco mais a juventude que está a se formar, e os adultos que brevemente serão, não poderá deixar passar despercebido, o mundo dos games, onde muitos deles, coabitam, diante da tela do computador. São mundos novos, imaginários, digitais, mas fortemente vinculados a um substrato real, com uma profundidade ideológica, como até então, ainda não se havia ousado mergulhar. São muitas horas dedicadas com afinco, a eliminar um inimigo virtual, que muitos deles, nem sabem que de fato existem, e acaso saibam ou descubram, quererão logo, no curto prazo, quem sabe, eliminá-los também, pois afinal, não é mesmo a vida um jogo? Além de muito tempo ter sido dedicado às lições, aprendendo a odiá-los, caçá-los, em estratégias de ação, onde o caminho da vitória pavimenta-se sobre o número de vítimas que se propõe fazer. Talvez fiquemos piores, ou não. Uma coisa é certa: nos afundamos num atoleiro moral, onde ficamos, a cada dia, não apenas menos sensíveis em relação aos sofrimentos alheios, como a cada geração, mais radicalmente intolerantes. A sorte está lançada e as cabeças a prêmio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-6858977245552274395?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/6858977245552274395/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=6858977245552274395' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/6858977245552274395'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/6858977245552274395'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/04/o-simbolo-de-fallujah.html' title='O símbolo de Fallujah'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SfdhJUA3U6I/AAAAAAAAAWo/Q33w6pyQxac/s72-c/cod4.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-4101107730556162463</id><published>2009-04-13T17:41:00.000-07:00</published><updated>2009-11-02T18:13:58.671-08:00</updated><title type='text'>Lições da Venezuela</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SePk_XswakI/AAAAAAAAAWU/yKIDvDs5dbQ/s1600-h/dudamel.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5324350961826687554" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 303px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SePk_XswakI/AAAAAAAAAWU/yKIDvDs5dbQ/s320/dudamel.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Lições da Venezuela&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem procurar pelo nome Gustavo Dudamel em sites de busca, como o Google, por exemplo, irá, certamente, admirar-se pelo formidável contingente de fãs e de elogios que vem recebendo pelo mundo todo, o jovem maestro venezuelano de apenas 28 anos. Encontraremos depoimentos em artigos especializados do tipo “não há promessa mais fulgurante”, “a música em estado puro”, “um milagre”, “o maior maestro do planeta”, “o maior prodígio da música erudita e o melhor monstro vivo”. Ou como diz seu mentor José Antônio Abreu, “Gustavo é uma glória universal para a América Latina”. Sir Simon Rattle, diretor da Filarmônica de Berlim, declarou, “Gustavo é o regente mais assombrosamente dotado que já vi”. O jovem, que nasceu em Barquisimeto, a 260 km de Caracas, de família humilde, é o mais recente fenômeno da música erudita mundial. As 17 anos, torna-se diretor artístico da Orquestra Jovem Simon Bolívar, na capital. A partir de 2005 desbrava o mundo, que acaba por desbravá-lo. Gustavo assumiu, como convidado, a regência das Filarmônicas de Berlim, Viena, Nova York e Israel, além de ópera no Scala de Milão. Em 2006 é escolhido diretor da Sinfônica de Gotemburgo, na Suécia, e agora, em 2009, assume a direção musical da Filarmônica de Los Angeles. Gravou pela Deutsche Grammophon, Beethoven, Mahler e acaba de lançar um álbum interpretando Tchaikovsky.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A regência de Gustavo encanta a todos. Não há quem não fique embasbacado ao ver o sujeito, praticamente em transe, se agitando, perante uma multidão de jovens afinadíssimos, fazendo ressoar, uma música como certamente, nunca se ouviu, no mínimo, inédita e fantástica. Gustavo transforma-se em música, como se diz acima, praticamente em “estado puro”, e acaba por dar à música que cria com sua orquestra, um toque próprio, que ninguém mais teria como fazer. Dono de uma energia e originalidade musical que impressionam. O maestro representa um envolvimento tão íntimo e apaixonante pela regência, que cria com seus músicos, um vínculo aparentemente mágico. Um fenômeno que certamente, e felizmente, veio para ficar. Tornou-se já, tão jovem, um nome obrigatório na história da música erudita universal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que de imediato se poderia perguntar, é como um garoto pobre, de família pobre, de uma região pobre da pobre Venezuela pode chegar ao fascinante estrelato de Gustavo Dudamel? Se repararmos ao redor, veremos que este fenômeno não está só, ou não é algo isolado. Temos outros exemplos na Venezuela, como Edicson Ruiz, 23 anos, um empacotador de supermercado que aos 17 anos tornou-se o mais jovem contrabaixista da Filarmônica de Berlim. Se prestrarmos ainda um pouco mais de atenção, veremos que a Venezuela é um país com um número extraordinário de jovens e crianças que se dedicam por quatro horas diárias, em seis dias da semana, já a partir dos dois anos de idade, à música clássica. As crianças, além das lições, ganham seus instrumentos. Estima-se que cerca de dois milhões de jovens e crianças já tenham passado pelos cursos oferecidos pelo Estado, nos pouco mais de 30 anos de existência da chamada Fundação do Estado para o Sistema de Orquestras Jovens e Infantis da Venezuela. São ao todo, 125 orquestras juvenis, 57 orquestras infantis e 30 orquestras sinfônicas profissionais para adultos. Aproximadamente 250 mil crianças, noventa por cento delas, de famílias pobres, são estudantes de música erudita em todo o país. São 1.800 professores. A Fundação, vinculada ao Ministério da Saúde e do Desenvolvimento Social da Venezuela, vem recebendo anualmente 29 milhões de dólares do governo federal. As orquestras se espalham tanto pelas cidades, quanto pelo meio rural e estão presentes nos 24 estados do país. Segundo o fundador do projeto, criado em 1975, e mentor de Gustavo Dudamel, o pianista José Antonio Abreu, “Es precisamente por el énfasis social del programa que logramos obtener apoyo governamental. El Estado ha entendido perfectamente que este programa aunque trabaja através de la música, es esencialmente um proyecto social, um proyecto para el desarrollo humano, que es la meta del Estado Venezolano”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gustavo Dudamel é a ponta do iceberg. Os frutos do investimento estão agora sendo colhidos. Os jovens músicos venezuelanos estão encantando o mundo. Segundo Roberto Minczuk, regente da Orquestra Sinfônica Brasileira “no futuro, nas grandes orquestras, metade dos integrantes serão orientais, e a outra metade, venezuelanos”. Imagino como um investimento nestas proporções, e digamos ainda, nesta magnitude e ordem de grandeza, tenha contribuído para a vida das pobres crianças das classes populares da Venezuela. O trabalho da Fundação constitui-se em uma verdadeira tábua de salvação para várias gerações e certamente, desviou muitos jovens e crianças da delinqüência ou marginalidade. Ainda de acordo com seu mestre-fundador, “Para los ninos con los que trabajamos, la música es prácticamente la única via hacia um destino social digno. La pobreza significa soledad, tristeza y anonimato. Uma orquestra significa alegria, motivación, trabajo en equipo, el logro de uma meta. Es una gran família que está dedicada a la armonía, a todos esas cosas hermosas que solo la música puede brindar a los seres humanos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um exemplo que serve ao mundo. Fico imaginando que bem não teria feito um projeto deste em um país como o nosso. Quantas crianças, adolescentes, ao invés de estarem a empunhar revólveres e canivetes, poderiam estar tocando violino, baixo, contrabaixo, piano, e tantos outros instrumentos maravilhosos, que infelizmente, pouco temos por aqui? Mas infelizmente, nós, ó pobre de nós, não tivemos a sorte. Enquanto a Orquestra de Jovens Simon Bolívar era criada em 1975, em terras da Venezuela, aqui em nosso Brasil brasileiro, amargávamos a feridas dos duros anos de chumbo, em meio à truculência política e a estupidez sem fim. Foi em 1972, que o coronel Jarbas Passarinho, então ministro da Educação e Cultura, aboliu dos currículos das escolas do país inteiro, de forma definitiva, as aulas de música, trazendo um prejuízo incalculável a milhões de crianças há quase quarenta anos. O mesmo Jarbas Passarinho, que ao assinar o Ato Institucional n°5, em l968, pronunciou a célebre frase: “À favas com os escrúpulos da consciência”. Como diz José Saramago, em fábula recente, &lt;em&gt;A viagem do Elefante&lt;/em&gt;, "Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ausência absoluta de uma formação musical mínima da população brasileira tornou-nos, a todos, reféns de uma música meramente comercial, sejam os enlatados americanos, que nos chegam aos tantos, seja a produção nacional, que para vender, torna-se mais um festival de peitos e bundas, do que a revelação de verdadeiros talentos. Afinal, somos o país do pancadão, onde “um tapinha não dói”. E dá-lhe e dá-lhe. Heranças eternas, da ditadura. O silêncio do passado - o vazio do presente. Façamos o futuro a cantar. Ao observarmos bem, veremos que muito temos a aprender com os venezuelanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object width="560" height="340"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/amSqQ5XNaGE&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/amSqQ5XNaGE&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="560" height="340"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-4101107730556162463?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/4101107730556162463/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=4101107730556162463' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/4101107730556162463'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/4101107730556162463'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/04/licoes-da-venezuela.html' title='Lições da Venezuela'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SePk_XswakI/AAAAAAAAAWU/yKIDvDs5dbQ/s72-c/dudamel.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-6177695397337498324</id><published>2009-04-08T15:43:00.000-07:00</published><updated>2009-04-09T19:08:05.629-07:00</updated><title type='text'>Chimpanzés da vida</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Sd0o6FLHjjI/AAAAAAAAAWE/egsx0oB6tyQ/s1600-h/ciencia_chimpance.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5322455312908127794" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 281px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Sd0o6FLHjjI/AAAAAAAAAWE/egsx0oB6tyQ/s320/ciencia_chimpance.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Chimpanzés da vida&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;É impressionante como a cada dia, os cientistas e pesquisadores vão descobrindo o quão próximos de nós, estão os chimpanzés. Ficamos cada vez mais convencidos, que se quisermos de fato, conhecer mais profundamente as nossas mais remotas origens, temos que prestar bastante atenção nestes nossos tão próximos parentes. Não é de hoje que o potencial cerebral, a inteligência e as habilidades dos chimpanzés vêm sendo testados e surpreendendo pesquisadores e curiosos pelo mundo inteiro. Muitos mesmo já chegaram a adotá-los como se mais um membro da família fosse. Os humanos já colocaram os pobres bichinhos a realizarem todos os tipos de façanhas, para que fossem conhecidos, experimentados, adestrados. Nos institutos de pesquisa, nos centros de estudo, nos circos e nos zoológicos, os chimpanzés proporcionam espanto e curiosidade aos perplexos olhos dos homens. Há décadas sua capacidade de raciocínio, de memorização, de organização e de realização de operações complexas foi já desvendada pelas pesquisas. Dentro do aparentemente infinito reino animal, não existe ser ou espécie que nos seja mais próxima. É fato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das descobertas mais recentes e intrigantes que mais ainda os aproximaram de nós, foi a constatação feita há alguns anos por estudiosos, cujos nomes não me recordo, que observaram durante meses os chimpanzés em seu habitat natural. Puderam observar uma cena que muito mudou a forma de compreendê-los. Uma mãe chimpanzé paciente e dedicada dando uma lição para a filha sobre como quebrar um vegetal de casca dura, utilizando as raízes de uma árvore como bigorna, e uma pedra como um machadinho. Interessante observar o processo. Inicialmente, a mãe explicava à filha, atenta, como realizar a operação. Em seguida, passa a ela a responsabilidade por fazê-lo. Após várias tentativas frustradas e mais uma intervenção da mãe, a criança aprendiz, finalmente, acerta a lição. Um grande salto de qualidade, tanto do ponto de vista daquele núcleo familiar, onde pode se verificar, inclusive, a presença de método, um processo ensino-aprendizagem, práticas de preparação para o trabalho e para a vida, quanto para entendermos um pouco mais sobre a natureza deles e a nossa própria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma espécie de chimpanzés, que como os humanos, copulam de frente, um a observar o outro, com os olhos nos olhos, como não vimos ainda outras espécies fazerem. Edgard Morin, em "O Enigma do Homem", afirma que este contato frente a frente entre os sapiens, a troca de olhares e feições, durante o ato sexual, ao longo de milhares de anos, teve responsabilidade não só sobre a formação dos caracteres femininos, como a sensualidade da boca, da nuca, a maciez ou aveludado da pele, o olhar sedutor, como acabou por criar laços de afetividade que possibilitaram o desenvolvimento de uma estrutura familiar e a formação de uma sociedade cada vez mais complexa. Há quem defenda que passem os chimpanzés, a pertencerem ao gênero Homo, dadas nossas proximidades genéticas. Justo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nova perplexidade nos traz agora, as mais recentes descobertas realizadas pelo grupo da venezuelana Cristina Gomes, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, Alemanha: fêmeas chimpanzés com dificuldade para conseguirem alimento, acabam se prostituindo por carne. Errou quem imaginava que fosse a prostituição uma instituição tipicamente humana ou recente em nossa história. Segundo o jornal Folha de São Paulo, de hoje, dia 08/04/2009, “a descoberta favorece a hipótese de que essa tendência também existia em sociedades humanas primitivas. Segundo os antropólogos, a troca de carnes por sexo fazia com que os melhores caçadores tivessem mais parceiras.” Impressionantes descobertas, e nunca mais serão os mesmos, os chimpanzés e os homens. Mas não entendem os chimpanzés o que é vender-se por dinheiro ou a alma ao diabo. Não sabem os homens o quanto de antiguidade carregam nas palavras, ao dizerem que “vão à caça”, quando, de fato, estão à procura de mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-6177695397337498324?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/6177695397337498324/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=6177695397337498324' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/6177695397337498324'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/6177695397337498324'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/04/chimpanzes-da-vida.html' title='Chimpanzés da vida'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Sd0o6FLHjjI/AAAAAAAAAWE/egsx0oB6tyQ/s72-c/ciencia_chimpance.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-6596812264518093908</id><published>2009-04-07T18:58:00.000-07:00</published><updated>2009-04-07T19:09:44.628-07:00</updated><title type='text'>Territórios na aldeia global</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SdwFU9XThAI/AAAAAAAAAV8/O4r7MbdSLiQ/s1600-h/GlobalVillageII24x36-4400.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5322134717272916994" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 199px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SdwFU9XThAI/AAAAAAAAAV8/O4r7MbdSLiQ/s320/GlobalVillageII24x36-4400.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Territórios na aldeia global.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vivemos um tempo de grandes e profundas contradições, como talvez sempre tenha sido. Há quem diga que são elas, as contradições, quem guardam as chaves do mundo e são a força-motriz das grandes engrenagens da história. Mas em dadas ocasiões, algumas delas, por serem tão gritantes, tão evidentes e típicas de um momento preciso, parecem mesmo marcar uma época, um período de média ou longa duração. Se procurarmos bem pelos fios e veredas do tempo, veremos que cada época, cada período, idade ou era, trazem as que lhes são próprias, que pertencem aquele momento e a nenhum outro. Assim, supostamente, caminha a humanidade. A espécie humana caminha por sobre um fio, sobre um abismo de contradições. Atualmente, o que chama a atenção de forma particularmente exagerada, são as contradições entre as relações que se estabelecem entre o público e o privado, na construção da chamada aldeia global. Não é algo de difícil percepção. Há um processo contínuo, iniciado nas últimas décadas, intensificado nos últimos anos, de transformar de forma radical e irreversível o que é público em privado e o que há muito acreditávamos pertencer ao espaço meramente privado, vem tornar-se a cada dia, de domínio público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo da globalização é a vitória do mundo do mercado. A chamada aldeia global torna-se um paraíso privado, uma ilha de delícias e negócios, ladeada pelo grande oceano da exclusão social e econômica. O mundo dos ricos é o mundo do esbanjamento e do desperdício e o mundo dos pobres, o mundo das bombas e da escassez absoluta. É o mundo da peste e das grandes fomes, o mundo das guerras. Um mundo a mirar-se no espelho, refletido às avessas. A imagem de uma época. Tem sido assim. Fora estas contradições maiores, fundamentais, absolutas, estruturais, outras mais, vamos encontrando pelos caminhos. Vivemos uma fase do desenvolvimento econômico, onde o capital torna-se cada vez mais guloso, em um contexto de estados nacionais enfraquecidos e com governos subservientes a seus interesses imediatos. Nestas condições, as riquezas das nações, são geralmente extorquidas para as grandes bolsas de valores, onde o milagre da vida, torna-se jogatina, onde ganham poucos gatunos e espertalhões e sacrifica-se, no altar dos negócios, uma humanidade inteira. A grande cartada das corporações multinacionais foi adquirir, nos últimos anos, empresas nacionais, lucrativas, a preço de banana, através de esquemas, negociatas, pelos balcões dos partidos políticos, em redes de influências e corrupções. O que era público tornou-se privado, como nunca até então, se havia visto. No Brasil, o governo FHC levou a política de privatizações à sua efetivação mais radical. Era a modernidade à moda tucana. O patrimônio público do país foi à feira. Muitos enriqueceram, os brasileiros, de maneira geral, ao contrário, ficaram mais pobres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tendência é, portanto, mundial. A palavra de ordem é privatizar. Privatizamos os rios, as terras, as águas, as matas. Privatizamos as gentes. Privatizamos tudo. Privatizamos a vida. Privatizamos os sonhos. Tudo foi colocado à venda. Tornamo-nos coisas, negociáveis, vendáveis. É a lei maior. A lei do mercado. As grandes corporações apropriaram-se do nosso mundo físico, do nosso labor, com o seu dinheiro, e expropriaram nossas almas, com a sua propaganda, suas verdades de mentira. Em que acreditamos todos. É a modernidade que a tudo salvaria. O mundo da globalização em que todos caberiam, e onde entre os homens, menos fronteiras haveria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que é fato, e o que motiva a reflexão, é mostrar a tendência, do que era público, tornar-se privado, como a lógica mesmo de ser do mundo contemporâneo, e o que foi de domínio privado, caindo vertiginosamente no espaço público. As contradições que fazem época. De um lado, uma política de privatizações radical, de outro, uma exposição pública de nossas vidas privadas, cada vez mais intensiva. Vivemos na sociedade de informação e, portanto, sociedade do controle, que se pretende fazer, de forma completa, total. As grandes empresas, através de uma grande revolução nos sistemas de informações nos controlam a todos. Sabem nossas preferências, de todos os tipos, o que comemos, o que vestimos, com o que trabalhamos, com o que gostaríamos de trabalhar, para onde fomos e onde pretendemos passar as próximas férias, se empregos tivermos para tanto. Um trabalhador que por ventura, mover ação judicial, trabalhista contra seus patrões, estará provavelmente condenado, a não conseguir mais empregos em seu setor de trabalho, ou talvez mesmo, em qualquer outro setor, pois a classe patronal, possue a seu serviços outras empresas especializadas que se encarregam de rastrear os pretendentes às suas escassas, quando as tem, ofertas de emprego. As câmeras nos vigiam a cada passo, em todos os horários, e em quase todos os lugares. Somos intimamente monitorados. Até onde? Vamos perdendo a dimensão do espaço privado, em uma tendência ascendente. Às vezes, parecem nos faltar, apenas os chips.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao usarmos as novas ferramentas de informação e comunicação, baixamos para nossas máquinas, cada vez mais velozes, as tantas vidas privadas que se expõem por aí, ora menos, ora mais que nós mesmos. Fazemos downloads de nossas fantasias, nossos desejos e sonhos, fazemos uploads de nossas frustrações, nossa identidade, na ilusão da cidadania perdida. Perdemos nossos espaços públicos, e acabamos por tornar públicos a nós mesmos. No fundo, sentimo-nos seduzidos pela exposição. Nos escancaramos, nos blogs, nos arquivos virtuais, pelos vídeos domésticos, pelos álbuns de imagens das grandes comunidades virtuais. Aposto como nos próximos anos, a maioria dos jovens casais, enamorados, terão seus momentos de prazer e intimidade, ao contrário do que as gerações que nos antecederam, geralmente o fizeram, às escondidas, mas à vista de quem se dispuser a assisti-los pela tela do computador ou aparelho celular. Sim. O que era público fez-se privado, e o privado, público tornou-se. Assim ensaiam-se os primeiros passos do terceiro milênio. A engatinhar-se.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Marcos Vinícius. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-6596812264518093908?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/6596812264518093908/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=6596812264518093908' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/6596812264518093908'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/6596812264518093908'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/04/territorios-na-aldeia-global.html' title='Territórios na aldeia global'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SdwFU9XThAI/AAAAAAAAAV8/O4r7MbdSLiQ/s72-c/GlobalVillageII24x36-4400.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-5433783961555040954</id><published>2009-03-30T17:42:00.000-07:00</published><updated>2009-03-30T17:57:33.319-07:00</updated><title type='text'>A raposa e as galinhas</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SdFpnfVMjrI/AAAAAAAAAV0/m4FKwKmJSv8/s1600-h/galinha.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5319148762047483570" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 208px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SdFpnfVMjrI/AAAAAAAAAV0/m4FKwKmJSv8/s320/galinha.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A raposa e as galinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já há muito tempo viviam naquele galinheiro. Na verdade, o sonho de seu proprietário, era formar uma grande granja, mas as dívidas que acabou contraindo nos bancos, fizeram com que forçosamente tivesse que optar por um investimento mais modesto. E ali viviam as quatro, praticamente isoladas naquele fundo de quintal, mas recebiam diariamente sua ração de milho, pela qual deveriam retribuir, regularmente, em forma de ovos. Assim viviam, ciscando o chão, bicando as paredes, talvez por alguma carência alimentar, alguma deficiência nutritiva, a falta de cálcio no sangue, ou sabe-se lá o que, constantemente davam umas bicadinhas das paredes laterais do galinheiro. No mais, como de praxe, dormiam cedo, e acordavam cedo também, limpavam suas penas, enchiam os papos, e ficavam a tagarelar. Quem de perto espiasse, poderia imaginar que são antigas amigas, confidentes, companheiras, apesar de aparentemente sempre desconfiadas, umas em relação às outras. A impressão que se tem, é que, olham-se sempre, mutuamente, com o chamado olhar de soslaio, sorrateiro, desconfiado. Em alguns momentos, parecem zangarem-se umas com as outras e chegam a trocar bicadas. Vivem ali, as quatro, a sós, isoladas entre caixotes de madeira, e uma tela de arame, em forma de L que se prende nos cantos do muro de concreto, sem sequer imaginar, que habitam um planeta, com uma população estimada em mais de 25 bilhões de galinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num dia qualquer, descobrem a firme intenção da raposa que vivia pela mata vizinha, em atacar-lhes pelo meio da noite. As quatro se ouriçam, e entram em uma terrível inquietude, sabiam que tinham chances de escapar, mas que para tanto, precisavam se organizar, e antes de qualquer coisa, era necessário que estivessem unidas naquele momento, pois tinham a noção exata do perigo que corriam, seja pelo brilho dos olhos daquela temível raposa, que seus olhos já tinham tido a oportunidade de cruzar, seja pelos gritos agonizantes das galinhas vizinhas, já entre os dentes de seu predador, que tiveram a infelicidade de ouvir por mais de uma vez. Pode-se dizer que mais que nunca, estavam aterrorizadas. A possibilidade de não se safarem, era terrivelmente considerada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram o dia inteiro tagarelando. Difícil saber quem tagarelava mais. Estavam visivelmente apavoradas e cada qual, a seu modo, de acordo com seu jeito próprio de conceber e ver as coisas, apresentava uma alternativa, uma receita de salvação que considerava mais apropriada para a ocasião. A galinha mais cinzenta, sugeria para as demais, que fossem todas, no final da tarde, para a parte mais alta do galinheiro, porque por ali, havia uma passagem, para um caixote por sobre o telhadinho, por onde certamente estariam mais seguras. Riscos? Sim, havia. Se o caixote cedesse ao peso, poderiam cair no quintal do vizinho, e aí sim, tornar-se-iam presas mais fáceis, e seriam certamente, devoradas. A galinha mais velha, sugeria o silêncio total quando a noite caísse, pois já era do seu conhecimento que o faro daquela raposa não era dos melhores, e que desconfiava inclusive, que ela identificasse suas vítimas pelo ruído. Acreditava que se mantivessem caladas, literalmente, de bichos fechados, ficariam, pois, protegidas. Riscos? Sim, a condição silenciosa acabaria por obrigá-las a uma posição pouco defensiva, o que em caso de ataque, poderia ser fatal. A outra, a mais franzina, sugeria que passassem apertadas por sob o buraco do muro, pois ali seria de mais difícil acesso à velha raposa, mas havia o inconveniente de não conseguirem dormir, dada a posição incômoda em que teriam que pernoitar. Riscos? Sim. A noite insone, poderia deixá-las mais fragilizadas perante um ataque fulminante. A galinha de crista quebrada, sugeria avançar sobre o animal e apresentava uma estratégia afiada, heróica, onde a raposa parecia mesmo não ter vez. Riscos? Havia. Um descuido, um vôo ou bicada em falso, e transformar-se-iam em penas esvoaçantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As galinhas estavam todas convencidas que as alternativas que apresentavam, as suas próprias, eram as melhores, todas as outras apresentavam falhas gravíssimas, irreversíveis, diante das que acabava de formular. Cada uma delas cacarejava com mais veemência e convicção. Ao longo do dia, somavam argumentos às suas causas, que passaram a defender com paixão e fervor praticamente religioso. Cada uma acreditava piamente, que havia encontrado, finalmente, o caminho da salvação. Pulavam sobre o poleiro, tagarelavam, cacarejavam, gritavam, e quase não ouviam as alternativas, umas das outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A galinha, do primeiro plano, defendia a saída pelo alto, pois além de acreditar, estar livre de qualquer possibilidade de vir a falhar, via ainda, a alternativa como a possibilidade de uma vitória completa por sobre o inimigo. A saída por cima. Considerava as propostas das demais, que pouco ouvira, como entreguistas e ingênuas. Completamente inviáveis. A que pregava o silêncio, talvez inconscientemente, estivesse mesmo, a legislar em causa própria, na medida em que, sua alternativa, acreditava, era a que menos lhe exporia a riscos, dada a sua idade já avançada. Acreditava que as outras idéias, fossem por demais ousadas, egoístas e, portanto, fadadas ao fracasso. A magricela da turma, considerava muito mais sensato, ficarem as quatro, comprimidas por sob o muro, pois dali não teria como a raposa alcançá-las e que as propostas das companheiras eram irrealistas, e sem qualquer chance de êxito. A que certamente, quebrou a crista, em alguma disputa, ou rinha qualquer, defendia que o ataque ofensivo, pode dobrar o inimigo, e que a desonra saber que divide o território com companheiras covardes e derrotistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrastaram-se por horas num debate sem fim. Ali concentravam todas as suas energias, as quais não pensavam em poupar. O clima era tenso entre elas. O dia chegava ao fim, e muito distantes estavam de um consenso, um acordo. Tagarelavam, tagarelavam. As defesas cada vez mais apaixonados e os ataques cada vez mais fulminantes e mortais. As galinhas cacarejavam umas contra as outras, e se odiavam como nunca haviam feito. Nunca foram tão desunidas e loucas. Não deram por si, quando a raposa engoliu a todas.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-5433783961555040954?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/5433783961555040954/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=5433783961555040954' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/5433783961555040954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/5433783961555040954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/03/raposa-e-as-galinhas.html' title='A raposa e as galinhas'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SdFpnfVMjrI/AAAAAAAAAV0/m4FKwKmJSv8/s72-c/galinha.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-7947378495316644163</id><published>2009-03-29T06:03:00.000-07:00</published><updated>2009-03-29T14:44:43.525-07:00</updated><title type='text'>Efeito borboleta possível.</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Sc92cl-KNlI/AAAAAAAAAVk/e2nH7Ng8DGg/s1600-h/996.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5318599918549087826" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Sc92cl-KNlI/AAAAAAAAAVk/e2nH7Ng8DGg/s320/996.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Efeito borboleta possível.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O passeio em uma grande locadora pode ser muito interessante, não só pela gama imensa de filmes ainda não assistidos que ela oferece, como pela oportunidade de relembrar de filmes já há muito vistos, tantos aqueles, que a muito custo e sofrimento, chegamos ao final, quanto aquelas histórias inesquecíveis, que não só indicaríamos para amigos ou desconhecidos, como estaríamos sempre prontos para assisti-los por uma segunda vez. Os filmes podem nos fascinar por uma série de motivos, seja pelo desempenho ímpar de seus atores, pelo cenário, fotografia, seja pelo enredo, pela sofisticação da produção, por emoções proporcionadas, pelo choro ou pelo riso, e por uma série de outras razões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revejo na prateleira o filme “Efeito Borboleta”, que assisti em uma sala de cinema cheia, quando do seu lançamento. Achei uma experiência muito interessante. Não me lembro mais dos detalhes da trama, mas o que faz deste filme, especial? Após estes anos todos, não me lembro de comentários negativos a respeito dele, ou de alguém que dissesse não ter gostado. Além de ser um filme, que praticamente, prende a atenção do início ao fim, ele praticamente nos traz uma lição, daquelas que costumamos chamar de lições de vida. Sim. Ao nos mostramos de forma enfática o óbvio. Qual seja, o quanto um detalhe pequeno da vida, um fato menor, aparentemente sem muita importância, pode mudar, fatalmente, irremediavelmente, o rumo de uma vida, ou o curso de uma grande história. O filme desperta certo sentimento de responsabilidade com nossas próprias vidas, na medida em que a todo o momento nos faz recordar, como nossos atos, além de simples ações em si, por menores que sejam, podem acarretar tão enormes e fatais desdobramentos, tantos os esperados, quanto os fatalmente imprevisíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme é a história de um jovem, com um distúrbio grave, relacionado a memória, que adquire condições de voltar ao passado, e assim, fazer e refazer ações da sua vida, para melhorar-lhe o destino, para restaurar algo em sua vida, que sempre acreditava pudesse ser mudado. O enredo é uma sucessão de idas e vindas, onde a cada alteração, feita através da intervenção no tempo, o personagem se vê mais atolado em situações dramáticas, quando não trágicas. Em nossas vidas reais, sabemos que nem sempre, temos como voltar atrás. Talvez nisto, esteja a pertinência do filme, lembrar-nos da nossa condição tipicamente humana, tanto no sentido das nossas próprias limitações, quando no das possibilidades conquistadas ou decisivamente perdidas, que vamos somando ao longo do tempo. Diz José Saramago, em seu “A viagem do Elefante”, “Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos querem nos fazer crer, que exista já um destino traçado, para cada homem, para a humanidade inteira, cujo desenrolar não tem como ser alterado pelas ações humanas, pois pela eternidade dos tempos, foi já traçado nos laboratórios dos deuses. Olhando para a história, para o tempo passado, retrospectivamente, temos a falsa impressão, de que o presente sob o qual montamos assento, foi sempre uma fatalidade, sem caminhos ou rotas alternativas, do qual não há como escapar, um fenômeno inexorável. Como se a história inteira fosse uma grande novela traçada por mãos divinas, cujo destino fosse inevitável, e aos homens nada mais coubesse, que simplesmente, arrastar-se pelo fio condutor de uma história, cujo fim já está definido, desde o início.Não creio que assim seja. Não que a vida não seja dotada de sentidos, mas que estes sentidos se vão construindo, com o que fazemos deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabemos o quão poderosas são as grandes forças da história. Para fins de ilustração, sabemos que independente do que pessoalmente fizeram os grandes inventores dos séculos XVII e XVIII, o fenômeno chamado de Revolução Industrial, ocorreria de qualquer maneira. Não fossem Cabral ou Colombo, a América certamente seria descoberta pela Europa, pela mesma época, ou quem sabe, pelas mesmas naus. Não fosse o assassinato do arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, em Saravejo, o mundo, também não se pouparia da grande carnificina que foram as grandes guerras mundiais. Mesmo que Marx não houvesse nascido, a história não se livraria da longeva luta de classes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há grandes fatos e fenômenos históricos, que parecem mesmo dispensar as realizações pessoais, o heroísmo de determinados personagens, a persistência de alguns sujeitos. Mas isto é uma meia verdade. Para além das forças da história, que são de fato, poderosas, justamente por serem fruto das opções humanas, para além das forças do destino, traçado por deuses, que parecem desconhecer o perdão, a responsabilidade do indivíduo sobre sua própria vida e sobre a história do mundo é de fato, muito grande. Um passo em falso, o caminhar lento pela avenida apressada, pode ser fatal. Sem nos esquecermos, ainda, que os homens constroem seus mitos, de acordo com suas escolhas ou crenças, pois somos nós, quem no fim das contas, os elegemos. Para que possamos refletir neles e eles em nós. Somos o reflexo do espelho que construímos com nossas próprias mãos e desejos. As nossas opções ou escolhas, quer acreditemos nisto ou não, certamente deixarão nossas vidas, o mundo e a história, melhores ou piores. Podemos sim, alterar o destino, o efeito borboleta possível.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-7947378495316644163?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/7947378495316644163/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=7947378495316644163' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/7947378495316644163'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/7947378495316644163'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/03/efeito-borboleta-possivel.html' title='Efeito borboleta possível.'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/Sc92cl-KNlI/AAAAAAAAAVk/e2nH7Ng8DGg/s72-c/996.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-5619717063983320142</id><published>2009-03-17T18:25:00.000-07:00</published><updated>2009-03-19T08:21:28.985-07:00</updated><title type='text'>Descoberta da feiúra</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/ScBPlVuqftI/AAAAAAAAAVU/cKxKKeqz0Jo/s1600-h/picasso_moca_espelho.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5314335063203806930" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 254px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/ScBPlVuqftI/AAAAAAAAAVU/cKxKKeqz0Jo/s320/picasso_moca_espelho.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Descoberta da feiúra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, no fundo, nunca pensei que pudessem ser feias as mulheres. Pelos motivos óbvios que já todos conhecem. Desde o início dos tempos, sejam os nossos, sejam os do mundo, a imagem feminina sempre esteve associada ao mito da beleza, da criação da espécie, a fonte primordial da vida. Seja pelos mitos, seja pelo prazer que podem proporcionar, as mulheres sempre inspiraram as mais belas canções, os mais admirados retratos, e os mais líricos dos poemas. Tem sido assim. A presença feminina esteve sempre associada a algum tipo de encantamento, é o que se ouve sempre, nas mais variadas línguas, nos mais diferentes tempos ou lugares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os homens muitas vezes, pretendem lhes roubar o que se tornou de direito. Ao estudarmos, por exemplo, a evolução humana, embalarmos o berço da espécie, encontraremos nomes que parecem querer deixar de lado, elas. Homo erectus, Homem de Neandertal, Homem de Cro – magno, Homo habilis, sapiens, e por aí afora, como se fosse a grande forra, como se a história humana só de homens tratasse. Onde a própria espécie, tornou-se, subjetivamente masculina, ao ser denomina de humanidade -, e não outro nome qualquer que lembrasse mais a elas que a nós. As palavras são poderosas, e não conseguimos dimensionar a força que podem adquirir ao longo do tempo, principalmente quando eternamente repetidas. Mas como algumas naturalidades, não têm como serem encobertas, a beleza mágica que trazem as mulheres ao longo do tempo, acabam por se afirmar no inconsciente coletivo, seja através das evidências religiosas, científicas, ou por uma paixão avassaladora qualquer que pode se revelar ao se cruzar uma esquina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos nomes divinos que sempre me trouxe encantamento foi Paccha Mamma, Mãe Terra, deusa da América pré-colombiana, que encarna o ideal feminino como força criadora. Osíris, no Antigo Egito, não atingiria a eternidade, ou até mesmo a fartura anual das colheitas, não fosse pelas mãos mágicas de sua esposa-irmã Ísis. A sombra da beleza das deusas antigas, e praticamente mortas, permanece vivíssima em nossas elucubrações poéticas, em nosso imaginário. Não ouvi quem dissesse que Eva fosse feia, e nem acredito que Adão, fosse de fato, definitivamente, resistir aos seus encantos. Assim é. Ademais, apesar de todas as grandes descobertas científicas, dos inúmeros fósseis que foram encontrados ao longo dos séculos, são ainda, as ancestrais femininas, as mais populares e representativas das origens da nossa espécie. Seja Lucy, a fêmea australopitecínea, considerada a grande mãe de todos nós, africana, seja Luzia, uma das mais antigas representantes humanas, cá das Américas. Talvez os homens se enganem ao acreditarem que Deus, fez a nós, sua imagem e semelhança. Acredito mesmo, que muitos impérios, tenham sido conquistados, territórios anexados, exércitos inteiros destroçados, para que o rei poderoso pudesse tornar-se, no máximo, atraente, aos olhos da amada. Talvez possa o desejo ter sido o grande motor da história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dados estes e tantos motivos é que nunca acreditei que pudesse achar feias as mulheres, claro está que algumas podem ser mais belas e atraentes, em função de todo tipo de sortes que pela vida se vai encontrar, mas feias, de todo feias, nunca acreditei que pudessem, no fundo, no fundo, serem. Seja pelos atributos naturais, seja pelo imaginário milenar, que levamos guardados em nós, são fundamentalmente, belas. Recentemente, porém, descobri, uma fórmula perversa, pela qual pode deixar uma mulher, e assim ainda podemos dizer, completamente desprovida de qualquer beleza. Uma mistura heterogênea de vaidades pessoais, disputas por poder, cargos ou influência, que fazem com que toda a beleza historicamente construída, torne-se um grande borrão, como imaginava, que apenas aos homens pudesse ocorrer. Ledo engano. Um sistema complexo, envolvendo intrigas, trapaças, difamações, inescrupulosidades, faz com que uma feiúra pálida, amorfa, exale do ventre de rugas precoces, tristemente femininas. Descobri, então, o quanto pode ser feia uma mulher.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-5619717063983320142?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/5619717063983320142/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=5619717063983320142' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/5619717063983320142'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/5619717063983320142'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/03/descoberta-da-feiura.html' title='Descoberta da feiúra'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/ScBPlVuqftI/AAAAAAAAAVU/cKxKKeqz0Jo/s72-c/picasso_moca_espelho.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-8924410779726031446</id><published>2009-01-06T19:28:00.000-08:00</published><updated>2009-01-29T12:22:42.685-08:00</updated><title type='text'>Muro Dona Marta - o nosso muro da vergonha.</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SWQiOLEGyJI/AAAAAAAAAU8/wYTO9_ND2jI/s1600-h/0,,11681033-EX,00.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SWQh0NEbKUI/AAAAAAAAAU0/W8J8HdG2x_E/s1600-h/325101.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5288389043184937282" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 214px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SWQh0NEbKUI/AAAAAAAAAU0/W8J8HdG2x_E/s320/325101.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muro Dona Marta – o nosso muro da vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Já há milhares de anos, que os homens se põem a levantar muros e muralhas. Os muros foram criados ainda nos mais remotos tempos como forma de garantir a propriedade privada, expandir impérios e separar os povos. Ao longo da História, incontáveis deles foram construídos. Muitos ainda guardam a memória dos tempos idos, através de suas ruínas ou partes inteiras, dada a grandiosidade de suas dimensões, muitos foram completamente derrubados, e não deixaram para a posteridade, quaisquer vestígios, muitos outros, ainda estão a atormentar populações inteiras, outros tantos, se planejam construir pelo mundo afora, ilustrando, como a intolerância e a arrogância do poder, são manifestações que se perpetuam no tempo, e são, às vezes, mais duras e resistentes que as próprias pedras, com que são construídas as maiores muralhas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A mãe de todas as muralhas, a muralha da China, cortou o território da Ásia, entre desertos e montanhas, por aproximadamente 6500 km. Nos pontos mais altos, chega a medir 16,5metros e serviu como fronteira do Antigo Império Chinês por mais de mil anos, consumindo o trabalho de cerca de um milhão de homens. Calcula-se que com o material utilizado em sua construção, daria para se construir um muro de 2 metros de altura em torno da linha do Equador. A muralha de Adriano, que protegia a fronteira norte do Império Romano com a Escócia, concluída no ano 126, construída de pedra e turfa, tinha 118 km de extensão. Possuía cerca de 4 metros de altura e 2,5 metros de largura, e de tão larga, foi construída sobre ela, uma estrada, por onde percorriam as sentinelas do Império. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em tempos mais recentes, um enorme muro, de mais ou menos 150 km de extensão e 4 metros de altura, com cercas de ferro, barreiras antiveículos, arame farpado e mais de 300 postos de vigilância, dividiram um país e uma cidade inteira, entre 1961 e 1989, o memorável Muro de Berlim, símbolo de um mundo dividido em dois. Os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia vêm sendo cercados por muros fortificados, cercas de arame, valas e barreiras por centenas de quilômetros. Em alguns pontos, chegam a medir 9 metros de altura, mais que o dobro da altura do muro de Berlim. O imperialismo norte-americano não podia ficar para trás e o governo de George W. Bush, com o respaldo do Congresso, vem construindo um muro gigantesco para separar os EUA, da América Latina, na fronteira com o México. Diversos outros muros e valas de separação distanciaram homens e povos ao longo dos tempos. Como exemplos mais recentes, poderíamos citar ainda, as barreiras físicas que tornaram incomunicáveis cipriotas, turcos e gregos, irlandeses católicos e protestantes, coreanos do norte e coreanos do sul, dentre tantos outros.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O imperador Adriano, no momento da expansão máxima de seu Império, procurava protegê-lo dos bárbaros que vinham do norte. Os imperados chineses na Antiguidade, num esforço monumental, tentavam impedir a penetração de tribos nômades da Mongólia e da Manchúria em suas fronteiras. O muro de Berlim dividiu o mundo e separou os povos, entre os que viveriam na banda ocidental da cidade, sob os ditames da economia americana, e os do lado oriental, que estariam sob o domínio da União Soviética. Os muros construídos por Israel têm como finalidade primeira encarcerar os palestinos. Na faixa de Gaza, com 40 km de extensão e 10 km de largura, vivem confinadas cerca de um milhão e meio de pessoas. O chamado muro de Bush, em construção, visa, fundamentalmente, afastar os pobres do Sul, do paraíso e das oportunidades que muitos esperam encontrar no Norte rico. Para isso servem os muros, anexar e expandir domínios, expropriar territórios, garantir a propriedade, separar os homens, humilhá-los, confiná-los, subjugá-los, ou até mesmo, eliminá-los, o que torna-se mais fácil, quando estão encurralados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O governo do Estado do Rio de Janeiro pretende construir também o seu muro, podendo, inclusive, criar mais um símbolo nacional. O muro, já para ser construído, orçado em 980 mil reais, terá quase 650 metros de cumprimento, e terá altura bem próxima à do muro de Berlim, 3 metros. A obra será realizada para cercar uma lateral inteira do Morro Dona Marta, Botafogo. De acordo com o governo, basta cercar apenas um lado da favela, pois do outro lado, há um plano inclinado e muros de propriedades particulares. De acordo com as notas oficiais, o muro será uma forma de conter a expansão da favela e também impedir a devastação da floresta vizinha. “A proposta é de proteção ao meio ambiente. Quando não há rochas ou outros protetores naturais, a comunidade avança na mata.”, diz Ícaro Moreno, presidente da Empresa de Obras Públicas do Estado. Segundo a assessoria do governo, “estamos investindo na ordem pública, enfrentando o tráfico de drogas e as milícias, impondo limites ao crescimento desordenado. Os ecolimites vão ao encontro dessa política de investimentos sociais com ordem pública”, diz a nota. Veja a peculiaridade brasileira. Aqui os muros da exclusão e do segregacionismo são chamados de ecolimites. Não há como doirar a pílula. Apesar da denominação com viés ecológico, a intenção do governo vai muito além que, minimamente, proteger a natureza. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os ecolimites, como afirma o próprio governo, vão ao encontro da política de investimentos sociais com ordem pública. De acordo com a propaganda oficial, o Morro Dona Marta foi a primeira favela do Rio em que a polícia conseguiu acabar com o tráfico de drogas, desde a ocupação policial ocorrida em 19 de novembro de 2008. A construção do muro faz parte das táticas de combate ao narcotráfico e também, da estratégia da guerra aos morros. Em 2004, o governo de Rosinha Mateus, manifestou a intenção de cercar a Rocinha, mas acabou recuando, após a resistência da comunidade. A meta dos governos parece ser tentar deter o crescimento destes bolsões de miséria através de uma ação policial truculenta e da construção de muralhas. É uma política de criação de guetos, inspirada em modelos estrangeiros. O atual governador do Rio, Sérgio Cabral, em entrevista recente, ao se enveredar pela polêmica discussão sobre o aborto, afirmou: “Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal. O Estado não dá conta.” De acordo com o governador, os pobres se reproduzem em proporções perigosas. É necessário contê-los. A construção do muro insere-se nesta lógica. Ademais, se observarmos atentamente os mapas e as fotos de satélite, veremos que o morro da Marta é uma mancha de pobreza em um dos principais cartões postais do Rio de Janeiro e quase uma ilha de escassez cercada por uma bela paisagem, por áreas nobres e grandes mansões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O morro Dona Marta possui cerca de 7.500 moradores, e segundo o presidente da associação de moradores do morro, José Mário, em nenhum momento, os líderes da comunidade local foram consultados sobre a viabilidade e conveniência da construção do muro. O Brasil agora se orgulha, por ter uma das 7 maravilhas do mundo moderno, o Cristo Redentor, o que se tem que perceber, é que bem abaixo do seu gigantesco nariz de pedra, um outro símbolo nacional é forjado, o nosso muro da vergonha.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-8924410779726031446?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/8924410779726031446/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=8924410779726031446' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/8924410779726031446'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/8924410779726031446'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2009/01/o-muro-dona-marta-o-nosso-muro-da.html' title='Muro Dona Marta - o nosso muro da vergonha.'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SWQh0NEbKUI/AAAAAAAAAU0/W8J8HdG2x_E/s72-c/325101.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-5500263521836779640</id><published>2008-11-09T16:39:00.000-08:00</published><updated>2008-11-10T06:16:22.439-08:00</updated><title type='text'>Parece mentira</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SReDKbNN7qI/AAAAAAAAANo/kccJcDL83JE/s1600-h/botero_abu_ghraib_57.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5266822504358211234" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 289px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SReDKbNN7qI/AAAAAAAAANo/kccJcDL83JE/s400/botero_abu_ghraib_57.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tivesse lido em algum lugar sobre o assunto, provavelmente, nem ousaria escrever sobre ele, talvez até me desse mesmo por satisfeito. Mas como não vi qualquer referência a tal coincidência, faço questão de citá-la. Quando ouvi falar pela primeira vez em Barack Obama, pensei de imediato, que esta candidatura não teria como vingar, independente de quem fosse o sujeito, pois, com um nome deste, que lembra o inimigo declarado número um dos EUA, Osama Bin Laden, o candidato não tivesse qualquer chance na disputa. Considerei que no imaginário popular, após o trauma do onze de setembro, e à condução política que se tem dado à chamada guerra ao terror, ser dono de um nome que além, de ser de origem africana, é um nome queniano, e tão parecido com o nome do terrorista saudita, fosse motivo para desqualificá-lo, de antemão, à corrida pela Casa Branca. Obama, que acabou sendo eleito, a partir de uma campanha que mobilizou e emocionou o país, tem ainda, o Hussein, que o aproxima também, nominalmente, de Saddam Hussein, que foi capturado e morto pelo governo dos EUA, após uma caçada impetuosa, que fez no Iraque todo o tipo de vítimas, de estudantes em universidades, a doentes em hospitais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Saramago, disse recentemente, que a era Bush inaugura também, a era da mentira. Bush fez da mentira escancarada o mote de seu desastroso e hoje, impopular, governo. Umas das principais razões da vitória de Obama, segundo analistas, são o descrédito e o repúdio popular à chamada doutrina Bush. O representante da extrema direita americana, testa de ferro da poderosa indústria de armamentos e das mega-indústrias petrolíferas, sai de cena, amargando um índice de impopularidade, praticamente inédito na história da América. Bush, e os conservadores do Partido Republicano, foram vítimas de suas próprias mentiras, uma ironia do destino. Os americanos, que elegeram e reelegeram Bush, fartaram-se de suas falácias, pois como sabemos, não se pode querer enganar a todos a todo o momento, eternamente. Bush atacou a liberdade individual tão vangloriada pelos americanos, com a sua “liberdade vigiada”, sombreando os tão propagados princípios do americanismo, o “americans life”, o liberalismo e a democracia; enfiou suas tropas num verdadeiro atoleiro militar que é o Iraque, que tem trazido mais lágrimas que vitórias aos seus concidadãos,além de ter o final de seu governo, marcado por uma das piores crises financeiras da história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os americanos talvez tenham descoberto que Bin Laden foi treinado e financiado durante vários anos, por agentes da CIA, quando a Casa Branca e o Pentágono, queriam expulsar os soviéticos do Afeganistão. Talvez os americanos tenham se cansado de esperar para ver, finalmente, as tais armas químicas e biológicas desenvolvidas pelo Iraque, no governo de Saddam. Talvez tenham se fartado da política do Grande Irmão, que a tudo e a todos pretende controlar, vigiar, da falta de privacidade em seus emails, e de uma polícia política cada vez mais intrusiva. Quem sabe, tenham se envergonhado, os autoproclamados herdeiros da polis democrática, das atrocidades que são cometidas em seus presídios pelo mundo afora? Quem sabe queiram se redimir das formas repugnantes e desumanizantes da violência que puderam ver simbolizadas nos presídios de Guantánamo e de Abu Ghraib, onde afegãos, sauditas, iraquianos, e povos de várias outras nacionalidades são humilhados pelas torturas mais degradantes e bizarras da história da humanidade? Sim, os americanos elegeram um presidente, de nome Barack Hussein Obama Júnior. Parece mentira.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-5500263521836779640?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/5500263521836779640/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=5500263521836779640' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/5500263521836779640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/5500263521836779640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2008/11/parece-mentira.html' title='Parece mentira'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SReDKbNN7qI/AAAAAAAAANo/kccJcDL83JE/s72-c/botero_abu_ghraib_57.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-7143527060509841330</id><published>2008-10-15T14:17:00.000-07:00</published><updated>2008-11-22T05:28:20.344-08:00</updated><title type='text'>Outubro, os jornais e o mercado.</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SPegmFB7m6I/AAAAAAAAANg/3badGqdeac8/s1600-h/56942.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5257847666024094626" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SPegmFB7m6I/AAAAAAAAANg/3badGqdeac8/s400/56942.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Outubro, os jornais e o mercado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem teve a oportunidade de acompanhar os jornais neste mês de Outubro pôde perceber a força, onipotência e onipresença do grande deus-mercado. Este foi um mês atípico e nas linhas e entrelinhas dos jornais, podemos observar o quanto a poderosa entidade tem contribuído para tornar o mundo mais desigual, triste e patético. Do reino dos céus do capital, no centro nevrálgico do sistema, uma avalanche de bancos quebrados deixou os governos de plantão, reféns de uma crise financeira sem precedentes. Os pobres do mundo certamente pagarão a conta mais uma vez. A expectativa, diante da crise, é que a miséria, no médio e longo prazo, se aprofunde e agrave ainda mais. Já sabemos que a gritaria nas Bolsas, a brusca oscilação dos números, do câmbio, do valor das moedas, acaba por resultar no aumento da fome, da desnutrição, de doenças crônicas, mortalidade infantil, violência e de tantos outros dramas que afligem a população mundial em nosso capitalismo global e selvagem.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No campo da política, em qualquer esfera ou setor, vimos que praticamente não há alternativa. Entre os verdes, amarelos, azuis, roxos, vermelhos, ou qualquer outra coloração ou bandeira que possa aparecer, as receitas e a fórmulas, são sempre praticamente as mesmas. A arte da política vem se tornando cada vez mais estreita. Em tempos de campanha eleitoral, os candidatos são apresentados ao eleitorado como se mais não fossem, que simples mercadorias, bem embaladinhas pelos marqueteiros que tem a responsabilidade de eleger seus clientes. São eles os grandes agentes da ação política eleitoral, pois são, em ultima instância, quem, a serviço do grande capital, elegem, de fato, os governantes. Como bem observou o filósofo John Dewey, a política tornou-se “uma sombra dos negócios sobre a sociedade”. A política submissa aos mercados.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quem leu os jornais de Outubro, pôde se indignar com o episódio do poeta e professor de literatura que foi demitido de um colégio particular no Rio de Janeiro, porque os pais dos alunos descobriram no blog e nos livros publicados pelo professor, versos eróticos. Os pais consideraram então, que os versos poderiam desqualificá-lo como educador e pressionaram a escola a demiti-lo. Como a escola não tinha a intenção de contrariar os interesses de seus clientes, o professor perdeu seu emprego. A escola alegou que havia um ‘parecer de psicólogos e juristas condenando a combinação do professor com o escritor em uma só pessoa’. O gesto ilustra de forma bem simbólica como o mercado, pode mais uma vez, ser alienante. A poesia foi extirpada do local onde prioritariamente, deveria se produzir o conhecimento, o saber - a instituição escolar. Na confusão dos negócios, muita coisa fica fora do lugar.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Outro caso típico de coisa fora do lugar é a crise pela qual vem passando a arte circense no país afora, matéria do jornal Estado de Minas desta semana. Só aqui em Belo Horizonte, onde há 3o anos, havia mais de 35 circos de bairro, hoje, não existem mais. É o prenúncio do fim de uma das manifestações mais antigas da arte popular. Entre um sem número de fatores que explicam o fracasso pouco espetacular dos circos itinerantes no Brasil é justamente o mercado imobiliário. Na maioria das vezes, os aluguéis dos imóveis nas regiões mais acessíveis ao grande público são incompatíveis com as rendas auferidas e a necessidade de sobrevivência dos artistas. A arte circense agoniza e morre ante o jogo da especulação imobiliária. Segundo Sônia Braskuper, acrobata, trapezista e mágica do circo Imperial, “Um dos prefeitos teve a capacidade de me dizer que nós, artistas, quando chegamos ao município, atrapalhamos a economia local, uma vez que os moradores compram os ingressos”. Os artistas, além de praticamente excluídos do mercado, também o são das praças, das cidades, demonstrando que junto à exclusão sócio-econômica, sempre vem acompanhada uma dose de intolerância, principalmente advinda das elites locais. Quase não há espaço para o circo mambembe, itinerante, em nossa pós-moderna aldeia global. “A coisa mais triste do mundo é quando encontramos um palhaço tradicional na porta de uma loja, fazendo palhaçadas para um público que não a enxerga”, afirma Sula Mavrudis, fundadora da entidade Rede de Apoio ao Circo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Deu no jornal. Um pequeno grupo de adolescentes encontrou, às margens de um córrego fétido no Bairro Solar, em Belo Horizonte, um baú recém desenterrado por pedreiros, que não deram importância ao objeto, repleto de pedras de várias cores, semelhantes a esmeraldas, rubis e safiras, além de colares, brincos e pingentes. O anúncio da descoberta abriu na região, entre a vizinhança, uma verdadeira corrida ao ouro; vários moradores foram ao local ver se podiam encontrar alguma sobra, alguma pedrinha que pudesse ser trocada no mercado. Mas a busca parece, ter sido vã, o sonho e a alegria duraram pouco, pois de acordo com um especialista, as pedras são crizopázios, usadas para a produção de bijuterias. O tesouro, que muitos acreditavam ter pertencido a garimpeiros ou a um rico fazendeiro que viveu por estas bandas há muitos anos, acabou virando pó ante os olhos sonhadores dos antes sortudos e privilegiados descobridores, do bairro Solar. Outro sonho de eldorado desfeito. “(...)é uma pena não ter valor de mercado. Serve como lição. A gente que nasceu pobre, para crescer, tem que ser por meio do trabalho. Não adianta sonhar”, desabafa a dona-de-casa Marcelinha Pereira, de vinte e nove anos, quem também foi à cata do tesouro, sem poder certamente dimensionar o efeito devastador que a crise atual terá sobre o já estrangulado mercado de trabalho.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Estes episódios, aparentemente isolados, veiculados pelos jornais nesta primeira semana de Outubro são como muitos outros, amostras da força do mercado enquanto entidade suprema que controla a tudo e a todos, tornando o mundo, a cada dia, menos poético e alegre. Talvez as maiores lições que possamos tirar disso tudo, seja a voz dos principais protagonistas das histórias relatadas. Do poeta professor Oswaldo Martins: “Goya/o sonho o pintor revela/gostáramos de bruxas/de vê-las arder fogueira adentro/dos fuzilamentos/do caso Dreyfus/de ver Flaubert dizer/nos tribunais/e Sócrates ser morto/os espetáculo, senhores/está vivo”. Ou o depoimento emocionado do palhaço Rapadura: “No picadeiro está a vida, a alegria e o aconchego. Mesmo que a luta seja grande, temos que sobreviver e persistir na continuidade dessa arte. Fechar as cortinas é o mesmo que matar um sorriso”. Talvez ainda adiante sonhar. A vida se reinventa na arte, como alguém certamente já o disse, e essa certamente, não morreu, apesar do mercado, apesar da política.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-7143527060509841330?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/7143527060509841330/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=7143527060509841330' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/7143527060509841330'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/7143527060509841330'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2008/10/outubro-os-jornais-e-o-mercado.html' title='Outubro, os jornais e o mercado.'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SPegmFB7m6I/AAAAAAAAANg/3badGqdeac8/s72-c/56942.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-4734764842706595954</id><published>2008-10-04T15:57:00.000-07:00</published><updated>2008-10-16T12:40:49.769-07:00</updated><title type='text'>Os aviões de Wall Street</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SPeYvDWWYmI/AAAAAAAAANY/eAZ8NLJ4dN8/s1600-h/a-fome-de-pdua.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5257839024098665058" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SPeYvDWWYmI/AAAAAAAAANY/eAZ8NLJ4dN8/s400/a-fome-de-pdua.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Os aviões de Wall Street&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não entendo coisa alguma de economia. Muito pela minha falta de esforço em tentar compreender sua ciência, muito pelo excesso de esforço das classes dirigentes ou dos que estão a seu serviço, em fazer com que ela seja, muitas das vezes, ininteligível. Não é qualquer cidadão que consegue folhear as páginas dos cadernos de economia e ler com facilidade e desenvoltura os artigos, e principalmente, as opiniões, os debates que ali se travam. Neste aspecto, não estou sozinho. As opiniões, como em qualquer outro assunto, ou polêmica relacionada ao mundo dos homens, são contraditórias, conflitantes, divergentes. Há um sem números de quadros, números, tabelas, gráficos, que deixa a maioria dos leitores estarrecidos, diante de um código, que à primeira vista, parece absolutamente indecifrável. Talvez, seja este, mais um dos motivos, pelos quais a maioria absoluta dos brasileiros, leitores de jornais, lêem praticamente apenas os cadernos esportivos. Muitas das vezes, as explicações mais dificultam do que facilitam a compreensão de determinados fenômenos da economia. E assim caminha a humanidade. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Diante da mais recente crise do sistema capitalista global, os cadernos de economia tem vindo mais volumosos. O tempo gasto nos telejornais a tratar dos temas econômicos é também maior. Compreenderão os cidadãos do mundo o que se passa afinal com o sistema econômico que de certa forma, entrelaça todo o planeta e todos os povos? Compreenderão os africanos, os sul-americanos, os pobres do mundo, os pobres do sul, o que está a se passar de fato com o mundo, em seus fundamentos econômicos? Entenderemos nós, o que verdadeiramente medem os índices Nasdaq , Dow Jones, Bovespa e tantos outros? As flutuações do câmbio, as taxas dos mercados, a gritaria das Bolsas, o intuito dos planos, os discursos dos especialistas e tecnocratas? Entenderão os povos a língua desta nova entidade, o culto da nova divindade, o deus-mercado? Certamente, não. Estão a ver navios. É uma linguagem difícil de ser desvendada para a maioria da população mundial, que vive, digamos alijada, das benesses do capital. É uma fatalidade.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A crise recente, que se manifesta a partir de Wall Street, mesmo sendo difícil de ser compreendida, será certamente sentida, vivida pela maioria da população mundial que será chamada, mais uma vez, a pagar a conta. Isto é certo. Não saberia explicar esta crise, com o rigor técnico que a natureza complexa do sistema demanda. Mas este fenômeno me fez lembrar um golpe que vi sendo aplicado, pelo menos duas vezes, anos atrás. Golpe que fez, por sinal, uma infinidade de vítimas. Claro, que em proporções infimamente menores em relação à crise de Nova Iorque. O golpe começava com um jogo, que se não me trai a memória, chamava-se avião. Aqui em Belo Horizonte, começou com algumas poucas pessoas, e rapidamente, envolveu praticamente quase a cidade inteira; não havia quem não conhecesse alguém que tivesse entrado neste jogo, neste avião que mais parecia uma canoa furada. Funcionava assim: você pagava um valor x para quem te apresentasse ao esquema. Feito isto, você deveria encontrar mais dez vítimas, e cada uma deveria lhe pagar o mesmo valor x que você havia pago. Neste momento, você obtinha o seu montante, aumentado dez vezes. Um bom negócio. Cada um que pagou o valor x, teria que arrebanhar mais dez vítmas para que enfim, pudesse também usufruir do seu quinhão, do seu investimento. Aqueles que deram início ao jogo acabaram se dando bem, pois era uma novidade, e todos queriam se aproveitar, porém o crescimento do sistema, em escala geométrica, rapidamente envolveu uma população bastante considerável. Mas como garantir a partir daí, que todos lucrassem? Impossível. O sistema não se auto-sustentava, pois para cada ganhador, havia dez pagadores. E claro está que em um sistema assim é logicamente impossível que todos ganhem. Pelo contrário, a maioria esmagadora pagou o pato para uma minoria espertalhona que deu o sinal de partida. Muita gente ficou no prejuízo. E pouquíssimos, na verdade, se divertiram com o jogo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por algum motivo, a crise em Wall Street me lembrou este golpe. Só que em escala bem maior. A população agora, chamada para pagar a conta da farra das elites que controlam a economia mundial, é infinitamente maior que as vítimas do aviãozinho, e o montante envolvido é um valor, que nós, pobres mortais, não temos como mensurar. O preço a pagar será alto. A grande burguesia fez a festa e lucrou como nunca em toda a história, se empanturrou. A ressaca sofrerá grande parte da humanidade. Os estragos serão conhecidos no médio ou longo prazo. E este jogo, este avião que partiu de Wall Street terá certamente efeito mais nefasto que os aviões que recentemente vitimaram os americanos. O que fazer para que o mundo não se transforme num futuro próximo, em um gigantesco marco zero?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-4734764842706595954?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/4734764842706595954/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=4734764842706595954' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/4734764842706595954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/4734764842706595954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2008/10/os-avies-de-wall-street.html' title='Os aviões de Wall Street'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SPeYvDWWYmI/AAAAAAAAANY/eAZ8NLJ4dN8/s72-c/a-fome-de-pdua.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-3428262709837056583</id><published>2008-09-30T16:23:00.000-07:00</published><updated>2008-11-22T05:34:50.766-08:00</updated><title type='text'>Estado de alerta</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SPeWrXyi0PI/AAAAAAAAANQ/oSdgEthXQ6w/s1600-h/binÃ³culo.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5257836761842897138" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SPeWrXyi0PI/AAAAAAAAANQ/oSdgEthXQ6w/s400/bin%25C3%25B3culo.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Estado de alerta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Á nossa volta, sempre encontramos pessoas que defendem determinadas teses, idéias, posições, pontos de vista, com muita convicção, força e entusiasmo, o que pode ser, muitas das vezes, saudável e construtivo, pois muitas das vezes, as paixões renovadas, o discurso articulado, e a capacidade de convencimento e de arregimentação de apoios, podem em muitos casos contribuir para o bem comum, e até mesmo, para a salvação coletiva. Este potencial é praticamente um presente dado à natureza humana, a nós, seres gregários, históricos, sociais, que estamos sempre à cata de líderes, representantes das nossas causas, maiores ou menores, dependendo da ocasião. A atuação de alguns sujeitos da história é de fundamental importância, para grandes saltos de qualidade. São inúmeros os exemplos que poderíamos citar, seja na história universal, seja na nossa história local, regional ou doméstica. A história da humanidade está repleta de nomes que sempre representaram o desejo supremo da espécie de liberdade e redenção. Homens que sempre lutaram movidos por princípios éticos e abraçaram a causa dos povos, da própria humanidade, enfim... São sujeitos ativos, encontrados em todos os locais, em todas as épocas, assumindo a missão de porta-vozes das maiorias, ou das minorias, não importa agora, ao certo. Personagens que arrastaram muitos outros, no vigor dos seus argumentos, na trilha das suas idéias ou ideais. Porém, entre as lideranças humanas, sempre há aqueles que de fato estão convencidos que podem dar a sua contribuição para o aprimoramento da nossa espécie, e muitas vezes, entregam a vida, às causas que defendem, mas também há, um número considerável de líderes, que utilizam o seu potencial mobilizador exclusivamente para causas mais mesquinhas. Indivíduos que, ao se apropriarem de um discurso supostamente democrático, justo e humano, o fazem, com um propósito contrário. Utilizam-se do potencial mobilizador para massagearem o ego, subtrairem vantagens e acumularem poder. Esses seres, muitas das vezes, se misturam entre os outros e se disfarçam com muita facilidade, principalmente, quando no meio de um público pouco crítico ou observador. São geralmente, pessoas influentes, cercadas de apoiadores, discípulos, simpatizantes, correligionários, e que praticam com desenvoltura o mimetismo político. Suas convicções facilmente se cedem à satisfação de pequenos desejos pessoais ou interesses econômicos. Mantém o discurso afinado, atento às demandas e anseios de suas bases, mas tem como fim último, não a realização do que prega, mas as exigências do umbigo. Se pararmos para observar, veremos que sempre os encontraremos entre nós; cheios de boas intenções, falantes, convincentes, parecem mesmo sinceros, e dignos de grandes verdades. Tem sempre uma boa causa a defender. É um tipo em proliferação e que seqüestra esperanças, mas é praga de todos os tempos, e praticamente inevitável. É necessário identificá-los, apesar de parecer difícil, pois geralmente são ótimos atores, mas abusam de nossa boa vontade, e nos ludibriam, pois é a condição mesma, de sua sobrevivência. Existem diversas formas de desmascararmos o farsante, vai depender muito da nossa capacidade de observação e discernimento, ou até mesmo da nossa intuição ou criatividade. Mas na falta de opções, um bom caminho, para que evitemos o engano maior, é estarmos sempre atentos às suas contradições. Por melhor que disfarcem, a força das contradições é sempre muito reveladora. A mentira prolongada e persistente sempre deixa escapar algumas de suas facetas. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;É necessário observar cuidadosamente os passos e os discursos daqueles que tem a pretensão de nos representar. Mas se ainda é pouco, existe um momento em que sua fraqueza fica mais evidente: quando estão em jogo, seus interesses privados. Aqui todo alerta é pouco. Não há ideologia que possa contrariar interesses desta natureza, entre o tipo de indivíduo que é aqui tratado. Normalmente cedem fácil às pressões de seus desejos e ambições pessoais, e são exageradamente vaidosos. É necessário estarmos atentos, pois estão em todos os lugares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-3428262709837056583?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/3428262709837056583/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=3428262709837056583' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/3428262709837056583'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/3428262709837056583'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2008/09/estado-de-alerta.html' title='Estado de alerta'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SPeWrXyi0PI/AAAAAAAAANQ/oSdgEthXQ6w/s72-c/bin%25C3%25B3culo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-1969893261700679416</id><published>2008-09-24T17:38:00.000-07:00</published><updated>2010-09-14T15:10:45.988-07:00</updated><title type='text'>A viagem de Pedro</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SYXXkYNUa4I/AAAAAAAAAVE/KejXT4XSk4U/s1600-h/abstrato_em_preto.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5297877556644834178" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 278px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SYXXkYNUa4I/AAAAAAAAAVE/KejXT4XSk4U/s320/abstrato_em_preto.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;A viagem de Pedro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro era de uma família de lavradores, e pelo que se tem notícia, das mais antigas daquele grotão. Pelo que se conta, do que os familiares muito se orgulham, seus antepassados já cultivavam aquela terra, aquele mesmo solo, há dezenas de gerações; coisa que se diz de boca em boca, à boca miúda, mas que nem a ciência, com todos os seus métodos e experimentações, poderá um dia, de fato, provar. A considerar o espírito dos costumes locais, tão arraigado em cada trejeito ou palavra desta humilde família de agricultores, e o domínio quase mágico do maneio da terra, como se cada grão, fosse ao mesmo tempo todos os outros grãos por ali já cultivados, torna-se difícil duvidar que esta pobre gente esteja aí já plantada há menos de uma dezena de séculos. As gerações foram se sucedendo, uma a uma, cada qual no seu tempo próprio, tempo devido. As crianças prevendo nos velhos, o futuro, que lhes aguarda. Os velhos buscando na imagem das crianças, o espelho perdido, o passado que se apagou. Assim transcorre o tempo, naquele vale distante, sepultando os homens na terra cultivada por eles, gerando outros homens do ventre de quem a terra cultiva. Pedro é então, mais um filho do tempo e da terra, terra esta que nunca lhes foi prometida. Desta terra fecunda, que leva nas entranhas o suor do trabalho de todos os seus ancestrais. Terra quase sem fim ou fronteiras, terra quase infinita de tão grande, que como se costuma dizer por ali, sempre pertenceu ao senhor coronel. Esse senhor coronel que não tem idade, uma entidade, que sempre esteve ali. Onipresente, onipotente. Que cá, entre nós, sempre fez a família de Pedro, desde seus mais remotos antepassados, comer, literalmente, o pão que o diabo amassou. Não imaginem que a família ignora que muitos dos seus, já se foram pelas balas de muitas das armas de fogo que pela casa grande do coronel já passaram. É óbvio que depois de tantos anos, tantas gerações, muitos conflitos violentos, já opuseram, de um lado, antepassados das famílias dos camponeses, e do outro, antepassados da família do coronel. A diferenciação social que se estabeleceu naquele lugar, que o tempo parece, às vezes, ter esquecido, corre pelas veias dos homens; são além do mais, diferenças sanguíneas. Mas em nome da ordem local, da produção de grãos, e da capela, que sempre apazigua os ânimos de seus fiéis, nos últimos anos, o lugarejo tem vivido dias de paz relativa, e tem até gozado, de certa prosperidade. A produção anda em alta, o mercado está favorável, e o proprietário anda com certo bom humor. O que não significa que haja nestes casos, uma lógica natural de causa e efeito, em que os lavradores, possam, finalmente, comer melhor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O patrão sempre se simpatizou muito com Pedro, por ser um trabalhador produtivo, forte e por nunca estar a reclamar do trabalho. A impressão, inclusive, que a todos passa, é que ele, de fato, gosta muito do que faz. Sente um grande prazer no trabalho com a terra, e chega, em certas ocasiões, louvar seu ofício em versos e trovas. Seu conhecimento nato, no trato com os grãos, já levou lucros ao patrão É um exímio trabalhador da fazenda. Destas coisas da terra, ele realmente entende. E isto, de certa forma, faz com que o coronel, tenha algum orgulho dele. Tanto é, que ao ouvir do filho, que veio lá da capital, que conheceu um Instituto Agropecuário que vem preparando tecnicamente e profissionalizando trabalhadores rurais, o patrão, resolveu, então, mandar Pedro, por uma semana, aos estudos. Quem sabe este moleque, com a inteligência que lhe é própria, não aprende por lá umas novidades, que possam aumentar os nossos rendimentos familiares? Pedro, a princípio, achou que era uma bobagem, algo desnecessário, uma vez, que para ele, não havia qualquer segredo ou mistério, que do ventre da terra, não pudesse desvendar. Sabia que apesar de jovem, era um lavrador extremamente experiente. É como se já tivesse nascido sabendo; sim, e quem garante já não o soubesse antes mesmo de nascer? Não sabemos ainda ao certo, o quanto de informações os genes podem transmitir pela cadeia das gerações. A verdade, é que ninguém mesmo se lembra, quando foi que aprendeu as primeiras artes do ofício, ou quem foi que lhe ensinou. Apesar de apresentar, de início, certa resistência em ir para a capital, acabou mudando de idéia diante da insistência do patrão, e com a possibilidade de fazer um curso voltado mais para a pecuária do que para a agricultura. Sim, afinal, poderia enfim, conhecer um pouco mais sobre o fabuloso reino animal. Sabemos todos, que dos animais, sempre temos muito a conhecer; inclusive, a variedade de espécies conhecida por Pedro é realmente pequena, até porque, ele nunca saiu dali. Pedro, em plena juventude, não conhece mais que os dois vilarejos vizinhos, onde vai de vez em quando, realizar algum comércio para o coronel. Pedro não conhece o mar. Talvez, seja esta, pois, a única chance de conhecer a cidade, e também, finalmente, um pouco mais sobre os animais; conhecer mais sobre os que já têm algum conhecimento, e quem sabe, conhecer também aqueles, os quais nunca viu ou ouviu falar. Afinal, poderá desvendar os mistérios da pecuária e especializar-se no trato com as criações da fazenda. Na prática, sabe muita coisa, mas é oportunidade para ampliar seus conhecimentos técnicos, numa área, que na verdade, já é sua vida. Resolveu o jovem lavrador, enfrentar o desafio. Afinal, teria ainda, uma longa jornada de trabalhos pela frente. E quem sabe um pouco mais de conhecimento não poderia lhe melhorar a sorte?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O patrão não era homem de muita conversa. Tinha fama de implacável, mas também de decidido. Gostava de ver suas idéias executadas. Achava-se um empreendedor, e queria agora, experimentar. Fora os desejos sutis, que são inconfessáveis, mas que fazem parte do imaginário dos que eternamente exercem o poder; principalmente daqueles, que tem a pretensão de exercer o poder absoluto, supremo, inconteste. O controle das vidas. As vidas como peças, como jogo. O destino de outras vidas nas próprias mãos. O poder de vida e de morte. O poder eternamente eterno. O poder do arbítrio sobre a escolha do outro. O poder que pretensamente transforma os homens em deuses, ou simplesmente, os aproxima deles. Que assim se faça. E assim se fez. Pedro desembarca na rodoviária da capital, sozinho. Fica realmente atordoado, nunca viu tanta luz, tanta gente, tantas ruas, tanto ruído. Pedro começa a se apavorar. Passa as mãos pelo rosto e sente o suor que escorre entre os olhos e o nariz, não sabe agora ao certo, se é suor, ou se são lágrimas. Não sabe ainda que alegria é esta que faz chorar ou suar de medo. É Pedro. Na cidade de pedra, de concreto, de asfalto. Ao desembarcar, fica alguns minutos imóvel. Como pode ser Deus tão criativo, para criar tantas faces diferentes? Para onde olham todos os olhos? Para onde olho eu em meio a tantos olhares? Quantos somos? Mas como tantos iguais? Como tantos tão diferentes? Pedro sente-se atordoado. É para ele um fenômeno novo, o fenômeno da multidão. Respira fundo, procura manter o autocontrole, e procura por si em meio aos outros. Tem a sensação de ter perdido um pedaço de si próprio. Parece que falta uma parte. Não tem mais a certeza se é de fato ele mesmo, quem ali está. Respira fundo mais uma vez. Dá dois passos, e finalmente, recupera o equilíbrio. Segue pela larga avenida que se abre em frente ao terminal rodoviário. Por sorte, rapidamente, ao cruzar duas longas avenidas, encontra hospedagem. Na verdade, acabou por entrar na primeira porta, que trazia pendurada numa chapa de bronze, a palavra pensão. Não era um grande leitor, como já pode se imaginar, mas havia tido a oportunidade, na infância, de cursar as duas séries iniciais do ensino fundamental. E as notas, contas e recibos do comércio do patrão haviam feito dele, digamos, um dos poucos semi-alfabetizados das redondezas; a quase totalidade dos lavradores vivia ainda, na pré-história das palavras. Entra pela porta. Uma porta estreita, a partir da qual se abria um ainda mais estreito e comprido corredor; um corredor que parecia não ter fim. Uma boca por onde adentrava Pedro, curioso, e um pouco amedrontado. Seria então, finalmente devorado? Aproxima-se do balcão, um velho balcão de madeira, já bastante comprometido com os cupins; o solo range, parece que toda a estrutura está a desabar. Sim, a ação dos cupins é praticamente fatal. Vai corroendo, corroendo, e muitas das vezes, sequer são percebidos, pois não estão nas superfícies, estão nos subsolos, nos porões, nas vigas e arrimos. Nos sistemas internos, invisíveis, imperceptíveis. Em muitos casos, quando sua presença é notada, já pode ser tarde demais. O organismo está por todo, comprometido. A ação corrosiva dos cupins não é silenciosa, o ato de triturar a madeira é bastante ruidoso, porém não o é para a nossa limitada capacidade auditiva. Mas estão ali, aparentemente sem pressa, corroendo milimetricamente o seio das estruturas, bem debaixo do nosso nariz. Muitas das vezes, nem os percebemos, mesmo quando agem aos milhares. Se uma fenda se abre, uma ripa se parte, pronto, podemos, pela ação lenta, e progressiva dos cupins, virmos abaixo, por sob os escombros. O mundo pode desabar. Pedro se assusta quando se aproxima o atendente. O dinheiro que traz no bolso é mínimo, a conta de alimentar-se e instalar-se em acomodações bem modestas. O patrão já havia, inclusive, sugerido que se hospedasse nas proximidades da rodoviária. Era, pois, uma forma, de estar mais próximo de casa. Assim Pedro o fez. Ora, além de mais próxima de casa, o que é uma meia verdade, se é que isto existe, não era o que de fato havia pesado na escolha do coronel. Como já se sabia, era onde iria encontrar os preços mais modestos. Claro está que se tratando de uma relação entre patrão e empregado, o critério da redução de custos, a qualquer preço, é critério sagrado e, portanto, critério primeiro. Afinal de contas, o Instituto Agropecuário não fica muito distante dali.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pedro finalmente acomoda-se em um quarto bem modesto. Uma cama estreita, com um colchão que poderia ser um pouco menos fino, um armário antigo, também já herdado aos cupins, e um quadro pendurado, retratando o mar. Tinha ainda, por sorte, uma visão privilegiada, dentro do que pode ser considerado privilégio, em condições já tão precárias. Uma janelinha de madeira, na parte superior da parede lateral, no alto. O que significa que usufruir deste privilégio demandava certo trabalho, na medida em que era necessário subir em um enferrujado banquinho de metal que ficava ao lado da cama, para poder finalmente, apreciar um pedaço, também modesto, da paisagem urbana. Foi o que naquele momento, mais atraiu a atenção de Pedro. Agora, pode se acalmar. Estaria protegido ali. Subiu no banco e ficou inerte. Tudo era novidade. Uma pena não poder enxergar a rua num ângulo maior. O campo de visão era estreito, bem limitado, mas ia satisfazendo em doses homeopáticas a curiosidade do hóspede. Seria ali, por alguns dias, o seu quartel-general, o seu refúgio, de onde poderia observar, sem ser observado, o movimento dos homens da cidade. Dos homens e das mulheres. É o que começa a intrigá-lo. Pelo que se recorda, nunca havia visto tantas mulheres, tão diferentes. Impressionante. Na verdade, praticamente não tinha experiência com elas. Era ainda muito novo e o local onde morava, não ajudava muito. As moças, na sua terra, eram sempre muito vigiadas pelos pais, e os encontros amorosos entre os mais jovens eram sempre cheios de obstáculos. Mas aquela paisagem da janela era uma verdadeira revelação. Havia uma variedade enorme de fêmeas. Loiras, morenas, ruivas, negras, mulatas, índias, estrangeiras, altas, baixas, feias, bonitas, para todo o gosto, de todos os tipos. Mudava, pois, o tom das batidas do coração de Pedro. Coração que pulsa assustado, temeroso, pulsa frenético, em êxtase. As pernas de Pedro tremem por sobre o banco enferrujado. E continua a observar, não consegue tirar os olhos daquela rua movimentada, com milhares de transeuntes cruzando de um lado ao outro, o seu campo de visão. Mas uma porta aberta do outro lado da rua, para a qual Pedro passa a observar obsessivamente, acaba por deixar seu coração aos saltos. O local é um bar onde entra um número bem considerável de mulheres. E do ponto onde são observadas, parecem ser, todas elas, muito belas. E talvez, por ser verão, as mulheres, nesta noite quente, acabam se vestindo com economia de roupas. Pedro continua inerte. Não pisca. As pernas novamente tremem e parecem enviar impulsos elétricos ao seu cérebro viril que por instantes se atordoa, diante de uma série de imagens que invadem, sem sequer pedir licença, seu pensamento. São sombras de mulheres, de todas elas, que dançam, se agitam, cantam, são fantasmas femininos, despidos, são gemidos, sussurros, nos ouvidos de Pedro. Desce do banco. Sobe, rapidamente, outra vez. Decide-se. Vai ao bar. Mas como fazer? O dinheiro é contado. E como se comportar neste ambiente tão diferente e estranho? Mas a imagens das mulheres que entram e saem, cada uma à sua maneira, com sua beleza própria, com suas fragrâncias, aromas, tornam-se sombras, espectros, que invadem o quarto da pensão e são inalados pelos poros de Pedro. Está possuído de sensações. Avalanche de desejos contidos, talvez mesmo, não revelados, que se rebentam sem qualquer possibilidade de contenção. Não há volta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nesta primeira noite na cidade, antes mesmo de conhecer o Instituto Agropecuário, onde certamente, irá se aprofundar na técnica da lida com os animais, resolve, então, Pedro, se aventurar por aquela porta iluminada, onde entram as mulheres mais belas que certamente já viu em toda sua vida. Veste a roupa com a qual tinha reservado para se apresentar na manhã seguinte à escola, guarda o dinheiro debaixo do colchão, e com passos certeiros, sem titubear um minuto sequer, como se estivesse a fazer aquilo que há muito tempo já havia planejado, vai ao seu destino. Atravessa a rua com tanta firmeza e convicção, que quem o observasse com um mínimo de atenção, poderia jurar que sempre tinha vivido ali, naquela cidade, naquela pensão. Parecia que se dirigia ao bar, como sempre o fez, numa vida inteira. Existem coisas, para as quais realmente não existe explicação, e se tentarmos explicar, podemos nos enveredar por um caminho, onde mais perdidos ainda ficaremos. O fato é que entra bastante seguro no bar, não há dúvida na decisão de Pedro. Senta-se na terceira mesa, após o fundo do balcão, e pede ao garçom um copo de vinho. Talvez fosse a primeira vez, que experimentasse desta bebida, mas isto não se sabe ao certo. Dá o primeiro trago e seu peito inflama, o coração da um sobressalto, as faces coram, são duas rosáceas, e suas mãos se aquecem. Os olhos se embaçam, e ao recuperarem a nitidez, miram a mesa da frente onde estão a conversar as duas mais belas mulheres, que talvez já tenham visto. Dá o segundo trago. Os olhos que desta vez, não embaçam, saem afoitos à caça dos olhos da mulher que tem à frente. E confirma, é realmente bela. Os olhos observados observam que o são, e passam, pois, a observar também. Pedro, por um segundo, sente o sol da noite irradiar dentro de si, e seus olhos traem seus desejos, ao soltarem faíscas, lampejos, para os olhos da mulher de vestido vermelho, que resolve se aproximar. A mulher, realmente belíssima, deixa suas companheiras à mesa, e vai ao encontro do homem que a trouxe com os olhos incandescentes. Senta-se. Nossos personagens são de poucas palavras, cada um por suas próprias razões. Mas o fato é que em determinadas ocasiões, o excesso de palavras, com seus verbos, adjetivos, sujeitos, tornam-se mesmo desnecessários. Ele, movido por uma febre, que talvez, todo o corpo fale por si. Ela, por entender bem o recado, substitui a palavra pelo toque, onde parece mesmo que não tem tempo a perder. Pousa lentamente suas mãos sobre a toalha da mesa, que em seguida, avançam sobre as mãos de Pedro, que dá o terceiro trago. Os olhos de Pedro percorrem todo o corpo que se esconde por baixo do curto tecido vermelho. Seus olhos vagueiam, farejam, mergulham pelas falhas da costura, pelas frestas das rendas, tateiam no escuro das partes vestidas, deslizam suaves sobre as curvas dos seios à mostra. Os cabelos são cheios, negros, floresta escura, onde os dedos de Pedro querem se perder; os seios fartos são horizontes abertos para se percorrer. Os olhos são grandes, profundos, são pontes. As mãos suaves, as unhas bem feitas, as pernas jovens, roliças, a pele branca, as pontas dos seios rosados. É o paraíso prostrado na fantasia de Pedro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pedro dá o último trago. A mulher se levanta e ele a acompanha. Ela segura sua mão, e o leva-o para fora. Ele paga o copo de vinho e sai de mãos dadas com ela entrecruzando avenidas. Ela dobra a primeira à direita, anda dois quarteirões, depois entra à esquerda e caminha até o primeiro sinal. Ele caminha pelas nuvens, o bafejo das ruas, são suspiros divinos, os faróis dos automóveis, estrelas pulsantes que sacralizam os caminhos, o ruído da cidade é música para os ouvidos ébrios do nosso andarilho urbano. A última gota do vinho escorre pela garganta. A atmosfera se enche de nuvens coloridas. Pedro dá um longo suspiro. Sente o sangue correr pelas veias, como nunca havia sentido em toda sua vida. O perfume que exala daquele corpo, misturado ao gosto adocicado do vinho em sua boca, proporciona-lhe uma sensação de êxtase que deixa sua alma em suspensão. Precisava possuir aquela mulher, que na verdade, nem sabia quem era. Mas que lhe enchia os olhos, e despertava-lhe desejos. A voz daquela mulher, que pouco falava, mas que quando dizia qualquer coisa, que ele, por sinal, quase não entendia, enchia de música o ar. Seu próprio corpo tornava-se sonoro, ritmado aos embalos daquelas poucas palavras. Pedro já não via a cidade que lhe levava, pelas ruas, avenidas e becos. Finalmente, a mulher leva-o para dentro de um quarto, que mal sabe Pedro de onde surgiu. Ao abrir a porta, Pedro sente-se à entrada do paraíso. O aroma que sobe dos lençóis e os travesseiros por sob as colchas, mais o afago daquela mulher, transformam seu sexo em vulcão.Ele imagina que sonha. Já não deseja qualquer outra coisa na vida, que aquele breve e eterno momento. Por ele, entregava-se assim, naquele instante; era muita emoção para um coração tão jovem. A mulher pousa os braços sobre seus ombros e puxa-lhe de vez. Com pressa e uma fúria estranha, que ele ainda não conhecera, arrancam suas roupas, sabe-se lá como, tão rapidamente, e colam-se um no outro, como os selos são colados pela saliva, ou pelo suor e sal, o são os corpos. Em um último pensamento, ele ainda se pergunta se é isso o amor, ao se entregar definitivamente aos braços e ao ventre daquela mulher. Alma de lavrador sobrevoa os campos, sem saber se é o plantio, ou se já é a colheita. Pela fresta da porta, entram os perfumes das flores do campo, daquelas flores que Pedro viu a vida inteira, mas só agora, parecem revelar seus perfumes, seus segredos. Os trovões que trazem as chuvas e o húmus vivificante arrebentam em seus peito como foguetes ou rojões. Seus olhos são sementes que se rompem, os desejos cascas que se abrem. Suas mãos estão a arar aquele corpo como a fazer primavera ou mesmo todas as estações. Pedro escorre como água sobre os seixos daquela pele, a arrebentar-se em cascata. Sua castidade é rompida, no coração da cidade. Goza Pedro do mundo, que não mais lhe assusta lá fora.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ato consumado, a mulher levanta-se e acende a luz. Pedro assusta-se. Não se sabe ao certo, se pelo cenário do seu primeiro amor, até então muito pouco iluminado, que fica agora às claras, se devido à alguma vergonha dos corpos agora completamente nus, ou de poder ver, frente a frente, outra vez, os olhos daquela mulher, que acabou agora de possuir ou ser possuído. Ele ainda não sabe. A mulher pega suas roupas e veste-se rapidamente, poderia se dizer, que tão rapidamente como antes se desnudou, parecia um ato automatizado, corriqueiro, do dia-a-dia, profissional. Senta-se à beira da cama e estende uma mão. Pedro vê no gesto uma última carícia como a finalizar uma noite de amor e pousa suas duas mãos sobre a mão estendida de forma quase fraternal, talvez gesto derradeiro, talvez sutilezas das paixões.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Num movimento brusco, a mulher puxa suas mãos, e volta a estendê-las com ira. Pedro parece finalmente entender, que tal gesto não mais é que um gesto de cobrança. De súbito, seu paraíso se desfaz. A aura colorida de encantos que fez arco-íris em sua primeira noite na capital se transforma em nuvens gigantes que prenunciam tempestades que devastam plantações. Ele sente-se nu, mas não uma nudeza qualquer, é uma nudeza única, completa, arrasadora. A mulher exige o pagamento, o dinheiro que Pedro não tem. Um calafrio percorre-lhe as espinhas, congela a alma, treme, não sabe se pelo frio, pelo pânico, ou pelo ridículo, mas treme como certamente nunca tremeu. Volta-lhe o medo que havia perdido ao atravessar aquela rua, que sequer sabe o nome, daquela velha pensão dos cupins, com uma pequena janela na parede lateral.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Após certificar-se que de fato, seria impossível receber a quantia devida, a mulher vai até a janela, escancara as cortinas e solta dois longos assobios. Abre a porta, e coloca o inadimplente para fora. Ao sair atordoado, antes que pudesse enxergar onde estava, dois homens fortes o seguram pelo braço. Era impossível resistir, e Pedro não oferece qualquer resistência. Os homens fazem então, mais uma tentativa, por sinal, rápida, de receber o preço devido. Mas não havia como fazê-lo. Um dos homens, muito mais furioso que o outro, não possui qualquer sinal de condescendência, de paciência, tolerância. Levanta um porrete que trazia em uma das mãos e desfere em Pedro um golpe fatal. Pedro cai e sua face branca repousa sobre a poça de sangue da calçada. Pedro não conheceu o amor. Pedro não conheceu o Instituto Agropecuário. Não conheceu o que queria sobre os animais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-1969893261700679416?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/1969893261700679416/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=1969893261700679416' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/1969893261700679416'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/1969893261700679416'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2008/09/viagem-de-pedro.html' title='A viagem de Pedro'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SYXXkYNUa4I/AAAAAAAAAVE/KejXT4XSk4U/s72-c/abstrato_em_preto.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-2503030521762442902</id><published>2008-09-21T17:29:00.001-07:00</published><updated>2009-05-17T12:44:29.347-07:00</updated><title type='text'>De Debby para Megh</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SOgAa-2c0fI/AAAAAAAAANI/06JCmmS8BHc/s1600-h/0825978.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5253449428875661810" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SOgAa-2c0fI/AAAAAAAAANI/06JCmmS8BHc/s400/0825978.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo Pedro Ynterian, presidente do GAP International (Great Ape Project), sigla em inglês para Projeto dos Grandes Primatas, como é conhecido no Brasil, as macacas Debby e Megh, "Só não sabem falar". Não seja por isto, aqui, Debby falou.&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;(Para conhecer a história real de Debby e Megh, acesse : &lt;a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/bichos/ult10006u445001.shtml"&gt;http://www1.folha.uol.com.br/folha/bichos/ult10006u445001.shtml&lt;/a&gt;)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;De Debby para Megh&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sabe Megh, fico às vezes, pensando o que será de nos depois que os humanos, através das suas leis, seus juízes, organizações, tribunais, decidirem o que farão com a gente. Segundo um ex-ministro da República, “cachorro também é gente”, então não entendo o tratamento tão desumano que nos é dispensado, logo nós, que somos os parentes mais próximos desta especiezinha arrogante e prepotente que é esta espécie humana. Para quem não sabe, tem um grupo de cientistas que já propõe que os chimpanzés sejam incluídos no gênero Homo, em função da enorme semelhança entre nós e eles. Sim, não fosse o excesso de pelos, a locomoção quadrúpede, e um cérebro talvez pouco avantajado, seríamos sua própria imagem e semelhança. Mas sabe-se lá, talvez seu Deus assim o quisesse. Assim o fez. Mas a questão teológica, não é algo, que a nós, já preocupa. Preocupa sim, agora, a lei dos homens. Em breve nosso destino estará traçado. Decidirão por nós. A polêmica ainda, por algum tempo, deverá ocupar as páginas dos jornais. E os humanos, mais uma vez, se divertirão às nossas custas. Ora, onde já se viu?? Habeas corpus para chimpanzés. Megh, em breve, nosso destino será selado. Decidirão os homens, se permaneceremos neste santuário, que nos foi proporcionado pelo pai-empresário-paulistano, ou se seremos enviados para a floresta, para nosso habitat natural, que desconhecemos por completo, pois nascemos em cativeiro. Não é pouca coisa que está em jogo. Viramos polêmica nacional. Piada de botequim. Discussões infindas entre o magistrado. Bagunçamos Megh, a agenda dos humanos. Os mesmos humanos que afirmam que possuímos mais semelhanças que diferenças em relação a eles, afirmam também que somos destituídos de direitos, pois somos apenas bichos. Ora, bolas. Ah Megh, se pudesse falar. Ah... Megh, eu os desafiaria a todos. Os desafiaria a prestação de contas. Empunham os homens bandeiras da luta de classes, lutas entre nações, é a história, mas e a luta entre eles e nós? Somos alvo de grande extermínio. Em dez anos, nossa população de chimpanzés caiu de um milhão e meio para menos de duzentos mil. Um verdadeiro genocídio. Somos caçados, humilhados, torturados, traumatizados. Quando não nos matam, somos cobaias em centros de pesquisas, ridicularizadas nos zoológicos, pela espécie assassina que se considera tão nobremente superior. Evoluída. Sabe Megh, não temos escolha. Duas são as opções que tomarão por nós. Ou permaneceremos neste santuário ou deveremos ser mandados para nosso habitat natural. Uma floresta qualquer desconhecida. Destas, devastadas, doentes, apodrecidas, onde as mais variadas espécies vivas agonizam. Sim, devastadas por eles. Ou então, permaneceremos sob a guarda deste pai humano que tão bem nos adotou. Sim, aqui, presos neste santuário feito e adaptado exclusivamente para nós. Não há liberdade em qualquer uma das opções. O mundo não nos pertence. Nossos territórios foram expropriados, nossas famílias, eternamente separadas. Talvez, para nós, a opção do pai-empresário seja a preferível, a “menos pior”, na medida em que gozaremos de relativo conforto, bajulação, e uma alimentação farta e saudável, ao passo que na floresta, provavelmente não sobreviveríamos por muito tempo, pelos motivos, que já todos conhecem. É Megh, normalmente, os chimpanzés que vivem em santuários, costumam viver até duas vezes mais que os que vivem à solta na mata. Muitos chimpanzés de santuários protegidos chegam aos oitenta anos de idade. Quanto a nós, somos muito jovens ainda, mas pela vida que temos aqui, com brinquedos, jogos, piscina de bolinhas, skates, redes e até um laptop, dificilmente sobreviveríamos por muito tempo nestas florestas tropicais devastadas e infestadas de caçadores. Será um destino cruel. De certa forma, irmã, temos bastante sorte. Do beco evolutivo quase sem saída, caímos nos cuidados e graças de um empresário, categoria social muito bem sucedida entre os humanos. Sim, acho que é sorte. Afinal, somos seres territoriais. Temos agora, um território garantido; são cerca de mil metros quadrados construídos e cinco ambientes, num terreno com mata e um rio ao fundo, em pleno estado de São Paulo. Além de alimentação garantida e boas horas de sono. Não é para qualquer um. Ora Megh, somos macacas de sorte. Talvez, sejamos as mais sortudas do planeta. Existirão outras no mundo em situação de maior conforto?! Ah. irmã.... Juro que gostaria de saber. Afinal, se livres não podemos ser, em parte alguma, pelo menos, que sejamos proprietárias e bem alimentadas. Estamos em condições melhores, que de muitos seres humanos, pode ter certeza. São nada menos que cinco refeições diárias em nosso rico e variado cardápio. Quase vencidos no conflito evolutivo milenar que nos deixa à beira do extermínio, encontramos, as duas, a tábua de salvação, nesta família de humanos, da categoria social vencedora entre os próprios humanos, que tentam garantir para nós não apenas o conforto da propriedade, mas o direito jurídico ao habeas corpus. Sabe Megh? Acho que entraremos para a história. Dos homens, bah.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-2503030521762442902?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/2503030521762442902/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=2503030521762442902' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/2503030521762442902'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/2503030521762442902'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2008/09/megh-e-debby.html' title='De Debby para Megh'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SOgAa-2c0fI/AAAAAAAAANI/06JCmmS8BHc/s72-c/0825978.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-2447123627131806659</id><published>2008-09-21T17:25:00.001-07:00</published><updated>2008-10-04T16:42:15.107-07:00</updated><title type='text'>Só para escrever</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SOf_UVxvqZI/AAAAAAAAANA/nozf1jdxyEc/s1600-h/escrita.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5253448215259228562" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SOf_UVxvqZI/AAAAAAAAANA/nozf1jdxyEc/s400/escrita.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Só para escrever&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantos de nós, não temos a vontade de escrever bem mais do que normalmente escrevemos? Certamente, o exercício da escrita sempre exerce certo fascínio, tanto entre aqueles que fazem da produção literária, algo contínuo, quanto entre aqueles, que nunca escrevem coisa alguma. Para os que escrevem habitualmente, o fascínio pela produção em si, para os analfabetos de todos os tipos, o fascínio pelo inatingível, pelo desejo eternamente postergado. A relação dos homens com a escrita é sempre uma relação de desafio. O desafio de descrever o até então indescritível. Imagine o processo de criação das palavras; foi um processo que se desenrolou por milhares de anos. Desde os primeiros sons articulados em prol de um sistema de comunicação, lá pelos idos da pré-história, até a escrita alfabética que se desenvolveu entre os povos antigos, passando pelo surgimento da imprensa, que tornou, nos tempos modernos, o gesto de escrever, algo quase universal, ao mundo novo, da tecnologia digital, o ato de escrever é sempre um desafio. Para os primeiros homens, uma carência praticamente absoluta de sinais gráficos, fazia das primeiras tentativas de denominação dos fenômenos do cotidiano, um exercício fundamentalmente divino. Para nós, os novos primitivos de um futuro ainda não desvendado, o turbilhão de palavras, símbolos, códigos, sinais, letras, grafias, programas, deixa às mãos, de quem se propõe a escrever qualquer coisa, sobre qualquer assunto, um universo de possibilidades, que intimida, a princípio, qualquer um, que se sente com uma pena, um lápis, ou diante de um teclado. Atualmente, a possibilidade de se publicar,de imediato, qualquer coisa que se escreve, proporciona uma outra dimensão ao ato de escrever. Enfim, porque é arriscado, temeroso, desafiante, fascinante o ato de escrever? O que levou os homens ao longo destes milhares de anos, escrever, escrever, escrever, criar arquivos, bibliotecas, pastas, armários, estantes, livros, panfletos, cadernos, jornais, revistas, poemas, contos, rezas, receitas, fórmulas, encantos, contos, narrativas, histórias? Das tabuinhas de argila, da Mesopotâmia, do papiro, das margens do Nilo, das guardadas bibliotecas medievais, à era do hipertexto, escreve-se, escreve-se, escreve-se. O ato de escrever, seja lá o que for, é um ato que mesmo quando científico, é também religioso. Escrever é ao mesmo tempo, querer revelar e revelar-se concomitantemente. É desvendar para ser desvendado, ou desvendar, desvendando-se. Não há quem ao escrever, não invoque um eu superior que imaginamos ter guardado dentro de nós mesmos. É uma experiência quase transcendental, na medida em que nos sentimos eternizados se imaginamos escrever aquilo que acreditamos ser necessário que seja escrito, ou nos afundamos no ridículo, ao perceber que fomos fatalmente traídos pelas nossas próprias palavras. Escrever é um pouco despir-se ao tentar vestir o mundo com seus trajes de palavras e nomes; pois ao denominar, conceituar, ou simplesmente rabiscar o papel, mostramo-nos ao mundo, e a nós mesmos. Por isto, o risco, por isto, o desafio e o fascínio. Escrever é o estado primitivo de um mundo que ainda não é poesia pronta, e é também, o estado divino, de poder recriar o mundo, por nossa conta, sobre uma folha de papel em branco. É o poder das palavras, escritas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-2447123627131806659?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/2447123627131806659/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=2447123627131806659' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/2447123627131806659'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/2447123627131806659'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2008/09/s-para-escrever.html' title='Só para escrever'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SOf_UVxvqZI/AAAAAAAAANA/nozf1jdxyEc/s72-c/escrita.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-6595724124498494791</id><published>2008-09-21T17:19:00.000-07:00</published><updated>2008-10-04T16:36:23.610-07:00</updated><title type='text'>Mochilas</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SOf96WdBenI/AAAAAAAAAM4/LnG-Gw3BN4g/s1600-h/Mochilas+Um.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5253446669252524658" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SOf96WdBenI/AAAAAAAAAM4/LnG-Gw3BN4g/s400/Mochilas+Um.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SOf9itXv4CI/AAAAAAAAAMw/pFQxjMn7kSg/s1600-h/Mochilas+Um.JPG"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;MOCHILAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabei de ler o livro “Mochilas”, de Delson Ribeiro de Andrade. O conhecido “Brother”. Fiquei encantado. Foi uma grande revelação, pois desconhecia completamente sua genialidade como escritor. E temos agora razões para admirá-lo, no mínimo, duplamente. Pelo talento que apresenta ao narrar sua história, e pela história em si, do qual o autor é o personagem principal. É uma bela história. Bela, intrigante e bem real. A maneira como Delson escreve é extremamente envolvente. O leitor se prende à leitura e, às vezes, fica difícil largar o livro. A vontade é de lê-lo em uma sentada. A leitura é leve e agradável. E a curiosidade que dá de saber o desfecho desta apaixonante aventura, torna a leitura emocionante. Foi a receita, a fórmula exata. Casamento perfeito. Um bom escritor e uma boa história. É tocante acompanhar a saga deste mochileiro em terras distantes. Este viajante brasileiro, mineiro, maluco, que resolveu desbravar o mundo, lá pelos idos da distante década de setenta. A aventura, em terra estrangeira e de natureza belo-horizontina, tem como cenário a Europa, mas se inicia e se encerra no tradicional Cantina do Lucas, no Edifício Maleta, no centro de Belo Horizonte. A história torna-se um retrato dos tempos em que os sonhos talvez ainda fossem possíveis. As utopias e o desejo supremo da liberdade. A história apesar de pessoal tem apelo universal, além de criar ainda, um elemento de identidade nacional. A história do Brother é também a história dos incontáveis degredados, expulsos, inadimitidos, excluídos, expatriados, sem-terras, nômades, andarilhos, que sempre povoaram o mundo.A busca eterna e inglória do paraíso, da Terra Prometida. É a história de incontáveis brasileiros, latino-americanos, africanos, que partem em busca do trabalho ou dos sonhos em terras distantes, do primeiro mundo. Quanto de “brother” não tem em cada um de nós, brasileiros? Quanto da alma brasileira não levou nosso brother pelo mundo afora? Algo, porém, na sua história, é particularmente, belo e emocionante. A possibilidade do encontro amistoso entre os povos e culturas. A possibilidade da tolerância em meio a diferença. É bonita a convivência poética dos jovens das mais variadas nacionalidades. É o sonho possível. Como diz o lema dos índios do pobre estado de Chiapas, no sul do México, descendentes dos maias: “Construir um mundo, onde caiba vários outros mundos”. É o princípio fundamental da tolerância e da convivência pacífica. Mas o sonho durou pouco, e nosso personagem-global-belohorizontino é deportado. Voltamos com o Brother, no Cristóforo Colombo. No rastro do seu romantismo. A história do Delson é ainda, extremamente moderna, contemporânea. Três mil brasileiros tiveram ingresso recusado ao chegar à Espanha em 2007. Diariamente, cerca de quinze brasileiros foram barrados no país em fevereiro deste ano. São as duras leis do Império do dinheiro e a lógica perversa de uma globalização excludente. O mundo ficou mais chato, com menos “brothers” e “hermanos”. E abrimos as cortinas do terceiro milênio, sob o estigma da intolerância levada ao seu mais alto grau e com a triste declaração, do segundo mais votado candidato ao governo da Espanha, Mariano Rajou, que embalou sua campanha com o lema: “Não cabemos todos” (os espanhóis e os imigrantes). Triste fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos Vinícius.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Folha do Padre Eustáquio. n167. Maio/2008.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-6595724124498494791?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/6595724124498494791/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=6595724124498494791' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/6595724124498494791'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/6595724124498494791'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2008/09/mochilas.html' title='Mochilas'/><author><name>Histórias e Versos</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11233332733029365327</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SOf96WdBenI/AAAAAAAAAM4/LnG-Gw3BN4g/s72-c/Mochilas+Um.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-154546041895079738.post-5279873106152063664</id><published>2008-09-21T17:10:00.001-07:00</published><updated>2008-10-16T13:17:42.187-07:00</updated><title type='text'>Sobre os homens e as aves de rapina</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SOf734LJj0I/AAAAAAAAAMo/l05GnmGMbcQ/s1600-h/2455427514_df27e71705.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5253444427741499202" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_SDr0L8Thp4o/SOf734LJj0I/AAAAAAAAAMo/l05GnmGMbcQ/s400/2455427514_df27e71705.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sobre os homens e as aves de rapina (2003)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Folheando jornais velhos de passado recente, detive-me diante de uma foto de um senhor iraquiano. Por alguns instantes fiquei a observá-lo. Repentinamente tive a sensação de olhar para uma imagem bastante familiar. Durante vários dias, a partir do momento que as ameaças feitas pelos EUA aos iraquianos começaram a se tornar realidade, já se aproximando a tragédia do ‘choque e pavor’, construída no ritual macabro dos falcões norte-americanos, não perdi mais de vista os rostos, os olhares e a dor das vítimas inocentes. Nunca havia imaginado que o Iraque pudesse ser tão próximo. O mundo conheceu a barbárie globalizada. Viu bem de perto o flagelo imposto aos descendentes da velha Mesopotâmia, pelos novos donos do globo. As manifestações anti-guerra que explodiram em cada canto do planeta, lembram a reação do organismo ante o corpo enfermo. A humanidade, temerosa, assistiu estupefata, ao advento da morte tecnológica e industrial. Começamos a nos acostumar com os rostos marcados pela penúria e a desolação dos irmãos iraquianos que freqüentaram (e ainda freqüentam) diariamente nossos lares, nossas conversas, nossas preocupações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diferentemente da primeira guerra do Golfo, onde as imagens veiculadas pelos meios de comunicação mais lembravam um jogo virtual cheio de luzes e sem vítimas, essa última invasão das forças anglo-americanas trouxe até nós o sangue e as mutilações. O olhar do senhor iraquiano no jornal redescoberto, deixou-me realmente intrigado. Parecia querer cobrar de todos nós a lucidez e a sanidade perdidas. Vamos, às vezes, nos familiarizando tanto com algumas imagens, que sem perceber, dialogamos com elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante vários dias nos aproximamos do povo do Iraque e nos solidarizamos com ele. Como não se sensibilizar diante da face do desespero, do rosto do medo e do pânico, das imagens das crianças ensangüentadas, aleijadas? Como não chorar o choro da terra arrasada? A brutalidade levada a cabo deixou feridas abertas, não só no solo da região da Mesopotâmia, mas uma veia cortada no coração do mundo. Já nos acostumamos com as guerras, nascemos com elas, e sabemos que estas existem desde os primórdios da história humana, mas a carnificina tecnológica deste início de milênio, o abrupto desenvolvimento das armas de destruição em massa, produzidas em solo americano, deixou parte da humanidade estarrecida. Os protestos que pipocaram pelo mundo afora, tinham a marca da indignação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As imagens dos bombardeios, o clarão e a fumaça, ao lado dos mortos e feridos são o símbolo da arrogância, da prepotência e da bestialidade. O sangue derramado pelo petróleo a ser saqueado traz uma nova dimensão à natureza do mamífero sapiens. Certamente, sabemos hoje, que somos muito mais cruéis do que até ontem imaginávamos ser. Será possível construir a democracia e edificar a liberdade sobre a agonia dos mutilados? Que regime se constituirá a partir do silêncio dos barbaramente assassinados? Que paz semeará as forças de invasão e ocupação? Os olhares dos iraquianos nas páginas dos jornais são muitas das vezes inquietantes, como o são os olhares e as palavras dos poderosos de plantão. Os falcões, os mais rápidos das aves de rapina, emprestam seu nome para os novos caçadores de gente, que agem de forma fulminante e voraz, quando se trata de satisfazer seu apetite por território e pilhagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de muitos anos, podemos entender melhor a propaganda da direita envaidecida sobre o suposto ‘fim da história’. Na perspectiva dos que detêm o poder econômico e principalmente militar, não há alternativa para os povos, não há saída para o modelo único de civilização imposto pelas superpotências. Ou curva-se diante as exigências do deus-mercado, sob as rédeas dos multimilionários ocidentais, ou transforma-se em cinzas pela potência das bombas inteligentes. A subordinação é a lei. A humilhação dos povos e a destruição de suas culturas são os capítulos finais da história escrita pelos poderosos globalizados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A falácia do ‘fim da história’ ironicamente se reflete nos olhos atônitos dos homens e mulheres, antigos guardiões, dos ricos tesouros de um dos grandes berços da civilização humana. A imagem dos museus saqueados e dos sítios arqueológicos bombardeados é devastadora. O ‘fim da história’ como tragédia e devastação. O símbolo maior da estupidez, da selvageria e da ignorância. Na lógica dos acontecimentos, além de ser necessário matar, tornou-se necessário também, eliminar a memória e a identidade. Assistimos ao assassínio de uma parte muito substancial da história da antiga Mesopotâmia, um crime inafiançável contra o patrimônio cultural da humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde foram parar os antigos tesouros? Em que mãos foram parar os vasos da cidade suméria de Uruk, cerâmicas e estátuas do império assírio, a porta de madeira do palácio de Sargão segundo, a harpa de ouro de Ur e as tabuinhas de argila com os primeiros registros escritos? Em qual porto seguro, certamente desembarcarão as relíquias dos museus e bibliotecas de Mossul, Basra, Tikrit, Bagdá? De acordo com a arqueóloga Eleanor Robson, da Escola Britânica de Arqueologia no Iraque (Universidade de Oxford), entre 70% e 90% das mais de 250 mil peças do Museu Nacional de Bagdá foram destruídas ou roubadas. As imagens da destruição do museu são chocantes. Apavoram a inteligência, a sensibilidade e arrepiam a alma. Quão profundos são os efeitos das bombas e mísseis inteligentes? Os norte-americanos conseguiram dar uma insuspeita demonstração de suas ‘intervenções cirúrgicas’. Enquanto o marines protegiam o Ministério do Petróleo, que permaneceu incólume, durante toda a tomada de Bagdá, as preciosas antiguidades foram todas saqueadas, sistematicamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Convém nos recordarmos de alguns episódios. De acordo com Ken Matsumoto, arqueólogo da Universidade de Kokushickan, no Japão, “depois da Guerra do Golfo, em 1991, dez museus foram destruídos e 4000 peças sumiram do Iraque”. Formou-se nos EUA um lobby pelo relaxamento da Lei de Antiguidade do Iraque. O Conselho Americano de Política Cultural, que congrega colecionadores e comerciantes de arte se reuniu com o Pentágono antes da invasão. Em uma entrevista à revista “Science”, em janeiro, o tesoureiro do Conselho, William Pearlstein, diz que espera uma “administração cultural pós-Saddam sensível”, que “certifique alguns objetos para exportação”. Os fatos acima são reveladores e ilustrativos sobre as diversas ramificações do massacre mafioso. Segundo o jornal Folha de São Paulo, em 12/04/2003, vizinhos do museu de Bagdá, disseram a uma repórter da France Presse, que viram soldados americanos levarem peças em caixas de madeira, logo após a sua entrada na cidade. Coincidentemente, os EUA não ratificaram um acordo da UNESCO, de 1954, que regulamenta a proteção do legado cultural em guerras. Quanto lucrarão os corsários, com o sangue na baioneta, os despojos, as relíquias nos porões e os falcões agarrados nos ombros?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As grandes corporações assanham-se. O elixir negro do Iraque, com suas fabulosas reservas pode alimentar por várias décadas os motores do mundo e o tráfego das ruas de Washington, Nova York e Londres. As possibilidades abertas às grandes empresas de construção e engenharia norte-americanas geram negócios, contratos bilionários, para a reconstrução da infra-estrutura do país totalmente arrasado. A máquina da guerra, uma vez acionada, parece que ganha vida própria e não pode mais parar. O que fazer com os estoques de armas, de bombas e mísseis de todos os tipos, cuja produção é contínua? O que fazer com a inúmeras bases militares espalhadas pelo globo? O que fazer com a experiência acumulada com a produção de armas biológicas, com a utilização de armas químicas, como o napalm no Vietnã e com a oportunidade dos testes com as bombas atômicas despejadas sobre o Japão, a base de urânio em Hiroxima e plutônio em Nagasaki? A indústria da morte e das minas terrestres espalhadas pelo mundo não pode quebrar, o ritmo da sua produção é alucinante. Basta consultar as estatísticas. Quantos corpos insepultos? Os ataques não cessam. Quando cessarão as ofensivas no Afeganistão e no Iraque? Quais serão os próximos alvos? As imagens dos iraquianos, na página dos jornais, vão ficando cada vez mais próximas de nós. Seus olhos, sempre mais reveladores. Na proximidade nos tornamos cúmplices. Cumplicidade dos homens. Cumplicidade da história. Mas a história? Ora, a história. Os homens? Ora, os homens. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Marcos Vinícius.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HISTÓRIAS- Agosto de 2002/Dezembro de 2003 – Boletim do Laboratório e Arquivo de Memória Histórica – LAMH - Newton Paiva.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/154546041895079738-5279873106152063664?l=marcosemrevista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/feeds/5279873106152063664/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=154546041895079738&amp;postID=5279873106152063664' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/5279873106152063664'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/154546041895079738/posts/default/5279873106152063664'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://marcosemrevista.blogspot.com/2008/09/sobre-os-hom
